Resumo
Este artigo apresenta os resultados de uma pesquisa geográfica, realizada entre 2017 e 2022, sobre as dinâmicas territoriais e culturais na região das Guianas. A partir de quatro expedições de campo, foram analisadas as interações transfronteiriças entre Brasil, Guiana Francesa (França), República da Guiana, Suriname e Venezuela, com enfoque nas mobilidades e nas territorialidades emergentes. Os dados empíricos foram coletados por meio de observação direta, entrevistas com moradores locais e análise das práticas cotidianas, permitindo identificar padrões de circulação, aspectos culturais dos povos e adaptação socioeconômica nas cidades fronteiriças. Teoricamente, a pesquisa se fundamenta nas abordagens da geografia cultural e da geopolítica regional, destacando como as interações transfronteiriças remodelam os espaços e as identidades territoriais. A pesquisa sugere que o campo, mais do que um instrumento de coleta de dados, é um espaço ativo de construção de conhecimento, no qual as relações sociais e culturais configuram novas territorialidades.
Palavras-chave:
Fronteiras; territorialidades; Região das Guianas; geopolítica; mobilidade
Abstract
This article presents the results of a geographical study on the territorial and cultural dynamics in the Guiana region, conducted between 2017 and 2022. Based on four field expeditions, cross-border interactions between Brazil, French Guiana (France), Guyana, Suriname, and Venezuela were analyzed, focusing on emerging mobilities and territorialities. Empirical data were collected through direct observation, interviews with local residents, and analysis of everyday practices, enabling the identification of circulation patterns, cultural aspects of the peoples, and socioeconomic adaptation in border cities. Theoretically, the research is grounded in cultural geography and regional geopolitics, highlighting how cross-border interactions reshape spaces and territorial identities. The study suggests that the field, more than just a data collection tool, is an active space for knowledge construction, where social and cultural relations shape new territorialities.
Keywords:
Borders; territorialities; Guiana Region; geopolitics; mobility
Résumé
Cet article présente les résultats d'une recherche géographique sur les dynamiques territoriales et culturelles dans la région des Guyanes, menée entre 2017 et 2022. À partir de quatre expéditions de terrain, les interactions transfrontalières entre le Brésil, la Guyane Française (France), la République de la Guyane, le Suriname et le Venezuela ont été analysées, en mettant l'accent sur les mobilités et les territorialités émergentes. Les données empiriques ont été collectées par observation directe, entretiens avec les habitants locaux et analyse des pratiques quotidiennes, permettant d'identifier les modèles de circulation, les aspects culturels des peuples et l'adaptation socio-économique dans les villes frontalières. Théoriquement, la recherche s'appuie sur les approches de la géographie culturelle et de la géopolitique régionale, soulignant comment les interactions transfrontalières redéfinissent les espaces et les identités territoriales. L'étude suggère que le terrain, plus qu'un simple outil de collecte de données, est un espace actif de construction des connaissances, où les relations sociales et culturelles façonnent de nouvelles territorialités.
Mots-clés:
Frontières; territorialités; Région des Guyanes; géopolitique; mobilité
Introdução
A região das Guianas, localizada no extremo norte da América do Sul, constitui um território estratégico para estudos geográficos, em razão de sua diversidade cultural, econômica e política. Abrangendo Brasil, Guiana Francesa (França), República da Guiana, Suriname e Venezuela, essa área representa um cenário de intensas interações transfronteiriças onde as fronteiras não se limitam a divisões territoriais fixas, mas operam como zonas dinâmicas de circulação, trocas e vivências híbridas (Silva, 2021; Silva; Miceli, 2024). Nesse contexto, a análise das territorialidades emergentes e das mobilidades transfronteiriças torna-se fundamental para compreender as formas contemporâneas de ocupação e organização espacial.
Esta pesquisa se fundamenta em aportes teóricos que abordam as dinâmicas territoriais e as mobilidades nas regiões de fronteira. Haesbaert (2004) - ao analisar diversos autores sobre a categoria território - fortalece a discussão sobre a multiterritorialidade, destacando como os sujeitos podem pertencer simultaneamente a múltiplos territórios, o que é particularmente relevante em contextos transfronteiriços. Massey (2008), por seu turno, contribui com a ideia de que o espaço é uma construção social em constante transformação, influenciada por relações de poder e fluxos diversos. Já Claval (1999) enfatiza a importância da geografia cultural na compreensão das identidades e das práticas espaciais, enquanto Appadurai (2004) propõe a análise das paisagens culturais globais e das mobilidades que moldam as interações sociais contemporâneas.
Por fim, outra base de linha discursiva e analítica deste texto se fundamenta nas argumentações de Newman (2006), que destaca a fronteira como um espaço dinâmico de negociação e reconfiguração, considerando que as interações transfronteiriças são permeadas por relações de poder e resistência. Essas abordagens teóricas oferecem ferramentas analíticas para compreender as complexas interações e territorialidades emergentes na região das Guianas.
A pesquisa teve origem a partir da necessidade de documentar e analisar as interações transfronteiriças na região das Guianas (Figura 1), um espaço historicamente marcado por disputas territoriais, fluxos migratórios intensos e conflitos socioeconômicos. Entre 2017 e 2022, foram realizadas quatro expedições de campo, com o objetivo de mapear as dinâmicas espaciais nas cidades fronteiriças, documentar as práticas cotidianas das populações locais e identificar as territorialidades emergentes resultantes dos fluxos transfronteiriços.
Ao longo das expedições, a observação direta, as entrevistas com moradores locais e a análise das práticas socioespaciais foram procedimentos centrais para captar as nuances e as contradições das dinâmicas territoriais. Nesse sentido, o trabalho de campo não se limita à coleta de dados, mas constitui um espaço ativo de construção de conhecimento, no qual o pesquisador se envolve criticamente com o território e suas múltiplas camadas de significados (Abreu de Azevedo; Ribeiro, 2024).
A presente pesquisa busca evidenciar como as interações transfronteiriças na região das Guianas contribuem para a reconfiguração das territorialidades amazônicas, inserindo-se em um contexto geopolítico marcado por fluxos e resistências culturais. Essa abordagem permite questionar as fronteiras não apenas como linhas fixas de delimitação estatal, mas como zonas vivas de interação e construção de identidades territoriais.
Metodologia
A presente pesquisa adota uma abordagem qualitativa e interpretativa, fundamentada em uma trajetória extensa e plural de quatro expedições de campo realizadas entre 2017 e 2022. Ao longo de sete anos, percorremos territórios que constituem a região das Guianas, mobilizando um conjunto de métodos etnográficos, geográficos e documentais para compreender as dinâmicas territoriais, culturais e políticas que caracterizam este complexo espaço regional.
A coleta de dados se deu por meio de observação direta participante, entrevistas abertas e informais com moradores locais, lideranças comunitárias, representantes de organizações sociais e agentes institucionais, além de análise documental, registro audiovisual e produção fotográfica das paisagens, das práticas cotidianas e dos elementos simbólicos dos espaços visitados. O registro audiovisual foi conduzido por um profissional especializado, ampliando o rigor e a qualidade das imagens captadas.
A análise dos dados foi estruturada com base na triangulação das informações obtidas nas diferentes expedições, buscando padrões recorrentes, contrastes significativos e singularidades contextuais. Tal estratégia analítica permitiu identificar as formas de apropriação do espaço, as práticas de mobilidade e as estratégias de resistência cultural das populações locais, bem como as relações de poder, as territorialidades institucionais e as dinâmicas econômicas formais e informais que atravessam a região. Mais do que um procedimento técnico, a metodologia se configurou como uma experiência vivencial e sensível, marcada pela imersão nos lugares, pela construção de vínculos e pela escuta atenta das múltiplas vozes que compõem o mosaico humano das Guianas.
As quatro expedições (2017-2022)
De maio a julho de 2017, realizamos a mais extensa e complexa das incursões, percorrendo, por via terrestre e fluvial, os territórios do Amapá (Brasil), da Guiana Francesa, do Suriname e da República da Guiana. O objetivo foi cartografar as práticas de mobilidade transfronteiriça, as formas de apropriação territorial nas cidades gêmeas e as interações entre populações indígenas, migrantes e comerciantes locais. A expedição implicou o trânsito por mais de 30 cidades, a travessia de rios e estradas de variadas condições, além da realização de entrevistas e registros audiovisuais de práticas e paisagens urbanas e rurais.
Com foco na República da Guiana e na fronteira Brasil-Venezuela, a segunda incursão ocorreu entre janeiro e março de 2020, no contexto da intensificação da crise migratória venezuelana. O trabalho de campo se concentrou na análise das novas territorialidades emergentes, marcadas por fluxos migratórios, ocupação de praças, abrigos temporários e pontos de passagem informal, especialmente em Pacaraima (Brasil) e Santa Elena de Uairén (Venezuela). Foram realizadas entrevistas com migrantes, agentes humanitários e representantes institucionais, bem como uma extensa documentação audiovisual.
Em 2021, já no contexto da pandemia de COVID-19 e com as devidas precauções sanitárias, realizamos uma terceira imersão. Esta missão se concentrou na Guiana Brasileira (Amapá, Roraima, parte do Pará e Amazonas), com ênfase na dimensão cultural e na resistência das comunidades tradicionais. Exploramos manifestações culturais como o Boi Bumbá em Parintins, o Parixara entre os povos indígenas de Roraima e o Marambiré na comunidade quilombola do Pacoval, em Alenquer. Esta etapa também permitiu aprofundar a compreensão sobre os deslocamentos internos, as práticas culturais e a relação das populações locais com seus territórios.
A última imersão teve como objetivo suprir lacunas da pesquisa, especialmente sobre a Venezuela, cuja participação até então se limitava a referências secundárias. Em junho de 2022 realizamos um percurso terrestre da fronteira Brasil-Venezuela até Ciudad Guayana, passando por Santa Elena de Uairén, El Callao e outros importantes pontos da rota Troncal 10. A investigação se concentrou na exploração econômica e cultural do garimpo de ouro, nas tensões territoriais e nas estratégias de sobrevivência das populações locais. A experiência direta em El Callao e em comunidades indígenas como Paraitepuy, no Parque Nacional Canaima, possibilitou uma leitura mais profunda das dinâmicas regionais.
Conexões Analíticas e insuficiências metodológicas
O cruzamento dos dados coletados nas quatro expedições revelou padrões de mobilidade transfronteiriça recorrentes, mas também destacou a complexidade e a singularidade das territorialidades que configuram a região das Guianas. As práticas cotidianas de circulação e as estratégias de resistência cultural e as redes econômicas - formais e informais - evidenciam a existência de “territórios paralelos” em que as fronteiras estatais são constantemente ressignificadas pelas ações das populações locais.
Entre os exemplos mais expressivos, estão a intensa circulação entre Oiapoque e Saint-Georges de l’Oyapock, o fluxo contínuo de migrantes no eixo Pacaraima/Santa Elena e a dinâmica mineradora em El Callao, Lethem e outras localidades. Tais territorialidades expressam processos históricos de longa duração, mas também indicam respostas contemporâneas a crises políticas, econômicas e ambientais.
Não obstante os avanços analíticos e a amplitude do material coletado, a pesquisa enfrentou limitações metodológicas importantes. A ausência de entrevistas com representantes governamentais impediu uma compreensão mais detalhada das políticas públicas que incidem sobre a mobilidade e o controle territorial. Além disso, a dificuldade de acesso a áreas controladas por organizações criminosas, especialmente em zonas de garimpo na Venezuela e na República da Guiana, limitou o alcance da análise sobre as práticas econômicas ilegais.
A pandemia de COVID-19 constituiu, ainda, um obstáculo significativo, impondo restrições à circulação e obrigando a adaptações metodológicas, como o redirecionamento de rotas, a ampliação de protocolos sanitários e a intensificação do planejamento logístico. Por fim, destacamos que a metodologia desta pesquisa transcendeu o caráter instrumental, constituindo-se como uma prática ética e política de aproximação, respeito e aprendizado com as populações que habitam as fronteiras da região das Guianas.
A primeira expedição de campo
Ao iniciarmos nossa jornada no Amapá, a familiaridade com o percurso foi rapidamente desafiada pelo olhar crítico do geógrafo que, segundo Alentejano e Rocha-Leão (2006), é moldado pela capacidade de transformar cada detalhe do espaço em uma construção analítica. A travessia por terra e rios, passando pela Guiana Francesa, Suriname e República da Guiana, revelou não apenas as dinâmicas territoriais dessas áreas, mas ainda o modo como os fluxos de pessoas, mercadorias e informações reconfiguram a geopolítica regional.
Na cidade de Oiapoque, encontramos uma espacialidade marcada pela sobreposição de esferas de controle que ilustram a tensão entre as políticas de soberania nacional e as práticas cotidianas de transgressão fronteiriça. A ponte binacional, que conecta Oiapoque a Saint-Georges de l’Oyapock (Figuras 1 e 2), serve como um marco físico de diferenciação entre as dinâmicas econômicas do lado brasileiro e o rigor administrativo do lado francês.
Ilustração das cidades fronteiriças Saint-Georges de l’Oyapock e Oiapoque. A imagem destacada à esquerda é de um indígena representando a presença marcante dessa população nestas cidades fronteiriças. À direita, a ponte binacional sobre o Rio Oiapoque. A numeração a seguir ressalta alguns lugares, características e elementos logísticos marcantes desta zona de fronteira: 1. Ponte binacional: é uma das estruturas fundamentais para agilizar a circulação internacional dos países na região das Guianas; 2, 4 e 6. Comunidade indígena: elas estão nos dois lados da fronteira, cuja arquitetura e modo de vida marcam aquela paisagem; 3. Companhia militar de Clevelândia do Norte: é um posto avançado do Exército Brasileiro e, em sua área, ainda há a presença de um bairro da cidade de Oiapoque. A companhia militar representa a presença e a importância da segurança nacional na fronteira; 5. Barco de pesca: utilizado para variados tipos de pesca, seja no Rio Oiapoque ou na zona marítima. Esta é uma das importantes atividades econômicas dessa fronteira; 7. Comércio chinês: são inúmeros por toda a região das Guianas e refletem a influência da diáspora chinesa, trazendo uma diversidade de produtos e serviços que contribuem significativamente para a economia local; 8. O monumento “Aqui Começa o Brasil”: marca, na cidade de Oiapoque, o ponto extremo norte do território brasileiro. Fonte: Ilustração, Carliendell Magalhães, 2024.
Em Caiena, o campo foi enriquecido pela análise das infraestruturas espaciais e tecnológicas, como a base espacial europeia de Kourou. O controle tecnológico desse espaço, ainda que distante dos centros europeus de decisão, revela a lógica da geopolítica contemporânea, na qual o território da Guiana Francesa desempenha um papel estratégico nas disputas de poder global. Aqui, a noção de territorialidade se expande para incluir não apenas o controle do espaço físico, mas também do espaço aéreo e cibernético (Figura 3).
Ilustração das cidades fronteiriças Saint-Laurent du Maroni e Albina. A imagem destacada à esquerda é de dois bushinengués (quilombola) e, à direita, uma piroque (catraia). A numeração a seguir ressalta alguns lugares, características e elementos logísticos marcantes desta zona de fronteira: 1. Bairro Charbonière: tipicamente bushinengué, é um exemplo da presença territorial deste povo em Saint-Laurent du Maroni; 2. Igreja: Marco arquitetônico e paisagístico no centro de Saint-Laurent du Maroni; 3. Camp de la Transportation (Campo de deportação): antiga penitenciária da cidade, que se tornou um monumento histórico; 4. Pirrogues: Esses modelos de embarcações tradicionais pertencentes à cultura bushinengué marcam a paisagem dessa fronteira e são essenciais para o transporte constante no Rio Maroni; 5. Comércio chinês: são inúmeros por toda a região das Guianas e refletem a influência da diáspora chinesa, trazendo uma diversidade de produtos e serviços que contribuem significativamente para a economia local; O mesmo texto da figura anterior para os itens 5 e 6; 7 e 10. Transporte: veículos que realizam o transporte de pessoas nas cidades fronteiriças dos dois países; 8. Equipamentos e suprimentos: são transportados nas pirogues para vilas e cidades no curso do Rio Maroni; 9. Venda e compra de ouro: a presença de garimpos e garimpeiros no curso do Rio Maroni fez surgir vários pontos de compra e venda de ouro, a exemplo deste em Albina. Fonte: Ilustração, Carliendell Magalhães, 2024.
Ao nos deslocarmos para Saint-Laurent du Maroni, encontramos uma espacialidade em que a memória colonial e a resistência cultural se entrelaçam. O Camp de la Transportation, símbolo da dominação francesa, contrasta com as práticas culturais dos bushinengues, que reconfiguram o território de forma autônoma e simbólica. Essa dualidade nos permite questionar o conceito de território como um espaço homogêneo, introduzindo a ideia de “territórios paralelos”, em que diferentes agentes sociais criam suas próprias territorialidades. Como Alentejano e Rocha-Leão (2006) sugerem, o campo geográfico deve ser um espaço de contestação, no qual a produção do espaço é vista como um processo conflituoso e dinâmico.
A travessia até o Suriname, passando por Albina e Paramaribo, revelou uma configuração espacial moldada pela coexistência de múltiplas identidades culturais e linguísticas. As dinâmicas transfronteiriças que observamos no rio Maroni, com seu fluxo contínuo de mercadorias e pessoas, reiteram a noção de que as fronteiras, longe de serem linhas estáticas de separação, são, na verdade, zonas dinâmicas de interações que desafiam as noções convencionais de soberania. Breen (2006) e Abbott (2006) destacam a importância de considerar as vozes e as experiências das populações locais, especialmente aquelas marginalizadas, como os bushinengués, que desempenham um papel central na economia informal e nas práticas espaciais cotidianas.
Em Paramaribo, a capital do Suriname, o campo permitiu uma análise das territorialidades urbanas em um espaço de intensa diversidade étnica. A coexistência de grupos afrodescendentes, indianos e javaneses em um espaço de forte influência colonial holandesa levanta questões sobre o hibridismo cultural e a formação de identidades territoriais. As paisagens urbanas, marcadas por templos hindus, mesquitas e a arquitetura colonial de madeira, reforçam a ideia de que o espaço urbano é um palimpsesto, em que diferentes camadas de ocupação e apropriação revelam a complexidade do processo de produção do espaço. Essa complexidade ecoa nas reflexões de Carneiro (1987) e Boswell, Corbett e Rhodes (2019), que veem o campo como um lugar de validação empírica das dinâmicas teóricas.
A jornada pelas cidades costeiras do Suriname até Nieuw Nickerie, situada na fronteira com a República da Guiana, oferece uma oportunidade ímpar para refletir sobre a interação entre dinâmicas econômicas e culturais, além de destacar a importância das territorialidades na configuração espacial da região. Nieuw Nickerie, conhecida por seus campos de arroz e pela expressiva presença da comunidade javanesa, emerge como um polo significativo da economia agrícola do Suriname, ilustrando o papel central que essa atividade desempenha na organização espacial e social do território.
A experiência sensorial e imersiva na culinária javanesa em Nieuw Nickerie não apenas nos forneceu um vislumbre do patrimônio gastronômico da comunidade, mas também nos fez perceber, à luz das reflexões de Alentejano e Rocha-Leão (2006), como o espaço é continuamente reconstruído através das práticas culturais e da circulação de saberes e tradições. A imersão cultural foi enriquecida por nosso contato com professores da rede pública, que ofereceram reflexões sobre as práticas educacionais locais, conectando o processo de territorialização ao papel das instituições públicas na organização do espaço urbano (Figura 4).
Ilustração das cidades fronteiriças Nieuw Nickerie e Corriverton. A imagem destaca, em primeiro plano, um descendente de indiano e a flor de lótus à esquerda, além do ferry-boat utilizado para circulação no Rio Corentyne, à direita. A numeração a seguir ressalta alguns lugares, características e elementos logísticos marcantes desta zona de fronteira: 1. Templo Hindu e 2. Mesquita: são símbolos da espiritualidade e da cultura dos descendentes de indianos e javaneses, servindo como um espaço sagrado e um centro cultural que preserva tradições e valores ancestrais desses povos; 3. Transporte coletivo: essas vans realizam o transporte de pessoas entre as cidades desses países, promovendo a integração regional; 4. Mercado Público de Nickerie: este é o grande mercado da cidade, onde se vendem especiarias e produtos agrícolas; 5. Avião para o trabalho agrícola: equipamento utilizado para dispersar sementes e fertilizantes. O uso desse tipo de aeronave demonstra um investimento em tecnologia aplicada ao setor primário; 6. Arrozal: principal cultivo da região, fundamental para a economia local; 7. Trabalhador do campo: ambos os países destacam-se em atividades econômicas do setor primário, razão pela qual a figura do trabalhador rural é marcante; 8. Táxis: veículos que realizam o transporte de pessoas nas cidades fronteiriças e que também levam para os locais de onde parte/chega o ferry-boat; 9. Porto de Ferry-Boat: infraestrutura essencial para o transporte nessa zona de fronteira; 10. Ferry-Boat: meio de transporte mais importante que conecta as comunidades fronteiriças através do Rio Corentyne; 11. Canavial: uma das importantes atividades agrícolas dessa fronteira; 12. Eclusa: essas estruturas facilitam o controle do nível de água nos rios, um problema que a costa das Guianas apresenta, em especial, nestes dois países que estão abaixo do nível do mar. Fonte: Ilustração, Carliendell Magalhães, 2024.
Ao observarmos a fronteira entre Nieuw Nickerie e Corriverton, identificamos uma desconexão evidente. Ao contrário das fronteiras anteriores que cruzamos, esta zona é marcada por uma frágil interação transfronteiriça, resultado de tensões geopolíticas e disputas territoriais históricas. Nesse contexto, a falta de integração entre os dois lados reflete um espaço de marginalidade dentro da dinâmica transfronteiriça das Guianas (Silva, 2020).
A travessia do Rio Corantyne em ferry boat marcou o início de nossa etapa na República da Guiana, um território que, até então, conhecíamos apenas em teoria. A chegada ao país trouxe novas camadas de complexidade à nossa análise, uma vez que a precariedade logística e a sensação de insegurança, desde o controle fronteiriço até a jornada para Georgetown, evidenciam as tensões latentes nesse espaço. A presença do motorista e segurança Randi reflete as realidades sociais e espaciais locais, e levanta questões sobre as territorialidades de poder e segurança em contextos urbanos fragilizados. A sensação de vulnerabilidade intensifica a percepção do espaço, fazendo com que o campo seja não apenas uma prática de coleta de dados, mas uma vivência sensorial e emocional que revela aspectos ocultos da geografia humana.
À medida que avançávamos pelo interior rural da República da Guiana, observamos a predominância de práticas agrícolas tradicionais, destacadas pela presença de carroças, bandeiras hindus e maquinário agrícola. Por outro lado, a alta concentração de população rural - a mais significativa da América do Sul - revela como o território é organizado de maneira distinta em relação às demais nações sul-americanas, nas quais o êxodo rural e a urbanização acelerada predominam. O campo, nesse contexto, assume um papel importante na configuração espacial do país, onde as fronteiras são fluídas, mas o interior rural permanece como uma constante.
Georgetown, a capital da República da Guiana, destacou-se pela intensa diversidade cultural e pelo dinamismo urbano, caracterizados por um mosaico de influências coloniais e caribenhas. A predominância da música reggae nas ruas, mesclada às paisagens sonoras de tambores steel drum, resgata as conexões históricas e culturais do país com o Caribe, criando uma territorialidade que transcende as fronteiras físicas. Essa relação com o espaço sonoro, como Byklum (1994) sugere, constrói uma identidade territorial que vai além do material, inserindo a cultura como um elemento ativo na organização do espaço urbano.
Na paisagem urbana de Georgetown, a arquitetura vitoriana, entrelaçada com templos hindus e mesquitas, reflete as sobreposições de poder colonial e resistência cultural. A cidade, como um palimpsesto urbano, revela camadas de história que se manifestam nas formas espaciais e nas práticas cotidianas. Esse cenário de belezas e precariedades, entre o esplendor arquitetônico e a falta de saneamento básico, revela um espaço de contrastes em que a riqueza cultural é acompanhada por desigualdades socioeconômicas evidentes.
Atravessando o interior da Guiana até Lethem, na fronteira com o Brasil, nossa jornada evidenciou as pressões da exploração florestal, com pilhas de madeira e caminhões de toras dominando a paisagem. A exploração desenfreada dos recursos naturais, visível ao longo da estrada, ilustra o conflito entre desenvolvimento econômico e conservação ambiental, um tema central nas discussões contemporâneas sobre as dinâmicas territoriais na Amazônia. Ao chegarmos ao rio Essequibo, marco natural e histórico da região das Guianas pela centenária disputa territorial entre República da Guiana e Venezuela, fomos confrontados com a necessidade de adaptar o planejamento da viagem à realidade local, o que revela, conforme Stokes, Magnier e Weaver (2011), a importância do conhecimento territorial na superação dos desafios logísticos e na construção de um trabalho de campo eficiente.
A travessia da fronteira entre Lethem, na República da Guiana, e Bonfim, no Brasil, destacou a complexidade das interações transfronteiriças na região amazônica. A conurbação entre essas duas cidades, ligadas pela ponte binacional sobre o rio Tacutu, exemplifica como os fluxos econômicos e humanos configuram uma nova territorialidade, onde as fronteiras nacionais tornam-se permeáveis às dinâmicas cotidianas de trocas e mobilidades.
Após nossa travessia para o Brasil, em Bonfim, ficou evidente a interdependência econômica entre esta pequena cidade e Lethem, do outro lado da fronteira (Figura 5). O comércio transfronteiriço, como notado por Dilla Alfonso e Chavez (2023), cria uma dinâmica territorial de interações que transcende os limites nacionais, onde o espaço é moldado pela circulação de pessoas e mercadorias. Bonfim, com uma economia fortemente influenciada pelas atividades comerciais de Lethem, demonstra a importância da fluidez fronteiriça para a sustentação das economias locais. Observamos que muitos dos moradores de Bonfim atravessam diariamente para Lethem, reafirmando que, como argumentam Benedetti (2018) e Böhm (2023), as fronteiras são zonas de interação e não apenas divisores fixos.
A análise das práticas espaciais em Bonfim mostra como as fronteiras são permeáveis, e as cidades gêmeas operam quase como uma unidade econômica e cultural, onde o rio Tacutu, outrora uma barreira natural, é agora um ponto de conexão facilitado pela ponte binacional. A circulação de ciclistas, pedestres e veículos entre as duas cidades exemplifica o que o texto de Brandão (2016) sinalizaria como sendo o “cotidiano transfronteiriço”, no qual as barreiras políticas são suavizadas pelas dinâmicas socioeconômicas locais.
Nosso deslocamento até Boa Vista, capital de Roraima, foi marcado pela imediata percepção da presença de imigrantes nas praças e nas esquinas da cidade. Boa Vista, como ponto de recepção e redistribuição de fluxos migratórios da Venezuela, é um exemplo contemporâneo das consequências da crise humanitária no país vizinho. Aqui, a geografia migratória se torna visível, e o campo nos permite, como sugere Katz (1994), captar a realidade complexa e multidimensional dos fluxos humanos. A observação das práticas espaciais dos imigrantes em Boa Vista - desde as praças até os abrigos temporários - revela o impacto das migrações na reconfiguração do espaço urbano, onde o improviso e a adaptação são constantes.
Ilustração das cidades fronteiriças Lethem e Bonfim. A imagem destacada à esquerda é da ponte binacional sobre o Rio Tacutu e, ao lado, a de um táxi, que realiza o transporte de pessoas nas cidades fronteiriças dos dois países. À direta, uma indígena representando a presença marcante dessa população nessas cidades fronteiriças. A numeração a seguir ressalta alguns lugares, características e elementos logísticos marcantes desta zona de fronteira: 1. Comunidade indígena: elas estão nos dois lados da fronteira. Sua arquitetura e modo de vida marcam aquela paisagem; 2. O comércio chinês: são inúmeros por toda a região das Guianas e refletem a influência da diáspora chinesa, trazendo uma diversidade de produtos e serviços que contribuem significativamente para a economia local; 3. Transporte fretado: ônibus utilizado por comerciantes autônomos brasileiros para compra de produtos diversos em Lethem, em especial, itens de vestuário, calçados, eletrônicos e utensílios domésticos, para revenda em cidades brasileiras, especialmente nos estados de Roraima e Amazonas; 4. Táxis: veículos utilizados para circulação entre Boa Vista e Pacaraima/Santa Elena de Uairén e Bonfim/Lethem; 5. Pórtico: entrada de Bonfim; 6. Plantação de melancia: uma das importantes atividades agrícolas dessa fronteira; 7. Ponte binacional: é uma das estruturas fundamentais para agilizar a circulação internacional dos países na região das Guianas; 8. Transporte coletivo: essas vans realizam o transporte de pessoas entre as cidades desses países, promovendo a integração regional; 9. Avião comercial de pequeno porte/pista de pouso: utilizado como transporte aéreo regular entre Lethem e Georgetown que, por sua vez, se conecta ao Brasil via Roraima. Fonte: Ilustração, Carliendell Magalhães, 2024.
O encontro com Neuber Uchôa, Eliakin Rufino e Zeca Preto, membros do grupo Roraimeira, trouxe uma nova perspectiva ao nosso estudo, ampliando a compreensão da relação entre cultura e espaço. A música, como um elemento central da identidade local, contribui para a territorialização de Roraima dentro da Guiana Brasileira, conectando a produção artística local com as questões fronteiriças e migratórias da região. Conforme discutido por May (1999), o campo também é um espaço de produção cultural, sendo que a música de Roraimeira se insere nessa dinâmica ao ressoar as vozes e histórias das fronteiras da Amazônia.
Ao seguirmos para Pacaraima, na fronteira com a Venezuela, a geografia da migração tornou-se ainda mais evidente. A cidade, palco da Operação Acolhida, conduzida pelo Exército Brasileiro, é um exemplo de como o Estado atua para reconfigurar o espaço fronteiriço em resposta a crises humanitárias. Pacaraima, diferentemente das outras fronteiras que exploramos, não possui um rio como barreira natural, e o fluxo constante de migrantes a pé é uma característica marcante dessa zona. A circulação entre Brasil e Venezuela se dá pela rodovia (Figura 6), que se tornou um corredor humanitário por onde passam diariamente centenas de venezuelanos em busca de refúgio. A análise desse espaço transfronteiriço revela como o campo permite a compreensão das dinâmicas humanas em contextos de crise, oferecendo uma leitura sensível da interação entre território e deslocamento populacional.
A travessia até Santa Elena de Uairén, do lado venezuelano da fronteira, foi uma oportunidade para observar como a geografia humana se altera em resposta à crise. A cidade, que se tornou a principal porta de saída para muitos venezuelanos, reflete uma territorialidade em colapso, na qual o Estado já não exerce pleno controle sobre o espaço. Em um contraste direto com as cidades que cruzamos anteriormente, Santa Elena exibe uma paisagem de abandono e resistência, onde os habitantes lutam para manter suas vidas em um cenário de escassez e incerteza.
Ilustração das cidades fronteiriças Pacaraima e Santa Elena de Uairén. A imagem destacada à esquerda é de um indígena representando a presença marcante dessa população nestas cidades fronteiriças. A numeração a seguir ressalta alguns lugares, características e elementos logísticos marcantes desta zona de fronteira: 1. Presença do Exército Brasileiro: é um posto avançado do Exército Brasileiro. Ele representa a atuação e a importância da segurança nacional nessa fronteira; 2. Imigrantes venezuelanos: com a crise venezuelana das últimas duas décadas, há uma presença significativa dessa população migrando para o Brasil a partir de Pacaraima; 3. Monumento binacional da fronteira; 4. Comunidade indígena: elas estão nos dois lados da fronteira. Sua arquitetura e modo de vida marcam aquela paisagem; 5. Marcos de fronteira: identifica o limite terrestre entre Brasil e Venezuela; 6. Parque Nacional Canaima: importante parque natural na Venezuela; 7. Presença policial venezuelana: a instabilidade neste país teve como uma de suas consequências a intensificação do aparato militar do país. 8. Monumento a Simon Bolívar: homenageia um dos líderes mais emblemáticos da América Latina e um símbolo nacional na Venezuela; 9. Monte Roraima: é um dos maiores cartões postais dessa fronteira. Fonte: Ilustração, Carliendell Magalhães, 2024.
Ao final da jornada, retornamos à densa floresta amazônica, percorrendo as estradas entre Lethem e Manaus. A estrada não pavimentada, marcada por piçarra e lama, corta uma região de intensa exploração madeireira, evidenciando os conflitos territoriais associados ao uso dos recursos naturais. Esse trecho final da viagem nos permitiu refletir sobre as fronteiras ambientais e a territorialidade ecológica da Amazônia, onde o uso da terra está em constante negociação entre interesses econômicos e a preservação ambiental. Atravessar essas paisagens, onde a exploração madeireira parece não ter o controle adequado, nos levou a questionar as políticas territoriais que moldam a geografia da Amazônia, conforme apontado por autores como Carneiro (1987) e Alentejano e Rocha-Leão (2006), que veem o campo como uma ferramenta para questionar as práticas de uso do solo e a transformação do território.
A última travessia fluvial de nossa jornada, entre Manaus e Santana, destacou a importância das vias fluviais como um dos principais vetores de circulação na Amazônia. Como apontado por Margarit (2018), a geografia da navegação no Amazonas é fundamental para a compreensão das dinâmicas espaciais da região. O Rio Amazonas, que conecta Manaus a diversas cidades ribeirinhas, opera como uma verdadeira “espinha dorsal” para o deslocamento de mercadorias e pessoas, articulando espaços que, de outra forma, estariam isolados pelas densas florestas e limitações da malha rodoviária.
Durante essa etapa, em cada uma das paradas nas cidades ribeirinhas, como Itacoatiara, Parintins, Juruti e Oriximiná, observamos a interação dinâmica entre as populações locais e os passageiros em trânsito. Essa interação reforça a ideia de fluxos regionais, em que o comércio informal, o abastecimento de mercadorias e as trocas sociais desempenham um papel fundamental na sustentação da vida cotidiana. O trabalho de campo permite captar as nuances dessas relações e a forma como elas moldam a organização espacial ao longo dos rios amazônicos. O campo nos mostrou como essas cidades funcionam como hubs de conexão entre o interior amazônico e os grandes centros urbanos, demonstrando a importância dos rios na construção da territorialidade da região.
A chegada em Santarém trouxe novas camadas de reflexão sobre o papel das cidades intermediárias na rede fluvial amazônica. A cidade, conhecida por seu porto movimentado e pelo encontro dos rios Amazonas e Tapajós, tem importância estratégica no contexto das Guianas. Sua localização geográfica e sua função como entreposto logístico confirmam a centralidade que Santarém desempenha na integração regional, tanto na Guiana brasileira quanto nas fronteiras econômicas e culturais que a conectam ao restante da Amazônia.
Durante nossa pernoite em Santarém, ficou evidente a importância da temporalidade no campo. A experiência de estar em trânsito constante, aguardando a embarcação que nos levaria até Santana, reforçou a ideia de que o trabalho de campo é, por definição, uma prática aberta ao imprevisto. As dificuldades logísticas, comuns à navegação na região, nos obrigaram a redefinir trajetos e estratégias, o que trouxe uma dimensão empírica ainda mais rica à pesquisa.
Quando finalmente embarcamos em direção a Santana, pudemos observar um aspecto da geografia cultural da Amazônia ainda pouco documentado: o uso das redes nas embarcações fluviais. Essa prática, que transforma o espaço dos barcos em um “mar de redes” coloridas, revela como as populações amazônicas adaptam suas práticas de vida à geografia local, criando uma relação única com o espaço fluvial. A bordo do navio, as redes se tornaram tanto um símbolo de adaptação ao meio quanto uma expressão da coletividade e convivência em espaços comuns, revelando uma forma distinta de ocupação espacial.
Nos momentos finais do primeiro trabalho de campo, a aproximação de Santana e a integração com o Amapá trouxeram à tona as interações entre as vias terrestres e fluviais da região das Guianas. A cidade de Santana, assim como Manaus, opera como um entroncamento logístico entre as rotas de transporte terrestre e fluvial (Silva, 2023). Esse ponto de convergência é essencial para entender a articulação espacial da Amazônia.
A segunda expedição de campo
A decisão de usar o transporte aéreo para Boa Vista marca uma nova fase no planejamento de nossas expedições, destacando o papel da logística no trabalho de campo geográfico (Boswell; Corbett; Rhodes, 2019). A fronteira Brasil-Venezuela, observada dois anos após a primeira visita, revelou um cenário de transformações sociais e econômicas. A intensificação do comércio entre os dois países, com carretas brasileiras abastecendo o mercado venezuelano, evidencia como as fronteiras são espaços de negociações materiais e simbólicas (Brunet-Jailly, 2005; Kolossov, 2005). A presença da Operação Acolhida reforça a ideia de que as fronteiras são dinâmicas e moldadas por fluxos de migração, políticas públicas e interações comerciais.
Na sequência da viagem até Georgetown, o desafio com os haitianos migrantes reforça a noção de fronteiras porosas e fluxos transnacionais. A convivência desses migrantes, os atravessadores e os novos espaços criados por essas interações ilustram a complexidade das zonas de fronteira, não apenas como linhas de separação, mas como áreas de fusão de múltiplos atores e interesses.
A chegada a Georgetown permitiu uma exploração mais profunda da cidade e de suas dinâmicas. A interação com os moradores, como Randi e sua família, revela a importância das redes sociais e culturais na geografia das relações cotidianas. Esse encontro reforça que o campo constrói não apenas conhecimento teórico, mas também laços sociais que enriquecem a análise espacial.
Os encontros com garimpeiros brasileiros, como Moisés, também acrescentaram camadas importantes à compreensão das práticas espaciais na região. A economia do garimpo, especialmente em áreas de fronteira, é um exemplo de como a geografia do trabalho e as práticas econômicas informais configuram territórios. Essas interações reforçam a análise de Breen (2006), que aponta como os trabalhadores do garimpo desempenham um papel fundamental na organização do espaço econômico e social em regiões periféricas.
Ao avançarmos para o Suriname, novas interações culturais, como a experiência com a culinária indiana, através do amigo Bara, revelaram o hibridismo cultural característico das cidades fronteiriças e sua importância na conformação de territorialidades múltiplas. O desafio logístico de atravessar para a Guiana Francesa sem o visto de entrada demonstrou como a burocracia e os controles fronteiriços atuam como barreiras que reorganizam a mobilidade. A emissão do laissez-passer (visto de passagem de curta duração) pela Polícia de Fronteira reflete as negociações e as flexibilizações que ocorrem nas margens do Estado-nação, conforme discutido por Paasi et al. (2022). Tais autores argumentam que a fronteira é tanto um espaço de exclusão quanto de concessão. Essa experiência consolidou a importância do planejamento detalhado no trabalho de campo, mas também evidenciou a necessidade de flexibilidade frente às contingências.
O retorno à Guiana Francesa nos levou a Saint-Laurent du Maroni, onde a observação direta do movimento de pessoas e mercadorias reforçou a noção de que a fronteira não é estática. Como Benedetti (2018), Foucher (2016) e Newman (2006) apontam, o espaço de fronteira é dinâmico, com fluxos contínuos de trocas que desafiam as noções tradicionais de soberania e controle estatal. A presença de imigrantes e o trânsito de mercadorias mostraram que, apesar dos controles oficiais, as fronteiras continuam sendo permeáveis e reconfiguradas pelas práticas cotidianas de quem vive nessas áreas.
Essas interações e os fluxos observados durante a pesquisa evidenciam que o trabalho de campo não se limita à coleta de dados formais, pois ele envolve a construção de uma compreensão profunda das dinâmicas espaciais que só pode ser captada pela imersão direta no território. A vivência no campo permite uma articulação dialética entre a teoria e a realidade observada, possibilitando a crítica e a revisão das interpretações prévias sobre o espaço geográfico. Atravessar essas fronteiras - físicas, culturais e políticas - reforçou a importância de entender o território como um espaço vivo, onde a mobilidade, as práticas cotidianas e as interações humanas desempenham papéis centrais na configuração espacial (Mukherjee, 2019).
O impacto do trabalho de campo na formulação de conhecimento geográfico é inegável. A capacidade de captar nuances espaciais e sociais que passam despercebidas em análises à distância reafirma a importância dessa prática. Cada etapa da viagem, desde a observação das transformações em Pacaraima, no Brasil, até as interações com garimpeiros brasileiros na República da Guiana, revelou novas camadas de compreensão sobre as fronteiras e as territorialidades que caracterizam a região das Guianas. Essa vivência reforça as reflexões de Lambert e Reiss (2016), que argumentam que o campo é um espaço não apenas de observação, mas de construção crítica do conhecimento, em que a geografia se manifesta de forma mais plena.
A terceira expedição de campo
Em 2021, já imunizados e seguindo protocolos sanitários por causa da pandemia de COVID-19, decidimos realizar mais um trabalho de campo, com o objetivo de ampliar nossas reflexões sobre a região das Guianas, mesmo em tempos de sérias restrições de circulação. Nesta nova expedição, a geografia cultural desempenhou um papel central. Em Parintins, vivenciamos o Festival do Boi Bumbá, que evidencia as dinâmicas simbólicas e territoriais que transformam a cidade em um espaço de rivalidade festiva e celebração coletiva. Essa imersão cultural, com apoio de Joel Bentes Araújo Filho e das lideranças das agremiações, permitiu que observássemos as interações entre tradições, performances e territorialidades locais.
Seguindo para Manaus e, posteriormente, para Roraima, nossa atenção se voltou para o Parixara, uma manifestação cultural indígena. Ao cruzarmos o território indígena Aimiri Atroari, a travessia por um trecho isolado sem pontos de apoio trouxe à tona a vulnerabilidade dos viajantes em regiões carentes de infraestrutura básica, refletindo as dificuldades logísticas de deslocamento na Amazônia. Em Boa Vista, a interação com os indígenas macuxis e wapixanas, especialmente durante a manifestação contra o Marco Temporal1, revelou a profundidade das questões territoriais e identitárias que perpassam as comunidades locais. A dança e o canto Parixara, vivenciados em um contexto de luta política, mostram como as expressões culturais estão intimamente ligadas à defesa territorial.
A visita à fronteira com a Venezuela reforçou a transformação causada pela migração em Pacaraima, agora um espaço de intensos fluxos migratórios, em contraste com a tranquilidade observada em expedições anteriores. Essa observação demonstra a natureza dinâmica das fronteiras, que são constantemente reconfiguradas pelos movimentos populacionais e pelas interações socioeconômicas.
Durante o percurso, o encontro com os músicos Barroncas e Rafael em Manaus destacou as conexões culturais entre o interior amazônico e as grandes cidades. A música de Beiradão e as histórias do Boi de Rua, precursor do Boi Bumbá de Parintins, revelam como as práticas culturais urbanas são moldadas pelas tradições locais e pela adaptação a novos contextos, evidenciando a contínua renegociação das territorialidades culturais na Amazônia.
O trajeto até Alenquer, com o objetivo de conhecer a comunidade quilombola do Pacoval, trouxe novos elementos para a pesquisa. A travessia do Rio Curuá, utilizando uma embarcação típica da região, exemplifica como as tecnologias locais são adaptadas às condições geográficas e ambientais. Essa experiência reforça a importância das práticas cotidianas na produção do espaço. Na comunidade quilombola, a observação do Marambiré, uma teatralização musical de herança africana, permitiu entender a persistência de tradições culturais que moldam a identidade territorial da Guiana Brasileira. Essa vivência ressalta o que Carneiro (1987) descreve como a articulação entre território e cultura, em que a preservação de práticas culturais é fundamental para a construção do espaço social.
Ao concluirmos essa etapa da pesquisa, retornamos ao Amapá e logo percebemos que ainda havia lacunas de nosso entendimento sobre a região das Guianas, especialmente referente à Venezuela. Essa reflexão sobre a falta de dados empíricos acerca desse país reforçou a necessidade de uma expedição exclusiva, a fim de obter as informações e as experiências que pareciam faltar.
A quarta expedição de campo
Nosso retorno à Venezuela foi marcado por cautela e estratégia. Sabíamos que as condições socioeconômicas do país representavam uma série de riscos, exacerbados pela crise política e pela presença de organizações criminosas que exercem um poder paralelo. Ao contratar a Eco Aventura, uma empresa de turismo local, estávamos cientes da necessidade de um suporte logístico que minimizasse os perigos, especialmente nas áreas mais remotas e controladas por essas facções.
O incidente em Santa Elena, onde um de nossos colaboradores foi abordado por um membro do sindicato2 ao fotografar um posto da Petróleos da Venezuela SA (PDVSA), nos mostrou a realidade de controle social e vigilância constante imposta por essas organizações. A abordagem rápida e a exigência de apagar as fotos revelam uma territorialidade fortemente vigiada, na qual qualquer movimentação pode ser interpretada como ameaça. As fronteiras não são apenas divisões físicas, mas espaços de negociação e poder, em que a geopolítica local é intensamente disputada por diferentes agentes, conforme bem destacou Newman (2016).
Ao cruzarmos a Gran Sabana e chegarmos à comunidade indígena Paraitepuy, entramos em um território de resistência cultural, em que os Taurepang mantêm suas tradições e se adaptam às demandas do turismo. A experiência com essa comunidade, ao pé do Monte Roraima, trouxe à tona a importância da articulação entre as dinâmicas econômicas e culturais locais, especialmente no que diz respeito à integração das práticas turísticas com a preservação dos modos de vida indígenas.
Nossa passagem por El Callao, cidade histórica do garimpo de ouro, destacou as dinâmicas territoriais de uma economia baseada na exploração de recursos naturais. Ali, a presença do ouro como moeda corrente e o fluxo constante de garimpeiros evidenciam uma territorialidade centrada na extração mineral, um fenômeno que molda o espaço geográfico em torno das necessidades econômicas e sociais da população local. O ritmo musical calipso venezuelano, por sua vez, simboliza a resistência cultural em meio a essas dinâmicas de exploração, conectando as tradições locais ao patrimônio histórico da região.
A chegada à Ciudad Guayana, às margens do imponente Rio Orinoco, marcou o ponto culminante dessa nossa expedição. Esse rio, um dos marcos geográficos que delimitam a região das Guianas (Figura 1), representa mais do que uma fronteira natural; ele é um símbolo da conexão entre povos, territórios e histórias que compõem essa vasta região. O campo nos permite vivenciar o espaço de maneira profunda e imersiva. Assim, ao alcançar Ciudad Guayana, sentimos que havíamos completado o ciclo de nossa jornada pelas Guianas, compreendendo mais profundamente as complexas relações que moldam essa parte da América do Sul.
A experiência em Ciudad Guayana ressaltou as profundas contradições da Venezuela contemporânea; enquanto o Orinoco representa uma das maiores riquezas naturais da região, a realidade de um país em crise, dilacerado por questões políticas e econômicas, nos confrontava a cada passo. As discussões com os moradores locais, que variavam entre o saudosismo de Chávez e as críticas ao governo de Maduro, refletiam um país em constante tensão, onde a geopolítica interna se entrelaça com as complexas relações de poder na região (Silva; Miceli, 2023).
A jornada pela Troncal 10, a grande artéria logística que corta o sudeste venezuelano até Ciudad Guayana, nos permitiu observar como a economia local é estruturada em torno do garimpo e da extração de recursos. A presença constante de pequenos vilarejos dependentes do ouro, onde as transações são feitas em gramas desse metal precioso, reflete a complexidade das economias informais que moldam as territorialidades locais. Essa dependência do ouro também intensifica as disputas por recursos e o controle de território, muitas vezes violentamente mediado por sindicatos e facções, como observamos na abordagem sofrida em Santa Elena. Aqui, a exploração de recursos naturais transforma não apenas a economia, mas o próprio espaço.
Entretanto, nem tudo na Venezuela é definido pela crise e pela violência. As comunidades indígenas que encontramos ao longo do caminho, como os Taurepang em Paraitepuy, revelam outra face da territorialidade venezuelana: a de resistência cultural e adaptação às adversidades. Ao conviver com essas comunidades, observamos como suas práticas cotidianas, enraizadas em tradições ancestrais, sobrevivem e se adaptam às exigências do turismo, sem perder sua base cultural. O campo, nesse aspecto, é um espaço onde as dinâmicas culturais se manifestam de maneira viva.
El Callao, com seu histórico de exploração de ouro e sua cultura musical relevante, também apresentou uma face dual da Venezuela. De um lado, a exploração mineral, que sempre foi a base econômica da cidade, evidenciava o impacto ambiental e social de uma economia predatória. De outro, o calipso venezuelano, simbolizado pelas apresentações da banda The Same People, conectava a cidade às suas raízes culturais caribenhas. A música, assim como o ouro, é parte integral da territorialidade de El Callao, moldando as interações sociais e o espaço urbano. A geografia cultural é, portanto, tão fundamental quanto a geografia econômica, e a música de El Callao nos mostrou como a cultura pode ser uma força vital de resistência e identidade, mesmo em tempos de crise.
Resultados e análise
A análise crítica das territorialidades observadas ao longo das quatro expedições evidencia que a região das Guianas não se configura como um mosaico fixo de delimitações estatais, mas como uma tessitura dinâmica de interações, fluxos e resistências. As territorialidades emergentes resultam de processos sociais e culturais que ressignificam as fronteiras, configurando zonas de contato e negociação, tal como propõe Newman (2006) ao destacar as fronteiras como espaços dinâmicos de reconfiguração.
A partir da síntese dos achados, verifica-se que as interações mais relevantes se organizam em torno de três grandes eixos: a mobilidade transfronteiriça cotidiana, as práticas territoriais vinculadas à exploração econômica e a resistência cultural como forma de reapropriação simbólica do espaço.
Nas cidades gêmeas de Oiapoque (Brasil) e Saint-Georges de l’Oyapock (Guiana Francesa), por exemplo, o espaço fronteiriço se revela como um continuum social e cultural, em que a ponte binacional funciona não apenas como infraestrutura de circulação, mas como símbolo da ambiguidade entre integração e controle. A ilustração da ponte e das comunidades indígenas em ambos os lados da fronteira reforça visualmente essa interdependência: a presença indígena, que atravessa as fronteiras estatais, é expressão viva da multiterritorialidade (Haesbaert, 2004).
O contraste entre a permissividade das práticas comerciais cotidianas e a rigidez dos controles estatais franceses evidencia a tensão entre soberania e vivência territorial. Essa dualidade é recorrente nas demais fronteiras estudadas e demonstra que, mais do que divisores, as fronteiras são zonas onde a mobilidade e a territorialidade são construídas coletivamente.
A territorialidade produtiva foi mais fortemente evidenciada nas zonas de garimpo, especialmente em El Callao, na Venezuela. A ilustração do garimpo em El Callao sintetiza, pois, a espacialidade precária e improvisada que caracteriza a extração mineral, marcada por condições laborais degradantes e pela presença difusa de organizações criminosas que disputam o controle do território. Aqui, como sugere Massey (2008), o espaço é produto das relações sociais: o ouro atua como vetor de transformação territorial, mobilizando fluxos humanos e estruturando as dinâmicas espaciais.
De modo semelhante, em Nieuw Nickerie (Suriname) e Corriverton (Guiana), a produção agrícola, especialmente o cultivo do arroz, configura um espaço transfronteiriço organizado pela circulação de trabalhadores, mercadorias e saberes técnicos. As ilustrações das paisagens agrícolas, com destaque para os arrozais e os aviões de pulverização, permitem visualizar a materialização das práticas econômicas na organização espacial. Entretanto, ao contrário do garimpo, a territorialidade agrícola se dá de maneira mais institucionalizada, com menor grau de informalidade e violência, evidenciando contrastes nas formas de apropriação territorial.
Nas manifestações culturais registradas - do Boi Bumbá, em Parintins, ao Marambiré, no quilombo do Pacoval -, percebe-se uma territorialidade simbólica e afetiva que reafirma o pertencimento aos lugares, independentemente das pressões exógenas. O Parixara, dança de resistência dos povos indígenas de Roraima, ilustra como a cultura opera como mecanismo de afirmação territorial frente às ameaças de desterritorialização, seja pela pressão econômica, como no caso do garimpo, seja pela marginalização política.
A análise das ilustrações desses espaços culturais revela como os elementos materiais - arquitetura, indumentária, paisagem - dialogam com as práticas simbólicas, configurando paisagens híbridas que são, simultaneamente, locais e transnacionais, como propõe Appadurai (2004) ao pensar a mobilidade como dimensão constitutiva das paisagens culturais globais.
Ao cotejar as quatro expedições, destacam-se similitudes importantes, como a recorrente permeabilidade das fronteiras e a existência de “territórios paralelos” (Haesbaert, 2004), nos quais a normatividade estatal é relativizada pelas práticas sociais cotidianas. Em todas as áreas estudadas, constatou-se a centralidade da mobilidade como elemento estruturante das territorialidades.
Entretanto, as expedições também revelaram contrastes significativos:
Expedição 1 (2017): Mobilidade fluida e diversidade cultural nas cidades gêmeas; foco nas interações cotidianas e nos fluxos comerciais espontâneos.
Expedição 2 (2020): Emergência da crise migratória na fronteira Brasil-Venezuela; evidência das territorialidades da vulnerabilidade, com espacialidades improvisadas e temporárias, como as ocupações de praças e abrigos.
Expedição 3 (2021): Ênfase na resistência cultural em territórios tradicionais, com destaque para manifestações como o Parixara e o Marambiré, que reconfiguram as territorialidades não pela circulação, mas pela fixação e pela afirmação identitária.
Expedição 4 (2022): Complexificação das territorialidades econômicas associadas ao garimpo e ao turismo em territórios indígenas, onde as práticas de sobrevivência são tensionadas por dinâmicas de exploração e resistência.
Apesar da riqueza empírica e da diversidade de contextos observados, a pesquisa enfrentou limites importantes: a dificuldade de acesso a áreas de risco, como as controladas por organizações criminosas; barreiras linguísticas, especialmente no Suriname e na Guiana Francesa; e restrições impostas pela pandemia, que limitaram a imersão em determinados contextos.
Esses limites reforçam a necessidade de aprofundamento futuro, com metodologias que combinem abordagens etnográficas de longa duração com técnicas quantitativas capazes de mapear, por exemplo, fluxos migratórios e redes econômicas. As territorialidades emergentes na região das Guianas revelam uma espacialidade marcada pela mobilidade, pela resistência cultural e pela tensão permanente entre integração e controle. O campo não apenas permitiu observar essas dinâmicas, mas foi constitutivo delas, na medida em que o ato de percorrer, dialogar e registrar é parte do processo geográfico que busca compreender as complexas tramas de interação que caracterizam a região das Guianas.
Considerações finais
As experiências de campo nas Guianas, ao longo de toda a travessia transfronteiriça, reafirmam a importância fundamental do trabalho de campo como ferramenta geográfica indispensável para a análise das complexas dinâmicas territoriais que caracterizam a região. As fronteiras entre Brasil, Guiana Francesa, Suriname, República da Guiana e Venezuela, para além de divisões fixas no mapa, revelam-se como zonas dinâmicas e multifacetadas de interação cultural, econômica e política. Nessas fronteiras, as territorialidades são continuamente negociadas e transformadas, ressaltando que o espaço geográfico é produzido a partir das práticas sociais cotidianas.
A observação direta das práticas culturais e econômicas, o contato com as populações locais e a vivência das rotas de circulação nas fronteiras terrestres e fluviais revelaram uma Amazônia marcada pela pluralidade de suas territorialidades. A mobilidade transfronteiriça entre as cidades gêmeas, a adaptação das populações ribeirinhas às rotas fluviais e a resiliência das comunidades locais diante das adversidades socioeconômicas são aspectos que sublinham a vitalidade dessas regiões periféricas no contexto global. O trabalho de campo nos permite captar essas nuances e dinâmicas, muitas vezes imperceptíveis à análise teórica distante, enriquecendo a compreensão do espaço geográfico.
Atravessar as fronteiras físicas e simbólicas nas Guianas demonstrou, em termos práticos, o papel do geógrafo como um observador e participante ativo no processo de construção do espaço. Nesse contexto, o campo não é um cenário estático, mas um palco onde a geografia é performada e reconfigurada, à medida que novas interações e fluxos emergem. A partir dessa configuração, fica evidente que o trabalho de campo vai além da coleta de dados: ele é um processo reflexivo e crítico que nos conduz à compreensão mais profunda das complexas relações entre o espaço e seus atores.
Assim, o trabalho de campo nas Guianas reafirma sua relevância na área da geografia como uma prática que permite vivenciar e compreender a espacialidade de maneira integral. Ao revelar as múltiplas camadas de interações sociais, culturais e econômicas que constituem o espaço geográfico, o campo se destaca como um meio essencial de articulação entre teoria e prática, enriquecendo o conhecimento geográfico e abrindo novas perspectivas para a investigação territorial.
Referências
-
ABBOTT, Dina. Disrupting the “whiteness” of fieldwork in geography. Singapore Journal of Tropical Geography, v. 27, n. 3, p. 326-341, 2006. Disponível em: https://doi.org/10.1111/j.1467-9493.2006.00265.x Acesso em: 20 nov. 2025.
» https://doi.org/10.1111/j.1467-9493.2006.00265.x -
ABREU DE AZEVEDO, Daniel; RIBEIRO, Rafael Winter. Expedições, excursões e trabalhos de campo no entendimento geográfico. Boletim Goiano de Geografia, v. 44, n. 1, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.5216/bgg.v44i1.77736 Acesso em: 20 nov. 2025.
» https://doi.org/10.5216/bgg.v44i1.77736 -
ALENTEJANO, Paulo Roberto Raposo; ROCHA-LEÃO, Otávio Miguez de. Trabalho de campo: Uma ferramenta essencial aos geógrafos ou um instrumento banalizado? Boletim Paulista De Geografia, n. 84, p. 51-68, 2006. Disponível em: https://publicacoes.agb.org.br/boletim-paulista/article/view/727 Acesso em: 20 nov. 2025.
» https://publicacoes.agb.org.br/boletim-paulista/article/view/727 - APPADURAI, Arjun. Modernidade em disputa: dimensões culturais da globalização. Tradução de Sérgio Lamarão e Leneide Duarte-Plon. São Paulo: Iluminuras, 2004.
-
BENEDETTI, Alejandro. Claves para pensar las fronteras desde una perspectiva geográfica. Geousp - espaço e tempo, v. 22, n. 2, p. 309-328, 2018. Disponível em: https://doi.org/10.11606/issn.2179-0892.geousp.2018.133707 Acesso em: 20 nov. 2025.
» https://doi.org/10.11606/issn.2179-0892.geousp.2018.133707 -
BÖHM, Hynek. Five Roles of Cross-border Cooperation Against Re-bordering. Journal of Borderlands Studies, v. 38, n. 3, p. 487-506, 2023. Disponível em: https://doi.org/10.1080/08865655.2021.1948900 Acesso em: 20 nov. 2025.
» https://doi.org/10.1080/08865655.2021.1948900 - BOSWELL, John; CORBETT, Jack; RHODES, R. A. W. Fieldwork. In: BOSWELL, John; CORBETT, Jack; RHODES, R. A. W. (ed.). The Art and Craft of Comparison. [s.l.] Cambridge University Press, 2019. p. 72-95.
-
BRANDÃO, Cláudia Mariza Mattos. Escritas Urbanas: sobre expressões artísticas na fronteira. RELACult - Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura e Sociedade, 2016. Disponível em: https://doi.org/10.23899/relacult.v2i4.272 Acesso em: 20 nov. 2025.
» https://doi.org/10.23899/relacult.v2i4.272 -
BREEN, Rosanna L. A practical guide to focus-group research. Journal of Geography in Higher Education, v. 30, n. 3, p. 463-475, 2006. Disponível em: https://doi.org/10.1080/03098260600927575 Acesso em: 20 nov. 2025.
» https://doi.org/10.1080/03098260600927575 -
BRUNET-JAILLY, Emmanuel. Theorizing borders: An interdisciplinary perspective. Geopolitics, v. 10, n. 4, p. 633-649, 2005. Disponível em: https://doi.org/10.1080/14650040500318449 Acesso em: 20 nov. 2025.
» https://doi.org/10.1080/14650040500318449 -
BYKLUM, Daeryl. Geography and music: Making the connection. Journal of Geography, v. 93, n. 6, p. 274-278, 1994. Disponível em: https://doi.org/10.1080/00221349408979833 Acesso em: 20 nov. 2025.
» https://doi.org/10.1080/00221349408979833 -
CARNEIRO, Sônia Maria Marchiorato. O Trabalho de campo e o Estudo em Laboratório: Importância e Viabilidade no Ensino de Geografiua segundo posicionamentro de professores das escolas de primeiro e segundo graus de Curitiba. Educar: Curitiba, n. 6, 1987. Disponível em: https://doi.org/10.1590/0104-4060.067 Acesso em: 20 nov. 2025.
» https://doi.org/10.1590/0104-4060.067 - CLAVAL, Paul. A geografia cultural. Florianópolis: Editora da UFSC, 1999.
-
DILLA ALFONSO, Haroldo Dilla; CHAVEZ, Mariel. La formación de las regiones transfronterizas: la experiencia latinoamericana. Geopolítica(s). Revista de estudios sobre espacio y poder, v. 14, n. 2, p. 195-215, 2023. Disponível em: https://doi.org/10.5209/geop.85395 Acesso em: 20 nov. 2025.
» https://doi.org/10.5209/geop.85395 -
FOUCHER, Michel. Le retour des frontières. CNRS Éditions (Débats), 15, nov. 2016. Disponível em: https://doi.org/10.3917/cnrs.fouc.2016.01 Acesso em: 20 nov. 2025.
» https://doi.org/10.3917/cnrs.fouc.2016.01 - HAESBAERT, Rogério. O mito da desterritorialização: do “fim dos territórios” à multiterritorialidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004.
-
KATZ, Cindi. Playing the field: Questions of fieldwork in geography. Professional Geographer, v. 46, n. 1, p. 67-72, 1994. Disponível em: https://doi.org/10.1111/j.0033-0124.1994.00067.x Acesso em: 20 nov. 2025.
» https://doi.org/10.1111/j.0033-0124.1994.00067.x -
KOLOSSOV, Vladmir. Border studies: Changing perspectives and theoretical approaches. Geopolitics, v. 10, n. 4, p. 606-632, 2005. Disponível em: https://doi.org/10.1080/14650040500318415 Acesso em: 20 nov. 2025.
» https://doi.org/10.1080/14650040500318415 -
LAMBERT, David; REISS, Michael J. The place of fieldwork in geography qualifications. Geography, v. 101, n. 1, p. 28-34, 2016. Disponível em: https://doi.org/10.1080/00167487.2016.12093980 Acesso em: 20 nov. 2025.
» https://doi.org/10.1080/00167487.2016.12093980 -
MARGARIT, Eduardo. A ressignificação da navegação no Baixo amazonas a partir da integração ao circuito produtivo do agronegócio. Revista Terceira Margem Amazônica, v. 3, p. 38-55, 2018. Disponível em: https://doi.org/10.36882/2525-4812.2018v3i11p%25p Acesso em: 20 nov. 2025.
» https://doi.org/10.36882/2525-4812.2018v3i11p%25p - MASSEY, Doreen. Pelo espaço: uma nova política da espacialidade. Trad. Hildete Pereira de Melo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil , 2008
-
MAY, Jon. Developing fieldwork in social and cultural geography: Illustrations from a residential field class in Los Angeles and Las Vegas. Journal of Geography in Higher Education, v. 23, n. 2, p. 207-225, 1999. Disponível em: https://doi.org/10.1080/03098269985470 Acesso em: 20 nov. 2025.
» https://doi.org/10.1080/03098269985470 -
MUKHERJEE, Falguni. Exploring cultural geography field course using story maps. Journal of Geography in Higher Education, v. 43, n. 2, p. 201-223, 2019. Disponível em: https://doi.org/10.1080/03098265.2019.1597031 Acesso em: 20 nov. 2025.
» https://doi.org/10.1080/03098265.2019.1597031 -
NEWMAN, David. Borders and bordering: Towards an interdisciplinary dialogue. Journal of Asian and African Studies, v. 9, n. 2, p. 171-186, 2006. Disponível em: https://doi.org/10.1177/1368431006063 Acesso em: 20 nov. 2025.
» https://doi.org/10.1177/1368431006063 -
NEWMAN, David. Contemporary Research Agendas in Border Studies: An Overview. The Ashgate Research Companion to Border Studies, p. 33-48, 2016. Disponível em: https://www.taylorfrancis.com/chapters/edit/10.4324/9781315612782-12/contemporary-research-agendas-border-studies-overview-david-newman Acesso em: 20 nov. 2025.
» https://www.taylorfrancis.com/chapters/edit/10.4324/9781315612782-12/contemporary-research-agendas-border-studies-overview-david-newman -
PAASI, Anssi; FERDOUSH, Md Azmeary; JONES, Reece; MURPHY, Alexander. Locating the territoriality of territory in border studies. Political Geography, v. 95, n. December 2021, p. 102584, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.polgeo.2021.102584 Acesso em: 20 nov. 2025.
» https://doi.org/10.1016/j.polgeo.2021.102584 -
SILVA, Gutemberg de Vilhena. Cartographic Expressions in the Guiana Region. Geousp, v.25, n._2, e-175029, 2021. Disponível em: https://doi.org/10.11606/issn.2179-0892.geousp.2021.175029 Acesso em: 20 nov. 2025.
» https://doi.org/10.11606/issn.2179-0892.geousp.2021.175029 - SILVA, Gutemberg de Vilhena. Des frontières contestées: les conflits des Guyanes. In: NOUCHER, Matthieu; POLIDORI, Laurent. (org.). Atlas critique de la Guyane. Paris: CNRS Éditions, 2020. v.1, p. 48-49.
- SILVA, Gutemberg de Vilhena. Multimodal Transportation in the Guyana Region: Challenges, Deadlocks, And Regional Geopolitics. In: SILVA, Gutemberg de Vilhena; VIEIRA, Alexandre Bergamin. Political geography, geopolitics and territorial management: Brazilian perspectives. Rio de Janeiro: Autografia, 2023.
-
SILVA, Gutemberg de Vilhena; GRANGER, Stéphane. Territorial Formation of the Guianas Region. Revista Ra’e Ga: Espaço Geográfico em Análise, v. 52, p. 42-59, 2021. Disponível em: https://revistas.ufpr.br/raega/article/download/76301/44644 Acesso em: 20 nov. 2025.
» https://revistas.ufpr.br/raega/article/download/76301/44644 -
SILVA, Gutemberg de Vilhena; MICELI, Clicia Vieira Di. Crônicas de campo na Guiana venezuelana: Natureza, circulação e garimpos na rodovia Troncal 10. Revista do Departamento de Geografia, v. 43, p. 1-14, 2023. Disponível em: https://revistas.usp.br/rdg/article/view/208231 Acesso em: 20 nov. 2025.
» https://revistas.usp.br/rdg/article/view/208231 - SILVA, Gutemberg de Vilhena; MICELI, Clicia Vieira Di. Região das Guianas: Território, História e Cultura. Porto Alegre: Letra 1, 2024.
-
STOKES, Alison; MAGNIER, Kirsty; WEAVER, Ruth. What is the use of fieldwork? Conceptions of students and staff in geography and geology. Journal of Geography in Higher Education, v. 35, n. 1, p. 121-141, 2011. Disponível em: https://doi.org/10.1080/03098265.2010.487203 Acesso em: 20 nov. 2025.
» https://doi.org/10.1080/03098265.2010.487203
-
1
O Marco Temporal é uma tese jurídica que busca restringir o direito dos povos indígenas à terra. Essa tese propõe que os indígenas só teriam direito às terras que estavam ocupando ou reivindicando judicialmente em 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição Federal. Essa interpretação foi amplamente debatida no Supremo Tribunal Federal (STF) e acabou sendo rechaçada por um número significativo de votos contrários. No entanto, apesar da decisão do STF, o Congresso Nacional voltou a discuti-lo na intenção de atender aos interesses de uma bancada ruralista e de extrema direita, que busca limitar os direitos territoriais dos povos indígenas. Tal reflexão é essencial para compreender as tensões e os debates sobre os direitos indígenas no Brasil.
-
2
Grupos civis armados que atuam na Venezuela.
-
Disponibilidade de dados
Os conjuntos de dados relacionados a este artigo estarão disponíveis mediante solicitação ao autor.
Os conjuntos de dados relacionados a este artigo estarão disponíveis mediante solicitação ao autor.












