Open-access Por uma educação geográfica poderosa

Resumo

O Encontro Nacional de Prática de Ensino de Geografia (ENPEG) é o principal evento científico no Brasil dedicado às pesquisas sobre ensino e aprendizagem de geografia e formação docente, consolidado desde sua primeira edição, em 1985. A edição de 2024, realizada na Universidade de São Paulo, teve como tema central “Por uma educação geográfica poderosa”, destacando a relevância do estatuto epistemológico da Geografia para o currículo escolar. O evento reafirma a importância da educação geográfica no desenvolvimento de cidadãos críticos e participativos, promovendo debates sobre temáticas diversas, práticas docentes, uso de tecnologias e formação de professores. O presente trabalho apresenta, em linhas gerais, as conquistas e os avanços que o evento representa para a área de ensino de geografia ao fomentar o diálogo entre teoria e prática. O texto apresenta o dossiê que a GeoUSP disponibiliza nesta edição e espera defender uma educação geográfica que vá além da retórica, desenvolvendo raciocínios críticos e dialéticos, promovendo o conhecimento geográfico como essencial à formação cidadã e à sociedade brasileira.

Palavras-chave:
ENPEG; Ensino de geografia; Formação de professores

Abstract

The National Meeting of Geography Teaching Practices (ENPEG) is the leading scientific event in Brazil dedicated to research on the teaching and learning of Geography and teacher training, established since its first edition in 1985. The 2024 edition, held at the Universidade de São Paulo, centered on the theme “For a Powerful Geography Education”, highlighting the relevance of Geography’s epistemological status in the school curriculum. The event reaffirms the importance of geography education in the development of critical and engaged citizens, promoting discussions on various themes, teaching practices, technology use, and teacher training. This work provides an overview of the achievements and advancements that the event represents for the field of Geography Education by fostering dialogue between theory and practice and presents the dossier made available by GeoUSP in this edition. The primary aim of this dossier is to encourage the community of Geography education researchers to invest in Geography teaching.

Keywords:
ENPEG; Geography teaching; teacher training

Apresentação

O Encontro Nacional de Prática de Ensino de Geografia (ENPEG) é o mais importante espaço-tempo de debates e de divulgação científica das pesquisas sobre o ensino e aprendizagem de geografia e formação de professores em todo o país. Desde a sua primeira edição, em 1985, até os dias atuais, o ENPEG é o lugar de discussões sobre as pesquisas realizadas em diferentes níveis: graduação (IC), pós-graduação e grupos de pesquisas. É um evento de referência desde 1985, quando a geografia crítica ainda estava se consolidando na educação geográfica (Straforini; Canto; Amorim, 2019). O ENPEG é, na atualidade, um importante evento no campo da educação geográfica que congrega a maioria dos pesquisadores que atuam nessa linha de pesquisa.

O tema central do ENPEG de 2024, “Por uma educação geográfica poderosa”, foi escolhido a partir da demanda de se recuperar o estatuto epistemológico da ciência geográfica como forma de valorizá-lo no currículo escolar. Uma educação geográfica poderosa significa dar relevância ao processo de ensino e aprendizagem, partindo do pressuposto de que a educação geográfica é indispensável para o desenvolvimento de cidadãos responsáveis e ativos criticamente no mundo atual e no futuro (Castellar; Pereira; Guimarães, 2021).

A temática também se assentou na necessidade de ampliar os debates da própria trajetória que o campo da educação geográfica vem construindo nas últimas décadas: na diversidade temática, nas práticas docentes na educação básica em suas multiplicidades, nas tecnologias e linguagens presentes no ensino de geografia, bem como nos encaminhamentos da formação docente. Desse modo, considerando as atuais e pretéritas conjunturas políticas que se desvelam sobre agendas, agentes, atos/ações e orientações curriculares em torno da educação brasileira e, ao que nos interessa, os resultados do ensino de geografia nas salas de aula (Castellar; Pereira, 2024).

Os ENPEGs, na condição de principais eventos da área, têm evidenciado maior interesse e produção de pesquisas. Desde os anos 2000, a estrutura e a organização das edições têm valorizado a pluralidade de concepções e correntes teórico-metodológicas da geografia e da educação que fundamentam o campo da educação geográfica. Além de incentivar a ampla participação de professores da educação básica das redes estaduais e municipais de educação, tal participação tem trazido importantes contribuições para o evento, uma vez que esses professores analisam e apresentam suas práticas pedagógicas e curriculares nas atividades do evento. Essas discussões possibilitam trocas e debates entre profissionais de diferentes níveis atuantes na educação em geografia, instigando o crescimento das pesquisas na área, tensionando o próprio sentido de “conhecimento geográfico escolar” e, sobretudo, estreitando as relações entre a academia e educação básica.

Na edição do XVI ENPEG, realizada em setembro de 2024, na Universidade de São Paulo, foram apresentados 372 trabalhos que envolveram pesquisas e práticas escolares; 383 trabalhos submetidos aos 17 grupos de trabalho (GTs); 16 lançamentos de livros; 19 oficinas e minicursos; 10 mesas com 38 palestrantes; e 61 professores envolvidos nas coordenações dos GTs. Os palestrantes convidados foram escolhidos pelo reconhecimento e relevância de suas pesquisas nas diferentes áreas e temáticas da educação geográfica e vieram de diferentes países, tais como Argentina, Brasil, Colômbia, Chile, Estados Unidos e Itália.

O evento foi organizado em mesas redondas e GTs que pudessem estar diretamente associados com as temáticas do evento. Nesse sentido, as propostas das 10 mesas redondas tiveram temáticas relacionadas a políticas públicas, ensino e aprendizagem, cartografia e temas contemporâneos, como geografia da juventude. Para os GTs também seguimos a mesma lógica, propondo 16 grupos de trabalho dos mais variados. O evento também contou com uma conferência de abertura e uma mesa de encerramento. A conferência de abertura com a participação do Prof. David Uttal, da Northwestern University, contribui para o debate sobre cognição espacial e cartografia, seu campo de pesquisa na psicologia. A conferência de encerramento, realizada pela Profa. Raquel Gurevich aprofundou a análise teórica do papel da geografia escolar. A professora faz parte da Rede Latino-americana de Investigadores em Didática da Geografia (REDLADGEO).

A área de ensino de Geografia no Brasil tem buscado reconhecer múltiplas práticas, linguagens e saberes que constituem as realidades escolares em sua diversidade. Para além do apoio nas bases legais, essa busca tem por base o reconhecimento, por meio das trocas e das pesquisas relacionadas à educação básica, de que práticas pedagógicas se produzem no diálogo contínuo entre teorias e vivências educativas. Tal diálogo é constituinte da geografia escolar e de suas especificidades, que devem ser observadas pelas ações acadêmicas de pesquisa e formação frente aos conhecimentos geográficos para o ensino dessa disciplina.

Sob tal perspectiva, vem sendo trazida à baila a discussão fundamental quanto aos desafios da contemporaneidade para uma educação geográfica poderosa. Uma educação geográfica poderosa baseia-se no desenvolvimento não apenas de pensamentos e retóricas, mas de raciocínios. Este último exige o uso de uma lógica – dialética – argumentativa, propositiva e inferencial, fruto das conexões realizadas pelo sujeito com o mundo circundante experienciado e percebido, a partir de um vocabulário específico, fortalecendo o conhecimento geográfico no currículo e na vida da juventude e da sociedade brasileira. De modo que (re)contextualizar a geografia significa fortalecê-la, não dissociá-la de suas linguagens e da sua natureza epistêmica (Castellar; Pereira, 2024).

O XVI ENPEG propôs o tema “Por uma educação geográfica poderosa”, considerando: a) a relevância social de se aprofundar os fundamentos teórico-metodológicos do processo de ensino e aprendizagem e formação de professores na educação geográfica; b) a análise dos fundamentos teóricos e metodológicos que dão bases para a epistemologia no campo da educação geográfica; c) a análise da trajetória da área de ensino de geografia no Brasil nas três últimas décadas, num esforço de compreender seus avanços teórico-metodológicos; e d) a análise das mudanças e permanências do campo da educação geográfica perante as políticas curriculares.

Os grupos de trabalho e o fortalecimento da educação geográfica poderosa

A diversidade teórico-metodológica nas diferentes linhas de pesquisa no campo da educação geográfica se territorializa nos grupos de trabalho no ENPEG. Alguns GTs estão bastante consolidados em eventos da área de ensino de geografia no geral, e não apenas no ENPEG; entretanto, a edição de 2024 inova quando propõe novos temas que podem não apenas assegurar espaço de debate, mas, principalmente, difundir pesquisas que estão sendo realizadas em diferentes instituições. Esses temas têm relevância social e estão presentes nas pesquisas contemporâneas que foram apresentadas no evento.

Formação docente, saberes e a produção do conhecimento na geografia escolar

O presente GT oportunizou debates sobre os saberes e dimensões da formação docente em geografia, contemplando os conhecimentos disciplinares, os conhecimentos escolares e as práticas da geografia escolar. A didática da geografia e o seu papel na formação docente inicial. Saberes docentes sobre os direitos de aprendizagem e a diversidade dos estudantes.

Fundamentos teórico-metodológicos e questões socioambientais na geografia escolar

Dedicou-se ao debate sobre as abordagens teóricas, conceituais e metodológicas das questões socioambientais na análise do espaço geográfico no contexto do ensino de geografia, do livro didático, de práticas educativas e da formação de professores de geografia.

Multiculturalidade, diferenças, identidades étnico-raciais e gênero no ensino de geografia

Esse GT teve como objetivo discutir as temáticas de raça, gênero e sexualidades como dimensões do conhecimento necessárias ao ensino de geografia e à formação de professoras e professores de geografia. Buscou-se, portanto, a compreensão da tarefa e do desafio do ensino de geografia como mobilizador de práticas sociais e cidadãs que contemplem as diferenças constituídas pelos sujeitos e suas espacialidades, e, ainda, como aporte para a reflexão sobre uma pauta articulada com os movimentos sociais e sobre a dinâmica social numa perspectiva interseccional.

História da geografia escolar e tradição da cultura escolar

Uma temática consolidada nos eventos da área manteve o escopo de ementa com o objetivo de refletir sobre a história e a tradição da geografia escolar, que implica um mergulho nas raízes e fundamentos que moldaram a educação e as instituições escolares ao longo do tempo, compreendendo como relações de poder, concepções, métodos e conteúdos escolares foram sendo construídos e transmitidos ao longo das gerações, consolidando a história da geografia na escola em meio à sua tradição e modo próprio de produção de saberes.

Juventudes e o ensino de geografia

Diversas abordagens de ensino de geografia contribuem para uma melhor compreensão do mundo e o fortalecimento do senso de pertencimento dos alunos, promovendo uma aprendizagem mais significativa, além de incentivá-los a permanecerem na escola. O GT teve como objetivo refletir sobre a categoria “juventude”, considerando as práticas espaciais juvenis e suas possíveis interlocuções com as práticas de ensino no processo de compreensão do conhecimento geográfico escolar que empoderam os jovens a reconhecer a educação como exercício da cidadania.

Linguagens cartográficas no ensino de geografia

O GT propôs refletir sobre a importância do sistema semiótico nos processos de produção, leitura e análise das linguagens cartográficas na qualidade de conteúdos escolares em si, bem como sua utilização na análise e compreensão das espacialidades dos fenômenos geográficos. Permitiu, ainda, debates acerca das teorias, metodologias, recursos didáticos, formação inicial e continuada de professores que compreendem as linguagens cartográficas aplicadas à educação geográfica, considerando a cartografia inclusiva, social, imaginativa e a digital, desde a ascensão da alfabetização ao letramento cartográfico, na perspectiva do pensamento espacial e raciocínio geográfico.

Raciocínio geográfico no ensino de geografia

Quais movimentos didático-pedagógicos estão sendo desenvolvidos nas pesquisas do campo da didática específica da geografia sobre o desenvolvimento do raciocínio geográfico? O presente GT, motivado por essa questão central, promoveu diálogos sobre as pesquisas e atividades de ensino-aprendizagem preocupadas com o desenvolvimento do raciocínio geográfico, articulando processos cognitivos com os princípios, categorias e conceitos geográficos. Desse modo, buscou construir aproximações teórico-metodológicas entre o estatuto epistemológico da geografia, a cognição espacial e processos de construção de conhecimentos geográficos escolares.

Múltiplas linguagens e tecnologias digitais no ensino de geografia

Esse GT reuniu pesquisas e promoveu debates que problematizaram teórico-metodologicamente o uso e o papel das múltiplas linguagens e das tecnologias digitais no ensino de geografia; a sua produção e/ou uso como recursos didáticos; e os experimentos didáticos. Entre as linguagens, pode-se citar a cartografia, o cinema, a literatura, a música, as peças teatrais, a imagética etc., mediadas ou não por tecnologias digitais. E, em relação às tecnologias digitais, pode-se destacar as plataformas, os blogs, os websites, os SIGs, as redes sociais, entre outras.

Metodologias ativas e alfabetização científica no ensino de geografia

Nesse GT foram abordadas as metodologias de ensino que possibilitam o envolvimento dos alunos em processos ativos de aprendizagem e que contribuem para a alfabetização científica na geografia. Foram apresentados e discutidos temas como: estratégias didáticas que estimulam o conhecimento geográfico, o desenvolvimento do pensamento crítico e diferentes práticas para integrar conceitos geográficos com métodos científicos.

Concepções curriculares no ensino de geografia

O presente GT teve como objetivo pesquisas que revelam corpus teórico-metodológico a partir de questões concernentes às seguintes temáticas: currículo e conhecimento escolar; currículo e conhecimento pedagógico do conteúdo; currículo e formação de professores e políticas curriculares para o ensino de geografia; concepções de currículo e a concepção da Base Nacional Comum Curricular (BNCC); dilemas e possibilidades de um currículo centrado em habilidades; raciocínio geográfico; situação geográfica; e resolução de problemas.

O conhecimento geográfico escolar na educação de jovens e adultos

O GT abordou questões relativas ao ensino-aprendizagem nas diferentes séries de educação de jovens e adultos (EJA); práticas didático-pedagógicas em geografia na EJA; categorias e conceitos geográficos na EJA; conhecimento geográfico escolar e o desenvolvimento da aprendizagem dos alunos do EJA.

A educação geográfica nos/dos campos, águas e florestas

A proposta do GT foi apresentada pela primeira vez na XVI edição do ENPEG como espaço para socializar e refletir sobre ensino, pesquisa e extensão vinculados à educação geográfica e ao ensino da geografia escolar presentes e necessários às escolas no/do campo, das águas e das florestas em suas especificidades. A ideia foi empoderar os pesquisadores que se dedicam à educação que reúne os sujeitos que habitam os referidos ecossistemas (acampados, assentados, camponeses, indígenas, quilombolas, entre outros), estabelecendo com eles relações orgânicas explicitadas em seus projetos educacionais.

Metodologias e avaliação de aprendizagem no ensino de geografia

O GT dedicou-se a discutir questões teórico-metodológicas referentes às metodologias de ensino e/ou avaliação da aprendizagem em geografia. O espaço foi aberto aos estudos das metodologias de ensino e dos processos envolvidos na aprendizagem e avaliativos que ocorrem em instituições escolares, em especial os que envolvem a avaliação da aprendizagem em geografia e a avaliação em larga escala nos diferentes níveis e modalidades de ensino, entre outros estudos.

Políticas de formação docente: estágio supervisionado, residência pedagógica e Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID)

Já bastante consolidado, o GT de formação de professores é um importante espaço para refletir, divulgar e compartilhar os conhecimentos fundamentais à formação do professor de geografia e ao desenvolvimento profissional do docente na área; os debates sobre as políticas públicas de formação docente no Brasil nos contextos das pesquisas em educação geográfica; desafios dos estágios curriculares como eixos fundamentais à formação docente em geografia e construção de identidade profissional; significações expressas por políticas de programas que reforçam a formação docente em geografia; desafios da formação continuada do docente de geografia no contexto das políticas educacionais à formação docente.

Geografia da educação

As abordagens em geografia da educação inclinam-se à análise geográfica de fenômenos educacionais absolutamente diversos. Desde pesquisas sobre as dinâmicas espaciais de uma escola até estudos que tratam da espacialidade das políticas educacionais mais amplas, constituem o escopo desse campo, que se une em torno de uma interrogação mais geral: questionar o papel da espacialidade nas questões educacionais, independentemente de sua natureza, escala ou modalidade.

Geografia da infância e dos anos iniciais

Um grupo que reúne reflexões sobre o campo de estudos da infância nas interfaces com a geografia como ato educativo envolve temáticas como: geografia, a educação infantil e os anos iniciais; relações dos bebês e crianças com seus territórios, com instituições, com artefatos da cultura e com seres não humanos; metodologias de pesquisa com/sobre bebês e crianças; ensino e docência; diversidades, diferenças, múltiplas linguagens, lógicas e autorias infantis, entre outros.

Educação especial inclusiva no ensino de geografia

Dedicou-se a pensar a educação especial inclusiva no ensino de geografia, envolvendo reflexão sobre a adoção de práticas pedagógicas e estratégias de ensino que podem garantir a participação e o acesso de todos os alunos, independentemente de suas habilidades ou limitações. Trabalhos que demonstram o compromisso contínuo com a igualdade de oportunidades e o respeito à diversidade na sala de aula.

Apresentar os grupos de trabalho mostra a relevância acadêmica e social do ENPEG e suas tradições culturais em relação aos temas que refletem a diversidade das linhas de pesquisa que corroboram com os artigos deste dossiê.

Contribuições e reflexões sobre a educação geográfica aplicada

Dada a importância do evento, o referido dossiê apresenta alguns trabalhos derivados das reflexões realizadas nas mesas do XVI ENPEG que procuram refletir sobre os múltiplos movimentos teórico-metodológicos que alicerçam as pesquisas, a multiplicidade das temáticas de interesse e, sobretudo, como a trajetória da educação geográfica pode se constituir num discurso e numa ação política em defesa da própria geografia escolar.

Aos leitores, este dossiê oferece uma oportunidade para a inicialização, aprofundamento e ampliação sobre as inquietudes contemporâneas relacionadas à educação geográfica.

O artigo do professor Jerry Mitchel, fruto de sua apresentação no ENPEG de 2024, analisa como a geografia escolar poderia ensinar impactos ambientais na educação básica. O texto foca a organização de parâmetros curriculares nos Estados Unidos e sua influência na educação ambiental. A base teórica que enfatiza a relação entre as pessoas e o meio ambiente vincula-se a Susan Hanson (2004) e a Yi-Fu Tuan (1991). Um aspecto importante é a falta de educação ambiental na formação de professores e como conteúdo curricular nos Estados Unidos.

No artigo da professora Jerusa Vilhena de Moraes e Eden Carli, há uma análise da aplicação da teoria do conhecimento por meio da resolução de problemas físico-naturais no contexto da geografia escolar. Os autores mostram dados de pesquisa que envolveram estudantes da Universidade Federal do Estado de São Paulo, os quais elaboraram argumentos sobre uma situação geográfica: “O Planalto da Borborema pode realmente ser o principal influenciador do clima semiárido no Brasil?”. Os resultados indicam a importância de conscientizar os professores sobre o impacto dos conhecimentos intuitivos na aprendizagem conceitual e a necessidade de antecipar intervenções didáticas para promover mudanças conceituais.

Com o fim de provocar um debate crucial acerca das condições de aprendizagem e os espaços de formação, a professora Raquel Gurevich, da Universidade de Buenos Aires, analisa as transformações que ocorrem no mundo e os impactos nos processos de formação. Essas análises estão associadas às perguntas: quais caminhos podem ser potencializados no ensino de geografia? Quais relações entre os conceitos e estratégias podem estabelecer possibilidades de compreensão e interpretação dos territórios e ambientes? A autora apresenta considerações sobre os contextos disciplinares e institucionais e finaliza com um debate desafiador a respeito dos reordenamentos da vida social e do fortalecimento entre conhecimento, escola e novas demandas sociais.

O ensaio “A mobilidade das políticas públicas educacionais de formação de professores e as espacialidades dos agentes políticos”, de autoria de Rafael Straforini e Anniele Freitas, apresenta uma análise detalhada sobre o processo de construção de políticas públicas voltadas à formação docente. Os autores exploram as redes de influência que conectam agendas internacionais, agentes políticos e debates em espaços locais, destacando os desafios enfrentados nesse contexto.

A pesquisa mostra que a formação de professores tem sido amplamente criticada por currículos considerados excessivamente teóricos e desconectados das necessidades reais da educação básica, fato que motivou mudanças nas diretrizes curriculares nacionais desde os anos 2000. Para analisar esse cenário, os autores utilizaram o método de interpretação de políticas “follow the policy” (Peck; Theodore, 2010; 2012) e práticas espaciais de significação discursiva (Straforini, 2018).

Os autores Lorena Rocca e Lucio Botelho analisam a paisagem, que é frequentemente estudada por meio de uma perspectiva visual, no entanto eles apresentam a possibilidade de uma abordagem multissensorial. Esse artigo, portanto, explora o papel da paisagem sonora como ambiente de aprendizagem, destacando a importância dos sons na construção do sentido de lugar e no aprendizado geográfico. Com base nos estudos de Murray Schäfer sobre soundscape, o som emerge como um elemento essencial para entender a relação entre espaço, paisagem e identidade cultural. A pesquisa apresentada mostra que, a partir de metodologias auditivas, os sons são analisados por sua capacidade de contribuir para a formação do lugar, mostrando como a paisagem sonora pode ser uma ferramenta educativa. Os autores propõem a promoção de um aprendizado geográfico mais inclusivo e estimular uma compreensão crítica e afetiva do território.

A partir do que foi destacado até aqui, convidamos à leitura deste dossiê que apresenta, a partir de diferentes matrizes teóricas e metodológicas, relevantes contribuições à prática pedagógica e à pesquisa no ensino de geografia. A intenção precípua deste dossiê é instigar a comunidade de pesquisadores da área de ensino de geografia a investirem no ensino de geografia.

Referências bibliográficas

  • CASTELLAR, S. M. V.; PEREIRA, C. M. R. B.; Geografia como conhecimento poderoso no currículo brasileiro e os fundamentos do raciocínio geográfico. In: COSTA, C. R. R.; ARAUJO, M. R.; OLIVEIRA, E. C. (orgs.). Currículo e ensino de Geografia: métodos, conceitos e metodologias nas práticas de ensino. Teresina: EdUESPI, 2024. p. 67-90.
  • CASTELLAR, S. M. V.; PEREIRA, C. M. R. B.; GUIMARÃES, R. B. For a powerful geography in the brazilian national curriculum. In: CASTELLAR, S. M. V; GARRIDO-PEREIRA, M.; LACHE, N. M. (Org.). Geographical reasoning and learning: perspectives on curriculum and cartography from South America. Switzerland: Springer, 2021. p. 15-31.
  • HANSON, S. The Geography of Urban Transportantion. Nova York: Guilford Publications, 2004.
  • STRAFORINI, R. O ensino de Geografia como prática espacial de significação. Estudos Avançados, v. 32, n. 93, 2018, p. 175-195.
  • STRAFORINI, R.; CANTO, T. S.; AMORIM, R. R. Apresentação e dados estatísticos. In: ENCONTRO NACIONAL DE PRÁTICA DE ENSINO EM GEOGRAFIA, 14, 2019, Campinas. Anais […]. Campinas: Unicamp, 2019. p. 43-53. Disponível em: https://ocs.ige.unicamp.br/ojs/anais14enpeg/index . Acesso em: 10 out 2024.
    » https://ocs.ige.unicamp.br/ojs/anais14enpeg/index
  • TUAN, Y. Language and the Making of Place: A Narrative-Descriptive Approach. Annals of the Association of American Geographers, v. 81, n. 4, 1991, p. 684-696.

Editado por

  • Editora responsável:
    Paula Julia

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    20 Jun 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    20 Nov 2024
  • Aceito
    8 Dez 2024
location_on
Universidade de São Paulo Av. Prof. Lineu Prestes, 338 - Cidade Universitária, Cep: 05339-970 Tels: 3091-3769 / 3091-0297 / 3091-0296 - São Paulo - SP - Brazil
E-mail: revistageousp@usp.br
rss_feed Acompanhe os números deste periódico no seu leitor de RSS
Ir para o topo Reportar erro