O artigo propõe uma análise comparativa da obra da escritora canadense Alice Munro (1931-2024), tendo como enfoque a recorrência do modo ficcional trágico em seus contos. O argumento converge para uma diferenciação entre a tragédia escatológica, de referência monoteísta, tal como aparece na literatura pós-apocalíptica do fim do século XX e início do XXI, e aquilo que, no nosso objeto de estudo, ganha contornos cosmológicos, a partir de referências à tradição greco-romana e às culturas politeístas da antiguidade, ainda que se mantendo em um âmbito doméstico e provinciano característico da autora. Ao configurar a tragédia na obra de Munro como um fenômeno mais próximo da tradição classicista do que da judaico-cristã, utilizando para isso também correlações com as obras de Anne Carson e Ursula K. Le Guin, torna-se possível, por outro lado, assinalar o aspecto contemporâneo da historicidade implicada na concepção do tempo em seus contos.
Palavras-chave:
Alice Munro; ficção; historicidade