Resumo
Este artigo apresenta uma leitura crítica da obra de Danilo Perestrello, pioneiro da medicina psicossomática no Brasil, a partir de 16 publicações entre 1941 e 1987. Por pesquisa documental e hermenêutica, identificam-se quatro fases conceituais: higienismo psicossocial, psicobiologia clínica, psicossomática tropical e medicina da pessoa. Cada etapa é contextualizada histórica, institucional e conceitualmente, mostrando articulações entre prática clínica, produção teórica e dinâmicas sociais. A análise dialoga com Dunbar, Alexander e Engel, além de estudos brasileiros de Guedes, Eksterman e Tenenbaum. Discute-se a recepção contemporânea da proposta perestrelliana em modelos de cuidado centrados na pessoa, saúde coletiva e determinantes sociais. Conclui-se que resgatar seu pensamento reforça uma clínica capaz de enfrentar os desafios da desumanização e fragmentação do cuidado.
Palavras-chave
Perestrello; Psicossomática; Escuta clínica; Formação em Saúde; História da Medicina
Abstract
This article presents a critical analysis of the work of Danilo Perestrello, a pioneer of psychosomatic medicine in Brazil. Drawing on 16 publications from 1941 to 1987, we conducted a documentary hermeneutic analysis, resulting in the identification of four conceptual phases: psychosocial hygienism; clinical psychobiology; tropical psychosomatics; and medicine of the person. Each phase is contextualized historically, institutionally, and conceptually, highlighting the intersections between clinical practice, theoretical research and social dynamics. The analysis dialogues with the work of Dunbar, Alexander and Engel, as well as Brazilian studies by Guedes, Eksterman and Tenenbaum. We discuss the contemporary reception of Perestrelloism within person-centered care models, public health and social determinant of health approaches. It is concluded that reviving his thinking reinforces clinical practice’s capacity to address the challenges of dehumanization and fragmentation of care.
Keywords
Perestrello; Psychosomatics; Clinical listening; Health education; History of medicine
Resumen
Este artículo presenta una lectura crítica de la obra de Danilo Perestrello, pionero de la medicina psicosomática en Brasil, a partir de 16 publicaciones entre 1941 y 1987. Por medio de una investigación documental y hermenéutica, se identifican cuatro fases conceptuales: el higienismo psicosocial, la psicobiología clínica, la psicosomática tropical y la medicina de la persona. Cada etapa se contextualiza en términos históricos, institucionales y conceptuales, mostrando articulaciones entre la práctica clínica, la producción teórica y las dinámicas sociales. El análisis dialoga con Dunbar, Alexander y Engel, además de los estudios brasileños de Guedes, Eksterman y Tenenbaum. Se discute la recepción contemporánea de la propuesta perestrelliana en modelos de cuidado centrados en la persona, en la salud colectiva y en los determinantes sociales. Se concluye que rescatar su pensamiento refuerza una clínica capaz de enfrentar los desafíos de la deshumanización y fragmentación del cuidado.
Palabras clave
Perestrello; Psicosomática; Escucha clínica; Formación en salud; Historia de la medicina
Introdução
A partir dos anos 1940, a psicossomática se consolidou internacionalmente por meio de vozes como Helen Dunbar e Franz Alexander1,2, que romperam com o dualismo mente-corpo, propondo a integração entre fatores psicodinâmicos e processos orgânicos. Essa tradição emergiu no bojo de importantes rupturas epistemológicas da Medicina, como deslocamento do paradigma organicista para perspectivas funcionalistas; substituição da causalidade linear por modelos multicausais, que reconhecem a complexidade do sofrimento; e a crescente valorização da subjetividade como dimensão clínica legítima.
Ainda assim, essas inovações, forjadas em centros acadêmicos da Europa e dos Estados Unidos, mantiveram limitações epistemológicas e culturais, muitas vezes negligenciando contextos históricos, socioculturais e institucionais periféricos. No Brasil, essa recepção seguiu um percurso singular, atravessado por condições históricas, institucionais e culturais específicas. Assim, houve uma transição do higienismo autoritário vigente no Estado Novo para modelos mais humanistas de atenção à saúde, especialmente na segunda metade do século XX, acompanhada por uma busca por formas contextualizadas de escutar o sofrimento humano.
Danilo José Pereira Perestrello (1916-1989) surge nesse contexto como protagonista. Sua atuação clínico-institucional revela uma tentativa consistente de forjar uma medicina que articulasse técnica, subjetividade e ética. Formado em 1940 pela Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil, Perestrello teve uma trajetória multifacetada: atuou como oficial da Marinha e professor de Psicologia Médica; e é autor de manuais didáticos e idealizador de espaços institucionais pioneiros. Essas experiências entrelaçadas contribuíram decisivamente para o amadurecimento de uma concepção ampliada de saúde e sofrimento, enraizada em uma compreensão simbólica e relacional da clínica.
Do ponto de vista institucional, a fundação do Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro (CMP), em 1958, e a criação da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática (ABMP), em 1965, consolidaram um espaço de experimentação clínica e pedagógica. Nesses ambientes, Perestrello propiciou a articulação de saberes diversos, promovendo uma prática que integrava Medicina e Psicanálise. Cabe destacar, ainda, sua atuação na difusão da Psicanálise no Brasil e sua participação ativa na fundação da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro (SBPRJ), em 1959.
Tais instituições não apenas consolidaram sua prática, mas também permitiram a difusão de uma abordagem inovadora que incorporava os desafios locais e regionais da formação em Saúde, especialmente no que se refere à escuta das subjetividades.
Paralelamente às formulações iniciais de George Engel3 sobre o modelo biopsicossocial, Perestrello desenvolvia, no Brasil, uma proposta clínica igualmente comprometida com a integração entre história de vida, vínculo terapêutico e determinantes psicossociais do sofrimento. Ainda que suas abordagens tenham emergido de contextos distintos, observa-se uma importante convergência parcial entre seus fundamentos epistemológicos e ético-clínicos. Em suas palavras, tratar um paciente significava escutar não apenas seus sintomas, mas também suas hesitações, silêncios, histórias fragmentadas e condições de vida. Seus textos, publicados entre 1941 e 1987, revelam uma trajetória de progressivo aprofundamento conceitual e de engajamento com uma medicina atenta às determinações psicossociais do sofrimento e às possibilidades éticas da relação clínica.
Este artigo busca resgatar e reinterpretar criticamente essa trajetória. Para tanto, identifica quatro fases conceituais da obra de Perestrello: (a) higienismo psicossocial e medicalização do cotidiano; (b) psicobiologia clínica e crítica ao dualismo médico; (c) psicossomática tropical e clínica interdisciplinar; e (d) medicina da pessoa como ética da escuta. Por meio de uma investigação documental e hermenêutica, pretende-se compreender como suas propostas dialogam com correntes internacionais, preservam pertinência clínica e permanecem relevantes para os desafios contemporâneos de uma medicina centrada na pessoa e sensível aos determinantes sociais do adoecimento4.
Caminhos metodológicos
Este artigo adota a forma de um ensaio crítico de natureza qualitativa, ancorado em abordagem documental e interpretação hermenêutica. Inspirado nas tradições de Wilhelm Dilthey5, o percurso metodológico aqui desenvolvido considera a obra de Danilo Perestrello como um discurso clínico-filosófico que entrelaça experiência clínica, fundamentos existenciais e formulações conceituais. A hermenêutica adotada, portanto, não visa apenas interpretar o conteúdo literal dos textos, mas também reinscrevê-los em seus horizontes de sentido, entendendo cada produção como resposta a uma configuração histórica e institucional específica.
O procedimento analítico se estrutura em três níveis complementares. O primeiro é o da análise documental sistemática, que compreende a apresentação das 16 obras(b) publicadas por Perestrello entre 1941 e 1987. Cada documento foi contextualizado a partir de dados sobre sua data, local de publicação, objetivo declarado, público-alvo e inserção institucional.
O segundo nível é a análise temática indutiva, conforme proposto por Braun e Clarke7, aplicada às obras primárias. As unidades de sentido foram extraídas e agrupadas em torno de categorias emergentes, como “concepção de subjetividade”, “prática interdisciplinar”, “função pedagógica do médico”, “relação entre cultura e sofrimento” e “crítica à tecnificação do cuidado”. Essa etapa permitiu identificar regularidades conceituais e deslocamentos ao longo do tempo.
O terceiro nível foi a interpretação hermenêutica propriamente dita. Aqui, os textos de Perestrello foram lidos como expressões de uma medicina narrativa, que busca simbolizar a experiência vivida do sofrimento em chave ético-poética. Compreender sua obra exige, portanto, não apenas reconstruir o percurso teórico, mas também escutar o que ela propõe como possibilidade. A abordagem hermenêutica adotada oferece um caminho rico para compreender o sentido e a historicidade do pensamento psicossomático. No entanto, essa metodologia apresenta desafios epistemológicos e metodológicos que merecem atenção crítica.
Primeiramente, a hermenêutica privilegia a compreensão do sentido subjetivo e histórico dos textos, focando a dimensão qualitativa e interpretativa da experiência clínica. Tal enfoque permite reconstruir as intenções, contextos e significados subjacentes à produção teórica de Perestrello. Contudo, essa ênfase pode gerar um viés hermenêutico, no qual o pesquisador corre o risco de se prender à coerência interna do discurso, reduzindo a possibilidade de questionar pressupostos e limitações epistemológicas implícitas.
Além disso, o método hermenêutico exige um trabalho rigoroso de historicização e contextualização para evitar leituras anacrônicas. No caso específico da obra de Perestrello, o desafio está em situar suas proposições no marco epistemológico do Brasil do século XX, sem projetar sobre elas categorias contemporâneas que podem distorcer a compreensão original. Isso implica a necessidade de constante reflexão crítica sobre o papel do pesquisador na construção do sentido e mediação entre passado e presente.
Por fim, a hermenêutica demanda do pesquisador uma postura dialógica e reflexiva, que reconheça sua própria historicidade e pressupostos, evitando leituras impositivas ou reducionistas. Tal postura epistemológica impõe rigor metodológico e autocrítica constantes para que o trabalho transcenda meras leituras descritivas e contribua para a crítica e a inovação teórica.
Para dar suporte a essa leitura, foram mobilizadas fontes secundárias substantivas: estudos históricos sobre a medicina psicossomática, a formação médica e a institucionalização da Psicanálise no Brasil, com destaque para os trabalhos de Eksterman8, Tenenbaum9 e Guedes et al.10. Essas fontes ajudaram a compreender como Perestrello produzia uma prática clínica que respondia a condições concretas da medicina brasileira, mas também tensionava os paradigmas biomédicos dominantes.
Adicionalmente, foram levantadas evidências sobre a recepção e a circulação dos escritos de Perestrello nas décadas posteriores à sua publicação original. Constatou-se, por exemplo, que diversas obras do autor passaram por reedições em diferentes momentos, sendo “A medicina da pessoa” relançada em pelo menos quatro edições entre 1974 e 1996, e que algumas de suas publicações chegaram a ser traduzidas para outros idiomas. Seus textos também foram incorporados a currículos de formação médica e constam em importantes acervos institucionais, além de serem frequentemente citados por outros autores, o que indica o reconhecimento acadêmico e institucional da relevância de seu legado.
A interrogação norteadora que guiou todo o trabalho foi: como a obra de Danilo Perestrello contribui para uma epistemologia clínica enraizada na escuta, na relação e na singularidade do cuidado? A resposta se configurou na forma de quatro eixos cronológico-conceituais, que estruturam a análise apresentada nas seções seguintes.
Obras de Danilo Perestrello (1941-1987): contexto, público-alvo, conceitos, implicações práticas e recepção
Sentidos de uma trajetória: fases conceituais de Danilo Perestrello
Entre as décadas de 1930 e 1950, a medicina brasileira foi fortemente atravessada pela racionalidade higienista, entendida não apenas como política sanitária, mas também como um projeto médico-pedagógico voltado à normalização dos corpos e das condutas. O higienismo articulava prevenção, educação moral e intervenção médica sobre a vida cotidiana, atribuindo ao médico um papel central na regulação da família, infância e comportamento social.
No campo da saúde mental, essa racionalidade se expressou por meio da higiene mental, ênfase na adaptação social e prevenção dos chamados “desajustamentos”, frequentemente compreendidos como falhas de integração do indivíduo às normas sociais vigentes11. Mesmo após o declínio do Estado Novo, esse modelo permaneceu influente na formação médica e nas instituições hospitalares, mantendo uma lógica normativa que articulava Medicina, Educação e moralidade12.
É nesse horizonte histórico-institucional que se inscrevem os primeiros textos de Danilo Perestrello. Sua produção inicial dialoga diretamente com a medicina higienista ao mobilizar categorias como prevenção, educação e normalização do comportamento, ao mesmo tempo que introduz inflexões psicológicas que tensionam esse modelo. A compreensão desse contexto é condição para evitar leituras anacrônicas de sua obra e para situar adequadamente os deslocamentos progressivos que marcarão sua trajetória intelectual.
Higienismo psicossocial e medicalização do cotidiano (1941-1946)
A análise desta fase baseia-se principalmente na tese de doutoramento de Perestrello – “A psiquiatria atual como psicobiologia” (1946) –, bem como em artigos publicados no início da década de 1940, voltados à psicologia infantil, à higiene mental e à educação do comportamento. Esses textos foram produzidos no contexto da consolidação da medicina social e higiene mental no Brasil; e respondem diretamente ao problema da prevenção dos desvios individuais e sociais por meio da intervenção médico-pedagógica.
Nessa fase, Perestrello atua sob forte influência do higienismo de matriz europeia e da medicina social brasileira em seu momento de transição entre herança sanitarista e emergente preocupação com os fatores psicossociais. Neste período, suas publicações enfatizam a relação entre educação, moralidade e saúde mental, propondo uma forma de intervenção preventiva que se dirige ao corpo social como um todo, sobretudo no âmbito da juventude e das relações familiares.
Sua tese de doutoramento em Medicina, defendida em 1946, revela essa perspectiva: nela, Perestrello aborda a “psicologia do comportamento infantil” a partir de referencial normativo que busca modelar condutas consideradas saudáveis por meio de práticas educativas e higiênicas. O autor, inclusive, sugere que a higiene mental previne as doenças mentais, o crime e os vários desajustamentos da personalidade ao meio social13. Ainda que marcada por um certo psicologismo normativo, essa fase manifesta uma preocupação incipiente com os aspectos intersubjetivos da formação psíquica, antecipando os deslocamentos que viriam a seguir.
Nessa etapa, observa-se também a influência de autores como Alfred Adler, Kurt Lewin e outros frequentemente mobilizados para fundamentar sua defesa de uma abordagem educativa da infância. A Medicina aparece, então, como uma instância disciplinadora do corpo social, mas também como um campo de escuta e orientação. Perestrello se insere nesse período na tradição do médico-pedagogo, cuja autoridade se estende para além do consultório, alcançando a escola e a família.
Esse modelo, entretanto, não se configura uma simples reprodução do paradigma biomédico autoritário, mas sim uma tentativa de articulação entre a medicina preventiva e uma incipiente sensibilização às dimensões emocionais e simbólicas da vida em sociedade. Ao defender a medicalização do cotidiano, Perestrello não o faz a partir de uma racionalidade tecnocrática, mas sim com a convicção de que o bem-estar psicossocial depende de uma educação afetiva e de uma cultura da prevenção.
Revela-se, assim, um Perestrello ainda inserido no discurso normativo da medicina social do Estado Novo, mas já tensionando suas fronteiras por meio da introdução de elementos psicodinâmicos. Trata-se de um momento que coloca em pauta a relação entre sofrimento, cultura e educação. Essa leitura é corroborada por Guedes et al.10, que identificam em Perestrello uma tentativa precoce de integrar a Medicina e as Ciências Humanas, mesmo em seus escritos mais normativos. Eksterman8, por sua vez, destaca o caráter transitivo dessa etapa, chamando atenção para o modo como o autor busca um novo lugar para a Medicina em uma sociedade em transformação, especialmente no período pós-guerra.
A fase higienista, portanto, deve ser compreendida como um momento inaugural e ambíguo, em que se esboçam tanto os limites quanto as potências de um pensamento clínico ainda em gestação. Ao insistir na prevenção e na educação afetiva, Perestrello abre caminho para a futura valorização da singularidade subjetiva, que marcará suas fases posteriores com maior densidade conceitual e complexidade epistemológica.
Psicobiologia clínica e crítica ao dualismo médico (1946-1958)
Esta subseção se apoia em textos produzidos entre o final da década de 1940 e os anos 1950. Esses escritos emergem de uma prática clínica-hospitalar na qual Perestrello se confronta com os limites do organicismo e da Psiquiatria clássica. O problema central que orienta essa produção é a insuficiência, nos modelos biomédicos, na compreensão de quadros funcionais e manifestações somáticas sem lesão orgânica identificável, levando o autor a propor que o sofrimento seja entendido como expressão integrada de processos biológicos e afetivos14.
Entre 1951 e 1963, Perestrello inaugura uma nova fase em sua trajetória intelectual e clínica, marcada pela incorporação crítica da psicossomática europeia e norte-americana e pela recusa do modelo cartesiano de separação entre mente e corpo. Neste momento, o autor se aproxima das formulações de Franz Alexander2, Helen Flanders Dunbar1 e, posteriormente, George Engel3, promovendo uma inflexão epistemológica em sua produção: o sofrimento passa então a ser compreendido como expressão somática de conflitos psíquicos não simbolizados, e o corpo, como cenário e linguagem da subjetividade.
A noção de “psicobiologia clínica”, cunhada por Perestrello13 nesse período, representa uma tentativa original de integrar fisiologia, afetividade e experiência subjetiva em um modelo médico que reconhece a complexidade determinante do adoecimento. Ele recusa tanto o organicismo reducionista quanto o psicologismo abstrato, propondo um campo de investigação que considere simultaneamente os processos biológicos e as vivências simbólicas.
Do ponto de vista institucional, essa fase coincide com a atuação de Perestrello no CMP e com a fundação da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática (ABMP) em 1961, da qual foi cofundador e presidente. Esses espaços funcionaram como laboratórios, com a sistematização de programas de formação, supervisão e pesquisa. Os textos desse período já refletem uma clínica centrada na construção compartilhada de sentido entre médico e paciente.
Em termos teóricos, Perestrello passa a utilizar a noção de “personalidade somatoforme” para descrever configurações clínicas em que a expressão corporal do sofrimento psíquico não se organiza segundo os padrões tradicionais das neuroses ou das psicoses. Trata-se de uma categoria diagnóstica e compreensiva que antecipa discussões contemporâneas; e que mobiliza uma concepção ampliada de corpo como interface entre mundo interno e meio sociocultural.
A crítica ao dualismo cartesiano é feita de forma sistemática, com base em referenciais filosóficos e antropológicos. Perestrello aproxima-se do pensamento de Merleau-Ponty15, especialmente de sua fenomenologia da percepção, ao defender que o corpo não é mero suporte de funções, mas sim modo de estar-no-mundo. Essa perspectiva é aprofundada com influências da medicina existencial alemã (Binswanger, von Weizsäcker), a partir da qual Perestrello propõe uma revalorização da narrativa como forma de acesso à verdade do sofrimento. Essa fase também marca o abandono progressivo da linguagem higienista, substituída por um vocabulário clínico mais atento à singularidade dos pacientes. Desse modo, a escuta clínica passa a ser descrita como operação interpretativa e dialógica.
Nesse sentido, Perestrello se antecipa em décadas a modelos como o da medicina centrada na pessoa16 e da medicina narrativa17 ao sustentar que compreender o paciente exige escutar sua história, seus afetos e seus vínculos. O sintoma deixa, portanto, de ser mero defeito fisiológico e passa a ser signo, linguagem e forma de apelo. Essa inflexão psicobiológica representa, assim, um ponto de virada no itinerário perestrelliano, consolidando uma epistemologia clínica que recusa a cisão mente-corpo e reivindica uma medicina comprometida com a totalidade da experiência humana.
Psicossomática tropical e construção da clínica interdisciplinar (1958-1974)
A leitura desta fase concentra-se sobretudo na obra “Medicina Psicossomática”, de 1958, e em textos produzidos no contexto da fundação do Centro de Medicina Psicossomática da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro. Esses escritos respondem a um problema clínico-institucional específico: a necessidade de estruturar práticas de cuidado e formação capazes de integrar diferentes saberes diante de uma realidade social marcada por desigualdade, precariedade e sofrimento não redutível a categorias biomédicas tradicionais. Ao defender uma clínica baseada na relação, Perestrello afirma que o adoecimento deve ser compreendido à luz da história de vida e das condições concretas de existência do paciente14, antecipando discussões que mais tarde seriam centrais na saúde coletiva e na medicina social latino-americana18.
Danilo Perestrello desenvolve uma abordagem singular da psicossomática, marcada pela articulação entre saberes médicos, psicanalíticos, sociais e culturais. A expressão “psicossomática tropical”, utilizada aqui como chave interpretativa contemporânea, não foi cunhada por ele, nem aparece sistematizada em seus escritos. No entanto, ela permite nomear, de modo analítico, uma inflexão singular em sua trajetória: a articulação entre sofrimento psíquico e contextos socioculturais marcados por desigualdade, modernização acelerada e tensões entre saberes biomédicos e tradições locais.
A aplicação dessa expressão, portanto, busca destacar o esforço de Perestrello em desenvolver uma clínica interdisciplinar e sensível aos desafios históricos e materiais do Brasil do século XX. Perestrello propõe, em seus textos e práticas pedagógicas, uma medicina que se reconhece como incompleta e que se abre ao diálogo com outros campos de saber. A clínica do Centro de Medicina Psicossomática, fundado em 1958, torna-se um polo de experimentação institucional dessa proposta.
Em “Medicina Psicossomática”18, Perestrello sistematiza essa abordagem a partir de estudos de caso, reflexões teóricas e uma série de proposições para a formação médica. Ele defende uma clínica centrada na relação e que considera os aspectos socioculturais como dimensão estruturante do adoecimento. Essa concepção dialoga com as formulações de Georges Canguilhem sobre a normatividade biológica19.
A psicossomática tropical se configura, assim, como resposta a uma realidade marcada por desigualdade, urbanização desordenada e tensões entre modernização tecnocientífica e tradições populares de cuidado. Perestrello não propõe uma adaptação passiva da psicossomática clássica à realidade brasileira, mas sim sua reinterpretação criativa, com foco na escuta ampliada e na reflexão ética sobre o papel do médico frente à dor do outro. Sua proposta antecipa elementos que viriam a ser centrais na medicina de família, na saúde coletiva e nas abordagens de cuidado integral, como as Práticas Ampliadas de Saúde.
Institucionalmente, essa fase também é marcada pela consolidação de Perestrello como figura de referência na difusão da Psicanálise no Brasil. Ele participa ativamente da fundação da SBPRJ em 1959 e colabora com a formação de diversos profissionais da área da Saúde, contribuindo para a inserção da escuta analítica na prática médica.
Essa fase culmina com a crescente inserção da psicossomática perestrelliana nos currículos de formação médica e nas residências multiprofissionais, tornando-se uma das primeiras propostas brasileiras a articular, de forma estruturada, clínica, ética e educação em saúde. Sua visão de clínica interdisciplinar, situada e responsiva à realidade brasileira, ainda hoje inspira experiências institucionais voltadas à integralidade do cuidado20,21. Assim, a psicossomática tropical representa não apenas um marco conceitual na trajetória de Perestrello, mas também um gesto de insubmissão epistemológica frente à hegemonia biomédica, propondo uma medicina mais enraizada, sensível e humanizada.
Medicina da pessoa e ética da escuta (1974-1987)
Esta subseção toma como referência central o livro “A medicina da pessoa”, de 1974, e textos tardios dedicados à formação médica e à crítica da tecnificação do cuidado. Produzidos em um contexto de crescente especialização e fragmentação da prática médica, esses escritos respondem ao problema da desumanização do encontro clínico. Perestrello sustenta explicitamente que não existem doenças psicossomáticas, mas sim pessoas que adoecem16, deslocando o foco da patologia para o sujeito e formulando a escuta como princípio ético da clínica. Essa posição dialoga com críticas contemporâneas à medicalização excessiva22 e com abordagens hermenêuticas da experiência do adoecer23. Essa abordagem reflete uma inflexão ético-filosófica em sua obra, cujas ideias sobre compreensão, narratividade e relação terapêutica moldaram uma nova epistemologia clínica.
A medicina da pessoa proposta por Perestrello não é uma técnica ou protocolo, mas sim uma ética da relação. O autor postula que não se deve falar em “doenças psicossomáticas”, pois estas dependem substancialmente do ser humano e é o próprio ser humano quem as faz16. Seu cerne está na escuta singularizada do paciente, que não é reduzido a um organismo disfuncional, mas reconhecido como sujeito. A entrevista clínica torna-se, nesse modelo, espaço de interação interpretativa, no qual o médico se posiciona como coautor na elaboração dos sentidos do sofrimento. Essa perspectiva encontra eco na hermenêutica da escuta de Ricoeur23, segundo a qual compreender é também ser afetado pelo outro.
Perestrello reafirma, nesse período, a centralidade da dimensão narrativa do adoecimento. Para ele, o sintoma não é apenas um dado clínico objetivo, mas sim um signo existencial que remete a rupturas na continuidade da experiência. A tarefa do médico, portanto, é escutar e traduzir esse signo, reconstituindo com o paciente a inteligibilidade de sua trajetória.
Essa abordagem se traduz em práticas formativas e institucionais. Nos anos 1980, Perestrello participa da reestruturação de currículos de Medicina que buscam integrar humanidades, ética e práticas reflexivas. Seus seminários e oficinas no Centro de Medicina Psicossomática enfatizam o papel do “médico como sujeito”, resgatando a ideia de vocação e responsabilização existencial no cuidado. Tal proposta alinha-se às discussões de Ivan Illich22 sobre os limites da medicalização e de Donald Winnicott20 sobre o setting como espaço potencial de cuidado. Do ponto de vista institucional, essa fase coincide com a ampliação das redes de formação multiprofissional e com a interlocução crescente entre Medicina e Psicanálise.
A medicina da pessoa também representa uma tomada de posição frente à tecnificação crescente da Medicina. Ao contrapor o modelo centrado no “defeito-orgão”3 à perspectiva centrada no sujeito, Perestrello antecipa debates contemporâneos sobre segurança do paciente, escuta ativa e formação humanizada. Sua proposta não ignora a ciência, mas a reinscreve em um horizonte ético: a Medicina, para ele, é um ofício relacional, cuja eficácia depende da capacidade de escuta sutil e reconhecimento do outro.
Nesse sentido, a medicina da pessoa não é apenas um ideal humanista, mas também uma prática concreta e fundada na capacidade de reconhecer a angústia do paciente. Ao final de sua vida, Perestrello não propunha respostas prontas, mas sim uma indagação baseada na compreensão mútua. A proposta da medicina da pessoa, tal como desenvolvida por Perestrello16, constitui um marco conceitual relevante no campo das práticas clínicas centradas na subjetividade. Seu legado permanece como referência possível para uma clínica relacional crítica, especialmente em contextos marcados pela fragmentação do cuidado.
Discussão: clínica como escuta e formação no cuidado
A obra de Danilo Perestrello oferece mais que uma arquitetura conceitual: instaura uma postura clínica e formativa que coloca a escuta clínica no centro da relação terapêutica. Em tempos de crescente fragmentação do cuidado, de protocolos rígidos e de invisibilidade do sofrimento psíquico nas instituições, sua proposta ressoa como convite à re-humanização. A seguir, são aprofundados quatro aspectos centrais de sua contribuição.
Escutar o que não cabe no prontuário
Perestrello acreditava que o que não cabe no prontuário muitas vezes é o que mais importa na clínica6. Essa afirmação destaca que anotações padronizadas não capturam hesitações, silêncios, metáforas ou formas de falar que apontam para sofrimento psíquico não codificado. Em foco, está a escuta ampliada – não meramente a coleta de queixas, mas também a recepção de discursos fragmentados, signos gestuais e lacunas narrativas que revelam angústias profundas.
A medicina narrativa, tal como formulada por Charon17, defende que histórias de doença oferecem pistas terapêuticas e fortalecem a aliança médico-paciente. Perestrello compartilhava desse entendimento décadas antes, ao considerar que cada metáfora corporal (como “ferida na alma”) carrega significados terapêuticos que escapam ao exame físico. Estudos sobre comunicação em saúde demonstram que consultas centradas no paciente, pautadas na empatia e no silêncio acolhedor, resultam em maior adesão ao tratamento e melhor satisfação24. Além disso, dispositivos de acolhimento institucional – como rodas de conversa e escutas qualificadas no Sistema Único de Saúde (SUS) – ecoam a proposta de Perestrello de criar espaços formais para acolher “o que não cabe no prontuário”25. Sua clínica, portanto, não se satisfaz com algoritmos: exige presença e sensibilidade.
Formação médica e transversalidade do cuidado
Perestrello estruturou no CMP um currículo prático em que médicos, psicólogos, enfermeiros e assistentes sociais atuavam integrados, formando profissionais capazes de escutar de forma interprofissional26. Essa proposta antecipou o movimento de educação interprofissional e dialoga diretamente com o quadrilátero de Ceccim e Feuerwerker26, que defende a articulação entre ensino, gestão, atenção e controle social.
Foi Perestrello quem, desde os anos 1960, incorporou disciplinas de psicologia e humanidades na formação médica. Ele argumentava que a especialização não deveria resultar em cegueira às histórias dos pacientes, mas sim em abertura para perspectivas múltiplas. Sua visão não se limitava a incluir a psicologia na medicina, mas a fazer da clínica um espaço pedagógico vivo, em que o próprio profissional aprende continuamente com cada encontro. Tal postura formativa ecoa práticas de supervisão reflexiva e grupos Balint, que enfatizam a aprendizagem pelo compartilhamento de casos e dilemas éticos.
Subjetividade, território e desigualdade
A noção de “psicossomática tropical”, aqui utilizada como categoria interpretativa contemporânea, permite descrever a clínica proposta por Perestrello como sensível às condições socioeconômicas e culturais do Brasil. Ao reconhecer que os corpos adoecem a partir de territórios marcados por desigualdade, ele antecipou reflexões sobre determinantes sociais da saúde4. Sua clínica mapeava relações entre precariedade habitacional, fome, violência e manifestações psicossomáticas.
A inclusão do simbólico como dimensão constitutiva da saúde faz ponte com a antropologia médica de Kleinman27, que vê a doença como texto cultural. Esse enfoque dialógico aproxima-se das práticas de humanização no SUS, como a Rede Cegonha, que articula cuidado clínico e apoio comunitário para gestantes em contexto de vulnerabilidade. Ao deslocar o olhar do indivíduo isolado para o sujeito situado em territórios socioculturais, Perestrello desenha uma clínica que exige escuta singular: cada corpo e cada história demandam abordagens adaptadas às condições locais, culturais e afetivas.
O cuidado como experiência ética compartilhada
Para Perestrello, cuidar era coexperienciar o sofrimento do outro. Assim, ele remetia ao conceito de “presença curativa” de Remen21 e ao cuidado como “gesto ético-estético” descrito por Ayres18. Essa postura exige que o profissional esteja disponível não apenas tecnicamente, mas também existencialmente, reconhecendo a alteridade e finitude humanas. Literatura sobre clínica ampliada20 ressalta que o cuidado é relação e coautoria de sentidos.
Em suma, sua proposta de cuidado ético compartilhado altera a lógica reducionista e eleva a clínica ao campo da experiência estética e moral, na qual a vulnerabilidade torna-se ponte para o encontro humano. A escuta, nesse cenário, não é técnica adicional, mas sim o coração de uma relação que pode restaurar sentidos, mesmo em contextos nos quais a cura biológica se mostra limitada.
Considerações finais
Danilo Perestrello redefine o ato médico ao deslocar o foco das doenças para as pessoas que as experienciam. Sua obra não se limita ao pioneirismo histórico da psicossomática, mas inaugura um itinerário clínico em que a escuta se constitui como gesto fundante: escuta do corpo que fala em sintomas, da narrativa interrompida que busca sentido e da sala de consulta como espaço de encontro ético. Em um cenário contemporâneo dominado por algoritmos, rotinas aceleradas e fragmentação das equipes, revisitar sua obra equivale a um exercício de resistência profissional, que reafirma o valor da relação humana sobre o expediente técnico3.
Ao formular a “medicina da pessoa”, Perestrello16 sublinha que o cuidado extrapola a aplicação de protocolos: exige presença, reconhecimento da singularidade e sensibilidade interpretativa. Sua crítica ao modelo biomédico radical não se opõe ao avanço científico, mas o humaniza, ao lembrar que toda intervenção repousa no desejo mútuo de compreender e transformar o sofrimento.
Resgatar a psicossomática tropical de Perestrello é também promover uma clínica situada e capaz de articular determinantes sociais, repertórios culturais e dimensões subjetivas em um projeto formativo voltado à alteridade4. Suas propostas mantêm-se atuais, oferecendo arcabouço conceitual para currículos interprofissionais, práticas narrativas e políticas de saúde centradas na pessoa.
Nos últimos anos, a crítica aos limites do paradigma biomédico e a defesa de abordagens narrativas e situadas do sofrimento vêm ganhando força em diferentes tradições clínicas e filosóficas. Autores como Havi Carel24, Arthur Frank25, Trisha Greenhalgh28 e Brian Hurwitz29 têm destacado a importância da escuta narrativa, da experiência vivida da doença e da responsabilidade relacional no cuidado contemporâneo. Nesse cenário, o pensamento de Perestrello se mostra precursor e potencial interlocutor de um campo internacional que busca reintegrar ética, linguagem e subjetividade à prática médica. Sua psicossomática, forjada em diálogo com as contradições do Brasil do século XX, pode contribuir com perspectivas críticas para uma medicina centrada na pessoa, culturalmente sensível e comprometida com a alteridade.
Em um contexto em que a escuta clínica segue frequentemente comprometida por dinâmicas institucionais de silenciamento, revisitar contribuições como as de Perestrello pode abrir caminhos para práticas mais responsivas e eticamente implicadas. Seus escritos, embora datados, lançam luz sobre dilemas persistentes no cuidado à pessoa adoecida. Seguir seus ensinamentos é reafirmar a dignidade do paciente como coautor do cuidado e reencontrar, na escuta, o coração da Medicina.
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Salgado GA. Perestrello e a medicina da pessoa: itinerário crítico de uma psicossomática tropical. Interface (Botucatu). 2026; 30: e250477 https://doi.org/10.1590/interface.250477
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Editor
Erotildes Maria Leal https://orcid.org/0000-0002-8468-4571
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Deivisson Santos https://orcid.org/0000-0002-1198-1890
