Open-access Mapeamento sistemático da produção científica recente em comunicação governamental

Mapeo sistemático de la producción científica reciente en la comunicación gubernamental

RESUMO

A comunicação governamental em sociedades contemporâneas caracteriza-se, além da divulgação de informações, pela transparência, colaboração e pelo incentivo à participação ativa dos cidadãos nas políticas públicas. O objetivo foi analisar a produção científica sobre comunicação governamental no período compreendido entre 2018 e 2022, por meio de um mapeamento sistemático, uma modalidade de estudo bibliométrico, com base nos artigos disponíveis nas bases Scopus e Web of Science. As principais conclusões indicam que a temática apresenta números consistentes de publicações, cuja tendência é de crescimento. Uma característica é que o tema é recorrente em pesquisas ao redor do mundo, porém a colaboração e interação dos resultados entre países ainda são baixas. Não foram identificados autores ou revistas que concentrem grande número de publicações. Foram identificadas temáticas emergentes além do contexto pandêmico: política pública, governo, opinião pública e mídias sociais. O artigo contribui para o desenvolvimento crítico da área de comunicação governamental.

Palavras-chave
comunicação pública; informação pública; governança pública; democracia digital; participação cidadã

ABSTRACT

Government communication in contemporary societies is characterized, in addition to the dissemination of information, by transparency, collaboration, and the encouragement of active citizen participation in public policies. The objective was to analyze the scientific production on government communication between the years 2018 and 2022 through a systematic mapping, a type of bibliometric study, based on articles available in the Scopus and Web of Science databases. The main conclusions indicate that this topic has consistent publication numbers, with a growth trend. A notable feature is that the theme recurs in research around the world, but the collaboration and interaction of results between countries remain low. No authors or journals were identified as having a high concentration of publications. Emerging themes were identified beyond the pandemic context: public policy, government, public opinion, and social media. The article contributes to the critical development of the field of government communication.

Keywords
public communication; public information; public governance; digital democracy; citizen participation

RESUMEN

La comunicación gubernamental en las sociedades contemporáneas se caracteriza, además de por la difusión de información, por la transparencia, la colaboración y el fomento de la participación activa de los ciudadanos en las políticas públicas. El objetivo (del trabajo) fue analizar la producción científica sobre comunicación gubernamental en el período de 2018 a 2022, a través de un mapeo sistemático, un tipo de estudio bibliométrico, basado en los artículos disponibles en las bases Scopus y Web of Science. Las conclusiones principales indican que el tema presenta un número consistente de publicaciones con tendencia creciente y está presente en investigaciones en todo el mundo, pero con poca colaboración e interacción de los resultados entre países. No se identificaron autores ni revistas que concentren un gran número de publicaciones sobre el tema. Se identificaron temas emergentes más allá del contexto de la pandemia: políticas públicas, gobierno, opinión pública y redes sociales. El artículo contribuye al desarrollo crítico del área de comunicación gubernamental.

Palabras clave
comunicación pública; información pública; gobernanza pública; democracia digital; participación ciudadana

Introdução

A comunicação governamental se origina na comunicação pública, que, por sua vez, se situa no espaço público e ocupa um lugar privilegiado na comunicação natural, sendo um processo que compreende toda a sociedade, garantindo não apenas informação, mas também diálogo e estímulo à participação pública (Zémor, 1995). A participação pública, ou seja, cidadãos ativamente envolvidos nas decisões e processos governamentais, está intimamente ligada à democracia (Taylor; Draai; Jakoet-Salie, 2020).

Assim, a democracia não pode existir sem comunicação, e a evolução da democracia contemporânea implica um maior protagonismo da comunicação pública, tanto como relação entre as instituições públicas e os cidadãos quanto para a promoção da transparência e da participação pública (Paricio-Esteban et al., 2020). Dessa forma, uma possível definição de comunicação pública é a “comunicação que tem por finalidade a promoção da cidadania e da democracia, em um cenário em que interagem Estado, governo e sociedade para tratar de temas de interesse público” (Silva; Vicentin, 2018, p. 184). A comunicação pública influencia os eventos históricos de um país, bem como afeta a política, a sociedade e as práticas comunicacionais de longo prazo (Coelho, 2018).

Uma das dimensões de atuação da comunicação pública é a comunicação governamental, ou seja, no sentido institucional, evidencia-se a distinção entre comunicação pública e comunicação governamental. Cezar (2018) adota o conceito de comunicação governamental como a comunicação exercida entre e para com o Estado, as instâncias de governo e a sociedade. O foco da comunicação governamental é o repasse de informações à população sobre a posição dos governos e das políticas públicas, com o objetivo de gerar algum tipo de argumentação para o uso nos espaços de diálogo e participação, bem como legitimar a ação política e criar o consentimento público (Cezar, 2018; Moreno Manzo; Navarro Chávez, 2019).

Para Mori et al. (2020), a comunicação governamental trata das atividades de comunicação apolíticas e apartidárias dos governos sobre políticas, atividades institucionais e serviços, e pode ocorrer por meio de canais físicos e virtuais. Dessa forma, uma possível definição de comunicação governamental é a comunicação orientada para objetivos dentro do governo e entre o governo e seus stakeholders, que permite funções do setor público dentro de seus contextos culturais e/ou políticos específicos, com o objetivo de construir e manter o bem público e a confiança entre cidadãos e autoridades (Canel; Aho-Luomo, 2019).

Em uma comunicação governamental tradicional e hierarquizada, as linhas entre a comunicação interna e externa, entre o centro e a periferia, e entre o formal e o informal são institucionalizadas e protegidas nas práticas cotidianas dos governos, aplicadas para lidar com questões categoricamente definidas, em vez de complexidades transversais que exigem diversas fontes de conhecimento e contribuição (Pan, 2020). Ao contrário, uma comunicação governamental ágil deve buscar, além da transparência, tornar o cidadão muito mais informado e envolvido na vida pública (Mori et al., 2020). Para isso, a imparcialidade é considerada um aspecto relevante na comunicação governamental (Barbera; Borgonovi; Steccolini, 2016).

Em pesquisa sobre reputação do governo, entendida como a avaliação coletiva dos stakeholders em relação a um governo, Moreno Manzo e Navarro Chávez (2019) identificaram que a comunicação governamental é a dimensão mais valiosa que compõe a reputação de um governo. Assim, eles entendem ser vital que os governos valorizem a comunicação governamental e adotem uma estratégia integrada com os valores, a missão e a visão do governo, levando em consideração na tomada de decisões, os diferentes grupos de stakeholders. Dessa forma, o contexto atual caracteriza-se pela transparência, colaboração e participação ativa dos cidadãos nas políticas locais, devendo a comunicação governamental ir além da mera divulgação de informações sobre serviços, atividades, projetos e procedimentos administrativos públicos, buscando envolver os cidadãos na concepção e desenvolvimento de políticas públicas (Campillo-Alhama; Martínez-Sala, 2017).

Pesquisas contemporâneas sobre comunicação governamental, em sua maioria, examinam aspectos da mídia cuja ênfase está nos principais líderes e governos nacionais (Akhmad, 2020). Contudo, ainda que em menor número, existem pesquisas que tratam da comunicação de governos locais, já que a proximidade desses governos implica uma maior capacidade de gerar relações de confiança com os cidadãos (Paricio-Esteban et al., 2020). Assim, a comunicação governamental municipal encontra-se diante de um cenário em que a população demanda cada vez mais informações por diferentes meios de comunicação e participação (Liuta; Mershchii, 2020).

A comunicação governamental possui diferentes dimensões, como comunicação interna – dentro do governo, comunicação externa e relações públicas, valorização da marca da cidade (branding), inovação nos mecanismos de informação, e ouvir e agir de acordo com as demandas dos cidadãos (Moreno Manzo; Navarro Chávez, 2019).

A comunicação governamental aborda quatro aspectos que podem ser vistos em uma escala crescente de participação: o primeiro aspecto é a divulgação, que visa contribuir para uma melhor transparência dos resultados do governo; o segundo aspecto é a neutralidade, essencial para que o cidadão entenda a comunicação não como uma propaganda do governo; o terceiro aspecto é a participação, com o objetivo de fortalecer o envolvimento das partes interessadas; e o quarto aspecto é a capacidade da comunicação governamental de impactar os cidadãos a ponto de influenciar na tomada de decisões governamentais (Barbera; Borgonovi; Steccolini, 2016).

No início de 2020, a Organização Mundial da Saúde emitiu um alerta internacional de mais alto nível por conta do surto do novo coronavírus (OPAS/OMS, 2021), de tal forma que o mundo passou a enfrentar uma pandemia causada pela COVID-19, fazendo com que os governos tivessem que adaptar rapidamente as operações internas e a prestação de serviços públicos. Além disso, precisaram comunicar essas mudanças de forma clara ao público, ao mesmo tempo em que envidaram amplos esforços de comunicação governamental para promover o distanciamento social, a higienização das mãos e outras intervenções não farmacêuticas (Zeemering, 2021). Em momentos de crise, quando riscos externos e extraordinários ocorrem, os governos têm uma responsabilidade ainda maior na disseminação de informações precisas, confiáveis e oportunas, o que demanda novas abordagens de comunicação (Mori et al., 2020).

O objetivo do artigo foi analisar a produção científica sobre comunicação governamental no período de 2018 a 2022, por meio de um mapeamento sistemático, uma modalidade de estudo bibliométrico, realizado nas bases Scopus e Web of Science – WoS.

O mapeamento sistemático da produção cientifica oferece aos pesquisadores e profissionais interessados na temática uma visão abrangente de diferentes tópicos da área de estudo, a partir das publicações científicas (Kitchenham; Budgen; Brereton, 2010). A publicação em periódicos científicos indexados em bases de dados internacionais representa o corpo de conhecimento produzido pelos pesquisadores de determinada área (Menezes; Caregnato, 2018; Sousa; Fontenele, 2019). O mapeamento permite estabelecer conexões entre os artigos publicados e, dessa forma, auxilia o campo de estudos a compreender novos temas e tendências, além de estabelecer novas rotas de pesquisa (Carvalho et al., 2019; Zupic; Čater, 2015).

O mapeamento sistemático é um estudo bibliométrico que visa identificar os estudos de uma determinada área a fim de identificar as contribuições e lacunas da temática e aumentar a compreensão da produção de conhecimento em um campo específico (Dias et al., 2020; Klock, 2018; Moro Dos Santos; Alves, 2020).

Em um mapeamento sistemático, as etapas da pesquisa são: planejamento, execução e análise dos resultados (Dias et al., 2020; Klock, 2018). No planejamento, foram definidos os seguintes critérios: (i) string de busca: “government communication” OR “public sector communication” OR “communication management in the public sector” OR “comunicação do setor público” OR “comunicação do governo” OR “comunicação governamental” OR “gestão da comunicação no setor público; (ii) tipo de documento: artigo revisado por pares (Kitchenham; Budgen; Brereton, 2010); (iii) ano de publicação: para identificar a produção científica recente foram escolhidos os últimos cinco anos – de 2018 a 2022; e (iv) bases a serem consultadas: dada a cobertura na área de Ciências Sociais Aplicadas, bem como permitir a exportação de dados bibliométricos completos em arquivos para tratamento em software, foram escolhidas as bases Scopus e WoS (Carvalho et al., 2019; De Abreu; Turini; Santos, 2021; Lopes; Farias, 2020; Quevedo-Silva et al., 2016; Sousa; Fontenele, 2019).

A execução ocorreu em janeiro e fevereiro de 2023 e seguiu o protocolo proposto por Baldam (2021), utilizando o software Bibliometrix com a interface Biblioshiny (Aria; Cuccurullo, 2017). A análise foi realizada com base nas seguintes variáveis: ano de publicação do artigo, país de origem, número de citações por país e por artigo, número de colaborações entre autores de países diferentes, número de artigos por país, por autor e por revista, índice de impacto do autor dentre os artigos que compõem a amostra, coocorrência de palavras-chave e redes de cocitação.

Apresentação e análise de resultados

A aplicação da string de busca na base Scopus retornou 220 documentos enquanto a base WoS retornou 156 documentos. Após eliminação dos artigos duplicados (119 documentos) restaram um total de 257 documentos que compuseram a amostra analisada cujos resultados estão dispostos a seguir.

A produção anual de artigos sobre comunicação governamental, no período pesquisado, encontra-se disposta no Gráfico 1.

Gráfico 1
Produção anual de artigos sobre comunicação governamental

Conforme o Gráfico 1, a área de comunicação governamental apresentou queda no número de artigos de 2018 para 2019 e desde então houve um crescimento expressivo de publicações, o que pode apontar que a pandemia do COVID-19 fez crescer o interesse na temática. A linha de tendência – linha pontilhada – indica que a área está em crescimento.

Sob a ótica da produção de artigos científicos por país, na Figura 1, consta no mapa os países que produziram artigos em comunicação governamental – quanto mais escuro, maior o número de artigos produzidos.

Figura 1
Mapa da produção científica em comunicação governamental por país

No mapa da Figura 1 são destacados 46 países diferentes, englobando todos os continentes, o que denota uma característica mundial para a abrangência deste estudo já que se trata de uma área de pesquisa de interesse mundial. Os dez países com maior produção – Estados Unidos (19), China (18), Austrália e Reino Unido (14), Brasil e Indonésia (10), Espanha (9), Itália (7), Coreia do Sul (6) e México (5) – respondem por 43,58% da produção mundial.

Ao olhar o número de citações, 41 países receberam ao menos uma citação sendo que o número total de citações foi de 1.591. Os cinco países que mais receberam citações – Reino Unido (279), Estados Unidos (266), China (161), Espanha (144) e Austrália (133) – correspondem a 61,78% das citações, o que indica que é alta a concentração de citações nesses países. Ao considerar os dez países com maior número de citações – acrescentando à lista anterior: Países Baixos (94), Alemanha (72), Irã (60), Itália (58) e Estônia (42) – atinge-se 82,27% das citações mapeadas.

Em relação ao idioma dos artigos analisados, verificou-se o predomínio de publicações em língua inglesa: 81,32%. Em seguida, as publicações em língua espanhola totalizam 11,67%, e em língua portuguesa, 4,28%. Ainda, em número reduzido, houve publicações em francês, italiano e russo. Infere-se, portanto, que publicações em língua inglesa dominam a área e assim têm maior potencial de receber citações.

O Brasil, embora seja o sexto país que mais produz artigos sobre comunicação governamental, figura somente em 21º dentre os países mais citados (9 citações). A internacionalização da ciência no Brasil, apesar de as políticas terem evoluído de um foco individual para um modelo institucional, ainda é uma prática pouco consolidada. No campo da Comunicação, observa-se uma limitada atenção à classificação internacional dos periódicos, possivelmente devido à forte presença de revistas em português, que atendem bem aos padrões acadêmicos nacionais (De Albuquerque et al., 2023). O domínio da língua inglesa para submissão em publicações internacionais bem avaliadas se apresenta como uma barreira para os pesquisadores brasileiros, impactando o número de citações (Silva; Vicentin, 2024). Dessa forma, embora a produção científica nacional sobre comunicação governamental seja significativa, os resultados evidenciam que essa produção não resulta em um alto impacto na comunidade científica internacional.

O último resultado, sob o prisma de avaliação de países, trata da colaboração entre autores de países diferentes. Foi identificada um total de 67 colaborações envolvendo 37 países distintos. Na Figura 2, estão representados, no mapa-múndi, os fluxos de colaboração que tiveram pelo menos duas ocorrências, considerando que a espessura do fluxo é maior quanto maior for o número de colaborações verificadas.

Figura 2
Mapa de colaboração entre países em comunicação governamental

A maior frequência de colaboração ocorreu a China e Reino Unido – 4 ocorrências. Destacam-se, ainda, as colaborações estabelecidas entre Espanha e Equador e entre Espanha e Portugal – com 3 ocorrências cada. Ainda na Figura 2, aparecem fluxos de colaboração de 2 ocorrências cada: China e Países Baixos; Eslováquia e Ucrânia; Espanha e México; Estados Unidos e Coreia do Sul; Estados Unidos e Polônia; e Reino Unido e Indonésia. Conforme Hilário, Grácio e Guimarães (2018), a colaboração entre autores abre a possibilidade de pesquisas com diferentes abordagens, maior rigidez e densidade.

O Brasil teve apenas uma colaboração identificada, com a Irlanda, ocorrendo uma única vez. Embora a falta de colaborações com outros países possa restringir as realidades exploradas pelos artigos brasileiros, a ciência brasileira enfrenta desafios para além da internacionalização, como a necessidade de integração com políticas públicas e a economia para gerar inovação e benefícios sociais, somado ao fato de que a atenção a temas de interesse local também é importante para evitar a negligência de potencialidades regionais (Santin; Vanz; Stumpf, 2016).

Tabela 1
Autores mais produtivos em comunicação governamental

Em relação à autoria dos artigos sobre comunicação governamental, foi identificado um total de 632 autores, sendo 63 em documentos de autoria única e 569 em documentos de autoria múltipla. A Tabela 1 mostra os autores mais produtivos na área de comunicação governamental, adotando como critério o mínimo de 3 artigos publicados, de forma individual ou em coautoria. Na mesma Tabela 1 constam o país do autor, o índice h-index e o número de citações deles.

A Tabela 1 demonstra que a temática da comunicação governamental apresenta baixa concentração no número de artigos em relação à autoria, já que somente 7 autores publicaram 3 ou mais artigos. O autor Sten Hansson é o mais produtivo e de maior impacto. A variável ‘impacto’, neste estudo medida pelo h-index, é uma noção relevante em bibliometria e relaciona o número de citações recebidas pelo autor com o número de trabalhos publicados (Sousa; Fontenele, 2019). Destaca-se a produção oriunda da Itália, com quatro autores entre os mais produtivos. O Brasil não possui nenhum autor entre os mais produtivos, embora seja o sexto país do mundo em produção de artigos. Dado o grande número de publicações presentes nas bases Scopus e WoS, seria pouco provável que autores ou revistas concentrassem um grande número de publicações.

No tocante aos artigos mais citados, a Tabela 2 lista os 9 artigos que obtiveram pelo menos 50 citações.

Tabela 2
Artigos mais citados sobre comunicação governamental

A Tabela 2 demonstra que, nos últimos anos, a área de comunicação governamental direcionou o olhar para o impacto da pandemia de COVID-19, já que, dos 9 artigos mais citados, 6 tratam do cenário pandêmico: Williams et al. (2020) abordaram a realidade do Reino Unido; Hyland-Wood et al. (2021) apresentaram estratégias de comunicação para o enfrentamento da crise; Kim e Kreps (2020) analisaram o cenário dos Estados Unidos; Duan et al. (2020) pesquisaram o panorama da China; Margraf, Brailovskaia e Schneider (2020) investigaram o comportamento das pessoas em oito países – França, Alemanha, Polônia, Rússia, Espanha, Suécia, Reino Unido e Estados Unidos; e Moreno, Fuentes-Lara e Navarro (2020) exploraram a situação na Espanha.

Por outro lado, 3 artigos não abordaram temas relacionados à pandemia: o artigo ‘Em busca de uma tipologia de comunicação governamental nas mídias sociais: objetivos democráticos, atos simbólicos e autoapresentação’ dos autores DePaula, Dincelli e Harrison (2018), relata pesquisa conduzida em diversos governos locais dos Estados Unidos. Os autores identificaram quatro práticas de comunicação: (i) prestação de informações: relacionadas à prática unidirecional de informação; (ii) busca de insumos: relaciona-se à prática bidirecional de consulta; (iii) diálogo online e interação offline: relaciona-se à prática em rede de participação ativa; e (iv) apresentação simbólica: trata de comunicação voltada a apresentar favoravelmente o governo, tomar uma posição política, realizar um ato simbólico ou ações de marketing do governo. Por sua vez, Wang et al. (2018) sugerem mecanismos para melhoria da comunicação governamental relacionado à poluição do ar em uma região da China, e Valandar et al. (2019) adotam um enfoque diferente, relacionado à segurança na transmissão de dados na comunicação governamental.

Em relação às revistas científicas onde foram publicados os artigos mapeados, identificaram-se 201 fontes. Somente as 4 revistas listadas na Tabela 3 publicaram pelo menos 4 artigos sobre comunicação governamental.

Tabela 3
Revistas mais relevantes em comunicação governamental

A partir da Tabela 3, pode-se verificar que as revistas que mais publicam na área de comunicação governamental são de áreas de pesquisa diversas: relações públicas, informação e comunicação, psicologia e ciências políticas. Em relação à distribuição geográfica dessas revistas, todas estão localizadas na Europa – Países Baixos, Espanha, Suíça e Itália.

O próximo resultado do mapeamento trata da análise da relação das palavras-chave dos artigos mapeados na forma de uma rede de coocorrência – Figura 3. A rede de coocorrência é uma rede de relacionamentos entre palavras-chave que ocorrem em um mesmo documento e permite identificar a estrutura de ideias, as interações, redes de conceitos e tendências de pesquisa (Sousa; Fontenele, 2019).

Figura 3
Rede de coocorrência de palavras-chave em comunicação governamental

Na Figura 3, pode-se observar uma predominância de palavras-chave vinculadas à saúde – por conta da pandemia de COVID-19 – nos quatro clusters que compõem a rede de coocorrência. Contudo, é possível identificar palavras-chave que guardam relação com este estudo e entre si: política pública, governo, opinião pública e mídias sociais.

As características interativas da comunicação nas mídias sociais oferecem diversas oportunidades para a comunicação governamental. No entanto, estudos recentes sobre o uso das mídias sociais por governos mostram um número crescente de utilizações para fornecimento de informações ou autorrepresentação, mas um uso limitado das plataformas para interação ou engajamento público (Criado; Villodre, 2021; DePaula; Dincelli; Harrison, 2018; Nakazato; Silva; Vicentin, 2022; Pan, 2020; Stone; Can, 2020; Zeemering, 2021).

Por sua vez, as mídias sociais, no âmbito da comunicação governamental, impactam a opinião pública, conceito este oriundo de diferentes matrizes teóricas, com duas abordagens principais: uma que a define como a simples soma das opiniões individuais, e outra que considera variáveis como ambiente, interação social e preferências políticas na sua formação (Oliveira; Bermejo, 2017). Como desdobramento desse impacto, novas rotas de pesquisa apontam desafios para os pesquisadores ao trabalharem com a enorme quantidade de dados disponíveis, especialmente nas mídias sociais, transformando-os em conhecimento sobre o impacto nas políticas públicas, no próprio governo e na opinião pública.

Por fim, em relação às referências utilizadas, foi realizada a análise de cocitação, que indica a periodicidade com que duas referências citadas em conjunto, ou seja, refere-se a uma medida de bibliometria que verifica a similaridade (Zupic; Čater, 2015). A rede de cocitação é uma forma de articular os documentos e indica as referências que mais aparecem no conjunto de artigos, os autores seminais e as correntes intelectuais, permitindo insights sobre os padrões do campo de estudo (Carvalho et al., 2019; Sousa; Fontenele, 2019). As principais referências utilizadas no conjunto de artigos sobre comunicação governamental analisados são demonstradas por meio da rede de cocitação, Figura 4.

Figura 4
Rede de cocitação em comunicação governamental

Na Figura 4, podem ser identificados claramente três clusters: (i) o cluster vermelho trata essencialmente de mídias sociais e tem como principais obras Mergel (2013), que propõe um framework para interpretar e medir as interações de mídia social no setor público, e Linders (2012), que define uma tipologia para a coprodução cidadã na era das mídias sociais, trazendo a ideia de mudança de paradigma do e-gov para o we-gov; (ii) o cluster azul trata de práticas de comunicação governamental e também conta com duas obras de referência: Fairbanks, Plowman e Rawlins (2007) discutem a transparência na comunicação governamental, e Liu e Horsley (2007) propõem um modelo de relações públicas para o setor público por meio de uma decision wheel da comunicação governamental; (iii) o cluster verde tem no artigo de DePaula, Dincelli e Harrison (2018), que propõe uma tipologia de comunicação governamental nas mídias sociais, o elo de ligação com o cluster vermelho – as outras obras do cluster verde, Weaver (1986), Hood (2011) e Hansson (2015, 2017), abordam a questão de como os governos buscam evitar assumir a culpa em questões negativas por meio de discursos, reviravoltas, burocracia e autopreservação.

Considerações Finais

A comunicação governamental tem um papel fundamental na divulgação de informações e, nas sociedades democráticas, pode zelar pela coisa pública e incentivar a participação ativa dos cidadãos nas políticas públicas. O objetivo foi atingido ao realizar um estudo bibliométrico do tipo mapeamento sistemático da produção científica sobre comunicação governamental no período de 2018 a 2022, nas bases Scopus e Web of Science.

Os principais achados da pesquisa indicam que a temática apresenta um número consistente de publicações com tendência de crescimento, já que foram identifcados 38 artigos em 2018 e 75 em 2022. De forma geral, a comunicação governamental é uma temática presente em pesquisas ao redor do mundo inteiro, com destaque, em termos de produção e citação, para Estados Unidos, Reino Unido, China, Austrália e Espanha, porém com pouca colaboração entre países. Não foram identificados autores ou mesmo revistas que concentram grande número de publicações, mas foi possível identificar que os autores Mergel; DePaula, Dincelli e Harrison se destacam em relação à comunicação governamental por mídias sociais, e Fairbanks, Plowman e Rawlins em relação às práticas de comunicação governamental, sendo assim, são as principais referências nessa temática. Foram identificadas temáticas emergentes para além do contexto pandêmico, como: política pública, governo, opinião pública e mídias sociais.

No Brasil, apesar da evolução das políticas de internacionalização da ciência, esta ainda é pouco consolidada. Embora, no que se refere à difusão (publicação em periódicos internacionais), o Brasil tenha destaque como o sexto país com maior produção na área, em relação à colaboração (coautoria com autores de diferentes países) e impacto (citações recebidas), os resultados são pouco relevantes.

Como implicações práticas, no contexto brasileiro, sugere-se que os pesquisadores da área de Comunicação Governamental busquem periódicos que atendam à classificação internacional para aumentar o impacto e superar a barreira linguística, a fim de avançar em pesquisas colaborativas que abordem diferentes realidades, visando a uma maior internacionalização da ciência.

O artigo contribui para o desenvolvimento crítico da área de comunicação governamental ao permitir que os pesquisadores visualizem possibilidades de estudos futuros a partir dos resultados deste mapeamento sistemático.

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  • Editoras responsáveis:
    Marialva Barbosa e Sonia Virgínia Moreira

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    20 Dez 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    08 Out 2023
  • Aceito
    20 Out 2024
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