Open-access Materializações da ausência: uma análise morfológica, cognitiva e discursiva do prefixo sem-

Materializations of Absence: A Morphological, Cognitive, and Discursive Analysis of the Prefix sem-

RESUMO:

Este artigo investiga o comportamento formal, semântico e discursivo-pragmático da unidade sem- quando empregada como prefixo na formação de substantivos no português contemporâneo. Embora tradicionalmente descrita como preposição de valor privativo, a forma sem- revela produtividade morfológica significativa, especialmente em construções como sem-teto, sem-vergonha e sem-terra. Ancorada na Morfologia Construcional e na Linguística Cognitiva, a análise baseia-se em dados empíricos extraídos do corpus eletrônico News on the Web (NOW), com foco na transparência composicional, nos operadores cognitivos envolvidos e nos efeitos valorativos veiculados pelas formações. Os resultados contribuem para a reavaliação dos limites entre prefixo e preposição, evidenciando a centralidade do uso e das práticas discursivas na organização do léxico.

Palavras-chave:
Prefixo sem-; Morfologia construcional; Linguística cognitiva; Polissemia; Formação de palavras

ABSTRACT:

This paper investigates the formal, semantic, and discourse-pragmatic behavior of the unit sem- when used as a prefix in the formation of nouns in contemporary Brazilian Portuguese. Although traditionally described as a preposition with a privative value, sem- demonstrates notable morphological productivity, especially in constructions such as sem-teto (“homeless”), sem-vergonha (“shameless”), and sem-terra (“landless”). Grounded in Construction Morphology and Cognitive Linguistics, the analysis draws on empirical data extracted from the News on the Web (NOW) corpus, focusing on compositional transparency, underlying cognitive operations, and the evaluative effects associated with these formations. The findings contribute to a rethinking of the boundaries between prefixes and prepositions, highlighting the role of usage and discourse in shaping the lexicon.

Keywords:
Sem- prefix; Construction morphology; Cognitive linguistics; Polysemy; Word formation

Introdução

A unidade linguística sem-, tradicionalmente descrita pelas gramáticas normativas como preposição de valor negativo ou privativo (Bechara, 2009; Cunha; Cintra, 2013), costuma ser limitada, nesses manuais, à sua atuação sintática, sem que se reconheça sua potencialidade enquanto elemento formador de palavras. Formações como “sem-teto”, “sem-terra” e “sem-vergonha”, apesar de largamente utilizadas na linguagem corrente, seguem sendo negligenciadas em descrições que ainda se pautam em critérios estritamente morfossintáticos ou em definições históricas que desconsideram os padrões atuais de uso.

Essa lacuna é ainda mais evidente quando se observa que a maioria dos estudos linguísticos de base descritiva ou histórica (Rio-Torto, 2016; Poggio, 2002) tampouco aborda o uso de sem- como prefixo produtivo. Mesmo em propostas mais recentes e mais alinhadas às abordagens funcionalistas, como a de Nunes (2011), a unidade sem- é compreendida como fruto de lexicalizações sintáticas, e não como elemento morfológico envolvido na formação de palavras. Tal interpretação, embora relevante, precisa ser confrontada com evidências empíricas do uso real da língua e com as teorias atuais das abordagens baseadas no uso (Bybee, 1985; Goldberg, 1995; Bybee, 2010).

O presente trabalho, assim, parte da hipótese de que sem- pode ser analisado como prefixo produtivo no português do Brasil, particularmente na formação de nomes que mantêm alto grau de transparência semântica e de leitura sempre composicional. Ancorados nos pressupostos da Morfologia Construcional (Booij, 2010) e da Linguística Cognitiva (Langacker, 1987, 1991, 2008), intentamos examinar, a partir de um corpus extraído do News on the Web (Davies, 2016), os aspectos formais, semânticos e discursivo-pragmáticos das formações prefixadas com sem-.

Nosso objetivo é contribuir para o debate sobre os limites entre preposição e prefixo (Pereira, 2025), evidenciando como o funcionamento construcional da língua pode desafiar classificações categóricas tradicionais. Ao enfatizar o papel do uso e da produtividade morfológica real, propomos uma leitura mais crítica, reflexiva e funcional da unidade sem-, cujas implicações extrapolam a descrição formal e alcançam domínios ideológicos e valorativos mobilizados pela língua em situações concretas de interação.

Revisão de literatura - perspectiva gramatical e linguística

Bechara (2009) estabelece que o constituinte “sem” é, de fato, uma preposição e que seu sentido é “estático” (p. 300), de maneira que não há variação de sentido. Assim, a única possibilidade de significação dessa palavra é proporcionar a ideia de privação. Além disso, o gramático também não menciona a possibilidade de que a referida unidade linguística possa funcionar também como prefixo, mesmo com a existência de formas cunhadas ainda no século passado, segundo o Volp (1943 - 29 item 13), que nos fala de “compostos” formados pelo prefixo “sem”, como “sem-cerimônia”, “sem-número”, “sem-razão”, em que a unidade linguística “sem” claramente atua como elemento formador de palavra em vez de preposição.

Cunha e Cintra (2013), assim como o gramático anteriormente citado, também afirmam que “sem” é apenas preposição e não prefixo. No entanto, propõem três sentidos para a partícula: “subtração”, “ausência” e “desacompanhamento” (p. 590), porém não listam nenhum exemplo para essas acepções.

Por fim, Rocha Lima (2008 [1972], p. 231), diferentemente dos gramáticos anteriormente mencionados, não faz qualquer referência ao sentido da unidade linguística “sem” e apenas a coloca na lista de “preposições essenciais” e, consequentemente, em consonância com Bechara e com Cunha e Cintra, não atenta para a possibilidade de “sem” funcionar como um prefixo.

Silveira Bueno (1968, p. 87) é um dos poucos gramáticos que reconhece sem- como prefixo vernáculo, destacando que “pode se unir a substantivos (...); ou pode dar às palavras caráter de adjetivo”: “Os trabalhadores sem-terra reivindicam a reforma agrária”, “Eles são sem-vergonha”. Azevedo (2010, p. 453) também arrola, na lista de prefixos de sua Gramática Houaiss da Língua Portuguesa, a forma sem-. Observa, ainda, que esse formativo remete ao significado de “privação” em palavras como “sem-vergonha” e “sem-sal”.

Numa abordagem de natureza histórica, Poggio (2002) apenas explica que a origem de “sem” remonta à aglutinação de “s(w)e-, raiz do pronome reflexivo, acrescido da partícula -ne” (Poggio, 2002, p. 219), o que culminou na preposição essencial latina “sĭne”. Romaneli (1964, p. 5), em seu “estudo metódico e exauriente dos prefixos latinos e de seu papel na composição de palavras”, não inclui “sĭne” entre os prefixos latinos, o que pode apontar para a inexistência desse uso mesmo no latim vulgar.

Ao analisar um corpus do século XIV, Poggio (2002) nos fornece um extenso trabalho histórico sobre o português arcaico no que tange ao uso das preposições. Embora comprove que “sem” já era utilizado com as noções básicas do que chama de “tempo, espaço e qualidade”, não relata nenhum uso prefixal dessa unidade, o que sugere que, no português arcaico, a partícula “sem” era utilizada exclusivamente como preposição. A própria autora afirma que não encontrou dados em que “sem” pudesse ser interpretado como prefixo (p. 86).

Santana (2006) realiza um estudo na mesma linha de sua orientadora (Poggio, 2002), mas focaliza textos dos séculos XVII e XVIII. Diferentemente de Poggio (2002), aborda a relação preposição-prefixo e também é categórico ao afirmar que “As cartas de Vieira (século XVII) e as Cartas Setecentistas também não apresentam o ‘sem’ como prefixo” (Santana, 2006, p. 136, grifos do autor). No entanto, duas ocorrências, listadas a seguir, chamaram sua atenção, fazendo-o questionar se não seriam uma espécie de gatilho para a cunhagem “sem-vergonha”:

[...] e desta sorte andam publicamente furtado pellos pastos alheyos cadaves que quer em sem vergonha do mundo armados com armas de fogo [...]. (CS, p. 237, 1, 602).

[...] e todos estes sam unidos nos furtos que fazem aonde os vam dispor de huma parte para sem vergonha nem termo de Deos e de justiças [...]. (CS, p. 223, 1, 83).

Rio-Torto (2014) faz exaustivo rastreamento de como a prefixação tem sido analisada na tradição gramatical portuguesa. Assevera que, “sendo a prefixação um espaço de fronteira entre a derivação e a composição, os estudos escrutinados refletem esse contínuo” (p. 13). Sustenta, ainda, que “na maioria das gramáticas históricas, a prefixação é predominantemente um tipo de composição”, mas “esta opção teórica […] não está relacionada com uma questão de época, nem com o modelo seguido (neogramático ou estruturalista)” (p. 15). Recorrendo a Vasconcelloz (1990 [1900]), elabora um quadro com todos os prefixos que participam de compostos, mas sem- não aparece na lista. Em outro quadro, com base em Barbosa (2005 [1822]), Vasconcelloz (1990 [1900]) e Nunes (1989 [1919]), “sem” consta da relação de preposições, mas não aparece em “compostos” em nenhuma delas.

Temos argumento suficiente para afirmar que “sem-vergonha” é a primeira forma em que “sem” aparece com valor de prefixo. Em primeiro lugar, essa é a única construção sem-X em que o Corpus do Português retorna dados a partir dos anos 1800, como se vê no print de tela a seguir (Figura 1), em que a maior parte dos dados vem da variedade brasileira:

Figura 1.
Primeira ocorrência recuperada da forma sem-x registrada no português

Além disso, “sem-vergonha”, ao contrário das demais por nós coletadas, das quais falaremos mais adiante, constitui verbete de todos os mais renomados dicionários on-line do português, a exemplo de Michaelis, Aulete e Houaiss. Por fim, é uma forma que proporcionou a criação de duas outras: “sem-vergonhice”, que aparece somente no Brasil dos anos 1900, e “sem-vergonheza”, que sequer aparece no Corpus do Português, mas é citada no VOLP de 1981, ainda que sob a rubrica de “nome composto” (ver Figura 2):

Figura 2.
Uso da forma ‘sem-vergonhice’ na variedade brasileira do português nos anos de 1900.

Mello (2011) também supõe ser “sem-vergonha” a primeira formação com sem- prefixal. Para ela, “há muito tempo essa construção é largamente usada em todos os níveis de linguagem, em todas as regiões do Brasil” (p. 1). Couto e Couto (2015) também compartilham dessa visão, atentando para usos já nem tão recentes, como “sem-teto”, que talvez se baseassem no modelo de “sem-vergonha”. Voltemos, antes de abordar as formações lexicais em análise, ao que diz a literatura especializada sobre o estatuto do que consideramos prefixo sem-.

Rio-Torto e Ribeiro (2012) incluem as formações sem-X (“sem-razão”) no quadro de compostos do tipo Prep + N, ao lado de construções como “contramestre”, “entrecasco”, “parapeito” e “sobressalto”, entre tantas outras. Numa outra proposta de categorização, temos o trabalho de Duarte (2012), para quem o termo afixoide constitui resolução para os problemas de categorização, uma vez que, para ele, tal unidade constitui formativo que apresenta correspondência direta com uma forma dependente. Sendo assim, tece a seguinte consideração a respeito de sem-:

Sem- é prefixoide vernáculo. Anexa-se a substantivos. Seu significado, em geral, evoca o da preposição que lhe [é] formalmente correlata. O corpus em que baseamos nossa pesquisa nos fornece o[s] seguinte[s] exemplo[s]: sem-limite*, sem-deus*, sem-querer* (subst), sem-juízo*, sem-fim*, semfio*, sem-sol*, sem-graceza*sem-trabalho*, sem-gracice*. (Duarte, 2012, p. 17, acréscimos nossos).

Como mostra Ganança (2017), obras lexicográficas são bastante reticentes no que diz respeito a considerar sem- uma autêntica unidade da prefixação. O Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa, por exemplo, “apesar de diferenciar a preposição “sem” do formante sem- confere, a esse último, o título de elemento de composição, atualizando as ideias de privação, exclusão, negação” (Ganança, 2017, p. 209). No referido dicionário, inclusive, informa-se que o emprego de sem- na formação de “compostos” iniciou-se no século XIX, o que confirma nossa hipótese.

Nunes (2011, p. 245), em sua tese monumental sobre prefixação em português, afirma que “várias razões nos levam [...] a equacionar, relativamente a estas construções prefixadas em sem-, o cenário de uma lexicalização de uma construção sintática previamente formada, em detrimento de uma construção de índole derivacional”. Em outras palavras, para a linguista em questão, não se trata de um prefixo, ao que ela continua e fundamenta sua proposta com base em cinco argumentos (Nunes, 2011, p. 245), a saber:

  1. não apresenta características de verdadeiro prefixo;

  2. tem, na sua origem, uma preposição com função circunstancial;

  3. a referida unidade linguística ainda apresenta muitas características próprias de preposição, assumindo a proposta de Amiot (2004);

  4. adjunge-se a uma única categoria; e

  5. os nomes a que se acopla apresentam-se invariavelmente no masculino (mesmo quando a base é preenchida por um nome no feminino).

Aproveitamos o ensejo para problematizar algumas dessas características que, em princípio, levariam “sem” ao estatuto de preposição. Inicialmente, é evidente que essa unidade linguística não apresenta características de um prefixo verdadeiro, tais como (a) a atonicidade e (b) a adjunção a apenas uma categoria lexical. Nesse sentido, o prefixo des-, por exemplo, enquadra-se em ambos os critérios, diferentemente de sem-; além disso, é fato que sem- originou-se de uma preposição circunstancial, porém vamos nos deter nos três últimos argumentos propostos por Nunes (2011).

De fato, sem- ainda mantém muitas características de preposições na atual sincronia, porém não entendemos isso como argumento válido e taxativo para estabelecer que ele não se comporte como prefixo, dado que, por exemplo, a unidade linguística anti-, proveniente de uma preposição grega, embora tenha se tornado um prefixo pleno, ainda possui algumas características preposicionais, sendo a autonomia sintática e a independência acentual da base algumas formações. As referidas características da unidade linguística anti- são tão presentes que não é difícil encontrá-la, em um contexto de discursivização,1 atuando com função subjetiva, como no exemplo abaixo (Figura 3):

Figura 3.
meme de internet sobre torcedores que não gostam do Flamengo

Repare que, no exemplo acima, ocorre, até mesmo, a flexão de número do prefixo que, no caso em questão, está atuando claramente em função de objeto da primeira oração e de sujeito da segunda. Seria, então, o prefixo anti- um falso prefixo? Ou, melhor dizendo, “o cenário de uma lexicalização de uma construção sintática previamente formada” (Nunes, 2011, p. 245)? No nosso entendimento, trata-se, na verdade, de um prefixo com contraparte preposicional idêntica, como o são, também, contra-, entre- e sobre- (Pereira; Gonçalves, 2026), como nos dados em (1). Além disso, muitos prefixos têm relações diretas com preposições, ainda que apresentem forma fonológica diferente, como co-, sub-, ante- e pós- (“com”, “sob”, “antes”, “após”):

(1) contrapartida contratempo contradizer contracapa contrapeso

entrelinha entrelaçar entressafra entreaberto entrever

sobreviver sobrecarregado sobreaviso sobrevoar sobrepeso

Outro problema na descrição de Nunes (2011) acerca da unidade linguística sem- é não o estabelecer como prefixo sob a justificativa de que se acopla a uma única categoria. Esse estabelecimento é equivocado, uma vez que há prefixos plenos com praticamente o mesmo comportamento, entre os quais re- e o in-.

Em relação ao primeiro, observa-se que se adjunge quase exclusivamente a verbos, tal como em “recontar”, “remontar” e “reconstruir”. A adjunção do prefixo re- só ocorre em substantivos derivados de verbos, como nos respectivos nomes: “recontagem”, “remontagem” e “reconstrução”. Nesses casos teríamos as seguintes construções lexicais [[re[contar]v]vgem]s, [[re[montar]v]v gem]s, [[re[construir]v]v ção]s, [[re[compensar]v]v ção]s. Veja que não há adjunção dessa unidade linguística a substantivos que não sejam originários de verbos, como ocorre com o prefixo des-, por exemplo, como nas palavras “despresidente” ou “desgovernador”.

Quanto ao prefixo in-, sua ocorrência é basicamente anteposta a adjetivos, como em “legal” > “ilegal”, “real” > “irreal”, “capaz” > “incapaz”. O prefixo em questão só ocorre em substantivos quando estes são derivados de sua base adjetiva como em “ilegal” > “ilegalidade”, “irreal” > “irrealidade”, “incapaz” > “incapacidade”, respectivamente. O prefixo in- não ocorre anteposto a substantivos que não sejam originários de adjetivos já prefixados e o mesmo se aplica a alguns poucos verbos deadjetivais, como “incapacitar”. Seriam essas formas substantivas e verbais resultantes de seus adjetivos originários um caso de “lexicalização de uma construção [...] previamente formada” (Nunes, 2011, p. 245)? Acreditamos que essa seria uma conclusão indesejada.

Por fim, Rio-Torto (2016) não menciona, em sua obra monumental sobre a relação preposição-prefixo, o constituinte “sem” como unidade linguística que também atua na formação de palavras. Isso acontece, acreditamos, porque a autora defende a ideia de contínuo e trata essas formações na esteira da tradição portuguesa, como casos de composição. Independentemente da categorização que for dada - prefixo, prefixoide, elemento de composição -, não nos resta dúvida de que sem- é um elemento altamente produtivo na formação de palavras, como atestam os exemplos a seguir, todos extraídos do dicionário Dicio - Dicionário Online de Português, disponível em: https://www.dicio.com.br/palavras-comecam-sem-:

(2) sem-vergonha sem-nome sem-teto sem-fim

sem-dinheiro sem-sal sem-razão sem-terra

sem-número sem-termo sem-luz sem-trabalho

Os manuais de morfologia do português são praticamente unânimes em relação ao caráter prefixal de sem-: Sandmann (1985), Basílio (1987), Alves (1990), Rocha (1998) e Gandulfo (2021), entre outros, tratam esse formativo como membro da classe dos prefixos, ressaltando sua alta usabilidade nos dias de hoje, sobretudo na variedade brasileira.

Quanto ao último critério, o de se acoplar a nome invariavelmente no masculino, acreditamos que ele merece uma revisão crítica. Mais especificamente, à luz dos dados do português contemporâneo, tais formações são mais adequadamente descritas como nomes sem gênero definido, uma vez que admitem igualmente a concordância com determinantes masculinos e femininos, sem alteração formal do núcleo lexical, como em “o/a sem-caráter”, “o/a sem-graça”, “o/a sem-futuro”, “o/a sem-vergonha” e assim por diante.

Além disso, o prefixo sem- não impõe restrições quanto ao gênero gramatical da base, podendo anexar-se tanto a nomes masculinos quanto femininos, contrariando, dessa maneira, Nunes (2011). Como consequência, a eventual recorrência de determinantes masculinos em certos contextos não deve ser interpretada como evidência de gênero inerente masculino dessas formações, mas como reflexo do funcionamento geral do sistema de concordância do português, no qual o masculino frequentemente opera como valor não marcado (Câmara JR, 1970; Kehdi, 2007a, 2007b). Em outras palavras, reforçamos nosso posicionamento de que não há argumentos suficientes, ou pelo menos convincentes, quando postos face à realidade dos dados linguísticos contemporâneos para simplesmente não reconhecer, pelo menos, a função prefixal da unidade linguística sem-. Passemos, agora, para a descrição da metodologia que foi aplicada para executar a análise de dados.

Metodologia

Esta investigação adota uma abordagem qualitativa, de base construcional e cognitivista, ancorada na perspectiva da morfologia baseada no uso. O objetivo principal consiste em descrever, analisar e modelar o comportamento da unidade linguística sem- quando empregada como prefixo produtivo na formação de nomes no português contemporâneo, com atenção especial à sua dimensão formal, semântica e pragmática.

O corpus da pesquisa foi constituído por trinta e duas (32) formações prefixais com sem, coletadas a partir do News on the Web (NOW) - corpus eletrônico anotado, desenvolvido no âmbito do projeto Corpus do Português, sob coordenação de Mark Davies (2016). O NOW reúne dados extraídos de veículos jornalísticos publicados em língua portuguesa entre os anos de 2016 e 2019, totalizando mais de um bilhão de palavras distribuídas em diversos registros, gêneros e esferas temáticas.

Para a extração das palavras, utilizamos a sintaxe de busca “sem-*” que quer dizer o seguinte: procure toda e qualquer palavra começada por tudo o que está anteposto ao diacrítico “*”. Dessa forma, chegamos à seguinte tela de resultados de busca com os 32 itens lexicais que compõem nosso corpus de análise (Figura 4):

Figura 4 -
tela de resultado de busca palavra formações “sem-*”.

Tais formas foram consideradas por apresentarem alto grau de transparência morfológica e semântica (Scalise, 1984), ou seja, são passíveis de segmentação e exibem interpretação composicional, de modo que a unidade sem- mantém, nesses contextos, o valor negativo de ausência ou falta.

A seleção dos itens levou em conta dois critérios principais: (i) a exclusão de palavras cuja formação fosse morfologicamente opaca, como é o caso de “sem-pulo”, termo utilizado para designar um tipo específico de chute em esportes com bola, cujo sentido não se deixa decompor diretamente a partir da noção de “sem” + “pulo”; e (ii) o descarte sistemático de formas flexionadas no plural, como “sem-terras”, “sem-escolas” ou “sem-vozes”. Nesse último caso, estamos diante de um mesmo token, seguindo a ideia de que a informação de número não cria novas palavras.

Tais ocorrências foram desconsideradas por não configurarem, segundo pressupostos teóricos da morfologia derivacional (Basílio, 1980; Rocha, 1998), novas formações lexicais, mas apenas variações morfossintáticas de um mesmo item. Em contrapartida, foram mantidas todas as ocorrências que apresentavam processos derivacionais regulares, mesmo quando oriundas de uma mesma base, como em “sem-vergonha” e “sem-vergonhice”, ou ainda “sem-graça” e “sem-gracice”.

A partir da metodologia de análise do item lexical dentro do contexto de uso (Pereira, 2022), a investigação das palavras que constituem nosso corpus foi conduzida em três níveis inter-relacionados:

  1. 1. Nível formal e categorial: mapeamento das classes gramaticais das bases e observação da combinatória morfológica, visando a caracterização do comportamento construcional da unidade sem-;

  2. 2. Nível semântico-cognitivo: identificação dos sentidos evocados pela adjunção do prefixo, bem como dos operadores cognitivos envolvidos na formação e interpretação das palavras complexas, com ênfase na operação metonímica do tipo “característica pelo indivíduo”;

  3. 3. Nível discursivo-pragmático: exame da inserção contextual das palavras coletadas em ocorrências reais de uso, com o intuito de descrever os efeitos de sentido mobilizados pelas diferentes formações, especialmente no que concerne à distinção entre sentidos objetivamente denotativos (com base concreta) e sentidos subjetivo-valorativos (com base abstrata), de modo a verificar a existência de polissemia.

A investigação ancora-se teoricamente nos pressupostos da linguística cognitiva (Lakoff; Johnson, 2002 [1980]; Langacker, 1987), da gramática de construções (Goldberg, 1995, 2006) e dos estudos morfológicos baseados no uso (Bauer, 2003, 2005; Booij, 2005, 2007, 2010). Essa triangulação metodológica permitiu não apenas mapear a produtividade do prefixo, mas também compreender suas propriedades semântico-pragmáticas a partir de uma perspectiva funcional, construcional e ancorada no uso real da língua.

Análise discursivo-construcional do prefixo sem-

Nesta parte do trabalho, iremos nos concentrar nos três níveis de análise apresentados na seção precedente. Antes, porém, consideremos os gatilhos para o uso de sem- como prefixo. Já tivemos a oportunidade de afirmar que a primeira palavra criada foi “sem-vergonha”, cunhada para descrever uma pessoa desavergonhada, sem moral, brio ou dignidade, que age de forma imoral, descarada ou indecente. Duas outras formações não tão recentes parecem ter sido criadas por analogia a “sem-vergonha”: “sem-teto” e “sem-terra”.

Como aponta Mello (2015), a noção de alguém desprovido de moradia apresenta manifestação morfológica em pelo menos duas línguas bastante conhecidas, o alemão e o inglês, tendo a última grande ascendência sobre o português: obdachlos e homeless. Segundo a autora, “isso é interessante, porque mostra que é uma necessidade de as línguas dispor de alguma forma de derivação para criar uma palavra para designar ‘alguém privado de algo’” (Mello, 2015, p. 1).

Na visão da Linguística Cognitiva, a língua é culturalmente situada e isso significa que não é apenas um sistema de regras gramaticais, mas reflexo direto da cultura, dos valores, das crenças e da história de uma comunidade. Dito de outra maneira, língua e cultura são inseparáveis e se moldam mutuamente. Foi o que ocorreu com “sem-terra”, criada por espelhamento em “sem-vergonha”, mas também como alternativa possível para nomear o equivalente a homeless, já existente no inglês.

Segundo Bybee (2010, p. 117), a analogia consiste na ideia de que “enunciações novas são criadas com base em outros enunciados já produzidos em experiências discursivas anteriores”. No nosso entendimento, “sem-terra” constitui analogia de “sem-vergonha”, alternativa de que a língua já dispunha para designar alguém desprovido de algo. De fato, de acordo com o MST, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) surgiu formalmente em janeiro de 1984, durante o 1º Encontro Nacional de Trabalhadores Sem Terra em Cascavel, Paraná, “consolidando uma luta que já existia desde os anos 1970, mas ganhou força com a redemocratização do Brasil para exigir a reforma agrária contra a concentração de terras” (MST, grifo nosso).

Outro micropasso importante para a efetiva criação do esquema morfológico sem-XS foi a neoanálise de “sem-teto”, claramente modelada em “sem-terra”. A neoanálise é um mecanismo que licencia novos usos linguísticos que, por sucessivos passos de mudança, levam à construcionalização,2 constituindo-se em novos pareamentos forma-significado (Bybee, 2010; Traugott; Trousdale, 2013). De fato, os “sem teto” surgiram como um movimento social organizado no Brasil em 1997, com a fundação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), impulsionado pelo êxodo rural, urbanização acelerada e falta de políticas habitacionais (cf. https://mtst.org). Esse movimento organizou famílias que ocupavam terrenos e prédios abandonados para lutar pelo direito à moradia digna nas grandes cidades.

Já no século passado, portanto, temos a criação de um novo padrão produtivo de formação de palavras. Em termos construcionais, temos a seguinte representação, na qual os símbolos “<” e “>” demarcam os limites de um esquema. A seta de mão dupla, “↔”, veicula o pareamento entre forma e conteúdo. Do lado esquerdo da seta, há a parte relevante da estrutura formal: a palavra de base não tem a parte fonológica especificada (X), mas a categoria morfossintática é concebida com um substantivo (S). Por fim, entre colchetes à direita da seta, estão as contribuições da palavra de base (SEM) e a do elemento morfológico em debate. Os subscritos i e j indicam que ambas as formas fazem parte do léxico (ou construction, nas abordagens construcionistas).

< [sem [X]S i]N j ↔ [ DESPROVIDO/A DA SEMi de [X]S ] N j >

Explicitemos um pouco mais os aspectos formais envolvido no esquema acima. Em primeiro lugar, é importante destacar que os substantivos formados a partir da adjunção da unidade linguística sem- apresentam comportamento categorial que merece problematização. Observa-se que algumas dessas formações exibem valor predominantemente denotativo, como “sem-abrigo” e “sem-futuro”, empregadas para designar indivíduos desprovidos, respectivamente, de moradia e de perspectivas positivas de vida. Em contrapartida, outras formações, como “sem-graça”, “sem-vergonha” e “sem-noção”, admitem usos claramente avaliativos e podem servir de base para a adjunção do sufixo -ice, afixo que, de modo prototípico, seleciona bases adjetivais para a formação de substantivos abstratos (“velho” > “velhice”, “canalha” > “canalhice”, “burro” > “burrice”). Por essa razão, optamos pelo uso de N (nome) para categorizar os produtos, pois ocorre claramente uma flutuação categorial substantivo/adjetivo no uso dos produtos (tokens).

Diante de dados como sem-noçãozice, coloca-se a questão de saber se estaríamos diante de uma recategorização adjetival dessas formas ou se, ao contrário, tal comportamento resulta de propriedades construcionais mais amplas. Essas questões não são triviais e refletem o caráter gradiente dos constituintes morfológicos, frequentemente situados em um contínuo categorial (Bybee, 1985). Acreditamos, contudo, que essa flutuação não é aleatória, mas sistematicamente motivada, hipótese que será desenvolvida e formalizada mais adiante neste artigo.

Aspectos formais

Inicialmente, no corpus eletrônico anotado utilizado nesta pesquisa, a unidade linguística sem-, com função prefixal, foi adjungida a uma única classe gramatical: o substantivo. Adicionalmente, as bases substantivas que deram origem às palavras complexas tanto podem ser concretas quanto abstratas, sendo as primeiras as mais frequentes, resultando em 19 itens lexicais oriundos de substantivos concretos ou, em termos percentuais, 62,5% dos casos; os abstratos correspondem às demais 12 construções ou, ainda, 37,5%.

Em se tratando do prefixo em questão, a semântica básica que se faz presente é a de “falta” e “ausência”. Mais especificamente, toda vez que a unidade linguística sem- foi anteposta a um substantivo, marcou a não presença desse elemento do mundo biofísico instanciado na palavra base.

Vale ressaltar, ainda, que essa ausência tanto pode se dar por meio da privação como de desprovimento, conforme veremos posteriormente na próxima sub-seção deste artigo. A fim de ressaltarmos a semântica basilar do prefixo sem-, observe os exemplos (i)3, (ii)4 e (iii)5 abaixo:

(i) Em Milão, Itália, um sem-abrigo de 72 anos foi encontrado morto perto da gare central, vítima do calor, segundo as autoridades, e em França a morte de três pessoas nas praias da costa sul foi associada ao choque térmico.

(ii) Em nota, o MST argumenta que, se o motivo for apenas a criminalização da luta por terra no país, fruto de um movimento de extrema-direita que levou à presidência Jair Bolsonaro (PSL), haverá resistência. “É sabido que a veia fascista do projeto eleito ao governo do Brasil vai intensificar o uso da máquina do Estado para criminalizar e segregar o povo sem-terra, assim como fará nas comunidades urbanas. Mas o povo brasileiro é corajoso e forte”.

(iii) “Diante deste monstruoso atentado, a Diocese de Leopoldina não pode nem vai se calar, enquanto a questão for a segurança, o direito e o bem-estar de nosso Clero e das nossas comunidades. Frei Gilberto fazia o que toda a nossa Diocese faz e fará sempre. Temos compromisso com o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, na sua milenar opção pelos mais sem-voz e sem-vez e, nestes últimos tempos, acompanhando o Santo Padre, o Papa Francisco”, diz o texto.

A partir dos contextos de uso reais da língua utilizados para fins de exemplificação, a semântica de ausência é plenamente manifestada. Em (i), trata-se de um homem idoso desprovido de um lar físico, cuja ausência de residência culminou na morte devido às altas temperaturas em uma das regiões turísticas mais desejadas na Itália.

Em (ii), considerando a situacionalidade do texto (Beaugrande; Dressler, 1974), ou seja, o período histórico e as conjunturas sociais daquele momento, há menção ao ex-governo de Jair Bolsonaro, que foi marcadamente reconhecido por se alinhar ao espectro ideológico de direita e politicamente adverso às camadas sociais menos favorecidas, chegando a rotular as famílias deste grupo como “fábricas de desajustados”.6

Não é de se surpreender que houvesse grande rejeição e, até mesmo, oposição ao referido governo por parte de grupos sociais que não compõem a hegemonia social, entre os quais o povo sem-terra, que é conceptualizado metonimicamente a partir da relação característica pelo indivíduo.

Dessa maneira, os sem-terra se caracterizam justamente como um agrupamento ordenado de pessoas cujo ponto de contato principal é a ausência de terras para cultivo e trabalho. Assim, quer seja pela má distribuição de terras ou por demais tipos de injustiças sociais, o fato é que essa falta se manifesta por meio da unidade linguística sem- anteposta ao substantivo concreto “terra”.

Em (iii), as formações “sem-voz” e “sem-vez” ilustram com clareza o funcionamento discursivo do prefixo sem- como operador de ausência simbólica, moral e ideológica, e não de ausência concreta ou objetiva. Aqui, o prefixo não está simplesmente negando a posse física de “voz” ou de “vez”, mas construindo socialmente sujeitos que foram destituídos dessas qualidades por imposição de normas, estruturas e práticas sociais excludentes.

Ambas as formações representam, portanto, produtos de sanções sociais. Mais especificamente, de sistemas de poder e autoridade que negam visibilidade, agência e participação a certos grupos. Não se trata de uma ausência natural ou circunstancial, mas de uma privação ativa, construída historicamente, que posiciona tais sujeitos à margem dos processos de fala (voz) e decisão (vez). Nesse sentido, o prefixo sem- não apenas nega, mas denuncia.

Além disso, essas formações ativam processos metonímicos e metafóricos: “sem-voz” designa não só quem não fala, mas quem não é ouvido; “sem-vez”, por outro lado, não significa quem, por exemplo, perdeu a vez em uma fila, mas quem não tem acesso ao poder de fala, de escolha, de inserção institucional. Esse processo de metonímia do tipo “característica pelo indivíduo” aproxima o prefixo sem- de uma linguagem política e ética de forte valor ideológico.

Nesse ponto, a análise morfológica das formações prefixais encontra eco na crítica pós-colonial de Spivak em pode o subalterno falar? (Spivak, 2010 [1988]). Na referida obra, a filósofa questiona os mecanismos que fazem com que determinados sujeitos sociais, mulheres, pobres, povos racializados, não apenas percam o direito de falar, mas sejam produzidos discursivamente como aqueles que não podem falar, como se o silêncio lhes fosse natural.

A pergunta de Spivak, portanto, não é sobre capacidade individual, mas sobre condições de escuta e de representação. No caso em análise, o uso de sem- nas formações “sem-voz” e “sem-vez” aponta para a existência desses mecanismos: trata-se de sujeitos cujas identidades são construídas a partir de operações cognitivas de metonímia “indivíduo pela falta”. Assim, o humano não é reconhecido pela sua dignidade, mas perpetuamente mantido nessa condição adversa.

O uso prefixal de sem-, nesse sentido, assemelha-se ao des-, dado que ambos denotam uma negação. O mais interessante é que, se considerarmos os trabalhos de Pereira (2021), nota-se que o prefixo des-, que pode ser utilizado tanto anteposto a verbos, adjetivos e aos substantivos, sendo esta última classe o tipo de base menos produtiva para formar palavras complexas, seria um prefixo genuíno correlato ao sem-, que ocorre exclusivamente com bases substantivas.

Esse dado é importante, visto que a unidade linguística sem- formaria palavras com noção de negação/ausência que não são constituídas, embora fosse possível se considerássemos os sub-esquemas construcionais instanciados por des-, tal como em “desvergonha” por “sem-vergonha x”; “desnoção” por “sem-noção” e “despoder” por “sem-poder”.

Outra questão interessante de ser assinalada é que há palavras com des-, que podem ter maior ou menor grau de transparência, instanciando um estado ou situação de um indivíduo designado no esquema “sem-XN” como nos pares “desabrigado x sem-abrigo”; “desterrado x sem-terra”; “desavergonhado x sem-vergonha”. Assim, dado que des- forma prioritariamente verbos e adjetivos (Silva; Mioto, 2009), determinadas formas substantivas estariam a cargo de serem formadas a partir da unidade linguística sem-. No entanto, conforme observamos, é necessário que haja, sobretudo, uma relação cognitiva metonímica para que a formação seja fortuita.

Essa relação entre des- e sem- aponta indícios de que possa ser paradigmática e, talvez, possa ser mais aprofundada a partir da adoção dos postulados da morfologia relacional (Jackendoff; Audring, 2019). No entanto, nosso objetivo é desenvolver uma análise construcional do uso prefixal de sem- e tal empreendimento demanda que observemos exclusivamente seu(s) esquema(s). Porém, deixamos a questão em aberto e podemos abordá-la futuramente.

Acreditamos ter demonstrado que a semântica de ausência e falta é manifestada diretamente por meio da instanciação da unidade linguística “sem”. Assim, propomos a seguinte formalização para o prefixo, considerando os aspectos de forma e de significado (Modelo 1):

Modelo 1: Semântica geral do prefixo “sem-”

[sem-[S]i]Nj [ausência ou falta de uma dada entidade especificada na SEMi]Nj

Fonte: Desenvolvido pelos autores

Ainda em se tratando de aspectos formais, destacamos que os produtos formados a partir da unidade linguística sem- podem atuar, quando dispostos na sintaxe, em posição de sujeito, como em (i); como um sintagma adjetival, tal qual em (ii), ou, ainda, como complemento, conforme materializado em (iii). Em relação à operação cognitiva que fundamenta o uso do prefixo sem-, estaremos sempre diante de uma metonímia de natureza “característica pelo indivíduo”, que regularmente denotará uma dada entidade por aquilo que lhe falta ou lhe é ausente. Passemos, agora, para os aspectos discursivos e pragmáticos a fim de apontar a existência ou não da polissemia na unidade linguística sem-.

Aspectos discursivo/pragmáticos

Em se tratando de aspectos interacionais, nos produtos formados a partir do prefixo sem-, parece haver uma singela mudança de sentido se o substantivo que serviu de base é concreto ou abstrato. Mais especificamente, se estivermos diante de uma base de natureza concreta, o significado de falta/ausência apontará para uma inexistência material.

No entanto, se a base for abstrata, a ausência evocada não será uma simples falta, mas a não presença de uma característica socialmente estimada. Logo, a entidade em questão que não obtiver a característica instanciada pela palavra base será alvo de estigma social. Não é sem motivo que os constructos sem- com substantivo abstrato são utilizados como formas de ofender e vilipendiar o interlocutor. Observe os exemplos (iv)7 e (v)8 a fim de que a diferença dos efeitos discursivos fique mais evidente.

(iv) O youtuber ReSet foi proibido de utilizar a rede social durante os próximos cinco anos, devido a ter cometido um crime contra a integridade moral. O jovem Kanghua R foi condenado por um juiz em Barcelona depois de ter realizado um vídeo onde oferecia biscoitos a um sem-abrigo, cobertos de pasta dos dentes em 2017.

(v) No vídeo, a atriz fala: “Vocês não são democráticos”. Com raiva, uma mulher grita: “Comunista, cria vergonha. Nossa bandeira jamais será vermelha. Sem-vergonha, acabou a mamata pra vocês. Chora petista”. Um homem que passa vai em direção à atriz e a chama de “puta”. É possível escutar alguém que diz ao homem: “Isso é misógino”.

Em (iv), é narrado um crime de danos morais cometido por um youtuber contra uma pessoa em situação de rua, que, na matéria, é cunhada como “um sem-abrigo”. Para além do fator metonímico, que, conforme já mencionamos amplamente, se dá a partir da operação cognitiva “característica pelo indivíduo”, perceba que “sem-abrigo” denota um indivíduo que não possui objetivamente um local material para exercer a condição humana básica de direito à propriedade.

Nesse sentido, o item lexical “sem-abrigo” não é utilizado, interacionalmente, como uma forma de ofender um indivíduo, dado que ele descreve uma realidade objetiva: um humano desassistido de direitos básicos fundamentais. Todavia, o mesmo não acontece em (v), que é instanciado particularmente para materializar um julgamento subjetivo.

Em (v), do ponto de vista morfológico, o prefixo sem- atua aqui com transparência composicional, e a semântica resultante emerge do mapeamento direto entre a base nominal e o traço de ausência. No entanto, essa ausência não é factual, objetiva ou material, como ocorre em “sem-teto” ou “sem-terra”, mas de ordem moral: a vergonha é uma expectativa socialmente construída, que opera como parâmetro de conduta. Assim, o prefixo marca a suposta transgressão a um valor normativo, transformando o termo em um julgamento sobre a conduta do outro.

No contexto apresentado, o uso da forma “sem-vergonha” insere-se em uma cadeia discursiva de insultos e desqualificações que operam como instrumentos de julgamento moral e de rotulação simbólica do outro (Becker, 1963). O prefixo sem- atua como operador avaliativo ao demarcar a ausência de uma qualidade moral que, do ponto de vista do enunciador, deveria ser constitutiva do indivíduo interpelado, condensando em uma única forma lexical a acusação de desvio ético. Tal avaliação é reforçada por outras unidades do mesmo domínio conceptual, como “mamata”, que constrói o alvo como oportunista ou aproveitador, e pelo emprego explícito de “puta”, termo que mobiliza uma violência discursiva de natureza misógina (Butler, 2021).

Observa-se, assim, uma metonímia “característica-indivíduo”: a suposta falta de “vergonha” passa a definir integralmente o sujeito, reduzido a essa propriedade negativa, desenvolvendo o estigma do indivíduo avaliado (Goffman, 1963). Paradoxalmente, o próprio enunciador, que se posiciona como guardião de uma moralidade legitimadora da ofensa, produz atos discursivos que são avaliados como imorais em outra perspectiva, como evidencia a reação “isso é misógino”.

Esse descompasso revela que a moralidade invocada é profundamente contextual e ideologicamente situada, ao passo que o prefixo sem- funciona como mecanismo de condensação linguística dessa condenação moral, naturalizando-a no plano lexical e discursivo, além de operar como uma construção lexical com valor pragmático insultante, socialmente estabilizada no uso e apta a ser reativada em contextos de conflito, como o em questão.

O ponto aqui é que os substantivos abstratos, quando servindo de base para o prefixo sem-, normalmente irão apontar para uma característica moral que todo indivíduo deveria possuir e que a sua falta ou ausência irá resultar em uma avaliação negativa; todavia, é possível notar um certo grau em que até alguns substantivos concretos estão começando, também, a instanciar uma semântica valorativa a depender do contexto de uso, conforme podemos observar nos exemplos (vi)9, (vii)10 e (viii)11 logo abaixo:

(vi) Portugal perdeu uma portuguesa exemplar, uma grande Senhora Catalina Pestana foi uma cidadã e uma cristã que nunca hesitou em pôr os sem-poder à frente de todos os poderes formais e todos os poderes fátuos e ardilosos.

(vii) Eu, Tisa Moraes, sofro de o mesmo problema. Um “sem-digital” é quase um excluído social, nos dias de hoje. É como canhoto que nunca vai conseguir usar o abridor de latas com habilidade.

(viii) Para os mais lúcidos sofredores de insónias, ainda sobram as notícias de crime e presumível castigo, bem ou mal contadas, de a RTP e CMTV, TVI e SIC. Que o digam filhos e netos de reformados e pensionistas, os mais próximos preocupados com gente agarrada à cama, mas muitos mais ao sofá e ao ecrã. Que o digam ainda milhares de sem-trabalho, que recebem em casa o presumível e previsível conforto da TV casa adentro.

Analisando cuidadosamente, em (vi), os “sem-poder” são pessoas em situação social desfavorável de modo que, sobre elas, impõe-se um estigma de forma que é necessária a intervenção de terceiros para que possa ocorrer o exercício de sua cidadania. Adicionalmente, em (vii), um “sem-digital”, como o próprio contexto de uso em que a palavra foi utilizada estabelece, nada mais é do que um “excluído social”. É interessante, ainda, a comparação de pessoas nessa condição com os canhotos que, no decorrer da história, conforme aponta Costa (2014, 2023), foram alvos de preconceitos e invisibilidade.

Por fim, em (viii), o item lexical “sem-trabalho”, apresenta uma sanção social a respeito de indivíduos que não contribuem adequadamente com a sociedade. No próprio contexto de uso mencionam-se as milhares de pessoas nessa situação que ficam confortavelmente assentadas diante da TV. Assim, há muitos indícios que apontam os efeitos discursivos das formas “sem-substantivo abstrato” como fomentadoras de julgamento social a respeito de um indivíduo que pode estar presente na interação ou pressuposto, todavia não podemos deixar de ressaltar que essa semântica tão específica parece estar começando a abranger, em situações de interação muito específicas, as construções de base concreta. Assim, por ora, formalizamos a seguinte rede construcional para o prefixo em questão (Figura 5):

Figura 5:
Rede construcional do prefixo “sem-”.

Em relação à polissemia, entendemos, então, que haverá diferentes sentidos a depender do molde construído. Caso haja aglutinação do prefixo com contraparte preposicional sem- a um substantivo concreto, a semântica de ausência será a demarcação de uma não presença objetiva tal qual em “sem-teto”, “sem-abrigo”, “sem-mandato”, “sem-lar”, que são mais prototipicamente substantivas. Porém, se o substantivo base for abstrato, como nos exemplos “sem-noção”, “sem-futuro”, “sem-graça” e “sem-vergonha”, o sentido de ausência se dá pela falta de uma virtude que supostamente deveria existir e essa acepção de sanção social só é evocada quando instanciada a construção por completo. Essas formações estariam mais próximas da categorização de adjetivos, considerando-se um contínuo substantivo-adjetivo, que iremos aprofundar na sub-seção posterior.

Para fins de facilitação de compreensão plena do leitor, reunimos informações sobre a unidade linguística “sem-” no quadro abaixo (Quadro 1):

Quadro 1:
Características do prefixo sem-.

A flutuação substantivo/adjetivo nas formas sem-X: condicionamento semântico-discursivo e derivação avaliativa

A flutuação categorial observada nas formações prefixadas por sem- não se distribui de modo aleatório, mas revela um comportamento sistemático, condicionado pela natureza semântica da base (Pereira, 2024, 2021). Os dados analisados indicam que apenas as formações em que sem- se adjunge a substantivos abstratos admitem reinterpretação adjetival e, consequentemente, podem servir de base para a adjunção do sufixo -ice.

Esse fato explica a inexistência de formas como12*sem-terrice, *sem-abriguice, *sem-escolice ou *sem-trabalhice, uma vez que substantivos concretos, quando integrados ao molde sem-X, produzem denominações essencialmente referenciais, associadas à ausência objetiva de um bem material ou de uma condição factual, sem perfilamento avaliativo de propriedades do indivíduo.

Em contraste, quando sem- se associa a substantivos abstratos, como “vergonha”, “graça”, “noção” ou “futuro”, a construção resultante deixa de designar uma carência material e passa a perfilar uma propriedade moral, social ou comportamental, cuja ausência é interpretada como desviante em relação a expectativas normativas compartilhadas.

Nesses casos, “sem-vergonha”, “sem-graça” e “sem-noção” funcionam como predicadores avaliativos, aproximando-se do comportamento prototípico dos adjetivos, ainda que mantenham, em certos contextos, usos substantivais. É justamente essa leitura predicativa que licencia a recategorização derivacional por meio de -ice, sufixo que, de modo característico, seleciona bases adjetivais para formar substantivos abstratos.

A relação virtual do sub-esquema sem-X subs. abst. com o sufixo -ice não é neutra nem incoerente. Como amplamente descrito na tradição morfológica do português, trata-se de um sufixo que, além de promover mudança de classe, veicula de forma recorrente uma avaliação negativa ou pejorativa. Conforme observa Basílio (2019, p. 49), “o sufixo -ice tem situação diferente dos demais porque apresenta, junto com a mudança de classe, uma conotação pejorativa”, sendo frequentemente empregado para nomear comportamentos, atitudes ou modos de ser socialmente reprováveis, como em “burrice”, “chatice” ou “bestice”, ou mesmo para atribuir uma leitura depreciativa a bases semanticamente neutras, como em “gramatiquice” e “democratice”. Na mesma direção, Monteiro (2002, p. 175) assinala que, em substantivos abstratos, -ice indica “modo ou estado de ser”, reforçando seu vínculo com a conceptualização de propriedades avaliáveis.

Rio-Torto e Rodrigues (2016, p. 144) aprofundam essa caracterização ao demonstrar que muitos nomes em -ic(e) carregam uma marca negativa ou desfavorável, seja por herdarem tal valor da base, seja por o introduzirem por estereotipização, como ocorre em derivados de gentílicos (americanice, chinesice) ou de adjetivos originalmente não avaliativos (bizantinice, parlamentarice). Trata-se, portanto, de um sufixo particularmente associado à expressividade depreciativa e à construção discursiva de julgamentos sociais.

À luz desses fatos, defendemos que a compatibilidade entre o sub-esquema sem-X (com base abstrata) e o sufixo -ice decorre de um condicionamento semântico-discursivo, e não de uma coincidência morfológica acidental e meramente estocada em um léxico improdutivo, imprevisível, inoperante e estanque, como propunha os primeiros estudos antes do lexicalismo (Di Sciullo; Williams, 1987), mas sim de um léxico com natureza criativa (Pereira, 2023), sensível aos usos interacionais de modo que está sempre em constante expansão, seja incorporando, criando, ou ressignificando unidades lexicais que servem, inclusive, como verdadeiros indexicadores sociais na medida em que apontam (des)alinhamentos dos indivíduos que deles fazem (des)uso, por exemplo.

Ambos os processos compartilham uma orientação axiológica convergente: enquanto sem- demarca a ausência de uma qualidade moral ou socialmente valorizada, operando por metonímia do tipo “característica pelo indivíduo”, -ice cristaliza essa avaliação negativa em um substantivo abstrato que nomeia o estado, a atitude ou o comportamento desviante. Assim, formações como “sem-vergonhice” e “sem-noçãozice” resultam da interação entre duas construções avaliativas, cuja afinidade pragmática e discursiva explica sua recorrência e produtividade relativa.

O fato de não se observar uma relação igualmente sistemática entre sem-X (base abstrata) e outros sufixos formadores de nomes deadjetivais, como -eza, reforça essa hipótese. Embora existam registros esporádicos de formas como “sem-vergonheza” ou “sem-graceza”, conforme nós mesmos apontamos no início deste artigo, elas não se estabilizam no uso nem exibem a mesma regularidade morfológica e discursiva que os derivados em -ice. Isso sugere que a derivação não é guiada apenas por possibilidades formais, mas por fatores pragmáticos e avaliativos que privilegiam formativos capazes de veicular estigma, reprovação e julgamento social.

Desse modo, a flutuação substantivo/adjetivo nas formas sem-X deve ser compreendida como plenamente sistemática (Basílio, 2004): emerge apenas quando a construção perfila propriedades abstratas sujeitas a avaliação negativa. Nessas circunstâncias, a reinterpretação adjetival torna-se funcionalmente motivada e morfologicamente visível pela seleção de -ice. A análise aqui proposta integra, assim, aspectos morfológicos, semântico-cognitivos e discursivo-pragmáticos, evidenciando que a categorização dos produtos em sem- não pode ser dissociada dos valores sociais e ideológicos que estruturam seu uso no português contemporâneo.

Considerações finais

A análise empreendida neste trabalho permitiu evidenciar que a unidade linguística sem- apresenta comportamento sistematicamente produtivo na formação de nomes no português contemporâneo, especialmente em contextos marcados por forte carga ideológica e valorativa. A partir de uma abordagem ancorada na Morfologia Construcional e na Linguística Cognitiva, demonstramos que sem- não apenas preserva a semântica básica de ausência ou falta, mas também participa ativamente da construção de sentidos sociais, especialmente quando se associa a substantivos abstratos.

Verificou-se que a polissemia do prefixo sem- é sistemática e previsível, sendo determinada pela natureza da base: se concreta, tende a evocar uma ausência objetiva; se abstrata, promove a emergência de significados valorativos e frequentemente estigmatizantes. Além disso, observou-se que a operação cognitiva central que estrutura essas construções é a metonímia do tipo “característica pelo indivíduo”, o que reforça o papel da cognição encarnada na morfologia do português.

Com isso, este estudo contribui para a reavaliação das fronteiras entre preposição e prefixo e reforça a necessidade de se considerar os usos efetivos da língua, bem como os efeitos pragmáticos e discursivos que emergem das formações prefixais. Ao revelar as múltiplas facetas da unidade sem-, propomos não apenas um reposicionamento teórico de seu estatuto morfológico, mas também uma reflexão crítica sobre os modos pelos quais a linguagem codifica e perpetua formas de exclusão e julgamento social.

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Editado por

  • Editora-chefe dos Estudos de Linguagem
    Bethânia Mariani
  • Editores convidados
    Augusto Soares da Silva
    Jussara Abraçado

Disponibilidade de dados

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    18 Set 2026
  • Data do Fascículo
    May-Aug 2026

Histórico

  • Recebido
    22 Jan 2026
  • Aceito
    12 Mar 2026
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