Resumo
Neste artigo, objetivou-se conhecer as percepções de homens trans acerca de violências vividas em diversos contextos. Realizaram-se entrevistas semiestruturadas com oito homens trans, com ou sem intervenções corporais. Após análise reflexiva de dados, o corpus concatenou-se em dois temas analíticos: “negação das identidades trans” e “controle do diverso”. Aponta-se para a prevalência da violência psicológica; a família como principal promotora de violências; e prejuízos na saúde física e mental. Relacionamentos conjugais, amizades e psicoterapias são modos de lidar com as violências em razão da ausência de suporte legal. Violências entre pares foram mencionadas como modo de reprodução de normativas de masculinidade. Compreende-se como violências de gênero atos que pretendem atacar o sujeito que se desencontra com a cis-heteronormatividade e a masculinidade hegemônica, consistindo na leitura social como possibilidade de legitimação social da identidade e consequente diminuição da vulnerabilidade.
Palavras-chave
Homens trans; Transexualidade; Violência de gênero; Violência
Abstract
This article explores trans men's perceptions of violence in different contexts. Semi-structured interviews were conducted with eight trans men, regardless of whether they had undergone interventions in their body or not. After reflective data analysis, the corpus was concatenated into two analytical themes: "denial of trans identities" and "control of diversity". The findings point to prevalence of psychological violence, family as the main perpetrator of violence and adverse physical and mental health effects. Marital relationships, friendships and psychotherapy were seen as ways of dealing with violence in the face of lack of legal support. Peer violence was highlighted as a way of reproducing masculinity norms. Gender-based violence was understood as acts aimed at attacking individuals who are at odds with cisheteronormativity and hegemonic masculinity and social reading was viewed as an alternative for promoting the social legitimization of identity and consequent reduction of vulnerability.
Keywords
Trans men; Transsexuality; Gender-based violence; Violence
Resumen
El objetivo de este artículo fue conocer las percepciones de hombres trans sobre violencias vividas en diversos contextos. Se realizaron entrevistas semiestructuradas con ocho hombres trans, con o sin intervenciones corporales. Después de un análisis reflexivo de datos, el corpus se concentró en dos temas analíticos: “negación de las identidades trans” y “control de lo diverso”. Se señala la prevalencia de la violencia psicológica, la familia como principal promotora de violencias, los perjuicios en las salud física y mental. Relaciones conyugales, amistades y psicoterapias son modos de enfrentar las violencias debido a la ausencia de soporte legal. Se mencionaron las violencias entre pares como modo de reproducción de normativas de masculinidad. Se comprenden como violencias de género los actos que pretenden atacar al sujeto que se desencuentra con la cis-heteronormatividad y la masculinidad hegemónica, consistiendo en la lectura social como posibilidad de legitimización social de la identidad y consecuente disminución de la vulnerabilidad.
Palabras clave
Hombres trans; Transexualidad; Violencia de género; Violencia
Introdução
A década de 2010 pode ser apontada como um momento histórico em relação às identidades transmasculinas devido a sua emergência em espaços sociais, acadêmicos e contextos de saúde no Brasil. Isso se deu a partir de um conjunto de acontecimentos, como o crescimento comercial da internet e a constituição de associações exclusivas para homens trans. Exemplos disso são a Associação Brasileira de Homens Trans (ABHT) de 2012, e o Instituto Brasileiro de Transmasculinidade (IBRAT) de 2013, que favoreceram a inclusão desses sujeitos na agenda da saúde por meio da portaria do Processo Transexualizador de 20131,2.
As identidades trans referem-se a:
[...] pessoas que, em diferentes contextos sociais e culturais, conflituam com o gênero (com que foram assignadas ao nascer e que foi reiterado em grande parte da socialização delas) e, em alguma medida (que não precisa ser cirúrgica/química), decidem modificá-lo3. (p. 515)
No caso, pessoas transmasculinas são aquelas que se identificam com aspectos do gênero masculino, mas foram designadas como do sexo feminino ao nascer. Compreende-se que quem se identifica como homem trans se localiza dentro de um aspecto binário de gênero, enquanto quem se identifica como pessoa transmasculina não necessariamente se identifica dessa forma. Essas pessoas são reconhecidas pelo processo de transição, com ou sem intervenções hormonais e cirúrgicas, com destaque para o fenômeno da leitura social.
A leitura social é uma expressão utilizada para se referir à possibilidade de uma pessoa ser reconhecida como pertencente a um gênero que não o designado ao nascer e envolve a modificação tanto física de características do gênero pretendido quanto de comportamentos culturalmente associados a tal gênero. Evidencia-se, nessa definição, o sentido visual como o principal aspecto no reconhecimento do gênero, de modo que a aparência física, atrelada a aspectos culturais, é determinante para a leitura generificada3.
Em um cenário em que as normas sociais dominantes são o binarismo, a cisgeneridade, a heterossexualidade e a congruência entre sexo biológico e o papel a ele destinado, tudo o que destoa é marginalizado. Nesse contexto, a vulnerabilidade de pessoas transexuais às violências é imensa4.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a violência é definida como:
O uso intencional da força física ou do poder, real ou em ameaça, contra si próprio, contra outra pessoa, ou contra um grupo ou uma comunidade, que resulte ou tenha grande possibilidade de resultar em lesão, morte, dano psicológico, deficiência de desenvolvimento ou privação5. (p. 5)
Destaca-se em tal definição a palavra “poder”, que amplia a natureza dos atos violentos e inclui aqueles decorrentes de relações desiguais, como a transfobia. Esta se fundamenta na compreensão de relações de gênero e sexualidade respaldadas em normas cisnormativas e binárias e é atravessada por dimensões sociais, como classe, raça e etnia. Assim, configura-se não apenas como categoria descritiva, mas também como um projeto político transexcludente entrelaçado nas bases da necropolítica6-8.
O Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais no mundo, o que os mantém com expectativa de vida de 35 anos9. Entre 2017 e 2022, 912 pessoas trans e não binárias foram assassinadas no país. Entre 2015 e 2017, foram notificados 24.564 casos de violência contra pessoas LGBTQIAPN+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Travestis, Queer, Intersexo, Assexual, Pansexual, Não-binárie e outras experiencias não cisheterenormativas), sendo 11.434 (46,6%) contra travestis e transexuais10,11. Especificamente contra homens trans, dados mostram que 85,9% já sofreram violências transfóbicas, 82,9% violências machistas/misóginas e 64,5% outras formas de LGBTQIAPN+fobias12. Além disso, 50,6% já viveram assédio sexual, 22,4% gordofobia, 17,7% racismo, 8,1% xenofobia e 7,3% capacitismo. As violências ocorreram sobretudo em lugares públicos (78,2%), no ambiente doméstico/familiar (63,8%), na escola/universidade (58,4%), no ambiente de trabalho (40,4%), na internet (0,9%) e nas redes sociais (0,3%)12.
É importante salientar que o levantamento e a sistematização anual de dados sobre violências contra pessoas LGBTQIAPN+ é realizado por organizações não governamentais e que o acesso espontâneo às informações sobre gênero e sexualidade das notificações registradas no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) é difícil13.
A invisibilidade social das violências que afetam a vida de pessoas trans é concreta. Em geral, tais crimes ficam sem punição: “a cada quatro homicídios o criminoso foi identificado em menos de 25% das vezes. Além disso, menos de 10% das ocorrências resultaram em abertura de processo e punição dos assassinos”14 (p. 108).
Essa invisibilidade da violência e da morte dos homens trans e de pessoas transmasculinas decorre, entre outros motivos, pela identificação equivocada de marcadores corporais de gênero, não retificação de documentos e rejeição às suas identidades. Segundo Pacheco15, há uma “produção ativa da invisibilidade” no que se refere a crimes de ódio no Brasil, que favorece a banalização e a naturalização dos mecanismos que sustentam as relações de poder e ditam quem deve existir e de que forma.
Considerando tal processo e a escassez de estudos sobre o tema, realizamos uma pesquisa para conhecer percepções de homens trans acerca de violências vividas. Este artigo é fruto dessa pesquisa e se apresenta como contribuição de caráter inédito a partir do seu objetivo.
Método
Trata-se de estudo exploratório, transversal e com abordagem qualitativa. As normas para pesquisa envolvendo seres humanos16 foram rigorosamente seguidas e a pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Uberlândia, sob parecer n. 3.203.707 e CAAE 01052918.5.0000.5152.
Participaram do estudo homens trans atendidos pelo Centro de Referência em Atenção Integral à Saúde Transespecífica (CRAIST) do Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia, serviço no qual podem acessar atendimentos psicossociais (com serviço social e de Psicologia), médicos (com a presença de endocrinologista, ginecologista e psiquiatra) e de assistência jurídica.
Os critérios de inclusão delimitaram pessoas designadas pelo gênero feminino ao nascer que se autodeclaram homens ou homens trans, maiores de 18 anos e que se apresentavam em condições de comunicação para entrevista. Não houve restrição de inclusão ou exclusão quanto às intervenções hormonais e/ou cirúrgicas. Os participantes foram convidados a participar da pesquisa enquanto aguardavam atendimento. Houve duas recusas. Aqueles que aceitaram assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e preencheram um formulário de dados sociodemográficos.
As entrevistas individuais ocorreram entre abril e julho de 2019, em uma sala do serviço, com o apoio de um roteiro de entrevista semiestruturado elaborado com base na literatura sobre violência de gênero17. O roteiro abordou percepções sobre violências vividas, seus autores, consequências, locais onde ocorreram e presença ou ausência de apoio. As entrevistas foram gravadas em áudio e transcritas na íntegra. O critério de saturação foi utilizado para determinar o término da produção de dados18. Optou-se por identificar os participantes pela inicial de seus primeiros ou segundos nomes.
A análise de conteúdo temática reflexiva descrita por Braun e Clarke19 foi utilizada para tratar os dados produzidos, com auxílio do software QDA Miner Lite®. Os dados, apresentados e discutidos a seguir, foram organizados em dois temas analíticos: “negação das identidades trans” e “controle do diverso”.
Ao considerar o caráter exploratório da pesquisa que resultou neste artigo e a diversidade de vivências e identidades de homens trans, é importante apontar suas limitações. A pesquisa foi realizada em um ambiente ambulatorial específico à saúde trans, o que pode tendenciar as experiências nesse contexto de assistência. Além disso, os participantes residem em uma mesma região e não apresentam diversidade étnica e geracional e, portanto, diversas interseccionalidades relacionadas às violências vivenciadas por homens trans não foram exploradas, indicando necessidade de aprofundamento em pesquisas posteriores.
Resultados e discussão
Participaram da pesquisa oito homens trans, com idades entre 19 e 35 anos, sendo sete brancos e um preto. Sete são heterossexuais e um é homossexual. Cinco participantes são casados ou possuem união estável e três são solteiros. Um participante tem um filho biológico e dois têm enteados. Com relação à escolaridade, dois fizeram ensino fundamental, cinco completaram o ensino médio e um completou o ensino superior. No momento da pesquisa, um participante era estudante, dois estavam desempregados e cinco trabalhavam em uma das seguintes ocupações: operador de caixa, açougueiro, atendente de telemarketing, segurança e recrutador de recursos humanos. O entrevistado que frequentava o serviço há mais tempo o fazia há cinco anos, enquanto o mais recente iniciara há duas semanas. Sete estavam passando por hormonização. Dois entrevistados haviam feito mamoplastia masculinizadora(d) e cinco desejavam fazer esse procedimento. Todos os homens entrevistados percebem já ter sofrido algum tipo de violência – e, na presente pesquisa, compreende-se que tais violências são sempre de gênero. A seguir, discutimos cada uma delas.
Negação das identidades trans
Quando questionados sobre violências vividas, todos os entrevistados relataram situações em que suas identidades de gênero foram negadas, em contextos tanto privados quanto públicos. Nessa primeira categoria, tratamos de tais vivências.
No âmbito privado, especialmente entre familiares, há episódios sistemáticos em que são tratados pelo nome de registro ou por meio de pronomes femininos: “[...] minha mãe, minha tia, toda a família me chama de [nome de registro]. É ‘ela’, ‘minha sobrinha’, ‘minha filha’ ” (E).
Alguns relatam que antes de se reconhecerem como pessoas trans, entendiam-se como mulheres lésbicas, e suas famílias os aceitavam. Mas quando compreenderam a transexualidade e começaram o processo de transição, não encontraram aceitação: “Meu pai falou uma vez que eu não era filho dele por ser assim. Foi pesado” (B); “Me identificava como uma menina lésbica e minha mãe falava ‘eu te amo como você é’. Quando falei que sou um homem trans, cortou o papo” (A).
Segundo os relatos, mesmo quando há uma suposta aceitação da transexualidade, familiares seguem negando a identidade de gênero de seus filhos/sobrinhos/netos/irmãos/enteados.
Esse processo também aparece em relações amorosas: “[...] tive uma ex no começo da transição que falava que eu nunca ia ser homem” (Y). Essa conjuntura vivenciada por homens trans em relacionamentos íntimos ocorridos pós-transição institui relações de desconfiança quanto à aproximação de eventuais parceira(o)s “[...] em decorrência, principalmente, de sua não correspondência corporal à norma cisgênero que define homem-pênis”20 (p. 12).
Segundo tais autores20, esse processo resulta em grande desgaste emocional. Os entrevistados afirmam que quando seus familiares e companheira(o)s agem dessa forma, deixam de ser rede de apoio, e que sentimentos como descrédito, frustração, baixa autoestima e rejeição se intensificam: “[...] se minha mãe não me aceita, quem dirá os outros” (A).
Em decorrência de vivências como essas, quadros depressivos, estresse, uso problemático de álcool e outras drogas e ideação suicida estão presentes na vida dos entrevistados – e não são raros entre pessoas transmasculinas21,22. Inclusive, a prevalência de tais sintomas é maior quando comparada com a população geral22,23. Pessoas trans que referiram receber maior apoio às suas identidades por parte de familiares, amigo(a)s e/ou parceiro(a)s apresentaram redução de 28% de sintomas depressivos e 27% de ideação suicida em relação àquelas com baixo nível de apoio23,24.
O sofrimento causado pela falta de apoio familiar e negação da identidade faz com que os homens trans acabem saindo de casa, muitas vezes, bem cedo: “[...] sabe o que eu fiz? Fui embora, saí de casa com 12 anos” (J). As violências intrafamiliares vividas por homens trans “[...] têm causado a expulsão de filhos de suas moradias, ausência de auxílio econômico e desconsideração sobre seu lugar como importante na família”25 (p. 69). Além dos impactos emocionais, esse processo diminui as possibilidades de estudo e qualificação profissional. Isso prejudica suas condições materiais e dificulta a concretização das transições de gênero que podem envolver hormonização e modificações cirúrgicas26.
Por questões materiais e afetivas, alguns escolhem tolerar as violências e permanecem com suas famílias. Entretanto, para amenizar conflitos, anulam aspectos importantes de suas vidas e deixam de levar amigos em casa ou escondem marcas do processo de transição. Por exemplo, um dos entrevistados que vive com a família considera sua barba um troféu, mas não a deixa crescer pois seus pais não aceitam.
Os processos de negação da identidade não são prerrogativa doméstica e acontecem também em espaços públicos. A recusa ao uso do nome social é frequente em ambientes de trabalho e serviços de saúde, onde o desrespeito é frequente27,28. Mesmo quando solicitam o uso do nome social, seguem tratados pelo de registro: “Ele [enfermeiro] disse que tinha que colocar o de registro. Eu perguntei ‘mas nem pra chamar pra consulta?’. Ele disse ‘não, tem que ser igual o documento, é seu nome, tem que aceitar’ ” (B).
A violência em locais que deveriam ser de cuidado afasta as pessoas trans dos serviços de saúde: “[...] no pronto-socorro, quando me chamam, eu levanto e todo mundo olha. Tô há 10 dias com dor de dente e não vou lá ver” (E).
A taxa de permanência da população transexual é mais alta em serviços que apresentam atendimento adequado e baseados na despatologização das identidades trans. Entretanto, há dificuldade em encontrar práticas de cuidado satisfatórias em termos da afirmação do gênero, sem expectativas heterocisnormativas e com manejo clínico acertado29.
Há profissionais de saúde que alegam não ter tido formação adequada para atender a população LGBTQIAPN+28-30. Entretanto, diante da quantidade de informação disponível, não é mais aceitável tal alegação, que parece ser mais uma justificativa para o não atendimento ou atendimento inadequado que normalmente acontece30,31.
É necessário, portanto, que os profissionais passem a ser responsabilizados por atitudes antiéticas e transfóbicas. Desde 2019 o Supremo Tribunal Federal considera que condutas homofóbicas e transfóbicas se enquadram na tipificação da Lei do Racismo32, o que amplia a proteção à comunidade LGBTQIAPN+, já que as ofensas passam a ser punidas como injúria racial.
Outra manifestação dessa tentativa de negação da identidade, que também é vivida em ambientes públicos e privados, é a violação do direito à privacidade. Há relatos recorrentes entre os entrevistados nos quais suas identidades trans são expostas sem sua autorização: “[...] Meus pais falam pra todo mundo que eu sou trans, parece que eles têm necessidade de falar isso e eu não sei por quê” (L).
Existem leis e normativas33,34 para proteger a identidade de pessoas transexuais, como o direito ao uso do nome social em órgãos públicos; autarquias; e empresas estatais e federais, valendo a medida para funcionários(as) e usuários(as). Apesar de ainda não haver garantias legais para o uso do nome social em espaços privados – com exceção de instituições de educação35 –, essas normativas – mesmo não tendo caráter legal – podem e devem ser usadas no âmbito privado.
Apesar de frequente, a violação à privacidade não é a única manifestação das tentativas de negação da identidade trans no âmbito público. No contexto de trabalho, os entrevistados expõem outras condições degradantes: “[...] consegui serviço numa empresa pequena porque eles gostavam da minha aparência feminina. Quando fui vestido no masculino, me mandaram embora” (L); “[...] eles disseram ‘a gente vai te aceitar aqui, mas não vai usar o banheiro masculino’. Como entro no feminino de barba, roupa masculina?” (M).
Os locais de trabalho são espaços de opressão e humilhação para pessoas trans e raramente essas situações são denunciadas36, já que as vítimas não podem arriscar seus empregos. Nas escolas ocorrem situações semelhantes, que contribuem para o aumento da evasão dos homens trans, que acabam em um ciclo de trabalhos precários e de baixa estabilidade27.
Transportes e espaços de lazer, como bares e lojas, também se configuram como locais hostis. Devido à vulnerabilidade vivenciada em espaços públicos, a reclusão social é uma estratégia de proteção comum. Os homens trans deixam de frequentar locais com muita gente, como eventos sociais e os próprios locais de trabalho: “[...] eu não faço mais nada, fico só dentro de casa. Tem seis dias que eu falto no serviço e na faculdade” (Y).
Essa decisão reflete o medo de sofrer violência e revela um paradoxo cruel ao qual os homens trans estão submetidos: a dificuldade de encontrar espaços e relações de conforto e segurança: “[...] depois que começa o tratamento, muita gente entra em depressão porque é expulsa de casa, é violentada na rua” (B).
Assim como ocorre com a violência sofrida em casa, essas vivências diminuem a autoestima, intensificam fobias sociais e aumentam ideação e tentativas de suicídio: “[...] não consigo nem passar próximo do trabalho. Tentei suicídio duas vezes esse ano” (S); “[...] aprender a viver com essa violência dói muito. Eu penso ‘a sociedade não vai mudar, pra que que eu vou ficar aqui?’ ” (M). Apesar de a ideação e a tentativa de suicídio serem vivências frequentes entre homens trans37, em 2022 foram registrados apenas seis casos10, o que remete à subnotificação das violências contra a população transmasculina. A ausência de dados torna difícil denunciar os atos e visibilizar os mecanismos simbólicos de discriminação9.
O preconceito que motiva as violências contra homens trans está alicerçado no não cumprimento de estereótipos de gênero e da cisnormatividade12. A transfobia cumpre um papel de punição àqueles que não se dispõem ao discurso binário e naturalizante do gênero a partir do sexo biológico38. Em tal processo, a afirmação de si não tem importância e homens trans ainda precisam valer-se de instituições reguladoras para tentar viver como sujeitos: “[...] por que um papel que um juiz assinou vale mais do que minha palavra? Eu tô falando quem eu sou, eu sei quem eu sou” (E).
Controle do diverso
Nesta segunda categoria, discutimos outras manifestações da violência de gênero trazida pelos entrevistados, relacionadas a tentativas de regulação dos seus corpos e performances por meio de violências psicológicas/simbólicas, físicas e sexuais.
Para contextualizar a discussão, é importante apresentar brevemente as percepções dos participantes sobre os papéis sociais atribuídos a homens e mulheres. Eles entendem que padrões, funções e comportamentos preestabelecidos são potencialmente nocivos por limitarem a vida das pessoas e que o sistema de dominação masculina tende a fomentar várias formas de violência prejudiciais a todos: homens e mulheres, pessoas binárias e não binárias.
Algumas formas de violência contra pessoas trans decorrem de expectativas de adequá-las às normas esperadas de performatividade39. Relatos dos entrevistados retratam esse anseio de que, para que suas existências como homens sejam legitimadas, eles precisem ter uma completa adesão a signos corporais e comportamentais coesas às masculinidades hegemônicas: “[...] minha namorada fala que homem não pode ter mimimi. Então, se eu tenho, eu não sou homem” (L); “[...] eu sempre escuto ‘você não quer ser homem? Então por que tá com o cabelo cor de rosa? Por que pinta a unha? Por que usa saia?’ (A).
Essa cobrança aparece nos âmbitos públicos e privados, nos quais a expectativa por performances e aparências cis-heteronormativas e tradicionais geram constrangimentos: “[...] olham pros peitos e ficam ‘será que é homem?’ Porque se tem peito, é mulher, uma lésbica masculina. Dói mais que injeção de hormônio” (E). Esse exemplo assinala que uma das vulnerabilidades dos homens trans ainda está atrelada à leitura social cisgênera.
Isso porque, quando a leitura social cisgênera não é suficiente para protegê-los, ou seu direito à privacidade é violado, os entrevistados se sentem vulneráveis, especialmente em espaços públicos, como bares/baladas, ônibus, serviços de saúde e no trabalho: “[...] se em algum momento descobrirem que é um homem trans, um rapaz com vagina, seja no lugar que for, vai estar suscetível à violência” (S).
Para os entrevistados, mesmo homens com leitura social cisgênera, se não performarem a masculinidade esperada, podem gerar desconfiança a respeito de suas identidades e vivenciar situações violentas, especialmente se, devido à não reprodução de estereótipos, forem tomados como gays: “[...] acham que pra ser homem tem que ser grosso, assobiar pra mulher, cuspir no chão, coçar o saco. Se você não fizer o que tá no padrão, não pode, é gay” (E). De fato, há um risco real de agressão, já que a prevalência de violência contra gays e lésbicas é alta no Brasil (20%). Além disso, em 65% dos casos, o provável agressor é do sexo masculino11,40,41.
Um dos entrevistados relata que, por ser tido como uma mulher lésbica durante sua adolescência, sofreu algumas tentativas de estupro – que ele nomeia como corretivas pela intenção de controlar seu comportamento social e sexual. O estupro corretivo é uma prática que ocorre com mulheres lésbicas, homens trans, pessoas transmasculinas, pessoas não binárias designadas mulheres ao nascer, travestis e mulheres trans10. Além de uma afirmação do poder dos homens, esta prática representa o imperativo da heterossexualidade e da cisgenereidade. Seu principal objetivo é reafirmar a identidade de gênero atribuída e a “cura” da homossexualidade/transexualidade42.
Entretanto, é difícil identificar o caráter corretivo das violências sexuais notificadas, já que nem sempre a ficha é preenchida adequadamente11,43. Contudo, ao analisar conversas de homens trans em grupos de redes sociais, Nery44 afirma que os estupros corretivos ocorrem “[...] numa frequência assustadora” (p. 9).
Os homens entrevistados têm receio: “[...] imagina o que uma pessoa que quer dar um corretivo numa mulher lésbica vai querer fazer com um homem trans?” (S). Nesse contexto de medo, a leitura social cisgênera protege os homens trans exatamente por invisibilizá-los45. Desta forma, não é raro que os processos envolvidos na transição de gênero desaguem na leitura social desses homens a partir dos padrões hegemônicos de masculinidade46.
Entre os entrevistados, o alcance da leitura social cisgênera é percebido como uma possibilidade de calmaria: “[...] minha vida melhorou 1000%. Quando comecei a ter características masculinas, todas as confusões acabaram” (S); “[...] não tenho mais medo, praticamente não sofro violência porque já sou passável, tenho barba” (B).
Almeida3 nomeia tal desejo-conquista de “direito à indiferença” e afirma que a leitura social de um corpo cisgênero – adquirida rapidamente pelos homens trans –, acarreta um “[...] agradável momento de trégua na estressante e contínua batalha por respeito à identidade/expressão de gênero” (p. 519).
Subverter a leitura social ao “se passar por homem” – isto é, ter um corpo trans lido como não trans ou cis de fato – permite vez ou outra escapar de determinadas violências47. Mas isso se dá ratificando o próprio sistema que as gera, ou seja, reforçando os limites da expressão binária de gênero, não com uma ação individual que os responsabiliza por isso, mas como um movimento que desnuda processo sociais que (re)produzem hierarquias por meio dos gêneros.
Nesse processo, imposições às transmasculinidades podem ocorrer entre os próprios homens trans. Segundo entrevistados, a partir de uma conceitualização estrita de masculinidade, alguns entendem como “verdadeiros trans” apenas aqueles que apresentam signos corporais ditos masculinos e alcançam completa leitura social. Isso se manifesta em salas de espera e redes sociais:
Existe preconceito de homens trans para homens trans... eu vejo meninos mais velhos, mais antigos, com corpão malhado, rosto com barba, voz grossa que não acolhem os meninos que tão chegando acuados, precisando de uma mão amiga. Alguns meninos fazem o contrário, fazem piadinha porque o cara não tem traço masculino, ainda não tem como escolher nome masculino e ficam falando assim “você não é homem trans porque você não sabe nem que nome vai usar, não tem barba, não toma hormônio”. (S)
É importante ressaltar que o ambulatório em que a pesquisa foi realizada considera as discussões sobre despatologização das identidades trans48-50. Portanto, não define as vivências transexuais como patológicas, não emite diagnósticos de “transexual verdadeiro” e valoriza a autodeclaração de gênero do(a)s usuário(a)s, o que lhes confere autonomia e liberdade de expressão.
Entretanto, existem características entendidas socialmente como fundantes da masculinidade, traços que conceituam a chamada “masculinidade hegemônica” e que marcam um objetivo aspiracional que deve ser cumprido como prova de masculinidade51-53.
A lógica que legitima determinadas masculinidades reforça o rechaço a identidades e corporalidades transmasculinas alternativas, que persistem na contramão dos padrões de cisgeneridade e masculinidades hegemônicas: “Trata-se de corpos que não apenas ‘sofrem’ a ação da história e da cultura, mas que se transformam para se adequarem e passarem a caminhar dentro da cultura”46 (p. 3905).
Assim, muitas vezes, mesmo sendo considerada arbitrária e injusta, a leitura social cisgênera é definida e assumida como horizonte normativo: “[...] eu acho injusto você ter que passar por um tratamento hormonal, ter vários problemas no corpo só pras pessoas te aceitarem como você é. Mas tamo aí, né?” (M).
Nesse contexto, é importante destacar que o acesso de pessoas trans a meios de modificação corporal não é equânime ou sempre desejado e que o fato de a leitura social cisgênera existir não elimina vulnerabilidades presentes em experiências trans em decorrência do contexto cis-heteronormativo.
Considerações finais
A violência está presente em diversos âmbitos da vida dos homens trans e gera sérias consequências, como o rompimento de vínculos afetivos, abandono escolar, dificuldade em acessar e manter-se em empregos formais, desassistência à saúde e sofrimentos psíquicos.
As violências discutidas enquadram-se no que nomeamos como violências de gênero, já que se relacionam ao não cumprimento de normas sociais relacionadas à cisgeneridade, à heterossexualidade e à masculinidade hegemônica.
Na primeira categoria, foram discutidas as violências que perpassam a recusa afetiva, social e institucional das identidades que escapam à normativa cisgênera e que se manifestam como uma tentativa de aniquilar a existência desses sujeitos.
Na segunda categoria, foi a vez de discutir as violências que visam invalidar as performances de masculinidade (re)criadas pelos homens trans quando divergem das normas hegemônicas. Tal categoria é de relevância especial, pois identifica esse funcionamento social entre a própria comunidade transmasculina e o papel das tecnologias de gênero no engendramento de (novas) manifestações de violência de gênero.
A violência que atinge homens trans é perpetrada por pessoas comuns, como agentes de instituições que se perpetuam como locais de exclusão, discriminação e preconceito54.
Os pontos de apoio; e recursos legais e institucionais existentes são escassos, insuficientes e nem sempre atuam de forma adequada54,55. Em 2013, o Conselho Federal de Psicologia publicou uma nota técnica56 afirmando que a transexualidade e a travestilidade não constituem condição psicopatológica e, por isso, a assistência psicológica não deve se orientar em modelos patologizantes. Entretanto, ainda há muitas instituições e profissionais de saúde mental que emitem laudos psiquiátricos/psicológicos e promovem noções de “cura gay”57,58.
Apesar de qualquer um estar exposto a injustiças, os integrantes de grupos subalternizados vivenciam de forma acentuada situações de humilhação e dinâmicas sociais que invalidam suas experiências55. Para esses sujeitos, extremamente vulnerabilizados, restam poucos espaços de inclusão social que favoreçam um sentimento de pertencimento na organização social54. De acordo com Neves e Peçanha59, pessoas trans não lutam somente por melhorias de condições como qualquer cidadã(o), mas também por direitos de acesso a essas mesmas instituições cispatriarcais que pessoas cisgêneras acessam muitas vezes desprezando seus direitos já adquiridos. Dessa forma, é compreensível que pessoas LGBTQIAPN+ não se sintam protegidas para buscar qualquer tipo de atendimento e informações sobre sua saúde e/ou segurança.
Os autores de violências de gênero obedecem ao ordenamento social sem considerar, inclusive, as consequências de seus atos ou podem estar, até mesmo, certos da impunidade. Essa ausência de pensamento – característica das sociedades modernas – é que fomenta o aparecimento do mal, de forma banal, em contextos de absoluta normalidade, sem qualquer motivo particular60.
Assim, um dos atos possíveis de resistência e autonomia é o “parar-para-pensar”61. Ele não é suficiente para barrar o mal, mas é condição necessária para sua superação: “Você tem que saber do que se trata pra tirar suas próprias conclusões. Com reflexão, a gente entende a dor do outro, a gente pode se pôr no lugar do outro e aí sim seríamos uma sociedade racional” (S).
Agradecimentos
Agradecemos ao Centro de Referência em Atenção Integral à Saúde Transespecífica (CRAIST), pelo acolhimento à pesquisa; e aos participantes do estudo, por compartilharem suas histórias.
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Boffi LC, Barbosa LMF, Hasse M. “Você tem que aprender a viver e isso dói”: experiências e percepções de violências vividas por homens trans. Interface (Botucatu). 2025; 29 (Supl. 1): e240143 https://doi.org/10.1590/interface.240143
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(d)
Mamoplastia masculinizadora é uma cirurgia plástica que visa dar um contorno mais masculino ao tórax, consistindo na retirada das glândulas mamárias e no reposicionamento da aréola.
Referências
- 1 Brasil. Ministério da Saúde. Portaria nº 2.803, de 19 de Novembro de 2013. Redefine e amplia o Processo Transexualizador no Sistema Único de Saúde (SUS). Diário Oficial da União. 19 Nov 2013.
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Editado por
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Editor
Antonio Pithon Cyrino
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Editor associado
Elaine Reis Brandão
