Resumo
Resumo: Ao se considerar o uso de parques verdes urbanos um ato de consumo e uma experiência que transforma os hábitos de seus usuários, infere-se a importância da Transformative Service Research e da Service Dominant Logic na proposição de que, por meio de interações respeitosas, colaborativas, sustentáveis, é possível promover maior bem-estar. O objeto deste ensaio teórico é propor um modelo de pesquisa hipotético entre parques verdes urbanos e a transformação de comportamento de seus usuários. Para isso uma revisão bibliométrica da Transformative Service Research na base científica: web of Science foi realizada.
Palavras-chave:
Transformative Service Research; Service Dominat Logic; Parques Verdes Urbanos; integração; modelo hipotético
Abstract
Abstract: Considering the use of urban green parks an act of consumption and an experience that transforms the habits of its users, it is inferred the importance of Transformative Service Research and Service Dominant Logic in the proposition that, through respectful interactions, collaborative, sustainable, it’s possible to promote greater well-being. The objective of this theoretical essay is to propose a hypothetical research model between urban green parks and the behavioral transformation of its users. For this, a bibliometric review of Transformative Service Research on the scientific basis: web of Science was performed.
Keywords:
Transformative Service Research; Service Dominat Logic; Urban Green Parks; integration; hypothetical model
Resumen
Resumen: Al considerar el uso de parques verdes urbanos un acto de consumo y una experiencia que transforma los hábitos de sus usuarios, se infiere la importancia de la Transformative Service Research y de la Service de registro en la proposición de que por medio de interacciones respetuosas, colaborativas, sostenibles y posible promover mayor bienestar. El objeto de este ensayo teórico es proponer un modelo de investigación hipotético entre parques verdes urbanos y la transformación de comportamiento de sus usuarios. Para ello una revisión bibliométrica de la Transformative Service Research en la base científica: web of Science fue realizada.
Palabras clave:
Transformative Service Research; Service Dominat Logic; Parques Verdes Urbanos; integración; modelo hipotético
1 INTRODUÇÃO
No cotidiano da vida urbana, consumidores em boa parte de seu tempo estão consumindo algum tipo de serviço. O consumo de serviços de telecomunicações, de educação, serviços financeiros, de saúde, entre tantos outros, é um exemplo de como direta ou indiretamente, serviços estão presentes em quase todos os aspectos da vida dos indivíduos, impactando em seu bem-estar, em seus hábitos e em seus comportamentos.
Ostrom et al. (2010) e Kuppelwiesera e Finsterwalderb (2016) afirmam que boa parte das necessidades humanas, ao longo de uma vida, são atendidas por meio da busca, acesso e consumo de serviços que promovem a qualidade de vida, o bem-estar e o bem viver.
A capacidade de os serviços serem um meio de melhorar o bem-estar individual e coletivo vem sendo estudada de forma multidisciplinar e por diferentes perspectivas (MACLNNIS; FOLKES, 2010; RAPP; HILL, 2015), mas uma perspectiva mercadológica se concentraria na investigação do comportamento do consumidor, sua integração com os serviços e a relação desse serviço com a mudança de comportamento.
Apesar de esses espaços serem ainda comumente investigados no campo do marketing pela ótica da satisfação (BURROUGHS; RINDFLEISCH, 2012; SILVA JUNIOR, 2013; FUNDAÇÃO DO DESENVOLVIMENTO ADMINISTRATIVO [FUNDAP], 2013; ROSENBAUM, 2015), compreender como o consumidor é transformado positivamente, quais práticas melhoram ou melhorariam seus hábitos por meio do acesso a serviços, contribuiria academicamente para os avanços teóricos dentro da perspectiva dos serviços transformativos (DAVIS; PECHMANN, 2013).
Vários tipos de serviço poderiam ser investigados, como já mencionado, de educação, financeiros, de saúde entre outros tantos outros serviços que possuem importantes funções sociais, capazes de estimular hábitos de vida mais saudáveis e de transformar positivamente as práticas de consumo (MICK et al., 2012). Porém este estudo se concentra nos possíveis serviços ofertados por áreas verdes públicas, onde se pode afirmar que o arcabouço teórico da Transfomative Service Research, promove nesse espaço saúde, lazer ativo e consequentemente resultados positivos (NAHAS et al., 2010; LONDE; MENDES, 2014).
Por serem considerados espaços promotores de bem-estar da população (MARQUES et al., 2014) e estruturados para garantir o bem-estar psicológico, recreativo e lazer, os parques verdes urbanos seriam um serviço com a capacidade de mudar a intenção de comportamentos (ROSENBAUM et al., 2011; ANDREASEN; GOLDBERG; SIRGY, 2012), capazes de garantir bem-estar psicológico, social, estético, educativo, recreativo e de lazer à população (BARGOS; MATIAS, 2011).
A justificativa da proposição deste estudo é focada na sustentabilidade das cidades, na alocação correta de recursos, e em como espaços públicos verdes podem gerar economia de gastos com tratamentos médicos e medicamentos aos cofres públicos (BIELEMANN; KNUTH; HALLAL, 2010), atuando como um sistema preventivo da saúde física e também à prevenção da saúde psicológica, influenciando na satisfação com a vida, criando autoestima e crescimento pessoal (FERNANDES et al., 2011), e evitando-se doenças relacionadas com a prevenção de depressão (VASCONCELOS-RAPOSO, 2011).
O presente artigo apresenta um framework teórico que envolve o serviço e o consumidor de parques verdes urbanos, apresentando a perspectiva teórica da Transformative Service Researh, identificando as transformações e a intenção de mudança de comportamento dos usuários de parques públicos verdes.
2 PARQUES VERDES URBANOS
Ao longo do tempo, a forma como usuários se apropriavam dos parques urbanos foi se diferenciando. É possível observar que, a partir do século XIX, as funções sociais pelas quais se estruturava um parque urbano foram se modificando, passando por diferentes formas de idealização, apropriação e uso. Segundo Medeiros (2014), entre o final do séc. XIX e o início do séc. XX, a urbanização, a urbanidade crescente redesenharam as cidades, e os equipamentos públicos de cultura e de lazer que a compõem, foram adaptados aos novos padrões de vida.
Essa adaptação é percebida nos parques verdes urbanos, que também tiveram sua função social modificada. Sua função como equipamento que promove apenas a preservação e garantia dos recursos naturais (LIMNIOS; FURLAN, 2013), evolui para funções mais amplas, como a de oferecer a contemplação, a abstração e a oferta de recreação (SEMEIA, 2015).
As adaptações citadas em relação aos parques públicos, portanto, evidenciam três fases: a de ser um elemento estético; de ser um elemento de escape, de contato com a natureza; e a de ofertar lazer. Ou seja, de preservação, contemplação, abstração e finalmente de recreação. Percebe-se que as primeiras concepções de parques consideravam o espaço ricamente elaborado e decorado como principal elemento urbano. De acordo com Macedo e Sakata (2002), os elementos artísticos, como esculturas, coretos, a composição romântica anglo-francesa e a vegetação nativa nas áreas dão significado ao parque como um elemento da composição da paisagem, privilegiam o caminhar lento e restrito entre trilhas, bosques e arte.
Porém a necessidade de parques voltados para as classes populares e para a massa urbana, e não apenas para as elites ou um grupo restrito, intensificou o investimento público ao final dos anos 1960. Implementam-se atividades de recreação e lazer de domínio público, com a concepção de que se assegurariam melhores condições ambientais e também melhor qualidade de vida para a população (COSTA et al., 2009).
Bargos e Matias (2011) assim como Marques et al. (2014) afirmam que as áreas verdes urbanas são mantidas pela população por meio dessas concepções, da significância, da função e impacto desses equipamentos em contraponto às consequências negativas da urbanização (poluição, estresse, sedentarismo), e pelo potencial de qualidade ambiental por meio de suas funções ecológicas e funções sociais.
Dessa forma temos a hipótese 01 (H1): Influências sociais e pessoais afetam positivamente a visitação a parques verdes urbanos.
Os benefícios físicos e impactos na saúde do usuário enfatizam a investigação dos benefícios trazidos pelas áreas verdes para a saúde e o bem-estar da população citadina (SEMEIA, 2015). Percebe-se, assim, que áreas verdes possuem funções sociais (convívio social, recreação e lazer) e funções ecológicas (preservação, educação, redução poluição) e proporcionam benefícios para os indivíduos e para a coletividade.
Assim, as premissas de que, ao desenvolver funções ecológicas, sociais e de lazer, essas áreas podem contribuir, de maneira eminente, no comportamento de seus frequentadores, para a qualidade ambiental e de vida da população, oferecendo preenchimento das horas vagas com práticas de lazer, recreação e educação, de cidadania, de descanso e divertimento (NAHAS et al., 2010) e desenvolvimento tanto pessoal quanto social (MARCELLINO, 2002).
Mas infelizmente nem todo parque proporciona a integração ao usuário. A apropriação desses espaços se distingue e pode, por diferentes motivadores sociais (PETERS et al., 2014), aumentar ou diminuir, seja pelas diferenças etárias, sociais, seja pelas motivações situacionais que estimulam a frequência a áreas verdes por crianças e famílias, para o cuidado com a saúde, ou pela prática de caminhadas, por práticas esportivas ou pela contemplação estética de um ambiente arborizado agradável.
3 PESQUISAS TRANSFORMATIVAS VOLTADAS PARA CONSUMIDOR
Os trabalhos seminais que propõem avanços e que consolidam as perspectivas científicas dos estudos de consumo e do bem-estar do consumidor, em uma perspectiva interpretativista e positivista (ANDERSON; OZANNE, 1988), articulam-se dentro do arcabouço de conteúdos que versam sobre o comportamento do consumidor já em debate pela academia no desenvolvimento de teorias de marketing relacionadas com o comportamento do consumidor (HUNT, 2002; BAKER; SAREN, 2016).
Nesse sentido, os estudos que se embasam nas dimensões do bem-estar perpassam, por exemplo, por benefícios percebidos pelos consumidores (BURROUGHS; RINDFLEISCH, 2012), pela mudança e ressignificação do consumo no mundo, e envolvem as transformações do consumidor. Fisk (2009) e Mick et al. (2012) afirmam que essa abordagem é precursora na perspectiva das relações entre potencialidades e efeitos do consumo.
Por meio deste argumento temos a hipótese 02 (H2): Parques verdes urbanos proporcionam bem-estar e transformação do comportamento de seus usuários. Por isso, uma vertente de pesquisas especificamente sobre serviços, conhecida como Transformative Service Research (TSR), tem ganhado espaço no meio acadêmico, buscando compreender o comportamento de consumo das pessoas com vistas para o bem-estar individual e coletivo (MICK et al., 2012), em pesquisas voltadas para serviços e seus impactos na transformação do consumidor. Tal abordagem transformativa foi escolhida para embasar este trabalho e será apresentada de maneira mais aprofundada no tópico seguinte.
4 PESQUISA EM SERVIÇOS TRANSFORMADORES (TSR)
Em sua essência, a pesquisas em serviços transformativos (TSR) investiga a relação entre serviço e bem-estar. Dedica-se à pesquisa da mudança de comportamento de consumo que se destina a melhorar a vida dos indivíduos, de famílias e, de forma mais ampla, da sociedade (PANCER; HANDELMAN, 2012; ANDERSON et al., 2013; OSTROM et al., 2015).
As contribuições teóricas da TSR para o campo do comportamento do consumidor envolveriam o potencial desenvolvimento de experiências (HELKKULA, 2011) e resultados positivos para os consumidores (ANDERSON; OSTROM; BITNER, 2011), em quaisquer tipos de serviços, desde o consumo de serviços básicos até serviços de saúde e educação ou de lazer e práticas esportivas.
Percebe-se que a TSR se alinharia com o estudo “The Experience Economy” (PINE; GUILMORE, 1998). Esses autores, em 2011, incluíram uma nova fase ao respectivo estudo como uma evolução da economia da experiência: o estágio para a “Economia de Transformação” (PINE; GUILMORE, 2011), ou seja, a evolução que vislumbra transformar a vida do consumidor.
A figura 1 demonstra essa evolução, de uma economia extrativista a uma economia guiada para os benefícios proporcionados aos consumidores, apontando como a fase da transformação requer um afastamento do produto em seu nível mais mercantilizado. Por exemplo, ir além das investigações que avaliam desempenho, satisfação e lucro, sinalizando um direcionamento guiado para o coletivo, e não só para o lucro organizacional.
Segundo Ostrom et al. (2010), a TSR incentiva os pesquisadores a explorar questões para o desenvolvimento de novas medidas dos efeitos do consumo de serviços. Nos trabalhos de Fisk (2009), Williams e Henderson (2012) e Rosenbaum (2015), é possível observar exemplos de pesquisas com foco nas transformações positivas de serviços e seus efeitos sobre os indivíduos e as sociedades.
Por sua natureza dinâmica, os serviços oferecem potencial de transformação substancial por causa da interação direta e, muitas vezes, dialógica entre o prestador de serviços e o consumidor (ANDERSON; OSTRON; BITNER, 2011). É importante notar que autores como Frow et al. (2014) e Peters et al. (2014) já trabalhavam com a noção de interação dialógica, apesar de não utilizarem o modelo proposto pela TSR como base teórica em seus estudos.
A proposta conceitual da TSR é proposta por um modelo de integração de cinco dimensões (ANDERSON; OSTRON; BITNER, 2011) composto por: entidades de serviços, entidades consumidoras, sua integração e seus resultados para o bem-estar. Conforme apresentado na Figura 2, o modelo proposto pela abordagem TSR fornece uma estrutura com perspectiva focada no resultado para promover o bem-estar em um nível individual (OSTROM et al., 2015) e coletivo (PANCER; HANDELMAN, 2012), por meio da interação entre entidades prestadoras e consumidoras de serviços (ANDERSON et al., 2013). Em um sentido mais amplo, a interação refere-se a qualquer contato entre entidades de serviço e de consumo que promovam como resultado: bem-estar.
No modelo apresentado na Figura 2, entidades de serviço seriam os ofertantes de serviço que, de forma positiva ou negativa, beneficiam ou prejudicam o bem-estar (ANDERSON et al., 2012). São as organizações que envolvem os setores de serviço, seus funcionários, seus processos de serviço e tudo que influencia a oferta do serviço em si. As entidades consumidoras incluem os consumidores, o consumo coletivo e individual, entidades de consumo, como as famílias, redes sociais, comunidades, bairros, cidades e nações (ANDERSON; OSTRON; BITNER, 2011; PANCER; HANDELMAN, 2012), integrando tanto um único beneficiado pelo bem-estar do sistema de serviço (VARGO; LUSCH, 2008), como também o bem-estar de todo o ecossistema de serviço (WIELAND et al., 2012; OSTROM et al., 2015), formando um sistema complexo e dinâmico de atores (VARGO; LUSCH, 2014).
Na integração dos dois agentes (prestadores e consumidores) do serviço, a influência do ambiente político, cultural, tecnológico e econômico (ANDERSON et al., 2012) impacta nas políticas públicas que afetam o bem-estar. Segundo Peters et al. (2014) e Vargo e Akaka (2012), é justamente a integração entre as entidades de serviço e de consumo que permite que o sistema de autoajuste dos atores envolvidos crie valor mútuo por meio da troca de serviços.
Constituindo a hipótese 03 deste trabalho (H3): A transformative Service Research contribui para resultados positivos junto a usuários de parques verdes urbanos, Anderson, Ostrom e Bitner (2011), Edvardsson, Tronvoll e Gruber (2011), exemplificam o ajuste de atores proposto por Vargo e Akaka (2012) e Peters et al. (2014) em que a possibilidade de acesso a serviços desempenha um papel importante na promoção, por exemplo, de felicidade e da possibilidade de contribuir para cidadania e para educação.
As publicações internacionais com foco nessa teoria se concentram em marketing de serviços e pôde ser observado. A pesquisa do termo literal “Transformative Service Research”, no Web of Science, retorna 52 artigos que possuem essa temática em suas palavras chave, título ou resumo, concentrados em 92 % nas áreas de Business ou Economics, separadas pelas categorias de campo em 30 trabalhos de Business e 22 trabalhos de Management.
Percebe-se também que é recente a preocupação de pesquisas, conforme o gráfico 1 - as pesquisas intensificam-se na perspectiva de serviços proporem mudança de comportamento a partir de 2011. A gráfico apresentado do termo “ transformative service research” começa timidamente nos anos de 2011, 2012, 2013, crescendo em 2014, mas realmente ganhando forma em 2015 a 2017. No Brasil, essa temática ainda é nova, e, em contextos usuário/consumidor de parques verdes urbanos como locus de estudo e contexto para a pesquisa transformativa do consumo, é uma proposta inovativa.
Compreender a trilha de pesquisas dos autores seminais dessa teoria e a evolução da utilização dos autores nos anos citados pela figura acima é importante para que um estudo científico possa contribuir para a ciência. Estruturar serviços ofertados a uma população que evidenciariam a relação entre consumo e efeitos positivos e, portanto, bem-estar no uso de espaços públicos de lazer potenciais para esse fim, seria uma tendência de pesquisas. Rosenbaum et al. (2011) afirmam que a perspectiva teórica da TSR se alinha na observação co-criaçao de valor (ECHEVERRI; SKALEN, 2011) na observação da co-destruição de valor (PLÉ; CHUMPITAZ, 2010) e na observação de como as entidades de serviço facilitam o bem-estar. Isso corrobora com Vargo e Lusch (2008) que afirmam que a formação de valor interativo pode ser estimulada.
Dessa forma, o alinhamento entre diferentes autores, e como suas pesquisas vêm contribuindo para essa temática, apresenta um framework teórico que, em diferentes contextos, envolve comportamento do consumidor e a busca pelo bem-estar.
Os mesmos 52 artigos apresentados pela saída do web of Science, vêm sendo estudados pelos seguintes autores.
Destaca-se Rosembaun, Anderson e Ostrom como os principais autores seminais da Trasformative Service Research (TSR), Gurbert, Finsterwalder e McColl-Kennedy como estruturantes, e, a partir desses autores, novos trabalhos utilizam e citam estes autores na aplicação dessa teoria em diferentes contextos.
Assim uma investigação que alinha o comportamento de visitantes a parques verdes urbanos, serviços que um parque verde urbano oferece para a população, é um caminho para avançar nessa teoria, podendo afetar o bem-estar com a construção de valores positivos, até mesmo de forma não previstas (PLÉ; CHUMPITAZ, 2010; ECHEVERRI; SKALEN, 2011; LONDE; MENDES, 2014; SEMEIA, 2015). Da mesma forma, há possibilidade de afetar o bem-estar de maneira negativa, ou insuficiente, ainda que isso também não tenha sido previsto. Em ambos os casos, ao gerar valor, positivo ou negativo, o papel do consumidor como central, como co-produtor dos resultados desse equipamento, merece ser estudado (LEHMANN; HILL, 2012).
Este estudo puramente teórico considera o serviço um meio da mudança, através do foco nos resultados propostos pela interseção entre: mudança cognitiva, de ação ou de comportamento. Segundo Kotler (1978), as mudanças podem ser de quatro tipos e são graduadas da menor para uma mudança maior. A primeira mudança seria a “Mudança Cognitiva”, que identifica a mudança de compreensão de um determinado assunto. A segunda, uma “Mudança de Ação”, implica a mudança de atitude, mobilizando uma população a realizar uma ação. A terceira, uma “Mudança no Comportamento”, que implica a mudança de comportamento, que imprime uma dinâmica psicológica. A quarta, por fim, seria uma “Mudança de Valor”, que procura alterar crenças ou valores e lida com o tipo de mudança de maior grau de complexidade.
As propostas de “Mudança de Comportamento e Mudança de Valor” estão presentes no processo de criação de valor, qualquer experiência mental (HEINONEN; STRANDVIK; VOIMA, 2013) do usuário de um serviço de lazer. É, portanto, o serviço subjacente, um facilitador, para o próprio indivíduo atuar na criação de valor (FROW et al., 2014).
5 A POTENCIALIDADE TRANSFORMATIVA DE PARQUES VERDES URBANOS
O parque urbano é um espaço público estruturado por vegetação e dedicado ao lazer da massa urbana, um elemento típico das grandes cidades modernas em processo de recodificação constante (MACEDO; SAKATA, 2002); locus discutido pela comunidade científica por diferentes trabalhos e em diferentes áreas do conhecimento (MAZZEI; COLESANTI; SANTOS, 2007; FUNDAP, 2013), sendo que a grande maioria das pesquisas com áreas verdes enfatiza os benefícios gerados pelos parques para a população em geral, que é vista como usuária e, consequentemente, consumidora desse tipo de serviço (BARGOS; MATIAS, 2011; LONDE; MENDES, 2014; MEDEIROS, 2014; MARQUES et al., 2014; SEMEIA, 2015).
O desenvolvimento em áreas verdes urbanas de novas funções ecológicas, sociais e de lazer contribui, de maneira eminente, para a melhoria da qualidade ambiental e de vida de seus usuários (NAHAS et al., 2010); tal comportamento pode ser observado por abordagem segundo Maclnnis e Folkes (2010) e Rapp e Hill (2015), é uma tendência investigativa no campo do marketing.
Por isso, Vargo e Lusch (2004) propuseram uma lógica que considere também uma ótica voltada para o serviço introduzida pelo conceito da Service-Dominant Logic, não apenas pelo crescimento do setor de serviços e sua participação na economia mundial, mas também pela sua capacidade de impulsionar o questionamento de uma lógica voltada para o bem-estar.
Para Prahalad e Ramaswany (2004), a Lógica do Serviço Dominante rompe com modelos tradicionais centrados no produto, conceito tradicional de mercado, centralizado na firma, como definidora de valor. A Lógica do Serviço Dominante, segundo Kuppelwieser e Finsterwalderb (2016), muda a ótica de valor determinado pela firma para o valor determinado pelo consumidor.
Proposta então a hipótese 04 (H4): A Service Dominat Logic contribui para o estímulo à visitação a parques verdes urbanos.
Percebe-se, portanto, a relevância de investigar esses espaços sob outras perspectivas, como a ótica proposta pela Service Dominat Logic (SDL) e a da Trasnformative Service Research (TSR). A SD-L afirma que o consumidor está sempre envolvido na co-criação de valor (WIELAND et al., 2012; FROW et al., 2014). Observa-se a importância de alinhar teoria e pesquisa empírica para auxiliar na potencialização desses espaços como promotores de bem-estar. Segundo Vargo e Lusch (2014), o benefício viabilizado pelo sistema corresponde ao valor co-criado na experiência de consumo (WIELAND et al., 2012; HELKKULA, 2011). A afirmação de Vargo e Lusch (2014) se alinha à proposta de Anderson et al. (2013) na Trasnformative Service Research, na qual a integração dos agentes, de entidades de serviço, de entidades de consumo e do ambiente cria valores para o indivíduo e, consequentemente, para o coletivo (VARGO; AKAKA, 2012; PANCER; HANDELMAN, 2012; PETERS et al., 2014; FROW et al., 2014).
A Lógica do Serviço Dominante direciona o foco de pesquisa dos mercados de tangíveis para intangíveis, por meio dos relacionamentos contínuos e regulares com o consumidor (VARGO; LUSCH, 2004, p. 15). Ao sugerir a tese de que explorando o conceito de valor em uso, Vargo e Lusch (2004) defendem que os consumidores exercem a avaliação crítica de valor quando bens tangíveis e intangíveis estão em uso, e não somente quando os adquirem. Segundo Bettencourt, Lusch e Vargo (2014), a prática do marketing precisa ir além da noção de valor transferida ao cliente durante uma compra, para uma noção de valor criada conjuntamente com clientes no contexto do uso, sugestão também defendida pelos estudos de Frow et al. (2014).
Na SDL, segundo Achrol e Kotler (2006), um ecossistema de serviço é definido como um sistema de relacionamentos em que ocorrem trocas diretas e indiretas entre os atores envolvidos. Adota-se a premissa de que, nas trocas de serviço, atores integradores de recursos se conectam por lógicas institucionais compartilhadas e mútua criação de valor (LUSCH; VARGO, 2014). Isto é, todos os participantes do ecossistema passam a ser chamados de atores. Segundo Wieland et al. (2012), o termo ecossistema é escolhido por indicar uma dinâmica de adaptação constante do sistema.
Conforme foi apresentado na figura 2, a interação de recursos se refere a como organizações, famílias e indivíduos integram e transformam um sistema de serviço para um beneficiário ou ator específico no sistema (PETERS et al., 2014). O entendimento mútuo, interativo e participativo apresentado é co-criado (WIELAND et al., 2012), porque é conseguido por meio do compartilhamento das experiências, da construção de contextos e da troca de informações (HELKKULA, 2011), proporcionadas pelos serviços (PRAHALAD; RAMASWANY, 2004). Tal entendimento mútuo e interativo é, portanto, co-criado por meio de experiências personalizadas e únicas, que podem ser desenvolvidas através de uma linguagem criada especificamente por um grupo, capaz de facilitar a conexão entre os membros (MAGLIO; SPOHRER, 2008).
A proposta de Lusch e Vargo (2014) de se pensar no serviço composto por entidades dinâmicas, que se tornam disponíveis para o uso humano entre os múltiplos atores (TOMBS; MCCOLL-KENNEDY, 2013), é um amplo ecossistema de serviço e interações (AKAKA et al., 2014).
A participação do consumidor nessas interações diz respeito às ações e aos recursos fornecidos por cada cliente, usuário ou visitante durante a produção e/ou entrega de serviços, incluindo insumos materiais, físicos e até emocionais (LOVELOCK; WIRTZ, 2006), ou seja, refere-se ao papel do consumidor como principal agente criador de valor durante o consumo de um serviço.
Essa característica pode ser evidenciada no consumo de parques verdes urbanos, já que os elementos e atributos desses equipamentos de lazer (NAHAS et al., 2010) têm um potencial de geração de bem-estar significativo (BURROUGHS; RINDFLEISCH, 2012), o que está também adequado à proposta de pesquisa sobre Serviços Transformativos.
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Como referenciado anteriormente, as trocas de serviço e a consequente criação de valor não se limitam, mas, sim, se estendem em todo o ecossistema de serviço (LUSCH; VARGO, 2014). Assim, pode-se inferir que a co-criação de valor será influenciada por todos os fatores relacionados às interações, como a quantidade e o tipo de atividade (MCCOLL-KENNEDY et al., 2012; WIELAND et al., 2012), e que as lógicas institucionais habilitam ou restringem as ações e interações dos atores (EDVARDSSON et al., 2014; AKAKA et al., 2014).
Ao considerar que o uso de parques verdes urbanos é um ato de consumo, é possível, por meio de estudos do comportamento do consumidor, gerar subsídios que auxiliam, por exemplo, a conseguir agregar-lhes valor mais elevado por parte do público-alvo, a gerar práticas positivas e maior disposição para interações com membros do sistema de serviços envolvidos nos parques públicos.
A potencialidade de um parque verde urbano gerar valor, por exemplo, à saúde física e mental de seus usuários, em estimular o convívio e trocas sociais positivas que acontecem durante e após o uso desses espaços, os impactos gerados para as comunidades locais, é relatada em periódicos de impacto internacional.
Este estudo com orientação para o marketing turístico contribui para o contexto do patrimônio público com foco no comportamento do consumidor. Contribui para o avanço teórico ao investigar fenômenos que envolvem relações de troca, não obrigatoriamente monetárias. Essas trocas, entre o ofertante do serviço e o consumidor, tentam “vender” uma proposta de mudança no comportamento visando a melhor bem-estar.
Dessa forma, o modelo apresentado na figura 3 reúne a sistematização deste estudo, englobando a construção de hipóteses, a delimitação da pesquisa.
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Hipótese 01: Influências sociais e pessoais afetam positivamente a visitação a parques verdes urbanos;
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Hipótese 02: Parques verdes urbanos proporcionam bem-estar e a transformação do comportamento de seus usuários;
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Hipótese 03: A transformative Service Research contribui para que resultados positivos junto a usuários de parques verdes urbanos;
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Hipótese 04: A Service Dominat Logic contribui para o estímulo à visitação a parques verdes urbanos.
A definição da construção deste modelo hipotético apresenta, portanto, as contribuições utilizadas das teorias do comportamento do consumidor, buscando-se a influência de aspectos sociais e pessoais (valores) para a visita. Na Transformative Service Research buscou-se a perspectiva de transformação do consumidor e de propostas de bem-estar. A contribuição da Service Dominat Logic veio da ênfase na co-criação de valor na busca de bem-estar e na mudança de comportamento que pode acontecer a partir de co-criação e consumo de serviços de lazer e recreação em parques verdes urbanos.
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Fonte:
Fonte:
Fonte: Web of Science.
Fonte: Elaborado pelos autores (2016).