Open-access “Composto de artistas”: Televisita Garson e a relação da cobertura esportiva com a cultura popular

“Composed of artists”: Televisita Garson throughout connections between sports coverage and popular culture

Resumo

Televisita Garson foi uma mesa redonda esportiva da TV Continental que estreou ainda nas primeiras décadas da televisão no Brasil. O propósito deste artigo é identificar como o programa oferece indícios para o estudo das relações entre a cobertura especializada em esportes e a cultura popular. Por meio da história comparada, características da produção serão colocadas em relação as dimensões da programação contemporânea. A partir desse exame, ficam evidentes rupturas e continuidades nas maneiras pelas quais foram acompanhados os acontecimentos, principalmente em torno do futebol, desde o século XX. Em especial, no que diz respeito à presença de música e do humor.

Palavras-chave
Televisita Garson ; cultura popular; cobertura esportiva; história comparada; televisão

Abstract

Televisita Garson was a sport panel broadcast by TV Continental that debuted in the first television decades in Brazil. This article aims to identify how the program offers clues to understand the link between sports coverage and popular culture. Through Comparative History, characteristics of the production will be compared in relation to contemporary dimensions of specialized television programming. From this examination, ruptures and continuities become evident — particularly the ways in which news have been monitored, especially around football, since the 20th century. In particular regarding the presence of music and humor.

Keywords
Televisita Garson ; popular culture; sports coverage; comparative history; television

Espetáculo fabuloso foi o que assistimos no dia 13 no canal 9 às 21:30 horas, onde foi apresentado o Clube de Regatas [do] Flamengo ao público telespectador com a presença de todas as diretorias e atletas do ‘mais querido’, onde a Casa Garson homenageou a todos, com um maravilhoso show, composto de artistas”

(Jornal dos Sports, 1961).1

A partir de junho de 1961, a TV Continental exibiu o programa Televisita Garson, com foco nos esportes. Existem poucos vestígios dessa experiência, a exemplo da descrição publicada pelo Jornal dos Sports. Além de pontuar características particulares dos primeiros momentos da televisão no Brasil, a produção oferece indicativos sobre a cobertura esportiva que colaboram para a compreensão de nuances contemporâneas. Observar semelhanças e diferenças entre passagens distintas favorece o entendimento a respeito da televisão, das tensões com o jornalismo e do acompanhamento dos acontecimentos relativos a diferentes modalidades realizado em radiodifusão.

Este artigo se constitui como um esforço para compreender o caso do programa, sustentado pela empresa Casa Garson, a partir da perspectiva comparativa. A opção será pela utilização da história comparada, por se tratar de um recurso que permite colocar em evidência permanências e descontinuidades. A proposta contribui para iluminar, inclusive, as dinâmicas que compõem as rotinas televisivas e esportivas. Nessa direção, o conceito de cultura popular é fundamental, uma vez que tanto a avaliação do histórico da TV quanto as tradições que gravitam ao redor do futebol partem do reconhecimento dessa ampla circulação na realidade brasileira. Perante essa paisagem, o trabalho terá quatro seções a partir desta introdução.

Na primeira, o propósito é demarcar de que modo essa comparação será levada a cabo, com a exposição da correlação com a leitura bakhtiniana. A cultura popular deixa de ser vista como um elemento menor para o entendimento da radiodifusão e assume assim centralidade. A segunda se destina a contextualizar exemplos contemporâneos da cobertura esportiva no Brasil. Os casos servem de parâmetro para colocar em relação as escolhas da TV Continental. A terceira destaca as particularidades de Televisita Garson. Documentos à disposição oferecem algumas respostas sobre as vinculações com tradições presentes no país. Só então, enfim, serão apresentadas as considerações finais na quarta.

Em movimento: História comparada, radiodifusão e tradições populares

Entre outras implicações, a adoção da história comparada promove linhas de fuga de definições de hierarquias, de teleologias históricas — ou de uma visão estática de progresso. É uma abordagem que propicia colocar em relação diferentes passagens, por meio de recortes temporais próximos ou distantes, sob perspectivas nacionais ou internacionais. Para levar a cabo o exercício comparativo é imprescindível eleger os elementos a partir dos quais serão cotejadas as conjunturas distintas, justamente por conta do interesse em flagrar rupturas e continuidades no processo histórico. Um estudo de Televisita Garson exige igualmente essa atitude.

O olhar para o programa da TV Continental parte da aproximação que Melo (2007) adota ao se deparar com os processos em torno do desenvolvimento esportivo no Brasil e na América Latina. Com o propósito de explorar essa aproximação, o pesquisador constata que grande parcela das interpretações é traçada por latino-americanistas do exterior: o autor identifica a necessidade de pesquisadores da região buscarem escritas próprias acerca do Continente (p. 35). O interesse por camadas de grande apelo popular é outro ponto de contato com o estudo sobre o programa de TV. É necessário destacar que a visão já incentivou mais trabalhos ligados à radiodifusão esportiva (Herbert Neto, 2023).

O tratamento dos resquícios das primeiras décadas da televisão no país é desafiador. Diferentemente de outras iniciativas, que se sustentam em substanciais registros audiovisuais, a ausência de arquivos do programa da TV Continental na íntegra requer outras ações. Na carência de indicativos contundentes em vídeo de Televisita Garson, a proposta de Luca (2005) encaminha uma ótica precisa acerca dos rastros deixados por publicações contemporâneas na imprensa. Para a historiadora, os documentos não devem ser naturalizados ou tomados como retratos neutros de suas conjunturas. A preocupação ganha força quando a televisão está em questão, afinal é uma análise reflexiva sobre a própria cobertura midiática.

Luca (2005) enfrenta com cautela o que foi produzido por empresas de comunicação, com cuidado para as decisões editoriais e inclinações políticas das direções (Ibidem). Nesse sentido, os propósitos de Luca (2005) e Napolitano (2005) se somam. Ao reconhecer a relevância social de veículos de comunicação, de grande alcance desde o século XX, Napolitano defende que registros da televisão sejam valorizados enquanto documentos legítimos de pesquisa sobre a História do Brasil, posicionamento que ainda enfrenta resistências. Infelizmente a radiodifusão continua a ser identificada pejorativamente como diversão frívola por setores acadêmicos.

A negligência com produções televisivas se expande e tende até a desconsiderar essas experiências em detrimento de outras fontes históricas. A aproximação reconhece a carência de políticas para a manutenção desses acervos (Napolitano, 2005). A disposição para comparar e a conduta com os registros a serem examinados podem ser combinadas, especialmente quando o estudo se debruça sobre um caso cujos poucos vestígios exigem a montagem de um mosaico — o objetivo é orientar outras visões para a televisão no país e recuperar traços dessa trajetória no passado. A exemplo de Televisita Garson, que será descrita pelas menções presentes no jornalismo impresso.

Para colocar em relação a programação contemporânea e aquela que foi ao ar pela TV Continental, é imprescindível eleger o fator de comparação entre os dois recortes temporais. Em ambos os casos é o contexto brasileiro que interessa, mas sem esse elemento seria impossível identificar similitudes e distinções. Televisita Garson será comparada, assim, com um conjunto diverso de programas — a despeito de todos, desde os anos 2000, estarem reunidas dentro do Grupo Globo. Sob esse horizonte comparativo, a vinculação com a cultura popular vai nortear as avaliações sobre a cobertura esportiva na televisão do início dos anos 1960 e no século XXI. As proximidades com tradições de grande apelo no país, o alto nível de circulação e as estratégias das respectivas produções impulsionam essa iniciativa.

É necessário lançar luz sobre os elos das diferentes expressões ao redor do falar sobre o futebol, principalmente com foco nos significados das intensas movimentações. A efemeridade das iniciativas na TV; o trânsito de intérpretes entre publicações impressas, estações de rádio ou canais de televisão; e a necessidade de acompanhar em tempo real os acontecimentos representam essas movimentações, dificilmente enfrentadas em seu dinamismo pelos estudos acadêmicos. Um dos motivos por trás das incompreensões é a preponderância do viés jornalístico nas pesquisas: ideais como neutralidade, imparcialidade e objetividade ganharam espaço na radiodifusão brasileira com a apologia à modernização do jornalismo da metade do século XX (Ribeiro, 2000).

A concomitância desse processo com a sedimentação do rádio e com a emergência da televisão no país pode ser a causa de algumas dessas imprecisões, porque a sisudez nunca foi hegemônica na cobertura esportiva por conviver com diferentes modos de encarar o esporte (Herbert Neto, 2024). Isso explica trabalhos como o de Guimarães (2018), que insere o comentário esportivo no interior do jornalismo. A conexão com a cultura popular, entretanto, parece ter produzido um viés pernóstico nas pesquisas, embora o jornalismo esportivo desempenhe atribuições determinantes como interlocutor e construtor de representações, ao redor das quais o público modula sua experiência com as práticas esportivas.

Reportagens convivem com inclinações fortemente opinativas, centradas na prática do comentário, que balizam e dão sentido às experiências do chamado jornalismo popular. As premissas da objetividade jornalística acabam por assumir um escopo reduzido no conjunto geral. Mesmo assim, são vistos como nocivos traços substantivos da cobertura, excluídos da agenda de discussões. Isso parece explicar a proeminência de uma bibliografia estrangeira normativa (Rowe, 1996; 2007; Andrews e Jackson, 2001; Wenner, 2013), que atesta ou incentiva a existência e a expansão de bom jornalismo investigativo (Rowe, 2017) ou do jornalismo de qualidade para os esportes (English, 2018; Weedon e Wilson, 2017).

A princípio, a experiência de Televisita Garson contribui para inverter a visão desatenta aos vínculos com a cultura popular e dar conta de práticas essenciais do jornalismo. O caráter lúdico se manteve, apesar das transformações que os veículos de comunicação sofreram. A característica determina que a vinculação às antigas tradições seja enfatizada: remete às elaborações de Bakhtin (2014) a respeito de François Rabelais, da Idade Média e do Renascimento a forma como ocorrem esses vínculos com a cultura popular. O estudo sobre as expressões artísticas e festivas tem desdobramentos decisivos para referências irônicas e bem-humoradas que subvertem a formalidade (Ibidem). Bakhtin oferece uma alternativa para a percepção do bom-humor e da sisudez, sem desconsiderar as dinâmicas sociais que os atravessam (2010).

O estudo trabalha com contextos completamente distintos, distantes do Brasil. Não obstante, o autor privilegia os conflitos dos setores mais influentes contra as camadas dominadas dentro da cultura popular (ibidem, p. 3). Acena, portanto, para o embate político. A partir desse enfoque, é permitido encarar o uso do riso, a ironia, o sarcasmo e a comédia como modos de resistir a conjunturas de abusos e encarar a formalidade sob o signo de ferramenta de controle. “O tom sério afirmou-se como a única forma que permitia expressar a verdade, o bem, e de maneira geral tudo que era importante, considerável. O medo, a veneração, a docilidade etc., constituíam por sua vez os tons e matizes dessa seriedade” (Bakhtin, 2010, p. 63).

Isso se contrapõe à tendência cômica, transmitida por meio da cultura popular. “O que é característico é justamente o fato de reconhecer que o riso tem uma significação positiva, regeneradora, criadora, o que a diferencia das teorias e filosofias do riso posteriores” (Bakhtin, 2010, p. 61, grifos do autor). Tampouco a ausência de humor deve ser examinada sem essa intensidade: “A única maneira de decifrar esses enigmas é empreender um estudo em profundidade de suas fontes populares” (Bakhtin, 2010, p. 2, grifos do autor). As disputas sociais ganham força: “A natureza específica do riso popular aparece totalmente deformada, por que são-lhe aplicadas ideias e noções que lhe são alheias, uma vez que se formaram sob o domínio da cultura e da estética burguesas” (idem, p. 3).

Contudo, a distância entre o contexto examinado por Bakhtin e os primeiros gestos da televisão no Brasil requer ainda outras considerações. Em muitos sentidos, conceitos como circularidade e influxos recíprocos, caros ao autor, serão rompidos pela ascensão do ethos burguês: as trocas entre a cultura popular e os hábitos da realeza sofrem um impacto decisivo. A proeminência do indivíduo, essencial no desenvolvimento do capitalismo, demarca o afastamento da Idade Média e do Renascimento. Elias e Dunning (2019) se esforçam para acompanhar o processo sob o prisma do esporte. A tensão que o destaque individual gera ante a experiência grupal, de certo modo, recupera características da cultura popular e norteia a percepção dos autores sobre a violência no futebol.

O monopólio da força pelo Estado ganha tração na leitura, ao passo que o desenvolvimento histórico e a intensificação da divisão social do trabalho conduzem a análise — em proposta que, no limite, diz respeito à consolidação das sociedades modernas e às transformações a que a agressividade foi submetida (Elias e Dunning, 2019). O autocontrole se contrapõe, nesse cenário, ao fervor religioso das torcidas nos estádios. Martín-Barbero (1997) se atém por sua vez à questão do gosto. No olhar que lança sobre o melodrama, o autor agrupa uma série de produções que se aproximam do apelo popular (Ibidem). Existem perigos nessas abordagens a respeito: os estudos que se ativeram cegamente aos paradigmas propostos para dar conta da realidade em torno de Rabelais, por exemplo, podem recair em eurocentrismo.

Em outras palavras, é necessária uma atitude que incorpore as peculiaridades brasileiras. Ainda com relação ao zelo às especificidades brasileiras, o estudo de Lopes (2005) é incisivo sobre a circulação de elementos populares na cultura local. Apesar de reconhecer a dificuldade que os diferentes veículos de comunicação tiveram para captar domínios das tradições culturais, o autor não direciona seu empenho para a televisão ou para um gênero em especial na programação (Ibidem). Entretanto, é capaz de flagrar muitas dessas impressões bakhtinianas. À primeira vista o interesse pela música configuraria um afastamento, mas o destaque conferido às disputas sociais evidencia aproximações. E a canção popular desempenha função de relevo nessa paisagem.

Responsáveis pelo sucesso: pioneirismos e as mesas redondas esportivas no século XXI

São reconhecidos como pertencentes ao gênero televisivo das mesas redondas esportivas os programas que reúnem dois ou mais participantes, com o intuito de analisar os principais acontecimentos esportivos — em especial do futebol (Hollanda, 2013). Essa classificação é complicada por conta das constantes alterações com que a televisão em geral e esse tipo de produção particularmente conviveram desde a década de 1950. Por isso, a opção é por um enquadramento que valorize as dinâmicas ao longo desse período (Mittel, 2004). No século XXI, houve de certa forma a consolidação dessas configurações, ainda que mudanças como a criação dos pacotes de TV por assinatura e o fortalecimento da digitalização tenham sido influentes (Herbert Neto, 2024).

Falar sobre diferentes modalidades, com destaque para o futebol no Brasil, está presente nos hábitos do público. Então, o fator que confere coesão é igualmente instável. A circulação na cultura popular colabora para explicar o apelo e a longevidade. Outra nuance que se constitui como uma permanência é o ambiente descontraído, em menor ou maior grau, que os programas esportivos de mesa redonda sustentam durante as suas transmissões: a atmosfera foge do comedimento dos telejornais. Há aqui uma interessante vinculação com as tradições bakhtinianas, uma vez que as discussões televisionadas se distanciam do clima de seriedade e sisudez em direção a estratégias de apelo popular.

É nesse instante que se torna necessário recorrer a casos recentes. Se o objetivo é desfazer pressupostos hierarquizantes, seguir a ordem cronológica pode consistir em um erro. Será avaliada, inicialmente, a mesa redonda Bem, Amigos!, transmitida por mais de duas décadas no canal por assinatura SporTV, marca especializada na cobertura esportiva gerida pelo Grupo Globo (Ritto, 1991)2. Em seguida, é a vez de examinar Central da Copa, programa exibido em TV aberta pelo mesmo conglomerado de comunicação, embora restrito aos períodos de disputa de Mundiais de futebol masculino — principal torneio entre seleções nacionais do calendário3. Os dois programas se aproximam do gênero televisivo e oferecem fortes sinais de vinculação à cultura popular, a despeito de conservarem interface considerável com o campo jornalístico, com a presença de profissionais com carreira em redações, dedicados à reportagem (Figura 1).

Figura 1
Repórter Joanna de Assis canta com o músico Toquinho no Bem, Amigos!. Informação do UOL Esporte, 2015. Disponível em: https://uolesportevetv.blogosfera.uol.com.br/2015/07/27/reporter-da-show-canta-elis-com-toquinho-no-sportv-e-surpreende-galvao. Acesso em: 31 ago. 2024.

A composição dos participantes em estúdio ilustra esses tensionamentos. Nem sempre os convites pontuais para as mesas redondas esportivas mantêm ligação imediata com o noticiário esportivo. Às vésperas do novo milênio4, Bem, Amigos! estipulou o hábito de receber semanalmente cantores e instrumentistas para apresentações (Bueno e Ostrovsky, 2015, p. 264). A escassez de registros e memória a respeito da trajetória desse gênero televisivo permitiu que seu apresentador reivindicasse a condição de pioneiro na inserção de números musicais em programas esportivos (Ibidem). A afirmação não se ampara nos vestígios do atribulado percurso do gênero das mesas redondas:5marcos iniciais da popularização da radiodifusão haviam condensado música popular e futebol6.

As evidências demonstram que a associação é muito anterior a Bem, Amigos!. Algo semelhante vem à tona com o humor. O riso é uma constante nos comentários e nos debates esportivos em radiodifusão — das brincadeiras no rádio (Prado, 2012, p. 156) aos cenários na TV (Hollanda, 2013, p. 141), mas recorrer a números humorísticos igualmente não seria um acontecimento isolado. As imbricações com a comédia são abrangentes7, porém é permitido mencionar que durante a cobertura da Copa do Mundo masculina de futebol de 2022, no Catar, a TV Globo exibiu Que Doha é Essa? (2022), com esquetes em Central da Copa que brincavam com personalidades e situações relacionadas ao noticiário esportivo8. O quadro com imitações e sátiras9 era transmitido durante a mesa redonda em TV aberta sob contexto digitalizado e multiplataforma — profundamente distinto daquele dos anos 1950 e 1960.

Música popular e humor são dois elementos fortes das tradições de grande apelo no Brasil. As experiências de Bem, Amigos! e de Central da Copa colocam em xeque a relação com a memória, por conta das versões que os realizadores constroem de seus próprios feitos na televisão. Enquanto para os pacotes por assinatura é defendido o pioneirismo no estreitamento da relação com cantores na programação esportiva, o exemplo da TV aberta aparece como resultado da criatividade de outro candidato a protagonista no desenvolvimento da radiodifusão. Para os dois casos, a compreensão mais profunda do histórico da cobertura do futebol contribui para evitar distorções.

Membros da cobertura especializada defendem que no século XXI houve o processo de leifertização, com a guinada rumo ao humor na programação esportiva10— o nome se deve a um apresentador que no Grupo Globo teria forçado os limites da seriedade na mediação do esporte com implicações que supostamente haveriam invadido as fronteiras da seriedade e da precisão jornalísticas (Pacheco, 2022). Até mesmo críticos ao seu comportamento político ou midiático reforçam essa suposta liderança11. O desenvolvimento da comédia na televisão brasileira e os antecedentes de duração mais longa que remetem às tradições populares relativizam o anúncio apoteótico dos atores que influenciaram a produção dos diferentes canais e enfraquecem essa retórica.

Na contramão da construção memorialística que ergue para os principais nomes da cobertura esportiva, legados que beiram a hagiografia, a pesquisa sobre Televisita Garson sinaliza continuidades que remetem aos antecedentes da televisão. Por estar inscrito em um instante experimental, quando a televisão buscava em linguagens anteriores artifícios para que fosse apresentada uma identidade própria (Scannel, 2009), o caso desfaz imprecisões e reitera a umbilical vinculação do falar sobre esportes no Brasil com a cultura popular. Com a análise dos registros sobre o programa da TV Continental, as conexões com a música popular e com o humor vêm à tona.

Parabéns ao Canal 9, pela sua maravilhosa realização: a experiência de Televisita Garson

A partir de junho 1959, a TV Continental passou a operar no canal 912. A inauguração da emissora, sediada no Rio de Janeiro, está inserida na década inicial da televisão no Brasil — intervalo no qual não havia redes de transmissão para diferentes capitais, os recursos para reexibir imagens eram muito limitados e a linguagem televisiva ainda não havia sido consolidada (Barbosa, 2010). Em condições incipientes, o interesse pelo futebol se manifestava nas poucas alternativas disponíveis aos telespectadores. Ainda que restritas as opções de canais, havia destaque para programas de comentário sobre esportes, conhecidos como mesas redondas ou resenhas esportivas13.

Exibido na recém-inaugurada TV Continental, Televisita Garson é um exemplo do caráter híbrido, que concilia opiniões e atrações lúdicas para suscitar o interesse da audiência. Cerca de dois anos depois do princípio dos trabalhos no veículo de comunicação, às terças-feiras14, começava a ser exibido para, além de abordar as principais notícias dos clubes, reunir esquetes de comédia, números de canto, apresentações de balé aquático e um espaço dedicado ao teatro. Participantes fixos e convidados ocasionais se reuniram semanalmente, a partir de 13 de junho de 1961, nas dependências de diferentes entidades esportivas. Ou seja, em produções externas15.

Esse é um detalhe que não pode ser negligenciado. Os primórdios da televisão no Brasil são marcados pela precariedade técnica, com equipamentos pesados, e dificuldade para armazenamento (Ribeiro e Sacramento, 2010). O videoteipe, por exemplo, só passa a ser usado no país para o esporte com mais familiaridade a partir de meados dos anos 1960 (Ribeiro, 2007, p. 170). O fato de a TV Continental conseguir realizar o programa fora dos estúdios ainda nos anos iniciais da mesma década é digno de registro. Mesmo depois da virada do milênio, apenas em ocasiões especiais — como decisões internacionais que envolvessem seleções ou clube brasileiros, as mesas redondas se predispuseram a levar a público produções externas. Antes da final da Copa Libertadores da América de 2017, por exemplo, o Bem, Amigos!, do SporTV, foi transmitido da Argentina para acompanhar o clima da decisão.16

Mais um aspecto imprescindível para enxergar Televisita Garson é a opção pelas locações. A produção escolhe sedes de clubes cariocas, que exerceram funções determinantes para a vida pública do Rio de Janeiro, em especial para o desenvolvimento das classes trabalhadoras (Coutinho, 2016) e para o processo de urbanização (Melo, 2000). Esses espaços não se limitavam ao fomento às atividades físicas e mantiveram, ao longo do século XX, um calendário de alternativas de lazer para entreter o público presente — composto ou não por associados, em ações que mobilizavam a vizinhança e possibilitavam trocas sociais, políticas e culturais em vários níveis (Ibidem). A iniciativa da TV Continental, assim, indica outra vinculação com circuitos anteriormente formados.

Antes do começo das transmissões, foi publicada no Jornal do Brasil a propaganda que anunciava a estreia: “Atenção! Câmeras em movimento! Vai entrar no ar Televisita Garson — nova atração da TV Continental (canal 9) — Show; sketches humorísticos; reportagens; flashes esportivos de ballet aquático, tênis, volley-ball, basket-ball; números de canto; teatro; música”17. Chama atenção na publicidade a importância atribuída a modalidades esportivas e a números artísticos. O valor do esporte se equipara às apresentações de cantores, instrumentistas, humoristas e demais atores. A atividade de repórteres figura como mais um dentre os atrativos, o que contribui para que a relevância que o campo jornalístico tinha no programa seja relativizada (Figura 2).

Figura 2
Informe publicitário sobre a estreia de Televisita Garson. Publicado na página 10 da edição de 16 de maio de 1961 do Jornal do Brasil.

Caso venham a ser assumidas as ênfases que constam no registro, pela ordem, os shows desempenhariam maior atração. O texto é acompanhado pela ilustração de uma grande câmera de televisão: a esfera visual indica que a capacidade de transmitir em imagens era um chamariz no Brasil. O informe publicitário sublinha a periodicidade e o horário de exibição. “A partir do dia 16 e todas as 3as feiras, das 21:30 às 22:30 horas”, documenta a publicação18. Os dados sinalizam permanências: frequentemente foram transmitidas uma vez por semana, no fim da noite, em duração entre 60 e 120 as mesas redondas19. O clube que acolheu a produção na estreia, segundo a propaganda, foi o Iate Clube do Rio de Janeiro do bairro da Urca, na zona sul carioca.

A proposta multiesportiva que a imprensa deixa aos pesquisadores igualmente merece ênfase. Iniciativas na TV aberta, antes do surgimento dos pacotes para assinantes, costumam ser valorizadas por acrescentar à programação televisiva a cobertura de modalidades distantes do futebol, que tendem a monopolizar as atenções da cobertura brasileira (Toledo, 2013). Televisita Garson acena para diversas modalidades durante os anos 1960, entre a primeira e a segunda conquistas da seleção que representava o país em Copas do Mundo (Máximo e Castro, 2011). Logo, em um instante de grande relevância para o universo futebolístico. Se o programa inaugural teve cenário à beira-mar, no mês seguinte a TV Continental visitaria o bairro do Grajaú, na zona norte carioca.

Com abreviações, Tribuna da Imprensa teceu elogios: “GRAJAÚ T.C. (c 9 - 21,25) é o clube percorrido por Rui Porto e Marilena Alves na ‘Televisita Garson’. Haroldo Costa e o elemento da equipe técnica da TV Continental são os maiores responsáveis pelo sucesso que o programa alcançou”20. O reconhecimento ao núcleo que realizava o programa pode decorrer das dificuldades técnicas já enumeradas, mas superadas semanalmente para as transmissões fora do estúdio. Ao enaltecer a produção, a publicação enfatiza a participação dos profissionais do canal, o que fica mais claro na frase seguinte — “Haroldo é um dos melhores produtores da TV carioca” (idem).

As considerações são mais compreensíveis quando avaliada a relação de convidados para outra edição do mesmo mês, realizada no bairro da Gávea, zona sul da cidade. O registro publicado pelo Jornal dos Sports (Televisita, 1961b) elencava artistas “da categoria de Orlando Silva, Elza Soares, Paulinho e seu conjunto, Nora Ney, Ciro Monteiro e outros”21. Na lista, composta majoritariamente por pessoas negras, constavam nomes que mantinham fortes conexões com a música popular em geral e com o samba. O tom de congraçamento, identificado na Tribuna de Imprensa, reaparece. “Parabéns ao Clube de Regatas [do] Flamengo e sua diretoria. Parabéns à Casa Garson, pelo seu brilhante espetáculo. Parabéns ao Canal 9, pela sua maravilhosa realização” (idem).

Os elogios se estendiam aos dirigentes rubro-negros, que receberam Televisita Garson ao patrocinador do programa e, mais uma vez, à equipe do canal. Os dois primeiros artistas citados sustentaram íntima ligação com o futebol: Silva alcançou notoriedade em processo concomitante à popularização do rádio no Brasil — a ponto de ser considerado o homem mais famoso do país ao lado do jogador da seleção brasileira Leônidas da Silva e do presidente da República Getúlio Vargas (Albin, 2006); Soares acompanhou de perto a modalidade, ficou conhecida também como torcedora-símbolo do Flamengo (Soares, 2022) e foi casada com o atleta Garrincha (Louzeiro, 1997). Atravessamentos com o esporte se manifestam em diferentes esferas e combinam o percurso da radiodifusão, a realidade política e a agenda esportiva no Brasil.

São anunciados os dois apresentadores na mesma edição do Jornal do Brasil (1961b). Sobre a primeira, Marilena Alves, não há mais informações disponíveis, em mais um indicativo da resistência a figuras femininas no gênero televisivo das mesas redondas esportivas (Herbert Neto, 2024). Na contramão, os dados a respeito do locutor Rui Porto realçam tendências da radiodifusão. O narrador começou a trabalhar na comunicação ao ser contratado em 1951 pela emissora de rádio Mayrink Veiga, do então Distrito Federal22. Migrou para o comentário esportivo com o tempo, assim como foi incorporado ao elenco da emergente televisão. Atuou, por exemplo, na TV Tupi (Léo, 2017, p. 127). Em mais um ponto que conecta a música à cobertura esportiva, manteve a coluna diária “Rio Norte e Sul”, no jornal O Globo, sobre a noite carioca23.

A atenção voltada para festas, apresentações musicais e estrelas do rádio ou da televisão na seção no jornalismo impresso pode ser outro indicativo da conexão com a cultura popular. De qualquer forma, o integrante da equipe mais elogiado pelas matérias não ancorava Televista Garson: Haroldo Costa. O trânsito do ator, jornalista, produtor e escritor explicita outras correlações do gênero televisivo: atuou na peça Orfeu da Conceição, de Vinicius de Moraes, no Theatro Municipal; escreveu para jornais, incluindo publicações comunistas; produziu espetáculos em requintadas casas noturnas; coordenou mais programas em canais televisivos; e se notabilizou como comentarista nas transmissões televisivas dos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro (Albin, 2006). É possível que os elogios a Costa partam da capacidade de reunir convidados que estimulam o interesse junto ao público, em um momento em que a presença de televisores nos lares brasileiros ainda não havia se espalhado.

Seus trabalhos para compreender heranças africanas na cultura popular mostram a profundidade das imbricações com o futebol — os dilemas raciais acompanham a modalidade no Brasil (Santos, 1981; Rodrigues Filho, 2010). Outro vestígio que ratifica o caráter dinâmico da cultura popular, da televisão e de Televisita Garson em especial é a confirmação de que, assim como se tornou comum desde o advento da televisão, o horário de exibição foi submetido a alteração24. A mudança foi assinalada pela cobertura dos jornais da época, que mantinham seções de programação para que os leitores se inteirassem das atrações de cada canal — é outra seara para pesquisas acadêmicas das transformações televisivas, inescapável também para ponderar o caso da TV Continental.

Televisita Garson não deixou registros nas publicações após 196125. A supervisão de Costa na TV Continental ilumina a oscilação dos ambientes mais elitizados aos frequentados pelos segmentos de menor poder aquisitivo. Além da reunião de convidados de grande popularidade, o programa mostrava capacidade de acessar diferentes regiões da cidade, de norte a sul. Seria ingenuidade acreditar que as sedes dos clubes não apresentavam diferenças entre si ou que associados e diretorias tinham perfis sociais homogêneos. A produção apresentava desenvoltura para se instalar em dependências esportivas, para promover o trânsito do programa e, no limite, para colocar o que era exibido na TV em circulação. São motivos que tornam especial a experiência.

As informações contidas na imprensa apontam que Televisita Garson é anterior à Grande Resenha Esportiva Facit — mesa redonda que reunia reconhecidos membros da cobertura esportiva (assim como as demais citações do termo media, essa foi alterada) para repercutir aos domingos a rodada do futebol, inicialmente na TV Rio26. Uma das semelhanças é o recurso a participantes com vivências no rádio, como Porto e o apresentador Luiz Mendes do programa patrocinado pela empresa Facit; outra é o fato de ambas trazerem no nome as patrocinadoras (Hollanda, 2013). No caso da TV Continental, a companhia era a Casa Garson. Vale destacar que a patrocinadora não era uma firma sem vínculos pregressos com a televisão: também na década de 1960 havia sustentado programa voltado para o público feminino na TV Tupi27.

A menção à Grande Resenha Esportiva Facit é oportuna e se deve ao status de paradigma que recebeu de acadêmicos e jornalistas (Ribeiro, 2007; Hollanda, 2013; Léo, 2017), a ponto de ser considerada erroneamente como a pioneira do gênero. Televisita Garson, em vários sentidos, antecipa traços das mesas redondas. Mas ainda assim não deve ser considerada a responsável por uma gênese mitológica, a determinar o marco inaugural a-histórico — o programa negocia com elementos da cultura popular brasileira, em um processo que deve ser analisado com privilégio para os trânsitos. A oposição entre aspectos lúdicos e informativos da cobertura esportiva, que estimulou diversos estudos estrangeiros acerca do tema (Whiteside, You, Hardin, 2012; Cassidy, 2017), é secundária perante a necessidade de compreender a presença de tradições na cobertura especializada.

Considerações finais

O grande número de relatos disponibilizados no mercado editorial de atores responsáveis por produções na cobertura esportiva pode induzir ao erro por formular grandes atos iniciais em vez de enfatizar os processos em torno da radiodifusão. Publicações como as de Bueno e Ostrovsky (2015) ou de Costa e Pinto (2001) exemplificam essa presença. O olhar histórico precisa caminhar em sentido oposto. O estudo sobre a TV Continental é um ponto de partida, que pode ser aprofundado por depoimentos de quem participou da produção na virada para os anos 1960. As entrevistas, contudo, precisam se desvencilhar igualmente dessa tendência a se fixar em pioneirismos.

Por meio da paisagem descortinada por Televisita Garson, a contratação de personalidades menos atreladas a vivências estritamente esportivas ou jornalísticas28para o gênero televisivo das mesas redondas esportivas ganha outros sentidos. As participações do escritor Nelson Rodrigues e, quase meio século depois, do humorista Jô Soares29 soam menos enigmáticas, mesmo que ambos tenham se dedicado ao comentário em suas participações em mesas redondas. A presença nos debates era carregada pela imagem de tudo o que havia sido feito antes em suas respectivas carreiras. Havia um histórico de cruzamentos com a cultura popular desde os primeiros anos da televisão.

É permitido, todavia, questionar a inclusão no gênero televisivo das mesas redondas esportivas. Esquetes de teatro e balé aquático são traços alheios, que não configuram constantes nos programas de debate a respeito do esporte em radiodifusão. A apresentação por um comentarista, o destaque para os acontecimentos dos clubes e as interações registradas pela imprensa reiteram a inserção de Televisita Garson nesse conjunto diverso e em constante transformação. As peculiaridades, em vez de apartar o programa, parecem reforçar essa integração, porque diversas outras idiossincrasias foram identificadas no percurso dessas discussões televisionadas no Brasil.

A vinculação do futebol com a brasilidade é um fator que acentua a inclinação popular, mas a realidade marcada pela escravidão impõe que os estudos não adotem horizontes universais. Os pontos de contato da produção da TV Continental com a negritude, representada pelo samba e pelo carnaval, têm implicações para a compreensão do programa em questão. Em contrapartida, os clubes visitados pertenciam a segmentos cariocas mais elitizados30. Futuras pesquisas podem reiterar disputas, com ênfase na questão racial ou de gênero. A paisagem bakhtiniana possibilita a visão que sublinha o conflito presente nas tradições — e as possibilidades de transgressão. Acima de tudo, resta a afirmação de que as imbricações da cobertura esportiva com expressões da cultura popular, como a canção e o humor, não são incidentais. Mesmo assim, outros estudos devem testar as fronteiras dessas conexões.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    20 Dez 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    13 Maio 2024
  • Aceito
    24 Ago 2024
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