Open-access Os “riscos” e a “comunicação”: Discussão conceitual a partir da transdisciplinaridade complexa

Los “riesgos” y la “comunicación”: Discusión conceptual a partir de la transdisciplinariedad compleja

RESUMO

O conceito de comunicação de riscos tem sido utilizado em diversos campos do conhecimento científico, mas não há consenso em relação à sua definição. O objetivo do artigo é realizar uma discussão desse conceito a partir da noção de transdisciplinaridade e da teoria do pensamento complexo. Metodologicamente, o trabalho foi desenvolvido por meio do aprofundamento teórico referente às noções de “comunicação” e “riscos”. No primeiro caso, as proposições da Escola Latino-Americana de Comunicação foram escolhidas para discussão, compreendendo a elasticidade do termo a partir de diferentes abordagens. Já a discussão sobre a definição de “risco” foi circunscrita à abordagem da progressão da vulnerabilidade a desastres, em que se inserem novas pressões dinâmicas como a desigualdade de acesso a dispositivos comunicacionais e a desinformação. A inovação do artigo consiste em considerar os riscos não apenas como agentes externos que devem ser comunicados, mas também enquanto imbricados no próprio processo comunicacional.

Palavras-chave
comunicação; riscos; transdisciplinaridade; comunicação de riscos; complexidade

ABSTRACT

The concept of risk communication has been used in several fields of scientific knowledge, yet there is no consensus regarding its definition. The aim of this article is to discuss this concept based on the notion of transdisciplinarity and the theory of complex thought. Methodologically, the study was developed through a theoretical deepening of the notions of "communication" and "risks". In the former case, the propositions of the Latin American School of Communication were chosen for discussion, encompassing the term's elasticity across different approaches. Meanwhile, the discussion on the definition of "risk" was framed within the approach of the vulnerability progression to disasters, which incorporates dynamic pressures such as unequal access to communication devices and disinformation. The article's innovation lies in considering risks not only as external agents to be communicated but also as embedded within the communication process.

Keywords
communication; risks; transdisciplinarity; risk communication; complexity

RESUMEN

El concepto de comunicación de riesgos ha sido utilizado en diversos campos del conocimiento científico, pero no existe un consenso acerca de su definición. El objetivo de este artículo es realizar una discusión de concepto a partir de la noción de transdisciplinariedad y de la teoría del pensamiento complejo. Metodológicamente, el trabajo se desarrolló mediante la profundización teórica referente a las nociones de “comunicación” y “riesgos”. En el primer caso, se eligieron para la discusión las proposiciones de la Escuela Latinoamericana de Comunicación comprendiendo la elasticidad del término a partir de diferentes enfoques. Por otro lado, la discusión sobre la definición de “riesgo” circunscribió al enfoque de la progresión de la vulnerabilidad ante desastres, en el que se insertan nuevas presiones dinámicas como la desigualdad de acceso a dispositivos comunicacionales y la desinformación. La innovación del artículo consiste en considerar los riesgos no solo como agentes externos que deben ser comunicados, sino también como elementos imbricados en el propio proceso comunicacional.

Palabras clave
comunicación; riesgos; transdisciplinariedad; comunicación del riesgo; complejidad

Introdução

Existem diversas compreensões acerca do que é comunicação de riscos, em razão de seus usos em contextos interdisciplinares (LOOSE; MORAES; MASSIERER, 2021; VICTOR, 2015). De maneira geral, os entendimentos acerca da comunicação de riscos seguem duas possibilidades principais. No primeiro caso, predomina a tentativa de aproximar as atitudes do público em relação às dos especialistas, de maneira transmissiva, isto é, na qual os especialistas detêm as informações a serem passadas ao público, em uma relação hierárquica e vertical (GREGORY; LOCK, 2008). No segundo caso, a proposta prevalecente é a de engajar o público em um processo de diálogo que valorize suas contribuições como complemento na tomada de decisões (FARRÉ I COMA; GONZALO IGLESIA, 2011; COVELO; SANDMAN, 2001).

O entendimento da comunicação de riscos enquanto recurso de transmissão de informações pode ser observado em órgãos internacionais como a Organização Mundial da Saúde (OMS). Para a OMS (2025), a comunicação de riscos consiste na troca em tempo real de informações, recomendações e opiniões entre especialistas ou oficiais e pessoas que enfrentam riscos ou ameaças. O propósito da comunicação de riscos seria possibilitar que pessoas em situação de risco estejam informadas a fim de tomar decisões conscientes, tanto protetivas quanto preventivas, para mitigar os efeitos de uma ameaça (ou risco), tal como o surgimento de uma nova doença (OMS, 2025).

De acordo com o entendimento da OMS, portanto, o conhecimento dos especialistas deve ser transmitido às pessoas em situação de risco. Apesar de haver menção à tomada de decisões nesta definição, evidencia-se que este processo ocorreria somente após a obtenção de informações por parte dos especialistas, e não durante um contexto interativo entre os atores envolvidos na comunicação de riscos.

Esse artigo discute a comunicação de riscos no contexto da gestão de risco de desastres. De acordo com a Política Nacional de Proteção e Defesa Civil (PNPDEC), o processo de gestão de risco envolve cinco fases: prevenção, mitigação, preparação, resposta e recuperação. Embora não mencione comunicação, há objetivos e partes da PNPDEC em que se explicita o processo comunicacional enquanto necessário (BRASIL, 2012). A partir desse entendimento, a comunicação estaria envolvida em todas as etapas de gestão de riscos, sobretudo a partir da troca de informações entre especialistas e as comunidades.

Em razão da temática de riscos de desastres envolver ameaças cada vez mais complexas e interconectadas —como a ocorrência de inundações durante a pandemia da Covid-19—, torna-se essencial discutir a comunicação de riscos nesse cenário de complexidade. Para tanto, o diálogo transdisciplinar entre especialistas em riscos de desastres, profissionais da comunicação e comunidades atingidas em catástrofes torna-se cada vez mais necessário. Ainda vale destacar que a percepção de riscos é influenciada por estratégias de comunicação de riscos, processo que tornou-se mais evidente durante o período pandêmico (FONSECA et al., 2022; FAOUR-KLINGBEIL et al., 2021).

Exemplos nos quais a comunicação de riscos constitui um processo interativo podem ser encontrados, por exemplo, na definição de Rosa Moreno e Peres (2011), na qual a comunicação de riscos é definida como um processo interativo de troca de informações e opiniões entre indivíduos, grupos e instituições, sendo dialógico e pautado nos estudos de recepção. Loose, Moraes e Massierer (2021) definem a comunicação de riscos como uma área interdisciplinar que envolve o processo de divulgar informações, criar diálogos e entendimentos sobre riscos naturais e humanos. Velasquez-Espinoza e Alcantara-Ayala (2025) a definem como a troca de informação e diálogo entre as partes interessadas para melhorar a compreensão e a ação antes, durante e depois da ocorrência de um desastre.

Nestes casos, apesar de não serem conceituações divergentes, nota-se que não existe uma abordagem convergente (PEEK et al., 2020), havendo a utilização de diversos lastros teóricos: a noção de dialogia está presente em Rosa Moreno e Peres (2011) e em Loose, Moraes e Massierer (2021), porém, apenas no primeiro caso reivindica-se explicitamente o lugar central dos estudos de recepção. Apesar da menção à ideia de diálogo, em Velasquez-Espinoza e Alcantara-Ayala (2025), a definição é de caráter instrumental, utilizada brevemente em um contexto de divulgação e de análise dos resultados empíricos de um questionário aplicado com crianças e adolescentes da Nicarágua em 2024.

Há ainda propostas que trazem centralidade aos meios de comunicação, como, por exemplo, a de Gonzalo Iglesia e Farré I Coma (2011), na qual a compreensão do conceito de comunicação de riscos é atravessada pelos meios, tanto enquanto responsáveis por gerar interlocução entre os atores sociais no processo de comunicação de riscos, quanto por serem capazes de pautar os assuntos e tópicos a serem abordados no âmbito da comunicação de riscos.

Ao observar a ausência de uma definição convergente na literatura, compreendemos, portanto, que a definição de comunicação de riscos é elástica, sendo a elasticidade aqui caracterizada pela sensibilidade a outros conceitos e influxos epistemológicos (LACERDA, 2023). Este entendimento difere da ideia de que o significado do termo está em disputa, uma vez que a noção de disputar remete à compreensão de que em determinado momento uma perspectiva prevalecerá sobre as outras, tendo maior validade e mérito de reconhecimento. Nesse sentido, reconhecemos que definições variadas acerca da comunicação de riscos podem coexistir e, por isso, uma proposta transdisciplinar é coerente, uma vez que admite a intersecção entre campos de estudo e a possibilidade de novas conceituações a partir do esgarçamento das fronteiras disciplinares.

Como a proposta conceitual do artigo é atravessada pela transdisciplinaridade, na segunda seção do artigo a abordamos a partir da compreensão de Freitas, Morin e Nicolescu (1994) e do pensamento complexo de Morin (2005). Sendo assim, optamos por esmiuçar as noções de “comunicação” e “riscos”, com o propósito de aprofundar a análise dos tópicos que interligam estas duas áreas, a fim de expandir a conexão entre os campos que compõem a comunicação de riscos.

Em razão disso, na terceira seção do artigo apresentamos uma breve contextualização acerca da comunicação a partir da “Escola Latino-Americana de Comunicação” (FREIRE, 2005; MELO, 1999; OROZCO GÓMEZ, 2001). Em seguida, na quarta seção, a noção de “risco” é colocada em perspectiva a partir do prisma comunicacional (FARRÉ I COMA; GONZALO IGLESIA, 2011; LEMOS, 2004; MOROZOV, 2018). Por fim, os conceitos da ciência dos desastres (WISNER et al., 2025) são utilizados para discutir a comunicação de riscos no contexto da progressão da vulnerabilidade, com destaque para a desigualdade de acesso a dispositivos comunicacionais e a desinformação como novos riscos advindos do processo comunicacional.

A necessidade de uma proposta transdisciplinar e complexa

A comunicação de riscos é uma área que abrange diversos campos de estudo e é utilizada por áreas do conhecimento com significados distintos. Além disso, a comunicação em si é um objeto multidimensional (BONIN, 2008) e a noção de risco também é abrangente (LACERDA, 2023). Nesse sentido, a fragmentação disciplinar acaba por gerar um desencaixe, uma vez que determinados tópicos podem não se encaixar precisamente em um campo específico, podendo levar a uma abordagem reducionista (MONTUORI, 2013).

Historicamente, sobretudo na Europa, a comunicação de riscos se estabelece em um contexto de crítica à gestão de determinados riscos e à falta de transparência governamental, de crescente influência de organizações e movimentos sociais como o ambientalismo, além da mobilização de comunidades locais que geraram transformações sociais durante a década de 1970 (STRYDOM, 2008). Ademais, o crescimento de riscos tecnológicos, como os relacionados à energia nuclear nos anos 1980, gerou tanto respostas institucionais quanto sociais, dando visibilidade à comunicação de riscos como recurso de gestão de riscos.

No contexto latino-americano, Rosa Moreno e Peres (2011) apontam que as principais estratégias de comunicação de riscos são voltadas a desastres e/ou à saúde. No Brasil, a comunicação de riscos está relacionada à área da saúde desde o início do século XX, de modo articulado às políticas e estratégias de controle sanitário, nos contextos de implantação e desenvolvimento do modelo sanitarista/campanhista de atenção à saúde (CASTIEL et al., 2017; RANGEL, 2007). Aqui, ao observar o estabelecimento da comunicação de riscos no Brasil, nota-se a predominância inicial de uma comunicação de caráter transmissivo a partir do modelo sanitarista no início do século XX.

Ao observar o percurso da comunicação de riscos historicamente, é possível destacar que este é um campo multifacetado, permeado por atores, debates e reflexões diversos. Dessa forma, a proposta de discutir o tema a partir de uma abordagem transdisciplinar pode fornecer caminhos para lidar com desafios cada vez mais complexos. No contexto deste artigo, compreendemos a transdisciplinaridade como:

“A pedra angular da transdisciplinaridade reside na unificação semântica e operativa das acepções através e além das disciplinas. Ela pressupõe uma racionalidade aberta a um novo olhar sobre a relatividade das noções de ‘definição’ e de ‘objetividade’. O formalismo excessivo, a rigidez das definições e a absolutização da objetividade, incluindo-se a exclusão do sujeito, conduzem ao empobrecimento.”

(FREITAS; MORIN; NICOLESCU, 1994).

Esta noção não reivindica a abolição dos campos disciplinares, mas sim a intersecção de acepções provenientes de áreas do conhecimento científico, a fim de analisar os objetos a partir de uma perspectiva relativa. Dessa forma, reconhece-se a limitação de proposições que definem os conceitos a partir de uma suposta objetividade, uma vez que diferentes entendimentos consistem na observação dos objetos de análise sob perspectivas distintas. Por meio dessa intersecção, portanto, torna-se possível esgarçar as fronteiras do conhecimento, propondo um entendimento de maior complexidade (FREITAS; MORIN; NICOLESCU, 1994; MORIN, 2005)

A complexidade compreende que os objetos possuem múltiplos aspectos em relação à interdependência a serem considerados. Ainda, assume a existência da relatividade, opondo-se à ideia de um conhecimento e/ou narrativa universais, que produzam análises homogeneizantes. Ao defender o paradigma de uma transdisciplinaridade complexa, Morin (2005) pontua que é necessário permitir distinguir, separar e opor os domínios científicos, e ao mesmo tempo, tornar possível fazê-los comunicarem-se entre si sem gerar reducionismos.

Para além da defesa do paradigma complexo, Morin (2005) ressalta a transdisciplinaridade enquanto postura ética para a produção científica, ao reconhecer o caráter relativo da ciência, bem como ao assumir a existência da subjetividade e do posicionamento no fazer científico.

Portanto, ao basear este artigo em diferentes campos de estudo e correntes teóricas, torna-se possível realizar uma proposta conceitual, realizada justamente entre as fronteiras disciplinares estabelecidas. Ainda, cabe ressaltar que ao utilizar o paradigma da transdisciplinaridade complexa (MORIN, 2005), pontuamos que esta é uma proposta que tem também como objetivo ampliar o debate acerca da comunicação de riscos.

Comunicação: as contribuições da Escola Latino-Americana

Assim como a comunicação de riscos, a própria comunicação é também um conceito elástico. Partindo do entendimento proposto por Braga (2011), no qual a comunicação é capaz de ajustar-se às necessidades dos objetos em questão, sendo um processo dialógico elaborado e em constante reelaboração com matrizes ativadas pelas sociedades a fim de interagir, compreende-se que os recortes a serem feitos em uma discussão conceitual acerca da comunicação devem considerar as dinâmicas sociais contemporâneas.

Nesse entendimento, o processo comunicacional abarca uma série de tópicos a serem considerados, tais como transformações tecnológicas, econômicas, sociais, culturais e políticas, o que requer uma abordagem transdisciplinar e que se baseie em diferentes perspectivas teóricas e metodológicas capazes de gerar interlocuções.

Ao discutir os paradigmas da teoria da comunicação latino-americana, Melo (1999) pontua que as principais marcas distintivas das elaborações científicas acerca do campo da comunicação consistem na hibridez teórica e na sobreposição metodológica, moldando uma linha de investigação capaz de refletir a fisionomia cultural da América Latina.

A abordagem híbrida mencionada por Melo (1999) se estabelece durante a década de 1980, época em que muitos estudiosos na região, como, por exemplo, Pasquali, Beltrán, Verón, Fernández, Mattelart, Kaplún, Bordenave e Freire, argumentavam que as teorias da comunicação precisavam considerar as realidades latino-americanas, em muito divergentes dos contextos observados nos países centrais do capitalismo.

Nesse sentido, a ideia de transferir diretamente modelos teóricos estrangeiros mostrou-se insuficiente para refletir acerca da realidade da comunicação na América Latina, o que levou ao estabelecimento da chamada “Escola Latino-Americana de Comunicação”, influenciada principalmente por uma interação entre tradições europeias, heranças meso- e sul-americanas (pré- e pós-colombianas), costumes africanos e inovações dos modelos norte-americanos modernos (MELO, 2001).

Ao considerar as especificidades da região, a “Escola Latino-Americana de Comunicação” distancia-se do conceito definido por Polanco (1985) como fuga interior de cérebros, no qual cientistas da América Latina, mesmo sem emigrar de seus respectivos países, orientam seus trabalhos em função das linhas de pesquisa, sistemas de recompensa e de publicação dos países desenvolvidos.

Este debate permanece coerente, sobretudo ao observar-se a assimetria na produção de conhecimento global. Ao abordar as relações de dominação da produção de conhecimento, Albuquerque e Oliveira (2023) pontuam que o controle dos fluxos informacionais da comunicação científica permanece sob o domínio de países centrais (do capitalismo), de grandes oligopólios tecnológicos e do mercado editorial científico.

Nesse sentido, faz-se necessário levar em conta as mudanças ocorridas nas últimas décadas, a fim de propor uma discussão coerente ao contexto atual. Se durante o estabelecimento da “Escola Latino-Americana de Comunicação” discutia-se, por exemplo, o papel central de meios de comunicação, tais como a televisão, enquanto geradoras de debates no núcleo familiar (OROZCO GÓMEZ, 2001), agora, observa-se um processo de individualização e isolamento, ocasionado pelas plataformas de redes sociais que operam a partir da segmentação de conteúdos e anúncios por meio dos algoritmos, que são produzidos socialmente e favorecem determinadas perspectivas em detrimento de outras (GROHMANN, 2020; MOROZOV, 2018).

Ainda, a aceleração temporal observada na veiculação de informações também traz questões a serem consideradas. A partir dessa dinâmica, diversas práticas sociais contemporâneas se transformaram (PRAZERES; RATIER, 2020). Se durante a década de 1980 as publicações jornalísticas e midiáticas eram diárias, semanais, ou mensais, agora a transmissão em tempo real é uma realidade estabelecida, uma vez que nas redes sociais usuários publicam vídeos, fotos e textos em tempo real sobre os acontecimentos cotidianos ou acerca de questões políticas nacionais e internacionais.

Nesse contexto, algumas problemáticas aparecem de maneira mais acentuada. Um exemplo é o da disseminação de desinformação em larga escala, posto que o período para checagem é consideravelmente menor, para além da ausência e/ou precarização de mediação profissional (PRAZERES;RATIER, 2020). Para os termos deste artigo, cabe ressaltar, a desinformação consiste em todas as práticas de criar ou disseminar conteúdo enganoso de maneira intencional, a fim de causar dano, disseminar discórdia ou gerar ganhos políticos e/ou financeiros. Esse tipo de prática enganosa pode variar da descontextualização de fatos até a criação de narrativas alternativas (HAMELEERS, 2023).

Ao analisarem 52 artigos sobre comunicação de riscos publicados ao longo de duas décadas em 18 revistas acadêmicas latino-americanas, Palma et al. (2022) constataram que, de maneira geral, os estudos sobre o papel dos meios de comunicação ganham destaque, assim como as responsabilidades que lhes cabem em nível social, especialmente em momentos de ruptura dos acontecimentos, como desastres. Nesse tipo de pesquisa, costuma-se adotar uma perspectiva — embora nem sempre declarada — de causa e efeito: se os meios de comunicação difundem determinados conteúdos, existe um maior nível de preparação.

A compreensão da comunicação aqui proposta difere deste entendimento, isto é, no qual o processo comunicacional corresponde a uma relação direta de transmissão de informações. Para os termos deste artigo, compreende-se o processo comunicacional dentro da proposta de comunicação horizontal de Freire (2005), na qual os diferentes atores envolvidos atuam de forma interativa, não havendo uma relação de verticalidade, mas sim dialógica, na qual os diferentes agentes contribuem igualmente para a concretização do processo comunicacional.

Definições de risco: processo dialógico e ativo

Conforme mencionado ao longo da Seção “A necessidade de uma proposta transdisciplinar e complexa", a comunicação de riscos se estabeleceu, em várias partes do mundo, durante um período no qual os riscos tecnológicos, ambientais e relacionados à saúde tornaram-se mais evidentes. Apesar de na década de 1980 os meios de comunicação serem sobretudo analógicos, o avanço no maior acesso a informações foi considerável, especialmente no que se refere a acontecimentos em outros países. Dessa forma, tornou-se crescente a noção de que diversas ameaças socioambientais ocorriam em diferentes lugares, o que gerou maior percepção de riscos (FARRÉ I COMA; GONZALO IGLESIA, 2011).

A percepção de riscos1, definida aqui como a capacidade de uma pessoa para interpretar uma situação potencialmente danosa para a saúde, a própria vida ou a de outrem, com base em experiências prévias e em projeções futuras (ROSA MORENO; PERES, 2011), é imprescindível para a construção de um entendimento dialógico acerca da comunicação de riscos. Ao entender o processo comunicacional enquanto um conceito horizontal e interativo, e que inclui também os dispositivos e suportes, entende-se que a compreensão do risco por parte dos atores sociais deve ser considerada. Nesse sentido, a delimitação entre o que consiste ou não o risco é variável, uma vez que está relacionada a contextos sociais, dentre outros fatores, capazes de influenciar a percepção.

As definições de risco variam na literatura. Como pontua Lacerda (2023), existem as definições objetivas de risco, que são de ordem quantitativa, relacionadas à probabilidade de ocorrência de um fenômeno, de ameaças e/ou de suas consequências adversas; ou noções construtivistas, que correspondem à derivação da percepção do risco que não necessariamente envolve resultados estatísticos para tomada de decisões pessoais, mas sim construções de ordem subjetiva.

Ao realizar uma análise histórica acerca da definição de risco, o autor menciona, por exemplo, a teoria do risco observada na linguagem náutica desde o século XIV, associada à natureza e de caráter fatalista. Também menciona que em documentos internacionais como os do UNDRR (Escritório das Nações Unidas para a Redução de Riscos de Desastres), o risco é entendido como probabilidade de consequências (LACERDA, 2023). Finalmente, como exemplo de risco construtivista oriundo da área da saúde, Lacerda menciona um exemplo observado nos Estados Unidos: enquanto os riscos para a saúde predominantes nos anos 1980 eram aqueles associados a doenças cardiovasculares e câncer de pulmão devido ao tabagismo e aos acidentes automobilísticos, os norte-americanos daquele período percebiam e atribuíam o risco de câncer à poluição industrial. Dessa forma, o autor pontua que, apesar de haver um cálculo probabilístico do risco, a percepção de risco levou a outra compreensão social (LACERDA, 2023).

Em um contexto de complexidade, a noção de risco construtivista conceituada por Lacerda (2023) é adequada para a discussão, assim como a definição de risco proposta por Wisner et al. (2025), na qual o risco consiste na relação entre ameaças, vulnerabilidades, capacidades de proteção e políticas públicas de mitigação de riscos em larga escala. A ameaça é compreendida não apenas como um agente externo capaz de causar danos, mas também como resultante das estruturas sociais (GILBERT, 1995). Já a vulnerabilidade define-se como uma situação ou condição de maior possibilidade de sofrer danos e perdas em desastres, enquanto as capacidades se associam aos recursos e habilidades que os indivíduos possuem para se proteger diante das ameaças. Por fim, as políticas públicas de mitigação de riscos em larga escala se referem a ações para reduzir ameaças e vulnerabilidades, bem como potencializar as capacidades das pessoas, a fim de diminuir os impactos adversos de uma ameaça.

Para Wisner et al. (2025), a produção social do risco de desastre é resultado de um processo em que se identificam causas básicas e pressões dinâmicas que influenciam as ameaças existentes, as condições inseguras, as capacidades de proteção social e as políticas públicas de mitigação de riscos em larga escala. As causas básicas se referem a fenômenos de longa duração como a desigualdade, a pobreza, e a fatores culturais e ideológicos, como o negacionismo e o racismo. Essas causas básicas são intensificadas por pressões dinâmicas, como guerras e crises econômicas, entre outros fatores do modelo de progressão da vulnerabilidade (WISNER et al., 2025).

Dessa forma, a materialização das pressões dinâmicas se identifica nas condições inseguras, como pessoas residindo em moradias precárias em áreas sem saneamento básico e sujeitas a deslizamentos. Situações como essas já foram expostas em desastres relacionados a deslizamentos, como na Região Serrana do Rio de Janeiro (2011). Todavia, novas formas de desigualdade e de pressões dinâmicas se somam a um cenário que já era complexo.

Finalmente, a desigualdade, como causa básica no modelo de progressão da vulnerabilidade a desastres (WISNER et al., 2025), se amplia e inclui novas formas, como a desigualdade de acesso aos dispositivos comunicacionais. As pressões dinâmicas também se diversificam: não se trata apenas de comunicar ameaças naturais. Ameaças sociais têm sido engendradas na estrutura social, advindas do próprio processo comunicacional. A próxima seção discute esses aspectos.

Os riscos existentes no processo comunicacional midiatizado

Ao compreender a ideia de risco não apenas como ator externo, mas estando também imbricada na comunicação, consideramos também os riscos existentes no próprio processo comunicacional midiatizado. Considerando o risco enquanto uma expressão social da vulnerabilidade e as ameaças enquanto resultantes de processos sociais (GILBERT, 1995), duas problemáticas merecem destaque dentro do contexto de assimetrias sociais, bem como de consolidação do ambiente digital: a exponencialização da desinformação, impulsionada pela dinâmica de operação das plataformas de redes sociais, bem como a desigualdade de acesso a dispositivos comunicacionais. Por esse motivo, consideramos estes dois aspectos como centrais para compreender os riscos, uma vez que podem comprometer a articulação e a relação dialógica do processo comunicacional.

O ambiente digital, no qual quebram-se os pólos de emissão (LEMOS, 2004) e usuários passam também a ser geradores de conteúdos e informações, surgiu como uma oportunidade para trazer maior diversidade de perspectivas e discursos. Entretanto, foi também nessa esfera que a desinformação teve maior espaço para proliferação. Isso porque, para além das quebras dos pólos de emissão, as plataformas de redes sociais não são transparentes com relação à operação de seus algoritmos, ao passo que coletam múltiplos dados dos usuários dentro da lógica econômica da ultra-segmentação, tanto no tocante à publicidade, como também na distribuição de conteúdos, privilegiando algumas perspectivas em detrimento de outras (GROHMANN, 2020; MOROZOV, 2018).

Com relação às desigualdades de dispositivos comunicacionais, dados de 2023, disponibilizados pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), demonstraram que entre os usuários de Internet na faixa etária de 9 a 17 anos, 38% daqueles nas classes DE2 acessaram a rede exclusivamente pelo telefone celular, uma taxa semelhante à observada na classe C (37%). Ainda, o relatório concluiu que o uso concomitante de dispositivos prevaleceu entre os usuários das classes AB, para os quais o acesso combinado via celular, televisão e computadores foi superior a 30% (CGI.br, 2024).

Um ambiente de disparidade no acesso a dispositivos é um risco na comunicação, entre outros motivos, por limitar o desenvolvimento das competências midiáticas, aqui compreendidas como não somente o conhecimento técnico de funcionamento e utilização de um meio, mas também no situar o indivíduo dentro do ambiente midiático no qual está inserido(a). Sendo assim, avalia-se a capacidade de analisar criticamente os conteúdos que circulam nas redes sociais, bem como uma compreensão acerca de seus respectivos funcionamentos (MARTINO; MENEZES, 2012).

Assim, compreende-se que a noção de risco na comunicação, por ser um processo dialógico, deve levar em consideração a percepção de risco entre os atores sociais, bem como a proposição ativa de uma delimitação de risco que reconhece não apenas os agentes externos, mas também fatores do próprio processo comunicacional midiatizado, como produtores de incertezas e riscos (GILBERT, 1995).

Considerações finais

Este artigo realizou uma discussão conceitual sobre comunicação de riscos no contexto de transdisciplinaridade complexa. Ao discorrer separadamente acerca das definições de comunicação e de riscos, abriu-se espaço para um aprofundamento dialógico sobre o assunto, uma vez que a noção de risco pôde ser analisada enquanto ator externo, mas também enquanto noção inserida no processo comunicacional, aqui compreendido dentro dos preceitos da “Escola Latino-Americana de Comunicação”.

A proposta do artigo surgiu pela compreensão de que não existe uma abordagem convergente acerca da definição da comunicação de riscos na literatura, e que, portanto, realizar uma discussão conceitual seria importante para expandir a reflexão acerca do assunto em um cenário de transdisciplinaridade complexa, isto é, que valorize formas de conhecimento científico e não científico em contextos permeados por ameaças e vulnerabilidades cada vez mais difíceis de compreender. Com isso, a ideia não é encerrar o debate, mas sim gerar diálogo posterior, especialmente na relação fronteiriça com outras áreas do conhecimento, como é o caso da ciência dos desastres.

Ao propor um debate epistemológico no âmbito da comunicação de riscos, resgatando arcabouços epistemológicos da comunicação, da percepção de riscos e da ciência dos desastres, procuramos também ampliar ainda mais o lastro teórico da área, a fim de construir caminhos para a transdisciplinaridade complexa, e ao mesmo tempo, reconhecer a validade das contribuições específicas do campo da comunicação ao debate da ciência dos desastres. Nesse sentido, a inovação do artigo foi propor novas formas de desigualdade e de pressões dinâmicas ao modelo de progressão de vulnerabilidade a desastres, como a desigualdade de acesso a dispositivos comunicacionais e a pressão dinâmica advinda da desinformação em desastres. Isto é, cabe-nos problematizar a visão tradicional de comunicação de riscos centrada em ameaças externas ao processo comunicacional. Diante da complexidade em que vivemos, torna-se imprescindível discutir as próprias ameaças geradas pelo próprio processo comunicacional, como a desinformação em contextos de desastres.

  • Financiamento
    O presente trabalho foi realizado com apoio da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), processos: #2024/03072-7 e #2022/02891-9.
  • Finaciamento:
    CNPq
  • Como citar:
    SAMPAIO, M.R.P. e MARCHEZINI, V. Os “riscos” e a “comunicação”: Discussão conceitual a partir da transdisciplinaridade complexa. São Paulo: INTERCOM - Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, v. 49(2026) e2026119. https://doi.org/10.1590/1809-58442026119pt.
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  • 1
    Ao considerar o entendimento de Peres e Moreno (2011), reconhecemos que existem diversos entendimentos acerca do termo, também de caráter elástico.
  • 2
    O CGI.br segue a definição de classes sociais do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Disponibilidade de Dados

Todos os dados que deram base ao presente artigo encontram-se no corpo do texto.

Referências

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    Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    30 Mar 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    27 Out 2025
  • Aceito
    02 Fev 2026
  • Publicado
    30 Mar 2026
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