Resumo
O estudo analisou a percepção de profissionais da Atenção Primária à Saúde e da saúde mental sobre os riscos do uso de medicamentos no cuidado de pessoas com depressão. Trata-se de pesquisa qualitativa e exploratória, realizada em município da região metropolitana de Porto Alegre, RS, Brasil, com profissionais de uma Unidade Básica de Saúde, equipes da Estratégia Saúde da Família e da Equipe de Apoio em Saúde Mental. Os dados foram produzidos por meio de grupos focais e submetidos à análise temática. Emergiram três categorias analíticas: uso de medicamentos antidepressivos; polifarmácia e terapia duplicada; e abandono do uso de medicamentos antidepressivos. Os achados evidenciam a centralidade da medicalização, fragilidades no acompanhamento farmacoterapêutico e riscos à segurança do paciente. Conclui-se que o fortalecimento do uso racional de psicofármacos exige acompanhamento longitudinal, estratégias não farmacológicas e atenção às condições sociais dos usuários.
Palavras-chave
Segurança do paciente; Atenção Primária à Saúde; Erros de medicação; Doenças crônicas; Quadros depressivos
Abstract
The study analyzed the perceptions of Primary Health Care and Mental Health professionals regarding risks associated with medication use in the care of people with depressive disorders. This qualitative, exploratory study was conducted in a municipality in the metropolitan region of Porto Alegre, state of Rio Grande do Sul, Brazil, involving professionals from a Primary Care Unit, Family Health Strategy teams, and a Mental Health Support Team. Data were generated through focus groups and analyzed using thematic analysis. Three analytical categories emerged: medication abuse, polypharmacy and therapeutic duplication, and discontinuation of antidepressant use. The findings highlight the centrality of medicalization, weaknesses in pharmacotherapeutic follow-up, and risks to patient safety. It is concluded that strengthening the rational use of psychotropic drugs requires longitudinal monitoring, non-pharmacological strategies, and attention to users’ social conditions.
Keywords
Patient safety; Primary health care services; Medication errors; Chronic diseases; Depressive conditions
Resumen
El estudio analizó la percepción de profesionales de la Atención Primaria de la Salud y de la Salud Mental sobre los riesgos del uso de medicamentos en el cuidado de personas con depresión. Se trata de una investigación cualitativa y exploratoria, realizada en un municipio de la región metropolitana de Porto Alegre (Estado de Rio Grande do Sul – Brasil), con profesionales de una Unidad Básica de Salud, equipos de la Estrategia Salud de la Familia y del Equipo de Apoyo en Salud Mental. Los datos se produjeron por medio de grupos focales y se sometieron a análisis temático. Surgieron tres categorías analíticas: uso de medicamentos antidepresivos, polifarmacia y terapia duplicada y abandono del uso de medicamentos antidepresivos. Los hallazgos ponen en evidencia la centralidad de la medicalización, fragilidades en el acompañamiento farmacoterapéutico y riesgos para la seguridad del paciente. Se concluye que el fortalecimiento del uso racional de psicofármacos exige acompañamiento longitudinal, estrategias no farmacológicas y atención a las condiciones sociales de los usuarios.
Palabras clave
Seguridad del paciente; Atención primaria de la salud; Errores de medicación; Enfermedades crónicas; Cuadros depresivos
Introdução
A depressão é um transtorno crônico e recorrente, caracterizado por episódios nos quais o indivíduo apresenta, por período mínimo de duas semanas, humor deprimido ou perda de interesse pela maior parte das atividades, frequentemente acompanhados de sentimentos de culpa, inutilidade, ideação suicida e outras manifestações psicopatológicas1,2. Condição de alta prevalência no Brasil e no mundo, a depressão é uma das principais causas de incapacidade global3 e configura grave problema de saúde pública, com amplas repercussões clínicas, psicossociais e econômicas4.
A Atenção Primária à Saúde (APS) constitui a principal porta de entrada da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), inserida na Rede de Atenção à Saúde (RAS)5. No cuidado às pessoas com depressão, o acompanhamento inicia-se, predominantemente, na APS, enquanto os casos de maior gravidade são encaminhados para serviços especializados, como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e ambulatórios de referência6.
Nesse contexto, é fundamental compreender os fatores que interferem na terapêutica medicamentosa da depressão e prevenir o uso inadequado de psicofármacos, evitando erros de medicação nas etapas de prescrição, dispensação e administração, por meio da qualificação dos serviços e do tratamento7. Nesse cenário, a APS assume papel estratégico tanto na identificação precoce dos quadros depressivos quanto no seguimento longitudinal do cuidado.
Dentre os erros mais frequentes destacam-se aqueles relacionados à polifarmácia, à terapia duplicada e à administração incorreta, muitas vezes decorrente do desconhecimento dos usuários quanto ao uso apropriado dos medicamentos8.
Esse cenário é intensificado pelo aumento progressivo das prescrições, associado a fragilidades na comunicação entre profissionais e usuários, expressas por explicações insuficientes, dificuldades de compreensão do sentido do tratamento e ausência do Plano Terapêutico Singular (PTS), compreendido como dispositivo central na organização do cuidado em saúde mental e na promoção da participação ativa do usuário9. A comunicação adequada, portanto, assume papel central tanto na prevenção de erros quanto na promoção da segurança do paciente na APS10. Soma-se a esse contexto a automedicação, prática que favorece o uso irracional de fármacos, influenciada por familiares, redes sociais, circulação de informações fragmentadas e baixo nível educacional11.
Evidências apontam que intervenções não farmacológicas contribuem para a redução do risco de depressão12,13 e que a psicoterapia constitui alternativa terapêutica eficaz, sobretudo em quadros leves e quando aplicada de forma individualizada14. À luz dessas discussões, a implementação dos PTS constitui estratégia fundamental para a construção de práticas mais humanizadas, resolutivas e integrais, ainda que, no cotidiano dos serviços, persistam desafios importantes, como a baixa adesão dos usuários às ações e metas pactuadas no PTS e a fragmentação do cuidado9. As Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) configuram-se como recursos terapêuticos relevantes ao reduzirem o risco de depressão, atenuarem efeitos adversos dos antidepressivos e ampliarem a qualidade de vida dos usuários15-17.
A assistência insegura em saúde gera impactos econômicos e sociais relevantes relacionados ao uso adicional de serviços, à perda de produtividade e ao adoecimento18. Assim, fortalecer a cultura de segurança do paciente na APS e ampliar a produção científica sobre o tema são estratégias essenciais19, devendo ser compreendidas à luz de abordagens críticas da Saúde Coletiva, que problematizam modelos assistenciais marcados pela medicalização excessiva e por pressões organizacionais, frequentemente associadas à iatrogenia, à dependência e à ineficiência do cuidado20.
Assim, torna-se necessário fortalecer uma cultura não punitiva na APS, orientada para prevenção de erros e segurança do paciente21.Diante desse conjunto de elementos, o presente estudo tem como objetivo analisar a percepção dos profissionais da APS acerca dos riscos associados ao uso de medicamentos por pessoas com quadros depressivos.
Aspectos metodológicos
O estudo é uma pesquisa qualitativa com delineamento exploratório e abordagem hermenêutica crítica22. A pesquisa foi desenvolvida no município de Sapucaia do Sul, na região metropolitana de Porto Alegre, RS, Brasil, no segundo semestre de 2024. A escolha do local justificou-se pela existência de uma rede de APS estruturada e de uma equipe matriciadora em saúde mental que desenvolve atendimentos compartilhados com a APS.
Participaram profissionais de uma Unidade Básica de Saúde (UBS) e de três equipes da Estratégia Saúde da Família (ESF) da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), além da Equipe de Apoio em Saúde Mental (EASM), responsável pelos matriciamentos da APS. Os serviços de APS foram indicados pela coordenação da EASM, tendo como critério de escolha equipes com alta frequência no atendimento a pacientes com quadros depressivos e profissionais pertencentes a essas equipes que possuíam pelo menos seis meses de atuação na APS.
A coleta de dados ocorreu por meio de grupos focais (GF), com um encontro por equipe, realizados nas Unidades de Saúde durante reuniões semanais das equipes, envolvendo até quinze profissionais de diferentes categorias. As discussões foram gravadas em áudio mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).
O tempo de cada encontro variou de trinta a cinquenta minutos. As questões norteadoras abordaram o cuidado longitudinal, os riscos relacionados ao uso de medicamentos no tratamento da depressão, o uso racional de psicofármacos, a polifarmácia e os erros de medicação. Também foram discutidos eventos que originaram danos ou risco de danos decorrentes do uso incorreto dos medicamentos em pacientes com quadros depressivos.
A análise do material coletado, após a transcrição, seguiu a abordagem da análise temática, desenvolvida por Braun e Clarke23, que compreende seis etapas: (I) familiarização com os dados; (II) geração de códigos iniciais; (III) busca de temas; (IV) revisão de temas; (V) definição e nomeação de temas; e (VI) produção do relatório. A interpretação dos resultados foi orientada pela hermenêutica crítica24.
Após leitura repetida e minuciosa das transcrições, os resultados emergiram em consonância com o objetivo da pesquisa. As falas foram identificadas pelas seguintes abreviaturas: M – médicos, E – enfermeiros, D – dentistas, TE – técnicos de enfermagem, AS – assistente social, ACS – agentes comunitários de saúde, P – psicólogo, GF1-GF4 (grupos das equipes da APS) e GF5 (grupo da EASM).
A ausência de farmacêuticos decorreu do recorte metodológico voltado à equipe mínima da APS. Psicólogos, embora não integrantes formais dessa equipe, participaram como apoio em saúde mental. Essa limitação pode ser superada em estudos futuros, ampliando a análise do cuidado medicamentoso.
A pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade do Vale do Rio do Sinos (UNISINOS), sob o parecer n. 3.573.810, em conformidade com a Resolução n. 466/2012.
Resultados e discussão
A análise dos dados dos GF permitiu a construção de três categorias analíticas: uso abusivo de medicamentos; polifarmácia e terapia duplicada; e abandono do uso de medicamentos antidepressivos. As categorias articulam-se entre si e expressam diferentes dimensões de um mesmo processo de cuidado, marcado pela centralidade do medicamento como resposta ao sofrimento psíquico e pelas fragilidades do acompanhamento longitudinal.
Uso abusivo de medicamentos
O início do tratamento medicamentoso da depressão geralmente decorre da presença de sintomas como ansiedade e tristeza. Com o tempo, parte dos usuários desenvolve dependência desses fármacos, favorecendo práticas de uso abusivo25. A prescrição de antidepressivos sem avaliação clínica aprofundada e sem planejamento terapêutico adequado amplia esse risco, comprometendo a segurança do paciente26.
Os relatos evidenciam um cenário de medicalização do sofrimento psíquico:
O erro mais comum é gerado pelo próprio paciente em decorrência do excesso no uso de medicamentos; tem paciente que vem renovar a receita que é para durar dois meses e ele retorna em quarenta dias. (M, GF2)
Se inicia essas medicações e não tem fim, não tem um planejamento, esse o maior risco [...] (P1, GF5)
Na APS, observa-se aumento progressivo da prescrição de psicofármacos associado ao uso abusivo dessas medicações27. Se utilizados inadequadamente ou em excesso, esses medicamentos trazem riscos à saúde dos usuários. Estudo brasileiro aponta que antidepressivos e antipsicóticos figuram entre os principais medicamentos envolvidos em intoxicações, com maior tendência de casos28.
A prescrição inadequada e o uso abusivo de psicofármacos na APS decorrem de múltiplos fatores, como capacitação profissional insuficiente, pressão por respostas rápidas, tempo reduzido de consulta e influência do mercado farmacêutico, favorecendo uso prolongado e indevido, com riscos de sedação excessiva, tolerância, abstinência e dependência29,30.
Os participantes destacaram ainda a preferência dos usuários pelo tratamento medicamentoso, associada à expectativa de resolução rápida do sofrimento:
As pessoas já chegam querendo a medicação. Bem difícil sustentar “Tu não vais ganhar”, porque o paciente vai no particular e consegue. (P1, GF5)
A medicação é mais fácil, como se fosse um milagre. Só que esse milagre não acontece [...] (ACS1, GF4)
Os pacientes com quadros depressivos tendem a preferir medicamentos por acreditarem em resposta mais rápida. Nesse contexto, a medicalização transforma experiências não médicas em doença31. Na Psiquiatria, isso se reflete especialmente na medicalização das experiências emocionais, funcionando como um mecanismo de controle social ao induzir o indivíduo a assumir o “papel de doente” e comprometer sua autonomia pessoal32.
Esse processo expressa a consolidação da psiquiatria biológica, fortalecida pela articulação com a indústria farmacêutica, que institui o medicamento como eixo central do cuidado e amplia a medicalização das experiências, convertidas em adoecimento mental33. Nesse contexto, os psicotrópicos tornam-se a resposta prioritária – e frequentemente exclusiva – ao sofrimento psíquico34. Pacciulio35, em relato de experiência, observou ausência de registros de terapias não medicamentosas e renovação contínua de receituários sem reavaliação, evidenciando a medicalização dos sintomas sem investigação diagnóstica aprofundada.
O uso de medicamentos como resposta imediata ao sofrimento psíquico, conforme evidenciado pelos participantes, revela uma avaliação pouco criteriosa na prescrição de psicotrópicos e a fragilidade do acompanhamento clínico, marcada pela ausência de planejamento terapapêutico, de reavaliações periódicas e de estratégias de descontinuação da medicação, configurando um modelo de cuidado centrado na contenção dos sintomas, em detrimento de uma abordagem ampliada e multiprofissional. Essa dinâmica é ilustrada nas seguintes falas:
A pessoa tem uma mínima crise de ansiedade ou uma tristeza e ela já é medicada. (P2, GF5)
[...] é muito mais conter o sintoma do que entender o que está acontecendo. (AS, GF5)
[...] o que mais vejo é uso indiscriminado, só para sedar e dormir, sem tratar a causa de base. (M2, GF3)
[...] precisa ter uma mínima revisão de prontuário, mas tem prontuários que não têm muita informação. Então fica uma coisa a critério do médico, se vai renovar ou não, ou se vai pedir para ir numa consulta. (P2, GF5)
Além disso, os profissionais apontaram a ausência de monitoramento sistemático do tratamento, evidenciada por relatos como:
Não tem um plano de desmame da medicação, só inicia e segue. (P1, GF5)
Ao naturalizar o medicamento como resposta ao sofrimento, o cuidado ultrapassa o espaço institucional, legitimando socialmente seu uso e favorecendo a automedicação36. A automedicação, como prática construída no cotidiano dos usuários, caracteriza-se pelo uso de medicamentos realizado sem a orientação do prescritor e sem a mediação dos demais profissionais que compõem a rede de atenção e acompanhamento do cuidado37, intensificado pela influência midiática e por informações fragmentadas, resultando em combinações inadequadas de fármacos38.
No estudo, a automedicação foi relatada como prática comum:
[...] tem aquela coisa que parece piada, mas não é [...] ganhou remédio da vizinha, do tio do irmão, eles vêm pedir: “Tu pode fazer duas receitas desse remédio? Porque eu tenho que devolver a caixinha que a minha mãe me deu”. (M1, GF3)
A conscientização em relação à automedicação de psicotrópicos é fundamental, assim como o uso responsável desses medicamentos, restrito a casos em que são realmente necessários39. O uso racional de medicamentos e a prevenção da automedicação devem ser prioridades das equipes de saúde, uma vez que essa prática constitui uma das principais causas de intoxicações por fármacos. Para isso, é essencial sistematizar os dados sobre intoxicações; implementar políticas públicas integradas nas áreas de educação, regulação e saúde mental; e garantir a orientação por profissionais qualificados27,40.
Diante desse cenário, os profissionais ressaltaram a importância da inserção do farmacêutico nas equipes das Unidades de Saúde e da implantação do consultório farmacêutico como estratégias para qualificar a orientação, fortalecer o uso racional de medicamentos e ampliar o acompanhamento clínico:
A gente precisava muito de uma farmácia distrital, a gente precisava ter um consultório farmacêutico, o paciente sair do consultório médico e ter depois uma orientação para que se tenha a certeza de que compreendeu aquilo. A gente tem uma demanda que sobrecarrega todo mundo, então nem sempre a Enfermagem vai ver que aquele paciente não compreendeu a orientação médica dentro do consultório e aí ele vai começar o tratamento todo errado. (TE, GF4)
Nesse contexto, evidencia-se a importância de retornos sistemáticos dos usuários para a reavaliação do tratamento, o monitoramento da adesão e o esclarecimento contínuo das orientações – dimensões centrais do cuidado farmacoterapêutico que, entretanto, mostram-se fragilmente estruturadas no cotidiano dos serviços. Essa lacuna foi reiteradamente mencionada pelos participantes:
Seria o mundo ideal ter retorno, ter acompanhamento [...], mas não temos. (TE, GF1)
[...] certo seria ter outros profissionais revisando a orientação da medicação, ver se o paciente entendeu [...] ter uma rotina de revisão. (E, GF4)
À luz desses relatos, torna-se necessário compreender a farmácia como um serviço de saúde integrado aos processos de cuidado, no qual o acesso aos medicamentos se articula à promoção do uso racional41. Nesse arranjo, o profissional farmacêutico assume papel estratégico na qualificação do cuidado em saúde mental, especialmente na orientação dos usuários e na sensibilização dos prescritores para escolhas terapêuticas mais adequadas42. Sua atuação contribui para a redução de erros na dispensação, o fortalecimento da segurança do paciente e a ampliação da adesão ao tratamento43. Esses achados, corroborados por estudos internacionais, reforçam a importância da inserção do farmacêutico na qualificação do cuidado de pessoas em tratamento antidepressivo44,45.
Polifarmácia e terapia duplicada [subtítulo]
A polifarmácia, definida como uso concomitante de múltiplos medicamentos – geralmente cinco ou mais46 –, mostrou-se frequente entre usuários com depressão:
São pacientes com muitas comorbidades, um monte de medicamentos que estão tomando, podendo interagir. (M1, GF4)
Já teve psiquiatras que faziam muita polifarmácia, de todas as classes e algumas repetidas. Para casos que tu nem entendia muito o porquê e, assim, não foi nem com um, nem com dois, foi com diversos usuários, isso aconteceu. (P2, GF5)
A polifarmácia psicotrópica, caracterizada pelo uso simultâneo de dois ou mais psicofármacos, intensificou-se na APS, refletindo a centralidade da prescrição como resposta ao sofrimento psíquico47-49 e associando-se à subutilização de estratégias não farmacológicas, ausência de diretrizes, limitação de capacitação e escassez de investimentos50.
Outro aspecto crítico identificado foi a ocorrência de interações medicamentosas, frequentemente negligenciadas no acompanhamento clínico:
Interações entre dois medicamentos diferentes, isso acontece, muitas vezes, acredita-se também que é pela falha dos colegas em orientar de que se está tomando essa medicação, não tome a outra. (M1, GF3)
[...] uma vez questionei o psiquiatra que acompanhava ele [paciente] e os medicamentos que ele usava: Diazepam, Alprazolam e Duloxetina: “Olha, doutor, não entendi o motivo de dois benzodiazepínicos”. (M, GF2)
Observa-se a prescrição recorrente de psicotrópicos com alto potencial de interação, o que amplia os riscos do tratamento, uma vez que o aumento do número de fármacos eleva diretamente a ocorrência de interações e reações adversas51. Nesse cenário, o uso irracional de psicotrópicos na rede pública é frequente e exige estratégias integradas envolvendo prescritores, farmacêuticos e pacientes. A prescrição racional, o acompanhamento do tratamento e estudos contínuos sobre o uso de medicamentos são essenciais para prevenir abusos e promover a utilização segura e eficaz desses fármacos52.
A administração concomitante de medicamentos requer monitoramento, sobretudo em idosos53. Em um estudo transversal, realizado em um município do estado da Paraíba, constatou-se que os benzodiazepínicos prescritos pelos clínicos gerais foram os psicotrópicos mais utilizados na APS. As interações medicamentosas identificadas nas prescrições apresentaram, em sua maioria, gravidade moderada a alta, destacando-se a associação entre Alprazolam e Diazepam, classificada como de alta gravidade pelo aumento do risco de depressão do sistema nervoso central54. A combinação desses fármacos com Duloxetina intensifica os riscos à segurança do usuário, especialmente pelo potencial de sedação55,56.
O cuidado medicamentoso na depressão deve ir além do enfoque biomédico, incorporando os contextos de vida dos usuários. A atenção às incompatibilidades das prescrições e a comunicação interprofissional são centrais para a segurança do paciente. A adesão ao tratamento, entendida como processo relacional, pode ser fortalecida por educação em saúde, revisão multiprofissional da prescrição e apoio psicossocial, especialmente diante da persistência dos sintomas e da polifarmácia57-59.
Outro aspecto relevante destacado pelos profissionais refere-se à duplicidade terapêutica, que também está relacionada à polifarmácia. A terapia duplicada ocorre quando o paciente recebe dois ou mais medicamentos da mesma classe farmacológica ou medicamentos com os mesmos mecanismos de ação por diferentes profissionais. A terapia duplicada também ocorre quando um medicamento é prescrito repetidamente pelo mesmo profissional58-62.
Em muitas situações, a duplicidade terapêutica foi observada no momento da renovação de receituários, frequentemente realizada de forma não presencial, como evidenciam os relatos dos participantes:
O uso de vários medicamentos acontece porque o paciente consulta em vários lugares, consulta com o cardiologista que receitou isso, com o psiquiatra que deu aquilo, com o endocrinologista que deu outra coisa. (M, GF2)
Na maior parte das equipes, a renovação ocorre a distância. Em algumas, o próprio médico da unidade realiza a renovação; em outras, isso acontece na secretaria, onde algum médico de plantão renova e não conhece o usuário. (P2, GF5)
De acordo com o relato dos integrantes dos GF, a terapia duplicada é frequente em pacientes depressivos, usando mais de dois medicamentos psicotrópicos, às vezes, da mesma classe, levando a interações medicamentosas e sobredosagem, com risco acentuado para a ocorrência de danos à saúde.
No cotidiano das unidades de saúde, observou-se a renovação de receituários sem a realização de avaliação clínica em usuários com condições crônicas em uso de psicotrópicos. Essa prática, identificada no presente estudo, também é mencionada na literatura, sugerindo desafios no acompanhamento longitudinal do cuidado63. O uso contínuo de medicamentos sem avaliação do médico e sem a utilização de protocolos pode gerar risco de eventos adversos e agravos à saúde dos usuários64. Segundo Medeiros Filho et al.65, a conduta sem avaliação por profissional médico gera uma medicalização social, pois parte dos usuários de psicotrópicos comparecem no atendimento somente para renovação de receituário, em decorrência da banalização da prescrição.
A redução da repetição de receituários terapêuticos na APS é de suma importância, já que pode impedir danos evitáveis nas prescrições medicamentosas66,67. Na APS, o monitoramento do uso de medicamentos é fundamental para a segurança do cuidado, pois a repetição de prescrições pode gerar duplicidades, falhas de registro e erros de dosagem, com impactos negativos para a saúde dos usuários e para os serviços, sobretudo entre idosos, mais vulneráveis à polifarmácia e às comorbidades68.
Os achados apontam fragilidades na renovação de receituários, frequentemente automática e sem avaliação adequada, comprometendo a integralidade do cuidado. Deficiências no acompanhamento farmacoterapêutico, no manejo da polifarmácia e nas orientações ampliam riscos, fragilizam o vínculo e favorecem a descontinuidade do tratamento, expressa no abandono de antidepressivos.
Abandono do uso de medicamentos antidepressivos [subtítulo]
O abandono do uso de antidepressivos foi apontado como problema recorrente na APS, com repercussões que ultrapassam a simples interrupção do tratamento. Está associado à dificuldade de compreensão das orientações, aos efeitos colaterais, às limitações financeiras e às condições de vida dos usuários, especialmente entre pessoas idosas em maior vulnerabilidade. Nesse grupo, a adesão é comprometida pela confusão quanto ao uso correto dos medicamentos, fragilidade do autocuidado, ausência de apoio familiar e fragmentação do cuidado, o que fragiliza o vínculo com a equipe e a continuidade terapêutica.
[...] paciente idoso confuso vem e diz: “Eu fui na farmácia e não me deram o medicamento”. Daí digo: “Não, senhor! O senhor pode tirar a partir de tal dia”. Acabaram os medicamentos dele antes, porque está tomando errado as medicações, o fato dele estar sozinho a gente não consegue entender esse dia a dia, não conseguimos acesso 24 horas ou algum parente para se responsabilizar com isso. (M, GF2)
Hoje recebi uma paciente em saúde mental recém saindo da internação; familiar confuso com a medicação, o paciente também estava confuso; pode ter algo que retarde e impeça o autocuidado, mas a paciente confusa foi na farmácia, confusa na orientação, veio na unidade, a gente não conseguiu entender, o paciente era do CAPS, que também não conseguiu orientar, paciente veio na unidade duas vezes, passou por três atendimentos, não sei como ficou a situação. (E, GF4)
A baixa adesão é reconhecida como um dos principais desafios do cuidado em saúde mental na APS, sobretudo em contextos marcados pela polifarmácia e pela dificuldade de acompanhamento cotidiano:
Ocorrem muitos erros na tomada do medicamento porque o paciente não compreendeu ou acham que não é para tomar todo o dia e começam a entrar na crise, todos são hipermedicados, não tem paciente que toma uma coisa só. A adesão é o principal problema e por isso a gente bate muito nisso, mas é uma utopia. (TE, GF4)
A insuficiência de compreensão acerca da farmacoterapia, identificada de forma transversal pelos diferentes grupos profissionais, configura-se como elemento central na produção de erros na administração dos medicamentos e na fragilização da adesão ao tratamento. Essa dificuldade envolve usuários, familiares e equipes de saúde, que enfrentam limites na construção de condições comunicacionais e organizacionais capazes de favorecer a apropriação do cuidado, especialmente entre pessoas idosas em situação de maior vulnerabilidade, repercutindo na continuidade terapêutica e no vínculo com os serviços.
Estudo transversal realizado em farmácia do Sistema Único de Saúde (SUS) identificou que 46% dos idosos apresentaram compreensão insuficiente da prescrição médica, associada ao nível de escolaridade. Esses achados indicam que o cuidado não deve restringir-se à explicação da prescrição, exigindo a construção compartilhada de estratégias que considerem as condições cognitivas e socioeconômicas dos usuários, com comunicação adequada, verificação ativa da compreensão do tratamento e envolvimento da rede de apoio, favorecendo o uso seguro dos medicamentos e a superação de barreiras como esquecimento, baixa escolaridade e limitações financeiras69, sendo a participação da família essencial para a adesão70.
Segundo os participantes, muitos usuários não conseguem manter a terapia recomendada, abandonando o tratamento em função, sobretudo, de reações adversas e efeitos colaterais:
No tratamento com Amitriptilina, paciente reclama de ganho de peso, tem muito essas questões dos efeitos. (M, GF2)
Se preocupam bastante com ganho de peso com os medicamentos, é o que eles mais perguntam, principalmente as mulheres. A gente tenta explicar. A Fluoxetina não tem tanto efeito na questão do peso, todos os inibidores seletivos a questão da libido vai alterar. (M2, GF3)
O uso frequente e/ou inadequado de antidepressivos pode gerar reações adversas, ocasionando o abandono da terapia. Os efeitos colaterais geralmente apontados por adultos são a disfunção sexual e o ganho de peso71. Metade dos pacientes interrompe o tratamento nos primeiros seis meses72,73, frequentemente por efeitos colaterais como disfunção sexual, sonolência e fadiga74.
Nesse contexto, torna-se fundamental auxiliar os pacientes a compreender que os efeitos colaterais tendem a preceder a eficácia terapêutica, sendo esse intervalo de adaptação decisivo para o sucesso do tratamento75. Estratégias como tomada de decisão compartilhada, definição de metas individuais e acompanhamento contínuo fortalecem a adesão ao cuidado73.
Outro fator relevante para a desistência do tratamento refere-se às dificuldades financeiras para aquisição dos medicamentos prescritos, sobretudo quando estes não estão disponíveis na rede pública:
Eles fazem o uso, só que nós somos dependente do que o SUS oferece. Quando tu precisa de algum [medicamento] um pouco diferente, mais moderno, mais potente, não são todos os pacientes que conseguem. (M2, GF3)
Às vezes, a gente tenta trocar por medicamentos mais atuais que não têm na farmácia municipal e, em algum momento, falta dinheiro e tem que voltar para o que tem disponível na farmácia, mais antigos e que têm mais efeitos colaterais; eles não conseguem dar continuidade nesse tratamento. (M3, GF3)
A pobreza, o baixo nível de escolaridade e as dificuldades financeiras figuram entre os principais determinantes da não adesão à terapia76,77. Estudo nacional identificou maior probabilidade de não adesão à farmacoterapia entre indivíduos em piores condições socioeconômicas e com falta de acesso gratuito a medicamentos de uso contínuo. O custo do tratamento compromete o orçamento familiar, favorece o abandono terapêutico e amplia gastos com atendimentos ambulatoriais e internações78.
Em síntese, o abandono do uso de antidepressivos é fenômeno multifatorial e vinculado a limitações clínicas, comunicacionais, organizacionais e socioeconômicas, reforçando a necessidade de estratégias integradas na APS que fortaleçam o vínculo entre usuários e equipes de saúde, a escuta qualificada e a construção compartilhada do cuidado.
Considerações finais
O estudo evidencia a centralidade da medicalização no cuidado a pessoas com depressão na APS, expressa pelo uso abusivo de psicofármacos, pela polifarmácia, pela terapia duplicada e pelo abandono do tratamento. Esses fatores podem estar ligados a erros na prescrição, administração e dispensação desses fármacos e revelam fragilidades estruturais e organizacionais do modelo de atenção, especialmente no acompanhamento farmacoterapêutico; na comunicação entre profissionais e usuários; e na articulação da rede de cuidados, com repercussões diretas na segurança do paciente.
A prescrição, muitas vezes sem planejamento, reavaliação ou estratégias de descontinuação, tem sido priorizada no cuidado ao sofrimento psíquico em detrimento de abordagens multiprofissionais, naturalizando o uso de medicamentos, ampliando riscos, fragilizando a adesão e favorecendo o abandono terapêutico, especialmente entre usuários em maior vulnerabilidade social.
A promoção do uso racional de psicofármacos requer acompanhamento longitudinal contínuo, sustentado por equipes multiprofissionais, com atuação integrada de médicos, farmacêuticos, psicólogos, enfermeiros e demais profissionais da APS. A educação em saúde, dirigida aos usuários e às famílias, constitui eixo central para fortalecer a adesão ao tratamento, prevenir erros de medicação e qualificar a segurança do cuidado.
Os participantes destacaram a necessidade de estratégias que considerem os contextos social, emocional e econômico dos usuários, reconhecendo que o cuidado em saúde mental ultrapassa a dimensão biomédica. Nesse sentido, são fundamentais a ampliação do tempo de consulta; a oferta de grupos terapêuticos, atividades de convivência, ações de promoção da saúde e psicoterapia; e o fortalecimento das PICS como alternativas ou complementos ao tratamento medicamentoso.
Por fim, a efetivação dessas estratégias requer investimento contínuo no SUS, com financiamento, formação permanente das equipes e fortalecimento das redes de atenção psicossocial, sustentados pelo compromisso dos gestores e pelo engajamento dos profissionais, para garantir cuidado mais humano, integral e seguro.
Espera-se que os achados deste estudo contribuam para o aprimoramento das práticas assistenciais, a redução de erros relacionados ao uso de medicamentos e o fortalecimento das políticas de promoção da saúde mental na APS.
Agradecimentos
Aos profissionais da Secretaria Municipal de Saúde de Sapucaia do Sul, pela colaboração essencial para a realização desta pesquisa. À professora Rafaela Schaefer, pelas valiosas contribuições ao manuscrito. Aos membros da banca examinadora da dissertação que originou este estudo, cujas considerações qualificaram substancialmente o trabalho. Por fim, aos revisores, pela leitura atenta e pelas contribuições que enriqueceram a versão final do artigo.
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Financiamento
Fábio de Freitas Floriano foi bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), no âmbito do Programa de Suporte à Pós-Graduação de Instituições Comunitárias de Educação Superior (PROSUC) – Modalidade II (taxa), processo n. 88887.915434/2023-0.
Disponibilidade de dados
O conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi disponibilizado no SciELO Data e pode ser acessado em: https://doi.org/10.48331/SCIELODATA.UO92QF.
Referências
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Editado por
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Editora
Rosana Teresa Onocko-Campos https://orcid.org/0000-0003-0469-5447
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Editor associado
Robert Filipe dos Passos https://orcid.org/0000-0003-0900-4262
