Open-access MISOGINIA E DISCURSO DE ÓDIO: Um estudo netnográfico no WhatsApp

Misoginia y discurso de odio - Un estudio netnográfico sobre WhatsApp

RESUMO

Este artigo relata como o discurso de ódio contra mulheres se manifesta em grupos abertos de WhatsApp, a partir da análise aprofundada de um grupo. Adotou-se a perspectiva Netnográfica, composta por um percurso metodológico que incluiu: construção do referencial teórico, análise documental dos Termos de Serviço do WhatsApp, observação participante artificial em grupos abertos do WhatsApp e Facebook, análise de Conteúdo e entrevistas semiestruturadas com especialistas. Foi possível identificar comportamentos que vão da desumanização à incitação de violência, destacando as características dos discursos misóginos e os aspectos culturais e comportamentais dos participantes. Os achados evidenciam lacunas nos Termos de Serviço do WhatsApp, expõem a misoginia e demonstram como o discurso de ódio reflete relações de poder e objetiva subjugar mulheres, prejudicando a democracia e a dignidade humana.

Palavras-chave
discurso de ódio; misoginia; WhatsApp; plataformas digitales; cibercultura

ABSTRACT

This study examines how hate speech against women manifests in open WhatsApp groups, based on an in-depth analysis of one group. The research adopts a netnographic approach, structured through a methodological pathway that includes the development of a theoretical framework; a documentary analysis of WhatsApp’s terms of service; artificial participant observation in open WhatsApp and Facebook groups; content analysis; and semi-structured interviews with experts. The analysis identifies behaviors ranging from dehumanization to incitement to violence, highlighting key characteristics of misogynistic discourse as well as the cultural and behavioral dynamics of participants. The findings reveal gaps in WhatsApp’s terms of service, expose misogyny, and demonstrate how hate speech reflects power relations and aims to subjugate women, harming democracy and human dignity.

Keywords
hate speech; misogyny; WhatsApp; digital platforms; cyberculture

RESUMEN

Este artículo describe cómo se manifiesta el discurso de odio contra las mujeres en grupos abiertos de WhatsApp, con un análisis en profundidad de un grupo. Se adoptó la perspectiva Netnográfica, un enfoque metodológico que incluyó la construcción del marco teórico, el análisis documental de los Términos de Servicio de WhatsApp, la observación participante artificial en grupos abiertos de WhatsApp y de Facebook, el análisis de contenido y entrevistas semiestructuradas con expertos. Fue posible identificar conductas que van desde la deshumanización hasta la incitación a la violencia, destacando las características de los discursos misóginos, los aspectos culturales y el comportamiento de los participantes. Los hallazgos resaltan lagunas en los Términos de servicio de WhatsApp, exponen la misoginia y demuestran cómo el discurso de odio refleja relaciones de poder y apunta a subyugar a las mujeres, dañando la democracia y la dignidad humana.

Palabras clave
discurso de odio; misoginia; WhatsApp; plataformas digitales; cibercultura

Introdução

A violência de gênero online se intensifica ao explorar características do ciberespaço, como a opacidade de suas regras e as falhas nos mecanismos de denúncia, e facilita a perpetuação de práticas como o discurso de ódio. Sabe-se que a misoginia permanece como uma das principais formas de discurso de ódio no ambiente digital brasileiro, apresentando crescimento expressivo recente. Em 2025, a SaferNet Brasil registrou 8.728 denúncias de misoginia, configurando o segundo tipo de violação mais reportado e aquele com maior crescimento proporcional no período, com aumento de 224,9% em relação ao ano anterior (Agência Brasil, 2026). O aumento que é atribuído tanto à legitimação do discurso de ódio misógino quanto à maior sensibilização social que culmina em mais denúncias, entretanto, evidencia a vulnerabilidade das mulheres nas Plataformas Digitais.

Frente ao fenômeno, compreender a cultura dos grupos, as políticas e os mecanismos de denúncia são roteiros necessários para o debate sobre o discurso de ódio em plataformas Digitais. Neste contexto, a pesquisa relatada neste artigo buscou responder à seguinte pergunta: “como o discurso de ódio contra a mulher se dá em grupos abertos de WhatsApp?”. Para tanto, foram observados 14 grupos, sendo um deles selecionado para análise aprofundada. O WhatsApp foi escolhido por sua ampla capilaridade no Brasil, visto que o aplicativo está presente em cerca de 98% dos smartphones no país e é acessado diariamente por aproximadamente 96% a 97% dos participantes, consolidando-se como o principal canal de comunicação digital entre brasileiros (Opinion Box, 2025); e uma das formas de usá-lo é por meio de grupos abertos, nos quais basta ter o link ou convite de acesso para fazer parte.

O objetivo geral da pesquisa foi compreender as dinâmicas comunicacionais nesses ciberespaços. Para tanto, foi adotada uma perspectiva Netnográfica, composta por um percurso metodológico que incluiu: construção do referencial teórico; análise documental dos Termos de Serviço do WhatsApp; observação participante artificial em grupos do Facebook e do WhatsApp; análise de Conteúdo; e entrevistas semiestruturadas com especialistas. Dentre os resultados, é possível demonstrar que as brechas nos Termos de Serviço, o desconhecimento da existência desses contratos e a falta de clareza nas sanções contribuem para as dinâmicas do discurso de ódio de gênero em grupos abertos do WhatsApp. Ademais, foi possível traçar um retrato da misoginia e do homem brasileiro e seu comportamento nesses ciberespaços, demonstrando o que é importante para ele, o que pode ser estigmatizado, o que é ofensivo e o que é tolerável.

Discurso de ódio nas Plataformas Digitais

Observar o discurso de ódio como um fenômeno social implica em considerar a linguagem opressiva como uma forma de violência (Butler, 2021), sendo essa uma manifestação de poder (Arendt, 2020). No ambiente digital, a violência é intensificada por grupos machistas, racistas e homofóbicos, em especial nas relações de gênero, moldadas historicamente por estruturas patriarcais enraizadas no capitalismo e na colonialidade (Segato, 2021).

Tontodimamma et al. (2021) destacam a complexidade em definir o discurso de ódio, apesar de identificarem elementos centrais como a segmentação de grupos, a intenção de causar danos e o contexto que pode resultar em violência. Define-se discurso de ódio como aquele que estigmatiza indivíduos ou grupos por meio de palavras, imagens ou símbolos, com a intenção de desumanizar, incitar violência e discriminação (Braga, 2018; Carmo, 2016); associado a práticas racistas, xenofóbicas, homofóbicas e misóginas, violando os princípios de respeito e tolerância (Brown, 2017). A liberdade de expressão, comumente usada para defender o discurso de ódio, não é absoluta, já que não pode ser utilizada para violar os direitos de outros. Por isso, o discurso de ódio é uma conduta, não uma mera opinião (Voos, 2020; Valente, 2020; Latgé; Schneider, 2024).

As Plataformas Digitais desempenham papel crucial na amplificação de comportamentos, expondo as formas como podem incentivar, facilitar e ampliar tendências prejudiciais (Gillespie, 2018). Nesse sentido, as mulheres, em particular, enfrentam uma crescente ameaça de ataques online motivados por discursos misóginos e discriminatórios. Entende-se que elas são os principais alvos do discurso de ódio justamente pela historicidade embutida nessa forma de violência. E dentre as postagens e comentários com discurso de ódio está a misoginia, informalmente caracterizada pelo ódio ou aversão às mulheres, mas que na sua raiz diz sobre poder, correção. Esta prática é empregada para forçar as mulheres a se comportarem em conformidade com as normas patriarcais, sob ameaça ou punição direta quando não o fazem (Richardson-Self, 2021). Estudos sobre comunidades no WhatsApp (Zanello, 2020; Braga; Carauta, 2020; Vilaça; D’Andréa, 2021; Silveira; Souza; Rosa, 2022) e em outras plataformas (Peres-Neto; Pereira, 2019; Matos et al., 2024; Valente, 2026) revelam a objetificação sexual das mulheres e a perpetuação de estereótipos de gênero.

Plataformas Digitais são “infraestruturas digitais (re)programáveis que facilitam e moldam interações personalizadas entre usuários finais e complementadores, organizadas por meio da coleta sistemática, processamento algorítmico, monetização e circulação de dados” (Van Dijck et al., 2020, p. 4). Este conceito reflete a transformação das plataformas em elementos estruturais da vida digital contemporânea. No Brasil, o WhatsApp tornou-se a principal fonte de informação para 79% da população (Agência Brasil, 2019), apesar de suas contradições, como as políticas de privacidade e termos de uso (Valente, 2020). Em alguma medida, todas as plataformas proíbem o discurso de ódio, ainda que dentro de categorias mais amplas, como “ataques pessoais” (Gillespie, 2018). As regras estabelecidas podem indicar certa preocupação com diversas formas de ódio, mas a aplicação prática dessas políticas é frequentemente questionada (Silva et al., 2019; Dos Santos et al., 2023; Santos Junior, 2025; Sassi; Rosa, 2024).

O WhatsApp define regras contra conteúdos de ódio em seus Termos de Serviço, mas sua aplicação é limitada, e a moderação de conteúdo depende da denúncia dos participantes (Ullmann; Tomalin, 2020). Dentro desses termos, a Meta define regras explícitas para condutas inaceitáveis, incluindo a proibição de conteúdo ilegal, obsceno, difamatório ou de ódio, reservando o direito de remover conteúdos, restringir funcionalidades e banir usuários em caso de violação (Whatsapp, 2021). Porém, a ambiguidade dos termos não apenas desafia a identificação e remoção de conteúdo prejudicial, mas também sugere uma possível tolerância da plataforma em relação a mensagens que violam suas políticas. Uma análise dos Termos de Serviço do WhatsApp revela termos vagos e subjetivos, como “Uso Aceitável”, para descrever políticas relacionadas às violações, o que gera dúvidas sobre a eficácia e a clareza desses mecanismos, permitindo uma tolerância possível a certos discursos (Gillespie, 2018).

Procedimentos metodológicos

Para responder à pergunta de pesquisa foi adotada uma perspectiva Netnográfica (Kozinets, 2014) que direciona os procedimentos metodológicos escolhidos em seis etapas. Na Entrée Cultural, foram definidos os norteadores da pesquisa e o planejamento da pesquisa de campo, que incluiu imersão em grupos selecionados e Observação Participante Artificial (Oliveira, 2016), caracterizada pela inserção da pesquisadora nos grupos com participação controlada, acompanhando as interações sem interferir ativamente nas dinâmicas do ambiente. A partir da técnica de snowballing - amostragem em cadeia baseada em indicações sucessivas, em que novos grupos são encontrados a partir de recomendações e conexões entre participantes - chegou-se a cinco grupos do Facebook, que foram a fonte para localização de 14 grupos abertos do WhatsApp.

De 2020 a 2022, a pesquisadora realizou a observação exploratória desses 14 grupos, e na etapa denominada Checagem, um deles foi selecionado para análise aprofundada e teve seu nome anonimizado – Grupo 2. A seleção representa aquele que melhor se apresentou como uma comunidade, ou seja, que possuía laços sociais, identidade compartilhada e uma cultura distinta. É fundamental compreender a comunidade como locais em que são compartilhadas tradições, rituais e responsabilidades morais, refletindo as dinâmicas sociais e culturais contemporâneas. O WhatsApp, por exemplo, representa essas características em grupos abertos, pois a comunicação livre e a formação de redes são evidentes.

No “Grupo 2”, após um período de cinco dias em janeiro de 2020, a pesquisadora foi removida por não participar e interagir com os demais integrantes do grupo. Porém, seguindo as funcionalidades do próprio WhatsApp, todos participantes têm acesso às mensagens e conteúdo multimídia e podem exportar conversas, com limites1 definidos pela própria plataforma para a quantidade de mensagens incluídas no arquivo (WhatsApp, 2021). Assim, na Coleta e Análise (Kozinets, 2014), um levantamento prévio de todas as postagens relevantes foi realizado, em 4.772 linhas. Após a higienização dos dados, 127 mensagens se tornaram o corpus da Análise de Conteúdo (Bardin, 2016), que resultou seis categorias: “Desumanização”, “Ridicularização”, “Assédio”, “Silenciamento”, “Ataque e incitação à violência” e “A mulher mais próxima”.

Para a Validação dos Dados (Kozinets, 2014), diante da sensibilidade do tema e da impossibilidade de retorno aos integrantes do grupo, foram selecionados três especialistas com atuação na intersecção entre discurso de ódio e gênero, vinculados à pesquisa acadêmica e com experiência em estudos sobre plataformas digitais e comunidades online. Codificados como Especialista X, Y e Z, os participantes incluem docentes e pesquisadoras da área (Tabela 1). As entrevistas semiestruturadas foram realizadas entre 5 e 13 de julho de 2022, com duração média de 1h30, sendo gravadas e transcritas. Para além da validação das categorias da Análise de Conteúdo, os especialistas contribuíram para a interpretação dos achados, articulando-os ao referencial teórico.

Tabela 1
Perfil dos especialistas entrevistados.

Também na perspectiva netnográfica de Kozinets (2014), adotaram-se posturas e cuidados éticos durante todo o desenvolvimento da pesquisa. No entanto, é importante observar que o ciberespaço é um território relativamente novo, e um framework ético claro ainda está em desenvolvimento para orientar os pesquisadores (Townsend; Wallace, 2016). Em ambientes digitais potencialmente perigosos, como grupos que promovem discurso de ódio, é particularmente relevante quando o pesquisador, especialmente se mulher, se envolve em coleta de dados violentos. Questões Éticas relevantes à pesquisa Netnográfica incluem a natureza pública ou privada das comunidades, obtenção de consentimento informado, propriedade dos dados postados e a influência das fronteiras internacionais (Kozinets, 2014). Nos grupos abertos de WhatsApp e Facebook, nos quais os participantes são desconhecidos e fluidos, a verificação de informações é desafiadora. Diante dessas complexidades, a pesquisa adotou como medidas para garantir uma abordagem ética: os contratos previamente aceitos pelos participantes; o anonimato de todos os envolvidos; a coleta de dados realizada dentro dos parâmetros dos Termos de Serviço; e a apresentação dos resultados feita de forma a preservar a confidencialidade, sem expor nomes, números de telefone ou outras informações identificáveis.

Durante mais de dois anos de pesquisa Netnográfica, foi realizado um processo contínuo de observação e registro que resultou na elaboração de um Diário de Campo2 uma das técnicas fundamentais da Netnografia que engloba não apenas os dados arquivados, coletados e criados, mas também as percepções sobre os comportamentos.

Análise e discussão dos resultados

A comunidade escolhida, aqui denominada de “Grupo 2”, tem em sua descrição ser voltada para diversão, amizade, troca de figurinhas e novos contatos. É formada majoritariamente por homens, o que é percebido pelas fotos e nomes dos contatos, quando disponibilizados, mas principalmente pelas conversas que acontecem no espaço. Eles estão inseridos na cultura brasileira que tem como pilares o patriarcado e o machismo. Trata-se de um grupo com até 256 participantes, número que variou durante a participação, voltado à interação social e entretenimento, com integrantes de diferentes regiões do Brasil, identificados por DDD de múltiplos estados, com concentração em diferentes regiões do país, além da presença de números com DDI.

Para classificar essas mensagens como discurso de ódio, a pesquisa se valeu do referencial teórico, assim como do que a plataforma chama de “Uso Aceitável”. A leitura total das mensagens foi essencial para identificar o contexto e, assim, selecionar o corpus que melhor representasse as dinâmicas do discurso de ódio contra a mulher no ciberespaço estudado. Com isso, foram separadas 127 mensagens que se encaixam nas definições de discurso de ódio de gênero e misoginia e que, a priori, ferem os Termos de Serviço do WhatsApp.

Observou-se a existência de hierarquias no “Grupo 2” que refletem aspectos históricos e coloniais da construção de gênero. Sabe-se que os integrantes têm papéis definidos na pirâmide social que há na comunidade. Havia aqueles que mandavam mais de cem mensagens no período observado; outros que enviaram apenas duas e se mantiveram em silêncio; pessoas que entraram, se depararam com aquele conteúdo e já saíram do grupo; entre outros.

Tabela 2
Critérios para categorias da Análise de Conteúdo.

Ao analisar uma comunidade online, é essencial identificar os membros mais ativos e líderes, entender os principais temas, a história e eventuais conflitos do grupo, além das características demográficas e interesses dos participantes, observar a linguagem, os rituais, e as práticas comuns da comunidade (Kozinets, 2014). Fazer essas perguntas para os dados também tornou possível perceber uma hierarquia sobre as relações de poder: mulheres que correspondem às expectativas do grupo são tratadas de forma diferente daquelas que não. Para além das mensagens, aqui a dinâmica é importante, pois as que seguem um padrão de beleza, que ficam caladas diante de ataques ou que atendem aos pedidos masculinos (enviar fotos, áudio, responder na hora, responder mensagens privadas) são mantidas no “Grupo 2”. Essa conclusão é reforçada pela Especialista Y, que afirma ao ter contato com o material: “No WhatsApp, se elas podiam estar no grupo é porque elas tinham algo que valia a pena, provavelmente a beleza, a sensualidade, tiravam sarro das mulheres que não são assim, essas coisas”.

Há exigências diferentes para elas e uma linguagem que muda quando elas estão inseridas nas conversas, especialmente para “corrigir” comportamentos. Espera-se que aquela mulher esteja ali para corresponder aos desejos do grupo, que estão mais relacionados com a disponibilidade para a violência do que para a diversão. Trata-se de um jogo, em que o poder de um sobre o outro vai direcionar o tom das conversas. Nesse sentido, Zanello (2018, p. 230) diz que o “Jogo de Hierarquias” é dinâmico e que “alguns homens podem fazer alianças sob o escudo da homofobia e assim se sentirem fortalecidos na rejeição das 'bichas' ou na desqualificação das mulheres e de atributos considerados femininos”. Isso porque, a rejeição e o repúdio são partes importantes na afirmação da masculinidade.

Para compreender essas e outras dinâmicas a partir da interpretação dos dados levantados (Bardin, 2016), foram seguidos critérios como o conceito-chave usado na categorização; a incidência, ou seja, o número de vezes que aparece dentro do corpus; exemplos de palavras encontradas; o contexto dessas mensagens e os operadores teóricos que auxiliam na interpretação dos achados (Tabela 1). A seguir, cada uma dessas dinâmicas é relatada, com exemplos de mensagens e comentários dos especialistas convidados para validação dos achados.

No conceito de discurso de ódio, a Desumanização é um elemento-chave, pois trata de ofensas que negam a humanidade daquela pessoa e ferem a dignidade humana ao se referirem a um indivíduo como menor ou de menor valor que o outro. Uma das mensagens, “Late, cadela”, exemplifica momentos em que a mulher estava sendo comparada ao animal não só pelo termo “cadela”, mas por meio do verbo “latir”. Isto inferioriza a voz e o lugar que essas mulheres ocupam no grupo. São mensagens que tratam as mulheres a partir de nomes de animais que fazem referência ao peso, à conduta moral ou à higiene. O objetivo dos emissores desses discursos, ao usar expressões como “porca gorda”, “orca”, “baleia” e “cadela feia”, significa colocá-las em um lugar inferior. Como aponta o Especialista X, “isso tem um peso muito grande, inclusive para estratégias de moderação. Se estamos falando daquilo que ataca a dignidade humana, é preciso entender o que é humano e o que é dignidade antes”.

Já a Ridicularização aparece em mensagens que têm o intuito de zombar, caçoar, expor, constranger, debochar ou diminuir as mulheres a partir de características identificadas, como a idade, a aparência, a estética, o jeito de falar, entre outros. São discursos que têm como elementos principais a gordofobia, o etarismo e a ridicularização da aparência. Por exemplo, uma mulher que se recusa a enviar fotos das partes íntimas recebeu a mensagem “Não mando as teta pq não boto o silicone ainda”. O exemplo comprova uma ridicularização que passa por atributos físicos e especialmente por nuances de gordofobia e representa, também, o quanto o ódio à mulher está relacionado ao seu valor. Em determinada mensagem (“Se eu gostasse de gorda fedorenta eu te daria 23cm”), um dos integrantes utiliza o termo “gorda fedorenta” e insinua que, se ele gostasse de algo assim, teria relações sexuais com ela. A mensagem, apesar da construção comum em discurso de ódio de gênero, é, na análise dos especialistas, indigesta e degradante. Embora haja certas semelhanças entre as expressões utilizadas com a Desumanização, essa categoria foi desmembrada da anterior por ter um viés de zombaria e uso de recursos humorísticos, muito mais do que o intuito de desumanizar.

A categoria Assédio reúne mensagens que mostram, principalmente, as abordagens feitas nos momentos de entrada de novas mulheres no grupo. Como há uma regra de “se apresentar com foto, nome e cidade”, com frequência as mulheres eram assediadas com mensagem como “Agora manda a foto da buceta sua puta”. Para elas a regra é mais cobrada, e aquelas que não correspondem são tratadas de forma repugnante como “feias”, “gordas”, “baleias”, “velhas”, entre outros, como visto nas categorias Desumanização e Ridicularização. Entretanto, de maneira similar, as mulheres que se apresentam conforme as regras também são atacadas: se sua foto é lida como sensual, automaticamente ela recebe comentários pornográficos, e se responde à altura é tratada como “puta” e “vadia”. O assédio a elas é constante, com pedidos de fotos, invasão do privado e comentários sexuais não solicitados.

Algumas mensagens se assemelham pelo tom imperativo: “se não mandar foto do peito vai ser removida”, “mostra esse peito pá nois” e “tira essa roupa aí vadia” são recursos que os homens utilizam no “Grupo 2” para assediar as mulheres que chegam no grupo, o que é percebido em outros espaços. Isso porque, segundo a Especialista Y, “a sexualização é comum, no sentido de que é normal para eles falarem assim, dos nossos peitos, da nossa buceta, da nossa xota raspada. É o tipo de coisa que está no linguajar desses homens e meninos que tratam a mulher como objeto sexual”. Além disso, corrobora-se com Zanello (2020), que categorizou os tipos de comentários misóginos em grupos de WhatsApp exclusivos de homens e em que a principal categoria foi a objetificação da mulher. Percebe-se o assédio como uma consequência nítida dessa objetificação, ao enxergar essas mulheres como fontes de prazer, seja por sua agradabilidade ou aparência. Se ela mandou aquela “fotinho” é porque tem interesse na relação sexual, como aparece na mensagem “Vc com essa fotinho quer levar maderada né akakakakakaka”. É percebida uma recorrência discursiva de que há um entendimento que “o objetivo final da existência feminina é agradar os homens de alguma forma, seja sendo agradável, sendo bonita, e não cumprir esse agrado faz com que mereça ser xingada de alguma forma” (Especialista Z).

Para Richardson-Self (2021), nessa lógica, a mulher não tem agência sexual, mas sim é um objeto sexual em vários sentidos. E é por isso que se espera que elas queiram ser o objeto do desejo de um homem em vez de serem elas próprias um agente sexual. A autora traz que “a mulher é figurada como algo que se age: o homem fode, a mulher é fodida – ou seja, a submissão e a passividade das mulheres são tornadas normativas” (Richardson-Self, 2021, p. 47).

Na sequência, foram classificados conteúdos na categoria Silenciamento, com frases como “Cala boca e mostra os peito vaca”. Entende-se que o principal prejuízo desta prática de discurso está na retirada da voz destas mulheres. Isto é nocivo não só porque esses discursos são agressivos, mas pela exclusão das mulheres em determinados espaços. Nas mensagens “Fica quieta fêmea” e “Toma aqui! 🍼 Põe na boca e fica quieta. Tú não tava sabendo pedir leite!” isso fica evidente, pois ao tratar de discurso de ódio de gênero, de acordo com Richardson-Self (2018, p. 265), “o fator coercitivo está em jogo na tentativa de silenciar as mulheres e calá-las, seja envergonhando-as ou fazendo-as sentirem-se ameaçadas”. Por isso, para a Especialista X, essa categoria explicita que “tem um dano social aqui, tira a pessoa do debate público, silencia e busca submissão, verticaliza a relação”.

Butler (2021, p. 39) afirma que “o que o discurso de ódio faz, então, é constituir o sujeito em uma posição subordinada”. Mas quando o Assédio e o Silenciamento não dão conta de subjugar as mulheres na dinâmica do “Grupo 2”, observou-se uma nova camada de discurso de ódio, voltada para uma nova categoria, Ataque e incitação à violência. Nesse sentido, há o questionamento se “existe um discurso de ódio mais perigoso, maior, que mereça mais atenção? Essa é uma pergunta inacabada. Pensando nesse aspecto, há pesos diferentes para silenciamento e ataque, pelo menos para o sentido de moderação” (Especialista X). Por isso, com a divisão, apresenta-se uma categoria que representa a misoginia na sua forma mais pura e violenta. Com isso, foram analisadas 16 mensagens que continham teor de violência física ou agressão verbal direta. Dentre elas estão duas mensagens de teor mais sensível: “A próxima vez que tu me deixar no vácuo vou te rebocar na porrada vadia safada” e “Vou rasga tua cara na bala”. De modo geral, estas mensagens têm ameaças físicas explícitas, seja por meio de “porrada”, insinuação de estupro ou “bala”. São mensagens de reação em um contexto em que aquela mulher não seguiu conforme o esperado, não atendeu algum pedido, ou simplesmente não respondeu as mensagens do “Grupo 2” rapidamente.

De acordo com Arendt (2020, p. 63), “nada é mais comum do que a combinação de violência e poder, nada é menos frequente do que encontrá-los em sua forma pura e, portanto, extrema”. E esses homens que mandaram mensagens que trazem ameaças e sugerem estupros corretivos, se beneficiaram do poder que possuíam no “Grupo 2”. Esse comportamento é também uma construção social do homem brasileiro que está impregnada em todas as camadas da sociedade. Segato (2021, p. 101) argumenta que:

Essa masculinidade é construída por meio de iniciação. Um sujeito é obrigado a adquirir o status da masculinidade enfrentando provações e até a morte, assim como na alegoria e hegeliana senhor-escravo. Esse sujeito masculino deve orientar-se constantemente para masculinidade, pois está sempre sob o olhar avaliador de seus pares. Ele deve confirmar e reconfirmar sua resistência e agressividade, bem como sua capacidade de dominar as mulheres e extrair delas o que eu chamo de tributo feminino, a fim de demonstrar que possui toda a variedade de poderes - físico, marcial, sexual, político, intelectual, econômico e moral - que lhe permitiria o reconhecimento como um sujeito masculino.

Por fim, denominou-se a categoria A mulher mais próxima para mensagens como “Manda a buceta da cadela q vc chama de mãe”, que trazem um teor de discurso de ódio que se alastra não só nas Plataformas Digitais e que busca atacar outros homens a partir de ofensas que são destinadas às mulheres mais próximas a eles: mães, na maior parte das vezes, mas também namoradas e irmãs. A figura da mãe aparece com frequência ao proferir discursos de ódio, na tentativa de ofender o outro, de forma que “eu posso sexualizar, objetificar e agredir mulheres, mas não àquelas que pertencem a esse grupo de mulheres respeitáveis - que são as relacionadas a mim, que sou um homem” (Especialista Z). Os termos “mãe” ou “irmã” sozinhos não identificariam um discurso de ódio. É neste sentido que a análise qualitativa é vantajosa, pois consegue olhar para essas nuances. Por exemplo, nessa categoria o “sua”, indicado pelos dois especialistas nos trechos acima, aparece num contexto em que a mãe é mais um objeto de posse daquele homem, inclusive sendo comparada a objetos em “Sua mãe vem junto de brinde?” e “Sua mãe é minha marmita, falta muito p chamar de mulher”. Novamente a categoria reflete sobre a intenção de quem emite a mensagem. Nesse caso, não é ameaçar uma mulher do grupo ou incitar violência contra ela; aqui há um adicional de desmoralizar aquele homem ao infringir um ataque às mulheres mais próximas a ele.

Considerações finais

Esta pesquisa examinou os grupos abertos do WhatsApp, com análise aprofundada de um grupo específico, e coletou informações que permitiram compreender o discurso de ódio contra a mulher nas Plataformas Digitais. Revelou-se a normalização do ódio e da misoginia, em seis categorias de discurso de ódio, que vão num crescente de agressividade, em grupos que se destinavam a fazer novas amizades. O discurso de ódio contra a mulher é uma expressão misógina enraizada em uma cultura de abusos e opressão de gênero, caracterizada pela agressividade e pela busca de subjugação. Esse tipo de discurso não apenas ataca, estigmatiza e silencia as mulheres no ciberespaço, mas também cria um ambiente inseguro para todas elas, independentemente de serem vítimas diretas ou não.

A Meta é participante central do “Grupo 2”, já que é por meio da empresa que os dados transitam. É ela quem faz a governança dessas informações, lidera e dita práticas para o mercado, bem como oferece a infraestrutura para que essas comunidades virtuais existam. O WhatsApp, enquanto artefato técnico, é um ator não-humano desta relação, que também possui vieses, inclusive o misógino. E não-humanos também são coloniais, capitalistas, patriarcais, heteronormativos, pois foram desenvolvidos e são geridos por essa sociedade.

Os grupos do WhatsApp operam como espaços de livre expressão, não há moderação eficaz tampouco transparência por parte da plataforma. Acredita-se que esses grupos têm um papel na disseminação de discursos de ódio devido à desinibição oferecida como affordance central do WhatsApp. Não há sanções claras previstas e não há denúncias, pois o conteúdo que está ali não horroriza nenhum deles, pelo contrário, é tolerado. Essa percepção levanta a questão do quão institucionalizado está o discurso de ódio, a ponto de ser parte da cultura.

Reconhece-se como limitações o recorte temporal, metodológico e de conteúdo, além da necessidade de uma abordagem mais interseccional e do envolvimento dos emissores de discursos de ódio de gênero. Em meio a oportunidades para pesquisas futuras, há o convite para uma reflexão sobre o tratamento do discurso de ódio e da misoginia na sociedade contemporânea brasileira, destacando a importância de desafiar e combater essas formas de violência no ciberespaço e além.

O estudo também destaca a necessidade de abordagens mais robustas para lidar com o discurso de ódio nas Plataformas Digitais, enfatizando a responsabilidade das empresas em promover ambientes seguros e respeitosos. Ainda, em termos de conclusão, a pesquisa trata do WhatsApp, seus termos de uso, affordances e características dentro do recorte temporal em que os pesquisadores estiveram em campo. No grupo analisado, o discurso de ódio de gênero está baseado em relações de poder e subordinação, e quando destinado às mulheres busca determinar o comportamento delas a partir de uma construção colonial que traz prejuízos à democracia, à tolerância e à dignidade humana.

  • Revisoras
    Cristine Gerk (português)
    Felicity Clarke (Inglês)
    Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ
  • Finaciamento:
    CNPq
  • Artigo submetido à verificação de similaridade
  • Como citar:
    LEITE, Raquel Pereira R. e BOTELHO-FRANCISCO, Rodrigo E.. MISOGINIA E DISCURSO DE ÓDIO: Um estudo netnográfico no WhatsApp. São Paulo: INTERCOM - Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, v. 49(2026) e2026126. https://doi.org/10.1590/1809-58442026126pt.
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  • sistema duplo cego
  • Editoração e marcação XML:
    IR Publicações
  • 1
    À época da coleta de dados, o WhatsApp estabelecia limites técnicos para exportação de conversas, permitindo até 10 mil mensagens com arquivos de mídia ou 40 mil mensagens sem mídia, valores que não constam nas versões mais recentes da documentação da plataforma.
  • 2
    O Diário de Campo foi organizado em uma planilha Excel em 15 abas de anotações que registram informações relacionadas aos Termos de Serviço do WhatsApp, estudos sistemáticos dos grupos e observações da pesquisa.

Disponibilidade dos Dados:

Todos os dados que deram base ao presente artigo encontram-se no corpo do texto.

Referências

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    22 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    28 Out 2024
  • Aceito
    11 Nov 2025
  • Publicado
    30 Maio 2026
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