Resumo
A pesquisa investigou trajetórias de profissionalização de gestores/as de academias de ginástica. Procurou compreender a incorporação de disposições para a gestão de academias colocadas em ação por quatro profissionais de Educação Física. Tendo como referência teórico-metodológica a sociologia disposicionalista, produziu quatro entrevistas com cada profissional, que serviram de base para a construção de retratos sociológicos. Manuseando sínteses destes retratos, as análises descritas e discutidas permitiram concluir que as trajetórias de profissionalização encontram convergências e dissonâncias, quando consideradas 3 disposições incorporadas em distintos contextos de socialização (família, formação, práticas corporais e gestão).
Palavras-chave
Educação Física; Disposições; Gestão; Academias de ginástica
Abstract
This study investigated the professionalization trajectories of gym managers. It sought to understand how dispositions toward gym management were incorporated and enacted by four Physical Education professionals. Drawing on dispositional sociology as its theoretical and methodological framework, four interviews were conducted with each professional, which served as a basis for the construction of sociological portraits. Based on syntheses of these portraits, the analyses described and discussed led to the conclusion that the professionalization trajectories show convergences and divergences, when considering three dispositions incorporated in different contexts of socialization (family, education, physical practices and management).
Keywords
Physical Education; Dispositions; Management; Gyms
Resumen
El estudio investigó las trayectorias de profesionalización de gestores/as de gimnasios. Se buscó comprender cómo se incorporan y se ponen en práctica las disposiciones vinculadas a la gestión de gimnasios por parte de cuatro profesionales de Educación Física. Utilizando la sociología disposicional como referente teórico-metodológico, se realizaron cuatro entrevistas a cada profesional, las cuales sirvieron como base para la construcción de retratos sociológicos. A partir de síntesis de estos retratos, los análisis descritos y discutidos permitieron concluir que las trayectorias de profesionalización presentan convergencias y disonancias, al considerar 3 disposiciones incorporadas en diferentes contextos de socialización (familia, formación, prácticas corporales y gestión).
Palabras clave
Educación Física; Disposiciones; Gestión; Gimnasios
1 INTRODUÇÃO1
O presente artigo trata da constituição de gestores/as de academias de ginástica, especificamente nos casos de Professores/as de Educação Física que têm como atividade profissional a administração de seus próprios empreendimentos. Esta não é uma questão recente, pois, há mais de 3 décadas, Lobato (1987) já anunciava sua preocupação sobre o lugar do professor-administrador em relação às atividades físicas. Este autor questionava e, ao mesmo tempo, incentivava a capacitação dos profissionais de Educação Física, tanto para o atendimento dos objetivos dos treinos, quanto para uma profissionalização deles/as na gestão. Em 2002, ao especificar os campos de intervenção do/a profissional de Educação Física, o Conselho Federal desta área incluiu a administração e o/ou gerenciamento (Conselho Federal de Educação Física, 2002), o que indica a emergência dessa questão na formação e na atuação nas décadas finais do século XX, no Brasil.
Não por acaso, nos anos seguintes, verificamos em periódicos da área, um aumento dos estudos que abordam a profissionalização da atuação em Educação Física nessa área específica de intervenção (gestão de academias de ginástica). Identificamos nessa literatura (mencionada abaixo) convergências nas problematizações sobre as mudanças e as demandas do mercado e da indústria fitness, assim como as carências de formação específica e especializada para dar conta dos desafios de uma gestão descrita como profissional. Em que pese este ponto comum, notamos que os artigos acessados olham e constituem seus objetos de pesquisa sobre a profissionalização em três direções.
A primeira focada na caracterização de perfis dos gestores, procurando estabilizar retratos das relações entre as pessoas e os cargos, além de comparações destes perfis com os de outras áreas de atuação profissional (Bastos; Fagnani; Mazzei, 2011; Santana et al., 2012; Gomes; Sarmento; Mulatinho, 2014; Correia et al., 2017; Gomes et al., 2018; Mendonça; Miranda; Pedroso, 2019; Caputo et al., 2020). A segunda desenvolve inventários de competências e de habilidades a serem incorporadas e desenvolvidas pelos/as gestores/as, para que desempenhem um trabalho profissional exitoso e próspero no contexto do mercado e da indústria fitness (Mello; Silva, 2013; Gomes; Sarmento; Mulatinho, 2014; Chaves; Alves, 2022; Baldi et al., 2024). E a terceira direção está baseada na análise de currículos de formação profissional relacionada à conteúdos de gestão presentes em cursos de graduação em Educação Física (Cardenas; Feuerschütte, 2014; Almeida, 2017; Quinaud; Farias; Nascimento, 2018; Alves; Chaves, 2021).
Estes trabalhos trazem contribuições relevantes para compreendermos a profissionalização nas atividades de gestão de academias de ginástica, produzidas por professores/as de Educação Física. Contudo, ao mesmo tempo, notamos uma lacuna de conhecimentos no que se refere à possibilidade de implementar outra abordagem para compreender a formação profissional na gestão de academias de ginástica. Diferente dos estudos/direções analisados/as e mencionados/as acima, que enfatizam estabilizações e regularidades estruturais sobre perfis, inventários e currículos, nos propomos a enfocar as singularidades nas trajetórias de vida de gestores/as.
Os próprios trabalhos acessados mostraram a heterogeneidade na configuração da profissionalização da gestão (Mello; Silva, 2013; Cardenas; Feuerschütte, 2014; Correia et al., 2017; Gomes et al., 2018). Assim, precisamente esta questão da heterogeneidade despertou nosso interesse de compreender trajetórias individuais de profissionais de Educação Física que desenvolvem funções de gestores/as de academias de ginástica. Isso nos permitiu refletir sobre o que os/as torna profissionais, até mesmo para entender o que os perfis, os inventários e as categorias de conteúdos de formação identificados nas pesquisas existentes têm estabilizado.
Ao pesquisarmos trajetórias individuais e enfatizar a heterogeneidade, entendermos que seria necessário compreender como cada profissional de Educação Física construiu sua profissionalização para tornar-se gestor/a. Esta decisão considerou a argumentação de Corsete (2021), para quem a formação de gestores/as envolve diversas dimensões de socialização da vida das pessoas, não apenas nos lugares de trabalho e de formação especializada.
Para operacionalizar este estudo, tivemos como fundamento a proposta teórico-metodológica conhecida como sociologia dos indivíduos ou sociologia das disposições e das variações individuais (Lahire, 2002, 2004, 2006). Para este autor, o enfoque recai exatamente sobre as diferenças internas como questão social, o que nos possibilitou investigar e compreender a heterogeneidade na incorporação de disposições imperativas à gestão. Esta proposta de investigação foi utilizada em estudos semelhantes de outras áreas da administração de empresas, como no caso de uma mulher proprietária de lavanderia (Costa, 2012) e de proprietários de lojas de um centro de compras (Paiva; Sá; Souza, 2018).
Nesse contexto, definimos como objetivo geral do estudo compreender, na perspectiva de uma sociologia individual, as trajetórias de incorporação, de reforço e de atualização de disposições para a gestão de academias de ginástica colocadas em ação por quatro profissionais de Educação Física, na expectativa de fazerem prosperar seus empreendimentos.
Em termos de objetivos operacionais, desenvolvemos dois movimentos investigativos e analíticos: 1) através das narrativas constituídas em quatro entrevistas com cada um/a dos quatro interlocutores/as, identificamos, individualmente, formas de sentir, pensar e agir que se fortalecem como disposições (propensões relativamente persistentes) consideradas imperativas para a gestão; e 2) localizar em distintas matrizes de socialização onde e como se configuram a gênese, o reforço e a atualização das disposições identificadas, procurando compreender as singularidades.
2 CAMINHOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS DA PESQUISA
Este trabalho investigativo, como mencionamos, está ancorado numa perspectiva disposicionalista da sociologia, especialmente na obra de Lahire (2002, 2004, 2006). Esta proposta envolve pesquisar sociologicamente as diferenças internas de cada indivíduo, compreendendo que o sujeito não age como uma entidade unificada homóloga a estruturas sociais. Esta abordagem considera a sociedade como redes de relações sociais criadas e vivenciadas no decorrer de processos de socialização de longo prazo, demandando, assim, um olhar para a biografia como instrumento de pesquisa, este capaz de gerar dados para a explicação da ação nas situações sociais nas quais se envolve.
Para investigar e analisar sociologicamente as biografias e as ações sociais, o enfoque recai sobre as disposições ou os patrimônios disposicionais incorporados, reforçados e atualizados nas trajetórias de socialização. De acordo com Lahire (2004), uma disposição, como chave interpretativa, é uma realidade reconstruída, que, como tal, nunca é observada diretamente. Para este autor:
Falar de disposição pressupõe a realização de um trabalho interpretativo para dar conta de comportamentos, práticas, opiniões, etc. Trata-se de fazer aparecer os princípios que geraram a aparente diversidade das práticas. Ao mesmo tempo, essas práticas são constituídas como tantos outros indicadores de disposição.
(Lahire, 2004, p. 27)
É importante salientar que não é possível entender disposição como sinônimo de capacidade ou de competência. A noção de disposição remete a tendências, inclinações, propensões resistentes para a ação, não sendo um recurso como uma ferramenta pronta ou estável que pode ser mobilizada de forma imediata e racional (Lahire, 2004). É por isso que, nesta proposta, uma disposição só se observa como informação sociológica por meio da interpretação de múltiplos traços, mais ou menos coerentes e contraditórios mobilizados pelos indivíduos estudados, nas situações relatadas, especialmente aquelas que colocam algum imperativo de ação. Nos termos do autor:
Compreende-se que indivíduos com diferentes experiências socializadoras passadas, se portam de maneira diferente frente a mesma situação, estas experiências se convertem em maneiras mais ou menos duradouras de ver, sentir e agir, isto é, em características disposicionais: propensões, inclinações, hábitos, tendências, persistentes maneiras de ser […]
(Lahire, 2004, p. 30).
Isso tudo depende de investigar como as disposições são incorporadas, nutridas e atualizadas de acordo com a heterogeneidade das matrizes de socialização vivenciadas (como, por exemplo, a família, a escola, o trabalho, a igreja, o grupo de lazer). As disposições são incorporadas no processo de socialização dos sujeitos nessas matrizes e, sendo assim, são potencialmente tão diversas quanto os contextos nos quais o sujeito as incorporou para a atuação social, bem como da heterogeneidade das relações que ele estabeleceu no interior desses contextos. Nesse sentido, nas suas argumentações a respeito de uma sociologia dos indivíduos, Lahire (2002, 2004) parte da hipótese de que o indivíduo se socializa a partir de uma pluralidade e de uma heterogeneidade de disposições incorporadas, não construindo suas práticas seguindo um princípio unificador norteador. Portanto, o autor aposta na pluralidade das fórmulas geradoras das práticas incorporadas.
Sendo assim, a proposta desta pesquisa esteve assentada na heterogeneidade das trajetórias individuais de profissionais de Educação Física que desenvolvem funções de gestores/as de academias de ginástica. Foi realizado um esforço para contar com a participação de pessoas com trajetórias distintas. Consideramos, inicialmente, para a configuração desta distinção, as referências de gênero (mulher e homem) e de tempo de atuação na gestão de academias (menos e mais de 5 anos). Com essas definições foram iniciados processos de aproximação e de negociação com gestores/as para a realização de entrevistas e a construção dos retratos sociológicos, levando em conta, num primeiro momento, a rede de relações do primeiro autor do artigo, que também atuava como gestor de academia de ginástica.
Não foi tarefa fácil construir e nutrir as relações de entrevistas, posto que o procedimento investigativo orientado pela obra de referência da pesquisa indica a necessidade de realizar quatro entrevistas com cada interlocutor/a, como também o manuseio de questões que se apresentam como imperativos sobre situações críticas e íntimas da vida das pessoas (Lahire, 2004). Esta situação de quatro encontros de entrevistas foi alcançada (envolvendo diversas renegociações e reagendamentos) com quatro gestores/as, a respeito dos/as quais trazemos uma breve apresentação no quadro 1.
Estando a pesquisa interessada nas trajetórias heterogêneas e nas variações intraindividuais em termos de disposições, cada situação de entrevista construída contou com suas singularidades. Contudo, em que pese não haver um roteiro pré-estruturado, seguindo as orientações metodológicas da sociologia disposicionalista (Lahire, 2004, 2006), cada encontro realizado teve como pauta um contexto de socialização específico pré-determinado, que chamamos de matrizes de socialização: universos das famílias, de práticas corporais (esportes, danças), da formação escolar e universitária, da gestão nas academias. Em cada encontro, procuramos provocar os/as interlocutores/as a narrar situações vividas nestas matrizes de socialização, colocando questões que criassem condições para que as disposições incorporadas estivessem em ação, ainda que de forma narrativa, para observarmos as suas variações individuais no decorrer das quatro entrevistas.
Estas entrevistas foram realizadas de modo presencial (com gravação de voz) e através de videochamadas (com gravação de vídeo com voz), levando em conta as definições e disposições constantes nas resoluções 466/12 e 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde a respeito da investigação com seres humanos. A realização da pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e foi utilizado um termo de consentimento livre e esclarecido para formalizar a relação.
O conteúdo das gravações foi transcrito para o formato de texto, servindo de base para próxima etapa. Nesta, seguindo as orientações da sociologia disposicionalista, realizamos a construção dos retratos sociológicos de cada um/a dos/as interlocutores/as. O retrato é uma estratégia metodológica que destaca as variações intraindividuais, com a pretensão de que seja possível alcançar a compreensão das ações dos/as entrevistados/as em que pesem as suas trajetórias individuais, sobretudo nas experiências tecidas nas distintas matrizes de socialização (Lahire, 2004). Este trabalho de construção dos retratos dos/as quatro interlocutores/as desta pesquisa está desenvolvido na dissertação de mestrado de Ferraz (2023) e compreende, cada um deles, em torno de 40 páginas.
Sem a possibilidade de trazer os retratos na íntegra para este formato de artigo, optamos por desenvolver uma estratégia que se baseia em quadros que expressam sínteses analítico-interpretativas daquilo que está descrito com detalhes na dissertação de mestrado (Ferraz, 2023). Estas sínteses (presentes nos quadros 2 a 4 abaixo) representam a forma como trabalharemos com a empiria, para dar conta do objetivo geral do estudo na perspectiva da sociologia disposicionalista.
Sínteses sobre situações e matrizes de incorporação de disposições para organização, disciplina e comprometimento
Sínteses sobre situações e matrizes de incorporação de disposições para nutrir as relações entre professores/as e alunos/as
Sínteses sobre situações e matrizes de incorporação de disposições para lidar com mudanças e diferenças no trabalho de gestão
3 DESCRIÇÕES, ANÁLISES E DISCUSSÕES DOS RESULTADOS
Nesta seção nos dedicamos a descrever - na forma de sínteses - como, de um lado, os/as diferentes profissionais de Educação Física participantes da pesquisa, que desenvolvem atividades administrativas nas academias de ginástica, se aproximam em termos de disposições que lhes são imperativas nos processos de gestão. De outro, ao localizarmos a gênese da incorporação das disposições, bem como contextos de reforço e atualização delas, procuramos mostrar como são construídas as diferenças nas matrizes de socialização (família, formação, esporte e gestão), o que nos provoca a pensar a complexidade da profissionalização. Dentre as possibilidades constantes nos retratos sociológicos dos/as interlocutores/as, escolhemos 3 disposições que os/as aproximam (ou que os coletivizam por imperativos da profissionalização) nas suas trajetórias como educadores/as físico-gestores/as.
A primeira disposição que trazemos nesse sentido é a que diz sobre o imperativo e o valor da organização, da disciplina e do comprometimento nas situações de gestão. Diego, Alana e Gabriela, ao produzirem suas narrativas, em muitos momentos, colocam em ação essa disposição para descrever, explicar e, em alguns momentos, para eles/as mesmos/as interpretarem e analisarem suas ações e sentimentos, com desdobramentos sobre o trabalho de gestão nas academias. A questão é que, quando olhamos para as situações em que essa disposição tem sua gênese e para os contextos nos quais ela é atualizada, percebemos diferenças não apenas nas matrizes de socialização, mas também nos significados das disposições, tal como mostramos com as sínteses no quadro 2.
A segunda disposição que selecionamos para tratar dessa trajetória de profissionais de Educação Física gestores/as envolve um imperativo de nutrir relações entre professores/as e alunos/as (quadro 3), colocando em destaque uma disposição pedagógica que faz com que se tenha uma dificuldade para se considerar os/as alunos/as (que implica uma relação pedagógica) como clientes (que aponta uma relação de negócios). Isso coloca o trabalho de gestão agenciado de maneira importante pela disposição pedagógica, tal como sintetizamos no quadro abaixo, a respeito de como se aproximam e se singularizam Diego, Felipe e Gabriela. Porém, ao olharmos para a incorporação desta disposição nas diferentes matrizes de socialização investigadas, notamos que elas contemplam singularidades. Elas não constituem propensão para sentir, pensar e agir iguais para Diego, Felipe e Gabriela, como indicamos abaixo.
Junto com as disposições para a organização, disciplina e comprometimento (quadro 2) e para nutrir relações pedagógicas entre professores/as e alunos/as (quadro 3), selecionamos a disposição para lidar com as mudanças e as diferenças como imperativo do trabalho profissional na gestão de academias (quadro 3, abaixo). Este imperativo coloca Gabriela, Felipe e Diego em proximidade quando considerada a disposição para desenvolver situações positivas aos seus empreendimentos. Estes/as interlocutores/as destacam as propensões incorporadas em distintas matrizes e situações de socialização que lhes tornam hábeis para lidar com as mudanças e as diferenças. Contudo, mais uma vez, estivemos diante de particularidades quando interpretamos os sentidos conferidos a esta disposição por estes participantes da pesquisa. A disposição pode apontar para um ponto comum, mas o seu acionamento como agenciador das situações da gestão não é o mesmo, como procuramos destacar abaixo.
Após esta descrição de nossas análises e interpretações na forma destas sínteses, nos cabe retomar aqueles argumentos presentes na introdução, sobre as três direções dos debates presentes na literatura, com o objetivo de apontar nossos pontos de contribuição para a produção de conhecimentos existente no Brasil acerca da profissionalização da gestão de academias, aqui mais centrada nos/as profissionais de Educação Física. Nos aliamos, nessa tarefa de discutir com a literatura, à compreensão de Corsete (2021) e Nascimento, Brandt e Magalhães (2014), que entendem que o desenvolvimento profissional carrega características contextuais atravessadas por demandas de naturezas diversas.
Um primeiro grupo de trabalhos que desenvolve suas análises sobre a profissionalização do/a gestor/a de academias (Bastos; Fagnani; Mazzei, 2011; Santana et al., 2012; Gomes; Sarmento; Mulatinho, 2014; Correia et al., 2017; Gomes et al., 2018; Mendonça; Miranda; Pedroso, 2019; Caputo et al., 2020) esteve empenhado, a partir de diferentes abordagens e estratégias investigativas, em caracterizar retratos desse profissional, manuseando dados sobre gênero, idade, opção religiosa, estado civil, raça/etnia, nível de escolaridade, cursos/áreas de formação inicial (graduação) e continuada (pós-graduação), tempo de atuação/experiência, cargo ocupado, carga horária semanal, forma de acesso aos cargos, faixa salarial, tipo de vínculo, poder de decisão, comparações com outros segmentos.
Se olharmos para o conjunto de análises e conclusões destes trabalhos, não observamos um perfil específico deste/a gestor/a, muito embora se observe uma predominância de profissionais de Educação Física, muitos com investimentos em formação continuada. Também podemos destacar que sobressaem argumentos de carência sobre lacunas para uma trajetória de gestão mais exitosa e profissional, sobretudo pela necessidade de formação especializada em administração de organizações em mercados e indústrias, esta para se somar ao conhecimento empírico acumulado. Nesse aspecto, encontramos que as redes de academia de ginástica ou as de grande porte contam com perfis considerados mais especializados, com vínculos mais atrativos e longevos e mais valorização.
Quando relacionamos estas informações presentes na literatura com aquelas que produzimos e trouxemos nas análises do presente artigo (quadros 2, 3 e 4), estas focadas nas trajetórias individuais de profissionalização, estamos diante de algumas questões que podem complementar o debate. A primeira e mais saliente se refere a compreensão de que a aproximação entre os/as interlocutores individuais heterogêneos/as que fizeram parte do estudo está relacionada com as disposições e os imperativos que emergem como caras à gestão: 1) demandas de organização, disciplina e comprometimento; 2) nutrir relações pedagógicas entre professores/as e alunos/as; e 3) de lidar com mudanças e diferenças de modo positivo para os empreendimentos.
Assim, dada a complexidade do fenômeno da profissionalização, nos parece que se torna promissor pensá-lo e compreendê-lo a partir destas disposições e imperativos que estão agenciando pessoas/gestores/as heterogêneos/as. Contudo, vale ressaltar, ao selecionarmos essas 3 disposições, não estamos propondo categorias, lista ou inventário, mas sublinhar como, a partir desta abordagem sociológica disposicionalista, pessoas com diferentes trajetórias se colocam como gestores/as (podem ser coletivizadas como tal). Não propomos a submissão da heterogeneidade em favor de uma estrutura de perfis, pelo contrário, procuramos expressar um esforço que permite compreender como profissionais de Educação Física heterogêneos/as se aproximam como gestores/as de academias a partir de disposições individuais incorporadas em distintas matrizes de socialização, mas atuantes em situações imperativas comuns na gestão de academias.
Essa aproximação nos leva ao segundo grupo de trabalhos que identificamos sobre a profissionalização da gestão e do/a gestor/a de academias: aqueles que investigaram e analisaram inventários de competências e de habilidades a serem incorporadas e desenvolvidas pelos/as gestores/as, para que empreendam um trabalho profissional exitoso e que a academia tenha prosperidade no contexto do mercado e da indústria (Mello; Silva, 2013; Gomes; Sarmento; Mulatinho, 2014; Chaves; Alves, 2022; Baldi et al., 2024). Nestes trabalhos, passamos a compreender as competências e as habilidades como algo interiorizado e/ou institucionalizado que se torna necessário para ser exteriorizado e colocado em ação numa situação de gestão, para prover respostas adequadas, eficientes e eficazes. Eles salientam que, além das competências e habilidades técnico-pedagógicas atinentes à intervenção específica da Educação Física, cada vez mais se demanda dos/as gestores/as competências e habilidades específicas do campo administrativo, como necessidade de qualificação associada à visão de negócios em mercados e indústrias. Notamos, ainda, preocupações comuns com alguns imperativos de gestão (de pessoas, financeira, marketing, processos operacionais, liderança, planejamento estratégico).
Ao nos aproximarmos destes estudos, análises e interpretações, destacamos que eles já mobilizam uma questão que emergiu na presente pesquisa sobre a trajetória individual de profissionalização dos/as quatro gestores/as. Nos referimos à convergência dos/as profissionais gestores/as nestas competências e habilidades para dar conta dos imperativos de gestão. Como mencionamos acima, apesar da heterogeneidade, eles/as se aproximam ou convergem nesse sentido. Entretanto, nos diferenciamos na abordagem sobre o que foi adquirido como disposição para sentir, pensar e agir. Isso nos leva a crer que podemos contribuir na discussão ao afirmar que aquilo que é incorporado carrega traços de singularidades, de particularidades que não se apagam nas situações convergentes, nos imperativos de gestão, ainda que estas sejam comuns.
Afirmamos isso porque nos parece que embora tenhamos identificado algo incorporado (as disposições), quando olhamos para as trajetórias e, sobretudo, para as singularidades implicadas nessa construção nas experiências de socialização nas diferentes matrizes (família, formação, práticas corporais, gestão), percebemos diferenças individuais. Por exemplo, apesar de Diego, Alana e Gabriela incorporarem a disposição para organização, disciplina e comprometimento, cada um/a o faz com suas trajetórias (Diego como contraponto à preguiça, ao fazer de qualquer jeito, ao deixar de atender alguma coisa; Alana como preocupação com os resultados, com o atendimento das metas das equipes; Gabriela como valorização da institucionalidade das regras e dos comportamentos, para que as exceções não virem regras). Em que pese Diego, Felipe e Gabriela tenham incorporado a disposição para nutrir as relações entre professores/as e alunos/as, assim como a disposição para lidar com as mudanças e diferenças, notamos particularidades (Diego atento aos dramas das pessoas que não se apagam nas situações da academia; Felipe enfrentando situações de insegurança, articulado com sua resiliência; Gabriela valorizando a construção de grupos, a participação neles).
Esta interpretação nos leva a entender que Diego, Alana, Gabriela e Felipe carregam disposições convergentes, como princípios geradores de práticas (propensões, inclinações, tendências persistentes para sentir, pensar e agir) que podem ser diversas nos significados singulares, pois não apagam a heterogeneidade dos contextos de socialização vivenciados. Nesse aspecto, cremos que contribuímos para os debates sobre a profissionalização dos/as gestores/as, ao mostrar as convergências dos/as profissionais de Educação Física, porém sem apagar as possibilidades de dissonâncias individuais para as mesmas situações imperativas de gestão.
Com esta compreensão, chegamos à terceira direção dos debates identificados, o qual trata da formação relacionada à gestão oferecida em cursos de graduação em Educação Física. Sobre ela, encontramos os trabalhos de Cardenas e Feuerschütte (2014), Almeida (2017), Quinauad, Farias e Nascimento (2018), Alves e Chaves (2021), cujas pesquisas investigaram currículos e ementas de disciplinas de cursos de bacharelado, em instituições de ensino superior. Estes estudos nos ajudam a compreender que há uma heterogeneidade de configurações na formação sobre gestão nos diversos aspectos investigados nos currículos e ementas. Em conjunto daquilo que foi identificado nas diferentes instituições e cursos, seria possível pensar numa formação ampliada, mas ao olhar cada grade curricular, os/as autores/as percebem muitas diferenças, dispersões, carências e até uma timidez, o que os/as autores/as atribuem às situações locais e a esforços personalizados.
Mesmo que esta situação tenha sido observada em Cardenas e Feuerschütte (2014), Almeida (2017), Quinauad, Farias e Nascimento (2018), Alves e Chaves (2021), mesmo que outros trabalhos apontem a necessidade de inclusão de mais disciplinas relacionadas à gestão nos currículos dos cursos de Educação Física (Gomes; Sarmento; Mulatinho, 2014; Gomes et al., 2018; Caputo et al., 2020), quando olhamos para aquilo que analisamos e interpretamos na presente pesquisa, percebemos uma ausência na formação superior inicial (graduação) como lugar de incorporação, reforço e atualização das 3 disposições convergentes implicadas pelos imperativos da gestão de academias. Não foi nas disciplinas das suas formações universitárias em Educação Física que os/as gestores/as investigados/as forjaram suas profissionalizações em que pese os imperativos trazidos para as análises.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este trabalho procurou investigar as trajetórias de profissionalização de quatro interlocutores/as graduados em Educação Física e que ocupam cargos administrativos de academias, olhando para a incorporação de disposições que se relacionam com situações que lhes são caras ao sucesso de seus empreendimentos. Desenvolvidas as descrições, as análises e as discussões dos resultados, concluímos que o presente estudo contribui para os debates já existentes na literatura sobre as realidades brasileiras, sobretudo, em dois aspectos.
O primeiro aspecto que valorizamos foi a possibilidade de compreender que, apesar das trajetórias distintas, os/as quatro profissionais de Educação Física gestores/as de academia de ginástica se aproximam pelas disposições incorporadas consideradas imperativas para a gestão dos seus empreendimentos de negócio (a organização, disciplina e comprometimento; nutrir relações pedagógicas entre professores/as e alunos/as; lidar com as mudanças e as diferenças). Estas disposições, tal como consideramos, tendo em vista a abordagem da sociologia individual, não objetivam a existência de um perfil, tipo de competências ou de conteúdo de currículo de formação estruturalmente estáveis, como a literatura existente tem afirmado. Diferente disso, entendemos que elas nos dizem sobre espécies de fontes de coordenação capazes de manter juntos, de capturar e de coordenar ações de pessoas com trajetórias heterogêneas, constituindo um senso de coletividade e de estabilização.
Este entendimento se relaciona com o segundo aspecto que destacamos como conclusão: as singularidades que marcam a incorporação das disposições (nas distintas matrizes de socialização) e seus significados para os/as quatro interlocutores/as da pesquisa. Mesmo que se observe propensões ou inclinações comuns de pensar, sentir e agir nas situações imperativas de gestão (fontes de coordenação imperativas), há que se levar em conta os traços singulares da socialização colocados em ação. Isso quer dizer que, quando os interlocutores se deparam com situações imperativas consideradas semelhantes, é possível e provável que as formas de sentir, de pensar e de agir sejam heterogêneas, o que foi possível observar pela construção dos retratos sociológicos desenvolvidos a partir da pesquisa (aqui trazidos na forma de sínteses, nos quadros 2, 3 e 4).
Sendo assim, os quatro retratos sociológicos e aquilo que eles nos permitiram interpretar, não nos possibilitam generalizar categorias estruturais estáveis na forma de perfis, de inventários de competências ou de currículos de formação. Mas, eles nos ofereceram pistas importantes a respeito do que as pesquisas sobre os perfis, os inventários de competências e os currículos de formação têm conseguido estabilizar na forma de categorias e de classificações. Por isso, acreditamos que estas compreensões, podem colaborar nos debates sobre o perfil dos/as gestores/as, as competências e as habilidades necessárias à gestão, assim como o próprio lugar da formação universitária na constituição da profissionalização.
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FINANCIAMENTO
O presente trabalho foi realizado sem o apoio de fontes financiadoras.
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ÉTICA DE PESQUISA
A pesquisa seguiu os protocolos vigentes nas Resoluções 466/12 e 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde do Brasil e foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Número na Plataforma Brasil CAAE: 56753522.0.0000.5347.
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COMO REFERENCIAR
FERRAZ, Sênior Felipe Mayer; LIMA, Leonardo Silva de; ALVES, Denise Fick; MYSKIW, Mauro; MILISTETD, Michel. Trajetórias de profissionalização de gestores/as de academia: convergências e dissonâncias entre profissionais de Educação Física. Movimento, v. 32, p. e32017, jan./dez. 2026. DOI: https://doi.org/10.22456/1982-8918.146209.
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O trabalho é um desdobramento da dissertação de mestrado de FERRAZ, Sênior Felipe Mayer. A incorporação de disposições para a gestão de academias: análises de retratos sociológicos de professores de Educação Física. 2023. 218f. Dissertação (Mestrado em Ciências do Movimento Humano) - Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2023. Disponível: https://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/257474.
DISPONIBILIDADE DE DADOS DE PESQUISA
Os dados de pesquisa não estão disponíveis.
REFERÊNCIAS
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RESPONSABILIDADE EDITORIAL
Alex Branco Fraga*, Elisandro Schultz Wittizorecki*, Raquel da Silveira** Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança, Porto Alegre, RS, Brasil.
