Open-access Algumas considerações sobre os minimizadores no português brasileiro: contextos (não) afetivos e escalas

Some remarks on minimizers in brazilian portuguese: (Non) affective contexts and scales

RESUMO

Este artigo discute algumas propriedades dos minimizadores no Português Brasileiro. Partindo de Ilari (1984), talvez o primeiro e um dos poucos trabalhos sobre polaridade negativa no Português Brasileiro, abordamos a restrição de tais expressões a contextos negativos e apresentamos brevemente o modelo de Chierchia (2013). Também discutimos certos contextos de acarretamento decrescente, inerentes ao licenciamento de minimizadores. Em seguida, investigamos o fenômeno da afetividade, argumentando que, apesar de, a princípio, esse aspecto parecer escapar à abordagem de Chierchia (2013), é possível explicar tais nuances levando em consideração a definição escalar do minimizador. Por fim, indicamos uma possível existência de uma classe de minimizadores de escala não definida lexicalmente, isto é, itens que funcionam como minimizadores, mas que não possuem uma escala definida em sua entrada lexical, como o nem a pau e o nem fodendo.

Palavras-chave:
Acarretamento decrescente; Minimizadores; Polaridade negativa

ABSTRACT

The paper discusses some properties of minimizer expressions in Brazilian Portuguese. Starting from Ilari (1984), perhaps the first and one of the few studies on negative polarity in Brazilian Portuguese, we address a restriction of such expressions in negative contexts and we quickly introduce the model of Chierchia (2013). We also discuss certain contexts of downward entailment, an inherent licensing of minimizers. Then, we investigate the phenomenon of affectivity, arguing that, despite this aspect seems to escape the approach of Chierchia (2013), it is possible to explain these nuances caused by the scale properties of minimizers. Finally, it is indicated a possible class of minimizers with a non-lexically defined scale, that is, items that work as minimizers, but that do not have a defined scale in their lexical entry, such as nem a pau e o nem fodendo.

Keywords:
Downward Entailment; Minimizers; Negative Polarity

Introdução

Neste artigo, analisamos a semântica e a distribuição das expressões chamadas de minimizadores (ou “minimizers”), no Português Brasileiro (PB). Minimizadores são considerados itens de polaridade negativa (IPNs), pois são sensíveis a contextos sentenciais negativos e, mais especificamente, têm sua distribuição restrita ao chamado contexto de acarretamento decrescente - “Downward Entailment” (DE)1.

Há várias análises que procuraram fornecer algum tipo de explicação para a distribuição e licenciamento dos IPNs nas línguas naturais (ver, por exemplo, Ilari (1984), Ladusaw (1979, 1980), Negri (2006), Mendes de Souza, Gritti e Pires de Oliveira (2008) e Chierchia (2013), entre outros), porém tais estudos focam principalmente em itens de livre escolha, como any (qualquer) e palavras negativas, como não e nenhum. Neste trabalho, iremos trabalhar, tão somente, com os chamados minimizadores no PB, como: mover um dedo; dar um pio; pregar o olho; nem a pau; ter um centavo; dar a mínima; entre outros. Como dissemos, essas expressões parecem estar limitadas a contextos negativos. Vejamos:

(1)O João não pregou o olho à noite.

(2)#O João pregou o olho à noite2.

Há diferenças entre essas duas sentenças. Notemos que a distinção está limitada à presença, ou não, da negação. Assim, o contexto negativo parece licenciar a expressão minimizadora pregou o olho. A sentença em (1) veicula a informação de que João não cometeu nenhuma ação que possa ser considerada pelo menos como um mínimo ato de dormir. Já na ausência da negação, essa expressão não parece ser licenciada com a leitura de (1), e só é possível de ser interpretada se considerarmos que o João pregou literalmente o olho (com cola, por exemplo), o que não gera o significado esperado para o contexto de o João não ter dormido nem um mínimo possível.

Diante dessas observações, propomos algumas linhas de investigação partindo da distribuição dos minimizadores no PB em determinados contextos e em determinadas condições de licenciamento. Analisamos as diferenças de aceitabilidade de minimizadores em contextos DE quando há variação entre situações de ameaças e de promessas afetivas. Além do mais, indicamos para a existência de uma classe de minimizadores de escala não definida lexicalmente, isto é, itens que funcionam como minimizadores, mas que não possuem uma escala definida em sua entrada lexical, como o nem a pau e o nem fodendo.

Mais para problematizar do que para elucidar tais questões, na seção 1, discutimos a distribuição dos minimizadores no PB, com base em Ilari (1984), e apresentamos a proposta de Chierchia (2013) para análise de tais expressões. Já na seção 2, abordamos a sensibilidade apresentada pelos minimizadores em contextos afetivos ou ameaçadores, não diretamente captado pelo modelo de Chierchia (2013). Na sequência, discutimos expressões como nem a pau e aventamos a possibilidade de um minimizador de escala não lexicalizada. Por último, apresentamos nossas considerações finais.

Sobre os minimizadores

Como dissemos na Introdução, minimizadores são itens de polaridade negativa e, portanto, somente são licenciados em determinados contextos sintático-semânticos, como a negação, que por sua vez, se caracteriza como um contexto DE. Contextos DE são aqueles que somente licenciam raciocínios do todo para a parte, isto é, do conjunto para o subconjunto. Vejamos:

(3) João não viu qualquer estudante.

Na sentença em (3), é verdade que: se João não viu qualquer estudante, também é verdade que João não viu estudante de Medicina, estudante de Linguística, etc., os quais são subconjuntos do conjunto designado por estudante. Logo, qualquer é sensível ao contexto DE e pode ser caracterizado como um item de polaridade negativa3.

Perceba que, para além do qualquer, a própria negação é um exemplo de contexto DE. Vejamos:

(4)João não viu estudante.

Ora, em (4), também é verdade que, se João não viu estudante, João não viu estudante de nenhum outro subconjunto contido no conjunto designado por estudante.

Do mesmo modo, os minimizadores estão restritos a sentenças negativas e, consequentemente, a contextos DE. O texto de Ilari (1984) é provavelmente o primeiro a discutir a questão dos minimizadores, analisando dados do PB. Ilari (1984) salienta que tais locuções têm como característica marcante o fato de não ocorrerem em sentenças afirmativas. Notemos o contraste de interpretação entre as sentenças em (5) e (6):

(5) O João não levantou um dedo para me ajudar.

(6) #O João levantou um dedo para me ajudar.

Como observa Ilari (1984), em (5) a leitura preferencial é de que nada foi feito, que o João não fez nem o mínimo para ajudar. Nesse caso, a expressão não moveu um dedo tem seu sentido cristalizado, constitui-se como uma expressão idiomática. A interpretação literal, no entanto, é possível, mesmo que falsa na situação. Em (6), o que aconteceu foi um evento de João levantar um dedo. Perceba que a interpretação da expressão minimizadora em (5) está simplesmente bloqueada para (6), por isso a marcamos com # para indicar que a sentença é inapropriada para o que se procura veicular no contexto em questão, qual seja: que João não exerceu o mínimo de ação que pode ser considerado como ajudar.

Outra característica dos minimizadores diz respeito ao fato de suscitarem apenas respostas negativas em perguntas, por exemplo:

(7)E, por acaso, o João levantou um dedo para me ajudar?

a. Não, ele não fez nada.

b. # Sim, ele levantou.

A sentença em (7) pode ser considerada antes de tudo uma pergunta retórica, isto é, uma pergunta para a qual já se tem uma resposta, dado que é esperada sempre uma negação, como em (7a). Respostas positivas tendem a ser estranhas ou interpretadas literalmente, desviando-se do sentido original da expressão minimizadora.

Para além da negação, outro exemplo de licenciadores de minimizadores é o fato de o item ser antecedente de condicionais, o que também se caracteriza como um contexto DE. Vejamos:

(8)Se o João der um pio, ele vai apanhar.

(9) a. *Se o João apanhar, ele vai [dar um pio].

MINIMIZER

b. #Se o João apanhar, ele vai dar um pio.

give-INF a-INDF pio-ACC

Em (8), der um pio encontra-se sob o escopo do antecedente do condicional, portanto a sentença é gramatical. Já em (9b), sob o escopo do consequente do condicional, a expressão minimizadora dar um pio perde seu conteúdo semântico e é interpretada composicionalmente, gerando uma interpretação literal inapropriada ao contexto. Note, ademais, que com a expressão minimizadora, como no caso de (9a), a sentença se torna agramatical, pois o minimizador não está sob escopo do antecedente do condicional, não se caracterizando, portanto, como um contexto DE. Estar sob o escopo do antecedente do condicional é uma exigência gramatical lógico-semântica para os minimizadores, sem a qual a sentença seria agramatical, mas acaba recebendo uma leitura literal para a situação.

Essas restrições apresentadas levam Chierchia (2013) a postular, dentro de seu modelo teórico para os IPNs, que os minimizadores são itens de polaridade negativa enfáticos que ativam uma escala de graus. Por exemplo:

(10) João não dá a mínima para o colégio.

Na sentença em (10), temos o minimizador dar a mínima. Não dar a mínima marca na escala de graus um valor mínimo, o que impossibilita que qualquer outra ação seja marcada num ponto menor. Ou seja, não pode existir uma situação de mundo na qual João se importe menos com o colégio. Em termos formais, isso pode ser traduzido da seguinte forma:

(11) [[dar a mínima]]W = λx∃s [importar-sew(s,x,dmin)]4

Em (11), dmin é algum grau que é menor do que o menor grau máximo possível a que se pode realizar a ação representada pelo predicado dar a mínima. Dar a mínima, é, portanto, importar-se no menor grau dmin. É tão mínimo ao ponto de que não existe qualquer outra ação de se importar menos.

Dentro do modelo proposto por Chierchia (2013), minimizadores são IPNs, logo estão associados a um conjunto de alternativas que precisam ser exauridas por um operador. O modelo proposto por Chierchia, em linhas gerais, se baseia na noção de alternativas e exaustão. Com IPNs não enfáticos, o operador de exaustão é O(only). Porém, para os IPNs enfáticos, como é o caso dos minimizadores, o operador de exaustão vai ser o E(even), devido principalmente ao tipo de escala que os minimizadores ativam e o alto grau de respostas negativas que engendram em perguntas5. O operador E(even) tem então a seguinte denotação:

(12) EALT(p) = p ∧ ∀q ∈ ALT [p <μ q] (Chierchia, 2013, p. 148)

Em (12), p <μ q significa que, em relação a uma medida contextualmente relevante μ, p é menos provável do que q, assim <μ rastreia o menor elemento possível numa escala de medida definida por μ. Com isso, é possível operar o aparato computacional e derivar a agramaticalidade das sentenças com minimizadores em contextos não negativos:

(13) *O João [dá a mínima].

a. Dar a mínimaw = λx∃s [importar-sew(s,j,dmin)]

b. E(Dar a mínima) = { λx∃s [importar-sew(s,j,dmin)] : d’> dmin}

Dar a mínima então expressa a propriedade de se importar no menor grau possível: λx∃s ([[importar-se]] (s,x,dmin)), e o minimizador ativa uma escala de alternativas da forma λx∃s importar-se (x,s,d’), onde d’>dmin. Por isso (13) precisa dar negação6. Do contrário, afirmaria que João se importa, mesmo que minimamente. Assim, a partir da definição do predicado de graus dar a mínima, podemos afirmar que dados dois graus na escala, d e d’, tal que d < d’, é necessário que: a verdade de um algum grau na escala acarreta a verdade de um grau menor. Então calculemos o operador Eeven aplicado à sentença em (13):

(14) ∀ d’> dmin [∃s (se importar(s,j,d’))] → [∃s (se importar(s,j, dmin))]

A partir de (14), o resultado pode ser traduzido como: existe um ato de se importar mínimo por parte do João e, para todos os atos de se importar minimamente, esse se importar minimamente é menos provável do que os graus maiores de se importar. Tal descrição é uma contradição, pois vimos que o grau maior acarreta o grau menor, não sendo possível que o se importar minimamente seja o menos provável dos outros graus. Assim, a partir da exaustão do operador Eeven à sentença em (13), chegamos a uma contradição lógica.

Por outro lado, em contextos negativos, os minimizadores geram sentenças gramaticais. A presença da negação reverte o padrão do acarretamento, então:

(15) ∀ d’> dmin [∃s (se importar(s,j, dmin))] →[∃s (se importar (s,j,d’))]

O que temos agora em (15) é que não existe um estado de se importar por João que atinja o grau mínimo de se importar, dmin. Assim, não pode haver um estado que alcance nenhum outro grau acima desse. Portanto, (15) é verdadeira numa situação em João não se importa de forma alguma, pois não atinge nem o mínimo necessário na escala de se importar ativada pelo minimizador.

O modelo de Chierchia (2013) é bastante complexo e aprofundado e não se limita à análise de minimizadores. A discussão aqui apresentada pretende apenas apresentar a restrição dos minimizadores a sentenças negativas, que por sua vez, são contextos DE. A ausência de contexto DE gera uma contradição lógica. Com isso em mente, e para além da negação, pretendemos abordar outra restrição semântica que parece atuar na distribuição dos minimizadores, como é o caso de contextos afetivos e não afetivos, discutidos na próxima seção.

Contextos (não) afetivos

Parece haver um aspecto comum aos minimizadores sob o escopo de condicionais: eles são restritos a contextos não afetivos, isto é, contextos discursivos em que o enunciador não tem interesse de que o fato condicionado ocorra, como em ameaças (16). Já em promessas, há o feito contrário (17). Vejamos:

(16) Se o João pregar o olho essa noite, eu vou bater nele.

(17) #Se o João pregar o olho essa noite, eu vou beijar ele.

Imagine um contexto em que o João precisa vigiar alguém durante a madrugada e, portanto, ele não pode dormir nem o mínimo possível do ato de dormir. Nesse contexto, uma sentença como (16) pode ser usada. Mas imagine um contexto em que o João não dorme há dias e você quer que ele durma, nem que seja o mínimo. Mesmo nessa situação o uso do minimizador em (17) não parece ser aceitável, embora a sentença tenha um condicional, que licencia o minimizador7.

Vimos que os minimizadores, em condicionais, só são possíveis na posição de antecedente, dados os exemplos (8) e (9) anteriores. Porém, para além disso, parece haver uma sensibilidade relacionado ao conteúdo expresso na sentença, num nível do discurso8. Em (18), mesmo estando sob o escopo do antecedente do condicional, a sentença é estranha, por que no consequente do condicional encontra-se uma promessa. O mesmo não vale para (17).

Essas diferenças indicam uma restrição de uso de minimizadores em sentenças condicionais que possuam promessas afetivas. Já se essa promessa envolver um aspecto negativo, algo como eu vou bater nele, o minimizador parece ser licenciado. Dessa forma, parece haver uma incompatibilidade entre o uso do minimizador (por ex.: pregar o olho) e uma expectativa positiva de que aquilo aconteça (querer que alguém durma, nem que seja um mínimo)9.

Vimos que a ideia central da proposta apresentada para os minimizadores (Chierchia, 2013) é que eles denotam o menor grau numa escala, então, ao usar um minimizador em uma ameaça, o falante está considerando o mínimo de aceitável do que qualquer outro ponto na escala. No caso de pregar o olho, a escala relevante é a de tempo que alguém dorme. Pregar o olho é, portanto, a menor quantidade que alguém pode dormir. Isto posto, como é possível explicar a diferença entre (16) e (17) no modelo de Chierchia (2013)?

Perceba que, nessas sentenças, o minimizador se encontra sob o escopo do antecedente do condicional; e não estar sob o escopo do antecedente tornaria a sentença agramatical, ou seria forçada uma leitura literal, como vimos em (9). Isso nos levou a admitir que o minimizador é um IPN. Contudo, o modelo de análise de Chierchia para esse tipo de IPN, apesar de explicar a distinção de gramaticalidade entre estar sob o escopo do antecedente ou consequente do condicional, não consegue captar as diferenças de aceitabilidade entre (16) e (17), já que em ambas o minimizador está sob escopo do antecedente do condicional.

Csipak (2014) vai discutir esse problema no inglês e se utiliza do arcabouço teórico da teoria dos jogos para articular o conteúdo linguístico com as decisões e preferências dos agentes que estão em interação. Para a autora, seria mais racional para o locutor usar minimizadores em ameaças: usar um minimizador torna as ameaças tão fortes quanto possível, e, como as ameaças não criam compromissos obrigatórios (como promessas), não custam nada ao enunciador. Promessas, por outro lado, custam caro para quem fala, geram o comprometimento. Portanto, muitas vezes é irracional usar um minimizador e fazer a promessa mais forte possível, porque então o falante se compromete a pagar uma recompensa mesmo que o ouvinte realize o grau mínimo na escala. Csipak (2014) então constrói uma restrição que leva em consideração os riscos e custos do enunciador.

De forma um pouco diversa, tentaremos explicar a restrição de minimizadores em contextos de promessas, por exemplo, com base no interesse do falante na realização (ou não) do evento em questão. Partindo da definição escalar do minimizador de Chierchia (2013), tentaremos desenvolver algumas hipóteses. Adaptando a definição de Chierchia (2013) para o minimizador give a damn, podemos dizer que pregar o olho é dormir menos do que o menor ponto da escala, sendo impossível dormir tão pouco10. Assumindo então que os usos de minimizadores em uma ameaça ou uma promessa afetiva envolvem essa denotação de menor grau em uma escala, uma análise que pode ser feita é que o minimizador é especializado para ameaças porque garante que se qualquer ponto da escala for atingido, a ameaça é satisfeita.

Imagine um contexto em que o João não pode dormir nem por um nanossegundo, pois precisa fazer um exame médico, para o qual, necessariamente, o paciente precisa estar acordado. Nesse contexto, se o falante proferir a sentença em (16), o falante busca a menor possibilidade de o João dormir, e, afinal, esse é seu interesse. Se, em vez de usar uma sentença com minimizador, o falante usar uma sentença como em (18), as consequências não serão satisfeitas, e o João não poderá fazer o exame médico, pois ele dormiu, um minuto, mas dormiu:

(18) Se o João dormir 1 minuto essa noite, eu vou beijar ele.

A ameaça com o minimizador parece, portanto, a opção mais segura para o ameaçador. Logo, é interessante para o falante fazer uso do minimizador em ameaças, já que, desse modo, ele faz a ameaça mais forte possível, no sentido de que acarreta todas os outros pontos da escala.

E o que dizer sobre a restrição de uso de minimizadores em promessas? Enquanto é mais seguro para o falante usar um minimizador em ameaças, o contrário se dá para o caso de promessas afetivas. Não é interessante para o falante usar o minimizador para uma situação em que ele quer que aconteça, pois, se é usado um minimizador, o foco está concentrado no menor ponto da escala, enquanto que os anseios do falante estão voltados para os outros pontos altos da escala, já que é do interesse dele que aquilo ocorra, senão a promessa afetiva não teria lugar.

Por exemplo, imagine um contexto em que o João não dorme há dias e ele precisa dormir para se recuperar. Ao fazer uma promessa afetiva para essa situação, o falante espera que o João durma em algum ponto da escala que não envolva o menor valor possível. O foco, nesse caso, está voltado para outros pontos na escala de tempo que o João pode dormir, o que faz com que, nesse contexto, a sentença a seguir seja mais adequada:

(19) Se o João dormir essa noite, eu vou beijar ele.

Ao usar uma promessa afetiva, o interesse do falante é que os graus de dormir estejam marcados para além de pregar o olho.

Em termos pragmáticos, no caso da promessa, o falante quer que aquilo aconteça, pois, do contrário, a promessa não faz sentido. A esperança, portanto, é de realização da ação. Há expectativa de que aquilo aconteça. Já no caso da ameaça, o anseio do falante é que aquilo não aconteça, pois de outro modo a ameaça não teria lugar11. Esse jogo de expectativa e contraexpectativa parece estar ligado a contextos de promessas e contextos de ameaças, respectivamente. Assim, como minimizadores não são possíveis em sentenças afirmativas, eles também não o são em contextos afetivos, como os de promessas. De outro modo, o fato de os minimizadores serem restritos a sentenças negativas parece influenciar sua distribuição a contextos não afetivos, como ameaças.

Sem dúvidas, essa é uma análise que precisa ser bastante explorada, pois ainda carece de uma análise semântica e pragmática para lidar com a diferenças entre os conceitos de contexto afetivos, ameaças e promessas. O que parece estar em jogo é uma sensibilidade para além do nível da sentença. Nosso intuito nesta seção foi apenas de descrever certos aspectos que parecem escapar aos domínios sintáticos e semânticos e envolvem níveis mais pragmáticos. Na próxima seção, trataremos da possibilidade de existência de outra classe de minimizadores.

Minimizador de escala não lexicalizada?

Já apresentamos que minimizadores precisam estar sob o escopo da negação para gerar sentenças gramaticais, por exemplo:

(20) O João não deu um pio.

(21) #O João deu um pio.

A sentença em (20) expressa que o João, numa escala de falar, não falou nem menos do que o menor grau máximo possível a que se pode realizar a ação representada por falar. Já (21) só pode ser interpretada literalmente, como, de fato, o João abriu a boca e verbalizou a sequência sonora representada por pio. Esse é o significado composicional e não é dado por um minimizador. O minimizador é uma expressão cristalizada, isto é, não possui mais um significado composicional, logo seu sentido não pode ser mais resultado de suas partes. Há outros casos em que temos expressões cristalizadas que funcionam como minimizador. Vejamos:

(22) Eu não vou na festa nem a pau.

(23) *Eu vou na festa nem a pau.

Assim como outros minimizadores, nem a pau precisa estar sob o escopo da negação. Ademais, a expressão nem a pau também está cristalizada no PB. Isto fica claro pela agramaticalidade das sentenças:

(24) *Eu não vou na festa a pau.

(25) *Eu não como dobradinha a pau.

Note que sem a expressão nem a pau por completo as sentenças ficam agramaticais. A negação presente, nem, já não pode ter mais seu sentido separado para denotar individualmente, e o minimizador precisa de uma negação sentencial para ser satisfeito. Também não é possível atribuir composicionalidade à expressão e construir outras, como nem a ferro, o que parece indicar que se trata de uma expressão cristalizada.

Dessa forma, a expressão nem a pau já carrega em si a necessidade do contexto negativo, isto é, um contexto DE, assim como outros IPNs. Ainda assim, podemos no perguntar se nem a pau é mesmo um minimizador. Já fizemos o primeiro teste e mostramos que essa expressão só ocorre em sentenças negativas, assim como outros minimizadores. Em outro contexto DE, como estar sob escopo do antecedente de condicional, nem a pau também gera sentenças gramaticais:

(26) Se nem a pau eu danço, imagina ir para a gafieira.

(27) Se nem eu pau eu corro, imagina correr uma maratona.

(28) Se eu der um pio, vou apanhar.

Contudo, algo parece ser interessante à expressão nem a pau. Vimos que, para Chierchia (2013), minimizadores ativam escalas. Veja que no exemplo em (29) a escala está dada. É a escala de falar, que já está presente na denotação de dar um pio. Vejamos:

(29) [[dar um pio]]W = λx∃s (falar(s,x,dmin))

Dessa forma, se o João realizar até menos que o mínimo possível de falar, ele vai apanhar. Contudo, nos exemplos (26) e (27), a escala varia entre dançar e correr, respectivamente. Em (26), o falante não realiza nem menos que o mínimo possível de dançar. Em (27), o falante não realiza nem menos que o mínimo possível de correr.

Isso nos leva a crer que, enquanto outros minimizadores, como dar a mínima, já expressam em si a escala de se importar, por exemplo, o nem a pau é um minimizador de escala não pré-definida. A diferença entre nem a pau e dar a mínima reside no fato de que o minimizador nem a pau não traz em si a escala definida. Podemos, então, formular a denotação de minimizadores como o nem a pau:

(30) [[nem a pau]]W = λx∃s ( X (s,j,dmin))

Perceba que, qualquer que seja o predicado da sentença, esse predicado será tal que representa algum grau que é menor do que o menor grau máximo possível a que se pode realizar a ação representada por esse predicado. Um minimizador similar bastante produtivo no PB parece ser o nem fodendo.

Por outro lado, uma característica aparente desses minimizadores é a sensibilidade à ordem sentencial. Quando precedem o predicado sobre o qual operam, os minimizadores de escalas não lexicalizadas são possíveis tanto em sentenças negativas como não negativas12.

(31) Nem a pau eu como isso.

(32) Nem a pau eu não como isso.

Em (31), o falante afirma que nem no menor grau da escala do predicado comer, ele realiza a ação. No sentido contrário, em (32), o falante afirma que nem no menor grau da escala do predicado comer, ele deixa de realizar a ação de comer.

Esse é um aspecto que precisa ser mais bem explorado e envolve questões de negação sentencial e dupla negação, as quais não iremos explorar neste artigo. Nesta seção, apenas demonstramos que é possível ter minimizadores de escala não pré-definidas que operam sobre diferentes predicados, mantendo, ainda, a análise escalar proposta em Chierchia (2013).

Últimas considerações

No presente artigo, discutimos a distribuição dos chamados minimizadores no PB. Abordamos a restrição de tais expressões a sentenças negativas e, apresentando brevemente o modelo de Chierchia (2013), também discutimos certos contextos de acarretamento decrescente, inerentes aos minimizadores. Tal discussão foi importante para assentarmos o modelo teórico sobre o qual embasamos nossas análises.

Feito isso, partimos para análise de um aspecto caro aos minimizadores, o contexto de afetividade. Assim, mostramos que a análise de Chierchia (2013) para os minimizadores, apesar de captar a distinção de gramaticalidade entre estar sob o escopo do antecedente ou consequente do condicional, não consegue captar as diferenças de gramaticalidade quando o minimizador se encontra em sentenças que expressam afetividade ou ameaças. Em que pese a ausência de definições linguísticas mais precisas sobre contextos afetivos, propusemos uma saída procurando manter a definição escalar do minimizador presente em Chierchia (2013), que consistiu em associar contextos afetivos a contextos positivos; e contexto negativos a contextos não afetivos ou de ameaça.

Aventamos também a existência de minimizadores de escala não lexicalizada, com o nem a pau e nem fodendo. Esse minimizadores não trazem em si a escala definida, diferentemente de minimizadores como dar mínima, que carregam na sua entrada lexical a escala de se importar. Mostramos que, para sentenças com nem a pau e nem fodendo, qualquer que seja o predicado da sentença, esse predicado será tal que representa algum grau que é menor do que o menor grau máximo possível a que se pode realizar a ação representada pelo verbo sobre o qual predicam.

Por fim, vale salientar que as breves análises aqui feitas são preliminares e merecem maior aprofundamento. Nosso objetivo com este artigo foi minimamente jogar luzes para certas propriedades linguísticas dos minimizadores no PB, os quais ainda são pouco estudados, mas que podem nos dizer muito sobre a semântica das línguas naturais, como indica Chierchia (2013), mostrando que relações lógicas se encontram imbricadas no cerne da gramática das línguas naturais.

Referências

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  • CSIPAK, E. Minimizers in conditional threats and promises. Proceedings of Sinn und Bedeutung, v. 18, p. 95-109, 2014.
  • GUERZONI, E. Even-NPIs in yes/no questions. Natural Language Semantics, v. 12, n. 4, p. 319-343, dez. 2004.
  • ILARI, R. Locuções Negativas Polares: Reflexões sobre um tema de todo mundo. In: ILARI, R. Linguística: questões e controvérsias. Série Estudos 10. Uberaba: Faculdade Integrada de Uberaba, 1984. p. 83-97.
  • LADUSAW, W. Negative Polarity as inherent scope Thesis (PhD thesis) - University of Texas, Austin, 1979.
  • LADUSAW, W. Polarity Sensitivity as Inherent Scope Relations Garland, 1980.
  • MENDES DE SOUZA, L.; GRITTI, L.; PIRES DE OLIVEIRA, R. Um estudo sobre os itens de polaridade negativa no PB e seu licenciamento. Working papers linguística, Florianópolis, v. 9, n. 2, p. 23-40, jul./dez. 2008.
  • NEGRI, L. Zona de fronteira: a delimitação entre a semântica e a pragmática sob a lente das expressões de polaridade negativa. 2006. Tese (Doutorado em Lingüística) - Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2006.
  • 1
    Ou mesmo “acarretamento para baixo” e “monotonicidade decrescente” (Ladusaw, 1979). Na seção seguinte especificaremos melhor esse conceito.
  • 2
    Usaremos # para indicar uma frase gramatical em princípio, mas inapropriada para o que se procura veicular no contexto em questão, qual seja: a de que o João não dormiu nem o mínimo necessário para se considerar numa ação de dormir.
  • 3
    Para uma maior discussão sobre o qualquer, ver Mendes de Souza, et. al. (2008). Os autores argumentam que o qualquer seria, na verdade, um item de livre-escolha.
  • 4
    Adaptado do minimizador give a damn em Chierchia (2013): give a damnw = λx∃s [carew (s,x,dmin)].
  • 5
    O quadro teórico em Chierchia (2013) distingue itens de polaridade negativa enfáticos e não enfáticos. Diferentemente do segundo, IPNs enfáticos são aqueles que geram uma expectativa negativa em perguntas: “I propose to distinguish between actually emphatic NPIs (which give rise to negative bias in questions) from potentially emphatic ones (which I will also be calling plain ones) [...] (Chierchia, 2013, p. 143). Para este artigo, não é nosso propósito analisar o modelo proposto e explorar a fundo as razões de Chierchia (2013) postular um operador de exaustão diferente para os minimizadores. Para tanto, ver a discussão de Guerzoni (2004) e Chierchia (2013, p. 153).
  • 6
    Sem a negação, a sentença é agramatical. Contudo, pode até ser interpretada literalmente, atribuindo um significado lexical próximo de ‘mínimo’ para ‘mínima’, o que ainda seria inapropriada para o contexto de uso, em que se quer veicular que o João não se importa nem o mínimo da escala.
  • 7
    O contexto criado foi o de que bater seria algo negativo para o interlocutor; e beijar seria algo positivo. Mas, naturalmente, isso pode ser revertido a depender do contexto.
  • 8
    Para esse propósito, usamos ‘discurso’ no sentido de estar além de restrições sintáticas e semânticas.
  • 9
    Isso pode ser ilustrado pela comparação entre: #Se o João pregar o olho essa noite, eu vou beijar ele Vs. Se o João dormir essa noite, eu vou beijar ele.
  • 10
    “This spells out the idea that to give a damn about something is to care for it to such a low degree that it is impossible to care just so little.” (Chierchia, 2013, p. 150).
  • 11
    Não estamos falando dos sentimentos do falante. O falante até pode estar interessado que aquilo aconteça, para assim realizar sua ameaça. O nosso ponto aqui é estritamente linguístico.
  • 12
    Como bem salientou um parecerista anônimo, alguns IPNs, em posição de foco pré-verbal, em línguas de dupla negação, são capazes de gerar a negação sentencial, o que licenciaria a sentença em (31).

Editado por

  • Editora-chefe dos Estudos de Linguagem
    Bethânia Mariani
  • Editores convidados
    Brenda Laca
    Sanchez-Mendes

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    13 Dez 2024
  • Data do Fascículo
    May-Aug 2024

Histórico

  • Recebido
    15 Nov 2023
  • Aceito
    22 Abr 2024
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