RESUMO
Este estudo teve como objetivo avaliar a satisfação de mulheres no puerpério imediato com o atendimento fisioterapêutico. Trata-se de um estudo transversal. A conduta fisioterapêutica foi baseada em cinesioterapia, massoterapia e recursos eletrofísicos, finalizando com educação em saúde. Cerca de 7 a 15 dias após alta hospitalar, foi realizado contato telefônico com as participantes do estudo, sendo realizadas 10 perguntas relacionadas ao atendimento prestado pelo fisioterapeuta na maternidade no período do puerpério imediato. Participaram do estudo 49 puérperas, com média de idade de 27 anos (±3,7), em sua maioria brancas, em união estável, ensino médio completo e multíparas; a via de nascimento predominante foi a vaginal (61,22%). Todas as participantes declararam satisfação com o atendimento recebido, clareza das orientações sobre os exercícios propostos e esclarecimento de dúvidas. Cerca de três (6%) das mulheres consideraram que o atendimento demorou ou causou incômodo, 70% (35) realizaram em casa as orientações recebidas na maternidade e 12% (7) tiveram dificuldade na execução das orientações. Todas as puérperas declararam que gostariam de ter acesso ao atendimento fisioterapêutico novamente caso tenham outro bebê; a satisfação média para o atendimento fisioterapêutico recebido na maternidade foi de 9,64. Constatou-se que as mulheres ficaram satisfeitas com o atendimento fisioterapêutico na maternidade e a maioria utilizou as orientações recebidas em casa.
Descritores:
Fisioterapia; Período Pós-Parto; Saúde da Mulher
ABSTRACT
This study aimed to evaluate women’s satisfaction with physical therapy care during the immediate postpartum period. This is a cross-sectional study. The physical therapy approach was based on kinesiotherapy, massage therapy, electrophysical resources, and concluded with health education. Approximately seven to 15 days after hospital discharge, participants were contacted by phone and asked ten questions regarding the care provided by the physical therapist in the maternity ward during the immediate postpartum period. The study included 49 puerperal women with a mean age of 27 years (±3.7), mostly White, in stable unions, with complete secondary education, and multiparous; the predominant mode of delivery was vaginal childbirth (61.22%). All participants reported satisfaction with the care received, clarity of the instructions regarding the proposed exercises, and clarification of doubts. Three (6%) women felt the care took too long or caused discomfort, 70% (35) followed the instructions received at the maternity hospital at home, and 12% (seven) had difficulty following the instructions. All women stated they would like to have access to physical therapy care again if they had another baby; the average satisfaction with the physical therapy care received at the maternity hospital was 9.64. It was found that the women were satisfied with the physical therapy care at the maternity hospital, and most applied the instructions received at home.
Keywords:
Physical Therapy; Postpartum Period; Women’s Health
RESUMEN
Este estudio tuvo como objetivo evaluar la satisfacción de las mujeres en el puerperio inmediato con la atención fisioterapéutica. Se trata de un estudio transversal. La conducta fisioterapéutica se basó en la kinesioterapia, la masoterapia y los recursos electrofísicos, y se terminó con educación sanitaria. Entre 7 y 15 días después del alta hospitalaria, se contactó por teléfono a las participantes del estudio para contestar 10 preguntas relacionadas con la atención brindada por el fisioterapeuta en el hospital de maternidad durante el posparto inmediato. Este estudio incluyó a 49 mujeres puerperales, con una edad media de 27 años (±3,7), en su mayoría blancas, en unión estable, educación secundaria completa y multíparas; la vía de parto predominante fue vaginal (61,22%). Todas las participantes declararon satisfacción con el servicio recibido, claridad de las instrucciones sobre los ejercicios propuestos y aclaración de dudas. Aproximadamente tres (6%) de las mujeres consideraron que la atención tomó tiempo o les causó molestias, el 70% (35) de ellas llevaron a cabo en el hogar las instrucciones recibidas en el hospital de maternidad y el 12% (7) tuvieron dificultades para cumplir las instrucciones. Todas las mujeres puerperales reportaron que les gustaría volver a tener acceso a la atención fisioterapéutica si tuvieran otro bebé; la satisfacción promedio con la atención fisioterapéutica recibida en el hospital de maternidad fue de 9,64. Se encontró que las mujeres estaban satisfechas con la atención fisioterapéutica en el hospital de maternidad y que la mayoría cumplían las instrucciones recibidas en el hogar.
Palabras clave:
Fisioterapia; Período Posparto; Salud de la Mujer
INTRODUÇÃO
Cerca de 2,54 milhões de partos ocorrem anualmente no Brasil, dos quais 2,51 milhões são em ambiente hospitalar1. Tanto a gestação como o parto podem impactar o período de recuperação da mulher, que se dá logo após o nascimento do bebê. Esse período é denominado puerpério, ou período pós-parto, e é definido como o momento em que as modificações locais e sistêmicas ocorridas no corpo materno durante a gestação e o parto retornam ao estado pré-gravídico. Nesse momento, o relato por parte das puérperas a respeito de desconfortos musculoesqueléticos e circulatórios, queixas de dor, dificuldades na amamentação, no cuidado do recém-nascido, tristeza e depressão pode ser frequente2. As principais queixas de dor e desconforto no puerpério incluem traumas mamilares decorrentes da amamentação, desconforto intestinal, dor perineal ou da incisão cirúrgica da cesárea, cólica abdominal, lombalgia e limitações funcionais3, e esses sinais e sintomas podem afetar o autocuidado materno e o cuidado com o recém-nascido4,5.
O puerpério pode demandar cuidados especializados e a inclusão de fisioterapeutas nas equipes de assistência ao parto e pós-parto é essencial para garantir a qualidade do cuidado. Segundo a Resolução nº 401/2011 do Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (COFFITO), o fisioterapeuta é um profissional capacitado para atuar no puerpério visando a prevenção e o tratamento a fim de manter a funcionalidade da puérpera, podendo ainda oferecer orientações em saúde e melhorar a recuperação e qualidade de vida da mulher6,7. Prevenção e redução de edema em membros inferiores e vulva, melhora da função muscular, postural e urinária, promoção da amamentação adequada, redução da dor perineal e em cicatriz de cesárea, melhora do funcionamento intestinal, entre outros benefícios são proporcionados com a inserção do fisioterapeuta nas maternidades8.
No Brasil não se tem conhecimento de estudos que avaliaram a satisfação de mulheres com o tratamento fisioterapêutico recebido, visto que a presença desse profissional ainda não é obrigatória nas maternidades. Nesse sentido, estudos que possam avaliar a atuação desse profissional sob a ótica da mulher poderiam apoiar a tomada de decisão de gestores, adicionados a futuras pesquisas sobre os possíveis custos gerados pela contratação desse profissional. Este estudo teve como objetivo descrever o perfil de mulheres atendidas pelo fisioterapeuta em uma maternidade do interior do estado de São Paulo, bem como avaliar a satisfação com o atendimento fisioterapêutico recebido.
METODOLOGIA
Trata-se de um estudo descritivo, observacional de corte transversal, reportado de acordo com as orientações do Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE)9. Esta pesquisa foi desenvolvida pela equipe do Laboratório de Pesquisa em Saúde da Mulher da UFSCar; a população foi composta de mulheres que vivenciaram o processo de parturição em uma maternidade no interior do estado de São Paulo. A amostra foi selecionada por conveniência.
Participaram do estudo mulheres com idade a partir de 18 anos, que receberam atendimento fisioterapêutico durante o período do puerpério imediato em internação hospitalar e que tinham telefone/celular. Foram excluídas puérperas que apresentaram intercorrências puerperais que demandaram internação em UTI ou que seus bebês tenham sido internados em UTI Neonatal.
As condutas realizadas no período de internação consistiram em: alongamento, exercício de mobilidade pélvica, reeducação respiratória, exercícios metabólicos, massoterapia, eletroestimulação nervosa transcutânea para analgesia das dores decorrentes da cesárea e no períneo numa frequência de 100Hz e duração de pulso de 80µs, relaxamento, crioterapia, drenagem linfática manual, deambulação, conscientização da musculatura do assoalho pélvico e orientações sobre a diástase abdominal. Além disso, as mulheres foram orientadas sobre os cuidados posturais durante o pós-parto, como ao amamentar, ao levantar-se da cama, ao dar banho e trocar o recém-nascido, ao carregar o bebê no colo e ao pegá-lo em superfícies baixas, como cama ou chão.
Os dados da caracterização da amostra e as informações sobre as principais queixas foram coletados por meio de uma ficha de avaliação elaborada pela equipe de pesquisa.
As mulheres foram contatadas via telefone por um avaliador cego, ou seja, não era o mesmo fisioterapeuta que atendeu a mulher na maternidade, onde era realizada uma entrevista com as seguintes questões com possibilidade de resposta SIM e NÃO: “Você considera útil o trabalho feito pelo fisioterapeuta na maternidade?”; “As explicações dadas pelo fisioterapeuta foram fornecidas com clareza?”; “Você achou que o atendimento/as orientações incomodaram ou demandaram muito tempo?”; “Durante o atendimento, todas as suas dúvidas foram esclarecidas?”; “Você realizou/usou alguma das orientações recebidas na maternidade?”; “Teve dificuldade em realizar alguma atividade ou orientação recebida quando foi pra casa?”; “Sentiu alguma dor, inchaço ou incômodo, durante ou após os exercícios passados pelo fisioterapeuta?”; “Se tiver outro filho, você gostaria de ser atendida pelo fisioterapeuta novamente?”; “Gostaria de acrescentar ou perguntar algo?”; “Por fim, dê uma nota de 0 a 10 para o atendimento da Fisioterapia na maternidade”.
Os dados foram armazenados num banco de dados do aplicativo Excel. Foi utilizada a análise estatística descritiva por meio de frequência para as variáveis categóricas; média e desvio-padrão para as variáveis contínuas. A coleta foi realizada no período de junho a setembro de 2018.
RESULTADOS
Das 107 mulheres elegíveis para o estudo, 49 foram incluídas e 58 foram excluídas devido à impossibilidade de contato telefônico. A maternidade do estudo atende majoritariamente mulheres do sistema público de saúde e não conta com fisioterapeutas na equipe.
As puérperas apresentaram média de idade de 27 anos (3,7 anos). A média da idade gestacional foi de 38,44 1,20) semanas. Em relação às características dos recém-nascidos, a média de massa corporal foi igual a 3.211 (273,61) gramas, e o Apgar no quinto minuto de vida teve média igual a 9,81 (0,32). Na Tabela 1 estão dispostos os demais dados da caracterização das participantes do estudo, coletados por meio da ficha de avaliação fisioterapêutica aplicada antes do atendimento. Na Tabela 2 estão os dados das queixas relatadas com maior frequência pelas mulheres no pós-parto.
Na Tabela 3 estão dispostos os dados referentes à entrevista realizada a respeito do atendimento fisioterapêutico.
Ao final da entrevista, foi solicitado às mulheres que dessem uma nota de 0 a 10, sendo 0 muito insatisfeita e 10 muito satisfeita, para o atendimento prestado pelo fisioterapeuta na maternidade. A média foi de 9,64. As mulheres que fizeram comentários ao pesquisador elogiaram a atenção, o cuidado e agradeceram, pois consideraram muito válido o atendimento.
DISCUSSÃO
O estudo revelou que todas as puérperas entrevistadas acharam útil o trabalho do fisioterapeuta na maternidade, considerando as explicações claras e as dúvidas bem esclarecidas. A maioria seguiu as orientações recebidas e todas gostariam de ser atendidas por um fisioterapeuta em futuras gestações. Um estudo brasileiro10, realizado com o objetivo de avaliar o conhecimento de 446 mulheres sobre a atuação do fisioterapeuta na saúde da mulher, mostrou que cerca de 80% das participantes já tinham ouvido falar ou acreditavam que o fisioterapeuta poderia atuar no pré-natal, no trabalho de parto, no parto ou no período pós-parto, o que revela ainda a necessidade da ampliação da divulgação da atuação do profissional fisioterapeuta especializado em saúde da mulher. Vale destacar que 86% das participantes tinham ensino superior, o que sugere um maior acesso a informações relacionadas ao tema. Neste estudo, a amostra foi composta de mulheres atendidas na rede pública de saúde, em sua maioria com ensino médio completo.
Os resultados do estudo mostram que o perfil das mulheres atendidas na maternidade, com idade entre 20 e 30 anos e ensino médio completo, é similar ao visto em todo o país11-13. No entanto, diferentemente da tendência nacional, em que os partos cesáreos aumentaram e os vaginais diminuíram entre 2000 e 2019, a maioria das mulheres no estudo teve parto vaginal14. Dados do Ministério da Saúde indicam que, entre 2018 e 2022, 56,9% dos nascimentos no Brasil foram cesáreas15.
As mulheres participantes deste estudo relataram dores e desconfortos no período puerperal imediato. Entre as dores mais relatadas estão a perineal e abdominal16. Neste estudo, 20% relataram dor abdominal e 26%, dor perineal, mas estas não foram as mais frequentes. A dor abdominal é prevalente em mulheres que passaram por cesárea, devido à incisão cirúrgica e ao aumento do tônus uterino17,18. A dor perineal, comum entre puérperas, pode causar limitações nas atividades diárias e levar ao desmame precoce2.
O edema, especialmente em membros e região perineal, foi identificado como a queixa mais comum, com causas variando entre imobilização no leito, complicações, dor ou medo, prejudicando a drenagem linfática, principalmente após cesáreas4. No parto vaginal, o edema perineal resulta da dilatação para a passagem do bebê, lacerações ou episiotomia19. Para tratar esses sintomas, técnicas fisioterapêuticas como cinesioterapia, em especial exercícios de mobilidade pélvica, eletroestimulação, orientações posturais para amamentação, crioterapia, massoterapia e drenagem linfática20-26, foram utilizadas, melhorando o autocuidado da mulher e do recém-nascido.
As mulheres se mostraram satisfeitas com o serviço fisioterapêutico, visto que todas consideraram útil o atendimento, perceberam clareza nas explicações, tiveram suas dúvidas esclarecidas e gostariam de ser atendidas novamente se tivessem outro filho. Estudos nacionais apontam que a satisfação com o atendimento do fisioterapeuta está associada à atenção proporcionada, habilidade de comunicação e clareza nas explicações, o que corrobora com os comentários favoráveis das participantes sobre a atenção e os cuidados recebidos com o atendimento fisioterapêutico27-29. Todos os itens analisados obtiveram avaliação positiva, somente três mulheres consideraram que o atendimento incomodou ou demandou muito tempo, apenas 21% sentiram dor e/ou incômodo durante ou após os exercícios, provavelmente relacionadas com as dores próprias do pós-parto17,19.
Esta pesquisa também evidenciou que algumas puérperas tiveram dificuldade em realizar alguma atividade em casa e/ou não aderiram às orientações fornecidas pelo fisioterapeuta. Tal achado corrobora um estudo de revisão sistemática30 no qual evidencia que, após o parto, a puérpera poderá ocupar a maior parte do seu tempo cuidando do bebê, diminuindo a sua procura por atividades físicas.
Os cuidados prestados, o acolhimento e as práticas humanizadas são extremamente importantes para a satisfação do usuário17, porém é válido ressaltar que as pesquisas de satisfação descrevem resultados temporários, sendo necessário aprimoramento contínuo, uma vez que refletem as condições do serviço prestado tal qual a avaliação do sistema de saúde31.
Uma das principais limitações deste estudo foi o número reduzido de participantes, bem como o fato de ter sido conduzido em uma única maternidade no interior do estado de São Paulo, não sendo possível generalizar os resultados. Por outro lado, as características das participantes deste estudo se assemelham ao perfil das usuárias brasileiras da rede pública de saúde. Ademais, os resultados fornecem informações relevantes sobre satisfação com o atendimento fisioterapêutico no período puerperal, nem sempre ofertado nas maternidades públicas brasileiras. Esses achados podem ser úteis para melhorar os serviços prestados em maternidades ao mostrar a importância da presença dos fisioterapeutas nas maternidades, de modo a atender de maneira mais eficiente às necessidades das puérperas. Além disso, esses resultados podem embasar futuras investigações que explorem de maneira mais aprofundada o impacto do atendimento fisioterapêutico utilizado no período puerperal.
CONCLUSÃO
Foi possível observar que o perfil das participantes que receberam o atendimento fisioterapêutico neste estudo era predominantemente composto de mulheres brancas, em união consensual, com nível de escolaridade até ensino médio completo, multíparas e que tinham vivenciado o parto vaginal. Foi constatado que as puérperas ficaram satisfeitas com o atendimento fisioterapêutico recebido. Além disso, referiram que puderam tirar dúvidas sobre aspectos relacionados ao período puerperal. A satisfação das pacientes sugere que a atuação do fisioterapeuta colabora com o bem-estar materno durante o período de internação hospitalar.
DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível no corpo do artigo.
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