RESUMO
A partir da classificação da América Latina em áreas culturais, como sugerido por Ana Pizarro (2004), minha proposta é atualizar essa relevante reflexão, tomando como referência três recentes romances: Limpia, de Alia Trabucco Zerán (Chile); Cometierra, de Dolores Reyes (Argentina), e Estela sem Deus, de Jeferson Tenório (Brasil). Essa nova literatura nos mostra que mais do que culturais, somos atravessados por áreas socioculturais, que nos afetam, independentemente, da língua ou da região onde vivamos. Dentre tantas categorias que os romances abordam, selecionei três por julgá-las muito presentes nos tempos atuais: o misticismo, o racismo e o machismo. As três personagens centrais, narradoras de suas histórias, são, de certa forma, “estrelas” que buscam seu brilho, ofuscado por nuvens pesadas e tão frequentes no cenário político e social de nossa América Latina. Mais uma vez, é a literatura que nos alenta.
PALAVRAS-CHAVE:
América Latina; Misticismo; Racismo; Machismo
ABSTRACT
Based on the classification of Latin America into cultural areas, as suggested by Ana Pizarro (2004), my proposal is to update this relevant reflection, taking as reference three recent novels: Limpia, by Alia Trabucco Zerán (Chile); Cometierra, by Dolores Reyes (Argentina) and Estela sem Deus, by Jeferson Tenório (Brazil). This new literature shows us that more than just culture, we are crossed by sociocultural areas, which affect us, regardless of the language or region where we live. Among the many categories that the novels cover, I selected three because I believe they are very present in current times: mysticism, racism and machismo. The three central characters, narrators of their stories, are, in a way, “stars” who seek their shine, overshadowed by heavy clouds that are so frequent in the political and, social scenario of our Latin America. Once again, it is literature that encourages us.
KEYWORDS:
Latin America; Mysticism; Racism; Male chauvinism
Ao ler El sur y los trópicos. Ensayos de cultura latinoamericana, ensaio crítico sobre a América Latina, de autoria de Ana Pizarro, publicado em 2004, eu ainda não vivia na cidade de Salvador, no estado da Bahia. É a partir de 2009 que a discussão sobre o racismo começa a fazer parte de minha biblioteca, até então dedicada a outras temáticas. Os saberes de Lélia González, Antonio Bispo dos Santos, Cida Bento, Sueli Carneiro, Silvio Almeida, Carla Akotirene, Deivison Faustino, Djamila Ribeiro, Joice Berth, Adilson Moreira, Kassandra Muniz, Nilma Lino Gomes, Ana Lucia Souza, Florentina Souza, Henrique Freitas, Josane Silva Souza e Deise Viana, entre outras vozes brasileiras, confirmaram aquilo que eu havia lido em 2004. Ou seja, a cidade de Salvador é um ancoradouro de culturas afro-brasileiras, constituindo-se, portanto, em parte significativa do que Pizarro chamou de áreas culturais na modernidade tardia.
Para Pizarro (2004, p. 177), nosso continente se constitui de diferentes áreas culturais que “se han ido perfilando con mayor claridad a lo largo de la segunda mitad del siglo XX”, período que a autora classifica como modernidade tardia, tomando como referência os anos sessenta, quando a América Latina ganha certo protagonismo no cenário internacional e colocando em evidência novas práticas discursivas, reveladoras das mudanças geradas em nosso contexto cultural. Lamentavelmente, no entanto, ainda segundo a autora, essa modernidade, que já chegava tão tardiamente, foi interrompida pelos processos ditatoriais que nos afetaram naqueles anos, adiando nosso avanço.
Dentre as sete áreas culturais definidas pela autora, chamo a atenção para a segunda, o Caribe e a costa atlântica, que, segundo Pizarro (2004, p. 179-80),
[…] abarca como espacio geográfico el archipiélago de las Antillas y la costa atlántica que se extiende hasta parte importante de Brasil. Se trata del espacio cultural de impronta africana cuyo origen, como sabemos, se encuentra en el llamado comercio triangular, la esclavitud y […] economía de plantación.
O meu atraso quanto às leituras que precisei fazer sobre os povos negros diaspóricos de nosso continente, de certa forma, se justifica pela observação de Pizarro, ao afirmar que houve “un interés disciplinario más tardio”, ao ser comparada à primeira área, que concentra as culturas mesoamericana y andina. Sem querer justificar-me, é verdade que sempre houve muito mais pesquisas e ensaios indígenas do que afro-diaspóricas, aos quais se tinha acesso. Apenas com a entrada do século XXI começam a surgir, com mais frequência, estudos afro-brasileiros e autores/as negras que passaram a constituir as referências bibliográficas de nossas pesquisas, conforme é o caso dos/das citadas anteriormente.
Peço licença a Pizarro para atualizar sua discussão sobre a classificação cultural que nos propôs, afirmando o que parece óbvio para todas as pessoas. Ou seja, é evidente que, além da organização em diferentes áreas culturais, nosso continente latino-americano é atravessado por perversas relações sociais, particularmente, socioeconômicas, que isolam ou apagam vozes desde sempre minorizadas. Em outras palavras, as áreas culturais que nos constituem como continente são, na verdade, áreas socioculturais, porque, embora as culturas afro-diaspóricos sejam tão relevantes, sempre foram minorizadas em seu valor, quando comparadas às brancas, seja pelo racismo ou pela condição social em que se encontram com relação às pessoas brancas. O mesmo, evidentemente, se presta à área de tradição mesoamericana e indígena. E tudo isso está associado ao colonialismo, que, entre tantas outras perversidades, inventou o racismo e o patriarcado.
Essa reflexão me serve para justificar a proposta de minha intervenção, que parte da narrativa poética de três artistas de nosso continente, para estabelecer diálogos entre suas formas de representar as mulheres, vistas aqui como “estrelas”. Refiro-me ao romance Limpia, de Alia Trabucco Zerán, Cometierra, de Dolores Reyes e Estela sem Deus, de Jeferson Tenório.
Ainda que rapidamente, ressalto alguns elementos dos três romances, privilegiando aspectos que me interessam para os atravessamentos que pretendo estabelecer. Começo com o romance de Alia Trabucco Zerán, que nasceu na cidade de Santiago do Chile, no ano de 1983, tendo, portanto, nascido quando o Feminismo começava a ganhar visibilidade na América Latina. Afinal, como nos alertou Hollanda (2019), foi apenas a partir da chamada Terceira Onda que foi possível participar de maneira efetiva do movimento feminista, já que nossas ditaduras civis-militares começavam a abrandar-se.
O romance Limpia conta a história de Estela, uma jovem que sai do sul do país para trabalhar na capital do Chile, instalando-se como empregada na casa de uma família abastada, na qual lhe compete as tarefas domésticas e o cuidado de uma criança, Julia, a quem ela vê crescer durante os sete anos em que ali vive. Mas esse trabalho é interrompido pela trágica morte da menina, gerando conflitos de classe e preconceitos enraizados. Chamo atenção, em particular, para o nome da personagem (Estela) e para o fato de ser uma empregada doméstica, que saiu do sul chileno para trabalhar na capital, Santiago.
No romance de Dolores Reyes, Cometierra, a história gira em torno de uma adolescente, conhecida como Cometierra, órfã desde que sua mãe foi assassinada por seu pai. A partir dessa tragédia, ela come terra na sepultura de sua mãe, passando a vê-la e a pressentir acontecimentos, o que a torna uma espécie de ser místico para aquela comunidade simples, onde vive. Chamam a atenção o feminicídio e o caráter místico que sustenta a força e a esperança daquela comunidade, representada por uma adolescente, que é vítima e prisioneira de valores dos quais não consegue livrar-se. Dolores Reyes nasceu em Buenos Aires, em 1978, sendo, portanto, contemporânea de Alia Trebucco Zerán.
O terceiro romance selecionado, Estela sem Deus, de Jeferson Tenório, traz, desde o título, uma conexão óbvia: Estela é uma menina negra que precisa desde muito cedo assumir responsabilidades no mundo do trabalho e da sobrevivência. A trama acompanha o desenvolvimento da personagem dos 13 aos 16 anos, durante o final da década de 1980 e início de 1990, mesmo contexto histórico dos romances anteriores. Além do nome da personagem, destaca-se a condição socioeconômica e cultural de Estela, além da perspectiva mística que marca o romance de Jeferson Tenório, que nasceu no Rio de Janeiro, em 1977, embora viva em Porto Alegre há muitos anos.
Essas coincidências merecem aproximações entre as narrativas, no entanto é preciso destacar que cada romance tem lugar próprio de fala quanto à nacionalidade (uma chilena, uma argentina e um brasileiro), ao gênero de autoria (duas mulheres e um homem), mas narradas por três personagens femininas de classe social baixa, publicados em tempos muito próximos e escritos por pessoas que são, relativamente, da mesma geração, o que sugere que estas seriam questões próprias à literatura contemporânea latino-americana. Dentre tantas questões, privilegio três que dialogam entre si: Estela e o misticismo, Estela e o racismo, Estela e o machismo. Como se vê, as capas dos livros são muito ilustrativas para os interessem dos romances (Figura 1).
Estela e o misticismo
Como se sabe, o nome Estela tem origem latina e significa estrela. Portanto, tem conotação celestial e está associado à beleza e ao brilho das estrelas no céu noturno. Por isso mesmo, não é difícil que seja um nome escolhido por mães que desejam que suas filhas tenham vidas iluminadas. É um nome associado à doçura, à paz, à luz, embora seja um elemento natural inatingível, devido à distância em que se encontra de nós. Além disso, as estrelas “estão relacionadas com a navegação, a humanidade, a espiritualidade, a religião, a esperança, a arte, o amor e a vida”, como nos diz David Meyer (2023, s/p). O mesmo autor nos chama a atenção para a estreita relação entre as estrelas e as religiões:
Para os cristãos, as cinco pontas representam as cinco chagas de Cristo e as virtudes de uma noite medieval. Para os muçulmanos, as cinco pontas representam os cinco princípios do Islão. A Estrela de David representa a proteção divina para os que professam a fé judaica. (Meyer, 2023, s/p).
Sabemos todos que nossos colonizadores nos trouxeram a concepção católica das estrelas, embora o sincretismo religioso, criado pelos povos afro-diaspóricos, a tenha reinventado. Chama-me atenção, por exemplo, o nome de Mãe Stella de Oxóssi, importante líder religiosa da cidade de Salvador.
Maria Stella de Azevedo Santos nasceu no dia 2 de maio de 1925, em Salvador, e faleceu na cidade de Santo Antônio de Jesus, também na Bahia, no dia 27 de dezembro de 2018. Desde os anos de 1980, Mãe Stella de Oxóssi tornou-se uma grande líder da religião de base africana da Bahia, tendo participado de diversos eventos de caráter internacional, conforme a III Conferência Mundial de Tradição dos Orixás e Cultura, ocorrida em 1986, na cidade de Nova Iorque. No ano seguinte, ou seja, em 1987, integrou a comitiva organizada por Pierre Verger para a comemoração da Semana Brasileira na República de Benin, na África, quando foi recebida com honras de líder religiosa. Em 1999, conseguiu o tombamento do Ilê Axé Opô Afonjá pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), órgão ligado ao Ministério da Cultura.1
Mãe Stella iniciou sua vida espiritual ainda na adolescência, quando foi entregue pela família aos cuidados de Maria Bibiana do Espírito Santo (Salvador, 1890-1967), conhecida como Mãe Senhora, Ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, em Salvador, no período de 1942 a 1967, tendo-se consolidado como uma das maiores líderes religiosas da história do Brasil. E não será por coincidência que uma personagem do consagrado romance de Itamar Freire Júnior (2019), Torto Arado, seja Bibiana, nome que remete à cultura afro-religiosa da Bahia.
Outra questão que me chama a atenção é o fato de Mãe Stella de Oxóssi ter-se iniciado na adolescência, já que sua família estranhava seu comportamento, o que levou sua tia, Dona Arcanja, a procurar Mãe Menininha do Gantois (Salvador, 1894-1986), outra figura mística, que Dorival Caymmi (1914-2008) popularizou na canção Oração de mãe menininha, gravada por Gal Costa e Maria Bethânia no ano de 1985. Fica fácil concluir que o candomblé é uma forte base para a construção da cultura da Bahia, afetando, inclusive, as artes.
Foram essas evidências que me levaram a ler com curiosidade os três romances, selecionados para estas reflexões. Não será por mera coincidência que Alia Trabucco Zerán e Jeferson Tenório tenham nomeado sua personagem central de Estela. Também é minimamente curioso que a personagem do romance de Dolores Reyes coma terra, assim como a Estela de Tenório. Como se sabe, comer terra é um ritual religioso, próprio a Nanã que, segundo a tradição afro-baiana, é a senhora dos pântanos, da lama e das águas paradas.2
E há mais uma coincidência muito interessante. A personagem de Dolores Reyes, que vive em contexto periférico de Buenos Aires, não se chama Estela, mas em 1905, naquele país, foi editada a primeira coleção de livros para o grande público, quando Emma de la Barra, valendo-se de um pseudônimo masculino, publicou um romance intitulado Stella, que se transformou em um grande sucesso editorial. Vejamos o que nos dizem Prado e Pellegrino (2014, p. 71-72) sobre seu enredo:
Stella contava a história de duas irmãs criadas na Noruega e recém-estabelecidas na terra natal de sua mãe, Buenos Aires. Encontraram a cidade mergulhada em um turbilhão de transformações que a chegada dos liberais ao poder, na década de 1860, havia ajudado a desencadear. Órfãs desde a morte em um naufrágio de seu pai, o naturalista de origem norueguesa Gustavo Fussler, as duas irmãs instalaram-se em Buenos Aires na casa de seu tio, D. Luís Maura Segasta. Teve início, nessa convivência uma série de embates entre o olhar “europeu humanista”, representado por Alejandra Fussler, a irmã mais velha, e os “vícios” de uma elite portenha que usufruía dos benefícios materiais e simbólicos da modernização sem assumir a responsabilidade de “guiar” as massas e promover a alta cultura. O romance colocava em discussão, assim, o modelo de modernidade que havia prevalecido no país.
Para ilustrar o discutido acima, recupero alguns fragmentos dos três romances, nos quais as narrativas tenham demarcado a forte relação entre os/as personagens e o misticismo. Dentre os três romances, o chileno é o que menos apresenta referência mística, enquanto o brasileiro, o que mais a reproduz. Isso não causa estranhamento, porque no Brasil a questão religiosa está muito mais presente em nossas vidas do que no Chile ou mesmo na Argentina. Afinal, o Brasil viveu um intenso e rico sincretismo entre o catolicismo herdado dos colonizadores e as religiões afrodiaspóricas, o que aconteceu também em países como Cuba, onde a escravização foi tão brutal como no Brasil. Nesse sentido, essa aparente coincidência se explica, porque Cuba e a costa atlântica brasileira fazem parte de uma das áreas culturais, definidas por Pizarro (2004), marcada pela escravização. A Argentina, país de Reyes, e o Chile, país de Zerán, têm uma memória menor, ou mais apagada, no que tange a essa questão, o que explica que no romance brasileiro o misticismo seja mais intenso e, por isso mesmo, me surpreende muito que, na narrativa de Reyes, a personagem central seja uma adolescente que “come terra”.
- No me importa. Mamá se guarda acá, en mi casa, en la tierra.
- Aflojá de una vez. Todos te esperan.
Si no me escuchan, trago tierra.
Antes tragaba por mí, por la bronca, porque les molestaba y les daba vergüenza. Decián que la tierra es sucia, que se me iba a hinchar la panza como a un sapo.
Después empecé a comer tierra por otros que querían hablar. Otros, que ya se fueron. (Reyes, 2019, p. 11).
O fragmento acima está na primeira página do romance de Reyes, quando esta leitora se dá conta de que está lendo uma história peculiar, fora de tudo que já tinha lido na literatura argentina. Nas páginas seguintes, fica sabendo que aquela personagem narradora é chamada de Cometierra, uma adolescente que vive na casa da tia, já que sua mãe foi vítima de feminicídio. Comer terras na sepultura de sua mãe é estar com ela, tentando entender o que aconteceu. Mas as pessoas ao seu redor fazem outra interpretação, porque imaginam que Cometierra tem uma autorização celestial (ou diabólica) para saber segredos guardados sobre a morte das pessoas. Por isso é explorada na sua comunidade, que a usa para buscar respostas sobre suas dores, já que vida real não lhes permite entender. Mas sua tia não gosta de ver aquela sobrinha-filha, a quem não queria cuidar, se sujando com a terra: “La tía se dio vuelta y me miró furiosa. Sacó del bolsillito del jean el atado de puchos. / -Sucia. Te veo tragando tierra otra vez y te quemo la lengua con el encendedor (Reyes, 2019, p. 20).
Ser/estar limpa ou suja tem menos a ver com o misticismo do que com a classe social das duas personagens, já que uma menina órfã da periferia de Buenos Aires e uma empregada doméstica de Santiago precisam invisibilizar o abandono que vivem, mas que leva poetas a denunciá-lo. No entanto, é impossível separar as categorias que criei, porque tudo se interseccionaliza, tudo se cruza, tudo se atravessa, já que as duas personagens pertencem à mesma área sociocultural de nossa América Latina, controlada para silenciar e esconder as mazelas criadas por aqueles colonizadores. Afinal aquela sujeira da História precisa parecer limpa, mesmo que seja na ficção.
No romance de Tenório, essa questão se aprofunda muito mais. Estela [quer viver] Sem Deus, porque foi difícil para aquela personagem, também uma jovem mulher de baixo padrão social, transitar (ou arrastar-se) entre dois contextos religiosos tão díspares: o centro de candomblé, para onde era levada por sua avó enquanto vivia nas periferias de Porto Alegre, e o templo evangélico que precisou frequentar depois que passou a viver com a tia na cidade do Rio de Janeiro. Quem passa pelas ruas dessa importante cidade brasileira se dá conta, facilmente, de que, quanto mais simples ou periféricos são os bairros, mais se encontram igrejas evangélicas. E por que será? Porque, quem não consegue entender, racionalmente, as violências que vive, precisa acreditar em misticismos. Isso não seria tão complicado se a grande parte dessas igrejas não explorassem essa população, sempre carente de verdades e de cuidados do Estado. Estela não quer Deus porque já aprendeu que ele não lhe serviu para nada, fosse na casa de sua infância ou de sua juventude.
Talvez seja essa uma das maiores contribuições do romance de Tenório, porque o Brasil vive, atualmente, um conflito herdado do que se conhece por “bolsonarismo”3, marcado por valores religiosos e morais, e de promessas de soluções vindas de Deus. Estela teve a oportunidade de conviver com duas religiões bem antagônicas, mas, quase sempre, seguidas por pessoas excluídas, com pequena autonomia para fazer suas próprias escolhas. É evidente que não estou generalizando, mas não temo em afirmar que, em especial, nas religiões de base evangélica (ou neopentecostais) os fiéis são explorados na fé, na prestação de serviços e no dinheiro.
Enfim, nos três romances há uma brecha para que leitores e leitoras reflitam sobre os lugares que ocupam pessoas como essas “estrelas”, que precisam do místico porque o real não lhes dá nenhuma segurança.
Estela e o racismo
O título do romance de Alia Trabucco Zerán é muito simbólico para o que se discute aqui. Limpia (limpa) é um adjetivo que se opõe, grosso modo, a Sucia (suja). Ou seja, a personagem do romance, que se chama Estela García, tem como função primeira limpar a casa onde trabalha e cuidar de uma criança. Por isso ela precisa estar e ser limpa, além de deixar limpa aquela casa, eliminando qualquer sujeira. Mas é claro que Zerán está jogando com os sentidos que esses adjetivos permitem em contexto sociocultural, marcado por racismo, preconceitos e subalternizações de corpos, como os de uma empregada doméstica.
Vale registrar que a narrativa do romance é feita por Estela, que nos conta, a partir de suas dores, a difícil convivência com aquela família, o que inclui a sua total falta de liberdade, autonomia, direitos e privacidade naquele ambiente tóxico. Sua “patroa” é descrita por Estela como uma pessoa muito vaidosa, que “tardaba muchísimo retocándose frente al espejo. Se ponía crema, base, más crema y polvos que le hacían ver pálida, una muñeca de porcelana”. Referindo-se à menina de quem cuidava, Estela nos conta que “Una vez le preguntó a su madre por qué no me prestaba el maquillaje a mí. / Para que se vea blanca, dijo. /Limpia” (Zerán, 2022, p. 68). Curioso observar o uso do adjetivo “limpia”, expressado na voz de uma mulher que se maquia para modificar sua cara, “sujando” sua pele que deixa de ser “limpa” como a de sua empregada.
Estela representa no romance de Zerán as mulheres que são empregadas domésticas em Santiago. Diferentemente do Brasil, quase nunca são mulheres negras, porque, como já ressaltado, a colonização e, consequentemente, a escravização não se deu da mesma maneira que aqui. Isso não significa que as pessoas subalternizadas não sofram racismo, já que são, muitas vezes, originárias de povos indígenas, mais particularmente de Mapuche. Como nos informa Falcão (2020, p. 2),
[...] o povo mapuche é uma nação indígena originária que habita uma região do Chile conhecida como Araucanía, ao sul da capital Santiago e seu território hoje se estende até oeste da Argentina, na fronteira com o Chile, na região conhecida como patagônia.
Não por coincidência, Estela vem do sul do país para trabalhar em Santiago, percurso que muitas mulheres e homens fazem para conseguir trabalho e sair de uma região sempre afetada por lutas e perseguições. É também Falcão (2020, p. 4) que nos diz que
[...] vários governos após o fim da ditadura no Chile em 1990 fizeram promessas sobre o reconhecimento constitucional, mas nenhum deles fez mais do que tentativas forçadas de integração desse povo ao Estado Chileno, que tinha como verdadeira intenção não retirar esse povo da condição de marginalização e garantir direitos básicos, mas de absorver definitivamente o território indígena como parte das possessões do Estado, para poder controlar com mais propriedade os recursos naturais.
Embora esse fato seja inerente ao segundo governo de Sebastián Piñera (2018-2022), o atual presidente, Gabriel Boric4, até o momento que se escreve esse texto, ainda não apresentou projetos efetivos, embora faça acenos aos Mapuche, como se acompanha na grande mídia de nossos países.
Alia Trabucco Zerán é uma escritora que pertence ao que se conhece como “literatura dos filhos”, essa geração tocada por questões que afetaram seus pais durante a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990). Lembro que ela nasceu em 1983 e que é filha de Faride Zerán, organizadora de um importante ensaio sociológico, intitulado Mayo Feminista. La rebelión contra el patriarcado. No prólogo, Faride Zerán (2018, p. 10) nos diz que
[…] si en mayo del ’68 las mujeres levantaron sus demandas en un contexto general y de la mano de las teorías feministas en boga, hoy se apunta al corazón de la sociedad chilena, asumiendo en muchos casos que el feminismo, además de una ideología, resulta una pulsión, un sentimiento, un gesto que marca un punto de inflexión que a la vez dialoga con diferentes vertientes de pensamiento que constituyen las moradas donde hoy habitan los feminismos.
Faride Zerán e as/os autores de seu livro estão falando de mulheres urbanas, de Santiago, muitas vezes escolarizadas, de classe média ou mesma alta, que se sentem fortes para ir à rua e gritar contra o patriarcado. Mas a Estela de Alia Zerán é do sul, de classe baixa, o que a faz sofrer uma violência interseccionalizada por seu gênero, sua condição socioeconômica e, possivelmente, seu grupo étnico-racial.
No romance de Dolores Reyes, o racismo também está presente, conforme comprova essa cena muito simbólica:
-¿Qué mierda hacés con estos negros?
Era Ezequiel. Todavía tengo tatuada, en mi cabeza, la cara de orto que puso cuando vio que yo estaba ahí. Nunca lo había escuchado llamarnos “negros”. (Reyes, p. 137).
Cometierra foi agarrada pela mão de Ezequiel, que a viu debruçada sobre o corpo de Hernán, um jovem que havia acabado de conhecer, caído no chão. A personagem saía de um bar noturno, El Rescate, onde ouvira cumbias, esse ritmo musical tão presente nas periferias de Buenos Aires, mais conhecido como cumbias villeras, como muito bem nos apresentou Washington Cucurto (2012), em seu romance Cosa de Negros.
Em Paraquett (2022), tive a oportunidade de refletir sobre a presença de literaturas que considero fundamentais para os interesses de uma educação intercultural, quando apostei na narrativa de três autores: Manuel Puig (Argentina, 1932/México, 1990), Pedro Lemebel (Chile, 1952/2015) e Washington Cucurto (Argentina, 1973), os dois primeiros na discussão de sexualidades fora do binarismo, enquanto o segundo no registro do racismo que se vive em Buenos Aires. Naquela ocasião, tomei afirmações de Beatriz Sarlo, essa importante crítica argentina, mas que, no meu ponto de vista, se equivocou quanto às críticas que fez a Cosa de Negros. Retomo o que disse a autora, porque posso imaginar que as narrativas de Dolores Reyes e, particularmente, de Jeferson Tenório, poderiam sofrer a mesma crítica. Segundo Beatriz Sarlo (2006, p. 5),
[…] los libros de Cucurto ponen el cuerpo antes que la cabeza y prefieren la vulgaridad del goce a la distinción aristocrática del deseo sin objeto. Su literatura celebra aquello que celebra la cumbia, aunque parezca ridículo decirlo: la alegría de vivir. Sin embargo, el carácter sociológico de las novelas de Cucurto lo vincula directamente con una tradición a la que él contradice porque esa tradición, la del realismo, fue bien pensante y pequeño burguesa.
Faz pouco tempo, acompanhamos as críticas e os cancelamentos, feitos a outro romance de Jeferson Tenório (2021), O avesso da pele. Como se verá nos fragmentos abaixo, a aparente justificativa estava num suposto conteúdo improprio aos jovens, mas é evidente que se tratou de uma tentativa de silenciamento de uma literatura antirracista e homofóbica que, felizmente, está crescendo em nosso continente. É o que nos conta Leonardo Neiva (2024):5
Após a denúncia do livro, que trata de temas como racismo e violência policial, por uma diretora de escola do Rio Grande do Sul, por supostamente trazer conteúdo sexual impróprio para os jovens, a Secretaria de Educação do Paraná decidiu recolher todos os exemplares da obra disponíveis nas escolas do estado, sob a justificativa de que ela deve passar por “análise pedagógica”. Pouco depois, o governo de Goiás e de Mato Grosso do Sul seguiram o exemplo. Para Tenório, porém, o ocorrido está longe de ser um caso isolado. “Tem muitas pessoas que pensam daquela forma, com um discurso ultraconservador e moralista. Não é algo isolado, e sim um sentimento do nosso tempo não só no Brasil, mas também em outras partes do mundo”, declara em entrevista a Gama.
Esse episódio provocou diferentes reações em todo o país, havendo atos políticos que o apoiaram e outros que o desapoiaram, o que levou o romance a ter um “aumento de 1400% nas vendas”,6 beneficiando, assim os interesses de uma educação antirracista e intercultural. Como costumo dizer, algumas vezes o tiro pode sair pela culatra, desde que não se percam as oportunidades que o conservadorismo e o moralismo nos dão em contextos de autoritarismos, como aconteceu durante o período de nossas ditaduras militares, quando nossas artes, em particular, o cinema e a literatura, ganharam notoriedade e fizeram denúncias que a censura, muitas vezes, não pôde controlar.
É por isso que, como professora e pesquisadora, não posso baixar a guarda, mantendo-me atenta ao que se produz e aprendendo com autores e autoras jovens que denunciam as perversas heranças coloniais. Assim como Dolores Reyes e Alia Trabucco Zerán, Jeferson Tenório tem colaborado muito para esse novo cenário. Vejamos o que diz sua Estela:
Eu me chateava um pouco por não conseguir fazer muitos amigos, além de atrair poucos olhares, e demorei um tanto para entender que os meninos talvez não se aproximassem muito de mim por causa da minha cor preta e do meu cabelo crespo. Não tinha construído aquilo que mais tarde eu aprenderia a chamar de autoestima, por isso comecei a ter inveja das meninas brancas, que não tinham problemas com o cabelo delas. (Tenório, 2022 p. 28)
Fica fácil concluir que essa nova literatura preta não aprisiona seus/suas personagens. Muito ao contrário, eles/elas são donos/as de seus corpos e de suas escolhas, ainda que sigam sofrendo racismo e descuido por parte do Estado. É evidente que isso se explica porque aquela personagem é criação de um escritor negro, que tem autoestima e capacidade para escrever o que quiser. Com o Avesso da Pele, Jeferson Tenório recebeu o Prêmio Jabuti, em 2021, na categoria romance literário, seguindo, de certa forma, o crescimento e o reconhecimento da literatura preta no Brasil, já que, no ano anterior, 2020, o mesmo prêmio foi concedido a Itamar Vieira Junior com Torto Arado (2019).
Jeferson Tenório, Itamar Vieira Junior, Washington Cucurto, Dolores Reyes, Alia Trabucco Zerán estão se valendo da literatura para ensinar o antirracismo, aprendizagem fundamental às nossas sociedades. Não tenho dúvidas de que novos e novas escritoras continuarão surgindo para seguir essas trilhas abertas por eles/elas, como é o caso, por exemplo, de Sandra Roza, escritora da Bahia, que acaba de lançar Era uma vez no sertão7, que muito se aproxima das narrativas de nossos poetas premiados.
Estela e o machismo
O machismo, forma violenta de externar o patriarcado, também está presente nos três romances. Afinal, as protagonistas são mulheres subalternizadas pela sociedade branco-burguesa, o que as fazem vítimas de valores seguidos por homens e, muitas vezes, apoiado por mulheres daquele mesmo grupo sociocultural.
No romance de Alia Trabucco Zerán, essa questão se materializa na figura de seu “patrão”, modelo de um macho, que precisa usar suas máscaras para esconder sua fragilidade. Vejamos como Estela o representa:
El arma pertenecía al señor, al miedo del señor. Yo vi el temor en sus ojos la noche del asalto. Tal vez por eso me detestaba. Porque su empleada, a esas alturas, había visto demasiado. Lo vio culiar con su mujer, lo vio desnudo en su pieza, le vio el terror a la muerte. Y él temía más que su esposa. Más que su hija. Y muchísimo más que su empleada doméstica. (Zerán, 2018, p. 188).
Para uma brasileira como eu, fica impossível não associar o lido com o “bolsonarismo”, tão bem descrito por João Silvério Trevisan (2021, p. 276), quando reflete sobre “a valorização obsessiva do pênis por parte da masculinidade hegemônica”. Tomando como referência um sinal com as mãos (“arminha”), tão frequente nos gestos do ex-presidente brasileiro, o autor afirma:
Comparece aí, mais uma vez, a famigerada “arminha” de Bolsonaro. Símbolo da sua campanha e signo máximo do bolsonarismo, ela era mostrada como uma afirmação do falo, ou mesmo sua extensão. Em outras palavras, o falo estava sintomizado no uso da arma, cuja importância Bolsonaro propagandeou e implantou como política de governo, ao incentivar o armamentismo. Mas eram fálicas também suas expressões autoritárias quase cotidianas [...]. (Trevisan, 2021, p. 276).
Não acredito que Zerán tenha acompanhado o “bolsonarismo” no Brasil como eu, assim como talvez não tenha lido Trevisan, no entanto, seu personagem revela a mesma sensação, do macho alfa, que precisa de uma arminha para esconder seu medo. É um macho fraco, mais fraco do que sua esposa, sua filha ou mesmo sua empregada doméstica.
Em Cometierra, o machismo é sem limites. A orfandade da personagem central é consequência de feminicídio, embora não haja na narrativa elementos esclarecedores. Por que aquele homem matou sua mulher a golpes? Talvez essa pergunta não precise mesmo de respostas, porque, lamentavelmente, os feminicídios são irracionais. São brutais. São animais. Dolores Reyes não perde seu tempo tentando justificar aquele assassinato. Ele já está feito e será feito outras vezes. Sua narrativa se concentra no ser que ficou, aquela menina que vê sua mãe submersa na terra: “La tierra la envuelve como los golpes del viejo y yo pegada al suelo, cerca como siempre de ese cuerpo que se me llevan como en un robo” (Reyes, 2019, p. 12). E é por isso que Cometierra “Sentía que la tierra pasaba de ser una cosa en mi mano a ser algo vivo, tierra amiga, y seguía comiendo” (Reyes, 2019, p. 19).
Mais trágico ainda é confirmar que, no romance de Reyes, Cometierra e sua mãe não são as únicas vítimas do machismo. Referindo-se à mãe de uma de suas “clientes”, para quem tinha tentado encontrar sua filha desaparecida, a personagem narradora nos diz:
Yo le di la mano y, cuando me la agarró, sí pareció que se iba a poner a llorar. Me dio pena. No sé si por ella, o por lo que le habían hecho a María, o por mi mamá o por la Florensia, o por la novia del Walter, o por mí. Lástima de todas juntas. Una tristeza enorme. (Reyes, 2019, p. 97).
A solidariedade entre as mulheres, que se unem nas suas dores, é uma tônica do romance de Dolores Reyes, o que não acontece da mesma maneira em Estela sem Deus. A personagem de Jeferson Tenório está sozinha. Sua avó morre, sua mãe a entrega à tia e a tia a entrega a Deus para que aprenda a obedecer ao machismo: “Na igreja, o pastor nos disse que os homens são assim mesmo: violentos por natureza, porque são acostumados a lida com as guerras, e que nós, mulheres, temos a obrigação de acalmá-los” (Tenório, 2022, p. 149).
Fora de sua família, Estela também não encontra apoio no seu namorado, Isaías, com quem engravida, mas provoca um aborto e o deixa. Todas as mulheres sabemos que reação um macho alfa terá se é “deixado” por alguma mulher. Isaías não foi diferente:
No dia em que terminei meu namoro com Isaías, ele disse que eu só podia ter um demônio no corpo, que eu era má. [...] que o pai dele tinha dito que eu não passava de uma neguinha safada. Que eu só queria dar o meu rabo e pronto [...]. Escutei tudo o que ele disse e depois o chamei de imbecil e que não tinha dado o rabo porque ele não sabia fazer nada com aquele membro pequeno dele. (Tenório, 2022, p. 141).
Desde o início do romance, como já visto anteriormente, Estela nos é apresentada como uma mulher de autoestima. E eu diria mais, uma mulher malcriada, rebelde, vingativa e debochada em situações como a que viveu. Embora Jeferson Tenório seja um homem cis, colocou palavras na boca de sua personagem que eu também colocaria. Afinal, uma “neguinha safada” pode “dar o seu rabo” para quem quiser. É o macho alfa que precisa aprender que o mundo mudou e que as mulheres somos donas de nossos corpos, mesmo que sejam mulheres como sua Estela, uma mulher negra e periférica.
Nesse sentido, não vejo outra saída senão ler e aplaudir essa nova literatura latino-americana, que, corajosamente, enfrenta questões morais, racistas, de subalternizações e preconceitos, herdadas do colonialismo.
Fechando
Minhas reflexões estiveram alinhadas ao propósito de retomar ensinamentos aprendidos com Ana Pizarro, atualizando-os, mas confirmando que suas propostas sempre foram muito bem alinhadas com narrativas de nossa América Latina. De todas as leituras feitas sobre sua extensa obra ensaística, ainda me impressiona muito a classificação por áreas culturais que nos propôs em 2004, desfazendo uma visão mais conservadora e amarrada de nosso continente, visto, quase sempre, através de nacionalidades. Não somos nações, somos um continente plural, onde se falam línguas diferentes e com geografias diversificadas, mas colonizado pelos mesmos valores e com povos originários que resistiram, no que foi possível, à violência que sofreram. Além desse duro (des)encontro histórico, os colonizadores sequestraram do continente africano outros povos que vieram somar suas religiões e suas culturas às nossas. Até então, não estava posto que aqueles originários eram ‘índios’ e nem que os africanos sequestrados eram ‘negros’. Os colonizadores, buscando seu lugar de superioridade, se autodeclararam “brancos” e, dessa forma, dividiram nossa América em três grupos, o que nos confirma Aníbal Quijano (2005, p. 117), ao afirmar que “A ideia de raça, em seu sentido moderno, não tem história conhecida antes da América”.
Não há como desfazer a História, mas há como compreendê-la e alterar o seu rumo, para que o presente seja melhor. É o que faz o pensamento decolonial, que para Walter Mignolo (2007, p. 27), “emergió en la fundación misma de la modernidad/colonialidad como su contrapartida. Y eso ocurrió en las Américas, en el pensamiento indígena y en el pensamiento afro-caribeño”.
Ou seja, estamos começando a ser modernos/as, graças à contrapartida do pensamento indígena e afro-latino, já que a colonialidade nos deixaria sempre presos/as a valores europeus. E a literatura desses e dessas jovens escritoras tem contribuído para que nos reconheçamos para além do padrão homem-branco-hétero-cristão.
Alia Trabucco Zerán nos emprestou uma Estela que representa tantas outras mulheres que vivem em situação sociocultural baixa, como aquela empregada doméstica. Dolores Reyes nos mostrou uma menina órfã, em consequência do feminicídio sofrido por sua mãe, e que por isso precisa apoiar-se no misticismo, já que o racional não dá conta de explicar tanta violência que pessoas como ela sofrem. Jeferson Tenório constrói uma Estela diferente, uma jovem que busca o racional, fugindo de Deus e de qualquer desculpa mística que lhe roube a possibilidade de viver a vida que busca, ainda que precise fazê-lo sem mãe, sem pai e sem Deus. São três narrativas que denunciam o abandono do Estado às pessoas que vivem em situações sociais subalternizadas, que renegam o racismo contra pessoas negras ou de tradição indígena e que acusam o machismo que violenta os corpos e as mentes de mulheres de nosso continente.
Referências:
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- PARAQUETT, Marcia; A força do texto literário para uma Educação Intercultural. Breves leituras de Puig, Lemebel e Cucurto. In: ANDRADE, Antonio (org.). Leitura literária em línguas estrangeiras / adicionais: perspectivas sobre ensino e formação de professores. 1a. ed. Campinas, SP: Pontes Editores, 2022. p. 261-287.
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1
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2
Informação adaptada de https://www.significados.com.br/nana/. Consulta em: 13/05/2024.
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3
“O bolsonarismo foi a ideologia predominante do governo Bolsonaro e é associado à retórica de defesa da família, do patriotismo, do conservadorismo, do autoritarismo, de elementos neofascistas, do anticomunismo, do negacionismo científico, do porte de armas, da rejeição aos direitos humanos e da aversão à esquerda política, bem como pelo culto à figura de Bolsonaro, frequentemente chamado de ‘mito’.” Retirado de https://pt.wikipedia.org/wiki/Bolsonarismo. Consulta em 07/06/2024.
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4
Boric iniciou seu governo em 11 de março de 2022, com direito a quatro anos de governo e sem direito à reeleição.
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5
Retirado de: https://gamarevista.uol.com.br/semana/que-livro-mudou-a-sua-vida/por-que-livros-estao-sendo-censurados-brasil/. Consulta em: 18/03/2024.
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Informação retirada de\; https://educacao.uol.com.br/noticias/2024/03/08/o-avesso-da-pele-jeferson-tenorio-recolhimentos-aumento-400-vendas-amazon.htm. Consulta em: 10/03/2024.
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“O livro Era uma Vez no Sertão trata-se de uma história inventada, passada em um contexto real na cidadezinha de Cabaceiras do Paraguaçu, no interior da Bahia, no início da década de 90 [...]. Entre narrativas de aventuras, amor, injustiças e crime, a autora, com sua linguagem simples e articulada, vai desenhando a alma de cada personagem, fazendo o leitor se sentir diretamente presente na cena.” Retirado de: https://www.amazon.com.br/Era-uma-vez-no-Sert%C3%A3o-ebook/dp/B0BK1T8S9Q. Consulta em: 09/06/2024.


