Open-access Insights cognitivos na linguística geral de Ferdinand de Saussure

Cognitive Insights in Ferdinand de Saussure’s General Linguistics

RESUMO:

Este artigo desenvolve uma reflexão, de caráter epistemológico, que examina a teoria linguística de Ferdinand de Saussure a partir do pressuposto de que haveria, nessa teoria, um conjunto de discussões que poderiam ser lidas relativamente à dimensão cognitiva da linguagem. Utiliza-se a ideia de que Saussure teria formulado insights cognitivos - entendidos como operador de leitura da teoria - em sua linguística geral, desenvolvidos posteriormente pela Linguística Cognitiva. São objeto de exame a noção de signo linguístico, o princípio de que a língua não é uma nomenclatura superposta à realidade, a arbitrariedade do signo e, finalmente, a visão sistêmica de língua. Conclui-se, em primeiro lugar, que o significado linguístico é tratado por Saussure como sendo de natureza conceptual, o que o aproxima da Linguística Cognitiva que também o trata como conceptualização, desenvolvendo, especificamente, as noções de mesclagem conceptual e construal; em seguida, argumenta-se que a ideia de signo constituído por conceito e imagem acústica não pode ser associada diretamente a unidades como “a palavra”, o que permite ver que, a partir da relação entre a forma significante e o significado, é possível relacionar o signo à perspectiva construcional da Linguística Cognitiva.

Palavras-chave:
signo linguístico; abordagem construcional; epistemologia da linguística

ABSTRACT:

This paper develops an epistemological reflection on Ferdinand de Saussure’s linguistic theory, on the assumption that this theory proposes a set of discussions that could be read in relation to the cognitive dimension of language. The main point is that Saussure formulated cognitive insights in his general linguistic theory which were later developed by Cognitive Linguistics. In this vein, the subject of examination includes the notion of linguistic sign, the principle that language is not a nomenclature superimposed on reality, the arbitrariness of the sign and, finally, the systemic view of language. First, it is pointed out that linguistic meaning is treated by Saussure as being conceptual in nature, which brings him closer to Cognitive Linguistics, which also treats meaning as conceptualization and develops, specifically, the notions of conceptual blending and construal. Secondly, it is argued that while Saussure’s notion of sign relates a concept and an acoustic image and, therefore, cannot be directly associated to units such as “the word”, the relationship between the signifying form and the signified can be related to notion of grammatical construction, as proposed by the constructional perspective of Cognitive Linguistics.

Keywords:
linguistic sign; constructional approach; linguistic epistemology

1. Introdução

No final dos anos 1990, Simon Bouquet, um dos principias intérpretes da obra saussuriana, publicou um livro, Introduction à la lecture de Saussure1, no qual, com base em uma análise detalhada dos manuscritos saussurianos - desde os já conhecidos há bastante tempo, por volta dos anos 1950, até os descobertos mais recentemente, no final dos anos 1990 -, sublinha um conjunto de mal-entendidos de interpretação dessa obra, produzidos no interior da linguística do século XX. Entre esses mal-entendidos, há um que o autor destaca que tem grande interesse para a nossa reflexão aqui. Para Bouquet (2000, p. 17, itálicos do autor), considera-se, normalmente, que “o desenvolvimento da ciência da linguagem, tendo sucedido o estruturalismo, implica uma ruptura com a epistemologia saussuriana - ou, pelo menos, com certos aspectos dessa epistemologia”. Para ele, “encontramos vestígios desse mal-entendido tanto na escola generativista quanto nas escolas pragmaticistas de linguística” (Bouquet, 2000, p. 17). Conforme Bouquet, não é nada disso: “essa tese não corresponde à reflexão saussuriana [...]. Em outras palavras, o linguista genebrino antecipa os desenvolvimentos da linguística que surgiram como reação à linguística que a ele se deve” (Bouquet, 2000, p. 17).

Ora, a tese de Bouquet - segundo a qual a linguística pós-saussuriana não é uma ruptura com Saussure, mas um desenvolvimento do que ele antecipou - é forte e tem alcance heurístico considerável. Do nosso ponto de vista, essa tese permite apresentar o princípio sobre o qual este texto está formulado: há, na linguística geral2 de Saussure, insights cognitivos que, em nossa opinião, são desenvolvidos, na linguística contemporânea, por vertentes teóricas associadas à Linguística Cognitiva. Essa é a ideia que pretendemos desenvolver aqui.

Temos consciência do quão surpreendente pode soar uma afirmação como essa, principalmente aos olhos daqueles que - acostumados aos limites disciplinares rígidos da ciência linguística - estão distantes da reflexão epistemológica, interessada que é em avaliar postulados, conclusões e métodos de diferentes ramos do saber científico e de suas práticas. De antemão, porém, cabe avisar: ao supormos a existência de insights cognitivos na linguística geral de Saussure não queremos nem fazer do genebrino um linguista cognitivo, nem dissolver seu pensamento em um campo diferente daquele em que ele atuou, nem reduzir a Linguística Cognitiva a uma herança saussuriana.

Nosso propósito é outro e decorre do entendimento que temos da palavra insight neste texto, que deve ser vista como um operador da leitura epistemológica que propomos. Quer dizer, o insight precisa ser pensado em sentido muito preciso: operação de compreensão de uma problemática pela captação de elementos e relações que a ela estão ligados. É assim que pensamos que há insights cognitivos em Saussure, o que nos faz afirmar que o genebrino não ignorou a dimensão cognitiva da linguagem humana. Nossa ideia aqui é defender que há em sua linguística indícios que permitem concluir que o autor intuiu - mesmo que parcialmente - algo sobre a importância da estrutura cognitiva na compreensão do significado da linguagem e dos fatores envolvidos em sua construção.

E a quê (ou a quem) atende uma discussão desse porte? Ou ainda: que argumentos poderiam justificar uma abordagem que busca ver em um autor - no caso, Saussure - indícios de algo que ele não formulou claramente? Temos duas razões que, segundo pensamos, podem justificar nossa perspectiva.

A primeira, decorrente do que diz Bouquet acima, considera que Saussure, para circunscrever e projetar a sua linguística - a linguística da langue -, necessariamente teve de operar uma leitura daquilo que o circundava e o precedia (em especial a linguística histórica e a gramática comparada). Nesse movimento, simultaneamente prospectivo e retrospectivo, Saussure deparou-se com limites e fronteiras de um estudo da língua per se - “qualquer que seja o lado por que se aborda a questão, em nenhuma parte se nos oferece integral o objeto da linguística” (Saussure, 1975, p. 16). A essa passagem do Curso de linguística geral (CLG) Tullio De Mauro, acrescenta, em sua edição crítica, a nota 51 em que afirma que Saussure estava

vivamente interessado, como linguista histórico e teórico da língua, pelas ciências vizinhas, da fonética à etnografia, à economia política etc. A preocupação de Saussure, aqui e em outros lugares, é a de determinar se existe um objetivo específico para a pesquisa linguística, e qual é esse objetivo. A preocupação não era a de fechar a porta às trocas com outras disciplinas. (De Mauro, 1976, p. 417).3

Ora, reconhecer o movimento de aproximação que Saussure faz relativamente a outros campos do conhecimento é reconhecer que Saussure tinha absoluta consciência da vastidão dos estudos implicados na investigação em torno da linguagem e das línguas. Reconhecer isso é também uma atitude ética frente ao pensamento de um autor que já foi objeto de inúmeras críticas em função das “exclusões” que teria operado para criar a linguística da langue.

A segunda, mais diretamente ligada aos nossos objetivos específicos, diz respeito ao fato de que, embora existam, entre nós, alguns poucos trabalhos que buscam reler Saussure sob um viés que avalie sua pertinência ao campo da Linguística Cognitiva - por exemplo, Marques; Alonso e Pinheiro (2017) - são poucos os estudos brasileiros que abordam esse ponto. No entanto, a fortuna crítica saussuriana internacional já há bastante tempo tem buscado avaliar esse aspecto. Por exemplo, e apenas para citar uma primeira fonte, em estudo intitulado “Le paradigme visuel de la discursivité saussurienne”, Kim (2010, p. 87-88), tratando a noção de “imagem mental” em Saussure, considera que “as representações mentais se desenvolvem sobre a base de representações semióticas interiorizadas” e que “sobre essa base se poderia elaborar uma semiótica cognitiva saussuriana compatível com a semântica cognitiva que explora as relações entre a linguagem e as estruturas conceptuais”; mas há outras fontes. Fadda (2010, p. 282) afirma:

Um lugar comum muito difundido sustenta que Saussure atribuiu todo o conhecimento e toda a categorização e, em geral, deu pouca atenção à dimensão cognitiva e ao tema das relações entre a linguagem e a mente. Isso não é bem assim e muitos textos nos mostram um Saussure inédito (mas apenas para aqueles que não foram capazes de ver isso também no CLG) e ‘cognitivo’ (mas não cognitivista!), que se interroga notadamente sobre a forma pela qual a cognição propriamente linguística se insere no domínio mais geral do espírito individual e (sobretudo) social-coletivo.

A formulação de Fadda parece vir claramente ao nosso encontro. Vale repetir: não queremos fazer de Saussure um cognitivista; queremos apenas ver como Saussure lidou com esse aspecto da linguagem humana e que efeitos isso pode gerar na leitura de teorias contemporâneas.

Além dos dois trabalhos que referimos acima, cabe lembrar também, a título de fonte, os seguintes estudos que, cada um a seu modo, problematizam as relações de Saussure com o tema de nossa discussão: Bergounioux (1995), “Saussure ou la pensée comme répresentation”; Maniglier (2003), “La langue: cosa mentale”; Fadda (2006), Lingua e mente sociale. Por uma teoria das instituições linguísticas de Saussure e Mead; Bronckart (2003), “L’analyse du signe et la genèse de la pensée consciente”; Fehr (1995) “‘Le mécanisme de la langue’ entre linguistique et psychologie: Saussure et Flournoy”; Rastier (2012), “Langage et pensée”; Elffers (2012), “Saussurean structuralism and cognitive linguistics”; entre outros.4

Assim, em resposta às questões que formulamos acima, pensamos que o estudo que esboçamos aqui permite, por um lado, auxiliar a situar Saussure em relação ao seu tempo e, nesse contexto, ver como ele projetou uma “outra” linguística; por outro lado, enriquecer o debate em torno de Saussure no Brasil por um prisma que, embora já bastante desenvolvido em outros centros de pesquisa, é ainda incipiente entre nós.

Justificamos, por fim, nossa abordagem de um prisma estritamente epistemológico. Quer dizer, sabemos bem que a conexão entre Ferdinand de Saussure e a Linguística Cognitiva não se estabelece de forma direta. Contudo, é possível investigar algumas relações conceituais e influências indiretas entre a teoria saussuriana e os fundamentos do cognitivismo. Na verdade, o debate em torno da interface linguagem e cognição pode, e muito, se beneficiar da rediscussão de temas que foram descartados em um passado recente. A diversidade das línguas (um tema caro a Saussure), por exemplo, pode evidenciar relações ainda não desenvolvidas entre a faculdade de linguagem (termo também utilizado por Saussure) e a atividade cognitiva. Essa diversidade pode ser encarada como o ponto de partida crucial para uma abordagem linguística ampla, que se ampara na interface linguagem e cognição.

Para levar a cabo nossas reflexões, o presente trabalho organiza-se em duas partes, além da “Introdução” e das “Considerações finais”: a primeira, dedicada a um ponto específico da linguística saussuriana, o signo linguístico, porque nele situamos os insights cognitivos de Saussure; a segunda, dedicada aos efeitos que essa noção pode ter a partir do ponto de vista por nós aqui delimitado.

À guisa de introdução, fazemos ainda uma observação: a leitura que estamos propondo somente é possível porque decorre da interpretação que fazemos da obra saussuriana (cf. Flores 2023), segundo a qual a linguística pensada por Saussure, antes de se configurar em um modelo acabado, projeta-se como uma linguística geral, uma filosofia da linguística, uma epistemologia. É isso que pode fazer dela uma fonte inesgotável de insights para linguistas de hoje e do futuro.

2. O signo linguístico: um primeiro insight

Em um texto intitulado “A forma e o sentido na linguagem”, Émile Benveniste expressa uma preocupação em relação ao conceito de “signo”, destacando a falta de discernimento de muitos autores ao utilizá-lo. Diz ele: “Não se pode deixar de ficar admirado por ver tantos autores manipularem inocentemente este termo ‘signo’ sem discernir o que ele contém de restrições para quem o adota e em que ele o compromete a partir daí” (Benveniste, 1989, p. 224). Ora, na verdade, ele adverte sobre as restrições implícitas no termo e as consequências que sua adoção acarreta.

De fato, o uso de “signo” tem repercussões significativas. Mesmo quando aplicado exclusivamente à linguagem humana e excluindo-se seu uso em contextos não linguísticos - como a representação de algo além de si mesmo -, sua interpretação varia conforme o campo disciplinar, revelando diferentes posturas epistemológicas. Além disso, o termo transcende os limites da linguística, sendo comumente utilizado em áreas como filosofia, semiótica, psicologia, história, antropologia e psicanálise.5

Na linguística moderna, os linguistas frequentemente fazem referência a Saussure quando discutem o conceito de “signo linguístico”. Essa tendência não é sem motivo. De fato, Saussure marcou um ponto de virada significativo nessa questão, qual seja: com ele, podemos indagar sobre a natureza do signo linguístico (de que ele é feito?), o que implica uma verdadeira revolução no tratamento do tema. Não se trata mais de querer saber o que é um signo; o importante é saber de que um signo é constituído. Passemos então a isso.

O signo é, pois, uma entidade psíquica de duas faces

A frase que nos serve de título encontra-se no Curso de linguística geral (CLG), obra póstuma de Saussure (1975, p. 80), e é um ponto de reflexão que vale a pena retomarmos aqui.

A noção saussuriana de signo linguístico é introduzida no CLG por contraste ao conceito de signo em geral. Inicialmente, é destacado que, “o signo linguístico une não uma coisa e uma palavra, mas um conceito e uma imagem acústica” (Saussure, 1975, p. 80). Essa abordagem implica duas importantes considerações.

Em primeiro lugar, afasta-se a ideia de que o signo - e, consequentemente, a língua, entendida por Saussure como “um sistema de signos” (Saussure, 1975, p. 24) - estabelece uma ligação imediata entre “coisa” e “palavra”, evitando assim uma visão que associa a língua diretamente ao “mundo dos objetos”, à realidade. Para o linguista, tal associação implicaria considerar a língua como mera nomenclatura sobreposta à realidade. Em segundo lugar, concebe-se o signo como uma entidade composta por duas faces distintas, denominadas “conceito” e “imagem acústica”.

O “conceito” não é algo material; ele diz respeito a uma operação puramente conceptual, psíquica. A “imagem acústica”, por sua vez, também não é o som material, algo físico; ela é “a impressão (empreite) psíquica desse som, a representação que dele nos dá o testemunho de nossos sentidos” (Saussure, 1975, p. 80). Ou seja, é fundamental entendermos que, para Saussure, o signo linguístico é composto de faces psíquicas. Ele exemplifica: “o caráter psíquico de nossas imagens acústicas aparece claramente quando observamos nossa própria linguagem. Sem movermos os lábios nem a língua, podemos falar conosco ou recitar mentalmente um poema” (Saussure, 1975, p. 80). É em sequência a esse raciocínio que lemos, no CLG, a formulação que colocamos no título deste item (o signo linguístico é, pois, uma entidade psíquica de duas faces), ilustrada com a Figura 1 abaixo:

Figura 1:
O signo como entidade de dupla face.

Essa figura mostra um elemento crucial: o signo linguístico é caracterizado como “psíquico” por natureza. E o que significa “psíquico” no contexto do CLG? O termo é frequentemente utilizado no livro em associação com o signo linguístico. Há vários exemplos disso. Saussure menciona que, quando um conceito evoca uma imagem acústica correspondente no cérebro, isso é um fenômeno completamente psíquico: “suponhamos que um dado conceito suscite no cérebro uma imagem acústica correspondente: é um fenômeno inteiramente psíquico” (Saussure, 1975, p. 19). Tal noção é complexa, pois “psíquico” não é sinônimo de “abstrato”: “os signos linguísticos, embora sejam essencialmente psíquicos, não são abstrações” (Saussure, 1975, p. 23). E conclui: “os termos implicados no signo linguístico são ambos psíquicos e estão unidos, em nosso cérebro, por um vínculo de associação” (Saussure, 1975, p. 79-80). A conclusão aqui é clara: o termo “psíquico”, quando aplicado ao signo linguístico, impõe que se entenda que não só o signo em si é de natureza psíquica, mas também suas componentes individuais, implicando que essas não são de natureza nem física nem fisiológica. Essa mesma ideia é antecipada já no início do CLG, quando é apresentado o seguinte esquema:

Esquema 1:
Circuito da fala.

Esse esquema “permite distinguir sem dificuldade as partes físicas (ondas sonoras) das fisiológicas (fonação e audição) e psíquicas (imagens verbais e conceitos)” (Saussure, 1975, p. 20). Para Saussure, “de fato, é fundamental observar que a imagem verbal não se confunde com o próprio som e que é psíquica, do mesmo modo que o conceito que lhe está associado” (Saussure, 1975, p. 20). E conclui:

O circuito, tal como o representamos, pode dividir-se ainda:
a) numa parte exterior (vibração dos sons indo da boca ao ouvido) e uma parte interior, que compreende todo o resto;
b) uma parte psíquica e outra não-psíquica, incluindo a segunda também os fatos fisiológicos, dos quais os órgãos são a sede, e os fatos físicos exteriores ao individuo;
c) numa parte ativa e outra passiva; é ativo tudo o que vai do centro de associação duma das pessoas ao ouvido da outra, e passivo tudo que vai do ouvido desta ao seu centro de associação;
finalmente, na parte psíquica localizada no cérebro, pode-se chamar executivo tudo o que é ativo (c →i) e receptivo tudo o que é passivo (i →c). (Saussure, 1975, p. 20-21).

Do ponto de vista saussuriano, então, a imagem acústica não é o som, mas a impressão psíquica do som; o conceito não é a “coisa”, o “objeto real”, mas “fatos de consciência” (Saussure, 1975, p. 19), quer dizer, o significado. Saussure dá a ver, portanto, o que entende ser de ordem material - irrelevante do ponto de vista linguístico - e de ordem psíquica - verdadeiramente importante para a sua linguística.

Por fim, no CLG, vemos que os termos “imagem acústica” e “conceito” são renomeados “significante” e “significado”, respectivamente. Ao conjunto formado por ambos, denomina-se “signo linguístico”. A partir daí, o CLG apresenta duas características do signo que têm valor de princípio do estudo linguístico: (a) a arbitrariedade do signo e (b) o caráter linear do significante. A arbitrariedade tem especial interesse para os nossos objetivos aqui porque ela sustenta a ideia de que não há motivação na união entre significante e significado, uma vez que a Saussure entende que não há relação direta entre “palavra” e “mundo”. O significado precisa ser entendido em termos de conceptualização, no interior do sistema do qual faz parte. Falemos sobre isso, em detalhe, adiante.

A língua não é uma nomenclatura

No capítulo “Natureza do signo linguístico” do CLG, lemos: “para certas pessoas, a língua, reduzida a seu princípio essencial, é uma nomenclatura, vale dizer, uma lista de termos que correspondem a outras tantas coisas. [...] Tal concepção é criticável em numerosos aspectos” (Saussure, 1975, p. 79). A crítica de Saussure incide sobre três dificuldades que tal concepção mobiliza: 1) “supõe ideias completamente feitas, preexistentes às palavras” (Saussure, 1975, p. 79); 2) “não nos diz se a palavra é de natureza vocal ou psíquica” (Saussure, 1975, p. 79); 3) “faz supor que o vínculo que une um nome a uma coisa constitui uma operação muito simples, o que está longe da verdade” (Saussure, 1975, p. 79).

Basicamente, essas dificuldades são utilizadas para explicar a razão pela qual Saussure se distanciou de uma abordagem ligada à tradição filosófica nominalista. Rejeitar a concepção da língua como uma simples lista de palavras relacionadas a objetos, reais ou imaginários, representa uma oposição à visão designativa da linguagem, que a compreende com base em suas relações com o mundo objetivo, isto é, com as entidades do mundo físico. No máximo, podemos dizer que Saussure admite que essa “visão simplista pode aproximar-nos da verdade, mostrando-nos que a unidade linguística é uma coisa dupla, constituída de dois termos” (Saussure, 1975, p. 79). Em outras palavras: a unidade linguística, o “signo linguístico”, é constituída por um conceito, o “significado”, e uma imagem acústica, o “significante”, mas isso não implica considerar que o signo linguístico esteja unido a uma coisa do mundo real.

No CLG, essa diferença pode ser visualizada em duas figuras (cf. figuras 2 e 3, a seguir)

Figura 2:
A língua como nomenclatura.

Figura 3:
Signo linguístico como unidade de duas faces.

Na Figura 2, está representada a visão simplista da língua como nomenclatura, em que cada palavra corresponde a um objeto no mundo; na Figura 3, está representada a proposta de Saussure cujas relações não se dão mais entre a palavra e a realidade, mas entre o conceito “árvore”, o significado, e a imagem acústica “árvore”, o significante.

Nos Escritos de linguística geral (ELG), livro que reúne a transcrição de importantes manuscritos saussurianos,6 vemos Saussure ratificando o seu distanciamento da ideia de língua como nomenclatura. Em uma nota para o Curso III (1910-1911)7, Saussure evoca a figura mítica de Adão para ilustrar sua crítica: “o problema da linguagem só se coloca, para a maior parte dos espíritos, sob a forma de uma nomenclatura. No capítulo IV do Gênesis, vemos Adão atribuir nomes” (Saussure, 2004, p. 282). A mesma evocação é feita em uma nota para um livro de linguística geral:8 “a maior parte das concepções que têm ou, ao menos, apresentam os filósofos da linguagem, faz pensar em nosso primeiro pai Adão, chamando para perto de si os diversos animais e dando a cada qual seu nome” (Saussure, 2004, p. 197). E, nesse ponto, formula textualmente sua crítica:

Em primeiro lugar, a verdade, em que nem mesmo insistimos, de que o âmago da linguagem não é constituído de nomes. É um acidente quando o signo linguístico corresponde a um objeto definido pelo sentido como cavalo, fogo, sol e não a uma ideia como εθηχε ‘ele coloca’. [...] não há nenhuma razão evidente, bem ao contrário, para tomá-lo como modelo da linguagem. (Saussure, 2004, p. 197).

Na realidade, a rejeição de Saussure da relação entre a língua e o mundo dos objetos permite-lhe definir um âmbito de análise sobre a língua que difere do campo ocupado pelos filósofos: “a crítica ocasional que dirigimos à maneira tradicional de considerar a linguagem quando se quer tratá-la filosoficamente” (Saussure, 2004, p. 198). Ao delimitar para fora de seu horizonte as questões filosóficas (como a referência, a existência da linguagem, etc.), Saussure também define o que ele considera ser o domínio próprio do linguista: o estudo do sistema da língua.

Assim, segundo a teoria saussuriana, a rejeição da visão da língua como mera nomenclatura - ou, em termos mais amplos, a rejeição de uma abordagem filosófica da língua - desempenha o papel de evitar considerar a língua em relação a uma “realidade” externa, anterior à própria língua, e estabelece a base para a formulação da arbitrariedade do signo linguístico, uma das noções mais fundamentais de Saussure.

Signo linguístico: mesclagem conceptual?

Como apontado na seção anterior, ao representar o signo linguístico como unidade de duas faces, Saussure buscou destacar não apenas essas faces (significante e significado), mas também a relação indissociável entre elas, representada, na Figura 3, por duas setas em direções opostas. Em Linguística Cognitiva, diferentes tipos de indissociação têm sido descritos com base no processo de integração conceptual (ou mesclagem), apontado, no âmbito da Teoria dos Espaços Mentais (Fauconnier, 1994, 1997; Fauconnier; Turner, 2002), como essencial para a construção do significado e para a criatividade na linguagem. Na cultura material, por exemplo, há uma série de objetos e artefatos que evidenciam o processo de mesclagem. Nos termos de Hutchins (2005), um conjunto de pessoas dispostas em linha reta, uma atrás da outra, constitui uma fila: os participantes utilizam a localização espacial de seus corpos para representarem a ordem de chegada e de atendimento dos clientes. A capacidade de reconhecimento do formato da fila decorre da sedimentação dessa prática sociocultural. É interessante notar, entretanto, que a simples visualização de uma linha reta não é suficiente para se enxergar uma fila. É necessário, ainda, mesclar esse conjunto de pessoas a uma estrutura conceptual de trajetória unidirecional.

De forma semelhante, a escrita e a fala podem ser descritas como resultantes de integração conceptual. A palavra “árvore”, por exemplo, ativa, em português, a mesclagem de aspectos formais e semânticos, de modo que não é possível ouvir (ou ler) a palavra separando as duas partes. Ao ter destacado a indissociabilidade entre imagem acústica e conceito, Saussure parece ter intuído a mesclagem conceptual, utilizando a metáfora, água:

Comparou-se amiúde essa unidade de duas faces com a unidade da pessoa humana, composta de alma e corpo. A comparação é pouco satisfatória. Poder-se-ia pensar, com mais propriedade, numa composição química, a água por exemplo; é uma combinação de hidrogênio e de oxigênio; tomado separadamente, nenhum desses elementos tem as propriedades da água" (Saussure, 1975, p. 120).

Além disso, a mesclagem permite explicar por que diferentes termos podem acessar o mesmo referente no mundo externo, mas ativarem significados ligeiramente distintos. É o que é chamado, em Semântica Cognitiva, de construal, como veremos a seguir.

Em Semântica Cognitiva, o significado é identificado com conceptualização

No que se refere ao tratamento do significado, é possível argumentar que o conceito de signo parece se aproximar da visão da Semântica Cognitiva, modelo semântico adotado pela Linguística Cognitiva (Lakoff, 1987). Em especial, o insight saussuriano referente à relação entre conceito e imagem acústica tem sido detalhadamente desenvolvido na Gramática Cognitiva, vertente proposta por Ronald Langacker (1987, 1991), para tratar das relações entre estrutura linguística e significado.

A principal premissa da Gramática Cognitiva é a de que o significado deve ser tratado como conceptualização. Sendo assim, diferentemente de modelos semânticos formalistas, em que a relação entre palavra e mundo é descrita em termos de condições de verdade (Katz; Fodor, 1963), a Gramática Cognitiva prevê que o significado é construído cognitivamente, refletindo a habilidade humana de “construir” a mesma situação de modos alternativos. Nesse sentido, a noção de construal é fundamental para a descrição dessa construção cognitiva do significado, na medida em que se refere à capacidade de se estruturar o conteúdo de um domínio conceptual de modos alternativos (Langacker 2000, 2008, 2009). É que o será detalhado na seção a seguir.

Nossa habilidade de “construir” uma cena de modos alternativos (construal) é um elemento-chave para a semântica

Entre as dimensões do construal9, destacam-se a perspectiva adotada para “ver” uma situação, o nível de especificidade com que uma situação é caracterizada e o grau de proeminência conferido aos elementos que a constituem (Langacker, 1993)

Na percepção real, a perspectiva está sempre associada a um ponto de vista - o local em que o observador se situa e a partir do qual uma determinada cena é percebida. Essa experiência perceptual e seus análogos conceptuais abstratos podem apresentar diferentes manifestações linguísticas. Consideremos os seguintes exemplos, adaptados de Langacker (2000, p. 208):

Há uma locadora bem ali do outro lado da rua.

Há uma eleição na próxima terça-feira.

No exemplo (1), a localização do falante é o ponto de vista a partir do qual a cena é descrita; o exemplo (2), mais abstratamente, toma o momento da fala como ponto de vista temporal.

Já a especificidade (ou inversamente, esquematicidade) representa o nível de precisão e detalhamento com que uma situação é caraterizada. Imaginemos, por exemplo, que três pessoas adotem o mesmo ponto de vista em relação a uma determinada paisagem. Mesmo assim, cada uma delas pode estabelecer construals distintos com relação ao que está sendo visto, em função de diferenças quanto ao nível de especificidade. É o que se observa nas seguintes sentenças:

As árvores ocupam toda a praça.

As amendoeiras ocupam toda a praça.

As amendoeiras-da-praia ocupam toda a praça.

Como indicam os exemplos (3) a (5), mesmo descrições pertinentes e verdadeiras podem representar construções cognitivas ligeiramente distintas de uma mesma paisagem. A diferença entre (3), (4) e (5) é o nível de especificidade com que se decide descrever a entidade que exerce a função de sujeito: mais genérica (árvore), mais específica (amendoeira) e ainda mais específica (amendoeira-da-praia). É o que mostra a representação a seguir (Figura 4):

Figura 4:
Nível de especificidade.

Em termos de categorização (Rosch; Mervis; Gray, 1976; Rosch, 1978), ‘árvore’ representa o nível superordenado (mais genérico) e ‘amendoeira’ é uma expressão de nível básico; já ‘amendoeira-da-praia’ constitui o nível subordinado (mais específico). O nível básico é aquele em que podemos estabelecer uma imagem mental única, como também esquemas sensório-motores específicos. Por exemplo, podemos imaginar ações mais precisas para subirmos em uma amendoeira do que para subirmos em uma árvore genérica - os esquemas sensório-motores seriam um pouco diferentes se a árvore fosse um coqueiro, um pinheiro etc. O nível subordinado, por sua vez, é ainda mais específico do que o básico. Entretanto, estudos experimentais demonstram que o nível básico é o nível mais alto no qual podemos formar uma imagem mental única e imaginar esquemas sensório-motores específicos relacionados à categoria. Além disso, o nível básico constitui o primeiro formado durante a percepção do ambiente circundante, o primeiro apreendido pelas crianças e o mais usado na linguagem. De um modo geral, categorias superordenadas são menos informativas, porque representam apenas um conjunto limitado de atributos, enquanto as categorias subordinadas prescindem de economia cognitiva na medida em que são representadas por muitos atributos.

Além disso, a diferença entre o exemplo (4), apresentado anteriormente, e o exemplo (6), a seguir, diz respeito ao grau de proeminência:

As amendoeiras ocupam toda a praça.

(6) A praça está toda ocupada pelas amendoeiras.

Considerando-se que, com relação às funções sintáticas de sujeito e objeto direto, a primeira é mais proeminente do que a segunda, pode-se observar que o exemplo (4) descreve a paisagem colocando a entidade localizada em proeminência (amendoeiras), enquanto o exemplo (6) descreve a mesma paisagem destacando o local (praça). Vejamos a representação (Figura 5):

Figura 5 -
Proeminência relacionada à função de sujeito.

Tendo em vista a diferença do que é colocado em proeminência em relação à mesma paisagem, o exemplo (4) seria uma resposta adequada à pergunta “Onde ficam as amendoeiras?”, enquanto o exemplo (6) seria uma resposta compatível com a pergunta “Como está a praça?”.

Assim, considerando que, no âmbito da Gramática Cognitiva, o significado é tratado como conceptualização, perspectiva essa que, como vimos, não é distante da ideia saussuriana de signo como unidade psíquica, caberia examinar como se apresentam as unidades sobre as quais é possível estruturar o conteúdo de um domínio conceptual. A seguir, portanto, abordamos o tema da delimitação da unidade conceptual na linguística de Saussure.

3. Signo linguístico - além e aquém da palavra: um segundo insight

Neste item, abordamos um ponto importante da linguística saussuriana que se apresenta normalmente sob a forma de uma dificuldade: a delimitação das unidades que compõem a língua. Quer dizer, se a língua é um sistema formado de signos e se os signos são, tal como explicamos acima, constituídos pelas duas faces (significante e significado), ambas de natureza psíquica, distantes de uma relação com o mundo, como se delimita um signo?

Em outras palavras, de posse do entendimento da constituição do signo, podemos passar à discussão acerca da sua delimitação nas línguas.

Toda palavra é um signo linguístico, mas nem todo signo linguístico é uma palavra

A afirmação que nos serve de título sintetiza algo que tentamos demonstrar a partir de nossas interpretações sobre a obra saussuriana. Nesse aspecto, vemos grande potencialidade de pensar o que temos chamado de insight cognitivo da linguística saussuriana, na medida em que o entendimento do signo linguístico como combinação entre conceito e imagem acústica distancia-se de uma perspectiva que o associaria a unidades como a “palavra”, por exemplo, aproximando-se de uma noção construcional de linguagem, pensada a partir da relação entre a forma (o significante) e o significado. Para tanto, vamos nos deter aqui apenas em um ponto da reflexão saussuriana: seu distanciamento da associação entre a sua concepção de signo e o que comumente conhece-se como sendo a “palavra”.

Para entender isso, precisamos partir do que Saussure pensa ser o “método de delimitação” das unidades da língua. Esse método, no CLG, é ilustrado com o Esquema 2.

Esquema 2:
Método de delimitação das unidades.

O que vemos no Esquema 2? Duas cadeias: “a”, cadeia acústica; “b”, cadeia dos conceitos. A delimitação de uma unidade exige que as divisões presentes em “a” correspondam às divisões presentes em “b”. É um método aparentemente simples, mas que implica dificuldades; e Saussure não as desconhece. Ele mesmo indaga: “este método, tão simples em teoria, será de aplicação fácil?” (Saussure, 1975, p. 122). E responde: a facilidade decorreria apenas de uma crença segundo a qual “as unidades a serem deslindadas são as palavras” (Saussure, 1975, p. 122). Sua posição é clara: “imediatamente nossa suspicácia desperta quando verificamos que muito se discutiu sobre a natureza das palavras e, refletindo um pouco, vê-se que o que se entende por isso é incompatível com a noção que temos de unidade concreta” (Saussure, 1975, p. 122).

Ora, a unidade, o signo linguístico, não é sinônimo de “palavra”: “deve-se procurar a unidade concreta fora da palavra” (Saussure, 1975, p. 122). Disso decorre nossa afirmação de que toda a palavra é um signo, mas nem todo o signo é uma palavra, pois, na interpretação saussuriana, o signo pode ser um sufixo, um prefixo, um radical; pode ser também os compostos, as locuções, as formas de flexão; ou ainda as fraseologias etc. Dito de outro modo, “tudo o que for significativo num grau qualquer aparece-lhes [aos falantes] como um elemento concreto” (Saussure, 1975, p. 123).

Na verdade, podemos dizer que é uma unidade - e observe-se que no decorrer do CLG Saussure migra do uso da expressão “signo linguístico” para o uso da expressão “unidade linguística” - tudo o que tem forma e significado e que está em relação associativa e sintagmática em um sistema de valores: “a relação sintagmática existe in praesentia; repousa em dois ou mais termos igualmente presentes numa série efetiva” (Saussure, 1975, p. 143); já a “relação associativa une termos in absentia numa série mnemônica virtual” (Saussure, 1975, p. 143). Essas relações não operam separadamente; estão sempre juntas, simultaneamente, e constituem o mecanismo da língua, governado por relações de valores entre as unidades. A ilustração disso no CLG é encontrada em uma das muitas metáforas que Saussure fornece. Diz ele:

uma unidade linguística é comparável a uma parte determinada de um edifício, uma coluna, por exemplo; a coluna se acha, de um lado, numa certa relação com a arquitrave que a sustém; essa disposição de duas unidades igualmente presentes no espaço faz pensar na relação sintagmática; de outro lado, se a coluna é de ordem dórica, ela evoca a comparação mental com outras ordens (jônica, coríntia etc.), que são elementos não presentes no espaço: a relação é associativa. (Saussure, 1975, p. 143).

A metáfora é autoexplicativa: tudo está em relação significativa entre si. Nessa direção, é correta a conclusão de Bouquet (2000, p. 281) para quem há uma “gramática do sentido projetada pelo genebrino”. Com isso, Bouquet quer dar a entender que o objeto da linguística pensado por Saussure no início do século XX é na verdade um objeto semântico que vai além de palavras, léxico etc., mas que os inclui. Isso fica claro, no CLG, quando lemos, no capítulo “Papel das entidades abstratas em gramática” que assim como há relações entre “palavras”, há relações entre flexões, declinações, posições sintáticas, ordem das palavras etc. tudo isso compõe uma “gramática do sentido”.

Além disso, Saussure discorda da separação entre léxico e gramática. Para ele, a gramática deve ser entendida “no sentido muito preciso e ademais usual que se encontra em expressões como ‘gramática do jogo de xadrez” [...], em que se trata de um objeto complexo e sistemático, que põe em jogo valores coexistentes” (Saussure, 1975, p. 156). E explica: “nossa definição não concorda com aquela, mais restrita, que dela se dá usualmente. É, com efeito, à morfologia e à sintaxe reunidas que se convencionou chamar de Gramática, ao passo que a lexicologia [...] foi dela excluída” (Saussure, 1975, p. 156). E afirma peremptoriamente: “tal distinção é, porém, ilusória” (Saussure, 1975, p. 157).

Há, portanto, uma transversalidade do sentido, que atravessa toda a língua e está presente em todos os seus elementos, em todas as suas relações: léxico, morfologia, sintaxe, fonologia. Tudo é atravessado por uma gramática do sentido e constitui uma gramática do sentido. É nessa perspectiva que surpreendemos um segundo insight cognitivo de Saussure: poderíamos pensar que a organização e a constante reorganização da linguagem, promovida pelos falantes de uma língua - com base em combinações de forma e significado (pareamento) que formam um conjunto de itens complementares entre si - estariam ligadas, além de à arbitrariedade do signo linguístico, à transversalidade do sentido, base da construção das línguas?

É tudo léxico! (Constructions all the way down)

Com relação aos reflexos do pensamento de Saussure no desenvolvimento da Linguística Contemporânea, é possível argumentar que há um paralelo entre o conceito de signo e seu lugar no conjunto da teoria saussuriana e a noção de construção gramatical. A frase que intitula esta seção, “É tudo léxico!”, retirada de Pinheiro (2016), visa a generalizar o que já havia sido apontado por Saussure, como indicado e discutido na seção anterior (“Toda palavra é um signo, mas nem todo o signo é uma palavra”).

Nesse sentido, diferentes insights da perspectiva saussuriana são retomados no modelo da Gramática de Construções (GC), em suas várias vertentes (Marques; Alonso; Pinheiro, 2017). Isso porque, diferentemente da Gramática Gerativa, as abordagens construcionistas buscam relacionar dois eixos principais: o detalhamento da semântica e a distribuição estrutural de palavras específicas, morfemas, estruturas morfológicas, esquemas sintáticos e padrões não-usuais do ponto de vista interlinguístico.

Entre os modelos de Gramática de Construções conhecidos como funcionais-cognitivos, destacam-se a Gramática Cognitiva (Langacker, 1987, 1991) e a Gramática de Construções Cognitiva (Goldberg, 1995, 2006). Ambos os modelos defendem que as construções gramaticais são os primitivos teóricos relevantes cujo objetivo comum é a representação do conhecimento linguístico inconsciente do falante. Enquanto a Gramática Cognitiva investiu na criação de um arsenal teórico consistente para tratar da associação entre estrutura semântica e conceptualização, como descrito anteriormente, a Gramática de Construções Cognitiva (GCC)10 estabelece padrões construcionais a partir dos quais emergem as categorias gramaticais referentes a partes do discurso (nomes, verbos etc.) e a relações sintáticas (sujeito, objeto direto etc.).

Nos termos de Gramática de Construções Cognitiva, todos os níveis de análise gramatical envolvem construções,11 que se caracterizam como pareamentos aprendidos de forma e função (semântica ou discursiva). Consideremos o Quadro 1, abaixo, adaptado de Goldberg (2006, p. 5):

Quadro 1:
Exemplos de construções, com variação de tamanho e complexidade

Como o Quadro 1 ilustra, todos os níveis de análise gramatical envolvem construções, que constituem pareamentos aprendidos de forma e função. As construções gramaticais, portanto, incluem morfemas (ex. in-, -mento), palavras simples e complexas (ex. abacate, couve-flor), expressões idiomáticas preenchidas (ex. dar no pé, pisar na bola) ou parcialmente preenchidas (ex. dar conta de algo, refrescar a memória de alguém), padrões sintagmáticos parcialmente preenchidos (ex. condicionais covariacionais) ou totalmente esquemáticos (ex. construção transitiva, passiva etc.).

A Gramática de Construções Cognitiva ressalta, ainda, o Princípio de Não-Sinonímia, que estabelece que se duas construções forem sintaticamente distintas, terão que ser semântica ou pragmaticamente distintas (Goldberg, 1995). Mais especificamente, pode-se destacar o seguinte corolário:

Se duas construções são sintaticamente distintas e semanticamente sinônimas, não deverão ser pragmaticamente sinônimas (Goldberg, 1995, p. 67).

Para ilustrar esse ponto, consideremos as condicionais reportadas no português brasileiro. Ferrari (2007) analisou diferentes combinações modo-temporais nessas construções, com base na Teoria dos Espaços Mentais (Fauconnier, 1997), demonstrando que a diferença entre elas está associada à noção de Ponto de Vista (PV). Imaginemos que Maria chegue a uma festa e a anfitriã lhe pergunte se sua irmã, Joana, também virá à festa. Maria pode responder de uma das seguintes formas:

(7) Ela disse que se sair do trabalho cedo, virá.

(8) Ela disse que se saísse do trabalho cedo, viria.

Em linhas gerais, ambas as construções ativam os seguintes espaços: o Espaço Base (espaço referente ao falante, ouvinte(s), momento e local do evento de fala), o Espaço Passado, introduzido por “Ela disse que”, e o Espaço Condicional (“Se P, Q”), formado por dois espaços condicionais encaixados no espaço dicendi passado, o Espaço Fundação (“Se P”), e o Espaço Expansão (“Q”). É o que indica a representação a seguir (Figura 6):

Figura 6:
Representação de espaços construídos nos exemplos (7) e (8).

A partir da estrutura comum representada na Figura 6, a diferença pragmática entre as construções está relacionada ao maior ou menor comprometimento do falante com aquilo que é reportado. Em (7), a combinação modo-temporal [Futuro do Subjuntivo - Futuro do Indicativo] indica que o PV é mantido na Base, de modo que o falante sinaliza que compartilha com o falante reportado (no caso, sua irmã), a crença em uma relação causal entre “terminar o trabalho cedo” e “vir (à festa)”. Vejamos (Figura 7):

Figura 7:
Manutenção do PV na Base - “Ela disse que se sair do trabalho cedo, virá”.

Já em (8), a combinação modo-temporal [Pretérito Imperfeito do Subjuntivo - Futuro do Pretérito do Indicativo] indica o deslocamento do PV da Base para o Espaço Passado. Sendo assim, com o PV na Base, o Espaço Passado “Ela disse que...” é construído; em seguida, entretanto, para a construção dos espaços condicionais, o PV é deslocado da Base para o Espaço Passado (PV’). Em termos pragmáticos, o deslocamento do PV indica que o falante não se compromete com a hipótese estabelecida pela irmã de uma relação causal entre “sair do trabalho cedo” e “vir (à festa)”. Vejamos (Figura 8):

Figura 8:
Deslocamento do PV da Base para o Espaço Passado - “Ela disse que se terminasse o trabalho cedo, viria (à festa)”.

Em resumo, o que se pode concluir do que foi discutido nesta seção é que não apenas estruturas gramaticais de diferentes tamanhos e complexidades (“construcions all the way down”) são pareamentos de forma e significado, mas diferenças entre construções complexas semanticamente semelhantes indicam conceptualizações distintas, que podem ser explicadas com base na noção de construal associada, nesse caso, à dimensão cognitiva de Ponto de Vista. Nesse sentido, a Gramática de Construções Cognitiva retoma insights saussurianos relacionados às relações sintagmáticas e paradigmáticas, detalhando ambos os tipos de relações, bem como o pareamento entre forma (significante) e função (significado).12

4. Considerações finais

A partir do percurso feito, gostaríamos de elencar os pontos que situamos como insights cognitivos no referencial linguístico saussuriano. Antes, porém, cabe ratificar que o percurso que fizemos toma cuidado para não planificar diferenças importantes entre a linguística de Saussure e a Linguística Cognitiva; é evidente que cada uma tem métodos distintos e, necessariamente, focaliza aspectos distintos para o tratamento da linguagem. Não desconhecemos essas diferenças, e é por isso que, em nossa reflexão, não operamos em nível metodológico, mas sim em nível epistemológico. Quer dizer: é da perspectiva epistemológica que pensamos ser possível sustentar que o pensamento saussuriano não é estranho à reflexão cognitivista.

O primeiro ponto que buscamos fundamentar diz respeito ao tratamento do significado. Do nosso prisma, pode-se afirmar que o conceito de signo mobilizado por Saussure se assemelha à perspectiva da Semântica Cognitiva, que é o modelo semântico utilizado pela Linguística Cognitiva (Lakoff, 1987). Diz Saussure (1975, p. 140): “todo o mecanismo da linguagem, [...], se funda em oposições [...] e nas diferenças fônicas e conceptuais que implicam”.13 Dito de outro modo, o significado é claramente tratado por Saussure como sendo de natureza conceptual, o que encontra eco na Linguística Cognitiva que também o trata como conceptualização.

A consequência desse, digamos, primeiro insight saussuriano por nós destacado é o distanciamento de uma visão de linguagem que vise à relação direta entre palavra e mundo, bem como sua descrição em termos de condições de verdade/falsidade. Por um lado, na Gramática Cognitiva o significado é pensado como sendo de natureza cognitiva construcional; em Saussure, por outro lado, o significado, por ser relacional, implica um “aspecto” construcional, na medida em que somos levados a pensar em como se apresentam as unidades sobre as quais se organiza o conteúdo de um domínio conceptual. Em ambas as linguísticas se reconhece a ideia de uma estrutura da linguagem, oriunda da cognição humana, para uma, e oriunda da arbitrariedade do signo, para a outra; mas nada impede de vê-las em complementariedade.

O segundo ponto que buscamos desenvolver toca o aspecto propriamente construcional das teorias aqui examinadas. Ora, o entendimento de que a ideia de signo linguístico (conceito e imagem acústica) está distante de uma perspectiva que o associaria diretamente a unidades como a “palavra” permite ver que, a partir da relação entre a forma (significante) e o significado, é possível relacionar o signo linguístico (que não é sinônimo de palavra) à perspectiva construcional, desde que se considere que as abordagens construcionistas - ao relacionarem o detalhamento da semântica e a distribuição estrutural de elementos (palavras específicas, morfemas, estruturas morfológicas, esquemas sintáticos, padrões não-usuais etc.) -, generalizam o que já havia sido apontado por Saussure acerca da estrutura das línguas.

É tempo de concluir e, para isso, queremos destacar um ponto que não tocamos em nossa reflexão, mas que, esperamos, tenha sido ao menos sugerido. Ele diz respeito ao papel do falante em ambas as teorias: a perspectiva sincrônica de Saussure (que implica o conhecimento linguístico do falante) poderia ser complementada pela ênfase da Linguística Cognitiva no uso linguístico e em como os falantes constroem linguagem a partir da experiência perceptual que têm? Poderíamos ver nessa indagação a perspectiva de um diálogo contínuo entre essas duas tradições de pensamento? Em resposta diríamos apenas que, sem dúvida, perspectivas se abrem a partir do percurso apenas esboçado aqui.

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  • 1
    Utilizamos aqui a edição brasileira da obra, cf. Referências.
  • 2
    Utilizamos a expressão “linguística geral” para referir as reflexões de Saussure depreendidas do conjunto de suas produções - fontes manuscritas ou não, póstumas ou não. Seguimos aqui o estabelecido em A linguística geral de Ferdinand de Saussure (Flores, 2023).
  • 3
    Todas as traduções de passagens e citações, quando não listadas em “Referências”, são de nossa responsabilidade.
  • 4
    Ainda como forma de sustentar a pertinência da atualidade de nosso movimento de leitura, fizemos um pequeno levantamento junto à principal e mais prestigiosa publicação saussuriana no mundo, o Cahiers Ferdinand de Saussure, em busca da presença de termos como “cognição”, “cognitivo”, “linguística cognitiva”, entre outros. Lá encontramos, considerando apenas os dez últimos números publicados (números 64 a 74), os artigos de: Anne-Gaëlle Toutain, “L’hétérogénéité du langage: enjeux de la neurolinguistiqu”; Jean-Paul Bronckart, “La sémiologie saussurienne en appui à la psychologie du développement”; François Rastier, “Saussure et l’émancipation de la sémiotique”; Lorenzo Cigana, “Langage et cognition entre Saussure et Hjelmslev”; Anne-Gaëlle Toutain, “Système et organisation : la pensée prise dans le Langage”; Claudio Paolucci, “Identité, sémantique, valeur. l’actualité de saussure pour la sémiotique contemporaine”.
  • 5
    Comprova o que dizemos Roland Barthes (1988, p. 39), que afirma em seu Elementos de semiologia: “Este termo signo, presente em vocabulários bem diferentes (da Teologia à Medicina) e de história muito rica (do Evangelho à Cibernética), é por isso bastante ambíguo”. Ao que acrescenta: o signo “[...] insere-se numa série de termos afins e dessemelhantes, ao sabor dos autores: sinal, índice, ícone, alegoria são os principais rivais do signo”.
  • 6
    Sobre essa obra, ver Flores (2023).
  • 7
    “Notas para o curso III (1910-1911): Nomenclatura” (Saussure, 2004, p. 282-283).
  • 8
    “Status e motus. Notas para um livro de linguística geral, 2” (Saussure, 2004, p. 193-200).
  • 9
    O termo construal será mantido em inglês, na medida em que sua tradução mais apropriada redundaria em “construção”, que já é um termo usado, em português, para traduzir construction, referente à construção gramatical.
  • 10
    Há, ainda, uma vertente bastante alinhada à Gramática de Construções Cognitiva, que é a Gramática de Construções Radical (Croft, 2001).
  • 11
    O que não fica muito distante da ideia saussuriana de que todos os níveis constituem unidades de forma e sentido, como vimos no item anterior.
  • 12
    Para uma discussão detalhada dos pontos comuns e diferenças entre a proposta saussuriana e as diferentes abordagens construcionistas da gramática, cf. Marques, Alonso e Pinheiro (2017).
  • 13
    Mais adiante no CLG, lemos: “o conjunto de diferenças fônicas e conceptuais que constitui a língua” (Saussure, 1975, p. 148).
  • Disponibilidade de dados e material:
    Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo

Editado por

  • Editora-chefe dos Estudos de Linguagem
    Bethânia Mariani

Disponibilidade de dados

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    21 Nov 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    08 Jan 2025
  • Aceito
    09 Abr 2025
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