Resumo
Em fevereiro de 2022, no auge das tensões entre Rússia e Ucrânia, o ex-presidente Jair Bolsonaro viajou a Moscou para realizar encontros oficiais. De imediato, seus apoiadores começaram a especular sobre uma motivação secreta da viagem: evitar o conflito entre as duas nações. Nos dias que se seguiram, uma inundação de memes em diferentes plataformas caracterizava Bolsonaro como promotor da paz mundial, ao passo que outros ironizavam tais pretensões. O objetivo deste trabalho é analisar essa “guerra memética” como representativa do poder que os memes vêm exercendo no cenário político brasileiro (e mundial). Tomando como ferramentas teóricas a noção de imagem dialética e as relações estruturais que o meme tem com a experiência religiosa, proponho que o discurso público vem sendo fortemente condicionado por uma “lógica memética” que se espalha de forma viral pelo tecido social nas atuais condições da cultura cibernética.
Palavras-chave
Guerra; Memes; Imaginário; Imagem Dialética
Abstract
In February 2022, at the height of tensions between Russia and Ukraine, former president Jair Bolsonaro traveled to Moscow to hold official meetings. Immediately, his supporters began to speculate about a secret motivation for the trip: to avoid the conflict between the two nations. In the days that followed, a flood of memes on different platforms characterized Bolsonaro as a promoter of world peace, while others mocked such claims. The aim of this paper is to analyze this “memetic war” as representative of the power that memes have been exerting on the Brazilian (and global) political scene. Taking as theoretical tools the notion of “dialectical image” and the structural relations that memes entertain with religious experience, I propose that public discourse has been strongly conditioned by a “memetic logic” that spreads virally through the social fabric in the current conditions of cyberculture.
Keywords
War; Memes; Imaginary; Dialectical Image
Resumen
En febrero de 2022, en el punto álgido de las tensiones entre Rusia y Ucrania, el expresidente Jair Bolsonaro viajó a Moscú para mantener reuniones oficiales. Inmediatamente, sus partidarios comenzaron a especular sobre una motivación secreta del viaje: evitar el conflicto entre las dos naciones. En los días siguientes, una avalancha de memes en diferentes plataformas caracterizó a Bolsonaro como promotor de la paz mundial, mientras que otros se burlaron de tales afirmaciones. El objetivo de este trabajo es analizar esta «guerra memética» como representativa del poder que los memes vienen ejerciendo en la escena política brasileña (y mundial). Tomando como herramientas teóricas la noción de imagen dialéctica y las relaciones estructurales que el meme tiene con la experiencia religiosa, propongo que el discurso público ha estado fuertemente condicionado por una "lógica memética" que se propaga viralmente por el tejido social en las actuales condiciones de la cibercultura.
Palabras clave
Guerra; Memes; Imaginario; Imagen Dialéctica
Introdução
No dia 14 de fevereiro de 2022, no auge das tensões entre Rússia e Ucrânia, o ex-presidente Jair Bolsonaro viajou a Moscou para realizar encontros oficiais com Vladimir Putin. As motivações da viagem foram mantidas em segredo, “por razões de segurança nacional” (uma prática bastante comum durante o governo Bolsonaro), ainda que, muito possivelmente, se tratasse somente de uma missão corriqueira para discutir acordos comerciais. Todavia, de imediato os apoiadores de Bolsonaro começaram a especular sobre uma outra razão possível, mais nobre e mais secreta: evitar o conflito entre as duas nações. Foi, portanto, uma conveniente coincidência o fato de que, precisamente no mesmo dia da chegada de Bolsonaro, Putin anunciasse uma retirada parcial de suas tropas da fronteira entre os países. O então ministro do meio ambiente, Ricardo Salles, publicou no Instagram uma grosseira falsificação de suposta reportagem da CNN atribuindo a Bolsonaro a responsabilidade pela interrupção do conflito. O texto do post dizia: “Putin sinaliza recuo na Ucrânia, presidente Bolsonaro evita a 3a Guerra Mundial”. Algumas horas depois, Salles repete a dose, com nova publicação falsa na qual Bolsonaro aparece como “Personalidade do Ano” da revista Time (FIGURA 1). Os dias que se seguiram testemunharam uma inundação de memes, em diferentes plataformas, apresentando Bolsonaro como figura messiânica capaz de administrar a paz mundial.
Contudo, essa propaganda memética foi rapidamente contrabalançada por meio de vários memes irônicos que satirizavam tais alegações absurdas e desproporcionais. O objetivo deste trabalho é analisar essa “guerra memética” de curta duração como representativa do poder que os memes vêm exercendo no cenário político brasileiro (e global). Mais do que simplesmente a repetição dos memes como forma de expressão de afetos e emoções políticas, proponho que o discurso público vem sendo fortemente condicionado por uma “lógica memética” que se espalha de forma viral pelo tecido social nas atuais condições da cultura cibernética. Tal lógica estaria fundada em vetores imagéticos e imaginários não-lineares e não-racionais. Como já afirmou a filósofa Chiara Bottici, “o papel das imagens na política contemporânea é tamanho a ponto de elas já não simplesmente mediarem nossos afazeres políticos; agora corremos o risco de que elas façam política em nosso lugar” (2019, p. 11). Isso é particularmente evidente no caso das imagens meméticas (MINA, 2019; MILNER, 2016; WIGGINS, 2020). A aposta deste estudo é que a narrativa messiânica sobre Bolsonaro representa um caso exemplar de como os memes cooperam para configurar uma realidade social na qual mito e fato, religião e política, ficção e realidade se mesclam, expressando uma atmosfera pública na qual emoções e sentimentos substituem a racionalidade política. É em função desses traços particulares que a clássica noção benjaminiana de “imagem dialética” irá se mostrar como ferramenta epistemológica de significativa utilidade.
Guerra memética e magia memética
O tema das “guerras meméticas” constitui o cerne do trabalho de Donovan, Dreyfus e Friedberg, que não hesitam em situá-las no coração das disputas políticas contemporâneas. Elas seriam, segundo os autores, uma expressão da guerra cultural, mas potencializada em função da “infraestrutura e dos incentivos da internet, que utilizam a revolta e o extremismo como moedas de troca [...] e reduzem a experiência do mundo a um rolar infindável de imagens e palavras, um pântano capaz de engolir a paciência, a gentileza e a compreensão” (2022, p. 10). Provavelmente, o exemplo mais emblemático do poder da guerra memética se deu durante a eleição de Donald Trump no Estados Unidos. Como afirma Ian Parker, mais que todas as campanhas presidenciais anteriores, a de Trump foi inteiramente midiática, com destaque para as tecnologias informacionais e o uso de imagens meméticas (2019, p. 354). De fato, a criação de uma atmosfera favorável à eleição de Trump aconteceu principalmente em meios digitais, respaldada na crença dos poderes de uma “magia memética” por comunidades de usuários que, com motivações sérias ou paródicas, se engajaram naquilo que o estudioso das religiões Egil Asprem definiu como a “guerra mágica americana” (2020).
Seria exagero falar em magia memética? No caso norte-americano certamente não. Independente dos efeitos concretos que memes possam produzir na realidade política e social, existia então (e ainda existe) uma crença largamente difundida na internet, particularmente em sites como o 4-Chan e o Reddit, a respeito de seu poder de influência e transformação cultural. Na Verdadeira e Única Bíblia de Kek, elaborada sob o pseudônimo de Saint Obamas Momjeans, a magia memética é definida como um fenômeno “que acontece quando nerds (neckbeards) autistas da internet combinam seu mana para memetizar uma macro imagem em realidade” (2017, s/p.). Mas a noção de magia memética pode ser traduzida secularmente na percepção do poder que as imagens e o imaginário exercem em uma sociedade profundamente midiatizada. A capacidade de condensação semântica dos memes os tornaria, assim, não somente uma importante ferramenta comunicacional da cultura contemporânea, senão também um dos principais instrumentos das disputas políticas em nível mundial – e em tal escala que lhes permitiria ser qualificados, por comunidades online inteiras, como “mágicos”. Vale lembrar, neste contexto, que a criação de memes envolve uma série de problemáticas complexas escondidas por sua aparente simplicidade. Sua produção exige não só conhecimento prévio uma “enciclopédia” de memes disponíveis em ambiente digital, mas também habilidades técnicas e semióticas. Como afirmam Varis e Blommaert,
as diferentes formas de resemiotização representam diferentes gêneros de ação comunicativa, indo da refocalização maximamente transparente de memes existentes à criação de novos memes singulares, menos densamente conectados àqueles já existentes (2015, p. 40, gr. meus).
Nesse sentido, a magia memética nada mais seria que uma expressão do risco que corremos de que as imagens hoje “façam política em nosso lugar”, como sugeriu Bottici na frase mencionada acima. É num registro semelhante, também, que Tony Sampson desenvolve toda uma teoria da viralidade fundada na ideia de “charme mágico”, de Gabriel Tarde. Em sua sociologia da imitação, Tarde falava em uma misteriosa ação à distância, que percorria o tecido social criando ondas de reprodução e compartilhamento de afetos. Para Sampson, essas ideias são mais verdadeiras que nunca no contexto da cultura digital. Tarde seria, assim, “o precursor da memética e da teoria ator-rede” (2012, p. 37). Retornarei a Sampson e suas ideias sobre a constituição do meme nas linhas seguintes. Por hora, é importante assinalar essa curiosa relação entre a noção de magia (como ação à distância), o imaginário e determinados vetores religiosos do discurso memético.
A narrativa sobre Bolsonaro em sua viagem à Rússia nos oferece um caso curioso, no qual se sobrepõe a uma guerra real uma outra de ordem imaginária. Se a guerra “real” nada tem de transparente, muito menos cristalina é sua reconstrução narrativa por meio das disputas meméticas. Nessa construção narrativa, é importante observar a dimensão religiosa do papel desempenhado por Bolsonaro, seja no registro da ironia, seja no da mais absoluta seriedade. Na verdade, quando se trata de memes, é frequentemente difícil dizer qual registro discursivo é visado. E, a bem da verdade, os objetivos são secundários em relação a como a mensagem memética é finalmente lida pelos diferentes públicos. São as comunidades interpretativas que regularão os usos e sentidos dos memes nos ambientes digitais, lidando com sua opacidade e promovendo sua correta “exegese”. Um dos memes populares que percorreu as redes na ocasião do acontecimento consistia, por exemplo, em uma imagem de Bolsonaro com Jesus abraçando-o por trás e dizendo “Vá e impeça a guerra, Jair” (Fig. 2). Em realidade, desde bem antes de sua eleição, Bolsonaro teve sua imagem associada à figura crística. A conveniente coincidência do nome (Messias) e a adoção de sua candidatura por largas parcelas do eleitorado evangélico e católico fizeram de Bolsonaro uma espécie de mito religioso ambulante.
Desse modo, o meme da missão divina conferida ao capitão repete a estrutura de outra imagem, anterior, que circulou nas redes socias logo após a eleição de Bolsonaro. Ali, o ex-presidente assinava o documento de posse com Jesus guiando sua mão (Fig. 3).
Temos, assim, um exemplo de uma característica fundamental do meme enquanto “pedaço de mídia online que é compartilhado e remixado ao longo do tempo em uma comunidade” (MINA, 2019, p. 6). É importante notar que a baixa qualidade das montagens não constitui um defeito, mas antes uma demonstração da “autenticidade” e “espontaneidade” das imagens meméticas (qualquer pessoa poderia produzi-las com seus próprios recursos). Esses memes foram criados para reforçar a representação religiosa de Bolsonaro ou para satiriza-la? – esta é uma pergunta sem sentido, dado que o fundamental aqui é como o meme é compreendido entre diferentes comunidades interpretativas, num jogo em que as ideias de transparência e opacidade irão servir agendas políticas particulares. O próprio Ricardo Salles, assim como vários outros internautas de direita, criticaram a imprensa por não perceber que suas afirmações sobre o papel de Bolsonaro na guerra não passavam de uma brincadeira. “As pessoas estão muito sem senso de humor. Está todo mundo muito aguerrido. Não tem cabimento isso”, afirmou o ex-ministro1. Todavia, é fato que muitas pessoas “leram” as imagens como verdades factuais, convertendo a brincadeira em um dado da realidade. Esse era um efeito que Salles muito possivelmente já previa e provavelmente almejava. Na linguagem popular, tal estratégia talvez possa ser traduzida com a expressão “se colar, colou”.
A dimensão humorística de um meme não diminui seu possível conteúdo de verdade; pelo contrário, o amplifica, dado que o humor é frequentemente qualificado como ferramenta para a revelação de realidades (opacas) que não poderiam ser facilmente evidenciadas por outros meios. Um post oficial do Partido Liberal (PL) de 15 de fevereiro de 2002 trazia um texto cuja dimensão humorística – se de fato existia – era ainda menos evidente: “Bolsonaro já está em solo russo. Putin começa retirada de tropas da fronteira da Ucrânia. Para mim não é coincidência!”. Este “para mim” opera como mecanismo de indexação vazio com o qual certos públicos interpretativos do meme poderão se identificar. Efetivamente, muitos bolsonaristas não viram somente uma coincidência em tais acontecimentos. Foi nesse sentido, por exemplo, que, dias mais tarde, uma apoiadora do ex-presidente publicou um post afirmando que Bolsonaro se reunira com Boris Johnson para pedir um cessar-fogo imediato na região. “se a grande mídia anunciou...é verdade que os top líderes de Paz no momento Unidos [sic] para evitar a terceira guerra mundial em curso”. Do mesmo modo, a deputada Carla Zambelli, do PL, postou texto associando o pouso de Bolsonaro na Rússia com a trégua: “Tentaram achar pelo em ovo. Não deu certo. ‘O choro é livre’, com Bolsonaro, o Brasil tem o respeito das maiores nações do mundo”2
No mesmo dia em que Ricardo Salles, Carla Zambelli e o PL postaram sobre o tema (15 de fevereiro), a hashtag #BolsonaroEvitouAGuerra tornou-se o tópico mais comentado no Twitter (hoje X) no Brasil, com mais de 12 mil tweets e retweets3.
Memes como imagens dialéticas
Tony Sampson sugere que os fenômenos de viralidade não excluem a possibilidade de uma convivência paradoxal entre conflito e cooperação. O mesmo meme pode, pois, produzir afetos e sentidos radicalmente diferentes, assim como as intenções originais de um meme podem ser facilmente capturadas por campos ideológicos opostos. A viralidade da cultura digital ocorre por meio de um processo extremamente complexo, no qual
a reprodução do idêntico em outro agenciamento nunca é garantida. Colisões oposicionais – os acidentes e eventos imprevistos da densidade social – introduzem instabilidades não-lineares, interferência, erro e ruído aperiódico nos processos do encontro imitativo. São essas microrrelações que tomam controle do todo – são os aspectos mais desterritorializados do agenciamento que tomam controle dos estratos mais territorializados (2012, p. 46, gr. do autor).
Sampson busca afastar-se das concepções tradicionais do meme, que o tomam como um algo específico, em uma perspectiva eminentemente representacional. Em lugar disso, sugere ele, deve-se partir da pergunta por aquilo que se espalha (what spreads), para se chegar à dimensão incorporal dos encontros. Em outras palavras, seria necessário abandonarmos ontologias essencialistas em benefício de ontologias relacionais. Enquanto forma de affective priming, o meme se manifesta como uma relação (de contágio) difundida “de pessoa a pessoa via atmosferas de afeto sociais multissensoriais” (2012, p. 86).
Uma visão convergente pode ser encontrada em interessante artigo de Javier Toscano, cujo tema são coincidentemente os memes criados por ocasião do conflito entre Rússia e Ucrânia. Partindo do princípio que as guerras se tornaram, ao longo da história, locii políticos “de produção radical de imagens”, Toscano define o meme, em última instância, como artefato relacional. Ele se apoia
em uma estrutura visual e um contexto dinâmico e interacional; portanto, carece de autonomia específica, mas se torna um fenômeno indexical dependente de contexto (context-dependent) que reflete a natureza das redes de comunicação abertas (open-ended) e multi-sítio da internet” (2023, p. 82).
Seu método de análise se apropria da noção benjaminiana de imagem dialética para combiná-la com as proposições de Goffman sobre a organização de padrões visuais como chave para investigar estruturas sociais e a abordagem de Bakhtin, que encara a subjetividade como produto de relações estéticas. A imagem dialética é particularmente interessante nesse contexto, pois desmascara a suposta objetividade e transparência das imagens ao contrastá-la com outras realidades possíveis (outras temporalidades, outros contextos, outros referenciais etc). Para além disso, as imagens dialéticas engendram uma subjetividade que pode ser definida como uma sensibilidade, constituída de “nós de iteração e pulsões que se combinam como pontos de vista flutuantes nos quais diferentes sujeitos projetam suas intuições, emoções e posições políticas” (TOSCANO, 2023, p. 96). Em última instância, isso significa que o problema da origem ou autoria dos memes (assim como muitos outros fenômenos da cutura digital) perde relevância, problematizando a própria noção de agência. É precisamente isso que Sampson também sugere quando, ao falar dos “raios imitativos” de Tarde, define o fenômeno do contágio como auto-replicante, “automático e involuntário”, produzindo uma hipnótica ação à distância “sem nenhum médium de contato discernível” (2012, p. 57). O meme se revela assim como uma cristalização de energias afetivas na qual a linearidade lógica é substituída pela singular lógica das imagens e do imaginário. No meme divulgado pelo perfil Ancap.su, Bolsonaro é caracterizado como um dos maiores pacifistas do mundo, ao lado de figuras como Gandhi, Madre Teresa e Buda (Fig. 4).
Pouco importa aqui a incoerência lógica de se associar um notório defensor do armamentismo e da ditadura militar a pacifistas como Gandhi e Mandela. O mesmo indivíduo que, em 2018, defendeu “fuzilar a petralhada”4, pode facilmente fazer companhia ao Dalai Lama, sempre acompanhado pela indefectível imagem de Cristo como guia de sua missão soteriológica. O nascer do sol, a posição contemplativa, o pequeno símbolo da pomba branca ocupam um espaço semiótico incoerente, no qual não fica muito clara a presença de Yoko Ono, exceto talvez como consorte de John Lennon, autor da clássica canção pacifista Imagine (1971). A curiosa constelação de nomes, acompanhada pela imagem cuja estética kitsch faz lembrar os populares retratos de Jesus facilmente encontrados nos lares das famílias brasileiras, exprime uma atmosfera afetiva composta por “acidentes e eventos imprevistos de densidade social”; uma espécie de assemblage de instabilidades não-lineares na qual são “as microrelações que tomam controle do todo” (SAMPSON, 2012, p. 46, gr. do autor).
Javier Toscano não foi o primeiro autor a buscar uma compreensão da memética a partir de Benjamin e suas teorias da imagem dialética. Em 2018, o ativista holandês Geert Lovink e o pesquisador Marc Tuters, da Universidade de Amsterdam, publicaram na internet um instigante ensaio diagnosticando as dificuldades do pensamento progressista para lidar com as formas de comunicação digital. Enquanto a extrema direita descobrira que “memes expressam tensões que não podem ser articuladas no vocabulário politicamente correto da mídia mainstream” (2018a, p. 3)5, a esquerda parece ainda engatinhar no campo do ativismo digital. Os autores perceberam que o maior desafio político da contemponeidade consiste em “criar imaginários alternativos que possam superar – e anular – a lógica cínica e frequentemente reacionária que tende a dominar a produção de memes na internet” (2018a, p. 4). Para Lovink e Tuters, o que torna Benjamin ainda relevante no contexto contemporâneo é como seu pensamento antecipou a dimensão interativa das mídias atuais, nas quais o público é convocado a usar sua imaginação como ferramenta de síntese para organizar os paradoxos e ambiguidades da lógica digital. A função do meme, nesse contexto, é possivelmente a de uma espécie de “técnica de compressão vernacular cultural” como meio de codificar e decodificar a “dinâmica operacional da hegemonia dominante” (2018a, p. 14) Desse modo, as teorias marxistas tradicionais são deficientes para enfrentar a situação contemporânea. Afinal, “memes ativam e dirigem poderosas tensões psicológicas, mobilizando desejos e ressentimentos que tais preocupações marxistas vulgares com a base econômica são incapazes de tratar” (2018ª, p. 15). A aparente vitória da extrema direita na assim chamada “Grande Guerra Memética”6 mostra como o pensamento de Gramsci, com sua noção de hegemonia cultural, é estrategicamente mais útil que as ideias da Escola de Frankfurt sobre a mídia7. Entretanto, é em Walter Benjamin, esse singular associado dos frankfurtianos, que se pode encontrar importantes ferramentas teóricas para construir uma “nova epistemologia visual, comparável à montagem cinematográfica” (2018b, p. 1).
A imagem dialética funciona como uma espécie de montagem na qual os elementos constitutivos não são necessariamente reconciliados. Objetos históricos de diferentes períodos são ali combinados sem exigência de coerência. Algo semelhante se passa nos domínios dos sonhos e do imaginário, e, não por casualidade, mito, sonho e despertar fazem parte do repertório conceitual de Benjamin. No horizonte do capitalismo, habitado por miríades de imagens de sonho e desejos fantasmagóricos, a grande tarefa (Aufgabe) do historiador materialista é, portanto, “a interpretação de sonhos” (Traumdeutung) (BENJAMIN, 1991a, p. 580). Interpretar sonhos é tentar dissipar algo de sua opacidade intrínseca. Assim como as imagens de sonho podem operar para converter noções utópicas ou revolucionárias em mercadorias, elas podem também ter potencial libertário quando combinadas com o novo. Não seria o próprio estilo de escrita e pensamento de Benjamin, expresso com total força no Trabalho das Passagens (“Não tenho nada a dizer; somente a mostrar”8) assim como seu uso repetido de imagens, uma espécie de memética elevada avant la lettre?
Lovink e Tuters tomam a curiosa mescla benjaminiana de teologia, política e teoria da imagem para defender a atualidade da noção de despertar. No vocabulário teórico do pensador alemão, a ideia do despertar (Erwachen) representa o momento em que a coletividade adquire consciência de sua condição histórica e torna-se capaz de reformular sua realidade. Para os autores, o meme contém aquilo que definem como certa “razão irônica”, que permite a seu público pretender crença. Se tal crença é de fato séria permanece, como já foi dito anteriormente, irrelevante e indeterminável. “Entretanto”, sugerem os autores, “a razão irônica parece criar uma nova abertura às noções do despertar” (2018b. p. 4). Não à toa, a contemporaneidade parece ser obcecada com tal figura ao logo de todos os espectros políticos, desde a ideia progressista do woke à apropriação da “pílula vermelha” como símbolo do abandono do sonho liberal-democrático pelos discursos reacionários. Dessa forma, Lovink e Tuters adotam a posição segundo a qual “memes são um médium para uma forma secularizada de um despertar esotérico-revolucionário” (2018b, p. 5).
Tal definição, por mais estranha que possa parecer, adequa-se com perfeição ao fenômeno que Egil Asprem descreveu como a guerra mágica e memética em torno da disputa de Donald Trump pela presidência dos Estados Unidos em 2016. Ali, uma parcela significativa de apoiadores de Trump na internet chegara a crer em sua capacidade de ter “memetizado o presidente em seu mandato” (memeing the president into office) (DONOVAN, DREYFUS & FRIEDBERG, 2022, p. 4). Para Asprem, o conflito online que se travou no período pré-eleitoral exprimiu a apropriação da noção gramsciana de hegemonia pela extrema-direita, configurando uma espécie de atividade “metapolítica”. A criação do culto de Kek, uma forma de religião online que, entre séria e satírica, tomou um personagem de quadrinhos (o sapo Pepe, do cartunista Matt Furie) como símbolo constelador de anseios supremacistas e reacionários, representou o paroxismo desse curioso movimento. Nesse contexto, porém, “enquanto a mágica memética possa ter seu verniz de sobrenaturalismo, suas táticas são tipicamente extraídas do livro-texto da guerrilha de informação” (ASPREM, 2020, p. 27). Ou seja, precisamente uma forma secularizada de um despertar esotérico-revolucionário, nas palavras de Lovink e Tuters citadas acima. É nesse sentido que os vínculos desenvolvidos na experiência online, assim como na experiência religiosa, segundo uma perspectiva durkheiminiana, constituem associações afetivas e não cognitivas, que motivam indivíduos à ação por meio de determinados símbolos ou imagens (ibid., p. 36).
No caso que constitui objeto central deste trabalho, já vimos como a dimensão religiosa compõe parte fundamental da construção da mensagem memética. Bolsonaro consegue evitar a guerra (e, surpreendentemente, antes mesmo de pousar em Moscou) graças ao seu investimento por meio de forças espirituais divinas. Nos memes que ironizavam as expectativas bolsonaristas, essa dimensão religiosa se inverte, transformando o ex-presidente em uma espécie de entidade amaldiçoada, ou, popularmente, um “pé frio”, que deve permanecer calado exatamente para que não acabe desencadeando a terceira guerra mundial. Em um dos memes, a sombria imagem de um esqueleto com a coroa de Cristo parece embebedar-se num bar, enquanto que a frase abaixo da figura diz: “Meu Deus, eu espero que o Bolsonaro fique quieto”. Surge, assim, uma série de memes ladeados pelas hashtags “BolsonaroFicaQuieto” e “TerceiraGuerraMundial”. A mensagem, aqui, é exatamente o oposto da visão anterior: Bolsonaro não tem o poder divino de trazer a paz, mas, pelo contrário, a capacidade demoníaca de iniciá-la (obviamente a partir de uma perspectiva satírica).
Outra estratégia de resposta aos memes de apoio a Bolsonaro repousa na ironia radical, que finge tomar o absurdo como realidade, mas maximizando-o ao paroxismo para então desqualifica-lo como delírio risível. É nesse sentido que se pode ler o texto de um meme no qual se afirma que a entrada de Bolsonaro no espaço aéreo russo produziu uma “aura de paz” sobre o país, levando Putin a retirar suas tropas da fronteira. Entretanto, é fundamental notar que a conexão entre memética e experiência religiosa é muito menos de natureza conteudística que estrutural. Se o meme muito frequentemente se adequa à expressão de afetos religiosos ou místicos, é porque sua estrutura, assim como a do capitalismo, nas visões de Benjamin e Agamben9, ao menos, apresenta diversas analogias com a experiência religiosa; por exemplo, o mistério de sua origem, a imediatez de sua mensagem, a condensação mágica de uma multiplicidade de sentidos, o caráter simbólico e/ou alegórico do discurso memético etc... São tais elementos, entre outros, que permitem caracterizar o meme como imagem dialética na qual se produz um choque perceptivo exprimindo combinações de diversos tipos de energia afetiva, temporalidades e fragmentos de objetos culturais. Bolsonaro parece ser uma figura particularmente memetizável nesse sentido, já que a relação com os temas religiosos compõe parte fundamental de sua estratégia de construção de imagem (DEMURU, 2021, p. 273). Mais que isso, Bolsonaro se apresenta como uma espécie de “meme vivo”, dado que sua figura política se construiu a partir de frases de efeito, geralmente curtas e impactantes, irônicas, absurdas e/ou exageradas. Suas encenações de simplicidade e autenticidade, como o vídeo do presidente que come espetinhos com farofa em vendedores ambulantes, parecem construídas para figurar em memes, ao mesmo tempo que visam transmitir a ideia de uma transparência da personalidade com a qual o homem “comum” pode se identificar. Do mesmo modo, o misticismo de Bolsonaro, afirma Paolo Demuru, “é disseminado por contágio [...] apoiando-se no envolvimento sensorial do processo de comunicação” e “capturando não só a atenção cognitiva dos observadores, mas também seus sentimentos e humores” (2021, p. 285) – precisamente como um meme.
Conclusão: pode a esquerda aprender a memetizar?
Segundo pesquisa realizada pela Escola de Comunicação, Mídia e Informação da FGV em agosto de 2022, a quantidade de posts no X (antigo Twitter) durante o período de janeiro a junho daquele ano indica uma consistente predominância de manifestações governistas, com pico em torno de 16 de fevereiro (durante a viagem de Bolsonaro à Rússia): 173.288 menções favoráveis contra 122.247 negativas (RUEDIGER & GRASSI, 2022, p. 10). O volume superior de engajamento do grupo governista, assim como as conclusões do estudo indicando a “atuação inexpressiva no debate sobre a guerra” do lado da “esquerda institucional brasileira” (ibid., p. 6) parecem confirmar a difusa impressão da superioridade do campo conservador em termos de presença e atuação online. O estudo aponta ainda o perigoso processo de deslegitimação das fontes jornalísticas tradicionais de informação em benefício de instâncias alternativas, que fazem uso de teorias conspiratórias e discursos de ódio, assim produzindo um possível desgaste dos valores democráticos.
Esses dados talvez constituam mais um indício daquilo que diversos autores têm definido como um esgotamento da capacidade imaginativa das esquerdas. Como sugeriu Stephen Duncombe, os sonhos, a fantasia e o espetáculo assustam os progressistas – ainda crentes na racionalidade iluminista –, dada sua associação frequente com o fascismo. O problema é que, de fato, os conservadores parecem ter se apropriado tão inteiramente do território da imaginação a ponto de levar Alejandro Galliano à pergunta fundamental: “por que o capitalismo pode sonhar e não nós?” (2020). Nesse sentido, os progressistas “precisariam ter aprendido a construir uma política que abrace os sonhos do povo e os espetáculos da moda que dão forma a essas fantasias” (DUNCOMBE, 2007, p. 9). Isso implica, evidentemente, a capacidade de produzir memes e engendrar “imaginários alternativos”, como sugerem Lovink e Tuters. Thomas Hobson e Kaajal Modi fazem coro a essa proposta quando encaram os memes como um lócus social de constituição de imaginários (2019, p. 334). O que se faz necessário agora é um engajamento radical, a partir de uma visão das mídias interativas como sítios de produção de mundo e de sentido, com o imperativo de “colher o poder emancipatório desses novos formatos de mídia” (ibid., p. 347). Dessa forma, talvez uma das grandes perguntas que se impõe hoje ao pensamento progressista possa ser encontrada no título do livro recente de Mike Watson: “pode a esquerda aprender a memetizar?” (2018).
É importante assinalar que a natureza viral e parasitária do capitalismo informacional faz com que os “contágios” e “processos meméticos” estejam no “centro de uma sociedade midiática do conhecimento” (PARIKKA, 2007, p. 293). Desse modo, ao falar dos memes devemos ter em vista não somente as situações particulares (como a guerra memética em torno dos sentidos políticos de uma guerra real), mas o quadro geral de uma sociedade atravessada pelo que se poderia definir como uma lógica memética. Se “tais objetos contagiosos como vírus e memes ilustram como a meta-estabilidade não é uma anomalia, mas algo que pode ser considerado parte integrante da cultura em rede” (PARIKKA, 2007, p. 295), é necessário proceder a um mapeamento “ecosófico” dos espaços e afetos potenciais do capitalismo contemporâneo que tome em consideração a instabilidade meta-estável dos sistemas digitais e sua capacidade não somente de repetir o antigo, mas também de produzir o novo. Por essa razão, Parikka igualmente evoca a figura de Benjamin (ibid., p. 308), com suas análises do universo mundano dos objetos tecnológicos, como pensador-chave cujas especulações devem ser atualizadas para o contexto das instabilidades, contradições e estruturas não-lineares da comunicação digital. Compreender a complexa relação entre transparência e opacidade nas dinâmicas das imagens digitais exige operações de hermenêutica crítica ao mesmo tempo que uma atenção especial às dimensões materiais das imagens e seus suportes tecnológicos. Para além disso, transportar para o presente hiper-tecnológico um autor do passado, como Benjamin, com vistas a iluminar o contemporâneo, também é produzir um curto-circuito temporal que, quem sabe, possa nos ajudar a despertar dos sonhos de controle e conformismo que hoje povoam o mundo digital quando este é posto a serviço de um pensamento do idêntico e da conservação.
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Sistema duplo cego
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Financiamento e Apoio:
Este estudo foi financiado pelas agências brasileiras Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) para as bolsas e apoio financeiro concedido e FAPERJ – Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro.
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Finaciamento:
CNPq
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Como citar:
FELINTO, Erick. Bots cívicos: A incrível história de como Jair Bolsonaro evitou uma guerra (memética e imagem dialética). São Paulo: INTERCOM - Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, v. 49(2026) e2026113. https://doi.org/10.1590/1809-58442026113pt.
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Editoração e marcação XML:
IR Publicações
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Linguagem inclusiva:
Os autores usam linguagem inclusiva que reconhece a diversidade, demonstra respeito por todas as pessoas, é sensível a diferenças e promove oportunidades iguais.
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Verificação de plágio:
A Revista Intercom submete todos os documentos aprovados para a publicação à verificação de plágio, mediante o uso de ferramenta específica.
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<https://www.instagram.com/p/CaAYpjgAdTC/> Acesso em 8 fev 2024.
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<https://www.brasildefato.com.br/2022/02/15/bolsonaro-evita-guerra-e-lula-desiste-de-eleicao-entenda-as-fake-news-do-dia-nas-redes-sociais> Acesso em 9 de fevereiro de 2024
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<https://veja.abril.com.br/coluna/radar/em-2018-bolsonaro-defendeu-fuzilar-a-petralhada> Acesso em 9 fevereiro 2024.
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O artigo foi publicado em duas partes, com os títulos de “They say we can’t meme: politics of idea compression” e “Rude awakening: memes as dialectical images” respectivamente em <https://non.copyriot.com/they-say-we-cant-meme-politics-of-idea-compression/> e <https://non.copyriot.com/rude-awakening-memes-as-dialectical-images/.> Usarei a data, 2018, seguida da letras a e b para designar a primeira e segunda partes do texto. Acesso em 10 de fevereiro de 2024
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“The Great Meme War” é a expressão que se consagrou para definir a batalha memética travada online durante as eleições norte-americanas que levaram Trump à presidência, em 2016, conforme já mencionado anteriormente neste artigo. Para interessante apanhado do fenômeno, ver DAFAURE (2020).
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No Brasil, Olavo de Carvalho foi talvez o primeiro ícone da nova direita a perceber a importância das ideias de Gramsci, criticando-as no âmbito daquilo que foi definido como “marxismo cultural” ao mesmo tempo que discretamente empregando-as em suas próprias estratégias comunicacionais.
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“Ich habe nichts zu sagen. Nur zu zeigen” (Benjamin, 1991a, p. 574).
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Disponibilidade dos Dados:
Todos os dados que deram base ao presente artigo encontram-se no corpo do texto.
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Fonte: Instagram, 2022, online.
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Fonte: X (antigo Twitter), 2020, online.
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