SANTOS, Antonio Bispo dos. 2023. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu Editora/Piseagrama. 112 p.
Laroyê!
O título da obra A terra dá, a terra quer é um pulsar das memórias, um convite para conversar com a ancestralidade, e materializa a feira de Exu - o senhor do mercado, onde há energias e elementos em um movimento circular, sem espaço para acumulação. O livro corporifica o pensamento cosmológico de Antonio Bispo dos Santos, conhecido como Nêgo Bispo, nascido na comunidade Pequizeiro, povoado Papagaio, hoje município Francinópolis, no Vale do Rio Berlengas, Piauí, e integrante do território quilombola Saco/ Curtume, inserido no município de São João do Piauí, Piauí.
Nêgo Bispo é quilombola, lavrador, formado por mestras e mestres de ofício, tradutor de saberes dos povos e comunidades contracoloniais, ativista e líder quilombola brasileiro, reconhecido por sua atuação na defesa por direitos territoriais e culturais. Com uma fala potente e poética, inspirada na ancestralidade de seu povo e nos fundamentos da roça, ele lavrou palavras germinantes, criou conceitos, que levam à escrita os ensinamentos da oralidade. Para além da obra A terra dá, a terra quer, Bispo nos contemplou com vários artigos, poemas e os livros Colonização, Quilombos, Modos e Significados (2007), Colonização, Quilombos, Modos e Significações (2015), nos quais argumenta sobre as resistências, as rebeliões, as insurgências e as experiências concretas de construção de comunidades livres e autossustentáveis. Com o livro Quatro Cantos (2022), germinado em compartilhamento com outros autores, Nêgo Bispo discorre sobre “o começo, o meio e o começo” e nossa circularidade, e ainda no livro Composto Escola, Comunidades de Sabenças Vivas (2022), também germinado a partir do compartilhamento com outros autores, há um convite para pensar a educação como semente e a escola como a terra que precisa ser adubada, tornando o solo fértil, orgânico, regado pelos saberes das comunidades tradicionais.
Nêgo Bispo ancestralizou em 2023, transcendendo a condição de identidade para se tornar uma entidade, como bem expressou nosso amigo e confluente Mestre Cobra Mansa, do Quilombo Tenondé, localizado em Valença/BA. E com uma cosmovisão politeísta, a partir de sua formação quilombola e afro-pindorâmica,1 nos deixou um legado que nos inspira, nos provoca e nos faz questionar nossos modos de vida, contribuições estas que consideramos necessárias para a Antropologia, uma vez que cabe a ela estudar as diversidades dos viventes na terra e todas as suas dimensões. Bispo não foi importante, ele é necessário. A noção de “importância” carrega consigo o pressuposto de “utilidade”, algo que, ao deixar de ser útil, pode ser substituído. Já a necessidade não admite substituição; ela é essencial, vital. Em sua existência, Nêgo Bispo não construiu relações de utilidade ou importância, mas sim de necessidade. Como ele mesmo afirmou, “Pessoas necessárias são diferentes, elas fazem falta”. Por isso, Bispo permanece necessário. Seus ensinamentos seguem germinando em solo fértil, reflorestando imaginários e tecendo pontes que nos conectam à sabedoria ancestral, e falar sobre seus ensinamentos também é um ato necessário, pois é assim que alimentamos a ancestralidade e mantemos viva a chama de sua existência.
E este é o nosso propósito.
Em A terra dá, a terra quer, em um texto poético, usando símbolos e comparações, Antonio Bispo apresenta seu modo de observar e de se relacionar com o mundo. O livro não é uma compilação de regras, mas o compartilhamento de ensinamentos e saberes ancestrais traduzidos da oralidade. A obra traz uma série de narrativas diversais, plurais e circulares, refletindo uma estrutura literária não linear de nosso saber circular, afinal, tudo o que o nosso povo faz é rodando, segundo o próprio autor.
Para Bispo, a dissociação da humanidade da Terra - propositalmente personificada - é o centro dos nossos problemas, sejam eles sociais, ambientais, éticos ou políticos. O afastamento e a constituição de uma relação de subjugação pautada no antropocentrismo, ou humanismo como disposto no livro, são originados na cosmofobia, uma doença euro-cristã-monoteísta que causa medo e aversão a tudo que não cabe no "reino humano". A cosmofobia estabelece limites, produzindo uma relação de dois algarismos, ou seja, "ou um, ou outro", e a escolha só resulta em "um". Este é o cerne da questão: a cosmofobia é mono, uma vez que suas raízes estão afixadas no monoteísmo, demonizando tudo o que não é passível de controle e constituindo um ambiente artificializado, projetado para o atendimento das demandas humanas acima das dos demais viventes, excluindo assim a possibilidade de existência de outras formas de vidas. As que resistem são aquelas graças ao orgânico.
Nêgo Bispo realiza uma análise comparativa e prática entre a cosmovisão dos eurocolonizadores e as percepções cosmológicas dos povos contracolonialistas. Ele defronta as diferenças entre o orgânico e o sintético, entre a arte e a cultura, o compartilhamento e a mercantilização, os elementos e as matérias-primas, entre o que é importante e o que é necessário. Para Bispo, enquanto a sociedade se estrutura com os iguais, as comunidades têm seus alicerces fundamentados nos diversais, estando estes do lado oposto ao dos humanistas, pois são indivíduos que subvertem a lógica da verticalidade, do poder, do processo de desenvolvimento e de sintetização do orgânico. Segundo o autor, os orgânicos querem apenas viver como orgânicos, se tornando cada vez mais orgânicos. Para os diversais, não se trata de desenvolver, mas de envolver. Nosso povo pensa na circularidade, quebrando o monismo, a dualidade e o binarismo. Se para os humanistas o "um" é o universo, para nós só há "um" porque há mais de um.
O autor define a colonização como um processo de apagamento que objetiva substituir os símbolos, suas significações e os modos de vida de um povo por outra cultura por meio de práticas de violência, invasão, expropriação e etnocídio pautado na cosmofobia. Assim, a "contracolonização" é a imunização contra essa patologia que, sob o prisma politeísta, potencializa as matrizes tradicionais, os saberes e as práticas ancestrais. Trata-se da oposição empírica à forma euro-cristã-monoteísta colonialista de se relacionar com o cosmos. A contracolonização é um sistema cosmológico que nos insere no universo não como habitantes, mas como compartilhantes, ou seja, de forma equipotente a outros organismos, restabelecendo uma relação de pertencimento.
Nêgo Bispo lavra e semeia palavras. Faz denominações ou cria conceitos, como denota a academia, para contrariar o colonialismo. É o que chama de guerra das denominações, um jogo de contrariar as palavras coloniais com o intuito de enfraquecê-las e potencializar nossas palavras que porventura estejam enfraquecidas, contracolonizando-as.
O pensador quilombola teceu palavras germinantes. Dentre elas, confluência foi uma das mais dispersadas pelo vento. Trata-se de um conceito necessário, uma palavra encruzilhada, que nos dá base e caminho. Confluenciar é uma forma orgânica de se conectar com o cosmos. É se relacionar com os territórios e seus seres viventes, materiais e imateriais, como parte. Nêgo Bispo dizia que "quando a gente confluencia, a gente não deixa de ser a gente, a gente passa a ser a gente e outra gente - a gente rende". A transfluência, assim como a confluência, também é uma força que rende, que aumenta, que amplia, pois forma conexões por meio dos elementos plurais desta cosmovisão. A confluência e a transfluência são forças que se movimentam na circularidade, diferentemente do que acontece na cosmovisão colonialista, que se movimenta na linearidade, principalmente na linearidade verticalizada.
Ao longo do texto, Antonio Bispo aplica tais sabedorias na análise de várias esferas da sociedade. Para o quilombola, o colonialismo foi institucionalizado e ferramentalizado por meio das políticas de Estado, que permeiam as diversas camadas sociais. Por exemplo, lendo a obra, é possível ouvir sua voz, quando Nêgo Bispo evidencia o quanto as alterações na arquitetura de nossas casas, por meio de modelos de gestão pré-moldado, é um ataque colonial, uma vez que a casa também faz parte dos nossos corpos, é o local onde passamos a maior parte do nosso tempo, é nosso território. Para Bispo, ao construirmos nossas próprias casas, estamos nos relacionando com a natureza, biointeragindo, uma vez que é necessário demarcar a casa na Terra e, ao fazermos isto, demarcamos também a casa em relação à posição dos astros. Isto faz da casa um espaço cosmológico, diferentemente do que ocorre na arquitetura colonialista, sendo esta uma arquitetura sintética, sem vida, que elimina a arte e é mecanizada. Na cosmovisão contracolonialista, a arquitetura deve dialogar com o bioma onde está inserida, e cada bioma nos oferta as condições para biointeragirmos com ele como compartilhantes - este é o significado de arquitetura orgânica.
O colonialismo, dada a sua estrutura verticalizada, ranqueia os elementos, organismos e relações, estabelecendo um sumário categorizado e classificatório que fundamenta uma trama de submissão e subserviência. Os colonialistas definem quais ecossistemas, reinos, biomas, populações, espécies e indivíduos devem ser priorizados em relação aos demais. Nêgo Bispo diz que aprendemos perguntando, assim nos ensina: "para que comemos pão de trigo se a Caatinga dá milho?". E, aqui, a denúncia do ataque colonial se faz quanto aos modos como nos relacionamos com o alimento que extraímos e com o alimento que lavramos da terra, seja ele animal ou vegetal. Para os colonialistas, tudo o que não pode ser classificado como mercadoria é ruim, assim, passaram a desqualificar o que a terra nos oferece e a introduzir outras variedades de alimentos, sintetizados em laboratórios e indústrias, reduzindo cada vez mais a diversidade e transformando tudo em produtos e commodities. Assim, Bispo denuncia a forma, muitas vezes silenciosa, com que o desenvolvimento e o colonialismo chegam em nossos territórios, atacam nossos modos de vida e destroem as condições de existência de um ambiente.
Por esta razão, Bispo, ao longo da narrativa, nos provoca a contrapor a lógica monista dos euro-cristãos-colonialistas ao vivermos por meio do envolvimento, numa cosmovisão politeísta, conversando com a terra, com a natureza, com o nosso sagrado e a nossa ancestralidade, compartilhando com todos os viventes o que cada um precisa. E essa narrativa é a tradução de saberes que têm como fundamento a roça, a roça de quilombo, práticas coletivas de cultivos que traduzem os modos como nos relacionamos com a terra, um saber que não é mercadoria. Pensando no movimento circular, o autor aponta não a importância, mas a necessidade de alimentarmos a teia, o rizoma, que nos conecta com a ancestralidade por meio da geração avó e da geração neta. Ao contracolonizarmos o presente, nos defendemos da sintetização do orgânico e ensinamos a geração neta a se defender também, garantindo assim um futuro contracolonial e não decolonial:
somos povos de trajetórias, não somos povos de teoria. Somos da circularidade: começo, meio e começo. As nossas vidas não têm fim. A geração avô é o começo, a geração mãe é o meio e a geração neta é o começo de novo.
Nota
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1
O termo demonstra a união histórica e ancestral entre os povos originários da Pindorama (nome dado pelos indígenas ao território que hoje corresponde ao Brasil) e os africanos trazidos para este território em regime de escravidão. A expressão reflete a confluência de lutas, saberes e resistências de povos que, apesar de distintas trajetórias, compartilham por transfluência saberes ancestrais e seus modos de se relacionarem com seu território e seres viventes que o compõem.
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
