Open-access O poema-pensamento em Roberto Juarroz

The poem-thought in Roberto Juarroz

RESUMO

Pretendemos investigar, neste artigo, o silêncio, a verticalidade e a palavra nos “Fragmentos verticales”, do poeta argentino Roberto Juarroz. A partir da relação entre poesia e pensamento presente em sua obra, analisamos sua proximidade com a noção de logos e a compreensão da poesia como “modo de vida” e “modo de ser”, que a aproxima de uma proposta existencial e ética. A partir da leitura dos 496 aforismas presentes em seu último livro Decimocuarta Poesía Vertical (1997), ponderamos o interesse epistemológico do autor pela reflexão, o conhecimento e as ideias. Nossas conclusões apontam para a percepção de que a relação entre poesia e pensamento está presente na quase totalidade dos “Fragmentos Verticais”.

Palavras-chave:
poesia argentina; Roberto Juarroz; pensamento; Fragmentos verticais

ABSTRACT

We intend to investigate in this article the silence, the verticality and the word in the “Fragmentos verticales”, by the Argentine poet Roberto Juarroz. Based on the relationship between poetry and thought present in his work, we analyze its proximity to the notion of logos and the understanding of poetry as a “way of life” and “way of being”, which brings it closer to an existential and ethical proposal. From reading the 496 aphorisms present in his last book Decimocuarta Poesía Vertical (1997), we pondered the author’s epistemological interest in reflection, knowledge and ideas. Our conclusions point to the perception that the relationship between poetry and thought is present in almost all of the “Fragmentos Verticais”.

Keywords:
argentine poetry; Roberto Juarroz; thought; Vertical fragments

Introdução

Durante quase trinta anos, o poeta argentino Roberto Juarroz (1925-1995) trabalhou na redação de 496 aforismas, que guardou até a morte na gaveta do seu escritório, na calle Tomas Guido, em Temperley, nos arredores de Buenos Aires. A esses aforismas deu o nome de “Fragmentos Verticales”, que se tornou a última parte de seu último livro, Decimocuarta Poesía Vertical, lançado em 1997, após sua morte. Estes “Fragmentos” foram subdivididos em três partes: “Casi Razón” (Quase Razão), “Casi Poesía” (Quase Poesia) e “Casi Ficción” (Quase Ficção). Nossa hipótese é que tais fragmentos representam uma síntese de seu pensamento estético. Em 2005, os fragmentos foram republicados dentro de sua obra completa editada em dois tomos pela Emecé (Vol. I-1958-1987 e Vol. II-1987-1994). A título de introdução, façamos uma breve apresentação biográfica.

Roberto Juarroz nasceu em Coronel Dorrego, um povoado dos pampas argentinos, em 1925, e morreu em Buenos Aires em 31 de março de 1995. A partir de 1958, começou a publicar sua obra. Chama logo a atenção o fato dele colocar o mesmo título “Poesia Vertical”, em todos os livros, modificando apenas o numeral que antecedia o título principal. Assim, depois do primeiro Poesía Vertical, em 1958, o segundo foi nomeado Segunda Poesía Vertical (1963), o terceiro, de Tercera Poesía Vertical (1965) e assim por diante, até o último, Decimocuarta Poesía Vertical, concluído em 1994.

Logo depois dos estudos secundários, Juarroz conseguiu um emprego no Colégio Nacional de Buenos Aires como bibliotecário. Graduou-se em Bibliotecologia e Ciência da Informação pela Universidade de Buenos Aires e, entre 1961 e 1963, recebeu uma bolsa de estudos na Sorbonne, em Paris. Entre 1958 e 1965, foi um dos diretores da revista Poesia=Poesia, fazendo a descoberta de jovens poetas ou traduzindo autores estrangeiros. Colaborou como crítico literário e de cinema em vários periódicos da cidade portenha. Por trinta anos, foi professor universitário e, por três vezes, afastado de suas funções por questões políticas, nos duros anos do regime militar argentino.

Também foi assistente da Unesco e da Organização dos Estados Americanos (OEA) em bibliotecologia, além de membro, a partir de 1964, da Academia Argentina de Letras. Em 1994, foi um dos convidados para o Primeiro Congresso Mundial da Transdisciplinaridade, no Convento de Arrábida, Portugal, ocorrido em novembro 1994, na companhia de Edgar Morin, Barsarab Nicolescu, Lima de Freitas, entre outros. Ganhou o Gran Premio de Honor de la Fundación Argentina para la Poesía (1984); o Prêmio Esteban Echeverría (1992) e o Premio de las Biennales Internationales de Poésie em Liége, Bélgica, em 1992.

Bastante influenciado por Heidegger e Wittgenstein, Juarroz tentou pensar a poesia como linguagem unida ao ser e à vitalidade, sobretudo aquilo que ele chamou de “modo de vida”:

A partir do momento em que se dá a experiência poética, ela se confunde com o vital, se integra. A poesia é um modo de vida ou não é nada: se é um modo da linguagem, da expressão, é, portanto, um modo do ser, não de fazer. (JUARROZ, 1997, p. 68).

Além de Heidegger e Wittgenstein, durante toda a vida, Juarroz foi um leitor atento e apaixonado de Heráclito, Novalis, Apollinaire, Rimbaud, Beckett, Vallejo, Lorca, Huidobro, Celan, Char, João da Cruz e, por mais de vinte anos, frequentou o poeta Antonio Porchia (1886-1968), de quem foi amigo íntimo e principal interlocutor. A combinação singular entre poesia e pensamento marcou sua obra e ganhou contornos especiais pela centralidade e importância que conferiu à palavra, entendendo-a simultaneamente como silêncio, iluminação, necessidade e companhia.

Neste artigo, por razão da exiguidade do espaço e para efeito de economia, preferimos traduzir todos os fragmentos e partes de poemas citados em espanhol. Como cada um dos fragmentos possui uma numeração específica, procuramos respeitar tal numeração, colocando-a ao lado das abreviações de “Quase Razão” (QR), “Quase Poesia” (QP) e “Quase Ficção” (QF). Para este artigo nos apoiamos em algumas entrevistas e estudos, como os de Dueñas e Toledo (JUARROZ, 2000b)1; Padrón (2015); Catalão (2011; 2014); Margarit (2000); Aguinaga (2018) e Paifeniuk (2011).

A palavra

Algumas palavras nos acompanham como o latido ao cão

R. Juarroz

Podemos dizer que toda a poesia de Juarroz é um exercício acerca do pensamento poético e da contemplação da palavra. Os 496 fragmentos verticais de seu último livro adotam o tom de aforisma filosófico, unindo-se àquele das sentenças de sabedoria, como os exemplos a seguir: “Uma flor ajuda também a pensar: muitas vezes mais do que outro pensamento” (QR, 106); “O impossível é a única forma visível do possível” (QF, 10); “Pensar entre dois, como se fazer pensamento fosse igual a fazer amor” (QP, 4); “O espírito é mais concentração do que harmonia” (QP, 61); “De nenhuma viagem se volta” (QP, 89); “A poesia é a culminação da solidão. Mas da solidão que se acompanha a si mesma” (QR, 184); “Imaginar uma lâmpada até acendê-la” (QP, 36); “Meu pensamento está tão próximo que não consigo tocá-lo” (QP, 42); “A única salvação de todo andar é não chegar” (QP, 61) e “A poesia é uma areia tão sensível que registra a idade da nossa sombra” (QR, 20) etc.

Nesse sentido, podemos dizer que a poesia de Juarroz se faz filosófica, meditativa e reflexiva por vários motivos: suas sentenças aproximam-se do paradoxo, desafiam o sentido lógico, espelham os aforismas de Heráclito de Éfeso que entendia o logos como reunião, realiança e rejunção, e, não como divisão e análise. Outro motivo que torna a poesia de Juarroz filosófica e reflexiva é o fato de ele utilizar as perguntas como método. Dentre seus muitos questionamentos, destacamos: “A ciência alarga a vida mas como se encurta a morte? (QR,197); “O sentido de algo será um período transitório de coerência até chegar à incoerência? Ou será seu sem sentido um lapso transitório de incoerência, até chegar à coerência?” (QR, 38); “O que existe consola o que não existe? Ou o que não existe consola o que existe? Ou ambos se desconsolam mutuamente?” (QF, 51).

Na conferência Poesía y realidad (2000a, p. 25), as perguntas aparecem na forma de um pequeno poema:

É a poesia um pretexto da loucura?
Ou é a loucura um pretexto da poesia?
Ou as duas são pretexto de outra coisa,
outra coisa excessivamente justa
que não pode falar?

Noutra conferência, desta vez apresentada na Biblioteca Nacional de Buenos Aires, depois publicada em 1995, no periódico Bajo Palabra, Diário de Caracas, ele prossegue perguntando:

Como fazer para transformar as palavras em visões? Como fazer para celebrar aquilo que se nos dá sem negar aquilo que se nos escapa? Como fazer para converter a linguagem em um refúgio antes que em uma prisão, em um altar ou antes, em um cemitério? (JUARROZ, 1995, p. 5).

Podemos dizer, portanto, que Juarroz encontrou, na dúvida, uma forma de fazer poesia ou, dito de forma diferente, encontrou na poesia um modo de pensar filosoficamente a vida. Uma das perguntas mais frequentes - que acompanha poemas, textos ensaísticos, palestras e entrevistas - é sobre a “realidade da palavra”. No já citado Poesía y realidade (2000), após afirmar que a poesia era o “espaço do indizível”, ele indaga e pondera:

Como poeta, tenho buscado intensamente esse espaço. Creio, portanto, que meu compromisso nesta tarde consiste em dar testemunho a vocês dessa busca ou obsessão ou peregrinação de meu destino através da linguagem, reunindo duas perguntas em uma, que equivalem para mim à interrogação suprema do homem: a pergunta pela realidade (que é o real?, que é o ser?, o que o distingue do não ser?, o que somos?, o que não somos?) e a pergunta pela poesia (há algum modo de expressar algo?, como pode ser expresso o real?, e o irreal?, que realidade tem a palavra?) (JUARROZ, 2000a, p. 4).

A poesia é para Juarroz uma sinceridade (QR, 112) que faz falar em nós aquilo que não conhecemos, mas que sentimos ao expressar. O pensamento, por sua vez, é um ofício diante do abismo, porque, para ele, “pensar uma coisa é iniciar uma oração” (QF, 13), e tal pensamento se assemelha a fazer amor, como vimos no fragmento acima (QP, 4), porque o amor, entre outras coisas, é uma exceção ao vazio da vida, muito embora o vazio se concentre em torno do amor.

Encontramos esse jogo de palavras e de correlações entre logos e mythos, entre eros e psiqué em muitos dos fragmentos. Para ele, a palavra não existe sem o seu contrário; e o silêncio é, por sua vez, o elemento que separa as palavras e, ao mesmo tempo, as une, recriando-as. Ele acredita, à maneira pitagórica, que tudo possui o invólucro do silêncio, não simplesmente porque, no final da vida, encontramos a morte, mas porque, até na mais palpitante das vidas, o silêncio acaba sendo o ponto final para onde convergem todos os discursos.

A difícil resposta à questão: “que realidade tem a palavra?” poderia resultar na busca de uma vida inteira. No caso de Juarroz, algumas de suas buscas passaram pela filosofia oriental, especialmente o Zen. Ele comparou a compreensão da palavra e da poesia à célebre história sobre o poeta Bashô. Juarroz contava com insistência que Bashô teria dito: “tenho explicado o Zen por toda a minha vida, mas não fui capaz ainda de compreendê-lo”, ao que um de seus discípulos retrucou: “mas como é possível explicar algo que não se entende?”; ao que fez Bashô respondeu: “também tenho que explicar isso?” (JUARROZ, 2000a).

A relação com o Zen aproximou sua poesia do enigma e do insight, que ele preferiu chamar de “relâmpago”. Para ele, a palavra é uma força que se impõe inevitavelmente, e uma de suas realidades é a imagem e o som que ela suscita. As imagens, do mesmo modo, suscitam palavras e poemas. Juarroz chegou a tentar racionalizar (ou demonstrar) o processo de criação de um poema mediante a narração de uma cena que presenciou ao sair de casa certa manhã:

Vivo fora de Buenos Aires e me dirijo de trem à cidade, onde dou aulas a universitários. Pela janela me dou conta que deixaram acesas as luzes das ruas em pleno dia, em pleno sol. E isso me faz pensar: ‘É admirável que a luz pequena de um foco aceso se note desse modo, ainda submergida na luz grande que é o sol’. Isso me faz sentir que a teoria da luz se rompe: a luz maior retrocede, como uma árvore que caísse do fruto. Assim o escrevo, e é uma inversão: todos ‘sabemos’ que os frutos caem das árvores. Mas se trata de algo muito, muito concreto. Se eu tivesse desejado explicar havia escrito três linhas de prosa. (JUARROZ, 2000b, p. 31).

A anedota de Bashô será propagada por Juarroz muitas vezes em entrevistas, conferências e textos ensaísticos. Será em alguns casos o seu modo de falar da poesia, ou seja, uma maneira que implica aceitar sua não compreensão. Desprovido de firulas e ornamentos, a poesia de Juarroz procura ponderar mais do que afirmar. A palavra seria como um ser vivo, dotado de visão, escuta, odor e tato. Em um dos fragmentos de “Quase poesia”, escreveu: “Também a palavra tem um olhar” (QP, 55). Para ele, cada palavra possui uma “mirada”, uma contemplação, meditação e uma pergunta; ela é também um abismo e uma ponte ligeira para a realidade; é uma prisão que enjaula; algo que se adapta aos sons, formas e línguas. Juarroz se permite criar as mais variadas imagens para tentar penetrar nos mistérios desta “realidade”. As palavras podem cair no nosso pensamento como fruto maduro; podem chegar até nós como festa ou renovar-se em outras palavras e imagens; podem cantar como pássaros; voar; podem produzir instantes de epifania ou até mesmo ser um espaço de trânsito, porta e brecha.

A palavra pode ainda ser vista como uma mão que se estende para tomar a coisa para si e possuí-la, e, ao prendê-la, misturar-se à própria coisa a ponto de confundir-se com ela. Mas, paradoxalmente, a palavra também liberta, porque é movimento em rotação contínua que joga o sentido para fora de si mesmo. Além de “carne verbal”, Juarroz dirá que a palavra está dotada de “visão verbal”. Essa visão teria como metodologia o “trastrocar”, a transposição, a mudança de lugar, o transcendente, porque busca o além que há em todas as coisas. A palavra é visão ou, como ele diz2: “Olho verbal, uma visão que transpõe, que busca em cada coisa, em cada zona da realidade, em toda a realidade, o outro lado, o que esquecemos, o que talvez só a linguagem elevada a seu extremo e a experiência mística podem dar-nos” (JUARROZ, 1994, p. 41).

Como se vê, Juarroz entende a palavra como uma estrutura que está permanentemente de “olhos abertos”. Como a poesia, a palavra é uma forma de despertar, é um modo de voltar a abrir os olhos para a realidade. A existência da palavra converte-se em presença e companhia, já que ela está no cosmo de objetos, sentimentos, ideias e seres. Mas a palavra também está sujeita à corrupção e à clausura, porque, ao dizer algo, deixa de mostrar o seu avesso.

O vertical

Nada flui sem um desnível fundamental

R. Juarroz

Nos “Fragmentos Verticales”, Juarroz tem a oportunidade de expor sua poética, que se confunde, desde a sua apresentação, com o mundo das ideias. Ele diz na apresentação dos “Fragmentos”: “Não ceder ao discurso e reter unicamente os núcleos essenciais do pensar e da poesia” (JUARROZ, 2005, p. 389). Ou seja, a redação dos fragmentos deve resistir ao desejo de tornar-se discursos. Para ele, o pensamento e a poesia são necessariamente “verticais” por se expressarem mediante “saltos”, “quedas” e “rebotes”. Não se trata da linearidade no sentido cartesiano, mas da não linearidade, no sentido de incertezas, instabilidades, caos e alternâncias de imagens entre torres e covas, cumes e abismos, platôs e vales, vida e morte.

Em um dos fragmentos, ele parece se referir a si mesmo ao dizer: “Se especializou nas escadas descendentes. Terminou por cair para cima” (QF, 50). Noutros fragmentos, vemos o tema da verticalidade sob a imagem do salto: “Há que dar um salto. Mas todo salto volta a apoiar-se. Haveria que ser um salto” (QP, 23); “Às vezes o pensamento dá um salto e esquece totalmente o solo de onde saltou. Talvez não haja outro modo de concentrar-se para acertar o solo ou o abismo que segue. Talvez ocorra o mesmo ao morrer” (QF, 13).

Podemos dizer que esses “Fragmentos Verticales” são aforismas filosófico-teológico-políticos, e é provável que Juarroz tenha se inspirado em quatro autores diferentes para assumir a noção de vertical: Rainer Maria Rilke, Martin Heidegger, Gaston Bachelard e René Char. Convém, contudo, destacar aqui um deles, Bachelard, devido a conexão deste com a teoria da poesia, o imaginário, a ciência, a complexidade e a filosofia. Em Bachelard encontramos a seguinte exposição:

Uma verticalidade real se apresentará no próprio âmago dos fenômenos psíquicos. Essa verticalidade não é uma vã metáfora; é um princípio de ordem, uma lei de filiação, uma escala ao longo da qual experimentamos os graus de uma sensibilidade especial. Finalmente, a vida da alma, todas as emoções finas e contidas, todas as esperanças, todos os temores, todas as forças morais que envolvem um porvir têm uma diferencial vertical em toda acepção matemática do termo. (BACHELARD, 2002, p. 10-11).

A seguir, ainda dentro da mesma linha de raciocínio, Bachelard aponta as “metáforas” próprias da verticalidade:

Formularemos, pois, este primeiro princípio da imaginação ascensional: de todas as metáforas, as metáforas da altura, da elevação, da profundidade, do abaixamento, da queda, são por excelência metáforas axiomáticas. Nada as explica, e elas explicam tudo. Mais simplesmente: quando queremos vivê-las, senti-las e sobretudo compará-las, percebemos que elas trazem uma marca essencial e que são mais naturais que todas as outras. (...) A valorização vertical é tão essencial, tão segura, sua supremacia é tão indiscutível, que o espírito não pode esquivar-se a ela depois de tê-la reconhecido uma vez em seu sentido imediato e direto. Não se pode dispensar o eixo vertical para exprimir os valores morais. Quando tivermos compreendido melhor a importância de uma física da poesia e de uma física da moral, chegaremos a esta convicção: toda valorização é verticalização. (BACHELARD, 2002, p. 10-11).

Em Bachelard, a verticalidade é apresentada como “um princípio de ordem”, “axioma”, “uma lei de filiação”, uma escala ao longo da qual experimentamos os “graus de uma sensibilidade especial”. Tudo aquilo que valeria a pena, teria um “diferencial vertical”. Para Juarroz, o vertical é a experiência poética traduzida em vivência e experiência de vida. Para ele, a verticalidade possui “a possibilidade de reunir de uma vez por todas o que tem sido tão falsamente dividido: o pensar e a emoção” (JUARROZ, 2000b).

O título geral de sua obra, “Poesia Vertical”, se liga ao imaginário do “mais profundo” e das “últimas coisas”. Significa a escolha pelo que é essencial, a retomada do sentido do profundo. Parada (2004) 3 diz que essas “últimas coisas” são as que se encontram vedadas pela vida cotidiana, e que o poeta chega até elas pelo esforço de mineração e garimpagem; visão que faz do poeta um “mineiro da palavra”. A garimpagem é necessária porque ocorre em meio a um terreno onde os pedregulhos, a poeira e a aridez tomam conta do universo da linguagem. Nesse terreno, uma única palavra pode esconder um tesouro.

A escolha da palavra “vertical” para definir a sua poética obedeceu também a outros registros. Os gregos usavam a palavra “ráthetos” para dizer “vertical, abertura, abismo, garganta e abertura de boca”, e também se referiam a ela como abertura por onde trafegava Theos. A correlação entre “vertical” e “Aberto” será algo que Juarroz irá trabalhar durante toda a vida. Esse “Aberto” era aquilo que Rilke (2001) tinha chamado de “círculo mais vasto”, e que Heidegger (1998) entendeu como o que não restringe, que não impede e que não tem limite: a grande totalidade de tudo o que não está restringido. Heidegger viu como o campo das conexões e possibilidades, logos propiciador da ordem, princípio rejuntivo, mas também risco, desordem e loucura.

O poeta, pois, mais do que ninguém, parece viver com as palavras um jogo tenso e obstinado entre metáfora (abertura) e metonímia (fecho), entre sentido e comunicação, entre o ascendente e o descendente, entre a palavra-enigma e a palavra-revelação. E talvez seja justamente esse dinamismo da palavra o que transpõe sua função de comunicação usual, dando-lhe outra função, agora, como signo verbal de elevação:

Uma tensão vertical eleva a palavra; outra força, vertical também, mas descendente, neutraliza (ou a nega) [...]; ou - ao menos - põe em evidencia a incapacidade do instrumento verbal para manter essa delicada equidistância entre enigma e lucidez, em que o poeta se debate, e onde quer que se debata sua escritura. Dinamismo interior, fluxo constante e subterrâneo que se, por uma parte, define o movimento intelectual do escritor, descobre - por outra - a progressão fecundante da palavra mesma, alheia já as servidões dos significados. (PADRÓN, 2015).

Como notou Padrón, a interpretação de Juarroz é a de que o vertical corresponde à aspiração e desejo pelo ascendente, seguida da iminência da queda. A dimensão da “queda” será outra ideia-imagem presente em seus fragmentos verticais: “Só a renovada iminência da queda permite às vezes colonizar a queda” (QP, 105). É inegável que a dimensão da “queda” tornou a poesia de Juarroz melancólica e desassossegada. Sua poesia traz a marca da solidão, do silêncio, da oposição (complementar) entre luz e sombra, entre o visível e o invisível, entre o eu e o vazio. O “eu” para ele não passaria de um “vaso quebrado”; no entanto, “haverá algum vaso capaz de nos conter por inteiro?” (QP, 70).

Juarroz (2000) acreditava que a poesia possuía em si uma tríplice ruptura: em primeiro lugar, é ruptura com uma certa concepção de realidade, pois é uma abertura à visão de realidade. A segunda ruptura era a da linguagem. Não se podia continuar usando noções “gastas”, pragmáticas, convencionais para expressar novas cosmovisões. A terceira ruptura era com o medo: o medo de abertura que a poesia evoca nos coloca desnudos diante de nós mesmos.

Com todas essas rupturas, a poesia é uma das formas de desenlaçar o ser humano das amarras da realidade material, do prestígio social, status quo, escalada profissional e financeira, padrões sociais que o cercam.

A poesia é uma via irregular, não ortodoxa, herética do conhecimento, unindo-se a ela a visão e a imaginação. É uma metafísica instantânea, como escreveu Bachelard. E mantém os olhos abertos para o mistério, condição essencial para Einstein. Enriquece ou aumenta esse mistério, como se fosse um dom ou um fundamento. (QR, 205).

A poesia para Juarroz era uma das formas de verticalidade que o ser humano tinha encontrado. Forma de “metafísica instantânea” que “aumenta” e “enriquece” o mistério.

O silêncio

O silêncio é um templo que não necessita Deus

R. Juarroz

O tema do silêncio aparece disperso em muitos poemas de Poesía Vertical (Vol. I - 1958-1987 e Vol. II - 1987-1994), mas também nos “Fragmentos Verticales”. Entre os comentadores de Juarroz citados na introdução deste artigo poucos destacam a importância do silêncio na sua obra. Gostaríamos de destacar e desenvolver tal ideia, retomando inicialmente alguns dados de ordem biográfica:

Eu tenho me sentido atraído em primeiro lugar pelos elementos da natureza. Nasci em um povoado à margem do campo. Meu pai era chefe da estação de ferro e tínhamos em frente o horizonte aberto. Nessa pequena cidade de Coronel Dorrego me acostumei desde muito cedo aos silêncios. Essas noites abertas em que se viam as estrelas, a lua nítida, os ventos, a água, a árvore que para mim é uma protagonista da vida. Comecei minhas leituras muito cedo. Atraíam-me cada vez mais e dediquei boa parte da minha vida a isso. Enquanto isso foi se configurando como linguagem predileta, elegendo (talvez me elegeu a mim), a poesia. (JUARROZ, 2000b, p. 28).

Nos seus “Fragmentos”, o silêncio aparece como “difícil conquista”: “A mais difícil conquista: o silêncio interior. Só dali se abre a verdadeira poesia” (QR, 14). E, por ser difícil, necessita de aprendizagem: “Quem não sabe calar não devia falar. A poesia que não cala não pode dizer nada” (QR, 73); e aparece discreta na aprendizagem do “não saber” (QR, 45):

Há também uma aprendizagem do não saber. Não se trata do não saber espontâneo, ingênuo ou por carência. É o caminho que leva pouco a pouco para a radical sabedoria do não saber, que se vislumbra às vezes como nervo medular da poesia mais alta. Esta aprendizagem não supõe esquecer nada, senão desaprender tudo, que é o mesmo que um caminho na água e no vento, um caminho e um não caminho. (JUARROZ, 2005, p. 432).

Para ele, é da “combinação” entre visão, silêncio, palavra, música e vida que se forma a poesia: “A poesia é criação de mais visão, de mais intensidade e, não sempre, de mais harmonia ou beleza, mediante uma combinação diferente de palavras, silêncio, musicalidade e vida” (QR, 161). Ele encontra o silêncio até mesmo no leitor de poesia, e pergunta-se sobre o tipo de silêncio que esse leitor consegue atingir ao ler um poeta qualquer (QF, 84). Ela é também “pontuação”: “É o silêncio a pontuação da voz ou é a voz a pontuação do silêncio?” (QP, 28); “Os sons se corrompem. Haverá também uma corrupção do silêncio?” (QP, 63); como complemento da palavra: “Gotas de palavras e gotas de silêncio empaparam o lenço. Devemos agora secá-lo, para nos envolver nele” (QP 75). Em um poema do Poesía y realidad (2000a), diz: “Celebrar o silêncio. / Há outra maneira de celebrar a palavra?” (JUARROZ, 2000a).

Aqui o silêncio surge ao lado da concentração e da solidão como a contraparte do fazer artístico, dimensão que, para o poeta, deve se fazer presente no exterior e no interior humano:

Sem concentração, silêncio e solidão não pode haver poesia. Nada exige uma fidelidade maior, nem sequer o amor ou a religião. Porém, tudo isso não é suficiente: são condições externas. Falta a condição interna: a reviravolta interior para o desconhecido, o não evidente e o inefável; a radical metamorfose para o centro da realidade; a consumação de algo equivalente a um novo sacramento, no oceano sem praias das formas. (QR, 171).

Na longa entrevista que deu a Daniel González Dueñas e Alejandro Toledo, quando perguntado sobre os “pontos de coincidência” entre sua concepção de silêncio e aquela do Zen, Juarroz respondeu:

É uma meditação que está no fundo da poética e implica um reconhecimento essencial para os poetas: a palavra não existe sem silêncio. Não se deve apenas ao fato material de necessitar de espaços que envolvam, que individualizem (além dos signos que compõem): há um silêncio que separa as palavras e que ao mesmo tempo as une. Isso cria poesia. Uma única palavra nunca é poesia. Duas palavras são. Duas palavras unidas pelo silêncio. Há um peso de silêncio no poema: é o apoio, nas costas do silêncio está a dimensão poética da vida, toda aquela experiência essencial do silêncio sem a qual não há expressão válida (aquilo que os charlatões deste mundo esquecem, que não falam nada porque não fazem silêncio, o silêncio de palavras). (...) Qual é o peso do silêncio em uma palavra? (JUARROZ, 2000b, p. 132).

Em Poesía y realidad irá defender:

Não há poesia sem silêncio e sem solidão. Mas a poesia é também provavelmente a forma mais pura de ir mais além do silêncio e mais além da solidão. Parece-se por isso com a oração para aquele que ainda pode orar. Para o poeta, a poesia ocupa o lugar da oração, a substitui e ao mesmo tempo a confirma (JUARROZ, 2000a, p. 14).

O silêncio de um ser humano é distinto do silêncio de outro, e não é o mesmo calar pela manhã e calar à noite. Existiria, por isso, um alfabeto do silêncio, que não nos ensinaram a soletrar. “Porém, a leitura do silêncio é a única durável, talvez mais que o leitor” (JUARROZ, 2000a). Entre o silêncio e as palavras, há formas diversas de “balbucios” (QR, 80). Aqui ele pergunta na primeira oração para afirmar na segunda: “Acaso o silêncio que guardamos em um lugar não é válido também em outro? Devemos tratar as palavras como tratamos o silêncio” (QF, 119). Tanto a palavra como o silêncio funcionam como companhia e “campainha”: “O silêncio às vezes soa como uma campainha” (JUARROZ, 2000a).

Conclusão

Como se notou ao longo deste texto, Juarroz está sempre procurando circundar definições de poesia. Nos “Fragmentos Verticales”, encontramos algumas “definições” como: “A poesia é um gesto do espírito que vai ganhando outra razão” (QF, 71), ou: “A verdadeira poesia é uma forma de superação do eu. Com a poesia nasce outra dimensão mais alta, um mais além do eu” (QR, 86); e também: “A poesia busca a realidade sem limites, a realidade infinita, em cada coisa e em tudo” (QR, 200). Nas entrevistas, Juarroz fazia questão de assinalar que o poema era uma presença que “acompanha a solidão do homem, convertendo as ausências em presenças” (QR, 199), mas também algo que não podia ser definido: “A poesia, temos dito tantas vezes, assim como as coisas importantes e decisivas da vida, não tem uma definição, como se diz agora, consensual, aceita, respeitável. As coisas grandes não se podem definir” (JUARROZ, 2000a).

Apesar dos prêmios que recebeu, dos cargos acadêmicos que ocupou e principalmente da poesia que escreveu, Juarroz ainda é quase totalmente desconhecido em seu país. Aos poucos, contudo, essa situação tem mudado.4 No Brasil, nenhum dos seus livros foi ainda traduzido. Este estudo procurou, portanto, contribuir para a diminuição deste desconhecimento. Ficamos focados apenas nos “Fragmentos Verticales”, que representam uma pequena parte de sua obra. Ainda assim, foi possível perceber ali a mesma inquietação filosófica, interrogativa e compreensiva presente na outra parte da obra. De forma geral, Juarroz busca superar, na intensidade da expressão, os limites entre poesia e filosofia, fazendo de sua poesia um exercício reflexivo e um ato de amor à palavra e ao silêncio.

A associação entre logos e mythos, eros e psique, razão e poesia surge dispersa em seus volumes e condensada em cada poema. Os “Fragmentos Verticais” podem ser lidos como reunião, realiança e rejunção, como neste penúltimo exemplo:

Assim como Lezama Lima se refere a um possível logos da imaginação, se poderia falar também de um eros do pensamento. Ou melhor um amor de pensamento ou um pensamento que ama. É isso o que muitos não podem compreender: esse mais que está no pensamento como reconcentrada efusão. (QR, 204).

Talvez a poesia seja “esse mais que está no pensamento”.

Por fim, é preciso dizer também que os fragmentos aqui analisados estão repletos de pressentimento de morte, angústia, desassossego e melancolia, uma vez que foram revisados e reescritos pouco tempo antes da morte de Juarroz, quando ele tinha consciência de que estava acometido de uma doença terminal. Melancolia do crepúsculo, contudo, que não inibe a imensa beleza reflexiva e erótica de seus versos. Nele, a poesia continua sendo morada, “sombra” e habitat: “Os poemas, como as árvores amadas, nos fazem sentir mais vivos sob a sua sombra” (QR, 92).

Referências

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  • 1
    Entrevista dada por R. Juarroz a Dueñas e Toledo em 1998.
  • 2
    O poeta faz uma homenagem a César Vallejo em seção que também homenageou Vicente Huidobro. Cf. JUARROZ, R. Cesar Vallejo. Buenos Aires: Academia Argentina de Letras, 1994. v. 8. (Serie homenajes).
  • 3
    Alejandro Parada foi assistente de Juarroz na Universidade de Buenos Aires em duas disciplinas: Panorama da Cultura Contemporânea e Introdução ao pensamento bibliotecológico, e trabalhou diretamente com ele na Academia Argentina de Letras. Forneceu este dado via e-mail em 18/05/2004.
  • 4
    Entre outubro de 2019 e março de 2020, a Biblioteca Nacional da Argentina Mariano Moreno realizou a exposição “Saltos verticales: Roberto Juarroz entre nosotros”. Disponível em: https://www.bn.gov.ar/agenda-cultural/saltos-verticales-roberto-juarroz-entre-nosotros

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    09 Jun 2025
  • Data do Fascículo
    2022

Histórico

  • Recebido
    25 Jan 2021
  • Aceito
    06 Mar 2021
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