Resumo:
O bioma Pantanal, localizado na América do Sul, se estende pelo Brasil, Bolívia e Paraguai e abriga comunidades quilombolas, ribeirinhas e indígenas. Estas últimas têm demonstrado interesse em participar do mercado turístico, porém, a implementação da atividade tem revelado fortes entraves, tais como baixa visibilidade, dificuldade de acesso às aldeias e ausência de diálogo com setores produtivos. Trata-se de desafios e enfrentamentos que esta pesquisa se propõe a investigar com o objetivo de “analisar duas iniciativas de implementação de experiências de turismo no interior das Terras Indígenas Kadiwéu e da Terra Indígena Taunay-Ipegue da etnia Terena”. Mediante levantamento de campo, com observação direta e diálogo com interlocutores, e tendo como referencial teórico a geografia do turismo e a antropologia do turismo, a pesquisa tem como resultado a leitura e interpretação da dinâmica de implementação do turismo em territórios indígenas, identificando trajetórias, expectativas e desafios em relação ao turismo étnico.
Palavras-Chaves:
turismo étnico; Pantanal; cultura; povos indígenas
Abstract:
The Pantanal biome, located in South America and spanning Brazil, Bolivia, and Paraguay, is home to quilombola, riverside, and Indigenous communities. The latter have demonstrated an interest in entering the tourism market; however, the implementation of this activity faces significant obstacles, including low visibility, difficult access to villages, and a lack of dialogue with productive sectors. This research investigates these challenges and confrontations, aiming to “analyze two initiatives implementing tourism experiences within the Kadiwéu Indigenous Territories and the Taunay-Ipegue Indigenous Territory of the Terena ethnic group.” Through fieldwork, direct observation, and dialogue with interlocutors, and drawing on the geography and anthropology of tourism as theoretical frameworks, this study interprets the dynamics of tourism implementation in Indigenous Territories, identifying trajectories, expectations, and challenges related to ethnic tourism.
Keywords:
ethnic tourism; Pantanal; culture; Indigenous peoples
Resumen:
El bioma del Pantanal, ubicado en Sudamérica, se extiende por Brasil, Bolivia y Paraguay y alberga comunidades quilombolas, ribereñas e indígenas. Las comunidades indígenas tienen interés en participar del turismo regional; pero, la implementación del turismo enfrenta obstáculos significativos, tales como baja visibilidad, dificultad de acceso a las aldeas y la falta de diálogo con el sector turístico. Se trata de desafíos y confrontaciones que esta investigación se propone investigar con el objetivo de “analizar dos iniciativas para la implementación de experiencias turísticas en la Tierra Indígena Kadiwéu y la Tierra Indígena Taunay-Ipegue de la etnia Terena”. Mediante trabajo de campo, con observación directa y diálogo con interlocutores, y teniendo como referente teórico la geografía del turismo y la antropología del turismo, el resultado es la lectura e interpretación de la dinámica de implementación del turismo en territorios indígenas, identificando trayectorias, expectativas y desafíos en relación al turismo étnico.
Palabras clave:
turismo étnico; Pantanal; cultura; pueblos indígenas
Introdução
A compreensão de turismo étnico como uma modalidade turística pautada na motivação dos viajantes por vivências autênticas da cultura de um determinado povo (Lama, Sarkhel, 2022), servirá de parâmetro às discussões desse estudo. Essa modalidade turística, que implica no deslocamento de visitantes às comunidades anfitriãs, em territórios tradicionais ou fora deles, em busca de experiências em torno do viver com esses povos. É uma categoria de visitação que ocorre em diversos países e nas mais distintas comunidades (Yea, 2002; Yang, Wall, 2008). No Brasil tem sido praticado nas últimas décadas com intensidade crescente em diferentes Terras Indígenas - TI e grupos étnicos, tais como TI Piaçaguera (Tupi-Guarani et al., 2022), TI do povo Yawanawá (Honorato, 2020), TI Yanomami (Oliveira, 2022), TI do povo Pataxó (Grünewald, 2005), TI do povo Baré (Proença; Panosso Neto, 2022), TI dos povos Kaingang e Kanoe (Lac, 2005), TI Jaboti (Von Held, 2013), entre outras, conforme consta na Instrução Normativa 03/2015 referente ao ordenamento do turismo em Terras Indígenas .
O interesse por compreender as motivações, os impactos econômicos e sociais, as relações propiciadas pelos contatos entre anfitriões e visitantes no contexto do turismo étnico tem atraído a atenção de pesquisadores tanto na área da geografia quanto da antropologia. No campo da antropologia do turismo, os estudos têm se voltado para aspectos tais como afirmação e ressurgimento étnicos e contatos interétnicos (Neves, 2012; Grünewald; 2006 e 2009, Van Den Bergue, Keyes, 1984), eficácia ritual e eficácia turística (Neves, 2010), turismo, arte e patrimônio (Graburn, 1976; Prats, Santana, 2011; Hume, 2013), xamanismo e práticas cerimoniais (Fotiou, 2010; Losonczy, Mesturini, 2011; Honorato, 2020), entre outros temas caros à antropologia. Da mesma forma, na geografia do turismo, questões como produção do espaço pelo e para o turismo e dos elementos que o compõem (Cruz, 2008; Moretti, 2007), demandas decoloniais (Grimwood et al., 2024; Scheyvens, 2025), reconhecimento dos saberes e das cosmologias (Guia, Jamal, 2024), comunidades tradicionais (Weaver, 2015; Lee, 2024), quilombolas (Souza, 2021), além de outros temas, têm sido objeto de análise de pesquisadores da área.
Neste artigo serão abordadas duas experiências de aproximação com o turismo nas comunidades indígenas do estado de Mato Grosso do Sul, que abriga Terras Indígenas com diferentes etnias, distribuídas ao longo de seus 357.125 quilômetros quadrados (IBGE, 2020). O estudo se mostra relevante na medida em que captura as demandas e os interesses das comunidades, o protagonismo de gênero, entre outros aspectos que permeiam os arranjos em torno do turismo, com o propósito de trazer para o interior de seus territórios, e sob seu controle e determinação, uma prática que há tempos os contempla, porém, de forma marginal e nem sempre consoante a seus interesses.
O estudo abordou experiências na Terra Indígena Kadiwéu, no município de Porto Murtinho (MS), e na terra Indígena Taunay-Ipegue, no município de Aquidauana (MS). Em ambos os territórios, mas sobretudo em área Kadiwéu, identificou-se significativa presença e participação da mulher indígena na dinâmica por implantação da atividade turística.
De acordo com as pesquisadoras, a partir do final dos anos 80 do século passado, em conformidade com os direitos conquistados a partir da Constituição de 1988, o movimento indígena se institucionalizou por meio de organizações étnicas (Pimentel; Todesco, 2024), tendo a participação da mulher indígena na dinâmica das comunidades se fortalecido, destacadamente na busca pela igualdade de gênero e nas discussões coletivas (Sacchi, 2003), reforçando a ideia de que “as mulheres indígenas têm conquistado representatividade nas lutas de seus povos e inspirado a participação umas das outras nos avanços pela ampliação e ocupação de seu espaço” (Conceição, 2018, p. 79). Segundo mapeamento recente do Instituto Socioambiental (ISA, 2024), acerca das Organizações das Mulheres Indígenas no Brasil (2024), existem 92 organizações distribuídas por todos os estados da federação. Em território pantaneiro, no estado de Mato Grosso do Sul, existem três associações, todas da etnia Terena e no município de Aquidauana, sendo elas a Associação das Mulheres da Aldeia Bananal, Associação de Mulheres Indígenas da Aldeia Água Branca e Associação de Mulheres Indígenas da Aldeia Ipegue. As duas últimas em território abrangido por esta pesquisa.
Neste artigo, a categoria analítica “território usado” parte do conceito de Milton Santos (1999), que o define como complexo e em movimento, para além da dimensão física, como uma harmonização de objetos e ações em diferentes escalas (Santos, 1999), constituído de infraestrutura, edificações e formas naturais em consonância com o fluxo de pessoas, informações, capital e atividades humanas (Santos, 1999). É importante, também, entender o território a partir da perspectiva de Marcelo Lopes de Sousa, ao afirmar que “[...] o território é fundamentalmente um espaço definido e delimitado por e a partir de relações de poder” (1995, p. 78), referendado por Manoel Correia de Andrade no livro A questão do território no Brasil, de 2004.
O objetivo deste artigo é analisar duas iniciativas de implementação de experiências de turismo no interior das Terras Indígenas Kadiwéu, mais especificamente na Aldeia Alves de Barros, município de Porto Murtinho (MS), e da Terra Indígena Taunay-Ipegue, na Retomada Cristalina, da etnia Terena no município de Aquidauana (MS), e apresentar a forma como essas comunidades se inserem atualmente na dinâmica do turismo regional, o que almejam como participação mais efetiva nessa cadeia produtiva e como têm se mobilizado no sentido de implementar novas ações e meios de inserção no mercado turístico.
Procedimentos metodológicos
A pesquisa foi motivada por demandas das próprias comunidades indígenas, interessadas em discutir com pesquisadores da área o potencial e as práticas incipientes de turismo em curso nas aldeias, como, por exemplo, acolhimento de visitantes interessados em conhecer a vida nas aldeias, o que tem ocorrido sem organização ou planejamento estruturados por parte das comunidades. A partir do contato com os grupos Kadiwéu e Terena, mediado por estudantes universitários indígenas, foram sugeridas e acordadas visitas in loco na condição que estamos denominando neste artigo de “vivências observadas”, ou seja, os indígenas se dispuseram a nos receber - pesquisadores e equipes de estudantes - para, investidos da qualidade de visitantes e a partir de experiências sensitivas com o ambiente e de experiências de aprendizado e trocas culturais, analisarmos o potencial e as fragilidades de ordem humana ou dos atrativos, visando futuros projetos de turismo.
A delimitação espacial da pesquisa foi definida pelos próprios grupos participantes, abrangendo a aldeia Kadiwéu Alves de Barros, na TI Kadiwéu, no Pantanal de Porto Murtinho, e a Retomada Cristalina,1 do povo Terena, na TI Taunay-Ipegue, localizada no Pantanal de Aquidauana. Foram realizadas três visitas às áreas, sendo duas na aldeia Alves de Barros, nos meses de setembro de 2023 e março de 2024, e outra na Retomada Cristalina, em abril de 2024. A permanência em cada aldeia foi de aproximadamente três dias, correspondente ao período que esses povos consideram satisfatório de uma visita turística.
A pesquisa se pautou em levantamento bibliográfico e observação de campo, compreendendo conversas informais com interlocutores indígenas e o contato com a realidade das comunidades visitadas. As entrevistas e conversas foram conduzidas de forma que o maior número de informações pudesse ser obtido do diálogo com os interlocutores em referência à capacidade de recepção de turistas, ao roteiro turístico idealizado, à culinária pretendida, aos potenciais turísticos de cada aldeia, à disponibilidade de pessoal para atender aos turistas, dentre outros aspectos. Foram contatadas aproximadamente 15 pessoas de cada aldeia, durante as três imersões à campo, incluindo lideranças indígenas e pessoas envolvidas com os projetos de turismo. Cabe ressaltar que, ao considerar que o foco do estudo são as estruturas, as relações e o coletivo em detrimento do individual, optou-se pela não identificação nominal dos interlocutores para preservar a sua identidade e o caráter coletivo das iniciativas.
Nas distintas idas a campo, foram realizadas visitações a atrativos naturais e propiciadas vivências de caráter cultural, que permitiram dimensionar o grau de envolvimento e interesse de segmentos da sociedade, tais como operadoras e agências de turismo, na implementação do turismo nas aldeias. Os dados qualitativos foram ordenados, pontuados e analisados com base em referencial teórico da geografia do turismo e da antropologia do turismo, sobretudo na perspectiva da agência das comunidades em implementar práticas turísticas em seu território (Grünewald, 2009) e de forma autodeterminada (Jesus, 2012), bem como pautados em estudos sobre a geografia e as culturas do Pantanal (Banducci Junior, 2002; Ribeiro, 2015).
Turismo no Pantanal
O Pantanal é a maior planície de inundação do mundo (Ab´Saber, 2006), considerado Patrimônio Natural da Humanidade e Reserva da Biosfera pela UNESCO. Localizado no centro da América do Sul, se estende pelo Brasil, Bolívia e Paraguai, em uma área de 150.355 quilômetros quadrados (IBGE, 2020). A porção brasileira está dividida entre os estados de Mato Grosso/MT, com 35,36% de área, e Mato Grosso do Sul/MS, com 64,64% da área (IBGE, 2020). O Pantanal se forma na bacia hidrográfica do Alto Paraguai e abriga importante biodiversidade da flora e da fauna brasileiras.
O bioma pantaneiro brasileiro está distribuído em 11 subdivisões: Abobral, Aquidauana, Barão de Melgaço, Cáceres, Miranda, Nabileque, Nhecolândia, Paiaguás, Paraguai, Poconé e Porto Murtinho (Silva, Abdon, 1998), guardadas as características geomorfológicas. A planície pantaneira, se caracteriza como sistema sedimentar, com rios extensos que propiciam o surgimento de várzeas, lagoas e pequenos lagos que dão origem às paisagens. O clima é marcado pela continentalidade, com médias anuais em torno de 25ºC. Quando do predomínio da Massa Tropical Continental, as máximas ficam acima de 40ºC (Silva et al., 2022). Os ciclos de cheias e vazantes favorecem a dinâmica de uma paisagem cênica que imprime significado ao bioma Pantanal (Silva et al., 2022). A planície pantaneira abriga distintas comunidades tradicionais, incluindo povos indígenas, quilombolas, pequenos agricultores e ribeirinhos (Banducci Junior, 2007; Costa, 1999; Chiaravalloti; Homewood; Erikson, 2017; Souza, 2021), que, diante das oportunidades oferecidas pelo turismo, manifestam interesse em participar dessa cadeia produtiva. A Figura 1 apresenta a área do Pantanal no Brasil.
A prática turística se estruturou no Pantanal do Mato Grosso do Sul a partir do último quartel do século passado, nas modalidades de pesca esportiva e de contemplação da natureza, dividindo o espaço com a produção pecuária, tradicional atividade econômica da região. A exuberância da fauna, da flora e a piscosidade dos rios que compõem a bacia do alto Paraguai são atuais e potenciais indicadores da dinâmica do turismo local, que obedece à especificidade ambiental da planície pantaneira, com períodos de cheias e vazantes que cartografam o viver na região e tendem a orientar também a atividade turística (Ribeiro, 2015; Banducci Junior, 2006; Moretti, 1999).
Até o século XVIII, o território pantaneiro serviu como rota para agentes colonizadores em busca de minas de ouro ao norte da planície e de indígenas, capturados para servir como escravizados (Costa, 1999). A ocupação continuada e perene de não indígenas na planície pantaneira teve início ainda no século XVIII, mediante a instalação de fortificações nas áreas de fronteira, destinadas a resguardar o território ocupado pela coroa portuguesa e manter controle sobre as investidas indígenas (Esselim, 2011). Junto às guarnições militares, onde encontravam proteção e auxílio em caso de necessidades, instalaram-se as primeiras fazendas de gado, com a prática da pecuária, favorecida pela abundância de gado bovino, que encontrou ambiente favorável à sua reprodução disperso pela região após a destruição das reduções jesuíticas pelas bandeiras (Costa, 1999; Esselin, 2011). A criação de gado de corte, praticada em latifúndios, tornou-se, a partir de meados do século XIX, a principal atividade econômica não indígena no Pantanal e fator de acomodação da cultura pastoril na região (Ribeiro, 2015; Banducci Junior, 2007; Araújo, 2010).
A mão de obra das fazendas era composta por ex-escravizados, indígenas, paraguaios e bolivianos. A convivência desses diferentes povos, associada à influência de migrantes do sul do país, conformou um cenário cultural bastante singular nas fazendas pantaneiras, tendo na tradição do gado, juntamente com as peculiaridades ambientais da planície, a referência de trabalho, de costumes e de identidade (Banducci Junior, 2007; Esselin, 2011).
As mudanças ocorridas no cenário da produção pecuária no país, com o advento de novas técnicas de criação e de abate, associadas à crise da pecuária na década de 1980 (Ribeiro, 2015), afetaram a economia dos latifúndios pantaneiros, oportunizando a algumas propriedades, sobretudo aquelas localizadas em regiões de fauna e flora conservadas e com infraestrutura de acesso, experiências no campo do turismo, servindo como atividade secundária e como meio complementar de renda às práticas pastoris. Na medida que essa modalidade de turismo se expandiu e se consolidou, outras comunidades e povos do Pantanal se viram afetados (Chiaravalloti; Homewood; Erikson, 2017), seja pela demanda por mão de obra ou como mercado consumidor dos produtos agrícolas, artesanais e artísticos.
No caso dos povos indígenas que habitam o território da planície em áreas propícias ao turismo, algumas etnias, tais como Kadiwéu, Terena e Guató têm manifestado interesse em participar desse mercado e vêm se mobilizando para promover o turismo de forma ordenada, referenciados na IN 03/2015 e com a participação dos membros das comunidades indígenas envolvidas nesse processo. Etnias cujas aldeias estão próximas das rotas turísticas, como é o caso dos Terena e dos Kadiwéu, têm buscado maior autonomia em relação ao mercado do turismo, inclusive com projetos de visitação ordenada e hospedagem nas aldeias (Jesus, 2012; Bordin, 2023). Tal postura tende a proporcionar, no decorrer dos anos, mudança de perfil dos visitantes das áreas indígenas (Smith, 1989), permitindo, no dizer de Cooper et al. (2007), o desenvolvimento da atividade segundo a prerrogativa do grupo receptor, na medida em que se volta para tipos de viajantes com expectativas e comportamentos mais condizentes com o modelo de turismo que as comunidades têm procurado implementar em suas terras, com ênfase nos aspectos ecológico e étnico.
No Pantanal, o turismo começa a ser organizado, de forma sistemática e de acordo com os ditames do mercado, a partir do final da década de 1970, quando ocorre a instalação de pousadas pesqueiras, destinadas a receber pescadores esportivos de diferentes regiões do país. Da mesma forma, é nesse período que surge a oferta de serviços de barcos pesqueiros no rio Paraguai e alguns afluentes, destinados exclusivamente à pesca esportiva (Banducci Junior, 2006).
Se a princípio a estrutura é precária e os serviços, em muitos aspectos, improvisados, ao se instalar na região a atividade promove uma alteração gradual, no ambiente e nas condições de trabalho no Pantanal. De um lado, novas ocupações surgem no contexto da pesca, como a de catadores de iscas vivas, de piloteiro, e as profissões ligadas à hotelaria, como de camareiras, cozinheiras, garçons, garçonetes, entre outras atividades executadas por mulheres e por homens.
Ao lado do turismo pesqueiro, as modalidades de turismo ecológico e turismo cultural também se implantaram na região a partir da reorganização das fazendas que construíram e adaptaram pousadas e instalaram infraestrutura para atender famílias ou grupos de turistas interessados na prática de um turismo focado na contemplação da natureza e na observação e vivências da cultura local, diferente do turista de pesca (Fernandes et al., 2021). Se o turismo pode ser definido como uma atividade que se fundamenta no lazer (Graburn, 1983), ou ainda, que proporciona “[...] experiências prazerosas, diferentes daquelas com que nos deparamos na vida cotidiana” (Urry, 1996, p. 15).
No aspecto da cultura e das tradições regionais, as pousadas e hotéis pantaneiros oferecem pacotes turísticos que incluem hospedagem e atividades diversas, tais como safari fotográfico, safari noturno, trilhas, passeio de barco, cavalgada, além do contato com costumes, histórias e a culinária local (Araújo, 2023). Os turistas praticantes dessa modalidade de viagem costumam ser grandes consumidores dos produtos indígenas, tais como cerâmicas, bijuterias de palha e sementes, esculturas em madeira, entre outros. Desse modo, através dos artefatos materiais, derivados sobretudo do trabalho das mulheres tanto da etnia Terena quanto da Kadiwéu, a cultura indígena há muito se faz presente no mercado do turismo regional. Esse é o caso da arte cerâmica tão apreciada pelos turistas que visitam a região e que comumente levam consigo artefatos como potes, travessas, panelas, figuras zoomórficas, entre diversas outras peças que se constituem em fonte de renda para as famílias de ceramistas.
Em diálogo com as interlocutoras, estas relataram que a forma mais comum de comercialização das cerâmicas se dá através de encomendas de intermediários e comerciantes, mas ocorre também mediante o deslocamento das ceramistas às cidades da região com maior fluxo de turistas, como é o caso da cidade de Bonito; da cidade de Miranda, onde há um centro de comercialização de arte e artesanato Terena; e de Campo Grande, que dispõe da Casa do Artesão, destinada a comercializar a produção de arte e artesanato do estado no mercado turístico (Pacheco; Benini, 2025). Centros urbanos, como São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro, também compreendem o circuito comercial de algumas das ceramistas, cujas visitas costumam acontecer por ocasião de eventos culturais.
Tal situação tem permitido a essas mulheres uma nova condição nas aldeias, em alguns aspectos um protagonismo simétrico ao de lideranças masculinas. A condição de artista, comerciante, viajante e provedora tem permitido às mulheres ceramistas ampliar sua participação no campo decisório das políticas públicas das aldeias e mobilizar a atenção do grupo em torno de suas demandas e projetos, além de criar possibilidades de trabalho dentro da comunidade e promover novos espaços de sociabilidade para as mulheres (Pimentel; Todesco, 2024). É nesse contexto que o turismo tende a se tornar tema de interesse e discussão dos povos indígenas que habitam o Pantanal, tendo, como é o caso dos Kadiwéu, as ceramistas como propositoras e alavancadoras da implantação da atividade em seus territórios e nas aldeias Terenas uma prática turística com características de contemplação da natureza.
Turismo em territórios indígenas
A prática turística em comunidades indígenas é uma realidade entre diversos povos e Terras Indígenas do país (Banducci Junior, Urquiza, 2012; Honorato, 2020; Lustosa, 2015; Oliveira, 2022; Pereiro, 2015; Tupi-Guarani, et. al., 2022), onde o turismo como um dos elementos de constituição da economia local. Esse é o caso dos Tupi-Guarani, na Terra Indígena Piaçaguera, localizada no litoral de São Paulo, na Mata Atlântica, onde o turismo representa a principal fonte de renda das famílias em cinco das doze aldeias (Tupi-Guarani et al., 2022). No norte do país, os Yanomami recentemente concluíram, em parceria com a FUNAI - Fundação Nacional dos Povos Indígenas e o ICMBio - Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, o Plano de Visitação YARIPO - Ecoturismo Yanomami, destinado a implantar a visitação guiada ao Yaripo, ou Pico da Neblina, conhecido como o ponto mais alto do país. Os Yanomami se tornam, com o plano oficializado, beneficiários do turismo no atrativo que se encontra em suas terras (Oliveira, 2022).
Entre os Yawanawá, os rituais xamânicos, envolvendo o consumo da ayahuasca e do rapé, além da música, da dança e dos festivais, são práticas que têm atraído centenas de turistas nacionais e estrangeiros para acompanhar as cerimônias e participar dos rituais nas aldeias (Honorato, 2020). Esses povos da Amazônia e aquele do litoral de São Paulo, juntamente com indígenas Pataxó, da Bahia, utilizam o turismo como ferramenta de reconstrução identitária e revitalização étnica (Grunewald, 2015), e o povo Jenipapo-Kanindé, do Ceará, que impediu a construção de um resort em suas terras, implantando no lugar um projeto de turismo comunitário (Lustosa, 2015), são exemplos de iniciativas autodeterminadas e bem-sucedidas, em aspectos econômicos, sociais, de autonomia, socioculturais e de poder de decisão, no que diz respeito ao turismo entre os povos indígenas do Norte, do Sudeste e do Nordeste brasileiro.
As experiências de turismo étnico têm se ampliado por todas as regiões brasileiras, sendo que no estado de Mato Grosso, que detém parte do território pantaneiro, 19 etnias desenvolvem turismo indígena em suas terras, tendo como atrativos principais a pesca esportiva, trilhas, cachoeiras e rios, incluindo birdwatching, participação em rituais e comércio de artesanato (Siqueira, 2024).
Em Mato Grosso do Sul, experiências de turismo em áreas indígenas foram colocadas em prática desde as últimas décadas do século XX. Nem todas, entretanto, foram bem-sucedidas, sobretudo porque muitas delas partiram de projetos externos às comunidades, como no caso das iniciativas implantadas na Aldeia Urbana Marçal de Souza, com indígenas Terena em Campo Grande, e na Reserva Indígena de Dourados (RID), com as etnias Guarani e Kaiowá, no início dos anos 2000. Em ambos os contextos os indígenas foram inseridos no circuito turístico sem consulta prévia e sem seu consentimento, levando as experiências ao fracasso (Banducci Junior, Urquiza, 2012).
Ao analisar estudos sobre turismo indígena no mundo, Pereiro (2015) aponta a existência de duas linhas consolidadas de análise. A primeira delas tem por hipótese fundante a noção do turismo como empreendimento imposto a partir de centros capitalistas a países menos desenvolvidos e que tende a promover experiências de caráter colonialista em relação às comunidades locais. Tal vertente se aplica na análise das experiências anteriormente mencionadas, na medida em que o modelo de turismo adotado junto aos povos Terena e Kaiowá desconsiderou suas demandas, expectativas e seu direito a participação nos processos decisórios (Yang, Wall, 2008).
Ao enfatizar a assimetria das relações sociais no campo do turismo, essa perspectiva analítica deixa, entretanto, de considerar a agência das sociedades receptoras. Tal como assevera Pereiro, com base em Stronza (apud Pereiro, 2015), é preciso estar atento ao papel reflexivo e ativo das sociedades indígenas, cujos sujeitos não são meramente agentes passivos no cenário do turismo. Tanto é que, mesmo na Reserva Indígena de Dourados, houve em momento posterior um movimento interno para retomar o turismo, fundado em outros parâmetros de negociação e em outras bases de controle, tendo como suporte o Núcleo de Atividades Múltiplas (NAM), uma unidade cultural gerida pela própria comunidade (Banducci Junior, Urquiza, 2012).
Essa experiência corrobora uma outra tendência analítica, destacada por Pereiro (2015) e Maldonado (2005), que aponta para o protagonismo indígena na prática turística em seus territórios. Maldonado (2005) demonstra que de 170 iniciativas de turismo indígena na América Latina, em 80% dos casos há papel ativo das comunidades, com projetos turísticos desenvolvidos sem ajuda inicial externa, seja de ONGs ou de setores de governos. Como reitera Pereiro (2015), tais evidências confirmam o protagonismo de grupos indígenas na sua “aposta por desenvolver estrategicamente o turismo como uma forma de resistência e afirmação da sua identidade cultural” (p. 10).
Nesse sentido, é importante mencionar a Instrução Normativa FUNAI n. 003/2015, de 11 de junho de 2015, que fomentou um salto quantitativo e qualitativo no turismo envolvendo povos indígenas, apesar da imprecisão relativa à definição de modalidades turísticas como etnoturismo, básica para a orientação desses povos (Lustosa, 2018). Mais recentemente, a Instrução Normativa Conjunta - INC FUNAI/ICMBIO de 2025, parece apontar para a saída de uma posição passiva no turismo, exclusivamente de oferta de produtos da arte indígena fora de seus territórios, para um papel mais ativo de proposição de serviços dentro das terras indígenas.
Desse modo, embora existam experiências malsucedidas de turismo indígena, há diversas iniciativas exitosas e que resultam em benefícios para as sociedades que as promovem (Weaver, 2015), redefinindo os espaços para o turismo na região em diversas esferas.
As experiências Terena e Kadiwéu de turismo no Pantanal
O turismo em terras indígenas constitui, como apontado, tema de grande complexidade, sobretudo “pelo impacto gerado por uma atividade [...] crescentemente internacionalizada em comunidades localizadas em regiões remotas, dedicadas às atividades tradicionais de sobrevivência” (Maldonado, 2009, p. 25). Atentos a essas premissas e advertências, analisaremos a seguir a emergência de duas experiências de turismo em aldeias indígenas no Pantanal de Mato Grosso do Sul.
Povo indígena Kadiwéu
Falantes da família linguística Guaikurú, os Kadiwéu são conhecidos como indígenas cavaleiros pela tradicional destreza com montarias, tendo dominado vasto território do sul do estado, subjugando alguns povos, comercializando-os e se casando com outros, como é o caso dos indígenas Terena (Instituto Socioambiental, 2014; Silva, 2015). Os Kadiwéu vivem na Terra Indígena Kadiwéu, em território que compreende aproximadamente 500 mil hectares, localizado no município de Porto Murtinho, contando em torno de 1.700 indivíduos (IBGE, 2023) moradores de seis aldeias: Alves de Barros, Campina, Tomázia, Barro Preto, Córrego do Ouro e São João (Figura 2).
Os Kadiwéu se autodenominam Ejiwajegi, que significa gente da palmeira eyuguá, conhecida em português como carandá (Copernicia cerifera), abundante em seu território (Silva, 2015). Atualmente vivem da caça, da coleta, da agricultura e de um sistema de criação de gado em parceria com fazendeiros da região. Da mesma forma, “a produção de cerâmica, [...], também possibilita ganhos econômicos, uma vez que está voltada para a venda a turistas” (Silva, 2015, p. 285).
A aldeia Alves de Barros possui aproximadamente 300 famílias (SED, 2021) dispostas em moradias de alvenaria e madeira, assentadas em lotes de grandes dimensões, que abrigam famílias extensas. Em seus terrenos as famílias cultivam roças de mandioca, abóbora e árvores frutíferas como manga, caju, laranja, goiaba e outras, além de possuir animais de criação, como galinhas, porcos, patos, carneiros, vacas, cavalos e animais domésticos, como cachorros e gatos. Segundo um interlocutor indígena, “[...] no meu quintal tem de tudo para comer, aqui mora todo mundo da minha família”.
No centro da aldeia está localizada a Escola Estadual Indígena Antônio Alves, uma quadra de esportes; um posto do Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais - PrevFogo e o Centro Cultural, em uma área coberta, com arquibancadas, própria para realização de reuniões, feiras e apresentações culturais. Resultante do projeto “Pesquisa sobre cerâmica e o fomento da comunidade e cultura Kadiwéu no Mato Grosso do Sul”, parceria da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, da Universidade de Manitoba (Canadá) e da Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia do Estado de Mato Grosso do Sul - Fundect, o Centro Cultural atende iniciativas da comunidade, seja para a realização de eventos internos ou para o receptivo e apresentações a visitantes.
O mesmo projeto, em sua segunda etapa, contribuiu para a construção, da Casa das Mulheres Artistas Kadiwéu, um espaço para exposição e comercialização das cerâmicas produzidas pelas mulheres artistas da aldeia, além de local para realização de oficinas e outras atividades coletivas ligadas à arte e ao fazer feminino na aldeia. Uma liderança feminina assim definiu o local: “a Casa é nossa, é minha, é sua, é de toda mulher Kadiwéu” (Líder ceramista), enquanto outra interlocutora afirmou orgulhosa: “agora nós temos um lugar para mostrar e vender nossas cerâmicas” (ceramista). Os espaços construídos visam potencializar a produção cerâmica, entre outras artes Kadiwéu, e incrementar a visitação à aldeia, promovendo o turismo e a economia local, ao mesmo tempo em que contribuem para consolidar o protagonismo da mulher artista na comunidade. Para Sacchi (2003), “As demandas reivindicadas pelas mulheres indígenas demonstram que elas têm unido suas vozes ao movimento indígena nacional, por um lado, mas também desenvolvendo um discurso e uma prática política a partir de uma perspectiva de gênero” (Sacchi, 2003, p. ).
O trajeto para chegar à aldeia, partindo de Bodoquena, distante 40 Km, constitui uma primeira dificuldade para a operacionalização do turismo na área. A estrada não é pavimentada e a descida da serra até a aldeia é bastante íngreme e acidentada, devendo ser percorrida em veículo com tração 4 X 4 e com motorista experiente, o que dificulta o acesso de visitantes esporádicos. A despeito desse complicador, o trajeto é dotado de rara beleza cênica, com mirantes para apreciar do altiplano a exuberância da paisagem pantaneira. Os meses de junho, julho e agosto, época da florada dos ipês, fazem da chegada na aldeia um espetáculo colorido de amarelo e cor de rosa.
Durante o trabalho de campo o grupo participou de diferentes atividades concebidas para serem ofertadas aos turistas como vivências de um dia ou pernoite na aldeia. São atividades distintas e atraentes que possibilitam a elaboração de roteiros diversos com atrativos culturais, ambientais e de aventura. A primeira visita foi ao quintal de uma ceramista, local em que confecciona sua arte cerâmica. A experiência foi enriquecedora, pois permitiu ao grupo apreciar todo o processo produtivo da cerâmica, considerando haver peças em diferentes estágios de fabricação, desde o barro bruto e amassado até a queima de vasos em fogueiras acesas para esse fim. Essa, certamente, foi a experiência de maior impacto para o grupo, pois, enquanto moldava os objetos cerâmicos, a artista relatava as etapas da confecção e o significado dos grafismos impressos às peças. Ao final, ainda foi possível assistir ao processo de pigmentação de um vaso com o uso de diferentes argilas e de pau santo, vegetal do qual extraem a resina que fornece um verniz de cor preta característico da decoração das cerâmicas Kadiwéu (Duran, 2015), como mostrado na Figura 3.
Posteriormente, o grupo participou de um roteiro na mata que circunda a aldeia para a coleta de barro verde. Trata-se de um dos tipos de argila utilizada na pintura das peças cerâmica, empregado in natura na pigmentação dos artefatos. A busca pelo barro não era de resultado garantido, o que tornou a expedição uma aventura pitoresca. O material somente foi descoberto com o auxílio de um indígena mais velho que indicou o local possível de encontrá-lo, nas margens de um riacho. Após escavação, o barro surgiu em coloração característica, verde acinzentado, contrastando com a argila marrom do barranco, e pode ser depositado em pequenos recipientes, entregues mais tarde às ceramistas.
Para além dos atrativos principais, foram visitadas algumas residências, para interlocução com as famílias e aquisição de artefatos, tais como colares, pulseiras, arcos e flechas, entre outros. Foi grande a receptividade dos moradores, porém esta não deve ser uma condição constante, considerando que o incremento no fluxo do turismo na aldeia pode levar ao estresse da comunidade (Yea, 2002). Cabe ao grupo buscar o equilíbrio entre as demandas da atividade e a disposição dos moradores em atendê-las.
O local para abrigar os turistas que queiram pernoitar na aldeia ainda não está organizado. Tudo indica que será adaptado para esse fim o prédio da antiga escola da aldeia, que fica defronte ao Centro Cultural. Trata-se de outro projeto que os indígenas estão empenhados em concluir a fim de efetivar a prática turística em seu território.
A experiência permitiu imersão, ainda que breve, instrutiva e afetiva ao contexto da produção cerâmica Kadiwéu e a alguns aspectos do cotidiano e da cultura da aldeia. Ao final das atividades, foram adquiridos objetos cerâmicos e adornos como lembrança pessoal ou para presentear amigos e parentes. Esse tipo de consumo fez emergir outro ponto de inflexão relativo ao comércio cerâmico. Trata-se do transporte dos artefatos, sobretudo os vasos de maior porte, que são bastante frágeis e que, após adquiridos, devem resistir a uma viagem acidentada. Na ocasião, as ceramistas não dispunham de embalagens apropriadas para proteger as peças, utilizando-se de materiais alternativos, tais como plástico, tecido, papelão, que avolumam os objetos, não sendo adequados ao fim a que são destinados.
São pequenos desafios que se antepõem ao projeto de visitação, que, sob o protagonismo das mulheres, que envolve a coletividade no planejamento e na gestão do turismo (UNWTO, 2019), vai se delineando com a implantação gradativa de infraestrutura e adesão de membros da comunidade. Tal condição e postura dos indígenas em relação ao etnoturismo na aldeia se aproxima do que Honorato (2020) tem denominado de etnodesenvolvimento, que compreende a observância de princípios básicos para orientar a implantação de atividades exógenas em territórios indígenas segundo modelo, ritmo e negociações próprias ao grupo que as aplicam e desenvolvem. Em outros termos, significa que a etnia mantém o controle sobre sua organização social, sua cultura e recursos naturais, tendo liberdade para negociar tanto interna quanto externamente em relação às atividades que promove (Stavenhagen, 1997).
Povo indígena Terena
O povo indígena falante da língua Aruák, com aproximadamente 30 mil indivíduos, é uma das maiores populações indígenas do país (Ladeira, Azanha, 2014), e estão distribuídos em nove municípios do Mato Grosso do Sul. Os Terena são um povo agricultor e cultivam tradicionalmente a mandioca, o milho, o feijão verde, entre outros produtos (Comissão Pró-Índio, 1984). Da mesma forma, praticam a caça, a pesca e a criação de gado, costume herdado do contato com os Mbayá-Guaicuru no século XVII (Ladeira, Azanha, 2014) e mantido até os dias atuais.
No interior das Reservas, os Terena recorrem à mecanização para o plantio. Como as áreas de cultivo são restritas, devido à dimensão das terras em relação ao número de famílias que delas dependem, os grupos familiares têm dificuldades para auferir a renda mínima para se manter no território, o que obriga a migração forçada para áreas urbanas e a busca por atividades alternativas, tais como o corte de cana nas usinas de álcool e açúcar, o trabalho temporário nas fazendas e a colheita de frutas em outros estados, que gerem renda. Nesse contexto, o turismo aparece como alternativa atraente para a economia das aldeias e fonte de renda para as famílias aldeadas.
A Retomada Cristalina, onde ocorreu a visita de campo, compreende a área do que fora a fazenda Cristalina, propriedade que por anos ocupou a antiga terra do povo Terena. De acordo com o antropólogo indígena Gilson Tiago, a palavra “retomada” compreende, “na fala da comunidade indígena, [a] ação de retomar a terra tradicional, a qual estava sendo ocupada por fazendeiros” (Tiago, 2019. p. 42). Entre os anos de 2013 e 2015, os indígenas organizaram movimentos de retomada do território tradicional, ocupado por fazendas no entorno da TI Taunay-Ipegue (Figura 4), em iniciativas guerreiras que envolveram a comunidade como um todo (Tiago, 2019). Em 2015, foi a vez da Retomada Cristalina (Pokoo), que ficou sob os cuidados do líder que até hoje vive com sua família no local (Tiago, 2019). Na Retomada Cristalina produzem alimentos em pequenas roças e pomares, criam porcos, patos e galinhas, que utilizam para consumo próprio ou para venda na aldeia ou cidades próximas, e também criam gado de propriedade de diferentes famílias da Terra Indígena.
A experiência vivida na TI Taunay-Ipegue foi distinta da anterior, na TI Kadiwéu. Dentre as características do povo Terena, é possível destacar sua tradicional aptidão para a diplomacia política, que se exacerba no trato cotidiano aberto à sociabilidade. Os Terena são um povo que guarda uma história de longa e estreita interação com a sociedade não-indígena (Penincha, 2014). Tal condição favorece as relações com a alteridade, seja o outro político, seja o purutuye, como são chamados os brancos, incluindo o turista em visita à aldeia. Com expressões alegres, gestos contidos e fala suave, os Terena, de modo geral, cativam seus interlocutores quando nas rodas de conversa ou quando narram suas histórias e tratam de sua cultura.
A visita à Retomada Cristalina deveu-se ao convite da liderança para conhecermos o local e vivenciarmos um experimento de visitação apresentado como de potencial turístico. A presença de visitantes não é estranha na Retomada Cristalina, sendo comprovada pelo livro de registro contendo mensagens e impressões de pessoas de diferentes partes do país e do mundo que ali estiveram. O casal terena responsável pela área recebe visitantes esporádicos para visitas de um dia na aldeia, porém, dispõem de aposento modesto na casa onde residem, a antiga sede da fazenda, para quem deseja pernoitar.
Como afirma Tiago (2019, p. 81), “Com as retomadas, nossa população busca viver onde nossos ancestrais construíram uma história, é o lugar que encontramos memórias de nossos antepassados, e podemos viver de acordo com nossa tradição cultural”. São justamente essas memórias e tradições que os forasteiros têm buscado em suas visitas à área, caracterizando-as como o diferencial de oferta do turismo na Cristalina. As pessoas têm ido à Retomada Cristalina dispostas a vivenciar o modo de vida de uma família terena. Elas compartilham refeições, conversam com os moradores, fazem trilhas, cavalgadas e tomam conhecimento da história do movimento de retomadas e da resistência indígena em torno de seus territórios e culturas. Para além disso, podem adquirir pequenos artesanatos e adornos como brincos, colares, pulseiras produzidas pela anfitriã e por outras mulheres da Terra Indígena.
Essa prática incipiente despertou o interesse em estruturar o turismo como uma atividade regular, com oferta de transporte, hospedagem, refeições, passeios, apresentações artísticas, comércio de suvenires, entre outros produtos. O primeiro e talvez mais destacado atrativo de que dispõem é a própria condição do local, ou seja, o fato de tratar-se de uma retomada de território por meio da organização indígena. A história do movimento pela reconquista da terra é tema de interesse comum dos visitantes, sendo narrado com orgulho e riqueza de detalhes pelo líder da Retomada Cristalina, como mostra a Figura 5, onde ele aparece desenhando no solo a estratégia de conquista das retomadas.
Para além da história, o visitante pode usufruir do contato cotidiano com os Terena; dispor de refeições fartas e saborosas, com receitas próprias da cozinha indígena; realizar cavalgadas; e desfrutar de um cenário natural ímpar, com pastagens verdejantes, matas abundantes, cursos d’água e muitas aves típicas da paisagem pantaneira. Consta das atividades a serem organizadas para futura oferta aos turistas: trilhas a diferentes locais, focagem noturna de animais, avistamento de aves e coleta de frutas de temporada, como a guavira (Campomanesia spp) e o pequi (Caryocar brasiliense), comuns na região.
O turismo é, como tal, uma atividade ainda por ser estruturada no local. A visita à Retomada Cristalina demonstrou, entretanto, que se trata de um projeto que perfaz o horizonte de demandas e o repertório de iniciativas da comunidade por integrar-se ao circuito do turismo da região. Assim como na TI Kadiwéu, trata-se de movimento empreendido pelos próprios indígenas, que vêm se mobilizando para tornar o turismo em suas terras uma atividade efetiva, sob seu domínio e gestão. O caminho até então trilhado, em ambas as situações aqui apreciadas, aponta para a consolidação gradativa, porém determinada, de experiências nos moldes de turismo ecológico e de etnoturismo, em que prevalece a autonomia dos povos receptores (Honorato, 2020), o respeito ao modo de viver de cada etnia, seus costumes, hábitos e culturas. Conhecedores das necessidades de sua gente e das potencialidades locais, os indígenas Terena e Kadiwéu demonstram estar atentos à dinâmica da vida nas aldeias e aos limites de interação hóspedes-anfitriões, de modo a controlar os impactos da atividade nas comunidades, tal como prescreve essa modalidade de turismo (Smith, 1989, Honorato, 2020).
Considerações Finais
Ao analisar a relação dos povos Terena e Kadiwéu, do Pantanal de Mato Grosso do Sul, com o turismo, pode-se observar que essas etnias têm convivido com a atividade turística em seu território, sobretudo a partir do trabalho das mulheres ceramistas, cuja arte é muito apreciada e difundida pelos visitantes. A inserção e permanência dos indígenas nesse setor tem acontecido sem o seu protagonismo e autodeterminação. A partir da experiência vivida nas aldeias, verificou-se que tal condição tem estimulado iniciativas que visam atrair o turista para o interior das aldeias, de tal forma a ampliar o controle da gestão por parte dos indígenas.
A discussão levantada a partir do referencial teórico proposto, que envolveu estudos da geografia e da antropologia, em uma perspectiva do turismo, turismo étnico, comunidades indígenas do Pantanal de Mato Grosso do Sul, dentre outros, em sintonia com a metodologia e o trabalho de campo, possibilitou um diálogo dos teóricos em consonância com a experiência vivida dos autores. Tal como aponta Cruz (2008), Duran (2015), Graburn (1976), Grimwood et al. (2024), Grünewald (2006), Hume (2013), Lama e Sarkhel (2022) e Lustosa (2018), o turismo nas áreas pesquisadas tende a promover a circulação de pessoas e a geração de emprego e renda nas comunidades envolvidas, além da participação efetiva de indígenas na engrenagem econômica, social e decisória na produção turística local, orientando, assim, ao objetivo do artigo, de analisar duas iniciativas de implementação de experiências de turismo no interior das Terras Indígenas Kadiwéu e da Terra Indígena Taunay-Ipegue da etnia Terena.
Para além de mostrar os interesses e a mobilização das comunidades em torno da implementação do turismo em suas terras, foi possível identificar o lugar preponderante das mulheres nesse empreendimento. O fato de estarem inseridas, ainda que de forma tangencial, no mercado turístico regional, mediante o comércio de arte e artesanatos por elas fabricados, as mulheres demonstraram dispor de percepção mais aguçada acerca da dinâmica e da dimensão socioeconômica do turismo e, como tal, dos possíveis benefícios que podem resultar de sua prática quando sob a organização e controle do próprio grupo indígena. É nesse sentido, e o fato de estarem intensificando sua organização política e de gênero (Pimentel; Todesco, 2024; Conceição, 2018; Sacchi, 2003), em âmbito local e nacional, propicia a elas condições conjunturais e meios técnicos de se colocarem com maior protagonismo nesse processo.
A experiência da “vivência observada” - para a qual fomos acionados por membros das comunidades pesquisadas, e cujo propósito experimental e avaliativo em torno de uma prática de visitação correspondeu, desde o princípio, ao interesse dos indígenas Terena e Kadiwéu de se verem mais bem instrumentalizados para o turismo a partir dessa inciativa - nos colocou na condição ambígua de turistas e avaliadores em visitações programadas às aldeias. Ao mesmo tempo, mostrou-se uma ocasião privilegiada de diálogo e conhecimento de um modelo autônomo e em fase de experimentação de empreendimento etnoturístico.
Tomamos contato com atividades focadas no ambiente, na valorização e respeito à natureza local e que exaltam a cultura e práticas tradicionais, além do contato com o cotidiano das aldeias. Ainda há o que considerar no turismo a ser implantado nas aldeias visitadas, como o impacto na vida da comunidade, o destino apropriado dos resíduos orgânicos e inorgânicos, a melhoria da infraestrutura para a recepção de visitantes, formação de agentes locais para trabalhar na atividade, entre outros.
O convite para visitar as aldeias, entretanto, por si só atesta o grau de interesse e compromisso das etnias em compreender e dominar a dinâmica da atividade e seu empenho em implementar práticas sustentáveis que resultem em benefícios sociais, ambientais e econômicos para a comunidade. Fica evidente que, para os indígenas Kadiwéu e Terena, ampliar a participação na atividade turística, para além de um desejo de inserção na cadeia de serviços, trata-se de estabelecer novos meios de diálogo e interação com a sociedade não indígena e de consolidar canais de resistência perante a sociedade envolvente e ao mercado do turismo que se beneficia da presença e do território indígena. Tal posição se torna tanto mais relevante, quando se considera tratar-se de iniciativas e movimentos que partem sobretudo de mulheres indígenas, tanto Kadiwéu quanto Terena, em articulações importantes no interior das comunidades pantaneiras e, para além delas, com a sociedade em geral.
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É importante lembrar que, em termos jurídico-admirativo, a Retomada Cristalina possui o Relatório de Identificação de Delimitação de Território - RCID, porém se encontra em condição de litígio, e esse é um aspecto importante a ser considerado em experiências turísticas em área indígena em processo oficial de regularização.
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Declaração de disponibilidade de dados:
Não se aplica
Não se aplica






Fonte:
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Fonte: Cristofoli (2025).
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