Open-access O tornar-se pai: representações da paternidade e do cuidado no puerpério

Becoming a father: representations of fatherhood and care during the postpartum period

Convertirse en padre: representaciones de la paternidad y del cuidado en el puerperio

Resumo

O artigo discute a experiência do tornar-se pai e a participação do homem no exercício do cuidado com o filho. A pesquisa qualitativa, transversal e exploratória foi realizada com 22 homens no puerpério em uma maternidade pública do Rio Grande do Norte. Aplicaram-se questionários sociodemográficos e entrevistas semiestruturadas. A produção de sentidos a partir das práticas discursivas de Spink e Medrado foi o referencial para análise das entrevistas. Os resultados apontaram para três categorias: “Paternidade como presente divino com sentimento inexplicável”; “Tornar-se pai: referência, responsabilidade e provisão material”; e “A presença como exercício da paternidade”. Evidenciam-se os benefícios da inserção do homem no planejamento reprodutivo, do pré-natal ao puerpério, para a tríade pai-bebê-mãe. O estudo contribui para debater os significados do tornar-se pai, em diálogo com a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH).

Palavras-chave
Paternidade; Relação pai-filho; Cuidado


Abstract

This article discusses the experience of becoming a father and men's participation in caring for children. We conducted a qualitative exploratory cross-sectional study with 22 men during the postpartum period in a public maternity hospital in the state of Rio Grande do Norte. The data were collected using socio-demographic questionnaires and semi-structured interviews. The theoretical framework used to analyze the interviews was discursive practices and meanings production analysis, as proposed by Spink and Medrado. Three thematic categories were identified: fatherhood as a divine gift with an inexplicable feeling; becoming a father: reference, responsibility and material provision; and presence as an exercise in fatherhood. The findings reveal the benefits for the father-baby-mother triad of involving men in reproductive planning, from antenatal care to the postpartum period. This study contributes to the debate on the meaning of becoming a father, in dialogue with the National Policy for Comprehensive Men's Health Care (PNAISH).

Keywords
Fatherhood; Father-child relationship; Care


Resumen

El artículo discute la experiencia de convertirse en padre y la participación del hombre en el ejercicio del cuidado del hijo. La investigación cualitativa, transversal y exploratoria se realizó con 22 hombres en el puerperio en una maternidad pública del estado de Rio Grande do Norte. Se utilizaron cuestionarios sociodemográficos y entrevistas semiestructuradas. La producción de sentidos a partir de las prácticas discursivas de Spink y Medrado fue el factor referencial para el análisis de las entrevistas. Los resultados señalaron tres categorías: paternidad como regalo divino con sentimiento inexplicable; convertirse en padre: referencia, responsabilidad y provisión material; y la presencia como ejercicio de la paternidad. Se muestran los beneficios de la inserción del hombre en la planificación reproductiva, del prenatal al puerperio, para la triada padre-bebé-madre. El estudio contribuyó para discutir los significados de convertirse en padre, en diálogo con la Política Nacional de Atención Integral a la Salud del Hombre (PNAISH).

Palabras clave
Paternidad; Relación padre-hijo; Cuidado


Introdução

A construção da parentalidade é atravessada por várias influências, sobretudo no contexto social e cultural em que a divisão dos papéis familiares é baseada no gênero, situação na qual o binarismo ocorre mesmo quando ambos dedicam tempo similar ao trabalho fora de casa. Diante disso, o papel paterno é fortalecido pela concepção de que o homem não tem habilidades para tarefas de cuidado, ao passo que as atividades domésticas e de cuidado com o filho são vistas como atribuições femininas1.

Ainda que o exercício da paternidade seja marcado pelo ideal do homem como responsável pela provisão familiar, as novas mudanças nas funções parentais os convocam para participação no planejamento reprodutivo em todo o ciclo gravídico-puerperal e nas tarefas de cuidado com a prole2,3. Reivindica-se um novo modelo de paternidade que supere o papel que é tradicionalmente atribuído ao homem na sociedade4,5. Faz-se necessário que haja compreensão das masculinidades e feminilidades como construções sociais, assim como a concepção de um amor materno inato e instintivo que responsabiliza a mulher por um amor incondicional para com o(a) filho(a), muitas vezes romantizando a maternidade e distanciando o homem do processo reprodutivo e de cuidado6.

O estudo “Homens que cuidam”, realizado em cinco países, incluindo o Brasil, mostra que os homens que acompanharam seus pais ou outros homens realizando tarefas de cuidado na infância são mais propensos a fazê-lo quando adulto7. Ademais, o envolvimento paterno deve ser estimulado desde o período do pré-natal, almejando a formação e o fortalecimento do vínculo paterno-filial, considerando que os homens que tiveram uma boa relação com seu pai na infância, com uma referência positiva, apresentam uma maior propensão de exercer a paternidade de forma mais comprometida8.

Na maternidade, a equipe de saúde deve estimular as trocas entre o pai e o(a) filho(a) recém-nascido (RN), uma vez que o contato direto com o bebê contribui para o fortalecimento do apego. As atitudes e cuidados do pai com a mãe e o bebê são importantes para a consolidação da paternidade para o homem1. Outrossim, o engajamento paterno é promotor de segurança, bem-estar materno e de apoio social para a mãe que vivencia o delicado período do pós-parto, fase de grande vulnerabilidade para os transtornos psiquiátricos – tais como baby blues ou tristeza puerperal, depressão pós-parto e psicose puerperal4,9.

Apesar dos espaços institucionais descritos como maternoinfantis terem como foco a mulher e o bebê, os serviços de saúde precisam se preparar para uma efetiva inclusão do pai no pré-natal, parto e puerpério5. Mesmo que o homem não sofra com as mudanças fisiológicas na gravidez, há modificações psicológicas que podem comprometer o vínculo com o(a) filho(a) RN e as relações conjugais10. Uma pesquisa brasileira apontou que os homens também sofrem de depressão pós-parto em uma prevalência que varia entre 11,9% a 25,4%11.

Para que se consiga uma expressiva participação dos homens, estes devem ser convocados, reconhecerem-se e serem reconhecidos nos serviços destinados ao cuidado da díade mãe-bebê. Sendo assim, elaborar políticas públicas que promovam a inserção do parceiro é primordial, uma vez que a sua participação é fator de proteção para si, a criança e a mãe, pois o exercício da paternidade, além de ser protetivo, também é promotor de saúde4,5. Nesse contexto, a Lei Federal n. 11.108/2005 é especialmente relevante, pois assegura à mulher o direito de ter um acompanhante de sua escolha durante todo o atendimento nos serviços de saúde. Esse acompanhante pode ser o pai do bebê, o parceiro atual da mulher ou qualquer pessoa que ela considere como uma figura de apoio e cuidado5.

Nesse sentido, o Brasil se destaca na América Latina como pioneiro na implementação da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH), lançada em 2009. A política objetiva promover melhorias nas condições de saúde dos homens, com redução da morbidade e mortalidade. Ela é estruturada em cinco eixos temáticos, dos quais serão apresentados o primeiro e o terceiro, por estarem alinhados aos objetivos deste manuscrito. O eixo 1 visa reorganizar as ações de saúde de maneira inclusiva para que os homens considerem os serviços de saúde como espaços masculinos e, reciprocamente, os serviços os reconheçam como sujeitos que necessitam de cuidados e acesso à saúde. Atrelado a isso, o eixo 3 se alinha à temática da paternidade e do cuidado, buscando sensibilizar gestores, profissionais de saúde e a sociedade sobre os benefícios do engajamento dos homens no exercício da paternidade e no cuidado com seus filhos, ressaltando como essa participação pode contribuir para a saúde, bem-estar e fortalecimento de vínculos saudáveis entre crianças, homens e suas parceiras2,3.

Com isso, o Ministério da Saúde (MS), como forma de fortalecimento do eixo paternidade e cuidado da PNAISH, instituiu a Estratégia Pré-Natal do Parceiro (EPNP), buscando ampliar a participação ativa e consciente do homem na Atenção Primária à Saúde (APS), sendo esse o eixo central das ações. Portanto, é necessário que gestores e trabalhadores revejam suas práticas e ideais, considerando as construções socioculturais de gênero e as singularidades das pessoas e territórios5. Diante do exposto, o objetivo deste artigo é compreender a experiência do tornar-se pai e a participação do homem no exercício do cuidado com o filho no puerpério na maternidade.

Metodologia

Este trabalho deriva-se de uma pesquisa mais ampla de doutorado, intitulada “O apego pai-filho no puerpério, apoio social, cuidado e representações da paternidade”. Trata-se de um estudo qualitativo, transversal e exploratório realizado na maternidade e Hospital Universitário Ana Bezerra (HUAB), Santa Cruz, Rio Grande do Norte. O HUAB faz parte do complexo hospitalar referência no cuidado maternoinfantil na região do Trairi potiguar, com distância aproximada de 116 km da capital do estado.

Participaram da pesquisa 22 pais biológicos de RN hospitalizados na maternidade no período do puerpério. Para a coleta dos dados, considerou-se idade igual ou superior a 18 anos e um tempo mínimo de 12 horas após o parto para abordagem dos pais, tendo em vista a recuperação do pós-parto imediato. Foram excluídos os pais em que o neonato tivesse falecido, apresentasse má-formação visível ou estivesse na Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN).

A coleta dos dados ocorreu entre novembro de 2023 a abril de 2024. Aplicou-se um questionário sociodemográfico e uma entrevista semiestruturada, gravada e transcrita na íntegra, com as seguintes perguntas disparadoras: “O que é ser pai para você?” e “De que forma você pode exercer a paternidade com seu filho?”. Para análise das entrevistas, utilizou-se a obra de Spink e Medrado12, que abordam a produção de sentidos a partir das práticas discursivas geradas no cotidiano das interações sociais dos participantes, tomando a linguagem como ação e a perspectiva temporal, histórica e social em que os discursos são inscritos.

Neste artigo, serão apresentadas três categorias de análises de construções de sentidos acerca do tornar-se pai e exercício da paternidade: “Paternidade como presente divino com sentimento inexplicável”; “Tornar-se pai: referência, responsabilidade e provisão material”; e “A presença como exercício da paternidade”.

Esta pesquisa teve a aprovação do Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), sob o parecer n. 6.313.574, conforme determinações da Resolução n. 466/12 do Conselho Nacional de Saúde (CNS), a qual trata de diretrizes éticas da pesquisa com seres humanos em ciências humanas e sociais.

Resultados e discussões

Caracterização dos pais: participação do pré-natal e parto

Participaram do estudo 22 homens, as idades variaram entre 19 e 40 anos, sendo a média de 27 anos. No que diz respeito ao estado civil, apenas um participante relatou ser solteiro e o restante (95,5%) afirmaram serem casados ou em união estável. Quanto à escolaridade, o ensino médio completo foi o grau declarado pela maioria dos pais (45%). No tocante à religião, três participantes (13,6%) relataram não ter religião definida, 10 (45,4%) são católicos e 9 (41%) são evangélicos. Referente à ocupação, apenas um participante declarou estar desempregado, enquanto os outros estão em um emprego formal (64%) ou exercendo atividade autônoma (32%). O rendimento mensal de até três salários-mínimos foi o que se evidenciou com maior frequência (41%), enquanto quatro pais (18,2%) informaram ter renda familiar menor do que um salário-mínimo. No tocante ao planejamento da gestação, 16 (73%) participantes relataram terem planejado a gravidez com a esposa. Quanto à participação no pré-natal, 17 pais – isto é, 77% – informaram tê-lo realizado juntamente com a parceira e 14 (64%) participaram do momento do parto.

Os resultados deste estudo apontam para uma boa participação dos homens no pré-natal e durante o parto. Os pais que não puderam participar desses momentos relacionam, em sua maioria, as dificuldades de conciliação com o trabalho. Esses dados são importantes para discutir a integração do homem na rotina da APS em consolidação com a EPNP5. O sumário de evidências da participação do pai e/ou parceiro no pré-natal indica que o seu envolvimento nos atendimentos tem repercussão positiva na saúde do trinômio pai-bebê-mãe, logo, compreende-se que uma paternidade cuidadora seja promotora de saúde4.

Um estudo com sessenta homens investigou a paternidade e participação no pré-natal, parto e puerpério. Como resultados, verificou-se que mais de 56% desconhecem a relevância de estar nas consultas de pré-natal, 23,3% acreditam ser papel apenas da mulher e 20% não sabem a necessidade deste acompanhamento, enquanto 60% dos pais relataram que suas companheiras se sentiam mais seguras com seu acompanhamento no puerpério13.

Durante a realização do estudo, o pesquisador percebeu um certo estranhamento ao comunicar na enfermaria, aos familiares e pais, o interesse em dialogar com os homens sobre a experiência da paternidade. Ouviram-se falas com reclamações de pais que nunca apareceram, daqueles que tiveram uma breve “visita”, dos que ficaram impossibilitados de comparecer em decorrência de questões financeiras e do trabalho e outros que não estavam presentes por serem “homens”, tornando essa palavra como sinônimo de inabilidade para o cuidado e inadequação ao serviço hospitalar. Com frequência, são produzidos discursos de que o homem pode desmaiar e atrapalhar no momento parto, que vai comprometer a dinâmica e privacidade da enfermaria por sua maioria ser mulheres, entre outros comentários que inviabilizam a presença do pai nesses espaços.

Tais construções discursivas perpassam o imaginário social e adentram os muros institucionais que, não tão raro, criam barreiras com justificativas sem evidências científicas e destoantes do que é proposto pela PNAISH. Esses sentidos construídos socialmente distanciam o homem de uma efetiva participação, mesmo quando este sente-se à vontade e preparado para se envolver nos cuidados paternos de forma ativa.

Paternidade: presente divino com sentimento inexplicável

A partir da análise das práticas discursivas de produção de sentido acerca do tornar-se pai, identificam-se mudanças subjetivas em que o homem busca uma melhor versão de si, adequando suas atitudes e comportamentos para o que é considerado apropriado ao papel paterno. Para tanto, o nascimento de um filho faz emergir o nascimento de um pai e de um novo homem: “Nasceu a criança, a gente vai aprender com ela. Para mim foi uma missão e ao mesmo tempo um aprendizado muito grande” (Pai 9).

A experiência da paternidade relatada é atravessada pelo significado pessoal e relação estabelecida com o genitor paterno. Dessa forma, a transição da identidade de filho para pai é influenciada também pela ausência de uma referência paterna, que se faz presente nesse novo papel social, como se verifica na fala seguinte: “Eu quero ser um pai que eu não tive praticamente” (Pai 21). Pode-se inferir que, a partir do referencial da falta, o homem faz surgir em si um novo pai para se fazer presente no cuidado com o filho, fornecendo-o aquilo que não teve.

Um estudo sobre a paternidade contemporânea revelou resultados semelhantes aos desta pesquisa, destacando que a experiência de se tornar pai é influenciada pelas percepções dos participantes em relação a sua própria condição de filho. Além disso, a pesquisa revela que os participantes construíram sua identidade como pais adotando posturas distintas das que tiveram seus próprios genitores14.

Os participantes que se encontram no puerpério, acompanhando suas parceiras e o bebê RN, produzem sentidos da experiência da paternidade na perspectiva subjetiva. Ao tentar descortinar os sentidos do tornar-se pai, as respostas partem de um grau de abstração, com o sentimento de felicidade se sobressaindo nos discursos paternos, como se observa: “Como eu posso dizer? Coisa que eu não sei explicar direito não, coisa inexplicável, muito bom, feliz com o momento” (Pai 18); “Algo inexplicável. Eu achei muito bom” (Pai 2); “Uma das maiores belezas do mundo, o melhor de tudo, a melhor coisa do mundo. A gente não consegue nem explicar o sentimento de um pai” (Pai 16); “É uma experiência bem incrível e única” (Pai 7).

A experiência da paternidade é compreendida como positiva e gratificante. A maioria dos entrevistados são pais ditos de “primeira viagem” e, tendo em vista que a realização da pesquisa ocorreu nos primeiros dias após nascimento do filho, observa-se que os significados da paternidade estavam se consolidando ou, por assim dizer, sendo produzidos também na relação pesquisador-entrevistado/pai, como em: “Eu tô achando muito maravilhoso, tudo lindo, tá sendo emocionante, eu tô gostando demais mesmo, tô realizado” (Pai 5); “É só emoção” (Pai 8); “É bom, legal e divertido. Eu tô muito feliz em ser pai” (Pai 14).

Uma pesquisa realizada com pais que assistiram ao parto de seus filhos revelou um misto de emoções, com sentimento de entusiasmo e uma percepção positiva da experiência. Os homens descreveram o sentimento de se tornarem pais com um nível de abstração semelhante aos participantes deste estudo, refletindo a singularidade dessa vivência, como pode se verificar no discurso de um pai extraído do manuscrito: “É uma experiência que eu não sei explicar, um momento que só eu estou vivendo”15.

Por fim, o tornar-se pai é significado como um presente, que, muitas das vezes, está associado a uma figura divina que os forneceu a dádiva de realizar o sonho de ser pai, como verifica-se: “Um sonho, é certeza que é o meu maior sonho” (Pai 10); “Tudo! Pra mim é um sonho realizado” (Pai 11); “É um presente” (Pai 21); “Uma dádiva” (Pai 5); “É uma dádiva de Deus” (Pai 9); “É uma dádiva de Deus, e é algo muito prazeroso” (Pai 3); “Ser pai seria dom de Deus, graça de Deus” (Pai 17). Os resultados mostram que os discursos sobre o exercício da paternidade são centrados na ideia de permissão de Deus, refletindo o perfil dos pais, pois 86,4% se identificam como cristãos, católicos ou evangélicos.

Tornar-se pai: referência, responsabilidade e provisão material

Apesar dos estudos indicarem boas evidências do envolvimento paterno nas diversas áreas da vida do bebê com benefícios diretos para a tríade pai-bebê-mãe4,5, ainda se verifica o predomínio da representação do homem enquanto provedor do lar e responsável pelas questões da ordem financeira. A fala do Pai 19 elucida bem essa questão:

Ser pai, eu acho que é uma coisa muito boa isso. Trabalhar muito mais, dar de comer à filha e a ela [...] que não deixe faltar nada, sabe? Como pai, que dê tudo de bom a ela. [...] Por isso que eu vou batalhar muito mais ainda agora. Pronto, se eu puder fazer hora extra, eu faço, o que eu puder fazer, outros bicos por fora, qualquer coisa eu tô desenrolando, através dela agora, sabe? [...] Além do sustento, carinho, muito amor a ela. Coisa que eu não tive.

(Pai 19)

A fala supracitada aponta para o sentido tradicionalmente atribuído ao homem em que o pai se coloca como o responsável financeiro pela manutenção do lar e da família, ao reproduzir significados que relacionam a masculinidade ao compromisso com todo “sustento” familiar e “não deixar faltar nada” (Pai 19). Esse pai, por meio da paternidade, reafirma o que considera ser característica do homem: não medir esforços para exercer o seu papel de base familiar e mantenedor da ordem e satisfação das necessidades básicas. Os discursos a seguir complementam essa ideia: “É o pilar da família, a família é em torno desse pilar. Um centro ali, uma base, o alicerce da família” (Pai 1); “Construir uma família [pausa prolongada], dar o necessário que precisar. Nunca faltar alimentação, remédio, essas coisas” (Pai 12); “É tudo na minha vida. Eu vou fazer de tudo, de tudo mesmo, pra o que ela precisar, naquela hora eu ter e dar a ela” (Pai 4).

A responsabilidade é percebida como central nas falas dos participantes, que se sentem responsáveis pelo RN, que, por sua vez, depende dos adultos em tempo integral: “É responsabilidade, algo que você vai ter para o resto da vida. Responsabilidade afetiva, financeira, enfim” (Pai 20). O Pai 22 congrega diversos sentidos ao refletir sobre a sua paternidade, compreendendo essa experiência como um presente que o convoca ao cuidado, ensinamento e responsabilidade: “Ser pai é um presente muito grande, pra gente cuidar nesse mundo. Pra gente educar, amar e principalmente ensinar essa criança a andar nos caminhos do Senhor, e sempre vou querer cada vez mais trabalhar pra conseguir sempre as coisas pra eles” (Pai 22).

Os resultados do estudo de Vieira e Françozo16 corroboram os achados desta pesquisa ao verificar que o homem, quando se torna pai, apresenta um predomínio da ideia de responsabilidade com o(a) filho(a) e a família, especialmente com as questões materiais e financeiras. Essa concepção provoca readaptação com redimensionamento de valores, expectativas e prioridades. Oliveira e Brito17 também identificaram a responsabilidade no discurso dos pais, com maior compromisso do homem em decorrência da transição para o papel paterno.

Contudo, os homens entrevistados compreendem que seu papel, enquanto pai, deve superar o modelo tradicional. As evocações a seguir elucidam melhor o descrito: “Ser pai é criar uma criança, é um trabalho um pouco difícil porque tem que ensinar, educar do zero até a vida toda praticamente a pessoa, então de criança a gente treina ela pra se tornar um adulto responsável” (Pai 13); “[...] ajudar na formação e na criação [...] estar presente, não só do ponto de vista material, mas realmente de estar ali, participar, de brincar, de interagir, realmente estar presente na vida delas” (Pai 17); “Ser pai é alguém que protege e cuida” (Pai 15). Os participantes apresentam uma paternagem com envolvimento integral e inserção nas diversas áreas da vida do bebê, fortalecendo o vínculo paterno-filial.

Para tanto, os homens, quando descobrem a gestação da sua companheira, começam a gestar um novo homem e pai. As transformações são advindas para melhor exercer a paternidade, especialmente quando o homem não teve uma figura de referência paterna na infância. “Eu acho que através da atenção, do cuidado em si, o pai eu acho que deve ser isso, o protetor, isso aí mesmo, o protetor da família, o protetor do filho” (Pai 1); “É cuidar, saber criar os filhos, ensinar eles a andar no caminho certo, ensinar o básico para o futuro” (Pai 2); “Cuidar do filho, tá próximo, ajudar no que precisa, dar amor, dar carinho, segurança, é isso!” (Pai 6).

Por fim, compreende-se que a paternagem traz implicações subjetivas com transformações positivas para o homem, com mudanças de comportamentos direcionadas para um cuidado com a criança, como pode-se verificar nas seguintes falas: “Eu sempre tive vontade de ser pai, e no momento que eu fui, a minha vida transformou, em questões de sentimentos, de tudo, a transformação completa pra mim” (Pai 3); “Agora depois que eu fui pai eu mudei bastante, que eu já fiz muita coisa errada, não vou mentir [...] depois agora dessa minha menina que nasceu eu botei a cabeça pra pensar, eu mudei bastante agora” (Pai 19). Essa experiência de transição para a paternidade oportuniza ao homem ressignificar sua história enquanto filho e na construção da sua nova identidade de pai.

A presença como exercício da paternidade

Ao ser lançada a pergunta “Como você pode exercer a paternidade com seu filho?”, o Pai 4 declara que o seu papel se restringe ao registro da filha, a reconhecendo enquanto tal: “Ela tá registrada já no meu nome, no nome da mãe. Isso é o jeito de ser, né? Registrar. Ela tá registrada já no meu nome e no nome da mãe já, graças a Deus. Já vai sair daqui sendo registrada, pra não dá mais erro em nada, entendeu? E é assim”. Uma pesquisa realizada por Feijó18 aponta um crescimento de 17,8% no número de domicílios com mães solos entre os anos de 2012 e 2022, passando de 9,6 milhões para 11,3 milhões. Logo, em uma realidade sociocultural em que o número de mães solos é demasiadamente alarmante, reconhecer a paternidade parece ser o principal papel do participante enquanto pai.

Conforme a Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (ARPEN) – Brasil19, de janeiro de 2016 até julho de 2024, das 23.055.436 crianças nascidas em nosso país, 1.281.303 se enquadram no critério de pai ausente, contendo em seu registro apenas o nome da mãe. Isso quer dizer que 5,56% das crianças nascidas no referido espaço temporal convivem apenas com a presença da figura materna. Nessa situação, a mulher é incumbida pelo cuidado do filho e vivencia o puerpério sem o suporte do companheiro, tornando-se mais vulnerável ao adoecimento mental nesse período, em decorrência da extensa demanda advinda dos cuidados com o bebê.

Elucida-se, ainda, que o registro de reconhecimento de paternidade não garante uma participação e envolvimento do pai nas diversas áreas da vida da criança. Assim, é preciso que o pai esteja comprometido com o desenvolvimento integral do filho com uma vinculação segura. O Pai 8 aborda que o convívio “só vai aumentar cada vez mais meu amor como um pai”.

Desse modo, a palavra “presença” foi central na maioria dos discursos paternos. Os pais afirmam que a efetivação da paternidade ocorre por meio da presença constante no cotidiano, como pode ser verificado a seguir:

Eu vejo muito uns pais que são distantes, realmente a palavra correta é essa, são distantes, o filho tá ali, mas você tá no celular, você tá assistindo alguma coisa, você tá preocupado com o trabalho ou querendo, muitas vezes, até tá com os amigos, mas, muitas vezes, pra você ser pai você precisa abrir mão de algumas coisas, abrir mão de coisas até suas em prol daquelas pessoinhas ali que precisam de você [...] então eu acho que ser pai, a palavra que define, pra mim, é “presença”, estar presente

(Pai 17).

O pai acima mencionado relata que as suas experiências com outras filhas, especialmente durante a pandemia de Covid-19, ressignificou a paternidade ao realizar atividades em casa, como a brincadeira de pula-pula, construindo trocas significativas com memórias afetivas e fortalecimento do vínculo: “[...] então é uma alegria pra elas e pra mim quando a gente tá dentro do pula-pula brincando, pra elas é uma felicidade e pra mim também [...]” (Pai 17). Importante destacar que a presença deve ser não apenas física, mas também interacional, como aborda o Pai 3: “Não é só a presença, como posso dizer assim, financeira, mas uma presença física, uma presença de sentimentos, de tá ali acolhendo”.

Em síntese, o principal papel paterno, segundo os participantes, é: “Ser presente” (Pai 18); “Tá presente em todos os momentos da vida dela” (Pai 11); “Sempre tá junto com ele, dá amor, carinho e atenção” (Pai 10); “Ser um pai presente. Um pai que tá ali em todo o seu processo educacional, não sendo ditador, mas sendo um pai que tenta mostrar o caminho correto para o filho” (Pai 15); “Dar a melhor educação pra ela, batalhar sempre pra ter as coisinhas dela, nunca deixar faltar nada, sempre tá presente quando precisar” (Pai 14); “Um pai pode tá exercendo sua paternidade estando presente no dia a dia da filha. Questão de escola, é ver o crescimento, infância, adolescência, tá presente” (Pai 20). Por fim, a presença é reconhecida, para os participantes da pesquisa, como essencial no desenvolvimento da paternagem como o mais básico e importante papel do homem com o(a) filho(a) e a família. Os estudo brasileiros realizados com pais no pré-natal e na gestação corroboram os resultados desta pesquisa ao abordarem o “estar presente” como fonte de apoio à companheira20 e uma forma de os homens demonstrarem compromisso e responsabilidade com a díade mãe-bebê21.

Os discursos paternos também convergiram para o papel do pai se fazendo presente no cuidado com os filhos em complementaridade aos cuidados maternos, uma vez que os homens reconhecem que a função de cuidado também compete a eles, mas de forma complementar, sendo exercido especialmente quando a mulher não puder realizar. O relato do Pai 5 ilustra bem essa crença: “Como eu já tô fazendo aqui, ajudando a mãe desde o pré-natal em todos os momentos cuidando do bebê pra ela ter um pouco mais de descanso nesse pós-parto, já que ela teve uma pequena complicação”. O homem reconhece a importância da sua participação na gestação, parto e puerpério; no entanto, é relevante pontuar que o pai apresenta a realização dos cuidados com o bebê como uma forma de proporcionar “um pouco mais de descanso nesse pós-parto” para a companheira, não abordando claramente que essa também é uma atividade de competência dele.

Braga22, ao estudar o vínculo pai-filho, destaca a importância de políticas públicas com estratégias de cuidados para a saúde do homem, ressaltando a importância da construção de espaços que contribuam para o fortalecimento da relação paterno-filial. Como resultado do binarismo socialmente construído, que atribui determinadas atividades com base no gênero, o homem é afastado das tarefas de cuidado, mesmo que haja o interesse. Desse modo, muitas vezes, o pai não se posiciona enquanto agente de cuidado com o RN, reconhecendo essa tarefa como obrigação da mulher. Assim, o homem compreende sua contribuição como “ajuda” à puérpera, e não como tarefa de sua atribuição enquanto pai1.

Uma pesquisa explorou a expressão “paternidade ativa” nas redes sociais e, ao analisar os dados, surgiu a expressão “pai que ajuda” em oposição ao “pai que cuida”. O “pai que ajuda” se refere a homens que realizam os cuidados básicos da criança, especialmente diante da orientação e solicitação da companheira, que permanece como a responsável principal23.

Discurso semelhante pode ser percebido na fala a seguir, em que o participante apresenta seus cuidados como forma de ajudar sua companheira: “Ensinando, educando, cuidando dele quando criança, também. Ajudar a esposa também. Tudo isso ajuda na paternidade. Com o crescimento dele, participar mais da criação dele, do crescimento, da evolução dele. Tudo isso influi em ser pai” (Pai 16).

Nesse mesmo sentido, o Pai 19 busca se fazer presente nos cuidados da saúde do filho e aborda: “Não vou deixar faltar uma vacina de posto, tá ligado? Vou tá sempre no pé da mãe”. O sentido atribuído pelo participante remete a uma paternidade exercida em vigilância aos cuidados maternos, com sua intervenção caso a mulher não o realize. O discurso “tá sempre no pé da mãe” responsabiliza a mulher por tal tarefa e secundariza o homem das referidas atividades, colocando-o em cena para manter a ordem e o controle ao investigar se os cuidados ao bebê estão sendo realizados com maestria pela mãe.

Contudo, o Pai 9 reconhece a importância da sua participação nos cuidados com o neonato e os benefícios para a sua mulher: “Desde o meu outro filho que eu fiz questão de tá presente, no parto, de tá presente no resguardo. É tanto que eu até me afastei dos meus trabalhos pra tá com ela, é isso a gente tem que se colocar muito no lugar da mãe [...] o filho não depende só da mãe, depende do pai também”. Esse discurso compreende que as atribuições de cuidado e engajamento familiar são de competência do casal, considerando as condições reais e de trabalho de cada membro. Um estudo realizado por Trage e Donelli traz resultados que se assemelham ao encontrado nesta pesquisa referente ao reconhecimento dos pais da importância da afetividade, vinculação emocional e participação do cuidado com o filho, mesmo que seja reconhecida a mãe como principal cuidadora14.

Sendo assim, os pais da pesquisa reconhecem que suas presenças são importantes, trazem benefícios aos seus filhos e desenvolvem um melhor vínculo pai-bebê: “A gente quando é filho requer muito carinho do pai e atenção também. A gente ver o pai trabalhando direto e não dar tanta atenção, aí não vai gerar tanto afeto, né?” (Pai 13). A partir disso, o participante acrescenta que sua presença é fundamental para proporcionar uma base segura e afetuosa ao filho: “Pra dar um carinho, mostrar também que tá ali e mostrar também que muitas vezes é o super-herói do filho” (Pai 13).

Por fim, compreende-se que o parceiro tem um papel fundamental durante todo o ciclo gravídico-puerperal. Logo, sua participação deve ser estimulada desde o pré-natal, momento significativo em que o pai pode fortalecer os laços afetivos e emocionais, com melhor qualidade da vida conjugal. No puerpério, sua participação nos cuidados com o filho pode favorecer maior segurança à mulher por sentir-se apoiada e menos sobrecarregada com as demandas de cuidado com o RN. Assim, além do envolvimento no cuidado, o risco de violência doméstica se torna menor, em razão dessa participação e do exercício da paternidade no contexto familiar. De outra via, a ausência paterna na gestação está associada ao risco de atraso de desenvolvimento psicomotor com interferência negativa no peso do bebê, que poderá apresentar baixo peso ao nascer4,5.

Considerações finais

Os dados obtidos nesta pesquisa retratam o perfil de homens adultos jovens, residentes no interior de um estado do nordeste brasileiro, com condição socioeconômica e educacional média e que professam a religião católica ou evangélica. A maioria dos participantes vivenciam a paternidade pela primeira vez e produzem um significado de uma parentalidade marcada por uma ausência de figura paterna. Realizar esse recorte é essencial, pois é preciso considerar os contextos regionais, relacionais e familiares dos participantes para compreender a transição para a paternidade, especialmente à luz da dimensão histórica e sociocultural.

Os resultados apresentados confirmam os referenciais existentes na área ao destacarem o papel tradicional do pai como responsável pela provisão material e financeira da família. Identificou-se que o estereótipo do cuidado paterno é visto como um auxílio ou ajuda à mulher, principalmente no período do puerpério em que se necessita da recuperação pós-parto. No entanto, é elucidado pelos participantes o reconhecimento da importância da presença paterna com envolvimento ativo, que contribui significativamente para o bem-estar do trinômio pai-bebê-mãe.

A experiência de tornar-se pai emergiu nesta pesquisa como um evento de grande significado na vida dos entrevistados, que relataram sentir-se mais responsáveis e comprometidos com mudanças pessoais após o nascimento do filho. Os homens afirmam a importância do investimento afetivo na relação pai-bebê, com demonstração de afeto e carinho. Com base nisso, convém ressaltar que esses discursos foram lançados, especialmente, pelos pais que não tiveram uma figura paterna como referência.

Os participantes da pesquisa afirmam que o envolvimento paterno é promotor de vínculos saudáveis, com maior desenvolvimento de afeto quando há um convívio nas atividades diárias com a criança. Os referidos achados coadunam com os resultados do sumário de evidências do pré-natal do parceiro, com a EPNP e com a PNAISH, que objetivam uma participação ativa do homem em todo o ciclo gravídico-puerperal.

Ademais, para um maior envolvimento do homem no planejamento reprodutivo, diversas ações precisam ser realizadas no cotidiano dos serviços de saúde, uma vez que os discursos com visão tradicional e conservadora não somente permeiam o contexto social e familiar, mas também adentram nas instituições, distanciando o homem das atividades e rotinas de cuidado consigo e com o outro. Contudo, é possível a realização de ações educativas, como rodas de conversas na APS, em ambulatórios e em enfermarias de alojamento conjunto na maternidade, visando à promoção de espaços acolhedores e inclusivos para os pais.

Por fim, como proposto pela PNAISH, é necessário educação permanente dos trabalhadores e gestores do Sistema Único de Saúde (SUS), com a facilitação da presença paterna nesses espaços. Diante desse cenário, faz-se mister que seja reconhecido e incentivado a capacidade do homem para o cuidado. Para isso, sugere-se a realização de pesquisas futuras com as mães e profissionais de saúde com o propósito de compreender suas percepções acerca da paternidade e do cuidado.

Agradecimentos

Aos pais participantes da pesquisa, por compartilharem suas vivências em um período tão importante da vida; aos estudantes de psicologia Danrley Moura e Deyse Pinheiro, que contribuíram para a coleta de dados; e ao HUAB, pela anuência para a realização da pesquisa na instituição.

  • Financiamento
    Bolsa de estudos recebida pela Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
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Editado por

  • Editor
    Tiago Rocha Pinto
  • Editor convidado
    Jorge Lyra

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    26 Maio 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    28 Jul 2024
  • Aceito
    16 Dez 2024
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