Open-access Arranjos Produtivos Locais de Mato Grosso do Sul e a Rota de Integração Latino-Americana: Uma investigação dos potenciais de efeitos de transbordamento sobre o desenvolvimento regional

Arreglos Productivos Locales de Mato Grosso do Sul y la Ruta de Integración Latinoamericana: Una investigación sobre los posibles efectos indirectos en el desarrollo regional

Resumo

A Rota de Integração Latino-Americana (Rila) corresponde a um corredor de transporte rodoviário internacional em vias de implementação que interligará o Estado de Mato Grosso do Sul (MS), no Brasil, aos portos do norte do Chile. Nesse contexto, ela abre um horizonte de possibilidades de desenvolvimento para os municípios de MS. A pesquisa tem como objetivo analisar as aglomerações produtivas de MS, destacando os efeitos esperados da Rila sobre o desenvolvimento destas. Para tanto, utilizando dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) para o ano de 2020, mapearam-se as aglomerações produtivas do Estado, desagregando-as em setores econômicos e em tamanho dos empreendimentos, analisando indicadores de especialização produtiva e ressaltando espacialmente de forma exploratória. Como resultado, destaca-se a identificação de potencialidades de efeito de transbordamento, sobretudo para os pequenos negócios, que podem ser aproveitadas pelos municípios afetados pela Rila para impulsionar seu processo de desenvolvimento. Nesse contexto, salienta-se a importância de políticas públicas integradas para o fortalecimento de tais potencialidades de desenvolvimento do Estado com a implementação da Rila, sobretudo dos pequenos negócios.

Palavras-chave
Especialização produtiva; Mato Grosso do Sul (MS); Rota de Integração Latino-Americana (Rila); Efeito de transbordamento; Arranjos Produtivos Locais (APLs)

Abstract

The Latin American Integration Route (RILA) is an international road transport corridor in the process of implementation that will connect the State of Mato Grosso do Sul (MS), Brazil, to the ports of Northern Chile. In this context, it opens up a plethora of potential development possibilities for the municipalities of the State of MS. The research aims to analyze the productive agglomerations of the State of MS, highlighting the expected effects of RILA on its development. To this end, using data from the Annual Social Information List (RAIS) of the Ministry of Labor (MTE) for the year 2020, the productive agglomerations of the State were mapped, dividing them into economic sectors and size of enterprises, analyzing indicators of productive specialization, and spatially analyzing in an exploratory way. As a result, we highlight the identification of potential spillover effects, especially for small businesses, which can be used by the municipalities affected by RILA to boost their development process. In this context, the importance of integrated public policies to strengthen such state development potential with the implementation of RILA, especially for small businesses, is emphasized.

Keywords:
Productive specialization; Mato Grosso do Sul (MS); Latin American Integration Route (RILA); Spillover effects; Local Productive Arrangements (LPAs)

Resumen:

La Ruta de Integración Latinoamericana (RILA) es un corredor internacional de transporte por carretera en proceso de implementación que conectará el Estado de Mato Grosso do Sul (MS), en Brasil, con los puertos del norte de Chile. En este contexto, se abre un amplio abanico de posibilidades de desarrollo para los municipios del Estado de MS. La investigación busca analizar las aglomeraciones productivas del Estado de MS, destacando los efectos esperados de la RILA en su desarrollo. Para ello, utilizando datos de la Lista Anual de Información Social (RAIS) del Ministerio de Trabajo (MTE) correspondientes al año 2020, se mapearon las aglomeraciones productivas del Estado, dividiéndolas por sectores económicos y tamaño de las empresas, analizando indicadores de especialización productiva y realizando un análisis espacial exploratorio. Como resultado, se identifican posibles efectos indirectos, especialmente para las pequeñas empresas, que pueden ser aprovechados por los municipios afectados por la RILA para impulsar su proceso de desarrollo. En este contexto, se destaca la importancia de políticas públicas integradas para fortalecer el potencial de desarrollo estatal mediante la implementación de la RILA, especialmente en las pequeñas empresas.

Palabras clave
Especialización productiva; Mato Grosso do Sul (MS); Ruta de Integración Latinoamericana (RILA); Efectos indirectos; Arreglos Productivos Locales (APL)

1 INTRODUÇÃO

A Rota de Integração Latino-Americana (Rila) corresponde a um corredor de transporte rodoviário internacional em implementação cujo objetivo é conectar o Estado de Mato Grosso do Sul (MS) aos portos do norte do Chile (vide Asato et al., 2019). As vantagens competitivas e logísticas esperadas deste novo corredor de transportes deverão estar fortemente ligadas ao escoamento de produtos relacionados às grandes commodities, como grãos, carnes, celulose e minérios.

Nesse contexto, há um potencial de transformações socioeconômicas em debate. Por isso, esta pesquisa objetiva analisar as aglomerações produtivas, caracterizadas principalmente pelo conceito de Arranjos Produtivos Locais (APLs), de MS, destacando os efeitos esperados da Rila sobre o desenvolvimento dessas, em especial as potencialidades de spillovers para as pequenas e médias empresas. A hipótese da pesquisa é a de que os APLs, no tocante aos pequenos negócios que os compõem, podem ser beneficiados, desde que existam políticas econômicas adequadas, como apontam Governa e Salone (2004).

Para cumprir o objetivo da pesquisa, o artigo está estruturado em outras duas seções, além da presente introdução e das considerações finais. A segunda seção apresenta a metodologia empregada e a base de dados utilizada. Na terceira seção, realiza-se uma análise da especialização produtiva no MS, relacionando-a à Rila. Nessa seção, também são analisados os efeitos de spillovers esperados e o horizonte estratégico de políticas públicas de fomento ao desenvolvimento regional, sobretudo no tocante aos pequenos negócios do Estado de MS.

2 MATERIAIS E MÉTODOS

2.1 Análise da especialização produtiva

Dois elementos importantes para uma análise intrínseca de uma aglomeração produtiva são os índices de especialização e de concentração. De acordo com Basso, Silva Neto e Stoffel (2005), a caracterização da distribuição geográfica das atividades econômicas, quanto ao seu grau de especialização e de concentração, é uma etapa fundamental para a compreensão das dinâmicas presentes nos processos locais de desenvolvimento.

O QL compara duas estruturas setoriais. No numerador, tem-se a “economia” em estudo; no denominador, a “economia de referência”. A sua origem como indicador de localização e de especialização produtiva está em Isard (1960), sendo amplamente utilizado nos estudos de economia regional. Em síntese, trata-se de um indicador aplicado para determinar o grau de especialização na produção de uma região ou município em uma atividade específica, o qual pode ser representado conforme a equação (1).

(1) Q L i , j = E j i / E j E B R i / E B R

Na equação (1), tem-se que: Eji representa as eqqmpresas do setor i na região j; Ej são as empresas totais na região j; EBRi corresponde às empresas do setor i no Brasil e EBR às empresas totais no Brasil. Quando o QLi,j = 1, a especialização da região j na atividade i é idêntica à especialização da região de referência (no caso, o Brasil); se o QLi,j < 1, a especialização da região j na atividade i é inferior à especialização de todas as regiões nessa atividade e se o QLi,j > 1, a especialização da região j na atividade i é superior à especialização de todas as regiões nessa atividade.

A partir das características de aglomeração acima e por meio das técnicas espaciais, em conjunto com a Metodologia de Indicadores Compostos (OECD-JRC, 2008), modificou-se o QL de modo a incorporar a dimensão espacial na métrica. Como resultado, estruturou-se, então, um indicador espacialmente ponderado (QLs). A modificação feita neste indicador visa adaptar o índice, que passa a ser espacialmente ponderado (incluindo as articulações algébricas por meio da média ponderada dos valores da vizinhança, ou lags espaciais). A compreensão da organização das atividades, sua disposição no território e o reconhecimento de que podem ter significado econômico tornam possível a classificação de diferentes conceitos de região e território, bem como a diferenciação em relação ao conceito de espaço5. A versão espacialmente ponderada, o QLs, pode ser expressa conforme a equação (2).

(2) Q L s i , j = ( Q L i ) ψ ( Q L i )

Na equação (2), tem-se que o QLi,j está definido conforme a Equação (1) e ψ é uma matriz de pesos espaciais com elementos genéricos ψij e não nulos na diagonal principal. A matriz ψ é projetada para considerar as repercussões que se estendem fora do limite da área considerada. Pode ser construída de muitas maneiras diferentes, porém, para esta pesquisa, será considerada ψ = I + W, em que W é uma matriz de peso convencional, padronizada nas linhas e com diagonal principal nula, e I é uma matriz identidade de mesma ordem.

A escolha de qual matriz de pesos espaciais considerar é uma decisão importante nos estudos espaciais, pois, a partir dela, é possível gerar as defasagens espaciais e a média dos valores limítrofes, determinando quais valores terão, em média, seus vizinhos. Para a aplicação do índice espacialmente ponderado, QLs, foi utilizada a matriz de pesos espaciais contígua binária do tipo rainha (queen).

Essa escolha se orientou pelo fato de que esse tipo de matriz define os vizinhos de uma localidade, considerando sua conexão pela borda compartilhada ou pelo vértice. Como o objeto de análise é feito na escala municipal, acredita-se que esse formato matricial é o mais adequado, pois não apresenta distorções muito expressivas nos valores que compõem a matriz de pesos espaciais, como uma matriz de distância apresentaria. É válido reescrever o índice de especialização produtiva espacialmente ponderado (QLs), conforme a equação (3).

(3) Q L s i , j = Q L i , j + ( Q L i ) W ( Q L i )

Nota-se que o termo (QLi)W(QLi) corresponde à especialização produtiva desta economia, considerando apenas o efeito de vizinhança (presença dos vizinhos) na análise. Cabe ressaltar que, caso a relação de vizinhança entre as regiões seja desconsiderada, de modo que ψ = 1, ou ainda no caso de regiões sem vizinhos (e.g. ilhas), o valor do QLs será exatamente igual ao QL tradicional.

2.2 Análise exploratória de dados espaciais

A Análise Exploratória de Dados Espaciais (Aede) é um conjunto de técnicas utilizadas para descrever distribuições espaciais de variáveis, traçar padrões de correlação e apontar a ocorrência de clusters ou mesmo de outliers (Anselin, 1988).

O primeiro passo para a Aede, no presente trabalho, foi a construção de mapas coropléticos que permitiram a observação de padrões de associação no espaço, a partir dos dados dos QLs setoriais de cada município. No entanto, para efetivamente descobrir se os dados estavam distribuídos aleatoriamente ou se seguiram um padrão espacial sistemático, foi necessária a aplicação de testes estatísticos, sobretudo o Índice de Moran Global e Local. O primeiro revela uma tendência geral de formação de grupos ou clusters de dados, enquanto o segundo é o indicador mais recomendado para a identificação de padrões regionais ou locais, chamado de Local Indicator of Spatial Association (Lisa).

Quanto ao Índice de Moran Global, elaborado por Moran (1948), trata-se de um coeficiente de autocorrelação espacial, medido pela autocovariância, na forma de produto cruzado pela variância dos dados. Esta estatística tem por objetivo verificar se os dados estão distribuídos aleatoriamente no espaço. Portanto, a hipótese nula é de aleatoriedade espacial e a hipótese alternativa é de existência de autocorrelação espacial. Assim, ao rejeitar a hipótese nula, tem-se que os QLs dos municípios estão relacionados aos QLs de seus vizinhos.

Os padrões tipológicos AA revelam que municípios com QLs elevados em determinado setor tendem a estar rodeados por municípios que também apresentam QLs elevados. No caso de BB, os municípios com QLs baixos em determinado setor tendem a estar rodeados por municípios que também apresentam QLs baixos. Os padrões BA e AB seguem o mesmo modelo de análise, onde o primeiro diz que municípios com baixos QLs tendem a estar rodeados de municípios com elevados QLs e o segundo, o contrário.

2.3 Base de dados e Procedimentos metodológicos

Os dados utilizados na estimação do QLs nesta pesquisa são do Programa de Disseminação de Estatísticas do Trabalho (Pdet) do Ministério do Trabalho e Emprego, (MTE) referentes à Relação Anual das Informações Sociais (Rais) (vide MTE, 2022). Tais dados foram segmentados de acordo com a classificação desses dados, conforme as seções e divisões da Classificação Nacional de Atividades Econômicas (Cnae 2.0) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O ano de análise é 2020, sendo a periodicidade mais recente disponível na base de referência. As informações foram coletadas para a quantidade de número de estabelecimentos empregadores de acordo com as seções listadas anteriormente. A escala geográfica definida foi a municipal, e a informação coletada foi analisada para os 79 municípios de MS.

Primeiramente, foram coletados os dados do Cnae para o ano de 2020 na desagregação de 18 seções do Cnae 2.0. De posse dos dados de número de estabelecimentos, foram calculados os QLs dos municípios de MS, tendo como região de referência a estrutura do Brasil para cada setor. Feito isso, foram avaliados aqueles setores que eram mais significativos. A partir dessa visão analítica, foram selecionadas como principais seções significativas a agropecuária, a indústria de transformação, o comércio e a seção de gás e eletricidade.

Os procedimentos metodológicos da pesquisa seguiram as seguintes etapas:

  1. Cálculo do QL espacial e o Índice de Moran para todos os municípios do Estado de MS;

  2. Verificação das atividades econômicas, conforme suas seções (Cnae 2.0/IBGE), com a concentração da categoria “AA”;

  3. Seleção das atividades econômicas relevantes, conforme suas seções mais significativas em termos de participação relativa (market share) em nível estadual;

  4. Análise e seleção por porte das empresas e cálculo do QL por município e atividades econômicas;

  5. Análise da composição destas atividades, e suas seções, para cada município em relação ao porte das empresas e, por fim;

  6. Definição dos clusters mais especializados em suas respectivas atividades produtivas elencadas, classificados por porte e por oportunidades municipais em relação à Rila.

3 A RILA E AS AGLOMERAÇÕES PRODUTIVAS DE MS: POTENCIAIS SPILLOVERS

A operacionalização de corredores rodoviários internacionais, como o corredor bioceânico via o município de Porto Murtinho, fomentará a demanda por transporte no MS. Além disso, tornará o MS um importante entreposto comercial entre o Brasil e os países da América do Sul.

O trajeto da Rila pode ser considerado pela integração da capital de MS, Campo Grande, em direção oeste, passando pelos municípios de Nioaque, Guia Lopes da Laguna, Jardim e Porto Murtinho, todos localizados no Estado de Mato Grosso do Sul, e, após Porto Murtinho, o trajeto perpassa pelo Paraguai, pela Argentina e pelo Chile. A conexão a leste de Campo Grande seria em direção ao Porto de Santos, no Estado de São Paulo. Nesse caso, o trajeto passaria pelos municípios de Ribas do Rio Pardo. Água Clara e Três Lagoas. Ademais, uma alternativa de trajeto seria a integração pelo município de Bataguassu, passando por Nova Alvorada do Sul. O destaque da Rila e de seus trajetos é apresentado no Mapa 1.

Mapa 1
Municípios de MS afetados direta ou indiretamente pela implementação da Rila

Considerando os efeitos a partir da implementação da Rila, potenciais transbordamentos (spillovers) podem ser gerados nos municípios que serão afetados, seja direta ou indiretamente, pela Rila. A apresentação das aglomerações produtivas do Estado de MS e os efeitos esperados da Rila sobre essas são apresentados nas próximas subseções.

3.1 Especialização produtiva de MS e a Rila

Como as regiões alteram sua forma de produzir no decorrer do tempo, seus sistemas locais de produção e suas especializações regionais também tendem a se modificar. Dessa forma, o uso de indicadores de análise regional contribui para os processos de identificação de padrões locacionais de especialização. Como são medidas relativas, esses índices são diretamente influenciados pela escolha das regiões de referência e da variável base utilizada. Também auxiliam na análise da capacidade de gerar e atrair novas atividades econômicas, da melhora da qualidade de vida da população local e, consequentemente, da inferência positiva no processo de desenvolvimento regional (Capello, 2016).

No Mapa 2, é apresentado o resultado do Índice de especialização produtiva espacialmente ponderado da Agricultura, Pecuária, Produção Florestal, Pesca e Aquicultura para o Estado de Mato Grosso do Sul. De forma geral, nota-se que MS é muito especializado no setor agrícola, com poucos municípios identificados com QLs inferiores a 2 (localizados ao sul do Estado nas áreas mais claras do mapa).

Mapa 2
Índice de especialização produtiva espacialmente ponderado da Agricultura, Pecuária, Produção Florestal, Pesca e Aquicultura

A grande parte dos municípios são altamente especializados, com destaque para: Campo wGrande, Dourados, Maracaju, Paranaíba, Ribas do Rio Pardo, Sidrolândia, Três Lagoas, Água Clara, Amambai, Aparecida do Taboado, Aquidauana, Bandeirantes, Brasilândia, Camapuã, Cassilândia, Corumbá, Inocência, Itaporã, Jaraguari, Nova Alvorada do Sul, Ponta Porã, Rio Brilhante, Rio Verde de Mato Grosso, Santa Rita do Rio Pardo, São Gabriel do Oeste e Terenos.

Historicamente, a estrutura produtiva dos municípios do Estado de MS é baseada, principalmente, na agricultura e na pecuária, atuando com destaque na produção nacional de culturas como soja, milho e cana-de-açúcar e nas principais atividades da pecuária de corte para bovinos, suínos e aves, da pecuária leiteira e da produção de ovos. A bovinocultura de corte, por exemplo, representa 12,9% do PIB do complexo do agronegócio de MS, enquanto todo o complexo do agronegócio representa cerca de 37% do PIB do Estado.

A elevada especialização produtiva localizada a leste do Estado se caracteriza, essencialmente, por produtos da silvicultura. Mato Grosso do Sul é o Estado que mais exporta celulose no país e o terceiro em área de florestas plantadas, com cinco municípios entre os 10 no ranking dos maiores produtores (Três Lagoas, Ribas do Rio Pardo, Paranaíba, Água Clara e Brasilândia), além do melhor desempenho municipal em valor da produção do setor, em Três Lagoas (com destaque para a produção de celulose de fibra curta branqueada) (Semagro, 2020).

O município de Campo Grande, capital do estado, destacou-se nos resultados, atuando como uma espécie de força centrípeta, num processo de causação circular cumulativa (vide Myrdal, 1957), puxando o alto nível de especialização produtiva para si e para o seu entorno. Isso pode dar indícios de que, com a implementação da Rila, a capital tenderá também a concentrar externalidades que podem ser positivas para o desenvolvimento econômico.

A análise do Índice de Moran para os dados de MS nessa seção da Cnae/IBGE, apresentada no Mapa 3, demonstra que a região central do estado, expandindo-se para a mesorregião leste, apresenta padrões Alto-Alto, sintetizando os maiores indicadores de especialização da produção e municípios altamente concentrados.

É importante ressaltar que Campo Grande, Água Clara, Nova Alvorada do Sul, Ribas do Rio Pardo e Sidrolândia estão no trajeto da Rota Bioceânica, sobretudo quando se considera a saída do porto de Santos, no Atlântico, até o Pacífico, no norte do Chile. Além disso, esses municípios apresentaram autocorrelação local (Lisa) como Alto-Alto para a agricultura, pecuária, produção florestal, pesca e aquicultura, que estão no trajeto específico da Rota ou no entorno.

Mapa 3
Índice de Moran Local para a Agricultura, Pecuária, Produção Florestal, Pesca e Aquicultura

A concentração produtiva nestes setores que dependem do transporte rodoviário e a existência da Rila podem gerar externalidades de acesso ao comércio internacional para estes municípios e para os setores em que são concentrados. Dentre estas externalidades, a principal parece ser a redução do tempo de viagem das mercadorias para países já parceiros de comércio exterior (e.g. do Brasil para a China) e outros países do Mercosul. Essa facilitação pode acarretar o barateamento dos custos de transporte e o aumento da competitividade destes produtos (em grande parte, commodities) no mercado externo.

Analisando a indústria de transformação, pode-se apontar que existe uma especialização produtiva espacial desta nos municípios de Campo Grande, Dourados, Jaraguari, Sidrolândia, Douradina, Itaporã, Nova Alvorada do Sul, Ponta Porã, Ribas do Rio Pardo, Rochedo, Terenos e Três Lagoas, como evidenciado no Mapa 4. Nesse sentido, é possível observar que a maior especialização industrial ocorre no centro (influenciado por Campo Grande) e no leste do estado, onde alguns municípios têm suas atividades produtivas fortemente associadas à agropecuária, podendo ser caracterizados como municípios produtores de insumos e com disponibilidade de mão de obra.

Mapa 4
Índice de especialização produtiva espacialmente ponderado da Indústria de Transformação

Este tipo de indústria relacionada à agroindústria e aos recursos naturais possui uma tendência de localização das plantas produtivas, normalmente baseada na distância da matéria-prima e de seus recursos primários. Além disso, outra característica importante é que o setor precisa garantir um quantitativo mínimo de volume de insumos para operar a produção, e isso também é fator decisivo para a alocação da planta. Neste sentido, é possível referenciar os municípios de Três Lagoas, Ribas do Rio Pardo e Nova Alvorada do Sul, que apresentaram especialização acima da média para a produção de base florestal, madeira e móveis como atividades industriais de excelência, e que tem sua base de produção próxima à matéria-prima. Este complexo industrial vinculado à produção de celulose é recente, e entre os motivos de atração para Mato Grosso do Sul estavam considerados os elementos logísticos e os incentivos fiscais.

Outro destaque relativo à indústria de transformação são as atividades de confecção de artigos de vestuário, concentradas nos setores têxtil, de calçados e de couro nos municípios de [ Campo Grande, Dourados, Douradina e Três Lagoas. Estes segmentos normalmente utilizam o critério de alocação de suas plantas baseado na disponibilidade de mão de obra remunerada, com baixos rendimentos e pouco qualificada. Sendo assim, a busca por mão de obra pode ser um fator que pode gerar esta realocação, ou mesmo políticas de incentivos fiscais e subsídios que garantam competitividade em termos de preços a estas indústrias.

Em linha com essa verificação, no Mapa 4 é apresentado o Índice de Moran Local para a Indústria de Transformação. A análise deste indicador demonstra a expressividade na indústria de transformação em Campo Grande e no entorno. As análises desenvolvidas até aqui indicam que a região da capital do Estado tem potencial para se tornar um centro (hub) logístico, por conta de sua localização estratégica no Estado de MS e na América Latina.

Mapa 5
Índice de Moran Local para a Indústria de Transformação

No tocante à análise do terceiro setor selecionado nessa pesquisa, ligado ao setor comercial, procedeu-se à análise espacial do índice de especialização produtiva espacialmente ponderado do Comércio, Reparação de Veículos Automotores e Motocicletas, apresentado no Mapa 6. Nessa seção da Cnae/IBGE, os municípios com especialização categorizados como “alto” são: Campo Grande, Dourados, Jaraguari, Nova Alvorada do Sul, Rochedo, Sidrolândia, Terenos, Caarapó, Cassilândia, Chapadão do Sul, Corumbá, Coxim, Deodápolis, Douradina, Fátima do Sul, Itaporã, Ladário, Laguna Carapã, Maracaju, Naviraí, Nova Andradina, Paranaíba, Ponta Porã, Ribas do Rio Pardo, Rio Brilhante, Selvíria e Três Lagoas.

Mapa 6
Índice de especialização produtiva espacialmente ponderado do Comércio, Reparação de Veículos Automotores e Motocicletas

A análise do Índice de Moran Local para a seção de Comércio, Reparação de Veículos Automotores e Motocicletas, apresentada no Mapa 7, demonstra que os municípios enquadrados na categoria “Alto-Alto” para especialização foram Campo Grande, Douradina, Jaraguari, Nova Alvorada do Sul, Ribas do Rio Pardo, Rochedo, Sidrolândia e Terenos.

Mapa 7
Índice de Moran Local para o Comércio, Reparação de Veículos Automotores e Motocicletas

Portanto, Campo Grande aparece como destaque em todas as análises de especialização produtiva do Estado de Mato Grosso do Sul. Por um lado, é importante aproveitar esses ganhos de economias de aglomeração da capital do estado; por outro, são necessárias estratégias públicas de desenvolvimento e de planejamento territorial. Políticas devem contribuir para que o Estado de MS tenha o maior número possível de municípios se beneficiando da rota, de modo que os benefícios não se concentrem apenas naqueles municípios que já apresentam alta espacialidade.

Além disso, uma importante reflexão se refere a como estabelecer estratégias de atração de setores que possam complementar a malha produtiva já estabelecida especialmente. Nesse contexto, pode figurar como estratégia de diversificação e complementariedade produtiva o avanço em áreas como energias renováveis, produção de tecnologia para agronegócio e indústria e até maquilas ou montadoras de veículos de carga, bem como peças e acessórios para estes.

3.2 Potencialidades de desenvolvimento para os pequenos negócios

Considerando-se a especialização produtiva destaca anteriormente, notou-se que a maior parte das aglomerações produtivas em MS se encontram dentro das seções destacadas na análise do presente relatório: 1) Agricultura, Pecuária, Produção Florestal, Pesca e Aquicultura; 2) Indústrias de Transformação e; 3) Comércio, Reparação de Veículos Automotores e Motocicletas. É importante destacar a importância das pequenas e médias empresas no conjunto dessas atividades econômicas, destacando-se os principais resultados encontrados na análise dos dados para o Estado de MS.

Como pode ser verificado, os vínculos empregatícios se concentram, majoritariamente, em pequenas e médias empresas (PMEs) no Estado de MS. De modo geral, para todas as atividades econômicas, 59,75% dos vínculos empregatícios estão associados às PMEs com menos de 250 funcionários. Esse resultado, por si só, já é um indicativo da importância dos pequenos negócios para a estrutura produtiva do Estado. Ademais, cabe apontar que as PMEs totalizaram 99,60% das empresas de MS para o ano de 2020.

Situação semelhante se verifica para o setor de comércio. Nessa seção da Cnae, do total de 126.529 vínculos empregatícios em 2020, 38,22% (ou 48.359) foram gerados em microempresas. As pequenas e médias empresas (aquelas com menos de 250 funcionários), de modo geral, respondem por 97,86% dos vínculos empregatícios.

Quando se considera a indústria de transformação, o cenário é diferente. O montante de grandes empresas (aquelas com mais de 250 empregados) é relativamente mais expressivo do que no conjunto das atividades econômicas de MS. As grandes empresas correspondem a 2,32% do total de empresas na indústria de transformação do Estado (73 empresas de um total de 3.153).

Tabela 1
Grupos da CNAE com mais de 1% dos vínculos empregatícios de MS em 2020

No segmento agropecuário do Estado, enfatiza-se a expressividade do emprego associado à Pecuária (6,13%) e à Produção de Lavouras Temporárias (2,64%). Com relação à indústria de transformação, destaca-se o abate e Fabricação de Produtos de Carne (5,13%). No âmbito do comércio, as atividades classificadas em Comércio Varejista Não Especializado (4,07%) merecem destaque, com a ênfase de que o comércio varejista, de modo geral, apresenta destaque em termos de valor relativo de MS.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A Rila corresponde a um corredor de transporte rodoviário internacional em vias de implementação que interligará o Estado de Mato Grosso do Sul aos portos do norte do Chile. O presente trabalho teve como objetivo analisar as aglomerações produtivas de MS, destacando os efeitos esperados da Rila sobre o desenvolvimento dessas. Para tanto, foram mapeadas as aglomerações produtivas do Estado, desagregando-as em setores econômicos e tamanho dos empreendimentos.

Como principais resultados, destaca-se a centralidade da capital do Estado, Campo Grande, em todas as análises de especialização produtiva para MS. Isso destaca os possíveis ganhos de economia de aglomeração da capital, sendo importante que os planejadores públicos busquem explorar esses ganhos na fase de implementação da Rila.

Os municípios de Três Lagoas, Ribas do Rio Pardo, Água Clara e outros da região leste de MS também têm grande potencial de benefício com a Rila, sobretudo quando se consideram os setores produtivos relacionados à agropecuária, ao plantio florestal e à produção de celulose. Situação similar vale ser destacada para municípios como Guia Lopes da Laguna e Jardim, que podem se beneficiar com os efeitos de transbordamento, sobretudo para as indústrias frigoríficas e de beneficiamento de alimentos, setor de grande importância relativa para o Estado de MS. Porto Murtinho, na divisa com o Paraguai, pode também vir a ter vantagens locacionais expressivas na produção de alimentos e no processamento de carnes.

Por fim, destaca-se a relevância dos pequenos negócios para MS. Os vínculos empregatícios se concentram majoritariamente em PMEs no Estado (59,75%), e tais empresas totalizaram 99,60% das empresas no Estado para o ano de 2020. Assim, com o estabelecimento da Rila, espera-se que haja um encadeamento das atividades industriais, o que pode beneficiar os pequenos negócios.

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

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  • Editores Avaliadores do artigo:
    Arlinda Cantero Dorsa e Milton Mariani
  • Editora-chefe responsável pelo artigo:
    Arlinda Cantero Dorsa.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    Jan-Dec 2026

Histórico

  • Recebido
    22 Ago 2025
  • Aceito
    20 Jan 2026
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