RESUMO:
O texto corresponde à conferência inaugural proferida por António Nóvoa no XIII Congresso Luso-Brasileiro de História da Educação (COLUBHE), realizado na Universidade do Algarve, em maio 2026. Partindo de um balanço de sua trajetória intelectual, o autor revisita transformações da História da Educação nas últimas quatro décadas e discute os desafios contemporâneos impostos pela inteligência artificial ao trabalho historiográfico. Em diálogo com autores como Nietzsche, Walter Benjamin, Byung-Chul Han, Michel de Certeau e Michel Serres, defende a valorização da perspectiva, da narração e da comunicação como dimensões constitutivas do ofício do historiador. Ao reafirmar a centralidade da autoria, da experiência e da criação na produção do conhecimento histórico, propõe uma reflexão sobre o papel público do historiador da educação e sobre a responsabilidade intelectual diante dos desafios do tempo presente.
Palavras-chave:
História da Educação; Perspectiva; Narração; Comunicação; Ofício do historiador
RESUMEN:
El texto corresponde a la conferencia inaugural pronunciada por António Nóvoa en el XIII Congreso Luso-Brasileño de Historia de la Educación (COLUBHE), celebrado en la Universidad del Algarve en mayo de 2026. A partir de un balance de su trayectoria intelectual, el autor revisa las transformaciones de la Historia de la Educación en las últimas cuatro décadas y analiza los desafíos contemporáneos que la inteligencia artificial plantea al trabajo historiográfico. En diálogo con autores como Nietzsche, Walter Benjamin, Byung-Chul Han, Michel de Certeau y Michel Serres, defiende la valorización de la perspectiva, la narración y la comunicación como dimensiones constitutivas del oficio del historiador. Al reafirmar la centralidad de la autoría, la experiencia y la creación en la producción del conocimiento histórico, propone una reflexión sobre el papel público del historiador de la educación y sobre la responsabilidad intelectual frente a los desafíos del tiempo presente.
Palabras clave:
Historia de la Educación; Inteligencia Artificial; Narración; Comunicación; Oficio del historiador
ABSTRACT:
This text corresponds to the opening keynote delivered by António Nóvoa at the 13th Luso-Brazilian Congress on the History of Education (COLUBHE), held at the University of Algarve in May 2026. Drawing on a retrospective assessment of his intellectual trajectory, the author revisits the transformations in the History of Education over the past four decades and discusses the contemporary challenges that artificial intelligence poses to historical scholarship. Engaging with thinkers such as Nietzsche, Walter Benjamin, Byung-Chul Han, Michel de Certeau, and Michel Serres, he argues for the importance of perspective, narration, and communication as constitutive dimensions of the historian's craft. By reaffirming the centrality of authorship, experience, and creativity in the production of historical knowledge, he proposes a reflection on the public role of the historian of education and on the intellectual responsibility required in the face of the challenges of the present time.
Keywords:
History of Education; Artificial Intelligence; Narration; Communication; Historian's Craft
Hesitei em aceitar o vosso convite, pois, nos últimos anos, tenho estado afastado das lides da história da educação. Mas não resisti à insistência de amigos e colegas que muito admiro e respeito. São trinta anos do Colubhe. Se bem me recordo, o primeiro Congresso foi obra, sobretudo, dos Professores Rogério Fernandes, Elza Nadai e Marta Chagas de Carvalho, que merecem uma palavra de reconhecimento e de profunda gratidão.
Resta-me a solução de ensaiar um sobrevoo pela minha própria história na história da educação, tendo em conta que a primeira tese de doutoramento que defendi é de 1986 (faz agora quarenta anos) e a segunda é de 2006 (faz agora vinte anos). E todos sabemos que os historiadores gostam de datas redondas.
Para começar: Um aviso
Antes de iniciar, permitam-me um alerta (um aviso) a partir do que por aí se diz sobre a inteligência artificial. São textos sobre textos, cansativos, excessivos, repetitivos, explicando que o ensino superior acabou, que a universidade está obsoleta, que a educação será totalmente diferente, e assim por diante. Por muito que esta “conversa” nos desgoste, não a podemos ignorar. Precisamos estar atentos e vigilantes. Dou-vos apenas um exemplo, igual a tantos outros, de um homem muito influente no mundo digital - Laurent Alexandre (neste caso, em colaboração com Olivier Babeau).
O seu último livro tem um título que diz tudo: Não façam mais estudos: Aprender de outro modo na era da inteligência artificial1. Nele, explica-se que a Humanidade está a viver a revolução mais rápida e mais radical da sua história:
Pela primeira vez, uma tecnologia não se limita a ajudar-nos a agir ou a produzir, concorre connosco em capacidades intelectuais que julgávamos exclusivas do ser humano. A inteligência artificial põe em causa a fronteira entre o humano e a máquina, entre o autor e o algoritmo, entre o mestre e a ferramenta. Arriscamo-nos a passar de agentes incontestados a objetos passivos das tecnologias que usamos. […] A ferramenta torna-se parceira. Por vezes, decisora. E talvez em breve, iniciadora. […] Estamos a entrar num mundo onde o próprio pensamento passa a ser, em parte, exógeno, produzido noutro lugar, por outras formas de raciocínio (Alexandre; Babeau, 2025, p. 45).
Peço-vos que retenham este aviso prévio, pois ser-me-á útil para introduzir a segunda parte da minha intervenção. Por agora, permitam-me falar da minha história, com base em três datas: 1986, 2006 e 2026.
Três datas da minha história na história da educação
Primeira data: 1986
Em 1986, defendi o meu primeiro doutoramento, sobre os professores, publicado com o título Le temps des professeurs - Analyse sociohistorique de la profession enseignante au Portugal (XVIIIe-XXe siècles)2. Parece mais atual hoje do que há quarenta anos, face à degradação da profissão docente e à diminuição dos professores. Trata-se de um trabalho socio-histórico, como então se dizia, no prolongamento dos estudos da École des Annales e de outros. Uma tese construída no tempo longo, entre finais do século XVIII e princípios do século XX, muito influenciada por Philippe Ariès, Michel Foucault e, sobretudo, Max Weber.
Uma década mais tarde, procurei sistematizar em seis dimensões o que então designei por “nova” História da Educação3:
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Das estruturas aos atores: de uma história centrada nas estruturas para uma história construída a partir das pessoas (alunos, crianças, jovens), também com grande atenção aos professores, sobretudo às professoras, aos seus percursos de vida, às suas trajetórias e às suas memórias, abrangendo ainda a história das associações, dos sindicatos e dos movimentos docentes.
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Do sistema às escolas: de uma história centrada nos “sistemas educativos” para uma história atenta às escolas, às suas identidades organizacionais, à sua arquitetura, aos seus ambientes, à sua ligação com as famílias, as comunidades e os territórios, também com grande atenção à formação de professores e às suas instituições.
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Da externalidade à internalidade: de uma história construída no exterior das realidades educativas e escolares para uma valorização dos temas da cultura escolar, da forma escolar, do modelo escolar e da gramática da escola, dos debates sobre o currículo, as didáticas, as disciplinas, o tempo escolar, os métodos de ensino e os manuais escolares, com uma atenção cada vez maior às questões da educação especial e da inclusão, bem como da pedagogia.
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Das ideias aos discursos: De uma história dedicada às “ideias pedagógicas” ou aos “princípios educativos” para uma socio-história do conhecimento, analisando livros, revistas, editoras, bem como movimentos pedagógicos e modos de produção do conhecimento em educação.
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Dos factos às políticas: de uma história baseado nos factos, fortemente cronológica, para uma história socio-política, que procura analisar as reformas e as políticas públicas, os debates sobre a educação e a inscrição destes debates numa realidade social e política mais vasta.
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Do nacional ao global/local: de uma história centrada nos sistemas educativos nacionais para uma história atenta ao local e ao global, acolhendo as abordagens comparadas, construindo novas inteligibilidades com base numa reconciliação entre a história e a comparação.
Num olhar panorâmico sobre os últimos trinta anos, creio que este “mapa” continua a retratar bem o campo da História da Educação, devendo apenas referir-se a importância crescente das abordagens decoloniais (nos seus distintos desdobramentos), ainda pouco presentes naquela altura. Uma análise simples das cinco centenas de comunicações apresentadas a este Congresso confirma que é ainda neste ambiente historiográfico que se desenvolvem as pesquisas históricas em educação.
Segunda data: 2006
Vinte anos mais tarde, apresentei a minha segunda tese de doutoramento, integrando grande parte dos temas anteriores, mas agora claramente organizada a partir de uma história comparada da educação: La construction du « modèle scolaire » dans l’Europe du Sud-Ouest (Espagne, France, Portugal) - Des années 1860 aux années 19204.
O tema central é o modelo escolar, conceito elaborado em alternativa a cultura, forma e gramática escolar:
Qual a razão para sugerir um conceito alternativo? Porque os dois sentidos da palavra modelo, simétricos e opostos relativamente à noção de semelhança, imitação e representação, servem bem os nossos propósitos: por um lado, um objeto que se procura imitar, o que nos permite insistir na difusão mundial do modelo escolar, através de formas complexas de apropriação, impregnação e reprodução; por outro lado, um objeto que representa outro, o que nos permite chamar a atenção para o carácter simplificado do modelo que circula de um país para outro (Nóvoa, 2006).
Destacam-se os processos de mundialização e de universalização do modelo escolar: o primeiro explica a difusão mundial deste modelo, de tal modo que se tornará a referência obrigatória, «a coisa a imitar», em todos os países; o segundo refere-se ao alargamento deste modelo ao conjunto da sociedade, de tal maneira que toda a educação passa a ser imaginada a partir dele.
Estamos perante uma reflexão que parece ainda mais atual hoje do que há vinte anos, face aos delírios “futuristas” daqueles que anunciam uma educação sem escolas e sem professores, uma diluição da escola na sociedade, um mundo de aprendizagens online, personalizadas, flexíveis, em casa, em centros abertos 24h/24h, com tutores artificiais e motores de inteligência artificial a substituírem os professores. Não é o tema da minha intervenção hoje, mas não quis deixar de assinalar a “loucura” do que muitos estão a fazer na destruição da escola enquanto bem público e comum.
A tese termina com a citação de um texto de 1891 de Gabriel Compayré, o educador mais influente no mundo no final do século XIX, intitulado “Une thèse de Sorbonne”, no qual se afirma que a ciência e a história da educação conquistaram, nos últimos anos, direitos de cidadania na universidade: “Reconheceu-se, finalmente, que a história da educação pode oferecer temas não menos dignos da nossa reflexão do que a história de qualquer outra manifestação do espírito humano”5.
Terceira data: 2026
Agora, vinte anos depois, acabo de publicar um livro, Viagem - Por escolas de Portugal6, que não é de história da educação, mas que menciono porque na sua matriz está uma interrogação de fundo sobre os professores e sobre o modelo escolar. Andamos sempre à volta das mesmas inquietações, dos mesmos problemas.
Em educação, há muitos discursos totalizadores. A explicação de tudo deixa quase tudo por explicar. Escolho outro caminho. O que me interessa são as histórias - pequenas, mínimas, desconcertantes. Espero que a viagem transforme o meu olhar. Sem exposição ao outro, não há conhecimento. Quero dirigir a atenção para a pequena coisa - um gesto, uma palavra, um encontro, um episódio, um detalhe, um desenho, um rosto… - e não para as grandes teorias ou programas. Aproveitar os imprevistos, os acontecimentos, ver no ordinário o extraordinário. Ver para além da vista. […] O conhecimento que vem da ciência é fundamental, mas o conhecimento que está nas histórias também. Criar espaços de conversa e de diálogo, para pensar, agir e trabalhar em comum. O que muda o passado muda também o futuro. O modo como pensamos a escola, ontem e hoje, define as suas possibilidades futuras (Nóvoa, 2026).
Na conclusão, alerta-se para a necessidade de respeitar o papel e o lugar das escolas e dos professores, em vez de imaginarmos um “admirável mundo novo” sem eles. Menos ainda quando esse “mundo” se alimenta de visões mercantilistas e consumistas. Seria um retrocesso, não um progresso. Se houvesse uma interrupção no projeto histórico da escola, não perderíamos apenas uma geração, perderíamos um dos patrimónios mais importantes da humanidade. Na escola, não é só o futuro da escola que está em causa, é mesmo o futuro da nossa humanidade comum.
Este livro inspira a segunda parte da minha intervenção. Porque a viagem não são as “coisas”, é o viajante. Por analogia, podemos dizer que a história não são as “coisas”, é o historiador/a. Eis uma afirmação controversa, quase escandalosa, que procurarei fundamentar de seguida, agora que talvez tenha ficado mais claro o título que escolhi - Historiador, Historiadora da educação: O que tens para nos dizer?
Em síntese: há quarenta anos, a socio-história; há vinte, a história comparada; agora, a viagem. A socio-história escreve-se. A história comparada, também. A viagem faz-se, realiza-se.
Para continuar: um outro aviso
Volto ao aviso, alerta ou provocação inicial. Com todas as precauções e mesmo ceticismo em relação a estas profecias, quase se poderia continuar o título de Laurent Alexandre e Olivier Babeau: Não façam mais pesquisas: Investigar de outro modo na era da inteligência artificial.
Seguindo a lógica destes autores, quase poderíamos escrever: “A inteligência artificial põe em causa o modo de estudar e de pesquisar. De um modo geral, em praticamente todas as áreas, o que um pesquisador leva um ano a fazer pode ser realizado em poucos segundos pela inteligência artificial. É assim com a ciência e com a história. Dentro de alguns anos, com a digitalização massiva de todas as fontes disponíveis (manuscritas e impressas), a inteligência artificial poderá escrever facilmente quase tudo o que hoje se produz no campo histórico.”
Eis um aviso que vale a pena ouvir com atenção. Pela primeira vez na história, parece que estamos perante uma tecnologia que ameaça mais os “trabalhadores intelectuais” do que os “trabalhadores manuais”, caso esta distinção ainda tenha algum significado. O que resta? Reconhecer o lugar do historiador/a na escrita da história, a sua experiência, a sua vida, a sua perspectiva, a sua capacidade de narrar e de comunicar. Resta, metaforicamente, a viagem do historiador.
O regresso do historiador: três deslocamentos
Recorro a uma fórmula conhecida, O regresso do historiador/a, para bem marcar a necessidade de valorizar a escrita de cada autor/a. No decurso das últimas décadas, fomo-nos apropriando (e bem) dos instrumentos e dos métodos de uma história rigorosa, “objetiva”, que alguns apelidaram mesmo de “científica”. Fomos incorporando, também, a ideia de que a história é sempre uma “construção interpretativa”, com base nos enquadramentos teóricos e conceptuais adotados. Estes avanços estão bem patentes no acervo das comunicações apresentadas a este Congresso.
Mas não podemos deixar de notar que houve, nesta importante evolução do trabalho histórico, uma certa diminuição do historiador, do seu papel, da sua história, da sua perspectiva. Talvez tenha chegado o momento de uma viragem de fundo - necessária muito para além das questões levantadas pela inteligência artificial, mas que estas questões tornam ainda mais premente7.
Falo do regresso do historiador, não na forma ingénua do “cronista”, mas com a bagagem teórica e metodológica adquirida nas últimas décadas. Nesse sentido - dando-me por inteiro à controvérsia e à polémica - sugiro três deslocamentos, que vou buscar a tradições intelectuais que têm sido, de algum modo, relegadas para plano secundário no debate historiográfico. Identifico-as com três palavras, que são também conceitos: Perspectiva, Narração e Comunicação
Primeiro deslocamento: a perspectiva
O primeiro deslocamento destina-se a valorizar a perspectiva do historiador. Perspectiva = a arte de ver através de. Não é escrever a história, é pensar através da história. Não é apenas um olhar ou um ponto de vista, é reconhecer que todo o conhecimento é mediado por uma perspectiva. Estou a referir-me a Nietzsche e ao seu perspectivismo, tal como é apresentado na Genealogia da moral, que abre com uma interrogação indispensável: “Nós, os investigadores do conhecimento, desconhecemo-nos. E é claro: pois se nunca nos procurámos, como havíamos de nos encontrar?” (Nietzsche, 1990, p.7).
A forma como o autor expõe a questão é de grande clareza:
Acautelemo-nos pois, oh senhores filósofos! desta confabulação das ideias antigas acerca de um ‘assunto do conhecimento puro, sem vontade, sem dor, sem tempo’, defendamo-nos das moções contraditórias ‘razão pura’, ‘espiritualidade absoluta’, ‘conhecimento subsistente’, que seria um ver subsistente em si próprio e sem órgão visual, ou um olho sem direção, sem faculdades ativas e interpretativas? Pois o mesmo sucede com o conhecimento: uma vista, e se é dirigida pela vontade, veremos melhor, teremos mais completa a nossa ‘objetividade’ (Nietzsche, 1990, 106-107).
Nietzsche termina o seu argumento, referindo que eliminar totalmente a vontade, suprimir inteiramente as paixões - supondo que isso fosse possível - seria castrar a inteligência (Nietzsche, 1990, 107). Não se trata apenas de “ver”, mas de assumir uma perspectiva, pensada, sentida, vivida, de dar vida ao conhecimento.
O perspectivismo não se confunde com o relativismo, de tão perniciosos efeitos, também num tempo de “verdades alternativas” e de “negacionismos”. Podemos mesmo recorrer a Eduardo Viveiros de Castro e ao modo como usou este conceito na antropologia, quando, citando Gilles Deleuze, refere que a questão não é o relativismo do verdadeiro, mas a verdade do relativo8. E, clarificando a sua posição, afirma: “O ponto de vista cria o sujeito - esta é a proposição perspectivista por excelência, aquela que distingue o perspectivismo do relativismo ou do construcionismo ocidentais, que afirmariam, ao contrário, que o ponto de vista cria o objeto”9.
A perspectiva não é apenas uma maneira de ver ou de olhar; é uma forma de criar. O bom historiador transforma a sua criação numa forma específica de conhecimento do mundo e é desse lugar que nos interpela para que, também nós, nos interroguemos sobre o mundo. Nada conseguiremos na nossa compreensão histórica se não valorizarmos a perspectiva do historiador, o que ele tem para nos dizer.
Segundo deslocamento: a narração
Depois da perspectiva, o segundo deslocamento é a narração, em tempos, como os de hoje, que marcam a sua crise, como bem disse Byung-Chul Han. Como ele, também eu vou buscar inspiração a Walter Benjamin que, na sua escrita fragmentada, por vezes misteriosa, continua a inquietar-nos. Diz-nos que “a arte de narrar está em vias de extinção” (Benjamin, 1985), pois quase mais nada do que acontece se aproveita da narração, e quase tudo da informação:
A informação esgotou o que valia no momento em que foi novidade. Vive apenas nesse momento. Tem de se lhe entregar por completo e explicar-se perante ele, sem perda de tempo. Outra coisa é o que se passa com a narração: não se esgota. Mantém a sua força concentrada no seu interior e é suscetível de desenvolvimentos muito tempo depois (Benjamin, 2013).
Dito de outro modo: a narração existe no tempo, dura no tempo. O filósofo sul-coreano elabora uma crítica densa ao stroytelling, que transforma as histórias em mercadoria, para ser consumida no instante, sem duração narrativa, isto é, sem permanência no tempo. E diz-nos que o pensamento é uma narrativa, que necessita de um olhar longo, lento e demorado (Han, 2023). Essa “faculdade de ruminar” de que fala Nietzsche (1990) . Vai mesmo ao ponto de afirmar que “a inteligência artificial não pode pensar porque não se pode apaixonar, porque não é capaz de uma narração apaixonada” (Han, 2023).
É difícil encontrar um melhor argumento para defender o regresso do historiador como narrador, afirmando a sua perspectiva e as suas paixões. Podemos recolher, juntar, organizar, reunir, compilar, todos os dados e informações do mundo, do passado e do presente. A inteligência artificial vai fazer isso. Mas o que não podemos é substituir o trabalho do historiador, a sua capacidade de historicizar a partir da sua perspectiva, da sua história, das suas paixões. Não se trata nem de subjetivismo, nem de relativismo, críticas demasiado ligeiras ao que vos proponho. Trata-se de inscrever e de enraizar a figura do historiador como intelectual, como conhecedor, como criador.
As máquinas podem produzir conteúdos através de complexas operações matemáticas, mas só os humanos habitam e escrevem a história na espessura do tempo. A nossa responsabilidade como historiadores é sempre perante o presente e o futuro. O pensamento não se esgota no instante. Projeta-se numa compreensão imaginativa que desvela o que está por vir. Só perdura o que é humano.
Terceiro deslocamento: a comunicação
Talvez o terceiro deslocamento - Comunicação - seja mais surpreendente, mas necessário, sobretudo face ao estado lamentável a que chegou o mundo universitário, no ensino e também na pesquisa. Poderia entrar neste debate de muitas maneiras10. Sirvo-me apenas de um artigo recente da revista Nature, no qual os autores analisam 45 milhões de artigos científicos e 4 milhões de patentes publicados nas últimas décadas, concluindo que, segundo as áreas científicas, há um decréscimo entre 92% e 100% na novidade (Park; Leahey; Funk, 2025). Dito de outro modo: há cada vez mais repetição, reprodução, e cada vez menos novidade, originalidade.
Nós, universitários, transformámo-nos em meros “papagaios de repetição”: publicamos sem cessar, frequentemente as mesmas ideias sob formulações apenas ligeiramente diferentes, para satisfazer as exigências de uma universidade produtivista e “quantofrénica”, submetida a métricas absurdas impostas pelos grandes conglomerados editoriais científicos (Web of Science, Scopus…).
Custa-me compreender como chegámos aqui - e, mais ainda, como continuamos a aceitar esta lógica quase sem resistência. Sei, porém, que este é um caminho de decadência das universidades: uma lenta erosão da sua missão intelectual, crítica e humanista. Precisamos de um sobressalto, de uma revolta, talvez mesmo de uma insurreição simbólica, se ainda quisermos ir a tempo de “salvar a alma” das universidades.
Publicamos imenso, mas fazemo-lo muitas vezes em “circuito fechado”, apenas para cumprir obrigações burocráticas e alimentar indicadores quantitativos que pouco dizem sobre o verdadeiro valor do pensamento. Produzimos textos que circulam quase exclusivamente entre especialistas, incapazes de romper os limites dos nossos círculos académicos. Perdemos, pouco a pouco, a capacidade de tornar comum aquilo que descobrimos, de comunicar de forma inteligível com a sociedade, de transformar conhecimento em consciência partilhada e em experiência viva.
Talvez o problema mais grave seja precisamente esse: continuamos a produzir cada vez mais conhecimento, mas parecemos cada vez menos capazes de lhe dar sentido humano, público e histórico. Esquecemos o sentido maior da comunicação - pôr em comum ideias, emoções, conhecimentos ou experiências. Em vez de publicarmos tanto, temos de nos tornar públicos. Porque o conhecimento que não se torna “público” fica “privado”, privado da sua dimensão comum, comunicativa, da sua capacidade para ser cultura, para ser pensamento, para ser criação, para ser parte de uma reflexão da sociedade sobre si mesma. Temos de voltar a uma reflexão de fundo, cinquenta anos depois, sobre o sentido maior da escrita da história, título desse livro sublime de Michel de Certeau11.
* * *
Em síntese, para concluir. Quis chamar a atenção para a necessidade de valorizar a pessoa do historiador/a - a sua perspectiva, a sua capacidade de narrar e de comunicar. Face à repetição mecânica sem fim, face à informação obsessiva sem tempo, face à publicação sem sabor, precisamos de levantar a perspectiva, a narração e a comunicação, de valorizar a nossa assinatura, a nossa impressão digital. Já não nos serve um conhecimento descarnado, uma história descarnada, maquinal - precisamos de nos inscrever na história que contamos para assim conseguirmos inscrever os outros.
É esta a nossa radical diferença e, por isso mesmo, a nossa radical “utilidade”, palavra que uso como Nuccio Ordine (2016) . Se não for criação, a história nada será. Tudo isto é óbvio. Mas verdadeiramente o que vos quis trazer foi um grito, melhor dizendo, um uivo. Recordo que estamos em pleno centenário de Allen Ginsberg, que no seu célebre poema Uivo, escrevia ter visto os melhores espíritos da sua geração destruídos pela loucura, “tipos fixes com cabeleiras de anjo”, “que foram expulsos das academias por praticarem & publicarem odes loucas e obscenas nas janelas do cérebro”, “que sonharam e abriram brechas”, “com o coração absoluto do poema da vida” (Ginsberg, 1979).
Precisamos de abrir brechas, percorrer as fissuras que ainda nos restam. “Que as coisas continuem assim - eis a catástrofe” - recordemo-nos deste aviso de Walter Benjamin, dois anos antes de se suicidar12. Talvez ninguém o tenha dito melhor do que Michel Serres, esse autor que me acompanha diariamente, sobretudo com esse livro, O terceiro instruído, que leio e releio há trinta e cinco anos:
Dedicados à procura da verdade, nem sempre a atingimos quando a buscamos por análises e equações, por experiências ou evidências formais; por vezes, é preciso recorrer ao ensaio; e quando o ensaio não chega, sigamos pelo conto, se for possível; se a meditação fracassar por que não tentar a narração? Porque haveria a linguagem de permanecer sempre destra ou masculina, hemiplégica e limitada a metade? Aristóteles dizia, de forma excelente: o filósofo, enquanto tal, também narra; mas acrescentava: aquele que narra, de certo modo, revela-se filósofo (Serres, 1991, p.249).
Eis o filósofo. Eis o historiador. Eis o que tinha para vos dizer.
Referências
- ALEXANDRE, Laurent; BABEAU, Olivier. Ne faites plus d’études: apprendre autrement à l’ère de l’IA. Paris: Buchet/Chastel, 2025.
- BENJAMIN, Walter. Imagens do pensamento. Belo Horizonte: Autêntica, 2013.
- BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas. v. 1. São Paulo: Brasiliense, 1985.
- BENJAMIN, Walter. Passagens. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2009.
- CERTEAU, Michel de. L’écriture de l’histoire. Paris: Gallimard, 1975.
- COMPAYRÉ, Gabriel. Une thèse de Sorbonne. In: COMPAYRÉ, Gabriel. Études sur l’enseignement et sur l’éducation. Paris: Librairie Hachette et Cie, 1891. p. 315-316.
- GINSBERG, Allen. Uivo e outros poemas. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1979.
- HAN, Byung-Chul. A crise da narração. Petrópolis: Vozes, 2023.
- NIETZSCHE, Friedrich. A genealogia da moral. Lisboa: Guimarães Editores, 1990.
- NÓVOA, António. La construction du « modèle scolaire » dans l’Europe du Sud-Ouest (Espagne, France, Portugal): des années 1860 aux années 1920. 2006. Tese (Doutorado) - Université de Paris IV - Sorbonne, Paris, 2006.
- NÓVOA, António. La nouvelle histoire de l’éducation américaine. Histoire de l’éducation, n. 73, p. 3-48, 1997.
- NÓVOA, António. Le temps des professeurs: analyse sociohistorique de la profession enseignante au Portugal (XVIIIe-XXe siècles). 2 v. Lisboa: INIC, 1987.
- NÓVOA, António. Viagem: por escolas de Portugal. Porto: Porto Editora, 2026.
- ORDINE, Nuccio. A utilidade do inútil. Rio de Janeiro: Zahar, 2016.
- PARK, Michael; LEAHEY, Erin; FUNK, Russell J. Papers and patents are becoming less disruptive over time. Nature, v. 613, p. 138-144, 2023.
- SERRES, Michel. Le tiers-instruit. Paris: François Bourin, 1991.
- SZTUTMAN, Renato (org.). Encontros: entrevistas com Eduardo Viveiros de Castro. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2008.
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*
Este texto es una transcripción revisada de la conferencia inaugural del XIII Congreso Luso-Brasileño de Historia de la Educación (Colubhe 2026), que tuvo lugar en la Universidad del Algarve (Faro, Portugal) el 4 de mayo de 2026. Por este motivo, el texto conserva evidentes rasgos de oralidad.
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1
Laurent Alexandre & Olivier Babeau, Ne faites plus d’études : Apprendre autrement à l’ère de l’IA, Paris, Buchet/Chastel, 2025.
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2
António Nóvoa, Le temps des professeurs - Analyse sociohistorique de la profession enseignante au Portugal (XVIIIe-XXe siècles), Lisboa, INIC, 1987, 2 vols.
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3
António Nóvoa, “La nouvelle histoire de l’éducation américaine”, Histoire de l’éducation, n. 73, 1997, pp. 3-48.
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4
António Nóvoa, La construction du « modèle scolaire » dans l’Europe du Sud-Ouest (Espagne, France, Portugal) - Des années 1860 aux années 1920, Paris, Thèse de Doctorat, Université de Paris IV - Sorbonne, 2006.
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5
Gabriel Compayré, « Une thèse de Sorbonne », in Études sur l’enseignement et sur l’éducation, Paris, Librairie Hachette et Cie, 1891, pp. 315-316.
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6
António Nóvoa, Viagem - Por escolas de Portugal, Porto, Porto Editora, 2026, pp. 11 e 13
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7
Há alguns anos, publiquei um artigo sobre os comparatistas, desenvolvendo argumentos próximos daqueles que desenvolvo agora nesta Conferência sobre os historiadores. Pode ser útil uma leitura conjunta destes dois textos - António Nóvoa, “The return of the comparativist: estrangement, intercession and profanation”, in Identities and Education (Eleftherios Klerides & Stephen, eds.), London, Bloomsbury Academic, 2021, pp. 245-260.
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8
Ver Encontros - entrevistas com Eduardo Viveiros de Castro (Renato Sztutman, org.), Rio de Janeiro, Beco do Azougue, 2008, p. 90.
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9
Idem, pp. 118-119.
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10
Ver António Nóvoa, Universidades: A liberdade é sempre experimental, Porto, U.Porto Press, 2025.
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11
Michel de Certeau, L’écriture de l’histoire, Paris, Gallimard, 1975.
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12
Walter Benjamin, Passagens, Belo Horizonte, Editora UFMG, 2009, p. 51.
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Declaração de Disponibilidade de Dados:
Não se aplica.
Não se aplica.
