Resumo
O objetivo do artigo é analisar resultados de dados quantitativos de produções acadêmicas que investigaram a xenofobia e temas correlatos nas áreas das ciências da comunicação e que estão disponíveis para consulta aberta em repositórios online brasileiros e portugueses. Considera-se que os repositórios acadêmicos online de acesso aberto constituem espaços estratégicos para divulgação científica às comunidades acadêmicas, assim como para o público em geral. A xenofobia constitui um dos grandes desafios contemporâneos para os direitos humanos, promovendo exclusões e hierarquias que pressupõem superioridade de algumas pessoas relativamente a outras. A coleta de dados revelou que a xenofobia não necessariamente é abordada diretamente nos artigos, dissertações, livros e teses coletados, podendo aparecer a partir de temáticas que lhe são afins.
Palavras-Chave
Xenofobia; Migrações; Produções Acadêmicas; Repositórios Online; Comunicação
Abstract
The objective of the article is to analyze results of quantitative data from academic productions that investigated xenophobia and related topics in the areas of communication sciences and that are available in open access in Brazilian and Portuguese online repositories. It is considered that open access online academic repositories constitute strategic spaces for scientific divulgation to academic communities, as well as to the general public. Xenophobia constitutes one of the greatest contemporary challenges to human rights, promoting exclusions and hierarchies that presuppose the superiority of some people over others. Data collection revealed that xenophobia is not necessarily addressed directly in the articles, dissertations, books and theses collected, and may appear from themes that are related to it.
Keywords
Xenophobia; Migrations; Academic Productions; Online Repositories; Communication
Resumen
El objetivo del artículo es analizar resultados de datos cuantitativos de producciones académicas que investigaron la xenofobia y temas relacionados en las áreas de las ciencias de la comunicación y que están disponibles para consulta abierta en repositorios en línea brasileños y portugueses. Se considera que los repositorios académicos en línea de acceso abierto constituyen espacios estratégicos de divulgación científica a las comunidades académicas, así como al público en general. La xenofobia constituye uno de los mayores desafíos contemporáneos a los derechos humanos, promoviendo exclusiones y jerarquías que presuponen la superioridad de unas personas sobre otras. La recolección de datos reveló que la xenofobia no necesariamente es abordada directamente en los artículos, disertaciones, libros y tesis recopilados, pudiendo surgir de temas relacionados con ella.
Palabras clave
Xenofobia; Migraciones; Producciones Académicas; Repositorios Online; Comunicación
Introdução
Considerando a xenofobia e temas conexos como fenômenos sociais, políticos e culturais de interesse de investigação nas áreas que compõem as ciências da comunicação, nos propusemos a fazer um levantamento de artigos, livros, dissertações e teses que tiveram tais temáticas como escopo de interesse. Tal como adiante detalharemos nos procedimentos metodológicos, a coleta de dados foi feita em repositórios online de acesso livre, do Brasil e de Portugal, reconhecendo a importância destes para o arquivamento e acesso de produções científicas.
Desse modo, o objetivo deste artigo é analisar resultados de dados quantitativos de produções acadêmicas que investigaram a xenofobia e temas conexos nas áreas das ciências da comunicação e que estão disponíveis para consulta aberta em repositórios online brasileiros e portugueses. Considera-se que os repositórios acadêmicos online de acesso aberto constituem espaços estratégicos para divulgação científica às comunidades acadêmicas, assim como para o público em geral (Shintaku; Vidotti, 2016), além de serem estratégicos no combate às práticas de editoras e revistas predatórias (Guimarães; Hayashi, 2023).
A xenofobia constitui um dos grandes desafios contemporâneos para os direitos humanos, promovendo exclusões e hierarquias que pressupõem superioridade de algumas pessoas relativamente a outras (Albuquerque Jr., 2016; Chelius, 2021). Os ódios xenófobos, que promovem violências físicas e simbólicas diversas, têm se intensificado nas últimas décadas, na esteira do espraiamento da extrema-direita (Ribeiro; Pereira, 2019) e das correntes religiosas cristãs fundamentalistas (Schäffer, 2023), que se somam aos crescentes fluxos migratórios.
As migrações de pessoas, no interior de um mesmo país ou em fluxos entre países, possuem motivações e características diversificadas, sendo as principais os deslocamentos forçados por guerras, perseguições e outras mazelas, com as pessoas nessas situações definidas como refugiadas. Nessa condição, tais pessoas veem enfrentando dificuldades que vão da recusa de países a reconhecerem seu estatuto de refugiadas, e assim se valerem de legislações específicas de proteção, a mortes em trânsitos migratórios, flagelos quase sempre acrescidos de violências físicas e simbólicas promovidas pelo ódio xenófobo. Pessoas migrantes são aquelas que se deslocam voluntariamente dos seus locais de origem, por motivações como estudar, encontrar trabalho, reagrupamento familiar, obter melhor qualidade de vida etc. A exposição ao ódio xenófobo é um elemento comum às pessoas refugiadas e às migrantes, ainda que a intensidade dos ataques possam ser maiores relativamente às primeiras, principalmente por sua condição de vulnerabilização provocada pelos motivos que as obrigaram ao refúgio como estratégia de sobrevivência.
Metodologia
A coleta das produções acadêmicas que têm as relações entre processos e produtos comunicacionais e xenofobia como fenômeno investigado foi realizada em repositórios online de acesso livre mantidos por instituições brasileiras e portuguesas, escolhidos em função da facilidade de acesso e da importância institucional que representam. Por tal critério, no Brasil foram consultados o Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e as bibliotecas digitais da Compós (Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação), da Intercom (Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação) e da SBPJor (Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo). Em Portugal foram consultados o RepositoriUM, repositório institucional de publicações científicas da Universidade do Minho, e a biblioteca digital da Associação Portuguesa de Ciências da Comunicação (Sopcom). O recorte temporal abrangeu as publicações indexadas nos repositórios entre os anos 2000 e 2022.
Uma vez que não nos orientamos por perspectivas comparativas dos resultados obtidos para cada país, há discrepância no número de repositórios consultados, sendo quatro no Brasil e dois em Portugal. Adotar uma abordagem comparativa seria complexo por diversas razões, dentre as quais, as mais relevantes são: 1) enquanto a população residente no Brasil ultrapassa 210 milhões de pessoas, em Portugal o montante está em torno de 10 milhões; 2) o Brasil possui número significativamente superior de universidades do que Portugal; 3) em Portugal não há entidade representativa de programas de pós-graduação, a exemplo da Compós no Brasil, que mantenha repositório; 4) em Portugal não há entidade com finalidade científica de profissão do campo da comunicação, a exemplo da SBPJor no Brasil, que mantenha repositório; 5) em Portugal não há repositório online suportado por agência de fomento nos moldes do mantido pela Capes. Proceder a uma perspectiva analítica comparativa entre realidades tão distintas poderia induzir equívocos, como maior ou menor comprometimento com pesquisas com foco no interesse de investigação deste artigo em cada país, dentre outras potenciais distorções.
A composição do corpus - formado por artigos, dissertações, teses e livros - foi feita nos mecanismos de pesquisa dos próprios repositórios e bibliotecas, utilizando como termos xenofobia, migração, migrantes, jornalismo, comunicação, redes sociais, publicidade e outros, aplicando, quando cabível, variações de gênero. Identificadas as produções, foi realizada leitura dos resumos e das palavras-chave, eliminando as produções científicas que não se enquadraram na temática da investigação aqui proposta. Os resultados finais obtidos se encontram na análise de dados, que realizamos após as discussões teóricas sobre xenofobia e repositórios online de acesso aberto.
Xenofobia
Problema de direitos humanos de nível global, a xenofobia representa um enorme desafio para governos, organizações internacionais e organizações não-governamentais, mas sobretudo, impõe sofrimento a milhões de pessoas em movimentos migratórios internos e/ou externos aos seus países de origem. Segundo os dados mais recentes compilados pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), “até junho de 2025, mais de 117,3 milhões de pessoas em todo o mundo foram forçadas a se deslocar devido a perseguições, conflitos, violência, violações de direitos humanos e eventos que perturbaram seriamente a ordem pública.” (Acnur, 2025, online). O mesmo relatório indica que Afeganistão, República Democrática do Congo, Sudão e Síria foram os países com os maiores fluxos migratórios no período analisado2.
Fluxos migratórios, promovidos por pessoas na condição de refugiadas ou em busca de melhores possibilidades de vida com qualidade, têm levado a mortes em naufrágios de embarcações precárias, muitas vezes ilegais, em travessias de ambientes hostis e por outras formas de violências. Dados da OIM, Agência da Organização das Nações Unidas para Migração, revelam que
Pelo menos 8.565 pessoas morreram em rotas migratórias em todo o mundo em 2023, tornando-o o ano mais mortal já registrado, de acordo com os dados coletados pelo Projeto Migrantes Desaparecidos, da OIM, Agência da ONU para as Migrações. O número total de mortes em 2023 representa um aumento trágico de 20% em comparação com 2022, enfatizando a necessidade urgente de ação para evitar mais perdas de vida3.
(OIM, online)
Tanto quanto diversas são as motivações para os movimentos migratórios forçados - guerras, perseguições políticas, fuga da fome, desemprego, racismo, misoginia, expulsão por movimentos terroristas, perseguições religiosas, por homofobia etc. - também o são as consequências dos deslocamentos: possibilidade de novas perseguições políticas, misóginas, religiosas e homofóbicas, racismo, a fome e o desemprego que se repetem no país de chegada ou na nova região do mesmo país, com a agravante da xenofobia. Embora não seja possível afirmar que todas as pessoas migrantes ou refugiadas sejam vítimas da xenofobia, é plausível afirmar que os movimentos migratórios, desde tempos imemoriais, estão na raiz da constituição dos ódios, desprezos e violências xenofóbicas, deixando sequelas físicas e/ou psicológicas em suas vítimas, além de provocarem mortes físicas e sociais. Ainda importante é destacar que enquanto pessoas migrantes não são forçadas a deixarem seus locais de origem, podendo a eles retornarem a qualquer momento, o mesmo não é possível para as pessoas refugiadas, motivo pelo qual contam com legislação internacional de proteção (Acnur, 2019; Pichioni, 2020).
Aparentemente, a xenofobia é de fácil compreensão, se a tomamos na definição de Durval Muniz de Albuquerque Jr.:
A palavra xenofobia vem do grego, da articulação das palavras xénos [ξένος] (estranho, estrangeiro) e phobos [φόβος] (medo), significando, portanto, o medo, a rejeição, a recusa, a antipatia e a profunda aversão ao estrangeiro. Ela implica uma desconfiança e um preconceito em relação às pessoas estranhas ao território, ao meio, à cultura a que pertence aquele que julga, que observa, que se considera como estando em seu lugar. A xenofobia implica uma delimitação espacial, uma territorialidade, uma comunidade, em que se estabelece um dentro e um fora, uma interioridade e uma exterioridade, tanto material quanto simbólica, tanto territorial quanto cultural, fazendo daquele que vem de fora desse território ou dessa cultura um estranho ao qual se recusa, se rejeita com maior ou menor intensidade.
(Albuquerque Jr., 2016, p. 9)
A xenofobia constitui um intrincado e complexo emaranhado de elementos, tornando necessário acrescentar a essa definição inicial um conjunto mais amplo de variáveis que tornam mais densas as recusas “ao estranho”: ao racismo, à misoginia, à homofobia e às divergências religiosas, devemos acrescentar as intolerâncias culturais e comportamentais e uma série de outras, algumas vezes atuando isoladamente, outras amalgamadas. Entender a xenofobia, consequentemente, requer a um só tempo investigar suas características potencialmente universais e suas manifestações particulares em cada sociedade e ao longo do tempo. Implica também reconhecer que a xenofobia produz hierarquizações excludentes, a partir da pressuposição de maior ou menor humanidade da pessoa a quem se dirige ódio e intolerância. E se a xenofobia pode ser entendida como “medo do estrangeiro”, tal sentimento não tem relação com as categorias das fobias classificadas como doenças, pois aprendemos a ser pessoas xenófobas em função do meio cultural no qual nascemos, crescemos e nos relacionamos com as diferenças.
Em perspectiva que incorpora noções de identidade e alteridade, Leticia Calderón Chelius nos lembra que
A xenofobia é a resposta negativa de alguns membros de uma sociedade àqueles que consideram estranhos e descrevem como “o oposto” daquilo que os identifica como grupo nacional; isso não iria além do exercício anedótico ou típico de comparação de modos de ser e folclorismos nacionais (Universal, 2019). Não é assim, pois a xenofobia ultrapassa o simples contraste entre “eles-nós” que pode ser um elemento de identidade primária, mesmo natural à condição humana, mas antes é a negação do outro, uma tentativa de diminuição da personalidade e autoestima ao exaltar a alteridade ao desqualificar o oposto.
(Chelius, 2021, p. 280-281)
Como fenômeno complexo, a xenofobia não é exclusivamente dirigida a pessoas estrangeiras a um determinado país, posto que ela alcança também as pessoas nativas de uma mesma nação. No Brasil são fartos os ódios e intolerâncias contra os povos indígenas, manifestados em todas as regiões brasileiras, assim como contra pessoas nordestinas, muitas vezes identificadas como qualquer uma que não tenha nascido no Sudeste ou no Sul. Em Portugal, como indica Rosa Cabecinhas (2008), as populações ciganas, que habitam o território português há cinco séculos, são alvos de reiterados ataques xenófobos. O enfrentamento à xenofobia e suas consequências individuais e coletivas, consequentemente, não se restringe à perspectiva do estrangeiro, alargando-se para a do “forasteiro”, este compreendido cultural e simbolicamente como qualquer pessoa que não seja originária do espaço territorial onde se manifestam os ódios e intolerâncias xenófobas.
Nos últimos anos, o agravamento da xenofobia tem se verificado a partir das ações de grupos e partidos políticos de direita, alguns definidos como de extrema-direita (Gaborit, et al, 2020), na esteira de graves crises econômicas e sociais, como indicam Jocenilson Ribeiro e Thiago Augusto Carlos Pereira:
Aliado a este cenário de crises contemporâneas, quando não diretamente motivado por discursos conservadores, nota-se o crescimento de uma direita intolerante, ‘extrema’, inclusive no contexto internacional – na Europa e na América do Norte (EUA) –, fortalecendo uma onda ideológica anti-imigrante que se instituiu em vários tipos de violência contra o estrangeiro, os negros, os árabes, os africanos, os latino-americanos, os homossexuais, os ciganos, os sírios, os libaneses, os haitianos, os povos indígenas/originários, etc. Nas línguas portuguesa e espanhola, nomeia-se essa onda de violência de ordem ou motivação política como discursos de ódio ou des discours de haine em francês, mas hate speech, no inglês.
(Ribeiro; Pereira, 2019, p. 35)
No Brasil tivemos o ex-presidente da República, Jair Bolsonaro, como disseminador de discursos de ódio xenófobos, a exemplo dos proferidos contra chineses no contexto da pandemia de Covid-19, em função de os primeiros casos terem sido diagnosticados naquele país. Mas Jair Bolsonaro também manifestou desprezo, em mais de uma ocasião, a pessoas indígenas e nordestinas4. Em Portugal, o deputado André Ventura, líder do Chega, partido de extrema-direita, reiteradamente ataca pessoas ciganas, tendo sugerido que elas fossem isoladas como medida de combate à Covid-195.
A propósito, a pandemia provocada pelo vírus Sars-CoV-2 tendeu a agravar as manifestações xenófobas, devido ao potencial em aumentar os fluxos migratórios, como consequência da degradação econômica derivada das necessárias medidas sanitárias, bem como ao fechamento de fronteiras nos períodos mais agudos da pandemia e, posteriormente, pela exigência de documentos comprobatórios de vacinação, que constituíram, durante determinado período, uma espécie de passaporte que limitou trânsito de pessoas e restrições originárias de tipo de vacina tomada e/ou regiões classificadas como de maior risco para a Covid-19. Nesse sentido, a xenofobia é dinâmica em suas manifestações, incorporando ao longo dos tempos novas motivações de ódio e intolerância.
Ainda no contexto do espraiamento dos discursos contra migrantes e pessoas refugiadas na mesma proporção do crescimento da extrema-direita em nível global, são crescentes as preocupações com os incentivos xenófobos vindos de setores religiosos fundamentalistas de matriz cristã. Heinrich Wilhelm Schäfer, pesquisador alemão de religiões, identificou essa tendência no governo de Donald Trump nos Estados Unidos:
Em suma, aqui a experiência de uma ameaça à nação cristã colocada pelas crenças religiosas é processada de tal forma que a legitimidade religiosa e política da cristandade da nação é inquestionavelmente afirmada e os correspondentes imperativos de ação são derivados. A xenofobia generalizada, o nacionalismo de base religiosa e o autoritarismo religioso fazem desta facção da direita religiosa um aliado natural das políticas isolacionistas do America First e da incumbência autocrática do regime Trump.
(Schäffer, 2023, pág. 231-232)
Por envolver dimensões políticas, culturais, econômicas, religiosas e outras, cada uma com características diversificadas, o combate à xenofobia e seus problemas conexos é um desafio longe de lograr êxito. As dificuldades se avolumam pelo fato de a xenofobia ser uma prática de ódio e intolerância registrada por todo lado, fazendo com que ela não seja percebida como tipicamente relacional. Ou seja, que alguém vítima da xenofobia de outrem pode vir a praticar xenofobia ao julgar-se superior em outro contexto e frente a outra pessoa.
Ao lado de diversas organizações, a mídia, especialmente a jornalística, é estratégica para a divulgação pública de casos de xenofobia e problemas a ela conexos, inclusive muitas vezes tendo as organizações que lidam com questões de migração e xenofobia como agentes fundamentais para a obtenção de informações. Não por acaso, o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados tem produzido manuais de orientação para comunicadoras, comunicadores, jornalistas e estudantes sobre como lidar com o universo das questões relativas a pessoas refugiadas e migrantes (Acnur, 2019; Pichioni, 2020). Em publicação dirigida a esses públicos, a Acnur assim justifica a importância do manual de boas práticas informativas:
A temática migratória é, ainda, transversal por excelência. Pode-se analisá-la pelo viés da política, economia, cultura, esporte, tecnologia, relações internacionais, educação, saúde, habitação, questões de gênero, entre outros. Entender as migrações é uma das formas de compreender o mundo a partir de elementos humanos e das interações que esta mobilidade possibilita. Por ser um agente de tanta importância no contexto social, precisa ser entendido como tal – seja pela mídia, pelos formuladores de políticas públicas e pela sociedade em si. Os meios de comunicação são espaços de grande importância para dar visibilidade às virtudes e desafios gerados pelas migrações e suas vertentes, e este breve guia pretende contribuir para abordagens empáticas e comprometidas com fatos.
(Acnur, 2019, p. 4)
Partimos do pressuposto de que as mídias, aí incluídas as jornalísticas, são atrizes sociais em disputas de sentido e jogos de poder com outras atrizes e atores sociais (Carvalho, 2023). Desse modo, abordagens midiáticas e comunicacionais de temáticas socialmente controversas, como a xenofobia, são ambíguas, pois tanto podem contribuir para a superação do problema, quanto para reforçá-lo, ao reproduzir as dinâmicas que sustentam os ódios e intolerâncias xenófobos. O mesmo é válido para o universo das plataformas sociais digitais, nas quais, crescentemente, são observados fenômenos de espraiamento de ódio e intolerância de motivação xenófoba (Farah, 2017). Em sua natureza contraditória, ambígua e multifacetada, as mídias tanto podem tornar visíveis problemas e pessoas envolvidas, quanto silenciá-los, o que tem motivado uma grande quantidade de investigações sobre os modos como produtos e processos midiáticos e comunicacionais lidam com fenômenos socioculturais complexos.
Repositórios online
Considera-se que os repositórios acadêmicos online de acesso aberto constituem espaços estratégicos para divulgação de artigos científicos, livros, dissertações e teses às comunidades acadêmicas e científicas, assim como para o público em geral, atuando na comunicação pública das ciências (Shintaku; Vidotti, 2016). As áreas das ciências da comunicação, que abrangem pesquisas em jornalismo, cinema, publicidade e propaganda, relações públicas, internet, culturas digitais, plataformas sociais e outras, têm se beneficiado das possibilidades oferecidas pelos repositórios para expansão dos públicos que tomam contato com suas produções acadêmicas.
As universidades públicas, as agências de fomento à pesquisa e à formação de recursos humanos acadêmicos e científicos e as associações que congregam investigadoras e investigadores são parte significativa das organizações que estão criando e mantendo repositórios online de acesso aberto. À diferença dos repositórios de revistas em sistema open access, que disponibilizam somente os artigos por elas publicados, os repositórios online de acesso aberto podem, por meio de curadoria e acordos com diversas revistas e editoras, reunir produções de variadas fontes, seja sob a forma de acesso direto em suas plataformas, seja pela indicação de links para acesso a outras plataformas. Milton Shintaku e Silvana Vidotti compreendem os repositórios como uma inovação na divulgação científica:
O movimento de acesso aberto tem impactado a comunicação científica, alterando significativamente processos estabelecidos, modelos de negócio, entre outros. Nesse caso, os periódicos de acesso aberto e os repositórios têm se destacado na disseminação de documentação científica, no que Harnad et al (2004) denomina de via dourada e via verde, na medida em que os artigos são publicados nas revistas e preservados nos repositórios.
(Shintaku; Vidotti, 2016, p. 62)
No caso de dissertações e teses, os repositórios constituem a possibilidade de difusão pública que de outra forma não seria possível, permitindo que produções que ficariam restritas ao universo das universidades alcancem públicos mais amplos. Os livros, por sua vez, pela hipótese de estarem protegidos por direitos autorais detidos por editoras comerciais ou universitárias, exigem processos mais complexos de negociação, muitas vezes requerendo investimentos financeiros de somas elevadas. Aliás, a criação, sobrevivência e/ou ampliação de repositórios online de acesso gratuito tem enfrentado dificuldades financeiras graves, particularmente pelo contingenciamento ou extinção de recursos humanos e econômicos sem os quais não é possível manter iniciativas que requerem investimentos em equipamentos de informática caros e sofisticados, treinamento de recursos humanos e uma série de desafios.
Além de disponibilizar produções acadêmicas a um vasto público, os repositórios online são considerados estratégicos no combate a revistas e editoras predatórias, que têm se multiplicado recentemente (Guimarães; Hayashi, 2023). José Augusto Chaves Guimarães e Maria Cristina Piumbato I. Hayashi (2023) definem as revistas e editoras predatórias como aquelas que cobram pela publicação de artigos, que publicam trabalhos já divulgados em outros meios, que não possuem conselho editorial de credibilidade, que não realizam avaliações antes da publicação, lembrando que não há consenso nas comunidades acadêmicas e científicas quanto a uma definição conclusiva. Por essa razão, são comuns também os termos pseudo-revistas, revistas oportunistas, periódicos de má-fé, periódicos enganosos e de baixa qualidade, dentre outras nomeações.
Embora fuja ao escopo deste artigo, é fundamental destacar que a proliferação de revistas e editoras predatórias se alimenta das lógicas produtivistas que regem as normas de instituições de pesquisa, universidades e agências de fomento. Atuam, assim, oferecendo oportunidades de publicação em larga escala, importando a dimensão quantitativa, em detrimento de contribuições teóricas, metodológicas, de inovação e outras variáveis que permitam produções científicas que atendam aos critérios de rigor de cada área do conhecimento. Para José Augusto Chaves Guimarães e Maria Cristina Piumbato I. Hayashi, é necessário atuar contra os interesses das editoras e revistas predatórias e
De modo a fazer frente a essa ameaça, torna-se necessária uma ação conjunta de autores (os investigadores), editores, instituições de ensino e pesquisa, agências de fomento à pesquisa, e bases de dados bibliográficas no sentido de garantir que a comunicação científica nos mais diversos campos do conhecimento se faça em moldes éticos, transparentes e defensáveis.
(Guimarães; Hayashi, 2023, p. 14)
Ainda que não necessariamente sejam responsáveis por publicar artigos e livros inéditos, os repositórios online de acesso aberto contribuem, efetivamente, para divulgação a públicos mais amplos e auxiliam no combate às práticas predatórias de divulgação científica.
Análise de resultados
Os resultados mais expressivos da pesquisa nos repositórios online de acesso aberto são analisados na sequência, com breves considerações sobre os dados numéricos revelados.
Os primeiros anos do século XXI foram aqueles em que as temáticas das migrações, refúgios, xenofobia e temas conexos foram menos investigadas, com aumento, embora oscilante, a partir da segunda metade daquela década, indicando a tendência de maior quantidade de produções que se verificou na segunda década. É notório o aumento das indexações na segunda década do período investigado, coincidindo com a ascensão, em todo o mundo, de partidos e políticos identificados com a extrema-direita, assim como da intensificação de práticas religiosas cristãs fundamentalistas, que tal como indicamos na discussão teórica, têm sido responsáveis pelo agravamento da xenofobia e temas conexos. Há ainda a possibilidade de que as restrições impostas pela pandemia de Covid-19 tenham agravado o quadro mundial de xenofobia e temas conexos, impactando o número superior de produções acadêmicas a partir de 2020.
Conflitos e dificuldades políticas locais, como na Síria, Afeganistão, Venezuela, Haiti e outros países, contribuíram significativamente para chamar a atenção para os problemas das migrações, da xenofobia, dos refugiados e temas conexos, o que está na origem para compreendermos a grande expansão das indexações em 2020, com aparente tendência de queda a partir de 2021. No entanto, não há como afirmar que a diminuição do número de produções em 2021 e 2022 tenha efetivamente ocorrido, uma vez que entre a publicação de artigos e livros e as defesas de dissertações e de teses pode ocorrer um hiato até a disponibilização nos repositórios online, dadas as complexidades envolvidas nos processos de curadoria e autorização para inserção nos bancos de dados.
Das 291 publicações indexadas nos repositórios online de acesso aberto sobre migrações, refugiados, xenofobia e temas conexos identificadas, 244 estão em bases brasileiras, com 47 em bases portuguesas. Conforme discutimos na metodologia, não houve a intenção de promover análise comparativa, em função das diferenças notáveis entre os países, seja em dimensão populacional, seja em quantitativos de instituições universitárias e/ou de pesquisa, além das demais distinções. É importante destacar que as produções indexadas nos repositórios não são exclusivamente realizadas por pessoas dos respectivos países, inclusive com a possibilidade de produções portuguesas indexadas em repositórios brasileiros e vice-versa, embora não tenhamos nos detido particularmente na investigação dessa dinâmica.
O dado mais relevante sobre os totais indexados por repositórios está na importância do Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), responsável isoladamente por mais da metade das publicações indexadas sobre migrações, refúgios, xenofobia e temas conexos investigados nas áreas da comunicação, com 185 ocorrências. O Portal de Periódicos da Capes se consolidou, no Brasil, como importante fonte de pesquisas para todas as áreas do conhecimento e a maior quantidade de publicações ali disponíveis se explica por sua característica de agregar produções originárias de diversas fontes. Em Portugal, o repositório da Universidade do Minho (RepositóriUM), com 31 ocorrências, se destaca, lembrando tratar-se de instituição de ensino que há mais de uma década é classificada como de excelência em investigações no campo da comunicação. No Brasil as entidades científicas das áreas da comunicação investigadas retornaram como resultados de publicações sobre migrações, refúgios, xenofobia e temas conexos 32 nas bases da Intercom, 23 nas da Compós e 4 nas da SBPjor. Nos repositórios dessas entidades prevalecem artigos apresentados em congressos, que em muitos casos têm nessas bibliotecas a única oportunidade de publicação. Em Portugal, a única entidade científica das áreas da comunicação que teve coleta foi a Sopcom, onde identificamos 16 publicações indexadas sobre migrações, refúgios, xenofobia e temas conexos investigados nas áreas da comunicação, todas elas em livros de atas dos congressos da Sopcom.
Na totalização dos temas a partir das palavras-chave chama a atenção o fato de a xenofobia não necessariamente estar no foco de todas as investigações em que migrações e refúgios constituem o foco principal. Embora as referências a preconceitos, estereótipos negativos, violências físicas e simbólicas contra migrantes e pessoas refugiadas constituam preocupação em parcela das publicações coletadas, o conceito de xenofobia, com suas particularidades, raramente é diretamente acionado. Em algumas investigações são referidos problemas econômicos, políticos, religiosos, culturais e outros como motivações para fluxos migratórios e refúgios, sem menção explícita a dificuldades enfrentadas pelas pessoas nos países de acolhimento.
Comunicação, como termo guarda-chuva para uma área de conhecimento bastante diversa, se sobressai, seguida de publicações nas quais o foco recaiu sobre o jornalismo, as redes sociais e a publicidade, na ordem de maior referência. Da leitura dos dados quantitativos, quanto aos produtos e processos comunicacionais e midiáticos, as redes sociais aparecem com potencial para novas investigações, especialmente se consideradas as suas estratégias de crescente inserção na vida social.
Há um recorte de gênero preocupante nos resultados da investigação, com a ausência de interesse sobre os fluxos migratórios das mulheres, pois dados de entidades como a Acnur e outras organizações voltadas para os problemas das migrações, refúgios, xenofobia e temas conexos indicam um percentual elevado de mulheres atingidas por esse problema global. A ausência de referências às mulheres em pesquisas sobre migrações, refúgios, xenofobia e temas conexos investigados nas áreas da comunicação segue tendência inversa verificada em outras áreas de conhecimento (Assis, 2007).
Considerações finais
Três dados se mostraram mais relevantes na pesquisa sobre as publicações indexadas nos repositórios online de acesso aberto que investigaram a xenofobia, os refúgios e temas conexos nas interfaces com as áreas das ciências da comunicação. O primeiro, comum ao Brasil e a Portugal, revela que a xenofobia não está necessariamente abordada em suas dimensões conceituais e consequências diversas para pessoas e sociedades, ainda quando há interesse em migrações e refúgios. Negligenciar a xenofobia nessas investigações significa deixar em segundo plano um problema que tende a atingir as pessoas em fluxos migratórios, quaisquer sejam as motivações para o deslocamento. Outra ausência problemática que diz respeito às publicações indexadas no Brasil e em Portugal foi identificada na dimensão das relações de gênero, com as mulheres não situadas no escopo central das dinâmicas da xenofobia, refúgios e temas conexos, a despeito de elas constituírem elevado percentual nos fluxos migratórios.
O terceiro dado de destaque foi a identificação da importância, no Brasil, do Portal de Periódicos da Capes, responsável isoladamente por mais da metade das publicações indexadas do nosso recorte. Por ser mantido por agência de fomento, conta com melhores possibilidades de recursos humanos e financeiros, nem sempre disponíveis para a criação e manutenção de repositórios online de acesso aberto.
Em Portugal a maior proporção de publicações no escopo da investigação de que se ocupou este artigo ter sido identificada no repositório da Universidade do Minho é compatível com o fato de tratar-se de instituição que há mais de uma década está classificada como de excelência. Avaliações que classificam instituições de ensino adotam, dentre outros critérios, a manutenção de repositórios online de acesso gratuito.
A criação e manutenção de repositórios online de acesso aberto no Brasil e em Portugal são estratégicas não somente para reunir e difundir produções acadêmicas de forma gratuita e democratizada. Uma outra vantagem está na difusão das ciências produzidas em língua portuguesa, contribuindo para o reconhecimento cultural da língua falada em diversos países e base para reflexões de milhares de cientistas ao redor do mundo.
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O artigo foi produzido no âmbito do CAPES/PRINT/UFMG - Programa Institucional de Internacionalização - número 88887.71688120200, professor visitante sênior no exterior, com financiamento da Capes, e desenvolvido na Universidade do Minho, Portugal, sob supervisão da professora Rosa Cabecinhas.
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Financiamento:
O desenvolvimento dessa pesquisa foi possível graças ao apoio proporcionado pela Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (Fapemig), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
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Finaciamento:
CNPq
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Artigo submetido à verificação de similaridade
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Como citar:
CARVALHO, Carlos A. A xenofobia sob investigação em produções acadêmicas brasileiras e portuguesas disponíveis em repositórios online. São Paulo: INTERCOM - Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, v. 49(2026) e2026122. https://doi.org/10.1590/1809-58442026122pt.
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A REVISTA INTERCOM incentiva o compartilhamento de dados mas, por observância a ditames éticos, não demanda a divulgação de qualquer meio de identificação de sujeitos de pesquisa, preservando a privacidade dos sujeitos de pesquisa. A prática de open data é viabilizar a reproducibilidade de resultados, e assegurar a irrestrita transparência dos resultados da pesquisa publicada, sem que seja demandada a identidade de sujeitos de pesquisa.
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Linguagem inclusiva
Os autores usam linguagem inclusiva que reconhece a diversidade, demonstra respeito por todas as pessoas, é sensível a diferenças e promove oportunidades iguais.
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O artigo foi produzido no âmbito do CAPES/PRINT/UFMG - Programa Institucional de Internacionalização - número 88887.71688120200, professor visitante sênior no exterior, com financiamento da Capes, e desenvolvido na Universidade do Minho, Portugal, sob supervisão da professora Rosa Cabecinhas.
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Disponível em: https://www.acnur.org/br/dados-refugiados-no-brasil-e-no-mundo. Consulta em 03/02/2025.
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Ver Bolsonaro acumula frases preconceituosas contra diferentes alvos; relembre, disponível em https://www1.folha.uol.com.br/poder/2022/02/bolsonaro-acumula-frases-preconceituosas-contra-diferentes-alvos-relembre.shtml. Consulta em 13/05/2024.
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Ver Covid-19: Ventura diz que apresentará plano de confinamento para população cigana mesmo sem apoios, disponível em https://expresso.pt/politica/2020-05-06-Covid-19-Ventura-diz-que-apresentara-plano-de-confinamento-para-populacao-cigana-mesmo-sem-apoios. Consulta em 13/05/2024.
Disponibilidade dos Dados
Todos os dados que deram base ao presente artigo encontram-se no corpo do texto.
Referências
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Editado por
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Editoras Chefes:
Dra. Marialva BarbosaUniversidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJDra. Sonia Virginia MoreiraUniversidade do Estado do Rio de Janeiro, UERJ
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Editores Executivos:
Dr. Jorge C. Felz FerreiraUniversidade Federal de Juiz de Fora, UFJFDra. Ana Paula Goulart de AndradeUniv. Federal Rural do Rio de Janeiro, UFRRJ
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Editor Associado
Dr. Sandro Torres de AzevedoUniversidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ





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