Open-access LÉVI-STRAUSS, Claude. Saudades do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. 228 p.

LÉVI-STRAUSS, Claude. Saudades do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. 228

Grata surpresa para antropólogos, fotógrafos e aficionados de ambas as áreas, um livro de fotografias do mestre Claude Lévi-Strauss. E com este nome: Saudades do Brasil. Seria coisa da Companhia das Letras? Aprendi, num artigo de Roberto DaMatta, que nós brasileiros temos o privilégio de poder sentir saudades até da própria saudade. Senti saudade de minha saudade pela Elis Regina (faz 13 anos que ela viajou sem volta). Coloquei seu último disco na vitrola (não o tenho em CD) e organizei-me entre ouvir o Saudades do Brasil, da Elis, que há muito não ouvia, e folhear o recente Saudades do Brasil do Lévi-Strauss. Pulo a introdução do livro, e começo a viajar pelas populações indígenas brasileiras do ano de 1935 ouvindo a introdução instrumental de César Camargo Mariano, quando vem o primeiro texto, no disco: “Mais um dia vai chegar/ Que o mundo vai saber/ Não se vive sem se dar/ Quem trabalha é que tem/ Direito de viver/ Pois a terra é de ninguém”. É de arrepiar.

Voltando para o início do livro, constata-se que Lévi-Strauss inspirou-se no nome de uma peça para piano, composta por Darius Milhaud, em 1921, compositor francês que atuara na embaixada francesa num Rio de Janeiro em seu período áureo.

Para compor esse livro de 228 páginas estampadas com 176 belas fotos em preto-e-branco o autor, com o auxílio de sua mulher, refez a viagem do então jovem etnólogo através de 3 mil fotografias obtidas na sua maioria com uma câmara Leica. As fotos estão editadas na seqüência que parte da cidade de São Paulo passando por Pirapora, Pico do Itatiaia, Paraná, Santa Catarina, tribos Caduveo, Bororo, Nambikwara, Mundé, Tupi-Kawahib, terminando com a série que o autor denomina “O retorno”. Os negativos, de um modo geral, apresentam-se bem conservados e por isso puderam resultar em boas ampliações feitas por Matthieu Lévi-Strauss, a quem o Claude Lévi-Strauss dá a co-autoria do livro.

Apesar de sua afeição passageira pela fotografia (o autor confessa que depois desse período brasileiro deixou de lado a técnica fotográfica), influenciado por seu pai, definido como um “artista-pintor e, sobretudo, retratista, que tinha o hábito de fotografar seus modelos para controlar a posição dos traços principais”, Lévi-Strauss revela ter domínio técnico e uma boa noção de composição e equilíbrio. É bem verdade que não se pode saber se todas as fotografias apresentadas estão com seu recorte original ou foram retrabalhadas na ampliação. Algumas que apresentam uma acentuada granulação em relação às demais poderiam sugerir isso.

Para os conhecedores de uma das principais obras de Lévi-Strauss, Tristes trópicos, escrita 15 anos depois de ter retornado a Paris, Saudades do Brasil constitui-se num belo volume de ilustração chegado 40 anos depois do principal. Em Tristes trópicos o autor afirmava que “a evocação de recordações com 20 anos de idade é semelhante à contemplação de uma fotografia amarelecida. Quando muito pode ter um interesse documental.” Suas fotografias não amareleceram, porém, com 86 anos de idade, ao evocar suas recordações o autor revela um tom saudoso e confessamente cético. Na introdução de Saudades do Brasil não reconhecemos os questionamentos do papel do antropólogo, que vai ao Terceiro Mundo cumprir uma espécie de ritual de passagem, não encontramos a discussão sobre o caráter das cidades européias em relação às americanas, também não encontramos os relatos das dificuldades e das peripécias de um estudioso europeu que ganha as matas de um país continental e que, no desespero para não se perder, agarra uma mula pelo rabo. Enfim não encontramos a vitalidade do antropólogo que revela seu processo, seus questionamentos e suas descobertas. Em Saudades do Brasil encontramos Lévi-Strauss hesitante quanto à importância de colocar a público suas fotos. Ele faz questão de alertar para o fato de não trazer o retrato de existências primitivas. Ao contrário, afirma tratar-se de restos de uma civilização dizimada. Mesclando seu conhecimento anterior com informações mais recentes, o autor chama a atenção para o desaparecimento das populações indígenas, através da diminuição de seus conglomerados e a perda de suas especificidades e identidades culturais. Ele chega a tomá-las como metáfora da perda de qualidade de vida na Europa, afirmando que “todos índios doravante, estamos em via de fazer de nós mesmos o que fizemos deles”. À maneira estruturalista, relaciona a diminuição populacional e a desagregação cultural dos índios com o progresso e o aumento populacional do Ocidente que irá “devorar a si mesmo”. Termina declarando “afeto e nostalgia” ao Brasil, assim com à sua própria juventude. Leia-se: saudades.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    02 Fev 2026
  • Data do Fascículo
    1995
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