RESUMO
Este artigo investiga a constituição da desinformação como campo emergente de estudos no Brasil, por meio de uma análise bibliométrica de mais de 16 mil publicações entre 2005 e 2024. O objetivo é compreender como esse campo vem sendo estruturado institucional e epistemicamente, identificando suas principais áreas temáticas, redes de colaboração, canais de publicação e abordagens teóricas. Os dados apontam para um crescimento expressivo da produção científica sobre o tema, com forte presença em repositórios de acesso aberto e programas de pós-graduação, além de uma articulação interdisciplinar que envolve Comunicação, Ciência da Informação, Saúde, Direito e Computação. Observa-se ainda o surgimento de vertentes críticas voltadas à análise das plataformas digitais e à problematização epistemológica do conceito de desinformação, bem como um número crescente de trabalhos que tensionam a influência de atores externos, como plataformas, agências de checagem e think tanks internacionais. A consolidação do campo, portanto, ocorre em meio a disputas institucionais e epistêmicas, que revelam não apenas sua vitalidade, mas também sua instabilidade e dependência de agendas político-institucionais exógenas.
PALAVRAS-CHAVE
Desinformação; Epistemologia; Plataformas digitais; Campo científico; Disputa epistêmica
ABSTRACT
This article investigates the constitution of disinformation as an emerging field of study in Brazil through a bibliometric analysis of more than 16,000 publications produced between 2005 and 2024. The aim is to understand how this field has been institutionally and epistemically structured by identifying its main thematic areas, collaboration networks, publication venues, and theoretical approaches. The data indicate a significant growth in scientific production on the topic, with a strong presence in open-access repositories and graduate programs, as well as an interdisciplinary articulation involving Communication, Information Science, Health, Law, and Computer Science. The findings also reveal the emergence of critical strands focused on the analysis of digital platforms and on the epistemological problematization of the concept of disinformation, alongside a growing number of studies that question the influence of external actors, such as platforms, fact-checking agencies, and international think tanks. The consolidation of the field therefore takes place amid institutional and epistemic disputes, revealing not only its vitality but also its instability and dependence on exogenous political-institutional agendas.
KEYWORDS
Disinformation; Epistemology; Digital platforms; Scientific field; Epistemic dispute
INTRODUÇÃO
O fenômeno da desinformação e da manipulação da informação não é novo, nem tampouco a atenção dispensada a ele por intelectuais, como o demonstra o livro Public Opinion (1922), publicado há pouco mais de cem anos por Walter Lippmann. Neste livro, o autor sublinha a vulnerabilidade estrutural das pessoas aos sistemas de comunicação e a facilidade de manipulação da informação. Embora não falasse explicitamente do conceito, Lippmann fala da distorção da realidade pela mediação. Contudo, é a partir da segunda metade da década passada que a atenção ao tema ganhou força, com dois fenômenos: a eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos e o referendo que decidiu pela saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit), ambos ocorridos em 2016, em casos nos quais as plataformas de mídia social foram instrumentalizadas com campanhas desinformativas. Análises bibliométricas recentes mostram que a produção científica sobre misinformation, disinformation e fake news se concentra sobretudo a partir de 2017, evidenciando a rápida expansão do campo nas últimas décadas (Bran et al, 2021).
A centralidade da discussão atual sobre desinformação decorre de fatores complexos. Um deles é de ordem socioeconômica: a ascensão do neoliberalismo contribui para o enfraquecimento de valores públicos e para o deslocamento da noção de verdade em direção a uma lógica de mercado (Srnicek, 2017). Essa racionalidade não se manifesta apenas no plano discursivo, mas também na própria infraestrutura comunicacional contemporânea, na medida em que as plataformas digitais operam com base em modelos de monetização que orientam o funcionamento de seus algoritmos. Assim, critérios como engajamento, retenção e maximização de receita publicitária passam a estruturar a visibilidade da informação.
Esse processo contribuiu para a erosão da confiança em instituições democráticas e naquelas historicamente responsáveis pela legitimação do conhecimento, como o jornalismo e a ciência, abrindo espaço para que diferentes atores promovam versões concorrentes de “verdade”. Outro elemento crítico é a privatização do espaço público digital, operada pelas plataformas de mídia social (Gillespie, 2010). Essas corporações passaram a mediar a circulação da informação por meio de sistemas algorítmicos opacos, orientados por interesses econômicos. Como resultado, transformaram-se profundamente as condições de produção, circulação, credibilização e visibilidade da informação, à medida que o debate público passou a ocorrer em ambientes mediados por infraestruturas privadas e regidos por lógicas de otimização econômica.
O contexto favoreceu a proliferação e a ampla circulação de conteúdos problemáticos, especialmente aqueles associados à chamada desinformação (Recuero, 2024). Em um ambiente digital orientado pela lógica da atenção, uma variedade de estratégias é mobilizada para ampliar o alcance de conteúdos: sensacionalismo, produção de mensagens alinhadas a identidades grupais, uso de fazendas de robôs, impulsionamento pago e trabalho plataformizado voltado à viralização (Marwick & Lewis, 2017). Esses elementos compõem um sistema comunicacional que não apenas captura atenção, mas também corrói a confiança em fontes legítimas de informação, acirra a polarização social e gera impactos negativos em múltiplas esferas — da saúde pública à educação e, sobretudo, à própria democracia (Wardle & Derakhshan, 2017; Donovan, 2020).
Esses mecanismos de amplificação e circulação estão profundamente enraizados na lógica da dataficação — a conversão de práticas sociais em dados passíveis de captura, análise e monetização (Van Dijck, 2014). Essa lógica não apenas estrutura o ambiente informacional, como também aprofunda desigualdades globais, adicionando outra camada de complexidade ao fenômeno. Essa estrutura aprofunda desigualdades, com o Sul Global atuando como fornecedor de dados para plataformas baseadas no Norte (Couldry & Mejías, 2019), e impõe lógicas de “colonialidade epistêmica” (Ricaurte, 2019), que subordinam saberes locais a normas corporativas globais.
Essa discussão evidencia a desinformação como um campo em disputa. E essa disputa não ocorre apenas entre perspectivas acadêmicas, mas dizem respeito, sobretudo, à forma como o objeto “desinformação” foi um conceito inicialmente definido fora da universidade e, posteriormente, absorvido pela produção acadêmica frequentemente de forma acrítica.
Diante desse contexto, este artigo busca discutir a emergência da desinformação como um campo de estudos no Brasil, principalmente por conta dos efeitos da mediação nas plataformas de mídia social, situando essa formação dentro de disputas teóricas, institucionais e políticas. Particularmente, buscamos caracterizar esse campo em disputa a partir de: (1) produção científica e áreas envolvidas na estruturação do fenômeno como objeto de pesquisa, além de produção voltada para elementos epistemológicos e de estudos de plataformas; (2) temáticas emergentes associadas ao debate contemporâneo sobre desinformação no país; (3) desenvolvimento desses elementos no tempo, buscando mostrar a constituição da área, seus espaços de diálogo e suas temáticas-chaves. Para isso, analisamos um conjunto de mais de 19 mil publicações, com dados bibliométricos referentes a artigos, livros e outros produtos disponíveis em repositórios públicos, obtidos por meio de raspagem automatizada no Google Scholar.
A DESINFORMAÇÃO COMO OBJETO DE ESTUDO
A desinformação tornou-se um objeto central nas Ciências Sociais e informacionais contemporâneas, articulando-se como fenômeno sociotécnico, político e epistêmico. No entanto, sua constituição enquanto área de estudos ainda é instável e marcada por disputas conceituais, teóricas e institucionais. Esta seção propõe uma breve sistematização dessas disputas, associando-as à formação de um campo científico emergente e à consolidação de suas redes de produção e circulação.
A noção de desinformação sempre foi usada, de modo geral, em diversos contextos. Em momentos de conflito, guerras ou a própria Guerra Fria, a desinformação foi um conceito associado a operações de guerrilha informativa entre nações, exemplo disso é a propaganda (Bourscheid, 2024). No entanto, são estudos como o de Lasswell (1971) que passam a sistematizar os sistemas de propaganda de guerra, os quais vão criar os elementos básicos para a construção de efeitos desinformativos. É importante sublinhar, no entanto, que o termo desinformação, até então, não era usado como conceito teórico. É apenas a partir da década de 80 e posteriormente, na década de 90, que o conceito passa a ser desenvolvido.
A desinformação como problema de comunicação e circulação já é discutida há décadas, especialmente na Ciência da Informação. Buckland (1991), ao propor a ideia de informação como “coisa”, argumenta que até mesmo mensagens falsas ou enganosas são informacionais, pois representam algo, independentemente de sua veracidade. Floridi (1996), por sua vez, entende a desinformação como uma falha no sistema informacional e, mais tarde, como uma informação com intenção de enganar — o que compromete a integridade desse sistema.
Ambos os autores buscam definir a desinformação a partir de perspectivas mais holísticas e mais gerais, trazendo, porém, elementos que vão marcar o debate sobre desinformação nos anos seguintes, particularmente depois do impacto que as plataformas trouxeram para o fenômeno (Recuero, 2024). O advento de elementos como a dataficação e as infraestruturas das plataformas (D’Andrea, 2020) passou a ter um impacto bastante significativo na produção e circulação de desinformação, impactando fenômenos contemporâneos como a pandemia de Covid-19, eleições e disputas políticas em diversos países.
De um modo geral, no entanto, a maior parte dos estudos nos anos seguintes preocupa-se com a desinformação a partir de uma perspectiva material, tentando definir características e descrever o fenômeno. Justamente por causa disso, a desinformação é um conceito qualificado como “em disputa” por boa parte da literatura (Camargo & Simões, 2022). Os conceitos de desinformação intencional e não intencional — disinformation e misinformation —, por exemplo, são muitas vezes usados de modo intercambiável e sem uma definição adequada (Fallis, 2015), de modo semelhante ao de fake news (Farkas & Schou, 2018). A crítica da imprecisão deve-se, também, ao fato de que esses estudos focam, sob um mesmo termo, uma quantidade bastante ampla de tipos de conteúdos problemáticos, cujo efeito é gerar desinformação, como propaganda, fake news ou teorias da conspiração (Recuero, 2024). Além disso, o próprio foco em distinguir o que é verdadeiro do que é falso também gera elementos problemáticos, uma vez que é possível desinformar, por exemplo, dizendo a verdade, por meio de enquadramentos problemáticos (Farkas & Schou, 2018). Harsin (2018) amplia essa perspectiva ao propor o conceito de “regime de pós-verdade”, sugerindo que a desinformação não é apenas um problema de conteúdo, mas uma expressão de transformações mais profundas nas formas de produção e circulação do saber, marcadas por uma fragmentação epistêmica e crise de confiança institucional. Essa fluidez conceitual tem dificultado a consolidação teórica do campo e, em parte, explica a diversidade de abordagens encontradas na literatura.
Mais recentemente, outros autores passaram a investigar a desinformação como um fenômeno mais amplo, mais sistêmico, associado à produção de conteúdo on-line, sua legitimação e circulação pelas plataformas. Essa tendência tem aparecido em estudos que observam a desinformação não mais como um objeto, mas como uma construção, um processo. É o caso do trabalho de Bastos & Tuters (2023), por exemplo, que foca o caráter participatório da construção de sentido da desinformação, ou de Lelo (2024), que traz um enfoque etnometodológico para o fenômeno. Finalmente, Recuero (2024) também discute a desinformação de um ponto de vista epistemológico como um sistema acoplado ao sistema das plataformas, enfatizando a interdependência entre os dois.
A DESINFORMAÇÃO COMO CAMPO DO CONHECIMENTO EM DISPUTA
A desinformação tornou-se objeto de amplo interesse em diversas áreas do conhecimento — tais como Comunicação, Ciência da Informação, Ciências Sociais e Direito —, mas ainda não se consolidou como um campo próprio, permanecendo em disputa. Nesta seção, argumentamos que as premissas que orientam o debate global sobre o tema têm sido formuladas majoritariamente por atores externos à academia e, muitas vezes, reproduzidas de forma acrítica pela pesquisa acadêmica. Apesar disso, observa-se a emergência de uma produção relevante em português, especialmente no contexto brasileiro.
Em termos práticos, um dos primeiros impulsionadores de relevo do debate acadêmico sobre a desinformação foram as agências de fact-checking. A primeira agência especializada na checagem de fatos — FactCheck.org — foi criada em 2003 pelo Annenberg Public Policy Center, vinculado à Universidade da Pensilvânia. O projeto refletia preocupações previamente expressas pela diretora do Centro, Kathleen Hall Jamieson (1992), sobre o impacto negativo da desinformação na qualidade da democracia estadunidense e propunha uma solução inspirada na obra de Walter Lippmann: um corpo de especialistas que ajudaria o público a distinguir a informação bem fundamentada da desinformação. Outras iniciativas logo se seguiram. Em sua versão original, o fact-checking se via como um movimento de renovação do jornalismo, que buscava reafirmar o compromisso deste com a busca da verdade, para além dos limites do jornalismo declaratório. O método para alcançar esse objetivo seria investir mais tempo e esforço sistemático na verificação das informações. Em 2015, a International Fact-Checking Network (IFCN) foi criada nos Estados Unidos, com o objetivo de regulamentar a prática do fact-checking em nível global.
A trajetória do fact-checking como objeto de pesquisa acadêmica evidencia uma inversão hierárquica, na qual atores externos passaram a definir o problema da desinformação. Muitos pesquisadores vinculam-se diretamente às agências de checagem e, por isso, boa parte da produção acadêmica tem servido para legitimar epistemologicamente essa prática, operando como uma câmara de eco para discursos externos. Um exemplo emblemático é o estudo de Allcott e Gentzkow (2017), que adota, sem crítica, classificações de fake news feitas por agências de fact-checking.
Outro aspecto relevante é a instrumentalização política do debate, que passou a servir a projetos de controle discursivo promovidos pelo aparato industrial-militar dos Estados Unidos. O conceito de “desordem informacional”, difundido por Wardle e Derakhshan (2017) em relatório para o Conselho da Europa, baseia-se fortemente em diagnósticos de think tanks como a Rand Corporation e o Atlantic Council, alinhando a definição de desinformação aos interesses geopolíticos dos EUA, com ênfase na responsabilização de adversários como a Rússia.
Mais do que simplesmente um paradigma teórico, a perspectiva da “desordem informacional” se transformou em um paradigma de políticas, voltado para a intervenção concreta no mundo real. O combate à desordem informacional tornou-se uma tarefa complexa, envolvendo uma miríade de organizações, como agências de fact-checking, fundações filantrópicas, plataformas de mídias sociais e instituições universitárias. Parte da produção acadêmica analisada sugere uma proximidade com agendas institucionais externas, na medida em que adota categorias e enquadramentos oriundos de iniciativas como agências de fact-checking e relatórios de think tanks, sem explicitar seus pressupostos teóricos ou implicações políticas.
A fragilidade do modelo vigente de combate à desinformação tornou-se evidente recentemente, sendo o caso brasileiro um exemplo emblemático. Desde 2009, o Projeto Comprova articulou agentes nacionais e estrangeiros, com financiamento de fundações internacionais (Ford, Open Society) e coordenação metodológica por instituições como o First Draft e a IFCN. O foco das ações estava nos conteúdos publicados nas plataformas digitais, que, nos anos seguintes, passaram a financiar massivamente o projeto por meio de iniciativas como o Facebook Journalism Project e o Google News Initiative.
No Brasil, empresas jornalísticas e agências de fact-checking atuaram como operadores locais do Projeto Comprova, que ganhou prestígio durante o governo Bolsonaro (2019–2023) e a pandemia de Covid-19. A partir de 2022, observa-se uma reconfiguração no ecossistema das plataformas digitais, marcada por mudanças nas políticas de moderação e pela redução do apoio institucional a iniciativas de fact-checking. Estudos indicam que plataformas têm se afastado de parcerias com organizações de checagem, com impactos sobre seu financiamento e sustentabilidade (Özturan et al., 2025). Paralelamente, transformações recentes na governança dessas plataformas têm sido associadas a mudanças na qualidade da informação e na visibilidade de conteúdos. Essas mudanças têm sido interpretadas, no debate público e em parte da literatura, como um reposicionamento político das plataformas, com implicações para a mediação da informação on-line.
A noção de campo de estudos envolve um espaço relativamente autônomo de produção e circulação de saberes, estruturado por disputas simbólicas, reconhecimento institucional e práticas epistêmicas compartilhadas. Para Bourdieu (1983), o campo científico é um microcosmo com regras próprias, no qual os agentes competem por autoridade com base em capitais específicos. Esse espaço se consolida não apenas por um objeto comum, mas por uma comunidade de pesquisadores, infraestrutura institucional e critérios de validação. Becher e Trowler (2001) o descrevem como “tribos acadêmicas”, enquanto Whitley (2000) propõe tipologias conforme o grau de coordenação intelectual. Crane (1972) destaca a importância das redes de colaboração e citações, os “colegiados invisíveis”, que podem ser mapeados por meio de análises bibliométricas. E o que isso diz sobre os estudos de desinformação no Brasil?
A partir de 2016, houve um crescimento exponencial na produção de estudos sobre desinformação, sobretudo em inglês, com foco em detecção de fake news, tipologias e políticas de combate, impulsionados por eventos como a pandemia e o papel das plataformas digitais (Wang et al., 2022; Wang, Zhai e Shahzad, 2025). Essas análises, predominantemente diagnósticas, apontam tendências e lacunas no campo, especialmente na área do jornalismo, como destacam Salaverría & Cardoso (2023), que ressaltam a necessidade de considerar múltiplas plataformas, narrativas desinformativas e o impacto da inteligência artificial.
Apesar de relevantes, esses estudos mantêm um viés técnico e descritivo. Um marco epistemológico é proposto por Kuo & Marwick (2021), que cunham o termo “estudos críticos de desinformação” e defendem uma abordagem mais ampla e contextualizada, incorporando temas como poder, desigualdade e opacidade das plataformas, em contraste com as abordagens mais tecnicistas predominantes até então.
No Brasil, uma das primeiras áreas a discutir a questão foi a Ciência da Informação. Santos-d’Amorin & Côrbo (2024), em um trabalho sobre artigos da área, identificam elementos semelhantes aos estudos em inglês. Em um trabalho que focou o período de 2010 a 2023, eles notam um crescimento também após 2016, embora com trabalhos menos interdisciplinares. Outro trabalho que também discute o papel da Ciência da Informação na construção da área é o de Heller, Jacobi & Borges (2021), que faz uma análise de trabalhos publicados na área da CI, realizando uma reconstrução teórico-epistemológica dos modos como a literatura lida com o fenômeno.
Apesar desses esforços, e embora a desinformação tenha se tornado objeto de um expressivo volume de pesquisas nas últimas duas décadas, os estudos sobre o tema ainda não se constituem plenamente como um campo autônomo de conhecimento — ao menos nos termos clássicos propostos por Bourdieu (2003), que pressupõem disputas internas, regras de consagração próprias e relativa autonomia frente a outras esferas sociais. Na verdade, como mostra essa discussão, trata-se de uma área em disputa, marcada pela colonização epistemológica e institucional por parte de atores externos ao meio acadêmico — como agências de fact-checking, think tanks, fundações filantrópicas e plataformas digitais. A definição legítima do problema da desinformação, suas categorias analíticas e prioridades de investigação têm sido frequentemente orientadas por agendas políticas e interesses estratégicos, como os do aparato industrial-militar estadunidense, mais do que por processos internos de consolidação científica. Tal configuração resulta em uma fragilidade estrutural do campo. Assim, mais do que um campo consolidado, os estudos de desinformação se apresentam como um território de disputa epistêmica, institucional e política, cuja autonomia permanece em construção.
MÉTODO
Neste trabalho, buscamos caracterizar o campo emergente da desinformação no Brasil, entendendo esse campo como uma disputa. A opção por uma análise bibliométrica e temático-conceitual ampla se justifica pela necessidade de mapear como esse campo em disputa vem sendo estruturado, tanto epistemológica quanto institucionalmente. Para este artigo, usamos como base a coleta de dados do Google Scholar através do Publish or Perish (PoP). Usando “desinformação” como palavra-chave, raspamos os dados, limpamos o conjunto e obtivemos 16.265 publicações, incluindo artigos, teses e dissertações, no período de 2005 a 2024 (20 anos), contendo informações como autores, título, ano de publicação, impacto, número de citações, URL, periódico ou repositório identificado, resumo e índice h. Esse conjunto de dados foi então analisado para obter:
1. Principais áreas e principais temáticas dos artigos e de seus veículos de publicação
Para a classificação das áreas, usamos uma combinação de classificação manual e automatizada. Os dados foram inicialmente lidos pelos autores, que destacaram a coluna de repositório ou revista em que o material foi publicado. Esse dado foi, então, usado para que se construíssem as áreas de publicação. Para tanto, extraímos amostras aleatórias que foram analisadas por classificadores humanos, que posteriormente informavam uma ferramenta de Inteligência Artificial, que foi sendo treinada com um modelo computacional, em Python, para identificar áreas primárias e secundárias com base nos dados de revistas, institutos e programas identificados pelos classificadores humanos. Ao final, os dados foram revisados pelos pesquisadores para que se compreendesse quais eram as áreas identificadas. Para esta análise, em específico, foram consideradas apenas as publicações que continham essas informações, em um total de 2.638 publicações.
Já para os temas mais frequentes, combinamos uma extração de dados automatizada das publicações (usando resumo e título) com a Análise de Conceitos Conectados (Lindgren, 2016). Aqui foi analisado o total de dados. A partir dessa perspectiva, são analisadas as palavras mais frequentes (com exclusão de stopwords relacionadas a termos comuns, como artigos, pronomes, possessivos, demonstrativos, preposições etc.) e estas são classificadas em conceitos por semelhança lexical. Depois desta etapa, os conceitos são mapeados por coocorrência, ou seja, gera-se uma rede de conceitos que tendem a aparecer juntos em um mesmo resumo/título. Analisamos, assim, a frequência e a coocorrência de conceitos, de modo a desenhar temáticas que se interseccionavam nos dados. É importante salientar que esses temas não refletem, necessariamente, campos do conhecimento como estruturados pelas agências de fomento brasileiras e internacionais, mas áreas temáticas mais prevalentes nas publicações encontradas.
2. Publicações que apontavam para a área de estudo das plataformas digitais e publicações focadas na epistemologia da desinformação
Depois dessas etapas, extraímos, do conjunto de dados, todas as publicações que focavam temáticas relacionadas às plataformas digitais (como redes sociais on-line, comunicação digital, ferramentas como Facebook, Twitter etc.). Primeiramente, construímos uma lista de termos associados ao tema das plataformas, como algoritmos, plataformização, on-line etc., e filtramos, na sequência, todas as publicações que mencionavam a temática. Obtivemos, assim, um conjunto de 2.116 publicações que traziam explicitamente esses elementos, que são analisados, aqui, em seção específica.
Na sequência, fizemos o mesmo com a temática da epistemologia. Selecionamos conceitos relacionados (conceito, conceitos, epistemologia, definição conceitual etc.) e filtramos os dados das publicações que continham esses elementos, de modo a construir uma visão temporal de discussões mais voltadas à construção teórica do campo. Obtivemos aqui um conjunto total de 1.321 publicações, que são analisadas, também, na mesma seção.
ANÁLISE
Como explicamos no início dessa discussão, este artigo objetiva observar como os estudos sobre desinformação passam a ser constituídos no Brasil e em língua portuguesa. Nosso argumento é que, apesar de a desinformação ser um campo em disputa, ela apresenta um corpo de trabalhos relevante e com características próprias no País.
1. Áreas presentes
Primeiramente, analisamos as principais áreas das publicações, tomando como princípio as revistas ou departamentos em que essas publicações foram realizadas. Para esta análise, descartamos todas as publicações que não tinham clara identificação da área, pois não teríamos como associá-las ao problema de pesquisa delimitado neste trabalho, e levamos em conta, principalmente, as revistas. O material descartado encontrava-se em repositórios e não em revistas. Para esta análise, foram consideradas apenas as publicações com identificação clara de área, o que implicou a exclusão de parte do corpus original. Essa exclusão, no entanto, constitui um dado relevante em si, na medida em que evidencia limitações nos processos de indexação e classificação da produção científica sobre desinformação, especialmente em repositórios abertos. Tal característica reforça o argumento de que o campo ainda apresenta baixa padronização e instabilidade institucional. Neste contexto, analisamos 2.638 publicações, que se distribuem conforme a Figura 2.
A análise da produção acadêmica sobre desinformação revela dinâmicas distintas entre as áreas temáticas ao longo do tempo. A área de Comunicação e Informação lidera o crescimento, refletindo sua centralidade na análise das mídias digitais, redes sociais e processos de circulação de sentidos em contextos de crise de credibilidade jornalística. A área da Saúde foi uma das áreas que inicialmente mais focou no tema, com queda relativa ao longo do tempo, mas com picos, especialmente durante a pandemia de COVID-19, momento em que a desinformação teve efeitos diretos sobre práticas de prevenção, vacinação e políticas públicas. Já o campo do Direito ganhou espaço com o avanço de discussões sobre regulação de plataformas, liberdade de expressão, responsabilidade civil e eleitoral, especialmente em contextos de judicialização da política, crescendo ao longo do tempo com a relevância desses temas. A Educação aparece como resposta à necessidade de desenvolver competências informacionais e midiáticas, além de abordar os impactos da desinformação no ambiente escolar. É outra área, como a da Saúde, que aparece com impacto desde o início dos dados. Por fim, as Ciências Humanas contribuem com abordagens teóricas e críticas, analisando os fundamentos históricos, ideológicos e culturais da manipulação da informação. A área de Computação, embora com menor volume relativo de publicações, desempenha um papel estratégico e complementar nos estudos sobre desinformação. Sua contribuição se concentra em metodologias e ferramentas técnicas, como detecção automatizada de fake news, análise de redes sociais, modelagem algorítmica da propagação de informações e inteligência artificial aplicada à classificação de conteúdo. O crescimento discreto pode ser explicado pelo fato de que muitos trabalhos técnicos não utilizam a categoria “desinformação” como eixo central, mas abordam o fenômeno por meio de termos como “conteúdo enganoso”, “spam informacional” ou “discurso automatizado”. Além disso, parte significativa dessas pesquisas circula em conferências técnicas ou repositórios como arXiv, menos visíveis nas bases tradicionalmente exploradas pelas Ciências Sociais. Ainda assim, a computação é fundamental para o avanço do campo, especialmente no que diz respeito à infraestrutura analítica, à escalabilidade das investigações empíricas e ao desenvolvimento de sistemas de alerta ou contenção da desinformação.
Esses dados destacam que os estudos de desinformação no Brasil têm crescido de modo semelhante ao relatado em outros países. Por exemplo, o caráter fortemente interdisciplinar dos estudos de desinformação (Wang, Zhai e Shahzad, 2025; Wang et al., 2022), indicado pelas relações entre temáticas típicas de diferentes áreas, também aparece no Brasil. Isso apresenta um problema para a identificação das áreas específicas desses trabalhos, nesta pesquisa. Além disso, os dados destacam o crescimento dos temas relacionados à Comunicação e Informação, que têm ganhado espaço nos últimos anos, possivelmente impulsionados pelo foco na desinformação em plataformas de mídia social, tal qual a literatura identificou em outros países (Broda & Strömbäck, 2024; Pandey & Ghosh, 2023).
2. Temáticas
Para entender melhor os principais temas das publicações, observamos os temas mais frequentes nos artigos coletados. Aqui, trabalhamos com a totalidade do dataset. Realizamos uma análise de coocorrências temáticas, com classificação dos termos por semelhança lexical e exclusão de stopwords, e montamos uma matriz de coocorrência desses temas, que foi posteriormente analisada como uma rede no Gephi (Figura 2). A rede foi criada a partir de algoritmos gravitacionais (especificamente, ForceAtlas 2, com ampliação para a observação dos rótulos), indicando-se, na imagem, os temas mais frequentes com fontes maiores e conexões indicando sua proximidade. As cores indicam a tendência de os conceitos aparecerem juntos.
Grafo que mostra as co-ocorrências entre os temas. Quanto maior a fonte, maior a presença da área. A espessura das conexões sublinha o número de vezes em que os temas co-ocorreram.
A Figura 3 ilustra as temáticas mais frequentes. Nota-se o foco no Brasil como categoria central, juntamente com Saúde, Educação e Comunicação. O grupo laranja traz um foco relevante para a pandemia de Covid-19. O grupo vermelho traz um foco mais específico em letramento e educação digital. O grupo verde traz como tema principal ciência e meio ambiente, enquanto o grupo roxo traz temas mais gerais focados em ciência, saúde e epistemologia. Os conceitos centrais compreendem, de modo geral, modos de “ver” esses temas, trazendo atenção para as áreas temáticas análogas. De modo geral, as temáticas mais frequentes trazem eventos relevantes — como a pandemia de Covid-19 — e trazem, também, o destaque para a importância do digital e, por conseguinte, das plataformas, para os estudos mais recentes.
Esses dados, novamente, apontam para o caráter interdisciplinar dessas pesquisas (Wang, Zhai e Shahzad, 2025; Wang et al., 2022). Porém, mais do que isso, apontam para estudos específicos realizados dentro da realidade brasileira (a centralidade do termo “Brasil”), com um recorte geográfico que outros estudos não fazem. Esse recorte, dentro de fenômenos complexos, mostra o potencial e o interesse desses estudos em temáticas atuais e contemporâneas.
Analisamos também as publicações que traziam abordagens mais críticas do fenômeno, com foco nos principais agentes que mobilizam essas temáticas. Escolhemos um conjunto de palavras-chave associadas a atores extra-acadêmicos, derivado do referencial teórico adotado — que enfatiza a disputa epistêmica e institucional na constituição do campo da desinformação (a partir das discussões de Gillespie, 2010 e Srnicek, 2017) —, e analisamos qualitativamente os resumos (think tank, plataforma, Facebook, Google, fundação, financiamento, interferência, colonial, epistêmico, geopolítica, governança, IFCN).
Observando essas publicações, encontramos 898 artigos que traziam, entre as temáticas centrais, uma discussão da dimensão política, institucional ou geopolítica da desinformação e apenas cinco artigos que tratam explicitamente de temas relacionados à interferência de agentes externos, como fundações, plataformas digitais, financiamento, moderação de conteúdo e governança. Todas essas publicações são posteriores a 2020. Esses dados oferecem evidência empírica de que existe uma parcela crítica, embora minoritária, da produção brasileira que aborda a questão da influência externa e da disputa epistêmica, tais como plataformas digitais, fundações privadas e instâncias de governança supranacional, na constituição do campo da desinformação. Embora representem uma minoria dentro do corpus analisado, esses trabalhos introduzem uma inflexão crítica rara: ao invés de apenas descrever ou propor soluções técnicas para a desinformação, eles interrogam os próprios marcos conceituais, atores institucionais e relações de poder que sustentam o campo. Isso lhes confere um peso analítico desproporcional ao seu volume, por desafiarem o consenso normativo dominante e abrirem espaço para abordagens mais autônomas e reflexivas. Além disso, a existência desse núcleo crítico aponta para a possível emergência de uma vertente teórica alternativa, ainda em formação, que pode vir a disputar a definição legítima do problema da desinformação nos próximos anos. Assim, esses trabalhos reforçam a hipótese de que o campo se constitui não apenas como emergente, mas como um espaço de disputa epistemológica e institucional em curso.
3. Desinformação, Plataformas e Epistemologias
Nesta seção, testamos a hipótese de que, como em estudos fora do Brasil, foi o impacto das plataformas que gerou um crescimento dos estudos de desinformação, particularmente nas áreas de Comunicação e Ciência da Informação e Direito, e que é este impacto que tem consolidado esses estudos. Analisamos, portanto, também a presença de estudos de caráter mais epistemológico nas publicações, ao longo do tempo.
Primeiramente, analisamos a distribuição dos estudos que continham, nos seus temas centrais, a palavra “desinformação” e daqueles que também traziam conceitos associados às plataformas. O objetivo aqui era observar se o fenômeno indicado por outros autores, relacionado ao crescimento dos estudos sobre desinformação associados aos estudos de plataformas, também acontecia no Brasil e entender melhor o que representa esse crescimento observado na análise do item anterior. O resultado está na Figura 4. Nesta figura, vemos que há um crescimento geral nos estudos que focavam a desinformação a partir de 2017, com um aumento geral também do uso do conceito em outros estudos na mesma época. Esse dado sugere fortemente que há uma construção mais centralizada desses estudos em torno dos estudos de plataformas no Brasil, possivelmente atuando como elemento de estímulo e consolidação dessas abordagens.
Um segundo elemento que buscamos analisar foi a relação dos estudos de desinformação com abordagens mais epistemológicas (Figura 5). Neste caso, os dados mostram também um crescimento dessa abordagem a partir de 2019, sugerindo que, embora o foco epistemológico nunca tenha estado ausente (provavelmente devido a discussões teóricas mais amplas que aparecem nas áreas que inicialmente começam a discussão, como a Ciência da Informação — vide Heller, Jacobi & Borges, 2021; Santos-d’Amorin & Côrbo, 2024), há uma forte relação de desenvolvimento mais recente desse debate.
Esses dados, embora delimitem um crescimento do interesse na pesquisa relacionada aos efeitos das plataformas digitais e ao interesse por estudos epistemológicos, também sugerem uma dependência dessas temáticas.
Os dados analisados sugerem uma consolidação do campo de estudos da desinformação em torno da análise crítica das plataformas digitais como infraestruturas fundamentais para a produção, circulação e disputa de sentidos. O crescimento contínuo de publicações que tratam de redes sociais, algoritmos e lógicas de engajamento revela que a compreensão da desinformação tem se deslocado de um foco exclusivo na veracidade do conteúdo para uma atenção aos arranjos sociotécnicos e econômicos que condicionam sua difusão. Paralelamente, observa-se o fortalecimento de abordagens epistemológicas que problematizam os regimes de verdade e autoridade, especialmente em contextos de crise da mediação jornalística e de polarização política.
O crescimento dos estudos sobre plataformas digitais e sobre epistemologia no campo da desinformação aponta para a emergência de uma inflexão crítica na produção acadêmica brasileira. Ao invés de focar exclusivamente na detecção ou no combate a conteúdos falsos, essas abordagens deslocam o olhar para os arranjos sociotécnicos, políticos e econômicos que estruturam o ecossistema informacional contemporâneo. Os trabalhos voltados à plataformização evidenciam como empresas privadas — regidas por lógicas de mercado, opacidade algorítmica e interesses geopolíticos — passaram a exercer funções tradicionalmente atribuídas a instituições públicas na mediação da verdade, moldando o que é visível, credível e verificável. Paralelamente, os estudos epistemológicos tensionam os fundamentos conceituais e normativos do campo, problematizando as categorias dominantes e os critérios de validação da verdade. Juntas, essas duas vertentes não apenas ampliam a compreensão do fenômeno da desinformação, mas também expõem as disputas de poder que o atravessam, revelando o papel de atores extra-acadêmicos na definição dos marcos do debate e reforçando a ideia de que o campo da desinformação se constitui, hoje, como um espaço em disputa.
DISCUSSÃO
De um modo geral, os dados mostram um aumento de publicações em que consta o termo “desinformação” como central depois de 2016, com maior impulso a partir de 2019. Esse crescimento acompanha tendências internacionais já identificadas em meta-análises (Bran et al., 2021) e sinaliza para uma consolidação temática em curso no Brasil. Empiricamente, essa consolidação se manifesta na diversidade de áreas temáticas envolvidas — como Comunicação, Educação, Saúde, Computação e Direito, evidenciando seu caráter interdisciplinar (Wang, Zhai e Shahzad, 2025; Wang et al., 2022).
Além disso, há um crescimento contínuo de estudos que abordam a desinformação em relação às plataformas digitais e de abordagens epistemológicas críticas, o que reforça a noção de amadurecimento e criticismo teórico, para além da mera constatação, por exemplo, da desordem informacional (Wardle e Derakhshan, 2017). Os trabalhos centrados nas plataformas evidenciam uma inflexão relevante no campo: deslocam o foco do conteúdo desinformativo em si para os arranjos sociotécnicos que moldam sua circulação — algoritmos, lógicas de engajamento, regimes de moderação e infraestrutura digital. Já as abordagens epistemológicas questionam os fundamentos conceituais e os critérios de validação da verdade, muitas vezes adotados acriticamente de modelos externos. Em ambos os casos, nota-se o surgimento de uma vertente crítica que não apenas amplia a compreensão do fenômeno, mas também disputa as formas de autoridade e as regras de legitimação do conhecimento no campo. Essa inflexão é reforçada por um subconjunto de trabalhos identificados no corpus que abordam diretamente temas como o financiamento internacional, o papel das plataformas como árbitros epistêmicos e a atuação de atores não acadêmicos — como think tanks, fundações filantrópicas e agências de fact-checking — na definição das categorias centrais da área. Entre esses trabalhos, destacam-se análises sobre a governança de plataformas digitais, estudos sobre a atuação de agências de fact-checking em contextos eleitorais, efeitos das plataformas no jornalismo e investigações sobre o papel de fundações e financiadores internacionais na estruturação dessas iniciativas, por exemplo (vide Christofoletti, 2025; Alencar et al., 2025, dentre outros).
A combinação entre crescimento numérico, diversidade temática, presença institucional e aprofundamento conceitual sugere que a desinformação deixou de ser apenas uma preocupação pontual para se tornar um eixo estruturante de produção científica, com potencial de configuração como um campo de estudos próprio. Esses dados também sugerem que há uma constituição de um “campo” de estudos focado na desinformação no Brasil nos últimos anos. A constituição de um campo de estudos envolve a articulação entre objeto de pesquisa reconhecido, comunidade epistêmica ativa, infraestrutura institucional e mecanismos de legitimação científica, conforme explicamos (Bourdieu, 2003). No caso da desinformação, os dados levantados até aqui sugerem que o campo se encontra em processo de consolidação, marcado por forte interdisciplinaridade e disputas conceituais, como em torno da construção de um conceito de desinformação. Neste sentido, temos também um campo em disputa, no qual diferentes áreas buscam autoridade epistêmica com base em capitais específicos. No caso da desinformação, isso se expressa na coexistência de abordagens oriundas das áreas da Comunicação, Ciência da Informação, Computação, Direito e outras, com diferentes pesos institucionais e agendas. Neste sentido, não há um consenso teórico-metodológico claro, o que, conforme a tipologia de Whitley (2000), indica um campo de baixa coordenação intelectual e controle social frágil.
Esses elementos indicam que a desinformação constitui um campo emergente, dinâmico e ainda instável, cujas formas de legitimação e autoridade seguem em disputa. Essa disputa se dá não apenas entre áreas disciplinares, mas também entre agentes internos e externos ao universo acadêmico. O uso de conceitos como “desordem informacional”, promovidos por think tanks, e a centralidade das agências de fact-checking na definição do objeto desinformação ilustram como agendas político-institucionais têm, também, moldado o campo. Frente a esse contexto, os estudos sobre plataformas e epistemologia, bem como a escolha por repositórios abertos, podem ser lidos como sinais de uma tentativa de afirmação de autonomia teórica e institucional — e, portanto, como manifestações críticas no interior de um campo em disputa.
CONCLUSÃO
Os dados apresentados neste artigo indicam um processo em curso de consolidação do campo de estudos da desinformação no Brasil. Observamos um crescimento expressivo da produção científica sobre o tema, a diversificação de áreas envolvidas, a centralidade crescente do debate nas plataformas digitais e o avanço de abordagens epistemológicas mais sofisticadas. A análise das redes de colaboração, da publicação em repositórios abertos e da presença em programas de pós-graduação também aponta para a formação de uma comunidade epistêmica dedicada, com práticas próprias de legitimação e circulação do saber.
No entanto, apesar desse movimento promissor, o campo segue marcado por instabilidades e assimetrias importantes. A constituição da desinformação como objeto de pesquisa tem sido fortemente influenciada por atores externos à academia, que, desde o início, definiram categorias, métodos e agendas de investigação. Tal dinâmica compromete a autonomia epistêmica do campo e revela uma profunda dependência de interesses políticos. Como argumentamos ao longo do artigo, o campo da desinformação ainda enfrenta um desafio fundamental: a conquista de autonomia frente à influência de atores externos que moldaram sua emergência. Para isso, é necessário fomentar abordagens críticas que desafiem os enquadramentos prontos vindos de fora da academia, além de promover espaços de formação, financiamento e publicação que valorizem epistemologias locais e a pluralidade teórica. Consolidar o campo exige reconhecê-lo, antes de tudo, como um espaço de disputa — epistêmica, política e institucional.
Por fim, apontamos que a consolidação efetiva desse campo depende da superação de três desafios centrais: a institucionalização acadêmica, com presença nos currículos e linhas de fomento específicas; o fortalecimento da produção teórica autônoma, sensível às realidades locais; e o enfrentamento crítico das agendas hegemônicas que moldaram o debate global. Somente assim será possível construir um campo robusto, plural e intelectualmente soberano, capaz de contribuir de forma significativa para a compreensão e o enfrentamento da desinformação no Brasil e no mundo.
Este estudo, no entanto, apresenta limites que merecem ser considerados. A análise bibliométrica depende da qualidade e da completude dos dados disponíveis nos repositórios consultados, o que pode restringir o mapeamento de certas áreas ou de publicações não indexadas. Além disso, o foco na produção textual e quantitativa não permite capturar com profundidade as disputas teóricas e epistemológicas presentes nos bastidores da formação do campo. Futuras investigações poderiam explorar entrevistas com pesquisadores, etnografias de grupos de pesquisa ou análises qualitativas de textos centrais para melhor compreender os mecanismos de legitimação, exclusão e autoridade na constituição desse campo em disputa.
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Financiamento: O presente trabalho foi realizado com o auxílio da FAPERGS, projeto 24/2551-0001140-4 e do CNPq, projeto 302489/2022-3, além do INCT/DSI (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas Informacionais e Soberania), projeto 405965/2021-4.
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Declaração do uso de IA:
Os autores explicitam que foi usada IA para correção dos gráficos no artigo, bem como a correção dos scripts em python construídos para o scrapping. Os autores se responsabilizam pela integridade das informações publicadas
Disponibilidade de dados de pesquisa
Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do documento.
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Adriana TeixeiraFábio Fonseca de CastroMaurício Ribeiro da SilvaNorval Baitello






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