Resumo
Entre agosto e outubro de 2019, a Amazônia ocupou posição de destaque na imprensa e nas mídias sociais devido aos incêndios que assolavam a maior floresta tropical do mundo. A divulgação de dados do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), que apontavam o aumento das queimadas e do desmatamento, afetou a imagem do governo federal brasileiro (administração Bolsonaro) em relação às políticas ambientais. Em resposta, o governo adotou medidas de retaliação contra o INPE e outros órgãos de proteção ambiental. Nesse contexto, o YouTube assumiu um papel central na disseminação de (des)informações sobre os crimes ambientais na Amazônia e em outros biomas, tornando-se palco de disputas entre atores que buscavam influenciar a opinião pública e demarcar posições ideológicas. O presente estudo mapeou e analisou a rede de desinformação sobre a Amazônia que se formou no YouTube entre agosto e outubro de 2019 e as estratégias utilizadas por seus agentes. Por meio da Cartografia de Controvérsias, este estudo mapeou os principais atores envolvidos no debate sobre a Amazônia e os argumentos por eles defendidos. Os resultados demonstraram que a desinformação foi utilizada como arma retórica por canais de extrema-direita alinhados ao governo Bolsonaro, visando proteger a imagem do governo e enfraquecer instituições e legislações de proteção ambiental. Constatou-se também que a desinformação predominou entre os vídeos mais visualizados. Tal cenário evidencia as limitações das políticas de moderação do YouTube no combate a disseminação de informações falsas e reforça a urgência de uma regulamentação para as plataformas digitais no Brasil.
Palavras-chave
Amazônia; Desinformação; Desmatamento; Queimadas;
YouTube
Abstract
Between August and October 2019, the Amazon rainforest gained significant prominence in the press and on social media due to the wildfires ravaging the world’s largest tropical forest. The release of data by INPE (National Institute for Space Research), which indicated an increase in wildfires and deforestation, damaged the Brazilian federal government’s image (Bolsonaro administration) regarding its environmental policies. In response, the government adopted retaliatory measures against INPE and other environmental protection agencies. In this context, YouTube played a central role in disseminating (dis) information about environmental crimes in the Amazon and other biomes, becoming a battleground for actors seeking to influence public opinion and establish ideological positions. This study mapped and analyzed the disinformation network concerning the Amazon that formed on YouTube between August and October 2019, as well as the strategies employed by its agents. Through Controversy Mapping, this research identified the primary actors involved in the Amazon debate and the arguments they advocated. The results demonstrate that disinformation was used as a rhetorical weapon by far-right channels aligned with the Bolsonaro government to protect the administration’s image and undermine environmental protection institutions and legislation. Furthermore, it was found that disinformation predominated among the most-viewed videos. Such a scenario highlights the limitations of YouTube's moderation policies in combating the spread of false information and reinforces the urgent need for digital platform regulation in Brazil.
Keywords
Amazon rainforest; Deforestation; Disinformation; Wildfires;
YouTube
Resumen
Entre agosto y octubre de 2019, la Amazonia ocupó una posición destacada en la prensa y en las redes sociales debido a los incendios que asolaban la mayor selva tropical del mundo. La difusión de datos del INPE (Instituto Nacional de Investigaciones Espaciales), que señalaban el aumento de las quemas y de la deforestación, afectó la imagen del gobierno federal brasileño (administración Bolsonaro) en relación con sus políticas ambientales. En respuesta, el gobierno adoptó medidas de represalia contra el INPE y otros organismos de protección ambiental. En este contexto, YouTube asumió un papel central en la diseminación de (des)información sobre los crímenes ambientales en la Amazonia y en otros biomas, convirtiéndose en un escenario de disputas entre actores que buscaban influir en la opinión pública y delimitar posiciones ideológicas. El presente estudio mapeó y analizó la red de desinformación sobre la Amazonia que se formó en YouTube entre agosto y octubre de 2019 y las estrategias utilizadas por sus agentes. Por medio de la Cartografía de Controversias, este estudio identificó a los principales actores involucrados en el debate sobre la Amazonia y los argumentos que defendían. Los resultados demostraron que la desinformación fue utilizada como arma retórica por canales de extrema derecha alineados con el gobierno de Bolsonaro, con el fin de proteger la imagen del gobierno y debilitar las instituciones y legislaciones de protección ambiental. Se constató también que la desinformación predominó entre los vídeos más vistos. Tal escenario evidencia las limitaciones de las políticas de moderación de YouTube para combatir la propagación de información falsa y refuerza la urgencia de una regulación para las plataformas digitales en Brasil.
Palabras clave
Amazonía; Desinformación; Deforestación; Incendios forestales;
YouTube
Introdução
Em agosto de 2019, a Amazônia tornou-se tema central no debate público devido ao aumento expressivo das queimadas, registrado pelos programas de monitoramento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Embora o uso do fogo em áreas já desmatadas seja comum durante a estação seca, agosto de 2019 destacou-se como o mês mais intenso em número de focos de incêndio desde 2010, segundo dados do Programa Queimadas do INPE (2025). A visibilidade do episódio foi ampliada tanto pela magnitude dos incêndios quanto por seus impactos simbólicos e políticos, associados à preservação da maior floresta tropical do mundo, central nas agendas globais sobre mudanças climáticas, biodiversidade e direitos indígenas.
Um dos eventos mais emblemáticos desse período foi o “Dia do Fogo”, ocorrido no estado do Pará, quando fazendeiros coordenaram incêndios em áreas florestais como forma de pressionar o governo federal a flexibilizar a fiscalização ambiental (G1, 2019). Esse episódio, ocorrido no primeiro ano da presidência de Jair Bolsonaro (2019-2022), evidenciou a relação entre o avanço das queimadas e uma administração federal marcada pelo desmonte das políticas ambientais. Entre as medidas adotadas, destacam-se o enfraquecimento institucional de órgãos como o IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e o ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), as tentativas de aprovação de legislações de proteção ambiental menos rigorosas e um discurso sistemático de deslegitimação da ciência e de instituições como o INPE (Brant, 2019).
A divulgação dos dados de desmatamento e queimadas provocou ampla repercussão na imprensa nacional e internacional (Silva et al., 2023), intensificando a polarização em torno da Amazônia. Nesse contexto, o YouTube consolidou-se como arena para a circulação de (des)informações sobre os crimes ambientais em curso. Por ser uma das maiores plataformas de vídeo do mundo, com mais de 2 bilhões de usuários ativos mensais (YouTube, 2023), e a segunda mais acessada no Brasil (We Are Social & Hootsuite, 2023), o YouTube tornou-se um espaço estratégico para a disputa ideológica durante a crise das queimadas. Narrativas negacionistas encontraram ampla difusão na plataforma, especialmente em conteúdos associados a visões da extrema-direita, que utilizam o YouTube para atacar políticas ambientais, instituições científicas e organizações internacionais (Dündar et al., 2022; Allgaier, 2019).
Enquanto uma parte dos canais denunciava a destruição ambiental, outra parte buscava minimizar o problema e proteger a imagem do governo e de setores aliados, como o agronegócio e a mineração. De um lado, cientistas e ambientalistas denunciavam o avanço das queimadas e seus riscos climáticos globais; de outro, autoridades governamentais, parlamentares e influenciadores digitais alinhados ao governo questionavam a credibilidade dos dados científicos, relativizavam a gravidade das queimadas e acusavam a cobertura internacional de ameaçar a soberania do Brasil.
Essa disputa narrativa reforçou uma falsa dicotomia entre preservação ambiental e desenvolvimento econômico, frequentemente mobilizada para justificar a flexibilização de normas ambientais. O cuidado com a Amazônia passou a ser apresentado como obstáculo ao crescimento econômico e à geração de empregos, desconsiderando evidências apresentadas pelo Banco Mundial (2023) que apontam para a incompatibilidade entre desmatamento, sustentabilidade e inserção competitiva do Brasil em cadeias globais de valor.
Diante desse cenário, este artigo analisa a rede de desinformação sobre as queimadas na Amazônia no YouTube em 2019, identificando os principais atores e argumentos presentes nos vídeos mais visualizados sobre o tema. Para tanto, utilizamos o método da Cartografia de Controvérsias (Venturini, 2012) com o objetivo de mapear os fluxos de (des)informação e as estratégias retóricas empregadas para influenciar a opinião pública.
Diferentes formas de desinformação
Segundo Wardle (2018), a desinformação pode ser definida como uma mentira deliberada e estrategicamente utilizada para se causar dano ou obter vantagem política, econômica ou social. Para compreender esse fenômeno, recorremos aos estudos de Wardle e Derakhshan (2017), que detalham vários tipos de desinformação que serão utilizados neste estudo para analisar a rede de desinformação sobre a Amazônia no YouTube.
A tipologia sistematizada no Quadro 1 constitui a base analítica adotada neste estudo para a identificação das estratégias discursivas presentes na rede de desinformação sobre a Amazônia no YouTube.
O papel dos algoritmos na formação de bolhas digitais
Um dos elementos centrais para a recomendação personalizada de conteúdos nas plataformas digitais são os algoritmos. Eles utilizam dados de navegação e perfis demográficos para definir quais conteúdos são exibidos aos usuários, funcionando como mediadores invisíveis na curadoria da informação (Gillespie, 2014b). Embora a personalização dos conteúdos torne a experiência do usuário mais adaptada às suas preferências, ela também gera efeitos colaterais, como os "filtros bolha" (Pariser, 2012). Esse fenômeno se caracteriza pelo isolamento dos indivíduos em ambientes informacionais homogêneos, reduzindo o contato com perspectivas divergentes e prejudicando o pluralismo de ideias. Tal dinâmica não apenas intensifica a polarização social (Jamieson; Capella, 2008), como também consolida ideias equivocadas, tornando os usuários mais vulneráveis à manipulação e limitando a capacidade crítica.
Ademais, os algoritmos, que em essência são procedimentos computacionais para a resolução de problemas (Russel; Norvig, 2013), nas plataformas digitais operam na lógica de mercado orientada para a retenção do usuário, atendendo principalmente aos interesses de anunciantes (Tufekci, 2019). Assim, as plataformas priorizam os conteúdos que geram maior engajamento, independentemente de sua veracidade, expondo os usuários a fluxos contínuos de informações falsas ou distorcidas (Gillespie, 2018).
A Teoria Ator-Rede para o estudo da desinformação
A Teoria Ator-Rede (TAR) introduziu novas perspectivas aos Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia ao superar a tradicional distinção sociológica entre natureza e cultura, por meio do "princípio da simetria generalizada" (Callon, 1986), que atribui igual importância a humanos e não humanos na explicação dos fenômenos sociais. Conforme Callon (2004), a estabilidade das sociedades depende tanto de valores quanto de tecnologias, evidenciando o papel fundamental dos não humanos na organização das realidades sociotécnicas. Ao longo do tempo, a TAR também se mostrou útil para investigar fenômenos sociais em ambientes digitais, nos quais as ações são mediadas simultaneamente por sujeitos humanos e por aparatos técnicos (Lemos, 2013c).
Este estudo, que analisa a desinformação sobre a Amazônia no YouTube, insere-se nesse ambiente de redes e fluxos mediados por tecnologias digitais. Para conduzir a investigação, adotamos a Cartografia de Controvérsias (CC), metodologia associada à TAR que permite operacionalizar os pressupostos teóricos para a análise de fenômenos sociais. A CC busca mapear os rastros deixados pelos atores (actantes) que compõem uma rede, revelando os interesses subjacentes dos diferentes coletivos envolvidos nas disputas por hegemonia de ideias ou tecnologias (Latour, 2012).
A CC mostra-se particularmente adequada para o mapeamento de disputas sociotécnicas em meios digitais, pois permite acompanhar como determinados discursos se articulam em redes complexas e de que modo os atores constroem suas estratégias de ação (Venturini, 2010).
Cartografando as controvérsias sobre a Amazônia no YouTube
Para a aplicação da Cartografia de Controvérsias, seguimos as sete recomendações de Venturini (2012):
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Escutar as vozes dos atores mais do que as próprias presunções;
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Observar a controvérsia sob os mais variados pontos de vista;
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Ajustar as descrições e observações recursivamente;
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Criar descrições adaptáveis, redundantes e flexíveis;
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Não restringir a observação a uma única teoria ou metodologia;
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Atribuir a cada actante a visibilidade proporcional ao seu peso na rede;
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Simplificar a complexidade respeitosamente.
Para minimizar vieses na seleção dos dados, adotamos critérios quantitativos: foram analisados os vídeos que alcançaram mais de 500 mil visualizações. A análise mapeou todos os argumentos apresentados nos vídeos, considerando as diversas perspectivas do debate sobre as queimadas na Amazônia. As descrições dos atores e suas estratégias foram revisadas a cada descoberta, permitindo uma representação dinâmica da rede. A visibilidade dos atores foi proporcional à sua influência na controvérsia, sendo que as características e estratégias dos atores mais relevantes foram mais detalhadamente descritas.
Coleta de Dados
Através da ferramenta YouTube Data Tools foi possível reconstituir a rede formada em torno da Amazônia no YouTube. Desenvolvida por Bernhard Rieder (2015) no âmbito do projeto MACOSPOL (Mapping Controversies on Science for Politics), esta ferramenta possibilita a extração sistemática de informações sobre vídeos da plataforma, facilitando a elaboração de cartografias digitais focadas no YouTube.
A coleta foi feita em 17 de dezembro de 2020, conforme os seguintes parâmetros:
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Módulo de coleta: Video List
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Search Query: “Amazônia”
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Idioma: Português (PT)
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Região: Brasil (BR)
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Período: 01/08/2019 a 31/10/2019
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Critério de ordenação: Número de visualizações
Com os parâmetros de busca foi possível coletar os dados de 923 vídeos1, que juntos somaram 79.996.867 visualizações até a data da coleta.
Método de análise qualitativa
O mapeamento dos argumentos presentes nos vídeos foi guiada pelo método de Análise de Conteúdo proposta por Bardin (2011), que se estrutura em três etapas:
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Pré-análise: a depuração inicial compreendeu a amostra inicial de 923 vídeos. A primeira triagem considerou o critério de alcance, selecionando vídeos com mais de 500.000 visualizações, o que reduziu a amostra para 33 vídeos. Então, realizou-se uma segunda filtragem temática, retendo apenas os vídeos que abordavam as queimadas e desmatamentos, totalizando uma amostra final de 24 vídeos (Tabela 1).
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Exploração do material: através da análise dos 24 vídeos, mapeamos 134 argumentos2, que posteriormente foram agrupados em 34 argumentos mais abrangentes. Os argumentos com três ou mais ocorrências foram classificados como informação ou desinformação baseados em uma checagem de fatos e triangulação de informações, utilizando fontes como documentos governamentais, material jornalístico e dados de instituições científicas (Tabela 2).
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Interpretação: esta etapa concentrou-se na análise das estratégias adotadas pelos atores e no papel do YouTube na disseminação de desinformação. Essa fase corresponde à seção final deste artigo.
Corpus de Análise
A Tabela 1 apresenta o corpus selecionado durante a etapa de pré-análise, elencando os dados dos 24 vídeos, distribuídos em 21 canais.
Vídeos mais visualizados sobre as queimadas na Amazônia publicados no YouTube entre agosto e outubro de 2019
Dos canais presentes na Tabela 1, o canal Folha Política destaca-se com 3 vídeos, seguido por Mamaefalei, com 2 vídeos. Os demais canais aparecem com apenas um vídeo cada. Juntos, os 24 vídeos somaram 28.487.965 visualizações, o que corresponde a 35,61% do total de visualizações da amostra inicial de 923 vídeos.
Mapa dos argumentos presentes nos vídeos analisados
Nos 24 vídeos da amostra foram identificados 20 argumentos sobre as queimadas na Amazônia com mais de três ocorrências.
Na Tabela 2, observa-se que os 20 argumentos mapeados apareceram 99 vezes nos vídeos analisados, sendo 36 ocorrências de informação e 63 de desinformação. O argumento mais recorrente é o A1, que trata da frequência das queimadas na Amazônia. Segundo monitoramento do INPE, as queimadas controladas são comuns durante o período de seca anual na região Norte do Brasil. No entanto, em 2019, houve um aumento significativo em relação aos anos anteriores: foram registrados 89.178 focos de incêndio, um crescimento de cerca de 30% em comparação com os 68.345 focos observados em 2018 (INPE, 2025). Agosto de 2019 apresentou o pior índice mensal de incêndios desde 2010, o que chamou a atenção da comunidade internacional para a crise ambiental na Amazônia (Silva et al., 2023).
A categorização dos tipos de desinformação evidencia as estratégias empregadas pelos agentes manipuladores da informação no YouTube. Nesse sentido, predominaram os conteúdos fabricados (A2, A3, A6, A13, A14, A20), que inventam relações causais, como a alegação de que as denúncias sobre queimadas foram uma retaliação ao corte de verbas federais para ONGs (A6) ou a atribuição da responsabilidade pelas queimadas ao MST (Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) (A20). Outra estratégia frequente é a produção de conteúdos enganosos (A4, A5, A19), que distorcem fatos para criar narrativas parciais, tal como a crítica seletiva a países desenvolvidos (A4) ou a acusação infundada contra Emmanuel Macron (A19). Também destacaram-se os conteúdos falsos contextualizados (A8, A12), que inserem informações imprecisas em contextos aparentemente válidos, como a afirmação de que o Brasil seria "exemplo de preservação" (A12) ou a suposta ameaça de internacionalização da Amazônia (A8).
Caracterização dos canais da amostra
Na Tabela 3, para preencher a coluna "Tipo de Conteúdo" realizou-se uma pesquisa exploratória (Gil, 2002), visando coletar informações para traçar o perfil dos canais investigados. As informações foram obtidas nas descrições oficiais dos canais e em outros vídeos publicados pelos mesmos.
Na Tabela 3, verifica-se que o humor é um recurso amplamente utilizado como estratégia retórica por canais militantes de direita, como Daniel Alvarenga, Desconfinados, Nando Moura e Mamaefalei. Esses canais utilizaram o humor como forma de deboche e deslegitimação de adversários políticos e minimização da crise ambiental. Essa abordagem sugere que o humor pode tornar os conteúdos enganosos mais aceitáveis para o público e mais difíceis de serem contestados.
Os canais Os Pingos nos Is e Morning Show, da emissora Jovem Pan, lideram em número de argumentos desinformativos. Esses dois canais exemplificam como a imprensa tradicional também pode disseminar desinformação, adotando um tom agressivo e altamente opinativo, como nos vídeos V10 e V13. Ademais, o fato de narrativas desinformativas serem veiculadas por emissoras tradicionais aumenta sua legitimidade e amplia seu alcance.
Os canais BRAZIL GRAPHICS e Vamos Falar de História?, voltados à exaltação das Forças Armadas do Brasil, disseminaram a ideia de que as críticas internacionais sobre o desmatamento faziam parte de uma campanha contra a soberania nacional, desviando o foco sobre as queimadas na Amazônia. O canal religioso Adoradores na Net incorporou teorias conspiracionistas em seu vídeo (V20), associando as críticas do presidente francês Macron às queimadas com a ideia de uma "nova ordem global" liderada pelo anticristo. Isso indica que a desinformação pode ser amplificada por crenças religiosas, tornando-se ainda mais difícil de ser descredibilizada.
Em razão do apoio ao governo Bolsonaro, reconhecidamente de extrema-direita (Duarte, 2023; Löwy, 2020; Piovezani, 2021), da adoção de discursos agressivos e de ataques aos direitos humanos, nove canais podem ser classificados de extrema-direita: Folha Política, Planalto (que, como canal institucional, fez a comunicação oficial do governo Bolsonaro), Morning Show, Nando Moura, Mamaefalei, Daniel Alvarenga, Desconfinados, Os Pingos nos Is e Ficha Social. Os canais Nando Moura e Mamaefalei apoiaram a eleição de Bolsonaro, mas romperam com o ex-presidente ao longo de seu governo. Esses nove canais não apenas disseminaram desinformação ambiental durante a crise da Amazônia, mas também promoveram ataques sistemáticos a instituições democráticas e opositores políticos (MPF, 2023; Intercept, 2018).
Considerações Finais
Os resultados desta pesquisa demonstram a predominância de conteúdos desinformativos no YouTube em relação às queimadas e ao desmatamento na Amazônia. A proporção de 63,63% de argumentos desinformativos revela um cenário preocupante diante da urgência das mudanças climáticas e da necessidade de acesso a informações confiáveis para a formulação de políticas públicas. Os achados corroboram estudos anteriores que evidenciam o uso estratégico de plataformas digitais para a promoção de agendas políticas em contextos marcados pela desinformação e pelo extremismo, especialmente à direita do espectro político (Benkler et al., 2018; Ribeiro et al., 2020; Silverman, 2015).
A análise demonstrou que a desinformação foi utilizada como estratégia retórica por canais de extrema-direita alinhados ao ex-presidente Jair Bolsonaro, com o objetivo de proteger a imagem de seu governo, enfraquecer instituições científicas e relativizar legislações ambientais. A Amazônia é frequentemente representada por esses canais como um recurso econômico subaproveitado, cuja preservação seria um entrave ao desenvolvimento nacional. Essa narrativa legitima interesses de setores como a mineração e o agronegócio, ao mesmo tempo que desqualifica políticas ambientais e saberes científicos que apontam os riscos socioambientais desse modelo de exploração predatória (Rajão et al., 2020).
A maioria dos argumentos desinformativos mapeados compartilham a tentativa de moldar a opinião pública por meio do negacionismo científico, minimizando a gravidade das queimadas, questionando dados oficiais e relativizando o impacto das ações humanas sobre a floresta. Esse negacionismo se articula à concepção de nacionalismo da extrema-direita, que associa a defesa da soberania nacional à exploração irrestrita da Amazônia para o desenvolvimento econômico.
O próprio governo federal contribuiu para a disseminação de desinformações e negacionismos científicos ao questionar publicamente dados do INPE (Angelo, 2019) e ao atribuir, sem evidências, a responsabilidade pelos incêndios a ONGs e povos indígenas (Maia, 2019). Essas declarações oficiais, amplificadas por canais de extrema-direita no YouTube, reforçaram narrativas que criminalizam indígenas, ambientalistas e movimentos sociais, apresentando-os como inimigos internos ou obstáculos ao progresso.
A análise dos dados indicou duas tendências particularmente preocupantes do YouTube: o favorecimento algorítmico de conteúdos extremistas, que tendem a gerar maior engajamento, e a fragilidade das políticas de moderação da plataforma, incapazes de conter a circulação de vídeos enganosos e conspiratórios. Essa combinação contribuiu para o impulsionamento de narrativas que negavam a gravidade das queimadas, difundiam teorias conspiratórias sobre a internacionalização da Amazônia e reforçavam acusações infundadas contra populações indígenas e organizações não governamentais.
Essa dinâmica evidencia como os algoritmos das plataformas digitais também atuam como agentes na propagação da desinformação, configurando um ecossistema comunicacional no qual conteúdos enganosos alcançam ampla visibilidade. Além disso, a opacidade dos algoritmos de recomendação dificulta a auditoria e responsabilização das plataformas (Amadeu, 2019), enquanto os usuários são expostos a bolhas informacionais que tendem a reforçar crenças preexistentes (Pariser, 2012). Exemplos como o da pandemia de COVID-19, em que plataformas digitais foram amplamente criticadas por favorecer discursos anticientíficos (Massarani et al., 2021), demonstram que essa problemática extrapola a questão ambiental, revelando um padrão estrutural com impactos profundos sobre o debate público e a democracia.
A negligência das plataformas digitais na moderação de conteúdo emerge como um elemento central da atual crise informacional. O YouTube, por exemplo, não apenas falha em desmonetizar canais que disseminam desinformação (Machado, 2020), como também os impulsiona por meio de seus algoritmos de recomendação (Gillespie, 2018). Diante desse cenário, torna-se urgente o avanço de debates regulatórios que considerem a responsabilidade das plataformas na circulação de discursos negacionistas e extremistas. Sugere-se que pesquisas futuras aprofundem a análise sobre mecanismos de transparência algorítmica e políticas de moderação mais eficazes para plataformas digitais.
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Como citar:
OLIVEIRA JR, A. A; GITAHY, L.M.C.; ALTIMIRASMARTIN, A. e SCUTARI, G.V. M. Rede de desinformação no Youtube: as queimadas na Amazônia em 2019. São Paulo: INTERCOM - Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, v. 49(2026) e2026114. https://doi.org/10.1590/1809-58442026114pt.
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Financiamento e Apoio:
Este estudo teve o financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), através da concessão de bolsa de pesquisa (Processo nº 130534/2019-6).
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Linguagem inclusiva:
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Verificação de plágio:
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Editoração e marcação XML:
IR Publicações
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Finaciamento:
CNPq
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1
Os dados dos 923 vídeos podem ser conferidos em: https://figshare.com/s/bb9d47e2eb08843f87ce
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2
Os dados referentes ao processo de mapeamento dos argumentos podem ser conferido em: https://figshare.com/s/ead3ec002e1aff078d0e
Disponibilidade dos Dados
Os dados gerados e analisados estão disponíveis no Figshare (https://figshare.com/projects/Rede_de_desinforma_o_no_YouTube_as_queimadas_na_Amaz_nia_em_2019/253004)
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