O hiperparatireoidismo secundário (HPTS) é uma complicação frequente e que pode estar presente desde as fases iniciais da doença renal crônica (DRC)1. Estima-se que a prevalência do HPTS, a depender do critério diagnóstico e da fase da DRC, varia de 31% a 85%2, o que reforça a extensão de seu impacto nos pacientes renais crônicos e a importância do manejo adequado. O HPTS é caracterizado, primordialmente, por níveis elevados do paratormônio, além de, comumente, hipocalcemia e hiperfosfatemia; está associado à disfunção de diversos órgãos e sistemas, como o cardiovascular, o musculoesquelético, o sistema hematopoiético, o sistema nervoso, entre outros. Por conseguinte, os pacientes com HPTS podem apresentar diversas queixas clínicas, como prurido, artralgia, dores ósseas, mialgia, fadiga e fraqueza muscular1. Portanto, é compreensível que, em razão dessa miríade de alterações e manifestações, o HPTS contribua para reduzir a sobrevida e a qualidade de vida dos indivíduos com DRC1.
A qualidade de vida é considerada um importante indicador de como uma doença pode afetar a vida das pessoas e de avaliação da qualidade da atenção à saúde, particularmente nas doenças crônicas, que tem sido cada vez mais utilizada para decisões terapêuticas, políticas de saúde e decisões sobre reembolso3. Todavia, o fato de a qualidade de vida ser de difícil mensuração quantitativa e, por vezes, percebida como um desfecho “suave”, em oposição aos desfechos “duros” e exames laboratoriais que podem ser aferidos numericamente, representa um obstáculo para a implementação da sua avaliação tanto na prática quanto na pesquisa clínica3. Adicionalmente, tem sido reportado que a aplicação de questionários de qualidade de vida específicos para uma determinada doença é preferível, em comparação aos questionários genéricos, para fornecer melhor compreensão do impacto relacionada a uma determinada enfermidade4.
Em consonância com essas questões, isto é, a importância do impacto do HPT na DRC e de se utilizar um questionário específico, o estudo de Campos et al.5 objetivou validar a utilização no Brasil do questionário Parathyroid Assessment of Symptom (PAS) para avaliar a qualidade de vida dos pacientes com DRC e hiperparatireoidismo. Após criteriosa tradução e adaptação cultural, o questionário PAS foi aplicado em 100 pacientes (61 homens; idade 55,6 ± 15,1 [21–81] anos), 68% com HPTS e 32% com HPTT. A maioria dos pacientes apresentava sobrepeso, e em 22 pacientes o diabetes mellitus foi considerado a causa da DRC. Entre os pacientes com HPTS, a maioria estava em hemodiálise ou em diálise peritoneal; cerca de 12% estavam em tratamento conservador. Trinta e dois pacientes eram transplantados renais com o HPT terciário (HPTT). Para a validação do questionário PAS, foi utilizado como padrão-ouro o questionário Short form health-36 (SF-36). De acordo com os autores, foi demonstrada a confiabilidade do questionário PAS, além da consistência e da concordância de ambos os questionários. Os autores sugerem a potencial aplicabilidade da versão em português do PAS para identificar sintomas e avaliar melhorias na qualidade de vida após a terapia farmacológica ou cirúrgica para o HPTS5.
O questionário PAS foi desenvolvido pelo professor Pasieka, em 1998, com o objetivo de avaliar o impacto do HPT primário (HPTP) no estilo de vida e no bem-estar dos pacientes. Por meio dessa ferramenta, foi possível demonstrar a melhoria de manifestações clínicas de pacientes com HPTP6 e, subsequentemente, de pacientes com HPTS e HPTT submetidos a tratamento cirúrgico7. Esses estudos ilustram a potencial aplicabilidade do questionário e a importância de termos esse instrumento traduzido e validado para o nosso meio, conforme já foi feito em outros países8.
Dada a potencial relevância do estudo de Campos et al.5, é importante ter atenção a alguns pontos relacionados ao desenho do estudo como estímulo para futuras pesquisas que venham a utilizar o questionário PAS. Primeiramente, é preciso ter em mente que as manifestações avaliadas pelo questionário PAS não são específicas do hiperparatireoidismo e que esse instrumento foi desenvolvido originalmente para avaliar o HPTP. O presente estudo incluiu um grupo heterogêneo de pacientes com relação ao estágio da DRC, modalidade de terapia renal substitutiva (TRS) e nível de PTH. Dentro desse contexto, devemos considerar que pode haver sobreposição entre os sintomas urêmicos em geral e os relacionados ao hiperparatireoidismo. Além disso, a idade e as comorbidades, como sobrepeso e diabetes mellitus, além de medicações, um potencial fator de confusão não reportado pelos autores, podem interferir diretamente na sintomatologia dos pacientes. De fato, um estudo recente reportou que níveis de PTH leve a moderadamente elevados em pacientes idosos com DRC avançada, não em TRS, se associou com menor carga de sintomas quando comparados aos de pacientes com hiperparatireoidismo grave9. Assim, teria sido interessante, para melhor apreciação da consistência do PAS na avaliação de pacientes com DRC, analisar, por exemplo, grupos de pacientes separados por faixa de PTH e por modalidade de TRS ou estágio de DRC a fim de demonstrar que, de fato, o PAS consegue capturar a qualidade de vida e sintomatologia do HPT em comparação ao SF-6. Essa abordagem poderia, potencialmente, demonstrar com maior clareza a contribuição do HPT nos sintomas avaliados e, consequentemente, a confiabilidade e aplicabilidade do questionário PAS, como questionário de qualidade de vida específico do HPT em pacientes renais crônicos.
A tradução, a adaptação cultural e a validação do questionário PAS é uma grande contribuição para a avaliação complementar dos pacientes renais crônicos com HPT. De agora em diante, temos a oportunidade de incorporar essa ferramenta na prática clínica e em futuros estudos.
Referências bibliográficas
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