Open-access Xenofobia institucionalizada: processos migratórios e o imaginário do outro na era Trump

Institutionalized xenophobia: migratory processes and the imaginary of the other in the Trump era

RESUMO

Este artigo analisa as políticas migratórias do governo Trump com base nos conceitos de imaginário social e processos migratórios. Apoia-se em autores clássicos dos estudos migratórios que compreendem a migração como fenômeno estrutural e identitário, e em teóricos do imaginário que refletem sobre a construção simbólica do outro, que, em certos cenários, é apresentado como ameaça. Argumenta-se que as medidas adotadas pelo governo estadunidense, como o fortalecimento da militarização das fronteiras e a intensificação das deportações, foram sustentadas por discursos xenofóbicos que reforçam fronteiras simbólicas. O artigo conclui que essas políticas não visaram apenas ao controle territorial, mas também à manutenção de um imaginário de medo, nacionalismo e exclusão, alimentado pelas medidas adotadas pelo governo Trump.

PALAVRAS-CHAVE
processos migratórios; imaginário; xenofobia; políticas de exclusão; governo Trump

ABSTRACT

This article analyzes the migration policies of the Trump administration based on the concepts of social imaginary and migratory processes. It draws on classical migration studies authors who understand migration as a structural and identity phenomenon, as well as theorists of the imaginary who reflect on the symbolic construction of the other, who in certain contexts is portrayed as a threat. It is argued that the measures adopted by the U.S. government, such as the strengthening of border militarization and the intensification of deportations, were supported by xenophobic discourses that reinforce symbolic boundaries. The article concludes that these policies aimed not only at territorial control but also at maintaining an imaginary of fear, nationalism, and exclusion, fueled by the actions of the Trump administration.

KEYWORDS
migratory processes; imaginary; xenophobia; exclusionary policies; Trump administration

INTRODUÇÃO

Tanto na campanha presidencial dos Estados Unidos em 2024 quanto em seu discurso de posse para o segundo mandato, Donald Trump adotou uma retórica anti-imigração, apresentando-se como o protetor da nação norte-americana. “Invocando a Lei de Inimigos Estrangeiros de 1798, ordenarei ao nosso governo que use todo o imenso poder das forças de segurança federais e estaduais para eliminar a presença de todas as gangues estrangeiras e redes criminosas que trazem crimes ao nosso solo1, disse no dia 20 de janeiro ao tomar posse. Desde então, uma série de declarações e medidas foram adotadas tanto no sentido de intensificar o controle das fronteiras e restringir a concessão de vistos quanto de reforçar simbolicamente a ideia de um nós nacional homogêneo ameaçado por um outro estrangeiro e perigoso. Essas ações não apenas alimentam o imaginário coletivo em torno da figura do imigrante como inimigo, mas também contribuem para a construção de narrativas políticas e midiáticas que legitimam práticas de exclusão e xenofobia sob o pretexto da segurança nacional (Bauman, 2017).

Destarte, o objetivo geral é analisar as principais ações do presidente dos Estados Unidos nos três primeiros meses após sua posse, com ênfase nas medidas anti-imigração e em seus impactos sobre o imaginário social. Esse recorte justifica-se por abranger o início do segundo mandato, momento em que diretrizes políticas tendem a ser reafirmadas com maior ênfase, constituindo um intervalo estratégico para observar discursos e seus desdobramentos na agenda anti-imigração. A relevância do estudo ultrapassa o contexto estadunidense, considerando que políticas e discursos de grandes potências influenciam narrativas globais. No Brasil, essa influência se manifesta no fortalecimento de discursos xenofóbicos e nacionalistas, especialmente na extrema-direita, em que a retórica anti-imigração de Trump contribui para a construção de um imaginário de insegurança que associa o imigrante a uma figura de ameaça.

Estudar essas dinâmicas a partir do olhar de pesquisadores brasileiros é, portanto, fundamental para compreender como narrativas midiáticas internacionais moldam a percepção social e política local, além de refletir sobre as implicações de políticas de exclusão. O fortalecimento da retórica anti-imigração, embora característico da administração Trump, não se restringe aos Estados Unidos, articulando-se a um movimento mais amplo do qual o Brasil, com crescente adesão a pautas nacionalistas, também participa, evidenciando a ascensão da xenofobia e da exclusão social. Assim, ao explorar essas ações, o artigo busca não apenas analisar práticas de exclusão e criminalização do imigrante, mas também refletir sobre o papel das representações midiáticas na formação do imaginário social e na legitimação de práticas discriminatórias.

Assim, o problema de pesquisa que orienta este estudo é: de que maneira as declarações e políticas anti-imigração do presidente Trump, nos primeiros meses de seu segundo mandato, contribuem para a constituição de um imaginário excludente sobre a figura do imigrante? Para responder ao questionamento, primeiramente é feito um mapeamento de tais ações de Trump relacionadas à questão da imigração. Em um segundo momento, são feitas reflexões sobre essa postura, relacionando-as com a ideia de imaginário. Por fim, tais medidas são analisadas a partir de autores que abordam processos migratórios, como Bauman (2017), Hall (2009) e Sayad (1998).

Do ponto de vista metodológico, trata-se de uma pesquisa qualitativa, de caráter teórico-analítico, ancorada em uma abordagem interpretativa (Martino, 2018). O corpus é composto por declarações públicas, medidas institucionais e conteúdos midiáticos sobre as políticas migratórias do governo Trump, selecionados conforme sua relevância e repercussão no debate público. A análise orienta-se por uma leitura discursiva, com foco na identificação de enunciados recorrentes, de suas condições de circulação e das estratégias de produção de sentido mobilizadas. Busca-se, assim, compreender como tais discursos estruturam narrativas sobre a migração e contribuem para a formação de um imaginário social em torno da figura do imigrante. Esse procedimento articula material empírico e referencial teórico, visando conferir consistência analítica e explicitar os critérios interpretativos adotados.

TRUMP E O COMBATE À IMIGRAÇÃO: DA CAMPANHA ELEITORAL DE 2016 ÀS PRIMEIRAS AÇÕES XENOFÓBICAS DO SEGUNDO MANDATO PRESIDENCIAL

Antes de apresentar as declarações e medidas de Trump, contextualizamos brevemente três situações que exemplificam a prioridade que o político tem dado ao tema ao longo de sua trajetória dentro do Partido Republicano, funcionando como elementos interpretativos para compreender a construção de um imaginário excludente em torno da figura do imigrante. A primeira é a construção do muro para separar os Estados Unidos do México, um dos pilares de sua campanha em 2016. Na época, Trump defendia que a barreira física conteria a imigração ilegal e impediria a entrada de criminosos pela fronteira sul. Chegou a afirmar que o México arcaria com os custos da obra, o que nunca se concretizou. Ao longo do primeiro mandato, o governo americano construiu cerca de 724 km de barreiras, em sua maioria reforços ou substituições de estruturas preexistentes. A construção enfrentou diversos entraves legais, ambientais e orçamentários, além de críticas por sua eficácia limitada, alto custo e impacto ambiental negativo. Felbab-Brown (2017), do Brookings Institution, em uma extensa reportagem multimídia, detalha mapas, imagens, entrevistas e bastidores que evidenciam limitações, ineficácia e custos do projeto, desmistificando a ideia de que a fronteira é uma via de mão única para a criminalidade: “Cerca de 70% das armas de fogo apreendidas no México entre 2009 e 2014 tiveram origem nos Estados Unidos2”, aponta o repórter. Nesse sentido, a construção do muro ultrapassa sua dimensão material e pode ser compreendida, à luz de Bauman (2017), como uma estratégia simbólica de produção de fronteiras entre um “nós” a ser protegido e um “outro” associado à ameaça. Ao mesmo tempo, sua ampla cobertura midiática contribui para a circulação e naturalização desse imaginário no debate público.

Após perder a eleição de 2020 para Joe Biden, Trump se candidata para o pleito de 2024 e, dessa vez, o foco é ampliado para os imigrantes de maneira geral. No debate com a candidata do Partido Democrata, Kamala Harris, transmitido pela ABC News, ele enfatizou: “Em Springfield, eles [imigrantes] estão comendo os cachorros. Eles estão comendo os gatos. Comendo os pets das pessoas que moram lá”. Conforme reportagem do site G13, em seguida, o mediador da ABC News afirmou que a informação era falsa, ao que ele rebateu, dizendo que havia visto na televisão tal notícia, sem especificar em qual rede ou canal. Além disso, durante toda a campanha, a conta oficial de Trump no Instagram compartilhou diversas imagens xenofóbicas, sendo que uma das mais replicadas é a seguinte, que diz na legenda: “Conheça seus novos vizinhos se Kamala vencer”.

FIGURA 1
Postagem durante a campanha eleitoral de 2024.

Para além da questão do imaginário, discutida no próximo tópico, essa imagem reforça uma perspectiva orientalista em seu sentido mais amplo, estigmatizando indivíduos oriundos do que o Ocidente chama de Oriente, apresentando-os como “irracionais, depravados, infantis, diferentes”, em contraste com um Ocidente “racional, virtuoso, maduro, normal” (Said, 2007, p. 73). Ao reiterar essa representação historicamente construída pelas narrativas ocidentalizadas, a imagem busca legitimar as medidas anti-imigração prometidas por Trump durante sua campanha. Afinal, como afirma Said (2007, p. 74), “o orientalismo é o conhecimento do Oriente que coloca as coisas orientais na aula, no tribunal, na prisão ou no manual, para escrutínio, estudo, julgamento, disciplina ou governo”. Além disso, a circulação dessas declarações e imagens em ambientes digitais evidencia o papel das plataformas e das narrativas midiáticas na amplificação e legitimação de discursos xenofóbicos, aspecto central para compreender sua difusão contemporânea.

Por fim, o terceiro episódio, embora situado fora do recorte temporal estrito dos três primeiros meses do segundo mandato, é mobilizado aqui como elemento contextual, por evidenciar a continuidade e o aprofundamento da política anti-imigração da Casa Branca. Trata-se da prisão da juíza Hannah Dugan, em Wisconsin, no final de abril de 2025, intensificando a repressão à imigração e a quem se opõe à política de Trump4. Acusada de obstrução durante uma operação de fiscalização, Dugan ficou no centro de um debate sobre as ações federais contra autoridades locais que não colaboram com as políticas de imigração de Trump. Esse caso ressoa com a construção do muro na fronteira com o México e a criminalização de estrangeiros, especialmente latinos e orientais, como “ameaças” à segurança e à ordem social. As políticas de Trump, que visam deslegitimar imigrantes e reforçar um imaginário xenofóbico, abordado mais adiante, são exemplificadas neste confronto, em que se busca criminalizar qualquer resistência.

Nesse sentido, o discurso de posse realizado no dia 20 de janeiro confirmou a continuidade da retórica nacionalista e excludente do primeiro mandato, reiterando o compromisso do presidente norte-americano com o endurecimento das políticas migratórias, a construção de barreiras físicas e legais contra a entrada de estrangeiros e a associação entre imigração e ameaça à segurança nacional. Tal posicionamento, sustentado por uma lógica de securitização, explorada na análise, reforça a centralidade do tema migratório como eixo estruturante do projeto político de Trump. Na tabela a seguir, apresentamos os principais pontos destacados no discurso de posse5.

TABELA 1
Principais abordagens sobre imigração no discurso de posse do presidente norte-americano, Donald Trump.

Tal discurso serve como fio condutor das demais medidas e narrativas discutidas anteriormente, ecoando a retórica do muro contra o México, criminalizando imigrantes — especialmente não europeus — e legitimando ações repressivas como a prisão de autoridades locais que se opõem à política federal. Assim, o discurso de posse sintetiza e impulsiona a lógica de exclusão e securitização que estrutura sua política migratória. Sob a perspectiva da análise discursiva, observa-se que tais enunciados operam por meio de uma lógica de securitização, na qual a imigração é construída como ameaça, legitimando medidas excepcionais. Essa construção discursiva, amplamente mediada e difundida por veículos de comunicação, contribui para consolidar um imaginário social pautado no medo e na exclusão.

Além do discurso, já no primeiro dia de mandato, Trump assinou uma ordem executiva que suspendeu temporariamente o programa de admissão de refugiados nos Estados Unidos, além de revisar as políticas de imigração para reforçar a segurança nas fronteiras. O texto da medida fala em proteger o país contra ameaças internas e fortalecer a vigilância de novos imigrantes. “O governo Trump quer garantir que todos os imigrantes que entram no país passem por uma verificação mais rigorosa6”. Outra medida tomada no dia 20 de janeiro foi a revogação de Programas de Parole (autorização temporária para entrada ou permanência no país, mesmo sem atender aos requisitos formais) com restrições a imigrantes de Cuba, Nicarágua, Haiti e Venezuela. Tal medida7” reflete um viés xenofóbico, ao discriminar especificamente grupos de imigrantes provenientes de países latino-americanos e caribenhos, reforçando a ideia de que suas necessidades humanitárias não são suficientemente válidas para a concessão de abrigo temporário nos Estados Unidos.

Já no dia 29 de janeiro, Trump anunciou que ordenaria ao Pentágono e ao Departamento de Segurança Interna a preparação de uma instalação de detenção de imigrantes na Baía de Guantánamo, com capacidade para até 30.000 pessoas. Trump declarou que a instalação seria usada para “prender os piores criminosos ilegais que ameaçam o povo americano”, explicando que alguns desses indivíduos seriam tão perigosos que os Estados Unidos não confiariam nos países de origem para mantê-los sob custódia. O secretário de Segurança Interna, Tom Homan, afirmou que o centro seria destinado aos “piores dos piores” (Mason; Ali; Hesson, 2025). Conforme a reportagem de Mason, Ali e Hesson (2025) para a Reuters, a medida foi criticada por grupos de direitos humanos e líderes internacionais, como o presidente cubano Miguel Díaz-Canel, que a chamou de “ato de brutalidade”.

Em fevereiro, no dia 20, mais uma medida: foi feita a designação de gangues como organizações terroristas. Na ocasião, Trump emitiu uma ordem executiva designando as gangues MS-13 (El Salvador) e Tren de Aragua (Venezuela) como organizações terroristas, permitindo que o governo federal bloqueasse os ativos financeiros dessas organizações e interrompesse suas operações. A justificativa para a ação era combater a imigração associada ao crime organizado. “Os cartéis e outras organizações transnacionais ameaçam a segurança do povo americano, a segurança dos Estados Unidos e a estabilidade da ordem internacional no Hemisfério Ocidental8”, diz o texto, associando novamente a imagem de imigrantes latinos ao crime organizado.

Inclusive, assim como no primeiro mandato, Trump seguiu investindo no controle da fronteira com o México. No dia 11 de abril de 2025, o Washington Post publicou uma grande reportagem do repórter Dan Lamothe que evidencia a intensificação da militarização da mesma área onde Trump iniciou a construção de um muro em 2016. Conforme a apuração, a mobilização de cerca de 10 mil soldados e veículos blindados transformou a fronteira em uma zona de operação militar. A ação integra uma estratégia que reforça a lógica de guerra contra a imigração, novamente associando migrantes à criminalidade e ao terrorismo, ao passo que normaliza a presença de tropas em funções de vigilância interna — o que mais uma vez levantou questionamentos sobre a legalidade e a legitimidade da medida. O sargento Carlos Zamora, veterano de combates no Oriente Médio, destacou ao repórter como a presença dos blindados tem efeito dissuasório:

Desde que os Strykers foram introduzidos, vimos mais retornos do que qualquer outra coisa. […] Eles mudam de ideia assim que percebem o veículo blindado na encosta. Estamos operando com equipamentos que normalmente seriam usados em zonas de guerra, rastreando movimentações humanas e de narcóticos, observando a atividade dos cartéis e enviando uma mensagem clara de que o status quo mudou. […] Ainda que não possamos deter migrantes diretamente, a missão pode se complicar. Temos rifles e o direito de nos defender caso a situação se torne perigosa

(Lamothe, 2025).

A declaração ilustra como a política de segurança de Trump projeta o imigrante como um inimigo externo, especialmente quando se trata de populações vulneráveis, tratando os migrantes como alvos militares, reforçando o imaginário de um imigrante ameaçador que é combatido por um político protetor, conforme será aprofundado adiante. Em conjunto, essas medidas e declarações evidenciam uma articulação entre práticas institucionais e estratégias discursivas, nas quais a produção de sentido sobre o imigrante como ameaça não ocorre apenas no plano político, mas também na esfera comunicacional, por meio da circulação e legitimação dessas narrativas.

Por fim, as políticas de imigração implementadas pelo governo Trump afetaram significativamente os brasileiros nos Estados Unidos. Entre janeiro e abril de 2025, durante os primeiros três meses de seu segundo mandato, ocorreram dois voos de deportação, resultando na remoção de 199 brasileiros — número que mais que dobrou em relação ao mesmo período sob a administração de Joe Biden. O primeiro voo ocorreu em 24 de janeiro, com escala em Manaus antes de seguir para Belo Horizonte. O segundo voo aconteceu em 7 de fevereiro, pousando em Fortaleza antes de continuar até a capital mineira. A utilização de aeronaves militares para transportar os brasileiros algemados — a exemplo do que aconteceu com imigrantes de outros países latinos — gerou críticas do governo do Brasil, intensificando o estigma em torno do imigrante brasileiro. Essa criminalização foi rapidamente apropriada por grupos de extrema direita no Brasil, conforme demonstrado pela análise dos empresários Bailez e Fakhouri, fundadores da Palver, empresa de inteligência de dados. Ao monitorarem quase 100 mil grupos de WhatsApp e Telegram durante o processo de deportação, os autores destacam em texto publicado na Folha de S.Paulo que os discursos nesses grupos reforçam a estigmatização do estrangeiro, notando que as publicações afirmam que os deportados brasileiros são “filhotes de Lula”, defendendo que “todos os que estavam sendo expulsos dos Estados Unidos são bandidos perigosos e criminosos, merecendo, portanto, o tratamento rigoroso” (Bailez; Fakhouri, 2025). Diante disso, os autores refletem: “A estigmatização dos deportados faz parte de um processo psicológico de dissonância cognitiva, permitindo que a direita brasileira, após apoiar a eleição de Trump, aceite o fato de que as medidas do novo governo podem ser negativas para os brasileiros”.

Após a sistematização das ações de Trump nos três primeiros meses de seu segundo mandato, a análise a seguir será organizada em duas etapas. Primeiramente, será realizada uma reflexão sobre o imaginário, considerando os preceitos teóricos de autores que abordam a temática. Em seguida, serão discutidos os processos migratórios, com base em Bauman (2017), Hall (2009) e Sayad (1998). Por fim, nas considerações finais, será feita uma articulação entre as duas perspectivas: a dos processos migratórios e a do imaginário, permitindo uma compreensão mais ampla dos efeitos das políticas migratórias de Trump, tanto no contexto das práticas de deportação quanto nas percepções e discursos que circulam na sociedade brasileira.

O IMAGINÁRIO COMO FORÇA SOCIAL: A CONSTRUÇÃO DO “OUTRO” E SUAS TECNOLOGIAS SIMBÓLICAS

Falar de imaginário não significa se remeter a uma noção imaginária. Trata-se de um instrumento de análise, especialmente relevante para compreender processos comunicacionais e disputas simbólicas na esfera pública contemporânea. Na prática, ou seja, na passagem da teoria a uma possível aplicabilidade, trata-se de admitir que o ser humano se move e é movido por forças que se situam aquém ou além da racionalidade pura, um mundo de imagens, ideias, afetos, emoções e reservas simbólicas que atua como reservatório de experiências sensíveis e como motor de ações cotidianas dotadas de significação. O imaginário é um ponto sensível que, quando tocado, abre as portas do ser ao outro como emulador de sentidos.

De certo modo, o outro, a alteridade, o não-eu, é sempre construído imaginariamente. Gilbert Durand, em As estruturas antropológicas do imaginário (2012, p. 38), define:

O imaginário nada mais é do que o trajeto no qual a representação do objeto deixa-se assimilar e modelar pelos imperativos pulsionais do sujeito e no qual reciprocamente, como magistralmente mostrou Piaget, as representações subjetivas se explicam pelas acomodações anteriores do sujeito em relação ao meio objetivo.

Sujeito e meio se interpenetram. O meio infiltra-se no sujeito, que banha esse meio com suas pulsões anteriores. Em outro momento, Durand precisará o funcionamento desse processo de mão dupla permanente em que um elemento irriga e pressiona o outro sem trégua nem ruptura. O imaginário é um rio caudaloso oprimido por suas margens cujas águas forçam os limites que as contêm, forjando novos desenhos, novos leitos, novas geografias simbólicas e subjetivas.

Para Durand (2012, p. 461), “se os meninos europeus brincam de caubói e de índios é por que toda uma literatura de revistas em quadrinhos habilitou o arquétipo da luta, dos trajes históricos e cultural de Búfalo Bill e de Olho de Falcão”. Pode-se, a partir daí, falar em tecnologias do imaginário. Quando Donald Trump designa o imigrante como um intruso, opera discursivamente sobre o imaginário social, forçando o traço da sua caricatura. Para ele, não se trata de produzir uma nova visão sobre o estrangeiro, mas de remexer em antigos e enraizados preconceitos para ativar o medo do outro, um modo alimentado secularmente. Essa conduta astuta acende temores e preconceitos grupais passados de geração em geração. É um processo social cujas fontes se perdem no tempo e na psique das sociedades.

Vale lembrar que, para Michel Maffesoli (2001), discípulo de Gilbert Durand, o imaginário é sempre social, ou seja, compartilhado, vivido em grupo, tribo, conjunto, comunidade e afins. O imaginário permanece uma dimensão ambiental, uma matriz, uma atmosfera, aquilo que Walter Benjamin chama de aura. O imaginário é uma força social de ordem espiritual, uma construção mental, que se mantém ambígua, perceptível, mas não quantificável. Essa força social mobilizadora pode ser positiva ou negativa. Essa construção mental pode ser realimentada por ressentimentos multisseculares. Talvez, em tempos de redes sociais, o imaginário já não seja tão imensurável. Importante, contudo, neste ponto, é a afirmação do imaginário como força mental, simbólica e simboliza, capaz de mobilizar pequenos ou grandes grupos humanos, arrastando-os para a catarse ou para o ódio.

Há um imaginário do ódio assim como há um imaginário do outro. Não raras vezes, o imaginário do outro é um imaginário do ódio: o outro como o bárbaro que cerca a civilização, o monstro que ameaça a ordem, o estranho que pode romper a consistência da comunidade homogênea. Para Dominique Wolton, o outro é sempre o problema, aquele que deve ser responsabilizado pelos fracassos de cada um, designado como o culpado geral até por derrotas particulares:

Quanto tempo se levará para atingir um mínimo de convivência entre os seres humanos, uns com os outros, entre as sociedades? Em resumo, toda questão de muros e fronteiras faz eco à da comunicação. A questão é sempre a mesma com ou sem muros: negação do outro ou convivência com ele? Qual é o grau de igualdade e de respeito pelas diferenças? Em outras palavras, há tantos muros e fronteiras quanto há modos de comunicação. Ambos são obstáculos à comunicação e também a condição incontornável da relação com o outro. Assim como interação não é comunicação, a existência de muros e fronteiras não impede trocas

(Wolton, 2023, p. 20).

O outro como inimigo permanente pode ser muito conveniente caso se considere a hipótese de Michel Maffesoli segundo a qual o imaginário atual valoriza o nós em lugar do eu. Para o sociólogo francês da pós-modernidade, o mundo vive uma era do nós, que é “oposto do individualismo moderno” (2024, p. 110). No entanto, Maffesoli entende que “é a partir da alteridade que existimos”. Em suas aulas no Anfiteatro Émile Durkheim, na Sorbonne, antiga Universidade Paris V René Descartes, Maffesoli relativiza as suas propostas com um para bem ou para mal. O nós do estar-junto que faz comunidade e tribo pode ser usado para mal. Trump aposta em “nós contra eles”, mobilizando uma gramática comunicacional de polarização, fazendo do outro um sparring involuntário. Ao insistir na tecla do nós, cuja ressonância é perceptível, potencializa a força arquetipal de desejo de comunhão, a dos bons contra os maus, dos cidadãos contra os ilegais, dos americanos contra os latinos, a conjunção dos dentro contra os de fora.

O corpo social pode ser massageado ludicamente em conjunção com o diferente. Ou provocado a sentir-se uno e coeso na rejeição a um outro apontado como perigoso e do qual a comunidade deve proteger-se sob suposto risco de decomposição. Essa estratégia não é nova, sendo historicamente reatualizada por diferentes meios de comunicação e regimes de visibilidade. Ela está na base do fascismo europeu do século XX. O outro como fator de unificação interna faz parte do arsenal dos chefes de Estado em busca de um ímã capaz de concentrar todas as energias internas em si. Nesse sentido, as pulsões subjetivas encontram-se com as intimações objetivas, levando sujeito e meio a compartilharem um pretenso mesmo objetivo vital. Trump sabe que, quanto mais eleva o tom, mais traz para o centro da meta uma população ansiosa por um polo de identificação, reunião, comunhão, compartilhamento de emoções e de anseios.

Dominique Wolton acredita na superação da rejeição ao outro como um processo de educação política, o que não deixa de ser, embora ele não trabalhe com tal noção, uma alteração de imaginário. A história moderna da constituição do Estado-nação é a história da afirmação de um nós sólido, baseado com frequência, mas não sempre, em língua, território e uma história de fundação, inclusive em contextos como o brasileiro, onde tais matrizes simbólicas são reapropriadas e ressignificadas historicamente. Por vezes, como o espanhol na América Latina, a língua é a mesma para muitos países. A narrativa de fundação, ainda que com muitos elementos de similaridade, gera a crença numa singularidade, que acaba por se tornar uma singularidade de destino. Cada Estado-nação conta para os seus habitantes uma história que atualiza o mito da fundação, reforça o papel do herói fundador e fortalece o «nós» nacional. Na história da América Latina, estava em jogo a libertação do jugo das metrópoles. Era o começo da luta contra o colonialismo, cujos rastros persistem no imaginário do universal europeu como universal total.

Como a história não avança linearmente em direção a um mundo de igualdade e paz, os sobressaltos históricos produzem medo. Wolton (2023, p. 22) alerta:

Os seres humanos facilmente se fecham em guetos para se “proteger” dos outros, quando muitas vezes é “de si mesmos” que desejam se proteger. Desse ponto de vista, as desigualdades, num mundo onde tudo é visível, podem tornar-se um grande fator de ódio e exclusão ou, ao contrário, um acelerador da consciência da obrigação de aprender a conviver.

Infelizmente pode acontecer também que o medo de perder privilégios ou a perda de vantagens internas por diferentes razões leve ao fechamento em um “nós” refratário ao outro, especialmente ao estrangeiro. Donald Trump não estimula o aprendizado da convivência. Ele parece preferir os caubóis contra os índios. A ideia de imaginário não remete necessariamente a um espaço de teorização abstrato nem se coloca à margem da racionalidade científica. Trata-se, antes de tudo, de rastrear elementos concretos enraizados na subjetividade social, como enxergar no caubói o polo civilizador ou não conseguir desconstruir inteiramente algum grau de identificação com esse personagem da narrativa por assimilação das suas mensagens através das tecnologias do imaginário massivas, entre as quais os filmes de faroeste e os gibis centrados na “conquista do Oeste” dos Estados Unidos. Gerações foram cevadas na mitologia do branco conquistador e civilizador do Novo Mundo.

Falar de imaginário é também falar de mito. O centenário Edgar Morin, em Só um instante (2025, p. 23-24), aponta o combate principal a ser travado:

A luta contra o erro passa pela localização dos mitos que nos movem, mas não pode ser “desmistificação”, “desmitificação” nem “desideologização”. A eliminação do mito só pode ser uma ilusão. Os mitos, como o imaginário, fazem parte da realidade humana. O verdadeiro problema está em reconhecer o caráter mítico dos nossos mitos, de vê-los como tal, e de fazer a nossa racionalidade dialogar com nossos mitos.

Quando os mitos são tomados literalmente, por ignorância ou manipulação, o núcleo da narrativa pode ser convertido em arma de exclusão como dispositivo de fortalecimento interno contra a desagregação produzida pelo afrouxamento dos laços corroídos pelo tempo, seja por transformações tecnológicas, seja por mutações sociais, evolução da ciência e do conhecimento, alterações na rede de parcerias econômicas ou irrupção de elementos imprevistos na teia histórica de um determinado momento.

Nesse sentido, o imaginário não opera de forma difusa ou espontânea, mas é constantemente ativado, reorganizado e amplificado por práticas discursivas e midiáticas. No caso analisado, a construção do outro como ameaça não emerge apenas de predisposições culturais, mas de sua mobilização estratégica no campo da comunicação política. É nesse ponto que o imaginário deixa de ser apenas um conceito analítico e se revela como operador central na produção de sentidos, afetos e posicionamentos sociais.

PROCESSOS MIGRATÓRIOS E AS PRÁTICAS EXCLUDENTES DO GOVERNO TRUMP

Nos anos 1990, o jornalista, escritor e professor Sergio Vilas Boas, em sua obra Os estrangeiros do trem N, vencedora do Prêmio Jabuti de 1998 na categoria reportagem, narra a vida dos imigrantes brasileiros nos Estados Unidos que estavam sem a documentação de permanência no país. Ao seguir a trajetória dos personagens principais, o autor oferece uma reflexão sobre as motivações que levam os brasileiros a deixar tudo para trás no Brasil e tentar uma vida melhor no país do hemisfério Norte, elementos que ajudam a problematizar as narrativas simplificadoras frequentemente mobilizadas no discurso político contemporâneo sobre imigração.

Assim como Angél Benadski, e provavelmente como a grande maioria dos imigrantes brasileiros nos Estados Unidos, Plínio bate na tecla do desemprego para explicar por que resolveu escapulir rumo à Terra do Tio Sam. Quando desembarcou no Aeroporto Galeão, no Rio de Janeiro, para conexão internacional, Plínio estava quase completando dois anos sem emprego fixo. Para um sujeito no clímax da idade economicamente ativa, e num país de economia estagnada, dois anos fora do mercado significava o fim

(Vilas Boas, 1997, p.44).

Esses relatos evidenciam um dos principais impulsos da migração: a busca por melhores condições de vida, frequentemente associada a crises econômicas e à falta de mobilidade social. Em contraste com justificativas recorrentes das políticas de controle migratório, como o combate ao crime e ao terrorismo, o governo Trump direciona-se sobretudo a imigrantes em situação de vulnerabilidade, reforçando dinâmicas de estigmatização e exclusão.

Sayad (1998) analisa esse processo ao destacar que o imigrante é reconhecido apenas por sua função produtiva, sendo reduzido à sua capacidade de gerar lucro: “Imigração e imigrantes só têm sentido e razão de ser se [...] apresentar um saldo positivo” (Sayad, 1998, p. 55). Mesmo quando esse saldo é positivo, permanecem como força de trabalho provisória: “eles são vistos essencialmente como uma força de trabalho [...] temporária, em trânsito” (Sayad, 1998, p. 54). Essa lógica é amplificada por Trump, ao tratar imigrantes como ameaças ou cargas descartáveis, legitimando práticas repressivas também no plano simbólico. Medidas como a revogação de programas de apoio, a ampliação de detenções e a classificação de gangues como terroristas reforçam a construção de um inimigo externo e a posição do Estado como protetor da nação.

Esse antagonismo entre “de dentro” e “de fora” é central em Bauman (2017), que, em Estranhos à nossa porta, analisa a exclusão a partir da metáfora da porta fechada, na qual o imigrante é constituído como o outro a ser rejeitado e mantido do lado de fora.

Refugiados da bestialidade das guerras, dos despotismos e da brutalidade de uma existência vazia e sem perspectiva têm batido à porta de outras pessoas desde o início dos tempos modernos. Para quem está por trás dessas portas, eles sempre foram – como são agora – estranhos. Estranhos tendem a causar ansiedade por serem ‘diferentes’ – e, assim, assustadoramente imprevisíveis, ao contrário das pessoas com as quais interagimos todos os dias e das quais acreditamos saber o que esperar

(Bauman, 2017, p. 13-14).

A figura do imigrante como ameaça externa é central para a retórica de Trump, sendo mobilizada para alimentar o medo e justificar políticas de fechamento, como a construção de muros e a militarização das fronteiras. A perspectiva de Bauman sobre o medo do diferente — ou a mixofobia — é diretamente aplicável a esse contexto, marcado pelo “medo provocado pelo volume irrefreável do desconhecido, inconveniente, desconcertante e incontrolável” (Bauman, 2017, p. 15). Em linha semelhante, ElHajji (2023, p. 230) afirma que o migrante representa “o exterior e contrário” da sociedade, sendo simbolicamente constituído como antagonista dos nativos. Nesse sentido, Trump explora o polo negativo dessa representação, no qual “a figura do estrangeiro [...] provoca medo e repulsa” (ElHajji, 2023, p. 231).

Bauman (2017, p. 70) também observa que a expressão “crise migratória” funciona como um “codinome, tão vago quanto ameaçador”, operando como dispositivo de produção de medo e legitimação de políticas excludentes. Ao instrumentalizar esse imaginário, Trump atua como agente de ativação de ansiedades coletivas, especialmente ao associar imigrantes — sobretudo os em situação sem documentação — à criminalidade e à desordem. Como aponta Bauman (2017), tais narrativas ganham força ao mobilizar uma classe social insegura quanto à sua posição, que passa a perceber a exclusão dos estrangeiros como forma de proteção e estabilidade.

A relação entre migração e xenofobia pode ser também compreendida a partir do conceito de diáspora de Hall (2009), que vê a identidade como um fenômeno dinâmico e não essencialista. Ao contrário da visão rígida e excludente de Trump, que busca fechar fronteiras e reforçar identidades fixas, Hall sugere que a identidade e a diferença não podem ser reduzidas a binarismos, sendo processos fluidos e relacionais. “A diferença que não funciona através de binarismos” (Hall, 2009, p. 33) é a chave para compreender as dinâmicas culturais em movimento, que desafiam as tentativas de Trump de controlar as fronteiras físicas e ideológicas. Além disso, Hall (2009) destaca como as tecnologias digitais contemporâneas alteraram as relações de poder entre migrantes e nações receptoras. Os imigrantes, hoje, mantêm conexões transnacionais que desafiam as noções de identidade nacional fixa, algo que Trump tenta ignorar ao construir um discurso de pureza cultural. No entanto, como aponta Hall (2009, p. 35), “uma produção de novas identidades culturais” é uma característica inevitável da globalização, o que desafia diretamente a visão excludente e nacionalista do presidente estadunidense, especialmente no contexto de circulação ampliada de discursos e identidades nas redes e nos meios de comunicação.

Por fim, as políticas migratórias de Trump, que incluem a construção de muros e a deportação de imigrantes, refletem uma tentativa de ressuscitar um modelo colonial de exclusão, em que as migrações são vistas como ameaças à identidade nacional. Esse modelo é radicalmente oposto ao conceito de processo híbrido de identidade de Hall (2009), no qual as culturas não são fixas, mas se transformam continuamente por meio do contato e da troca. Nesse contexto, a xenofobia do governo Trump não é apenas um reflexo de suas políticas de imigração, mas também uma tentativa de manipulação estratégica do imaginário coletivo por meio de discursos políticos e midiáticos. Como afirma Bauman (2017),

confiar na onipotência de um tirano, assinala Reich, é um “sonho impossível”, e a obtenção por Trump dessa confiança é um “truque de mágica”. A rejeição de ambos por Reich é, evidentemente, correta. Da mesma forma, a união da “classe ansiosa” em torno de um mágico que ilude seus integrantes, fazendo-os acalentar os sonhos impossíveis que lhe propõe, não é necessariamente predeterminada e inevitável

(Bauman, 2017, p. 51).

Portanto, as medidas de Trump não apenas buscam controlar fluxos migratórios, mas também construir um imaginário coletivo de medo e exclusão — um ilusionismo — reforçando uma narrativa que utiliza o outro como inimigo que deve ser excluído. A xenofobia do governo Trump, alimentada por um medo irracional do diferente, estabelece fronteiras não apenas físicas, mas também simbólicas, que buscam preservar uma ideia homogênea de América para os americanos. Destarte, a seguir, é apresentada a análise das medidas de Trump sob a perspectiva do conceito de imaginário, com foco na construção de narrativas discursivas e midiáticas que reforçam a xenofobia como um pilar central de sua agenda política, desafiando os pressupostos de convivência multicultural e globalização.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os três primeiros meses do segundo mandato presidencial de Donald Trump — recorte deste artigo — permitiram evidenciar, a partir de uma análise comunicacional e simbólica, o avanço de ações que institucionalizam a xenofobia no país economicamente e militarmente mais poderoso do mundo. Até o último dia de sua presidência, as determinações oficiais e os discursos preconceituosos, que alimentam e ressuscitam imaginários opressores em ampla parcela da população estadunidense — e que reverberam para outras partes do globo —, seguiram sendo registrados. Para ilustrar, em maio de 2025, o governo Trump suspendeu as entrevistas para a concessão de vistos a estudantes, medida que, como tantas outras, não apenas afeta diretamente países como o Brasil, mas também encontra ressonância entre grupos de extrema direita em toda a América Latina.

Como ressaltado ao longo deste estudo, ao adotar tais medidas e proferir discursos de cunho preconceituoso e persecutório contra imigrantes, Trump reativa o ódio ao outro por meio de estratégias discursivas que mobilizam afetos e reforçam enquadramentos negativos sobre o estrangeiro, perspectiva esta que sustentou regimes fascistas ao longo do século XX. Não se trata, portanto, de uma abordagem inédita sobre o estrangeiro, mas sim da reatualização de um preconceito que o caricaturiza de forma negativa — colocando-o como não-humano, ridículo ou ameaçador.

Retomando a ideia de imaginário, o estudo demonstrou, com base em autores como Maffesoli (2001) e Durand (2012), que essa construção mental — justamente por ser não quantificável, ambígua e profundamente enraizada — é de difícil combate, além de complexa para ser plenamente comprovada no âmbito das legislações e das narrativas tecnológicas contemporâneas. Estas últimas, aliás, cada vez mais dissolvem as fronteiras entre o real e a ficção, entre o fato e o fake. Assim, na sociedade pós-moderna, ressurgem imaginários do outro que, como evidenciado, frequentemente se tornam imaginários do ódio, especialmente quando ativados e amplificados por ecossistemas midiáticos contemporâneos.

Além disso, autores que analisam os processos migratórios, como Bauman (2017) e Sayad (1998), apontam que o discurso securitário de Trump e a dependência de uma inserção econômica para que o estrangeiro possa começar a reivindicar sua posição de cidadão — embora, na era Trump, praticamente todo o estrangeiro seja visto como indesejável — reforçam a institucionalização da xenofobia nos Estados Unidos, não apenas como prática política, mas como narrativa legitimada socialmente. Esse quadro se manifesta nas práticas sistematizadas pelo governo, como a militarização das fronteiras e a intensificação das deportações, as quais foram aqui mencionadas com base no discurso de posse do presidente e nas medidas subsequentes.

Dessa forma, o presente artigo demonstrou que as políticas de Trump e suas manifestações discursivas constituem uma materialização concreta de imaginários que sustentam um regime de exclusão simbólica e física do migrante, operando por meio de dispositivos comunicacionais que articulam medo, identidade e pertencimento, reforçando a insegurança e a fragmentação social. O uso estratégico do medo, da criminalização e da militarização da fronteira é instrumento fundamental na construção de um nós coeso — ainda que ilusório — que exclui o outro sob a justificativa de preservação da ordem e da identidade nacional. No contexto brasileiro, tais dinâmicas não se apresentam como fenômenos distantes, mas encontram ressonância em discursos políticos e midiáticos que também operam pela construção do outro como ameaça, ainda que em configurações próprias. Assim, a circulação global dessas narrativas evidencia que os imaginários mobilizados por Trump não se restringem ao cenário estadunidense, mas dialogam com matrizes simbólicas mais amplas, que atravessam diferentes contextos nacionais.

Por fim, é válido ressaltar que este trabalho integra, ainda, uma pesquisa mais ampla desenvolvida pelos autores sobre as complexidades da migração contemporânea, os processos de formação do imaginário social e os mecanismos de exclusão. Além do debate acadêmico, tais pesquisas também visam auxiliar na formulação de políticas públicas que promovam a inclusão e o respeito às diversidades culturais e identitárias, contribuindo para a compreensão crítica dos vínculos entre comunicação, imaginário social e práticas de exclusão no mundo contemporâneo.

Disponibilidade de dados de pesquisa:

Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do documento.

REFERÊNCIAS

Editado por

  • Editores responsáveis:
    Adriana Teixeira
    Fábio Fonseca de Castro
    Maurício Ribeiro da Silva
    Norval Baitello

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    30 Maio 2025
  • Aceito
    11 Maio 2026
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