Open-access A NOVA FORMA DO LULISMO ANTE O CONSENSO DA FARIA LIMA: UMA ANÁLISE DAS RELAÇÕES ENTRE GOVERNO LULA 3 E EMPRESARIADO

THE NEW FORM OF LULISM IN THE FACE OF THE FARIA LIMA CONSENSUS: AN ANALYSIS OF THE RELATIONSHIP BETWEEN THE LULA 3 GOVERNMENT AND THE BUSINESS SECTOR

Resumo

Resumo: Este artigo analisa as relações entre o terceiro governo Lula e o empresariado industrial e financeiro e desenvolve a hipótese da formação do Consenso da Faria Lima, que remete à unidade entre distintas frações das classes dominantes em defesa da austeridade, da superexploração do trabalho e da expropriação financeira. A isso conjugou-se uma hipótese incipiente: a de que o lulismo se deslocou para forma próxima das variantes mais reformistas do populismo, em atuação que combina as experiências dos sindicalismos de confronto e propositivo. Por um lado, o governo atuou em favor do trabalho em conflitos (re)distributivos, com expansionismo fiscal, reforma tributária e elevação do salário mínimo; por outro, promoveu mecanismos de expropriação financeira, como as políticas monetária e de endividamento familiar. Assim, o Consenso da Faria Lima, mesmo confrontado, logrou impor margens de ação ao governo, em expressão da hegemonia financeira.

Palavras-chaves:
Lulismo; Ação Política Corporativa; Neoliberalismo; Conflitos de classe; Democracia.


Abstract

Abstract: This article analyzes the relations between the third Lula administration and the industrial and financial fractions of capital, developing the hypothesis of the formation of the “Faria Lima Consensus,” a term that refers to the unity among different fractions of the ruling classes in defense of austerity, labor superexploitation, and financial expropriation. Intertwined with this is an incipient hypothesis: that Lulism has shifted toward a form akin to the more reformist variants of populism, operating through a combination of confrontational and propositive unionism. On the one hand, the Lula 3 government acted in favor of labor in (re)distributive conflicts through fiscal expansionism, tax reform, and increases in the minimum wage; on the other hand, it promoted mechanisms of financial expropriation, such as the monetary and household debt policies. Consequently, even when challenged, the Faria Lima Consensus succeeded in imposing constraints on the government’s scope of action, reflecting the dynamics of financial hegemony.

Keywords:
Lulism; Corporate Political Activity; Neoliberalism; Class conflict; Democracy


Introdução

Lula da Silva assumiu a Presidência em 2023 em uma conjuntura muito distinta daquela em que subiu pela primeira vez a rampa do Palácio do Planalto. No cenário global, a crescente instabilidade político-social pós-crise de 2008 levou à ascensão de líderes de extrema-direita em diferentes regiões, com a formação de alternativas autoritárias em países de longa tradição liberal-democrática (Singer et al., 2022). No Brasil, uma sucessão de acontecimentos, como o golpe parlamentar contra Dilma Rousseff do Partido dos Trabalhadores (PT) em 2016 (Santos, 2017) e a ascensão de Bolsonaro à presidência, teve como desdobramento o esvaziamento do pacto da Constituição de 1988 (Araujo e Belinelli, 2022).

A queda do Governo Dilma abriu um período de “contrarreformismo forte” (Singer, 2018), em um movimento que transformou a institucionalidade voltada à efetivação de direitos por medidas como a Emenda Constitucional do Teto de Gastos (ECTG) de 2016, a reforma trabalhista de 2017 e a reforma da previdência de 2019. Tal plataforma conduzida pelos governos Temer (2016-2018) e Bolsonaro (2019-2022) correspondeu aos anseios de diferentes frações das classes dominantes que se deslocaram politicamente ao longo dos anos 2010, desde o relativo apoio ao reformismo fraco lulista até a conformação de uma unidade “antidesenvolvimentista” (Singer, 2018). A nova conjuntura expressou o alinhamento empresarial em torno da austeridade para superar a crise econômica, com a defesa da consolidação fiscal como princípio da ação estatal (Silva, 2026).

O conceito de frações de classe remete às classes sociais como “unidade do diverso”, pois há contradições no interior de uma mesma classe social. A formação de grupos diferenciados, de acordo com os interesses distintos que os mobilizam, desdobra-se em ações conflitivas no processo político (Poulantzas, 2019). A ideia de unidade política entre essas frações, portanto, remonta a um contexto político específico, em que antagonismos são superados pela convergência em torno de um programa comum. O ministro da Fazenda do terceiro governo Lula, Fernando Haddad, fez referência a isso em entrevista em 2025, ao dizer que as classes proprietárias são hoje “tão coesas que agem quase que por telepatia: sabem exatamente o que defender” (Haddad, 2025).

Neste artigo, assume-se essa proposição pela hipótese de que a crise política dos anos 2013-2016 no Brasil produziu um realinhamento entre as distintas frações das classes domi-nantes do país e a formação do Consenso da Faria Lima. O termo faz dupla referência: à metonímia que toma a avenida Faria Lima como o todo do mercado; e ao Consenso de Wall Street, que remete à reorientação, no contexto pós-crise de 2008, dos mecanismos institucionais estatais para “proteger a ordem política do capitalismo financeiro” (Gabor, 2020, p. 3), sendo o Consenso da Faria Lima sua forma brasileira. A isso se conjuga uma segunda hipótese, ainda incipiente, a ser desenvolvida em pesquisas futuras: a de que Lula, diante do alto grau de coesão das classes dominantes, também mudou a forma de governar. Paradoxalmente, o presidente respondeu à “unidade burguesa antidesenvolvimentista” (Singer, 2018) com a condução de pautas ofensivas,1 o que poderia caracterizar o terceiro governo como variante progressista do populismo (Boito Jr., 2005; Saes, 1985; Weffort, 1965). Os embates permanentes ante setores do capital expressam um modo sindicalista, e contraditório, de ação de Lula na presidência. Houve negociação de ganhos às classes trabalhadoras, mas com limitações advindas da debilidade organizativa, da relativa passividade política e do fetiche do Estado protetor que definem o populismo (Boito Jr., 2005), e por submeter-se às margens postas pela financeirização (Paulani, 2024a).

A discussão dessas duas hipóteses se fundamenta na análise dos conflitos (re)distributivos que envolveram o empresariado industrial e financeiro durante o terceiro governo Lula, entre janeiro de 2023 e abril de 2026, momento em que este texto foi elaborado. O caso em foco é o de como os setores industrial e financeiro se comportaram politicamente nos temas-chave do período, quais interesses mobilizaram, os conflitos e as alianças que manifestaram e de que modo impactaram a governabilidade.

O artigo expõe que a agenda fiscal dominou o debate político-econômico e revela a formação de um consenso econômico entre industriais e rentistas: o de que a austeridade fiscal é pré-condição para a aprovação de qualquer programa econômico pelo capital no Brasil pós-crise de 2016. Na medida em que a efetivação de direitos e as políticas de crescimento dependem de investimento público, há na contemporaneidade uma contradição imediata entre interesses empresariais e mecanismos redistributivos do regime democrático-liberal avindo da Constituição de 1988. Tal contradição se desdobra em crise política permanente e profunda instabilidade social, uma vez que a melhoria das condições de vida de parcelas significativas da população depende do gasto público. Nesse embate, o governo Lula assumiu uma postura paradoxal, com agendas de maior alcance redistributivo, se comparadas a seus governos anteriores, como a segunda fase da reforma tributária e a defesa da redução da jornada de trabalho sem redução de salários; porém, ao mesmo tempo, seguiu estimulando as formas mais avançadas de expropriação financeira que caracterizam a fase neoliberal do capitalismo, como os mecanismos de endividamento familiar e as altas taxas de juros.

A reflexão sobre essas contradições orientou a produção deste artigo. Na próxima seção, será exposta uma breve fundamentação teórica, com abordagens marxistas referentes às relações entre classes dominantes e governos liderados pelo PT, e delimitação do que se entende por unidade das frações burguesas e nova forma do lulismo. Em seguida, são apresentados os dados empíricos relativos a políticas fiscal e monetária, reforma tributária, impactos das tarifas de Donald Trump e proposta de redução da jornada de trabalho. A pesquisa envolveu análise de publicações de associações de classe empresariais da indústria e das finanças, tais como Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e Confederação Nacional da Indústria (CNI); de posicionamentos de empresários dos setores industrial e financeiro, com levantamento de notas públicas, estudos encomendados, manifestações em jornais e eventos públicos; e de relatórios de think tanks; além das principais agendas e ações de governo por pesquisa em imprensa, documentos oficiais e fontes secundárias. Em seguida, fundamenta-se a noção de Consenso da Faria Lima e analisa-se a relação entre governo Lula e hegemonia financista. A conclusão retoma as duas hipóteses e apresenta uma síntese da discussão, com apontamento de questão para pesquisas futuras.

Frações de classe, financeirização e populismo na cena política brasileira

As abordagens marxistas que se debruçam sobre as relações entre distintas frações das classes dominantes e os governos liderados pelo PT entre 2003 e 2016, e sobre a forma política do lulismo, variam profundamente. Não será realizada aqui uma revisão exaustiva da bibliografia, apenas expostos alguns dos principais aspectos da literatura mobilizada neste artigo para análise do terceiro governo Lula. Os temas em foco são a formação de coalizões de classe na cena política brasileira; a contraposição entre arbitragem e representação de interesses entre governo e frações de classe; financeirização e política no Brasil; populismo e as relações de hegemonia no capitalismo neoliberal.

Em Singer (2012), o lulismo é definido como um “modelo de arbitragem entre as classes fundamentais”, respaldado na “autoridade do presidente”, que teria promovido um equilíbrio de interesses entre as variadas frações de classe. O sucesso dessa forma política dependia de que nenhum dos polos tivesse “força para impor os próprios desígnios”, algo que aproximaria o fenômeno do bonapartismo. Disso resultou um “reformismo fraco”, um ciclo lento de redução da pobreza e da desigualdade que evitava a “radicalização” da luta política. O programa logrou atender a demandas do “subproletariado”, uma fração de classe que “tende a ser politicamente constituída desde cima” (Singer, 2012, pp. 195-201), um tipo de relação que recupera traços do populismo histórico. Ainda que o PT originário do “Espírito de Sion” rejeitasse a tradição varguista, a gramática lulista adota elementos dela, como o apelo direto às massas (Singer, 2012).

A condução política muda com Dilma (2011-2016). Em lugar de prosseguir com a lenta integração, o governo opta por acelerá-la, “deslocando o lulismo para um pouco mais perto do reformismo forte, embora dentro dos limites da transformação pelo alto” (Singer, 2018, p. 12). Ao herdar de Lula amplo apoio eleitoral, a presidenta deu consecução ao “ensaio desenvolvimentista”, um conjunto de medidas que atendia a demandas da indústria e dos trabalhadores. Ressalta-se aqui uma inflexão importante: o autor aponta uma mudança desde o modelo de arbitragem do lulismo para uma relação de representação de interesses, pelo governo Dilma, dessa coalizão de classes, denominada “produtivista”. Na oposição ao governo, estava a “coalizão rentista”, liderada pelo capital financeiro e composta pela classe média tradicional (Singer, 2018).

O terceiro elemento da interpretação de Singer (2018) que aqui interessa é o novo deslocamento que acontece ao longo dos governos Dilma. Inesperadamente, o “ensaio desenvolvimentista” provocou mudança de posição dos industriais, desde o apoio inicial até a composição de uma “unidade burguesa antidesenvolvimentista”, a favor do golpe e de uma agenda de “contrarreformismo forte”, que corroeu a institucionalidade voltada à efetivação de direitos e proteção social (Singer, 2018).

Boito Jr. (2012) apresenta uma análise distinta dos governos Lula e Dilma. As diferenças principais são: (1) para ele, não há arbitragem de interesses entre Lula e as classes fundamentais, e sim uma relação de representação entre governo e determinadas frações de classe; e (2) a definição destas também é distinta, com priorização das posições das burguesias brasileiras nas relações de dependência no capitalismo neoliberal e não do setor econômico a que estão vinculadas. Nos governos liderados pelo PT, houve a “ascensão política” da grande burguesia interna no interior do bloco no poder, com atuação em uma frente integrada também pelo “movimento sindical e popular” (Boito Jr., 2012). Compõe a grande burguesia interna tanto a grande indústria quanto o sistema bancário nacional que, apesar de divergências em relação a temas como a condução da política monetária, estavam unidos em torno da defesa da “participação dos grupos brasileiros na economia” (Boito Jr., 2012, pp. 99-100). “O projeto econômico que expressa essa relação de representação política entre os governos Lula e a grande burguesia interna é o projeto que poderíamos denominar neodesenvolvimentista” (Boito Jr., 2012, pp. 67-68). A aliança de oposição ao governo era, por sua vez, composta por burguesia associada ao capital financeiro internacional e classes médias tradicionais.

Há, no entanto, dois elementos comuns em Singer (2018) e Boito Jr. (2012) que dão base para as hipóteses deste artigo: a análise da cena política fundamentada nos conflitos (re)distributivos entre frações de classe; e a compreensão de que havia, nas relações de hegemonia dos governos liderados pelo PT, expressão de interesses de frações das classes trabalhadoras. A esses dois aspectos se contrapõe a literatura que enfatiza o avanço da financeirização na fase neoliberal do capitalismo e considera os governos petistas parte ativa de tal processo (Lavinas, 2017; Paulani, 2010).

Financeirização é definida como internalização da lógica financeira na produção e valorização dos capitais, por fenômenos como o amálgama entre os capitais industrial e bancário; a disseminação de investimentos em ativos financeiros; a incorporação de processos financeiros na administração empresarial; e a concentração de capitais em grandes oligopólios financeirizados (Martins, 2024). Isso ocorreu “em paralelo ao agigantamento dos mercados financeiros” (Paulani, 2024b, p. 95). No Brasil, a financeirização tem como agentes principais os bancos, fundos de investimento, seguradoras e fundos de pensão, que atuam na gestão da dívida pública interna e na política monetária e garantem bases rentistas de acumulação, com forte concentração de riqueza entre detentores dos títulos da dívida (Bruno et al., 2011; Lavinas, 2020).

Os governos liderados pelo PT, entre os anos 2003-2016, não teriam fugido à regra, com “aprofundamento da abertura financeira que viabilizou o intenso ingresso de capital externo no país” (Lavinas, 2020, p. 196). Eles compõem a “hegemonia financeira” que rege o Brasil, por uma “trajetória institucional singular em relação às práticas usuais de outros países, a ponto de se dizer que somos uma jabuticaba” (Mader, 2024). São exemplos disso os mecanismos de indexação, “a ausência de uma distinção clara entre o mercado monetário e o de títulos da dívida”, além dos juros elevados (Mader, 2024). As taxas muito acima da média mundial (Zeiden, 2020) são expressões da formação de uma coalizão financeiro-rentista no país, interessada na “financeirização pelos ganhos de juros” (Bresser-Pereira, Paula e Bruno, 2020, p. 5).

Outro fundamento desse processo é a realização de lucros financeiros por mecanismos de endividamento privado (Lapavitsas, 2009). Os setores rentistas capturam de forma sistêmica parte dos salários e vencimentos dos trabalhadores por meio do crédito, um processo definido como expropriação financeira. Trata-se do debt-led growth regime (Chesnais, 2016), com acumulação impulsionada pelas dívidas familiares, elemento-chave destacado por Lavinas (2017) na análise dos governos Lula e Dilma.

A despeito das divergências dessa literatura na definição da política brasileira dos anos 2000, assume-se neste artigo que os acontecimentos recentes aproximaram as ideias de unidade antidesenvolvimentista (Singer, 2018) e dominância financeira (Lavinas, 2017). A hipótese de Singer (2018) de que a crise política de 2013-2016 teve como desdobramento a formação de uma unidade entre as distintas frações das classes dominantes pode ser conjugada com a de que isso se deu sob a liderança de uma fração de classe específica: a burguesia financeira. O termo proposto aqui para se referir a isso, Consenso da Faria Lima, remete tanto à nova conjuntura inaugurada em 2016 quanto à fração de classe hegemônica nesse processo.

Ressalta-se que os conflitos distributivos são secundarizados pela literatura que trata da financeirização, e estão no primeiro plano da análise de Boito Jr. (2012) e Singer (2012), o que é seguido de perto neste estudo. Isso tem relação direta com a segunda hipótese desenvolvida neste artigo, ainda de forma incipiente: a de que Lula mudou a forma de governar diante do alto grau de unidade entre as frações burguesas, assumindo, contraintuitivamente, agendas ofensivas, em uma variante progressista de populismo. Esse conceito apoia-se em Boito Jr. (2005), que desenvolve a elaboração de Weffort (1965) e o difere das abordagens weberianas de Gino Germani ou de Torcuato di Tella, entre outras.

O populismo é definido como ideologia pequeno-burguesa, que tem como conteúdo central o culto ao Estado protetor, a “expectativa de que o Estado tome a iniciativa de proteger, independentemente da correlação de forças, os trabalhadores da ação predatória dos capitalistas” (Boito Jr., 2005, p. 23). Ainda que ideologia assuma aqui um sentido forte, de que o populismo oculta a relação de dominação do Estado burguês, há muitas variantes desse tipo de estatismo (como o varguismo e o brizolismo) que podem lhe dar conteúdo reformista, ao contrário do bonapartismo, que é conservador (Boito Jr, 2005).

Os dados analisados na próxima seção indicam que, na relação que estabelece com o empresariado, o lulismo assumiu uma variante progressista de populismo, e o fez pela forma sindicalista de ação. O presidente se constituiu politicamente com a formação de dois tipos de sindicalismo cutista, o de confronto, dos anos 1980, e o propositivo, dos anos 1990. Sua forma de governar no terceiro mandato é um amálgama de ambos, e por isso contraditória, pois é combativo nos conflitos (re)distributivos, mas aceita acriticamente a expropriação financeira. O Consenso da Faria Lima foi contraposto por reformas mais abrangentes e progressistas que as dos primeiros mandatos de Lula, e em consonância com os interesses das classes trabalhadoras. Ao mesmo tempo, o endividamento privado seguiu em alta e a financeirização avançou, com estímulos do governo.

O empresariado e o governo Lula 3

A vitória eleitoral de Lula em 2022 abriu margens políticas para a discussão da ampliação dos gastos públicos, ainda que o presidente dispusesse de base reduzida no Congresso Nacional para fazer valer seu programa de governo. A chancela nas urnas do discurso de “incluir o pobre no orçamento” implicava cumprir promessas como o novo Bolsa Família. Para isso, “havia uma tarefa urgente para o governo que assumiria em janeiro de 2023: negociar com o Congresso um respiro fiscal” (Paulani, 2024a).

As negociações começaram já em novembro de 2022, quando o futuro ministro da Fazenda, Fernando Haddad, propôs mudanças no orçamento. A proposta inicial buscava acomodar “as despesas prioritárias do novo governo fora do teto de gastos” (Figo, 2022), na forma de um chamado “waiver”, uma licença para o governo furar o teto (Matos, 2022). A ECTG seguiria vigente, o que significava, entre outras restrições, uma ameaça permanente sobre o financiamento da saúde e da educação, já que tanto os pisos mínimos de investimento quanto o teto de gastos tinham força constitucional. No entanto, setores da esquerda passaram a pressionar pela “abolição da ECTG” e aprovação de um novo regime fiscal em forma de lei (Bastos, 2024). A mobilização surtiu efeito, e a mudança na Proposta de Emenda Constitucional (PEC) da Transição foi efetivada no início de dezembro pelo relator da proposta, o senador Alexandre Silveira (Partido Social Democrático em Minas Gerais [PSD-MG]). Na aprovação do texto final, em 21 de dezembro de 2022, Silveira explicou que a matéria excepcionalizava R$ 145 bilhões do limite dos gastos na vigência orçamentária de 2023; e o teto seria substituído por um “projeto de lei complementar para instituir regime fiscal sustentável”, a valer a partir do exercício de 2024 (Baptista, 2022). Além disso, a emenda ao orçamento de 2023 permitiu um crescimento real de 9% do gasto público naquele ano, em programas como o Auxílio Gás e Minha Casa Minha Vida.

Para além de, na prática, a PEC da Transição ter reestabelecido a prevalência do mínimo de gastos em saúde e educação sobre as peças orçamentárias discutidas anualmente (dado que tais mínimos são garantias constitucionais), houve outra implicação com efeitos significativos no debate fiscal, sobretudo em um governo de minoria parlamentar. À diferença do antigo teto, que por estar incluído na Constituição requeria emendas constitucionais para sua alteração, no novo regime, “os parâmetros em discussão são todos estabelecidos em instrumentos jurídicos infraconstitucionais, ou seja, em lei ordinária, como as metas de resultado primário, ou, no máximo, em lei complementar” (Paulani, 2024a).

Isso implicou em um embate permanente durante o terceiro governo Lula sobre os limites do gasto público, além de pressão empresarial para desvincular benefícios previdenciários do salário mínimo e modificar os pisos constitucionais de investimento em saúde e educação. Já durante a tramitação da PEC da Transição, Gabriel Barros, sócio e economista-chefe da Ryo Asset, afirmou que o debate “saiu do controle. Estávamos discutindo um ‘waiver’ de R$ 70 bilhões, rapidamente chegou a quase R$ 100 bilhões, R$ 150 bilhões, já estamos falando de quase R$ 200 bilhões, e ainda não tem nem ministro indicado. Não tem ninguém ali para dizer não” (Matos, 2022).

A Febraban vocalizou posicionamento semelhante um dia após a posse de Lula, com a divulgação de levantamento que sistematizava a insatisfação do setor com os rumos da política fiscal. A Pesquisa de Economia Bancária e Expectativas da Febraban indicou “piora generalizada das expectativas para o ano que se inicia”, uma vez que a “incerteza fiscal levou a maior parte dos entrevistados a acreditar que os juros só vão começar a recuar no terceiro trimestre de 2023” (Febraban, 2023a).

Tal forma de relacionar política fiscal e monetária deu o tom no modo como o empresariado lidaria com o tema ao longo de todo o governo, estabelecendo permanente relação de causalidade entre juros altos e gasto público. “A pesquisa é um alerta sobre a necessidade de rigor na política fiscal e no controle dos gastos públicos”, avaliou à época Isaac Sidney, presidente da Febraban, ressaltando a necessidade de se “buscar uma âncora fiscal forte e crível e firme controle da inflação. Não enxergo outra direção senão perseverar nesses fundamentos econômicos para arrumar a casa” (Febraban, 2023a).

Ao longo dos primeiros meses de governo, o debate centrou-se em torno do novo arcabouço fiscal. A Febraban voltou a manifestar-se em março de 2023, em tom elogioso à antecipação da apresentação da proposta (cinco meses antes do previsto) e ao “conjunto de medidas”, que representariam “um avanço na busca da trajetória sustentável da dívida pública, ao estabelecer limites para a expansão das despesas do setor público combinada com metas de resultado primário ambiciosas”. Entre os destaques, estava “a previsão de zeragem do déficit primário já em 2024. Com isso, ao longo dos próximos anos, poderemos até ter um recuo da dívida pública em relação ao PIB” (Febraban, 2023b). A entidade também destacava que a proposta do governo tinha o “mérito de buscar um horizonte de estabilidade da dívida” (Febraban, 2023b).

A pressão surtiu efeito. O texto aprovado naquele ano instituiu o Regime Fiscal Sustentável (RFS), o qual “limita o crescimento anual das despesas primárias federais (excluindo despesas financeiras) a um novo teto móvel equivalente a 70% do crescimento anual prévio das receitas tributárias, até um aumento máximo de 2,5% ao ano” (Bastos, 2024). Além disso, estabelece metas de superávit fiscal primário e determina um “patamar mínimo para crescimento das despesas de 0,6%, na hipótese de que as receitas cresçam menos do que 0,86% ao ano - um crescimento tão pequeno que não chega a se qualificar como política anticíclica” (Bastos, 2024). O RFS combina regras de receita, despesa e uma meta de resultado primário “que impõem um viés superavitário para as contas públicas: as despesas crescerão sempre abaixo das receitas, exceto em caso de crise econômica ou crescimento próximo de zero”, o que implica em “progressiva redução do tamanho do Estado em proporção ao PIB” (Brenck e Rodrigues, 2025).

Passada a confirmação do novo arcabouço, as atenções empresariais se voltaram à parte do orçamento antes restrita pelo Teto de Gastos, mas agora em disputa sob o novo regime: os gastos em direitos sociais. Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investimentos, sintetizou a plataforma em junho de 2024: “é preciso continuar na trilha da revisão dos gastos tributários, mas também começar a colocar o dedo na ferida da despesa pública. Só assim o novo arcabouço fiscal será sustentável” (Salto, 2024). Ele se referia a um programa que incluía a desvinculação dos gastos em educação e saúde de mínimos de receitas, a redução de 5% em todos os gastos tributários e a desvinculação da Previdência e gastos sociais da política do salário mínimo (Salto, 2024).

No fim de 2024, o governo atendeu a tais expectativas ao anunciar um pacote de R$ 327 bilhões de contenção de gastos entre 2025 e 2030, o que equivalia a 2,8% do Produto Interno Bruto (PIB) de 2024. O plano incluía todos os pontos levantados acima, inclusive mudanças na regra de valorização anual do salário mínimo e na oferta de benefícios sociais. No entanto, a “disputa distributiva no interior do orçamento” foi intensa, com exclusão do limite do crescimento das emendas parlamentares e manutenção de benefícios tributários. Entre as medidas aprovadas, estavam restrições no “pagamento do Bolsa Família, do abono salarial - transferência para trabalhadores formais que recebem até dois salários-mínimos - e do PROAGRO” (Brenck e Rodrigues, 2025).

A principal mudança recaiu sobre a regra de valorização do salário mínimo. “Antes, o valor era corrigido pela inflação do ano anterior somada à média de crescimento do PIB dos dois anos anteriores” (Brenck e Rodrigues, 2025). Na nova legislação, os limites previstos pelo RFS passaram também a ser aplicados ao salário mínimo, o que também impacta a maioria dos benefícios sociais e previdenciários. Assim, ao mesmo tempo que “privilégios orçamentários foram mantidos, benefícios sociais foram cortados. Só no ano de 2025, os cortes representarão R$ 34 bilhões (US$ 6 bilhões), valor equivalente a 1,6% do orçamento previsto” (Brenck e Rodrigues, 2025).

Mesmo com o ajuste aprovado, as pressões empresariais não arrefeceram. Em dezembro de 2025, Rafael Cervone, presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) e primeiro vice-presidente da Fiesp, atribuiu a continuidade dos juros altos à questão fiscal. “Apesar da pressão sobre o Banco Central, o Ciesp reconhece que a redução da Selic não depende apenas da autoridade monetária. Há uma necessidade urgente de o país avançar no equacionamento do déficit fiscal”. Para ele, o descontrole nas contas públicas pressiona a inflação, e por isso há manutenção dos juros altos. “É premente dimensionar e equilibrar bem as políticas monetária e fiscal para turbinar o potencial econômico do país”, complementou (Selic […], 2025).

Os primeiros meses de 2026 não foram diferentes. No setor bancário, executivos do Santander voltaram a vocalizar a pauta de desvinculação das receitas como condição para uma política monetária distinta. “O desafio fiscal do Brasil está se tornando cada vez mais estrutural, e não cíclico. Uma parcela muito elevada do gasto público é legal ou institucionalmente predeterminada, com cerca de 92% classificada como obrigatória”, afirmou um estudo do banco (Rezende, 2026). Disso decorre a necessidade de “ajustes”, para o país “reduzir as restrições orçamentárias” e garantir crescimento de investimento público e privado, além de queda dos juros (Rezende, 2026). Também para Cervone, o “desequilíbrio das contas públicas” estaria pressionando a inflação e minando a confiança dos agentes econômicos, do que decorrem as altas taxas de juros. “O baixo crescimento do PIB e a queda da indústria de transformação evidenciam com ênfase a necessidade urgente de redução do ‘Custo Brasil’, o equacionamento da política fiscal e sua equalização com juros menores e a revisão de medidas que aumentam a taxação” (CIESP: Queda […], 2026).

A única voz dissonante identificada, mas que confirma a regra, foi a de Josué Gomes. Pouco antes de deixar a presidência da Fiesp, ele “lamentou não ter conseguido reunir forças suficientes dentro do próprio setor para defender mudanças macroeconômicas estruturais”, o que significa combater as taxas de juros muito acima das praticadas no mundo. Gomes entende que parte considerável dos industriais defende uma ideia de país contrária aos seus próprios negócios. “Eu me dei conta na Fiesp de que nós, industriais, estamos prisioneiros da síndrome de Estocolmo. Nos apaixonamos pelos segmentos que sequestraram a agenda econômica nacional”, em referência ao setor financeiro (Vazquez, 2025).

É possível afirmar com isso que o consenso em torno da austeridade foi o componente fundamental da posição empresarial em relação às políticas monetária e fiscal. Ainda que houvesse divergências setoriais em relação ao nível das taxas de juros, com prevalência de críticas entre industriais na comparação com o setor financeiro, ambos convergiram no diagnóstico: a política monetária restritiva se justificava em razão de um suposto descontrole nos gastos públicos. A ação política que se desdobrou disso foi uma pressão permanente, e unificada, por arrocho fiscal e restrição das políticas sociais. Diante disso, o governo cedeu apenas em parte, e isso deve ser ressaltado: a lógica prevalente foi de redução de déficit público e restrição institucional a aumento de gastos; mas medidas como a PEC da Transição, a retomada da política de aumento real do salário mínimo e a resistência à desvinculação dos benefícios previdenciários do salário mínimo e à flexibilização de receitas mínimas para saúde e educação contrariaram interesses de industriais e financistas, bem como mantiveram o direcionamento de montante significativo do orçamento para as variadas frações das classes trabalhadoras. O crescimento em média de 3,3% do PIB brasileiro em 2023 e 2024 resultou “de algo que o próprio governo reluta em reconhecer: a política fiscal expansionista, que tem compensado forças de contração” (Summa et al., 2025), e traz componente progressista ao terceiro governo Lula em contraposição a interesses que dão unidade às frações burguesas.

Reações à reforma tributária

Outro tema que mobilizou amplamente o empresariado ao longo dos três primeiros anos de governo Lula foi o da reforma tributária, iniciada por mudanças na tributação do consumo e seguida pela reforma dos impostos de renda e patrimônio, além de alterações em benefícios tributários com fins de aumento da arrecadação. Na esfera do consumo, as discussões avançaram em 2023, com a aprovação da Emenda Constitucional n. 132 e adoção de um “Imposto sobre Valor Agregado (IVA) dual, composto pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), de competência federal, e pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), compartilhado por estados e municípios” (Toneto, 2026).

As mudanças visaram “o fim da tributação em cascata, a adoção do princípio do destino e a incorporação de mecanismos de justiça social”. Os componentes redistributivos foram a desoneração da cesta básica e a “introdução do mecanismo de cashback, que devolve aos consumidores de menor renda parte dos tributos indiretos pagos” (Toneto, 2026).

Nesta primeira fase, os posicionamentos empresariais foram positivos, sobretudo pela simplificação da tributação. Em 6 de julho de 2023, a Fiesp divulgou nota em defesa das medidas, pois atrairiam “mais investimentos, mais inovação e menos burocracia”, com potencial de aumento entre 12% e 20% do PIB em 15 anos. “O tempo e os recursos desperdiçados com a burocracia dos impostos poderão ser investidos de maneira mais produtiva. As empresas optantes do Simples continuarão nesse sistema. No caso do setor de serviços, essas empresas constituem a grande maioria” (Bond, 2023).

Em março de 2025, o então presidente da Fiesp também se manifestou favoravelmente. “Muitos entendem que a indústria de transformação defendeu a Reforma Tributária por ser benéfica para ela. É verdade, mas é principalmente um grande passo para o desenvolvimento de todo o Brasil e de todos os setores produtivos”. Josué Gomes elogiou ainda a eliminação dos impostos em cascata sobre exportação (Azevedo, 2025).

No Seminário “Reforma Tributária: E Agora?” (Reforma Tributária, 2025), promovido pela Fiesp, as manifestações foram igualmente favoráveis, como exemplificado pela posição de Massimo Giavina, primeiro vice-presidente do Sindicato Interestadual da Indústria de Materiais e Equipamentos Ferroviários e Rodoviários (Simefre), que enfatizou a manutenção de incentivos para os setores estratégicos. Industriais presentes elogiaram ainda “o Split Payment”, sistema que “torna o recolhimento de tributos mais eficiente” ao permitir que o imposto seja retido diretamente na fonte (Souza e Rodrigues, 2025).

Mas o clima em relação ao tema mudou completamente a partir de uma sequência de eventos iniciada em maio de 2025. O governo Lula lançou naquele mês uma ofensiva que buscava aumentar a arrecadação federal pela tributação de setores do capital. Foram publicados os Decretos n. 12.466 e n. 12.467, que aumentavam o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) sobre crédito e operações de câmbio (Brasil, 2025a, 2025b). Dias depois, a CNI e a Febraban reagiram, alegando que a mudança ignorava o impacto no custo de capital.

Em 28 de maio de 2025, houve reunião entre Isaac Sidney, presidente da Febraban, dirigentes dos maiores bancos privados do país e o Ministério da Fazenda. De acordo com Sidney, o equilíbrio das contas públicas não deveria “vir de aumento de impostos, sobretudo regulatórios”. Por isso, a pressão sobre o governo seguiria, “para que possamos revisitar esse aumento e tirar esse custo, que não é só do crédito. Esse é um custo inclusive da produção do investimento e do consumo” (Martello, 2025).

A estratégia empresarial surtiu efeito. Em 11 de junho de 2025, o governo recuou ao publicar o Decreto n. 12.499, que suavizou o aumento do IOF (Brasil, 2025c). Para compensar perdas, foi editada a Medida Provisória (MP) n. 1.303/2025, que unificou em 18% a tributação sobre todas as aplicações financeiras, a partir de 1º de janeiro de 2026, e aumentou a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) de algu-mas instituições financeiras (Brasil, 2025d). Mesmo com o recuo parcial, a pressão do capital, em articulação com seus representantes parlamentares, não arrefeceu. Em outubro, a MP perdeu validade por não ser aprovada pelo Congresso. E antes disso, ainda em junho, o Congresso suspendeu os efeitos dos três decretos.

O governo judicializou a questão e obteve vitória no Supremo Tribunal Federal (STF). Em julho, Alexandre de Moraes restabeleceu parcialmente a validade do decreto de 11 de junho. O ministro afirmou que, “na alteração das alíquotas e na incidência do IOF em entidades abertas de previdência complementar e outras entidades equiparadas a instituições financeiras, não houve desvio de finalidade” (Mendes, 2025). No final daquele mês, Paulo Skaf, então presidente eleito da Fiesp, externava a posição majoritária entre os empresários contra as medidas do governo: “a sociedade brasileira não quer mais aumento de impostos ou aceitar novos tributos”. O aumento do IOF era um “absurdo. Os governos têm que parar de ser gastões”, e nada seria “mais importante para a economia do que a redução dos gastos públicos” (Sorima Neto, 2025).

A ofensiva governamental seguiu com uma nova fase da reforma, agora do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF), pela aprovação da Lei n. 15.270, de 26 de novembro de 2025 (Brasil, 2025e). O avanço da medida foi impulsionado por ampla campanha publicitária que ganhou a opinião pública por meio do slogan “Congresso Inimigo do Povo” e pressionou o Legislativo. O governo teve capacidade de “transformar os vetos do Congresso ao aumento do IOF” em um debate público sobre os privilégios dos setores de alta renda e o “caráter antipopular de parte da atuação legislativa”. Com a aprovação, “quem ganha até R$ 5 mil por mês passou a ser isento do imposto de renda”, que cresce progressivamente até “atingir incidência plena nos rendimentos mensais de R$ 7.300 ou mais. Para compensar essas isenções e descontos, pessoas com renda tributável superior a R$ 600 mil por ano passaram a pagar uma alíquota mínima” (Toneto, 2026). A legislação também instituiu uma alíquota de 10% de IRRF sobre a distribuição de lucros e dividendos, o que colocou fim à isenção que durava desde 1995.

Em dezembro, nova medida que contrariava interesses empresariais foi aprovada: a Lei Complementar n. 224/2025, de corte de “gastos tributários”, endurecimento das regras de tributação para casas de apostas, aumento da alíquota da CSLL sobre fintechs, consolidação do regime de “comecotas” e tributação anual de lucros de offshores e fundos exclusivos, além do combate ao uso de fundos de previdência como estratégia de elisão fiscal (Brasil, 2025f). Isso se somou à tributação mínima de 15% sobre grandes grupos multinacionais pela Lei n. 15.079/2024 (Toneto, 2026).

Os industriais e financistas se manifestaram contrariamente a esse conjunto de medidas, além de judicializarem algumas delas. Na visão empresarial, o governo aprofundou “uma distorção histórica da economia brasileira: a insistência em elevar uma carga tributária que já é excessiva, penalizando investimentos, empregos e a competitividade do País” (Cervone, 2026). O presidente do Ciesp entende como nociva “a recente aprovação da Lei Complementar n. 128/2025, que inaugura um equívoco conceitual grave ao tratar o lucro presumido como se fosse um benefício fiscal”. A lei promoveria “uma elevação direta da tributação nesse regime, ao aumentar o percentual de presunção para empresas com receita anual acima de R$ 5 milhões”. Pelos cálculos da instituição, quase metade desse ônus recai sobre o setor industrial. “Não menos preocupante foi a entrada em vigor da Lei n. 15.270/2025, que aumentou impostos, ao taxar lucros e dividendos”, acrescentou. Além disso, é “mais grave” a “tributação de 10% sobre a base de cálculo do Simples Nacional. É um golpe duro contra os pequenos empreendedores, inclusive da indústria, que já enfrentam enormes desafios para manter seus negócios, inovar e gerar empregos” (Cervone, 2026).

A reação da CNI também foi enérgica. Em dezembro de 2025, a entidade reivindicou “um basta no aumento da tributação sobre o setor produtivo como compensação para as sucessivas altas dos gastos públicos. A indústria não suporta mais tanta oneração”. Ricardo Alban, presidente da entidade, afirmou que a Lei Complementar n. 128/2025, que reduz em 10% os incentivos fiscais para setores da indústria e aumenta para 17,5% a tributação dos Juros sobre Capital Próprio (JCP), era “uma violência contra o setor produtivo brasileiro”, assim como aumento da carga tributária para compensar elevação dos gastos públicos. “É completamente desmedida e descabida a aprovação desse projeto, que impõe perdas para a indústria brasileira que já vem perdendo sua competitividade ano a ano” (É preciso […], 2025).

Assim, à unidade industrial-financeira em torno da austeridade fiscal se somou esta nova composição política em torno do combate a mudanças no sistema tributário. Pode-se afirmar que tanto a dimensão institucional-estatal do conflito distributivo quanto a disputa entre trabalho e capital relacionada a fontes e destino das receitas públicas formam um consenso empresarial de oposição a qualquer mecanismo redistributivo. Lula, diante dessa unidade das frações burguesas, assumiu a linha de um sindicalismo de confronto, ao promover e aprovar pautas que ampliam direitos e são contrárias aos interesses manifestos pelo empresariado. “O terceiro mandato atacou pela primeira vez a concentração no topo da distribuição […]. É a primeira vez, em duas décadas de governos petistas, que a redução da desigualdade passa pela redistribuição do topo para o meio” da pirâmide social (Carvalho e Martins, 2026, p. 14). Esse componente de classe aproxima a nova versão do lulismo do velho populismo: os principais beneficiários da reforma do imposto de renda não foram os setores mais empobrecidos da população, base fundamental do lulismo, e sim as frações inferiores das classes médias, principal base social dos governos populistas de 1930-1964 (Saes, 1985).

As tarifas trumpistas

Nesse mesmo contexto de acirramento dos conflitos entre empresariado e governo nos temas fiscal e tributário, o presidente estadunidense, Donald Trump, comunicou que as exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos da América (EUA) seriam sobretaxadas, perfazendo o total de 50% a entrar em vigor em agosto de 2025. A principal justificativa era política: para Trump, o ex-presidente Jair Bolsonaro, em julgamento por tentativa de golpe de Estado, sofria perseguição. Lula reagiu, defendendo que “o Brasil é um país soberano com instituições independentes” (Matoso, 2025), e qualquer aumento tarifário seria respondido pela Lei da Reciprocidade Econômica vigente desde abril daquele ano.

O potencial impacto econômico preocupou setores exportadores. Representantes da indústria defenderam negociação, ressaltando a interdependência dos mercados. Entidades empresariais dos EUA se juntaram ao pleito. Em nota, a Câmara de Comério estadunidense destacou que “mais de 6.500 pequenos negócios nos Estados Unidos dependem de produtos importados do Brasil […], destino de aproximadamente US$ 60 bilhões em bens e serviços americanos todos os anos” (Rittner, 2025). A presidência da CNI, por sua vez, afirmou que o setor produtivo estava “uníssono e convergente com o governo federal”. Ricardo Alban ressaltou o “perde-perde” desse tipo de política e defendeu que “o Brasil não precisa ser reativo intempestivamente. Brasil não se precipitará, de forma nenhuma, em medidas de retaliação, para que não sejam interpretadas como uma dis-puta. Queremos o entendimento” (Pimenta e Aguiar, 2025). Esse foi o caminho que o governo seguiu. Em 21 de julho, Haddad anunciou um plano de contingência para lidar com os eventuais efeitos negativos da sobretaxa, medida apoiada pela Fiesp, por “preservar empregos, diver-sificar mercados e assegurar condições justas de comércio internacional”, algo que demonstra “compromisso com a defesa dos setores produtivos nacionais” (Plano […], 2025). Já Lula reafirmou estar aberto ao diálogo e apaziguou os ânimos, destacando que “se Trump quiser, a nossa relação será a melhor possível” (Truffi, Aguiar e Sabino, 2025). O brasileiro foi, naquele momento, quem mais se favoreceu politicamente. “Trump fez Lula great again”, afirmou um colunista da Veja (Traumann, 2025), enquanto deputados governistas ironizavam os “patriotas” do Congresso e comemoravam o crescimento da aprovação do governo.

A opção por buscar o diálogo foi bem-sucedida, com a publicação de lista de exceções das exportações brasileiras em duas ocasiões, julho e novembro de 2025, além da “ótima química” entre os dois presidentes durante a 80ª Assembleia Geral das Nações Unidas. Em fevereiro de 2026, a Suprema Corte estadunidense decidiu pela inconstitucionalidade do uso da Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional para o tarifaço. Trump recorreu ao Trade Act de 1974 para impor nova tarifa sobre todos os parceiros comerciais, de 15%. Mas o Brasil saiu em vantagem na comparação global, dado que os produtos antes sobretaxados em 40% tiveram queda para os mesmos 15% aplicados a todos os países, e a lista de exceções seguiu vigente, incluindo itens muito importantes na pauta exportadora brasileira, como aeronaves e petróleo. Enquanto países e blocos como a União Europeia (UE) e o Japão entraram em um limbo comercial, pois cederam ao acossamento trumpista e fecharam acordos comerciais, incluindo previsão de investimentos diretos nos EUA, o Brasil recuperou a competitividade frente aos concorrentes sem aceitar nenhuma das exigências da carta de Trump.2

O tema, conforme exposto, foi de consonância entre ação governamental e expectativa das variadas frações de classe burguesa. Isso também aproxima a forma política do terceiro mandato de Lula do populismo, pelo lugar da defesa da Soberania Nacional nesse tipo de estatismo (Boito Jr, 2005), que encontrou, no atual contexto, a possibilidade de expandir a imagem do Estado protetor para além da base social popular, como representante dos interesses da unidade povo-nação.

Os embates em torno da escala e jornada de trabalho

O tom favorável dos empresários em relação ao governo se restringiu ao tema das tarifas. Em 2026, a nova pauta que provocou reação direta de setores industriais e financeiros foi a da mudança da escala de trabalho com redução da jornada e preservação dos salários. Trata-se de reivindicação histórica do movimento sindical por ampliação de direitos, mas que esteve fora do horizonte de negociação nas últimas décadas (Dal Rosso et al., 2022). A iniciativa voltou aos holofotes em 2024 após “movimentação social iniciada por um influenciador nas redes sociais […] culminando na formação do Movimento “Vida Além do Trabalho” (VAT)” (Pateo, Melo e Círiaco, 2026, p. 3), um coletivo que nasceu da “indignação de trabalhadores exaustos com rotinas desumanas, especialmente a escala 6x1”3.

A deputada federal Erika Hilton (Partido Socialismo e Liberdade [PSOL]) encampou a pauta e a apresentou em formato de PEC. Inicialmente, o Executivo não assumiu a agenda, considerada pelo ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho (PT), objeto de acordo e convenção coletivos (Sales, 2024). Ao longo de 2025, no entanto, Hilton logrou aproximar-se “do marqueteiro de Lula” e ministro da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira, que introduziu menção à pauta no discurso do presidente no primeiro de maio daquele ano (Shores, 2026).

Nos meses seguintes, a ministra Gleisi Hoffmann (PT), das Relações Institucionais, e Guilherme Boulos (PSOL), da Secretaria-Geral da Presidência da República, somaram-se como forças propulsoras da pauta no governo (Shores, 2026). Disso resultou a formulação de uma estratégia de pressão sobre o Congresso que envolveu a apresentação, em abril de 2026, de um projeto de lei à Câmara (Agência O Globo, 2026), e a mobilização da campanha midiática “Congresso Inimigo do Povo”, já utilizada na tramitação da reforma tributária. A iniciativa surtiu efeito, e uma PEC que aglutinava as matérias foi aprovada em maio pelos deputados (Souza, 2026). Para fazer avançar no Senado, a ação governamental segue a mesma: o líder do PT na Câmara, Pedro Uczai (SC), afirmou que Davi Alcolumbre ficará conhecido como “inimigo dos trabalhadores” se não pautar a proposta; e o presidente da Casa se contrapôs dizendo que “esse tipo de ameaça e tentativa de intimidação não será mais tolerado” (Seligman e Mori, 2026). O empresariado, novamente, reagiu. A CNI publicou um estudo afirmando que reduzir a jornada semanal de 44 para 40 horas “pode elevar em até R$ 267,2 bilhões por ano os custos com empregados formais, alta de até 7% na folha de pagamentos” (Carneiro, 2026). Skaf, por sua vez, se opôs à proposta de fim da escala 6x1: “qualquer engessamento na escala de trabalho impede a melhor eficiência e a negociação entre as partes” (Carneiro, 2026).

A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) estimou em R$ 122,4 bilhões o custo de adequação do setor, além de impacto inflacionário. O número significaria aumento de 21% da folha de pagamentos e 13% de ajuste nos preços a médio prazo. “Com isso, haveria um choque no faturamento, que levaria o setor a ajustar seu quadro de funcionários. Ou cai o faturamento, ou cai a margem do setor. Em ambos os casos a empregabilidade seria comprometida”, afirmou Fabio Bentes, economista-chefe da CNC (Carneiro, 2026).

Outro a reagir foi novamente Cervone, do Ciesp. “Quando se passa da utopia à realidade da economia e do mercado de trabalho, a conta não fecha. Na prática, a proposta compromete a produtividade, eleva custos, pressiona a inflação e reduz a capacidade de geração de empregos, prejudicando empresas e os próprios trabalhadores”. Para ele, o governo deveria “interromper esse ciclo recorrente de decisões que fragilizam os setores produtivos e travam um crescimento econômico mais robusto e sustentável”. Ao invés de “onerar quem produz para sustentar um Estado pesado e ineficiente, é urgente retomar a agenda da reforma administrativa” (Cervone, 2026).

No início de maio de 2026, no entanto, Boulos afirmou que “o governo Lula não defende transição de quatro anos, nem de dois, nem de um. O governo defende a aplicação do fim da 6x1 com 40 horas semanais de maneira imediata no Brasil” (Prestes, 2026). Além disso, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos), optou por acelerar a tramitação de uma PEC que unifica as propostas enviadas pelos deputados Reginaldo Lopes (PT-MG) e Erika Hilton (PSOL-SP) sobre o assunto. A reação do empresariado, assim, “reflete o avanço das negociações entre governo e Congresso para votar a proposta”, reforçada por Lula “como prioridade deste ano” (Carneiro, 2026). O governo entende que há viabilidade de aprovar a jornada de 40 horas semanais, escala 5x2 e sem redução salarial, por uma estratégia política semelhante à que garantiu aprovação da reforma tributária (Carneiro, 2026).

Unidade empresarial e o Consenso da Faria Lima

A análise dos posicionamentos empresariais durante o terceiro governo Lula revela disputas em torno dos dois componentes fundamentais do capitalismo neoliberal: os conflitos (re)distributivos e a hegemonia financeira. Se seguirmos a definição de neoliberalismo como uma fase do capitalismo caracterizada por um movimento duplo e conjugado, de ofensiva das burguesias sobre as classes trabalhadoras em geral, e de avanço das burguesias financeiras sobre as demais frações de classe capitalistas (Duménil e Levy, 2014), pode-se dizer que os conflitos de classe nos últimos três anos no Brasil seguem tais tendências gerais do capitalismo contemporâneo.

O primeiro componente é autoexplicativo da unidade entre frações das classes dominantes, pois ao conjunto da burguesia interessa o barateamento dos custos do trabalho e a apropriação, pelo capital, do orçamento público. No terceiro governo Lula, os embates relacionados aos gastos públicos e à reforma tributária são expressão dos conflitos redistributivos que opõem capital e trabalho na disputa pelo orçamento público. Já a reação à proposta de redução da jornada de trabalho, com manutenção dos salários, está relacionada diretamente com os conflitos distributivos e a unidade empresarial contrária a medidas que fortaleçam social e economicamente os trabalhadores.

O tema está presente na literatura sobre a crise que levou ao golpe de 2016, e é, conforme já exposto na segunda seção, componente-chave das análises de Singer (2012, 2018) e Boito Jr. (2012) das relações entre governos liderados pelo PT e frações de classe. De 2004 a 2014, teria havido uma tendência “de os salários reais crescerem continuamente acima do crescimento da produtividade” (Serrano e Summa, 2018, p. 176), do que decorreu uma compressão cíclica dos lucros, o profit squeeze, entre 2009 e 2014 (Martins e Rugitsky, 2021). A hipótese de acirramento do conflito distributivo também se confirma pela análise de setores específicos, como o automotivo e a construção civil (Silva e Oliveira, 2023).

Dados indicam que, entre 2003 e 2016, formou-se um horizonte de fortalecimento estrutural das classes trabalhadoras, que produziu como contraparte a busca, pelo capital, da retomada do controle sobre os processos políticos, o que foi alcançado pelo programa Ponte para o Futuro, do Governo Temer (Silva, 2026). A relação capital-trabalho na composição do PIB corrobora a hipótese de que, nos anos 2010, houve um deslocamento do lulismo “para um pouco mais perto do reformismo forte” (Singer, 2018, p. 12), com crescimento contínuo da participação dos salários a partir de 2010. Após a saída de Dilma, a tendência mudou, com queda acentuada dos salários e aumento dos lucros, conforme demonstrado na Figura 1.

Figura 1
Participação dos salários e dos lucros no PIB do Brasil, em percentual

Os dados consolidados pelo IBGE referem-se até o ano de 2021, mas índices recentes mostram nova inversão de tendência, com aumento da participação do trabalho no PIB. Em 2025, “o rendimento médio mensal das famílias brasileiras chegou a R$ 2.264 por pessoa”, um crescimento real de 6,9% em relação a 2024, puxado, sobretudo, por rendimentos do trabalho. É o maior índice já apurado pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad). Se considerado o rendimento médio mensal do trabalho, o valor em 2025 ficou “em R$ 3.560, alta de 5,7% acima da inflação na comparação com 2024” (Moura, 2026). O relatório Economia Brasileira 2025-2026, da CNI, consolida tais projeções, indicando novos aumentos em 2024, de 7,6%; e 2025, de 5,6% (CNI, 2025).

Já o outro componente acima referido da fase neoliberal do capitalismo, o da financeirização, vem para o primeiro plano de análises como a de Lavinas (2017), que aponta consonância entre atuação governamental e classes dominantes, sob liderança financeira, em contexto histórico em que o capital fictício assume precedência (Chesnais, 2005). Uma expressão disso no Brasil é a “captura regulatória” das instituições públicas pelas finanças (Mader, 2024), por canais como a emissão de títulos pelo Tesouro Nacional (Bresser-Pereira, Paula e Bruno, 2020). Nos momentos de crise, o governo emite títulos indexados à taxa básica de juros; quando há aceleração inflacionária, aumenta-se a emissão de títulos indexados a índices inflacionários; e na estabilidade, “cresce a participação dos títulos prefixados” (Mader, 2024). Assim, o rentismo alcança altas margens de lucro em contexto de alta de juros, e quanto estas caem mantém-se a lucratividade pelo aumento de “margens no mercado de crédito” (Mader, 2024).

O período pós-golpe, de 2016 a 2020, é “especialmente emblemático” dessa dinâmica. A crise econômica pela qual o Brasil passava afetou o setor bancário, com queda nas duas principais receitas, advindas de títulos públicos ou títulos de valores mobiliários e de crédito. A forma de manter alta a lucratividade foi pelo aumento nas “margens cobradas nas operações de crédito, o spread” (Mader, 2024). Assim, o ônus da crise foi direcionado “aos consumidores de crédito, em um contexto em que muitos precisaram recorrer a ele para suprir, inclusive, necessidades básicas” (Mader, 2024), tais como famílias pobres que se endividaram para compra de comida.

Assim, as dívidas se acumulam nos âmbitos público e privado. O primeiro se refere à dinâmica permanente de financiamento e refinanciamento das dívidas públicas, auste-ridade e acumulação rentista fundamentada em ativos públi-cos. E o endividamento privado à “incorporação do capital portador de juros/capital fictício à fábrica da vida social” (Paulani, 2024b), o que engloba até mesmo os programas de transferência de renda. Políticas de microcrédito e renda mínima, apesar de, a princípio, visarem combater a pobreza, tornam-se forma de colateralização de empréstimos e servi-ços financeiros variados, ou seja, de endividamento (Lavinas, 2017). Conforme figura 2, dados do Banco Central apontam que a relação entre o valor atual das dívidas das famílias com a renda acumulada nos últimos 12 meses alcançou 49,8% em 2025, sendo o maior nível já registrado 49,9%, em 2022, último ano de governo Bolsonaro.

Figura 2
Endividamento das famílias com o Sistema Financeiro Nacional em relação à renda acumulada nos últimos 12 meses no Brasil (BCB/IBGE)

O aumento do endividamento é acentuado durante os governos Lula e Dilma (2003-2016), com ligeira queda no período de crise econômica, e retomada no governo Bolsonaro, sobretudo na pandemia. No terceiro governo Lula, há ligeira queda inicial e retomada da trajetória ascendente entre 2024 e 2025. A única reação governamental em relação ao tema, o programa Desenrola, esteve atrelada aos interesses financistas, na medida em que não promoveu perdão de dívidas e seguiu a prática de cobrança de juros abusivos, até mesmo na renegociação de dívidas (Lavinas e Lins, 2024). Isso indica, neste componente do capitalismo neoliberal, a atuação de Lula na forma do sindicalismo propositivo, que busca barganhar alguma benesse aos trabalhadores, ao mesmo tempo em que aceita e reforça os pressupostos dominantes. O resultado é “a generalização da expropriação financeira que arrasta os setores populares para dentro do sistema financeiro, tornando-os peça-chave na criação de riqueza financeira, a contrapartida da dívida de que se apropriam as elites” (Lavinas e Lins, 2024).

Desse modo, a unidade empresarial em torno dos dois componentes-chave do neoliberalismo, o avanço do capital sobre o trabalho e a financeirização, assinala uma cena política distinta no terceiro governo Lula quando comparada aos governos anteriores liderados pelo PT. As disputas que opunham coalizões de classes dominantes eram próprias de um momento do capitalismo que correspondia à difusão dos princípios do Consenso de Washington (CW), um paradigma macroeconômico propagado a partir de 1989 por instituições financeiras supranacionais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (BM). O CW promovia a defesa de dez regras básicas em favor do capital, incluindo “estabilização por meio da redução da inflação e da disciplina fiscal; liberalização do comércio e dos fluxos de capital” e privatizações (Gabor, 2020, p. 2), que geraram contradições entre frações de classe burguesas, pelos impactos que, por exemplo, abertura comercial e valorização do real causaram na indústria nacional (Boito Jr., 2012).

A crise financeira de 2008 provocou, paradoxalmente, um novo ciclo de financeirização, mas com características e em condições históricas distintas daquelas prevalentes sob o CW. A mudança pode ser expressa pela formação do Consenso de Wall Street (CWS), o qual adota como princípio a proteção do capital financeiro ao risco, antes um componente das decisões de investimento (Gabor 2020). Para além do incremento significativo do poder estrutural das finanças sobre a produção e o consequente disciplinamento das corporações para distribuir mais-valor na forma de dividendos, as novidades envolvem “processos contingentes que transformam todo tipo de coisas em ativos” (Langley, 2020), incluindo os modos de vida das famílias e as políticas sociais (Lavinas, 2017). “Na era dos investidores institucionais e gestores de ativos que movimentam capital por meio de fluxos de portfólio”, a financeirização é impulsionada pela ação do Estado na construção de novas classes de ativos (Dafermos, Gabor e Michell, 2021). O CWS tem como contraparte nacional uma nova jabuticaba, o Consenso da Faria Lima. A atuação consonante dos variados e heterogêneos setores do capital que - apesar de possuírem interesses aparentemente distintos em relação, por exemplo, às taxas de juros, terminam por defender de forma uníssona um programa comum de austeridade fiscal - tem como elemento de unidade as disputas pelo orçamento público e trabalhistas. Medidas adotadas no contexto pós-golpe de 2016, como reforma trabalhista, autonomia do Banco Central, ECTG e reforma da previdência, visaram resolver a crise econômica em favor do capital por duas formas principais e conjugadas: a resolução do conflito distributivo em favor do capital; e a recomposição das margens de lucro. Isso conformou uma coalizão produtivo-financeira, o Consenso da Faria Lima, que atuou em defesa de um programa comum durante o terceiro governo Lula.

A “síndrome de Estocolmo” a que Josué Gomes se referiu alude à suposta contradição entre interesse rentista e produtivo, mas ilude ao omitir o que une tais frações de classe: o interesse comum na superexploração do trabalho, no direcionamento do orçamento público aos variados setores do capital e na garantia dos mecanismos institucionais de expropriação financeira. Ainda que o terceiro governo Lula tenha resistido a pressões mais extremas sobre os benefícios previdenciários e os pisos constitucionais de investimento em educação e saúde, os limites do novo arcabouço fiscal e as altíssimas taxas de juros reforçam a capacidade do Consenso da Faria Lima de captura política.

Consenso da Faria Lima e populismo no governo Lula 3

Este artigo teve por objetivo analisar as relações entre o terceiro governo Lula e o empresariado industrial e financeiro, e assumiu a hipótese de que a cena política atual é caracterizada por alto grau de unidade entre as distintas frações das classes dominantes do país em torno de um programa de superexploração do trabalho e expropriação financeira, o Consenso da Faria Lima. A isso conjugou-se uma segunda hipótese incipiente, a ser desenvolvida em pesquisas futuras: a de que o lulismo assumiu forma de um populismo mais próximo das variantes de maior confronto entre estatismo e classes dominantes, como o varguismo do pós-guerra, o janguismo e o brizolismo. Ao promover políticas como reforma do imposto de renda, aumento do salário-mínimo, pleno emprego, expansão fiscal conjugada com adoção de políticas sociais de amplo alcance, e com isso acirrar os conflitos (re)distributivos, Lula estabeleceu uma relação de representação direta com frações do pro-letariado e subproletariado. Trata-se, à maneira populista, de uma representação pouco mediada institucionalmente, com inércia partidária (Saes, 1985) e apoiada no fetiche do Estado protetor dos pobres (Boito Jr., 2005). Esses elementos estavam em alguma medida também presentes nos seus primeiros mandatos, mas agora, de maneira inédita, foram manifestados em conflito aberto contra interesses das classes dominantes unidas em torno do Consenso da Faria Lima, em atuação que combina as experiências dos sindicalismos de confronto e propositivo.

Sob liderança lulista, ao modo do sindicalismo de confronto, o Estado, em alguma medida, protegeu o trabalho e se antepôs à ação predatória do capital. Em reação permanente, o Consenso da Faria Lima logrou estabelecer as fronteiras de ação do governo, por mecanismos como o controle de canais midiáticos e a relação de representação com o Congresso. Outro limite foi estabelecido pelo segundo componente-chave da fase neoliberal do capitalismo: a hegemonia financeira. Se, por um lado, o terceiro governo Lula atuou em favor do trabalho nos conflitos (re)distributivos; por outro, seguiu promovendo mecanismos de expropriação financeira, em ação à maneira do sindicalismo propositivo e alinhada ao neoliberalismo, como as altíssimas taxas de juros e as políticas de endividamento familiar.

Isso remete o debate a outra questão a ser investigada em pesquisas futuras: o de como conceituar as relações de hegemonia no Brasil. Para tanto, pode ser elucidativa a contraposição entre hegemonia no sentido gramsciano e a ideia de “hegemonia regressiva” para caracterizar o neoliberalismo dos anos 1990, em que as classes subalternas se integraram ao programa dominante sem obter concessões (Boito Jr., 2005). O lulismo aproxima a política brasileira do conceito original de Gramsci: são combinados mecanismos de coerção e consenso nas relações de dominação, e a hegemonia financeira se sustenta na produção de um consentimento, de fato, ativo, em que é forçada a conceder ganhos aos trabalhadores. Em contraposição, o Consenso da Faria Lima luta diariamente pela volta da “hegemonia regressiva” do neoliberalismo, de superexploração e expropriação. Se assim o for, os próximos embates entre essas duas formas de hegemonia definirão os rumos do lulismo e da cena política brasileira.

Disponibilidade de Dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Bibliografia

1

O termo “ofensivo” se refere, em consonância com a literatura referente ao movimento sindical, a reivindicações de ampliação de direitos e salários, em con-traposição às pautas defensivas, que são aquelas contrárias a reduções de direitos (Marcelino e Galvão, 2020).

2

O embate seguiu em curso, de modo que o quadro aqui descrito se encerra no momento de elaboração do artigo, abril de 2026, sendo desconsiderados os desdobramentos subsequentes do vaivém das tarifas de Trump.

3

Ver em: https://www.vidaalemdotrabalho.com.br/.

Editora responsável:

Natália Nóbrega de Mello

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    05 Out 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    22 Maio 2026
  • Aceito
    24 Jul 2026
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