Open-access BISPO, Antônio dos Santos. 2023. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu Editora / Piseagrama. 112 p.

BISPO, Antônio dos Santos. . 2023. A terra dá, a terra quer . São Paulo: Ubu Editora / Piseagrama. 112p.

Enquanto o povo da cidade se sentia muito importante, eu, por minha vez, me sentia necessário. Eles, porém, não me viam como alguém necessário, me viam como alguém útil. Para eles eu era um servidor, um serviçal. Eu era útil, mas poderia ser substituído porque não era necessário. Percebi que o povo da cidade tinha relações de utilidade e importância, mas não tinha relações de necessidade. Para nós, a pessoa que é importante não é quase nada. É aquela pessoa que se acha ótima, mas não serve. O termo que tem valor para nós é necessário. Há pessoas que são necessárias e há pessoas que são importantes. As pessoas que são importantes acham que as outras pessoas existem para servi-las. As pessoas necessárias são diferentes, são pessoas que fazem falta. Pessoas que precisam estar presentes, de quem se vai atrás (:24).

No mundo literário, poucas experiências se comparam à imersão profunda nas páginas de um livro bem escrito. É neste contexto que nos deparamos com A terra dá, a terra quer, uma obra que nos convida a explorar terras desconhecidas da imaginação e da reflexão. Com sua narrativa envolvente, Antônio Bispo dos Santos nos presenteia com uma jornada poética e envolvente que provoca reflexões profundas e, quem sabe, até mesmo pode mudar nossas perspectivas. Em sua obra, utiliza suas próprias experiências como ponto de partida para dar voz à perspectiva quilombola. Através de seis capítulos, ele explora uma narrativa que se baseia na cosmologia, utilizando-a como um fio condutor que fortalece o debate sobre o contracolonialismo.

Sob o sistema colonial, a vida de um indivíduo é subjugada à gestão do outro. No entanto, além das amarras desse sistema, o autor apresenta elementos que impulsionam o contracolonialismo, ou seja, enquanto o colonialismo busca impor sua dominação sobre o outro, o contracolonialismo representa a recusa inequívoca dessa subjugação. Neste contexto, a autogestão dos quilombolas emerge como um forte aliado contra esse sistema mais amplo de opressão, o colonialismo, demonstrando a capacidade de um povo de determinar seu próprio destino e resistir à opressão imposta.

Neste sentido, a obra não apenas nos transporta para terras desconhecidas da imaginação, mas também nos convida a uma jornada de reflexão profunda sobre nosso relacionamento com a natureza, com outros seres e com as estruturas de poder que moldam nosso mundo. Bispo nos lembra da importância de preservar as raízes ancestrais, reconectar com a natureza e resistir à opressão. Como uma sinfonia de vozes que transcende fronteiras, sua obra é um convite para repensar nossa existência e construir um envolvimento - harmonioso e confluente.

Na perspectiva do autor, o sistema linear é obsoleto e ineficaz. Por outro lado, o debate é enriquecido pela introdução do conceito de um sistema triangular, que se caracteriza por uma dinâmica de começo, meio e recomeço. Este pensamento encontra raízes nos saberes quilombolas, que não se limitam a estruturas políticas tradicionais, mas sim a modos de vida - uma visão que se alinha com uma compreensão cosmogônica mais abrangente.

A partir de sua sensibilidade, é possível revisitar o passado e identificar como o ser humano enfraqueceu sua relação com os não humanos e a natureza, promovendo um apagamento principalmente dos saberes mestres. Essa reflexão nos leva a considerar as diversas maneiras pelas quais a sociedade moderna se distanciou das raízes ancestrais e da coexistência harmoniosa com outras formas de vida. A aceleração da urbanização, o aumento da industrialização e a exploração desenfreada dos recursos naturais são apenas alguns dos fatores que contribuíram para essa desconexão.

No entanto, é importante notar que essa reflexão não se trata apenas de lamentar o passado, mas também de reconhecer a urgência de restaurar nossa relação com a natureza e os não humanos. À medida que nos conscientizamos dos impactos devastadores da mudança climática, da extinção de espécies e da degradação do ambiente, torna-se imperativo buscar maneiras de reconectar, preservar e proteger nosso planeta e todas as suas formas de vida. A percepção do autor nos faz repensar nossas ações e a trabalhar em direção a um futuro mais sustentável e harmonioso com a natureza.

Bispo promove acessibilidade a todos, transcendendo barreiras e desafios de comunicação que muitas vezes só segregam. Sua expressão possui o notável poder de ultrapassar as divisões convencionais que separam ideias, identidades ou grupos sociais distintos, causando um borramento intrigante entre categorias que, à primeira vista, podem parecer distintas e separadas. Através disso, cria-se uma ponte singular entre humanos e não humanos, desafiando as barreiras convencionais que existem entre estas duas esferas da existência. A capacidade de quebrar as barreiras entre povos racializados e não racializados é igualmente notável, pois a oralidade de Bispo transcende as diferenças culturais e raciais, proporcionando um terreiro comum onde a linguagem se torna a base para a compreensão mútua. Ao priorizar a comunicação e a expressão compartilhada, torna-se possível dissolver barreiras entre as pessoas. Em outras palavras, essas práticas têm o poder de unir indivíduos e superar divisões que frequentemente emergem de diferenças pessoais, revelando a comunicação como uma ferramenta essencial para promover compreensão e coesão social.

O autor também desafia a dicotomia entre casa e lugar. Sua forma única de comunicação ressalta que, em última instância, todos compartilhamos um espaço comum, a Terra, e que a ideia de "casa" pode ser estendida além das paredes físicas para englobar todo o nosso planeta. Esta perspectiva nos lembra da importância de cuidar do nosso "lar" coletivo e de preservar o ambiente que nos sustenta.

Atualmente é possível notar que a voz de Bispo se junta às vozes de outros pensadores, como Françoise Vergès (2020), feminista, cientista política, historiadora e ativista; Ferdinand (2022), que parte das experiências caribenhas para potencializar a teoria decolonial; e da geógrafa Lima-Payayá (2023). Cada um desses contribuintes oferece uma perspectiva única, enriquecendo assim o diálogo sobre as complexas questões relacionadas ao colonialismo e sua influência persistente na sociedade contemporânea, efêmera e líquida, como afirma Bauman (2004).

Lima-Payayá (2023) nos convoca a refletir principalmente sobre a colonização, considerado como o desbaratamento e o desterramento representam uma série de violências que impactam a morada, não apenas no sentido de vilipendiar as comunidades indígenas, mas também de desconsiderar e estigmatizar o ecossistema da Caatinga. O desbaratamento implica a desorganização e a perturbação das estruturas sociais e territoriais preexistentes, enquanto o desterramento implica a expulsão das populações indígenas de suas terras ancestrais, resultando na perda de suas conexões profundas com seus locais de origem. Essa colonização desrespeita, desvaloriza e degrada a Caatinga, um bioma semiárido, um ambiente natural único. Além disso, na visão de Lima-Payayá (2023), a casa é feita dos elementos ar, terra e água, sem isolamento, proporcionando o ato de demorar-se, o que é relativamente raro nas áreas urbanas, uma vez que foram planejadas com ênfase exclusiva nas necessidades humanas, deixando de lado a consideração pelos seres não humanos. Neste contexto, o autor elabora uma crítica em relação às políticas de habitação em vigor, argumentando que essas políticas, de certa forma, perpetuam práticas coloniais, de modo a intensificar a fratura entre humanos e não humanos.

Suas contribuições se intersectam com as de Ferdinand (2022), ao lançar luz sobre o habitar colonial. De um lado, as colônias nas Américas foram definidas geograficamente, com os colonizadores europeus impondo controle sobre territórios específicos. Por outro lado, essas colônias mantiveram uma subordinação geográfica à metrópole europeia, criando uma dependência ontológica em relação a esta. Essa relação de subordinação perpetuou a visão de que o verdadeiro habitar estava na metrópole, enquanto as colônias eram consideradas periféricas e subordinadas. Essa dualidade complexa ressoa em todo o contexto da obra A terra dá, a terra quer.

O ritmo acelerado da modernidade diluiu progressivamente os conhecimentos tradicionais, levando a um estado em que as relações orgânicas se tornaram fluidas e efêmeras. Essa rápida evolução da sociedade moderna teve o efeito de minar gradualmente as bases dos saberes ancestrais, resultando em um cenário em que as conexões e as interações naturais se tornaram cada vez mais instáveis e transitórias.

As provocações de Bispo reverberam e transcendem categorias convencionais, promovendo acessibilidade, quebrando fronteiras entre humanos e não humanos, desafiando barreiras raciais e culturais e expandindo nossa concepção de casa e lugar. É um testemunho do poder da comunicação para unir e transformar nossa compreensão do mundo que habitamos.

Agradecimentos

O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (Capes) sob o processo 88887.842540/2023-00.

Referências

  • BAUMAN, Zygmunt. 2004. Modernidade liquida Trad. Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
  • FERDINAND, Malcom. 2022. Ecologia decolonial: pensando a partir do mundo caribenho São Paulo: Ubu Editora.
  • LIMA-PAYAYÁ, Jamille da Silva. 2023. “Yby: Sentido radical de casa”. Kalagatos, 20 (2): EK23026.
  • VERGÈS, Françoise. 2020. Um feminismo decolonial Trad. Jamile Pinheiro Dias; Raquel Camargo. São Paulo: Ubu Editora .

Editado por

  • Editora-Chefe:
    María Elvira Díaz Benítez
  • Editor Adjunto:
    John Comeford
  • Editor Associado:
    Luiz Costa

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    13 Jan 2025
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    07 Set 2023
  • Aceito
    29 Out 2024
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