Open-access Análise do desenvolvimento motor de bebês de risco atendidos de forma presencial versus bebês atendidos de forma remota

RESUMO

Sabe-se que os serviços de intervenção precoce (IP) trabalharam de forma contínua para atender remotamente bebês e suas famílias durante o confinamento causado pela pandemia de covid-19. O atendimento não presencial veio para minimizar os efeitos deletérios que essa limitação social pôde trazer aos sujeitos em pleno desenvolvimento, mas não se conhecia o resultado desse processo, nem mesmo para torná-lo uma nova abordagem de atendimento. Assim, o objetivo do estudo foi verificar se os efeitos positivos produzidos no desenvolvimento motor de bebês de risco pela intervenção motora precoce presencial foram os mesmos produzidos pela forma remota. Foi realizado um estudo ex-post-facto comparativo. Para avaliar o desenvolvimento motor dos bebês de risco, foi utilizada a Alberta infant motor scale (Aims). Pode-se observar em todas as subescalas que a diferença do pré para o pós foi significativa em ambos os grupos, que não diferiram entre si. No entanto, quando avaliado o percentil, a diferença é estatisticamente significativa no grupo remoto. Destes, 15 bebês faziam parte do grupo presencial e 15 bebês do grupo remoto. Os achados deste estudo propõem investigar os atendimentos de fisioterapia precoce no contexto remoto, uma vez que o ambiente domiciliar e a fisioterapia remota guiada por um profissional mostraram-se eficazes.

Descritores:
Desenvolvimento Infantil; Intervenção Precoce; Recém-Nascido Prematuro; Telerreabilitação; Covid-19

ABSTRACT

’Early intervention programs have continuously treated infants and their families during the lockdown caused by the COVID-19 pandemic via online platforms. Such remote treatment aimed to minimize the deleterious effects social isolation could bring to subjects in full development. Yet the results of this process ’were unknown, including toward a new approach to care. Thus, this study aimed to assess whether the positive effects of face-to-face early motor intervention on the motor development of at-risk infants mirror those in remote sessions. This comparative ex-post-facto study evaluated the motor development of at-risk infants by the Alberta Infant Motor Scale. All subscales showed significant differences from pre-to-post treatment in both groups, which were not different from each other. However, evaluating percentiles showed a statistically significant difference in the remote group. In the sample, 15 infants received face-to-face treatment and 15, remote care. This study aimed to investigate remote early physical therapy interventions due to the efficacy the home environment and the remote physical therapy guided by a professional.

Keywords:
Child Development; Early Intervention; Premature Newborn; Telerehabilitation; COVID-19

RESUMEN

Se sabe que los servicios de intervención temprana (IP) trabajaron continuamente en la asistencia remota a bebés y sus familias durante el confinamiento provocado por la pandemia de la covid-19. La atención no presencial pudo minimizar los efectos deletéreos que esta limitación social podría implicar a los sujetos en pleno desarrollo, pero no se conoce el resultado de este proceso, ni siquiera para convertirlo en un nuevo enfoque de la atención. Así, el objetivo de este estudio fue verificar si los efectos positivos producidos en el desarrollo motor de los bebés en riesgo por la intervención motora temprana presencial eran los mismos que los producidos en forma remota. Se realizó un estudio ex-post-facto comparativo. Se utilizó la escala de motricidad infantil de Alberta (AIMS) para evaluar el desarrollo motor de los bebés en riesgo. Se puede observar en todas las subescalas que la diferencia de pre- a pos- fue significativa en ambos grupos, que no difirieron entre sí. Sin embargo, cuando se evalúa el percentil, la diferencia es estadísticamente significativa en el grupo remoto. De estos, 15 bebés formaron parte del grupo presencial y 15 bebés del grupo remoto. Los hallazgos de este estudio proponen evaluar la atención temprana de fisioterapia en el contexto remoto, ya que el entorno domiciliario y la fisioterapia remota guiada por un profesional demostraron ser efectivos.

Palabras clave:
Desarrollo Infantil; Intervención Temprana; Recién Nacido Prematuro; Telerrehabilitación; Covid-19

INTRODUÇÃO

Com a rápida emergência e demanda ocasionada pela epidemia de covid-19, muitas das medidas de controle foram introduzidas de uma só vez, incluindo o distanciamento social, com aceitação variada nos diferentes países1. Por outro lado, os serviços de intervenção precoce (IP) trabalharam de forma contínua para permanecer atendendo crianças e suas famílias durante o confinamento causado pela pandemia usando plataformas online. Dessa forma, a pandemia de covid-19 oportunizou aos trabalhadores da saúde o ensejo para programar estratégias de telerreabilitação no cotidiano das famílias2.

Os serviços prestados pela telerreabilitação estão crescendo exponencialmente e são de amplo escopo. No âmbito da reabilitação, esse tipo de abordagem vem superando barreiras temporais, geográficas, sociais e financeiras3. Por esse motivo, o trabalho procurou verificar se a fisioterapia motora precoce realizada de forma remota produziria ganhos significativos para o desenvolvimento motor dos bebês, uma vez que sua implementação poderia facilitar a vida dos pais de forma circunstancial.

Compreende-se que o desenvolvimento do cérebro humano é um processo contínuo, baseado em uma interação constante entre genes e o meio onde o bebê se insere. Além disso, sabe-se que o período fetal e os dois primeiros anos de vida pós-natal são caracterizados pelo aumento da taxa de eventos neurogenéticos, período compreendido por maior neuroplasticidade e capacidade de reorganização cerebral4. Isso posto, percebe-se a importância da IP nos bebês com risco no desenvolvimento e, consequentemente, a importância de existirem novos canais que possam facilitar o acesso dos pais a esses serviços, como a telerreabilitação, uma forma de atender a essa demanda também no futuro, independente de confinamento.

Dentro desse escopo, entende-se por bebê de risco o recém-nascido (RN) que é exposto a situações em que há maior risco de evolução desfavorável, além de apresentar maior chance de mortalidade e morbidade5. De acordo com o Ministério da Saúde (MS), é considerado bebê de risco a criança com baixo peso ao nascer, menos de 37 semanas de idade gestacional, asfixia grave, internação ou intercorrências na maternidade, com mãe adolescente, mãe com baixa instrução, mãe residente em área de risco e história de morte de crianças na família6.

É evidente que os programas de IP são fundamentais para prevenir danos ou agravos ao processo de evolução no desenvolvimento dos bebês de risco, cujas famílias não podem garantir sozinhas a estimulação adequada durante os primeiros anos de vida do bebê. Por isso, a fisioterapia desempenha um papel importante, promovendo estímulos direcionados e adequados e estimulando novas conexões neurais7. Em razão disso, o uso da tecnologia de telessaúde é indispensável, facilitando o atendimento às famílias que residem longe dos centros de serviços de IP e permitindo a participação de todo o núcleo familiar ao flexibilizar o horário de atendimento, economizando tempo e dinheiro ao eliminar a necessidade de deslocamento dos pais e bebês2.

Assim, analisar o desempenho motor dos bebês atendidos remotamente pode gerar evidências científicas para potencializar e certificar essa prática em caso positivo. Por isso, diante desse novo cenário de atendimentos, houve a preocupação em comparar os efeitos no desenvolvimento dos bebês participantes do Projeto de Intervenção Motora Precoce (Pimp) da clínica de fisioterapia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) que realizaram fisioterapia presencial e daqueles que realizaram fisioterapia remota. Para tanto, uma questão de pesquisa foi formulada para guiar este estudo: será que os atendimentos remotos de intervenção motora precoce evidenciariam resultados semelhantes a de outros estudos já consolidados com intervenção presencial? Com isso, o objetivo do estudo foi verificar se os efeitos positivos produzidos pela intervenção remota precoce no desenvolvimento motor de bebês de risco foram os mesmos produzidos intervenção presencial.

METODOLOGIA

Realizou-se um estudo ex-post-facto comparativo. A população foi composta por bebês de ambos os sexos com risco de atraso motor, classificados inicialmente pela Alberta infant motor scale (escala infantil motora de Alberta [Aims]), que estivessem com até 18 meses de vida e participassem do Pimp da UFRGS, vinculado ao curso de fisioterapia.

Foram incluídos no estudo todos os prontuários, com dados completos, de bebês com avaliação inicial e três meses de atendimento presencial na Pimp (avaliação final) de 2016 a 2019 (grupo controle = grupo presencial). Também foram incluídos os prontuários de todos os bebês atendidos em 2020, 2021 e metade de 2022, quando o atendimento foi no formato de telerreabilitação/telefisioterapia (grupo online = grupo remoto). Os bebês atendidos remotamente também deveriam ter a avaliação inicial e três meses de atendimento (avaliação final). É importante ressaltar que a avaliação final não necessariamente encerrava o atendimento do bebê, pois é de rotina no projeto que eles sejam avaliados a cada três meses, mas os dados analisados partiram dos três meses da avaliação inicial para ambos os grupos. Esse nome é somente para fim de organização do estudo, pois todos seguem com os atendimentos no formato presencial atualmente.

Foram excluídos os bebês com dados incompletos nos prontuários ou aqueles cujas famílias tenham desistido dos atendimentos, além de bebês que faltaram mais de três vezes consecutivas ou não compareceram aos atendimentos.

O cálculo do tamanho da amostra foi realizado pelo software Programs for Epidemiologists for Windows (WinPEPI), versão 11.43, e baseado nos estudos de Gerzson et al.8 e Valentini et al.2. Para um nível de significância de 5%, um poder de 80% e um tamanho de efeito padronizado de aproximadamente um desvio padrão entre as medidas, obteve-se um total mínimo de 14 bebês em cada grupo.

Os instrumentos de medida utilizados foram uma ficha de anamnese e a Aims. A ficha de anamnese continha dados retirados de prontuários, identificando as seguintes informações: nome do bebê descrito por código, sexo, idade corrigida, data da primeira avaliação e posteriormente data da segunda avaliação, bem como os escores alcançados na escala Aims9,10.

A Aims foi traduzida e validada para a população brasileira, sendo utilizada para bebês com idade corrigida entre o nascimento e 18 meses de idade, independente do bebê ser a termo ou pré-termo. É uma escala de avaliação observacional, desenvolvida para mensurar a maturação motora grossa em bebês desde o nascimento até a marcha independente, sendo possível identificar atrasos motores10. A Aims é composta por 58 itens divididos em quatro posturas, sendo 21 itens em prono, 12 itens em supino, 12 itens em sentado e 16 em pé, avaliando a atividade antigravitacional do bebê, possibilitando análise dos componentes para outras aquisições por meio da movimentação livre2 e buscando identificar sinais e alterações no atraso de desenvolvimento motor. Posteriormente, a escala gerou uma pontuação bruta que é transformada em porcentagem. Os valores de escores menores que 5% eram classificados como atraso motor; entre 5% e 25%, desenvolvimento com suspeita de atraso; e maior que 25%, desenvolvimento típico2,10,11.

Em relação aos procedimentos coletados em prontuário, todos os bebês dispunham de um arquivo contendo avaliação inicial, evoluções das sessões e avaliação após três meses. As intervenções eram realizadas uma vez por semana para ambos os grupos, por 50 minutos, e as famílias eram orientadas a estimularem os seus filhos durante a semana. Nas sessões, eram realizados estímulos de perseguição visual, controle postural e motricidade fina, baseados em estudo prévio12. Eram de três a cinco minutos de perseguição visual, visto que essa atividade incentiva a manipulação: o brinquedo da perseguição visual era oferecido para o bebê para que ele o manipulasse com algumas nuances, como esconder o brinquedo, usar objetos intermediários, colocar dentro de recipientes etc. A atividade de manipulação durava em torno de 20 minutos. No restante do tempo eram oferecidas atividades em diferentes decúbitos, trocas de posturas, sedestação, gatas, joelho, semiajoelhado e em pé, dependendo da fase do desenvolvimento.

As avaliações, de rotina, foram feitas por fisioterapeutas, treinados por doutores na área, tanto na fase presencial do estudo quanto na remota. A diferença é que a avaliação do teleatendimento foi remota, pois a Aims permite esse formato.

A análise dos dados foi realizada no programa Statistical Package for the Social Science (SPSS), versão 27.0. As variáveis numéricas foram descritas por média e desvio padrão ou mediana e amplitude interquartílica. As variáveis categóricas foram descritas por frequências absolutas e relativas. O teste de normalidade utilizado foi Shapiro Wilk, dando um resultado não normal. Assim, para comparar os escores da Aims entre os grupos, o teste de Mann-Whitney foi utilizado. Na comparação dos momentos pré e pós em cada grupo, o teste de Wilcoxon foi aplicado. A comparação de proporções foi realizada pelo teste qui-quadrado de Pearson. O nível de significância adotado foi de 5% (p<0,05).

RESULTADOS

A amostra foi composta por 30 bebês com idade entre 20 dias e 18 meses. Destes, 15 bebês faziam parte do grupo presencial e 15 do grupo remoto. É importante salientar que não foram encontradas diferenças significativas entre as médias das idades dos grupos e o tempo entre as duas avaliações, mostrando grupos semelhantes nessas variáveis. Portanto, em relação ao sexo dos bebês, houve maior predominância do sexo feminino no grupo presencial e do masculino no grupo remoto (p=0,027). Em relação aos dados dos bebês, foram seis prematuros no grupo presencial e 13 no grupo remoto (Tabela 1).

Tabela 1
Caracterização da amostra

A Tabela 2 descreve as avaliações intragrupos e entre os grupos. Pode-se observar em todas as subescalas (posturas) que a diferença foi significativa do pré para o pós intragrupos, pois a tendência natural dos bebês é de evoluírem com o passar dos meses, em ambos os grupos. No entanto, quando comparamos o percentil (que não depende diretamente da idade, pois está posto em uma escala com escore bruto x idade), ele foi significativo apenas para o grupo remoto. Ou seja, quem era 0% foi para 1% no grupo presencial, o que representa atraso no antes e no depois. A mediana do grupo remoto foi de 2% para 23%, passando de atraso para suspeita de atraso na classificação (p=0,003).

Tabela 2
Avaliação da Aims entre as avaliações e entre os grupos

No que se refere à comparação entre os grupos, as posturas permaneceram semelhantes, mas o percentil também mudou quando comparada a diferença entre os grupos (p=0,003).

Apesar da diferença entre os grupos não ser estatisticamente significativa nas posturas, verificou-se que os bebês do grupo remoto melhoraram o seu percentil, e consequentemente a sua classificação. O grupo presencial tinha em média 0%, evoluindo para 1%, o que configura atraso importante no desenvolvimento. Já o grupo remoto, que também obtinha um percentil baixo na pré-intervenção (2%), demonstrou acréscimo nessa média de percentil (23%), sendo classificado como risco de atraso. Percebe-se que no grupo remoto as diferenças são mais acentuadas, sendo que a redução de atraso vai de 60% para 26,7% (Figura 1).

Figura 1
Classificação da Aims em cada momento por grupo em estudo (pré: p=0,824; pós: p=0,182).

DISCUSSÃO

O desenvolvimento infantil é fundamental para o progresso contínuo do desenvolvimento humano. Antes de uma criança nascer, um molde da estrutura cerebral é formado, definido nos anos iniciais da vida por influências genéticas e sua relação com o ambiente. Por isso, a maturação do sistema nervoso central (SNC) permite a progressão do desenvolvimento motor no decorrer dos anos13. Sabe-se que os movimentos de um sujeito começam na fase fetal, a partir da oitava semana de gestação, com variedade, complexidade e fluidez. Os movimentos acontecem devido a atividades sinápticas na subplaca cortical, substrato neural responsável pela complexidade e variação geral dos movimentos, conhecidos como “general movements” ou GMs4. Sabe-se também que as alterações durante o processo embrionário podem levar a complicações e intercorrências, ocasionando danos ao desenvolvimento ideal do bebê. Entre os fatores que tornam esse desenvolvimento de risco estão prematuridade, baixo peso ao nascer, diminuição da concentração de oxigênio no sangue, displasia broncopulmonar, uso prolongado da oxigenioterapia, ventilação mecânica, más formações congênitas, infecções da mãe, entre outros fatores. Isso pode levar a alterações no desenvolvimento e crescimento do bebê, assim como déficit ou atrasos na linguagem, cognição, socialização e aprendizagem14.

Logo, torna-se importante o diagnóstico precoce de alteração no desenvolvimento motor, que é um dos primeiros sinais de que o sistema nervoso não está saudável. Por esse motivo o fisioterapeuta é um dos profissionais mais importantes nessa etapa inicial da vida do bebê quando algo não está dentro do esperado. Diante desse cenário, as avaliações precisam ser específicas para a idade do bebê e, assim como as intervenções, devem ocorrer o mais cedo possível para que ele tenha um desenvolvimento global adequado14.

Diante disso, preocupamo-nos muito quando houve o confinamento causado pela covid-19. Pelo cenário, sabia-se que os bebês de risco não poderiam ser atendidos em ambulatórios e que as janelas de aprendizado poderiam passar, fazendo com que eles tivessem outros problemas futuros no desenvolvimento global. Então, criou-se a possibilidade, após a permissão do Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (Coffito), de atender esses bebês remotamente15. Mas, como a fisioterapia deve ser baseada em evidências, a eficácia do atendimento remoto foi questionada. Sabíamos dos efeitos positivos produzidos pela intervenção motora precoce de forma presencial, mas não conhecíamos pela forma remota. Assim, o estudo atual foi proposto.

O estudo contou com dois grupos com variáveis semelhantes, tanto no período pré-intervenção quanto no período pós-intervenção, exceto a variável sexo, em que o grupo presencial apresentou mais crianças do sexo feminino e o grupo remoto contou com mais crianças do sexo masculino.

No estudo de Rosa e Dionisio16, o grupo intervenção contava com mais crianças do sexo feminino e o grupo controle do sexo masculino. Tabile et al.17 analisaram as características dos partos pré-termos e consequentemente a prematuridade desses bebês no Sul do Brasil. Pode-se constatar que o sexo predominante foi o masculino, com 572 bebês (50,5%) nascidos com idade pré-termo, enquanto do sexo feminino foram 561 bebês (45,5%). Na mesma direção, Ferreira Junior et al.18 analisaram o perfil epidemiológico de mães e prematuros - em um hospital referência para alto risco em obstetrícia e neonatologia na região norte do estado de Ceará (Brasil), no qual constatou-se a maioria de RNs pré-termo era do sexo masculino (53,3%), sendo 46,7% do sexo feminino. Souza et al.19, em estudo no qual procuravam analisar a prevalência da prematuridade no estado do Rio Grande do Sul e fatores associados, observaram que, dos 143.290 RNs em 2014, 11,48% nasceram prematuros, sendo 11,72% e 11,46% a prevalência da prematuridade para o sexo masculino e feminino, respectivamente . Nesta pesquisa, pode-se observar que, no grupo presencial, 66,7% dos bebês eram do sexo feminino, dos quais seis eram prematuras; e no grupo remoto, 80,0% eram do sexo masculino, dos quais 13 eram prematuros, demonstrando, dentro da percentagem, uma presença maior de bebês do sexo masculino, o que reforça os estudos citados, que demonstra ser o sexo masculino mais prejudicado a respeito da prematuridade, já que observa-se que a maioria do grupo presencial era do sexo feminino e, consequentemente, havia menos prematuros. Por outro lado, quando analisado o grupo remoto, há uma presença maior de bebês do sexo masculino e, desse modo, mais prematuros. Logo, pode-se afirmar que os estudos já existentes confirmam os achados do estudo atual, em que o grupo remoto teve uma prevalência de 80,0% do sexo masculino, este que costuma ser mais vulnerável à prematuridade e consequentemente mais propenso a atrasos no desenvolvimento, quando comparado ao sexo feminino.

Em relação ao desenvolvimento motor, nossos resultados mostraram que ambos os grupos evoluíram nas posturas do pré para a pós-intervenção. No entanto, quando verificado o percentil de ambos os grupos, o grupo presencial melhorou menos que o grupo remoto. Uma possível explicação pode ser amparada por Oliva-Amanz et al.20, que estudaram a influência da estimulação parental exclusiva durante o período pandêmico. Esse estudo avaliou o desenvolvimento motor por meio do Ages and Stages Questionnaires, 3ª edição (ASQ-3), e a qualidade de vida pelo Pediatric Quality of Life Inventor (PedsQL) e outras variáveis, como estimulações realizadas durante o confinamento domiciliar. Esse estudo não observou déficit no desenvolvimento motor, nem declínio da qualidade de vida dos sujeitos estudados. Apesar de não terem tido contato com o ambiente externo, os bebês interagiram com suas famílias, que fazem parte do seu ambiente mais imediato.

No entanto, a ciência considera que a distância corporal que separa o fisioterapeuta da criança e da família pode prejudicar a questão da avaliação, porque a família não está totalmente apta para perceber uma assimetria no corpo do bebê, tampouco um aumento de tônus leve, o que pode mascarar uma avaliação feita por meio da tela. Nossa maior preocupação é a não detecção precoce da paralisia cerebral, por isso a presencialidade seria fundamental. Mas percebemos esse envolvimento familiar, talvez nunca antes percebido, no período da pandemia.

Bronfenbrenner21 cita a teoria ecológica, na qual a família é o microssistema da criança. Ela se configura na interação do ambiente de casa com os sujeitos envolvidos. Essa interação recíproca é de suma importância, pois, de acordo com essa teoria, o desenvolvimento é mediado pelas relações lúdicas realizadas pela família, que acarretam a introdução à socialização da criança por meio de processos afetivos, como empatia, apego e amizade. Os pais ficam com esse importante papel, que reflete no desenvolvimento do bebê em casa. Assim, os pais deste estudo empoderaram-se com as orientações, compreendendo a relevância da estimulação dos bebês feita por eles, envolvendo-se no cotidiano dos seus filhos. Também cobrávamos os vídeos da criança e dos avanços, com palavras de motivação, tirávamos dúvidas e corrigíamos algum manuseio equivocado.

Em contrapartida, Shuffrey et al.22, com uma amostra maior (114 expostos intra-útero ao SARS-CoV-2, 141 não expostos e 62 de antes da pandemia), verificaram que bebês de seis meses nascidos antes e depois da pandemia apresentaram escores mais baixos nos subdomínios motores grosso e fino, pessoal-social do ASQ-3, independentemente de terem tido ou não contato com o vírus. Corroborando este, Huang et al.23 compararam o neurodesenvolvimento infantil de bebês nascidos entre 2015 e 2020 (3.009 com seis meses e 2.214 com um ano) com bebês nascidos durante a pandemia (546 com seis meses e 285 com um ano) e descobriram um maior risco de atraso no neurodesenvolvimento nos domínios de comunicação e motor fino, sendo este atraso pior em filhos únicos e não sendo observadas diferenças em bebês com seis meses23.

Em outra investigação, Rosa e Dionisio16 analisaram dois grupos de bebês. Um deles recebia atendimento fisioterapêutico presencial baseado no conceito neuroevolutivo bobath baby. O outro grupo somente recebia orientações em uma cartilha contendo instruções para exercícios. Na comparação dos resultados, observou-se uma diferença significativa do pré para o pós, tanto nas posturas quanto no escore total nos dois grupos, mas um maior avanço no grupo de intervenção presencial. Mas quando analisados os dados separadamente, por meio do gráfico do ganho em porcentagem, não houve diferença entre os grupos, indo de encontro à nossa pesquisa.

Já Hadders-Algra et al.4 e Straathof et al.24 relataram que a IP associada a combinações de estimulação do desenvolvimento em casa com orientação de um fisioterapeuta (coaching - coping with and caring for infants with special needs [COPCA]) inclui aprendizado por tentativa e erro em um ambiente desafiador e enriquecido, promovendo interação entre pais e bebê podendo ser o melhor meio para promover o desenvolvimento motor e cognitivo dos bebês, corrigindo atrasos existentes no desenvolvimento. Na Holanda, esse formato de atendimento acontece há muitos anos. Acreditam que a interação entre os pais e bebês é uma grande aliada para a evolução motora dessas crianças, o que pode ser visto nos dois grupos dos estudos. No entanto, é notável, com base no percentil final, que o grupo remoto obteve resultados melhores que o grupo presencial, uma vez que a interação entre pais e bebês é muito mais significativa, já que os pais são responsáveis por aprender e executar as técnicas e exercícios facilitadores para que o bebê evolua motoramente. Do mesmo modo, Formiga et al.25 observaram que o desenvolvimento motor dos bebês pré-termo que participaram do grupo de IP com orientação e treinamento das mães obteve significativamente mais benefícios quando comparado com o grupo controle. Novamente, corroborando os achados da nossa pesquisa, em que o treinamento e orientação dos pais mostraram-se efetivos. A IP remota foi uma alternativa para aqueles bebês que necessitaram de estímulos motores externos. Os pais se sentiram mais acolhidos e empoderados.

Entende-se que os atendimentos remotos foram importantes para a melhora do desempenho motor dos bebês, mas pode-se extrapolar nossos achados e sugerir o atendimento remoto para outros casos, como para RNs encaminhados pelas instituições e que não conseguem se deslocar até um local de atendimento presencial, bem como quando o bebê está muito fragilizado, no caso dos prematuros extremos, ou estão aguardando que algum local o chame. Assim, essa intervenção remota faz com que o bebê não perca um período precioso de desenvolvimento no primeiro ano de vida25,26.

De fato, o acompanhamento pós-alta hospitalar para os bebês de risco é muito importante e deve ser realizado por uma equipe de saúde multidisciplinar, assim como a detecção precoce de diagnóstico de atrasos no desenvolvimento. No entanto, a maior parte da vigilância do neurodesenvolvimento é planejada para acompanhamento presencial, sendo preconizado o convívio e entrosamento direto entre paciente/família e equipe de saúde. Mas quando ocorrem barreiras/obstáculos nesse sistema, uma adaptação dos cuidados no neurodesenvolvimento torna-se essencial27. A rede pode ser usada para fornecer remotamente os serviços de saúde necessários sem a presença física de profissionais da área. Em virtude dos fatos, essas tecnologias podem melhorar economicamente o acesso das crianças aos serviços médicos dos quais necessitam. Ademais, tais tecnologias podem ser utilizadas com diversos métodos, auxiliando na melhoria da saúde dessas crianças28. De acordo com o cenário, procurou-se pesquisar e verificar a eficácia da terapia remota, uma vez que pode ser um novo método a ser incrementado e que poderá auxiliar na melhoria da saúde dessas crianças, objetivando menos danos ao SNC, uma vez que intervenção pode ser realizada o mais precocemente possível.

Sarti et al.29 revelaram que crianças com distúrbios de aprendizagem específica e PC, independente da experiência de telerreabilitação, apresentaram as maiores pontuações na dimensão aprendizagem em comparação com os outros grupos de crianças, que não realizaram telerreabilitação. Do mesmo modo que, na Espanha, pesquisadores em práticas de IP relatam que a telessaúde tem sido uma ferramenta muito útil nessas situações, especialmente para fins de reabilitação infantil30.

Apesar da disponibilidade da telefisioterapia e seu relevante papel na melhoria da saúde e bem-estar infantil, em especial durante a crise da covid-19, os profissionais estão nos estágios iniciais de implementação e utilização desses serviços. Além disso, esse tipo de serviço tem importância e destaque na literatura atual, porém nenhuma das revisões ou meta-análises atuais focou na comparação dos atendimentos presenciais com a telerreabilitação neurofuncional na população pediátrica durante a crise do covid-1928.

Desse modo, apesar dos resultados conflitantes, a telefisioterapia pode ser comparável à fisioterapia presencial, ou melhor do que nenhuma. No entanto, é imprescindível a realização de ensaios clínicos e revisões sistemáticas de melhor qualidade para se ter resultados relevantes a respeito da telerreabilitação em fisioterapia pediátrica, bem como pesquisas comparativas entre os resultados da telerreabilitação e do atendimento presencial, em especial no que se refere ao estímulo precoce para o desenvolvimento motor de bebês de risco25.

Este estudo trouxe grandes questionamentos para futuras pesquisas, mas algumas limitações devem ser consideradas. Mesmo a avaliação realizada pela escala da Aims sendo versátil em uma videochamada, não é possível afirmar que tudo é observado nesse processo. Uma avaliação presencial é fundamental para o fisioterapeuta. Há dificuldade de achar estudos a respeito dos atendimentos de fisioterapia pediátrica em plataformas online, pois ainda existem poucas referências a respeito dessa modalidade. Outro fator limitante foi o acesso à internet das famílias, uma vez que o sinal e qualidade da plataforma online prejudicavam o processo da sessão fisioterapêutica. Ademais, citamos a falta de equipamentos e acessórios na hora dos atendimentos remotos, pois os pais/cuidadores realizavam a sessão sem auxílio de outro familiar e, como consequência, precisavam posicionar os aparelhos celulares para realizar os exercícios com a criança, dificultando a visualização e acesso aos exercícios para futuras correções. Além disso, os bebês dos atendimentos remotos eram internados múltiplas vezes, ficando quatro semanas sem atendimento, e, como consequência, eram desclassificados da pesquisa, limitando de forma considerável a amostra. Por último, sentiu-se falta de apresentar mais dados comparativos entre os grupos nas suas características prévias, não se limitando apenas ao uso da escala.

CONCLUSÃO

Os achados deste estudo se propuseram a investigar se os efeitos positivos produzidos pela intervenção motora precoce de forma presencial no desenvolvimento motor de bebês de risco seriam os mesmos produzidos pela forma remota, uma vez que os bebês estavam confinados em casa e o ambiente domiciliar e a fisioterapia remota guiada por um profissional pareciam eficaz, como se provou para esta amostra. Logo, fornecer melhores evidências sobre a eficácia da telerreabilitação para profissionais, principalmente fisioterapeutas, impactará no processo de tomada de decisão e, portanto, trará melhores resultados clínicos para os pacientes. O objetivo é aumentar a acessibilidade e melhorar a continuidade do cuidado em populações vulneráveis, em áreas geograficamente remotas, com deficiência, com o potencial de economia de tempo e recursos em cuidados de saúde, auxiliando os pais desses bebês de risco nos cuidados de seus filhos. Mas acredita-se que a forma remota de fisioterapia não deve ser exclusiva, porque a anamnese presencial, “o olho no olho” com a família, o exame físico, ainda ajudam na terapêutica do paciente.

DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível no corpo do artigo.

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  • Fonte de financiamento:
    nada a declarar
  • Aprovado pelo Comitê de Ética Pró-Reitoria de Pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PROPESQ-UFRGS) CAAE nº 59070522.3.0000.5347.

Editado por

  • Editor responsável:
    Sônia LP Pacheco de Toledo

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    27 Mar 2024
  • Aceito
    31 Mar 2025
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