RESUMO
Idosos devem ser rotineiramente rastreados para fragilidade, que ameaça o envelhecimento saudável. O Índice de Vulnerabilidade Clínico-Funcional (IVCF-20) é uma ferramenta de triagem de fragilidade que tem sido cada vez mais usada, embora pouco se saiba sobre sua associação com ferramentas de triagem de sarcopenia. Este estudo avaliou a fragilidade clínico-funcional em idosos por meio do IVCF-20, buscando determinar sua relação com o risco de desenvolvimento de sarcopenia. Este estudo transversal incluiu 40 idosos da comunidade (73,4 ± 7,9 anos, 75% do sexo feminino) que realizaram o IVCF-20. Além disso, eles foram submetidos à circunferência da panturrilha (CC), ao questionário SARC-CalF, à força de preensão manual (FPM), ao teste de sentar-levantar cinco vezes (TSLCV) e ao teste Timed Up and Go (TUG). De acordo com o IVCF-20, 30%, 40% e 30% dos participantes foram classificados como robustos, pré-vulneráveis e vulneráveis, respectivamente. A pontuação IVCF-20 se correlacionou com CS-5 (rs=0,75, p=<0,0001), TUG (rs=0,67, p=<0,0001) e SARC-CalF (rs=0,52, p=0,0005). O IVCF-20 também foi associado à raça caucasiana, ao sedentarismo, ao histórico de tabagismo, à doença ortopédica, à doença cardíaca e à doença neurológica. Não houve correlação significativa do IVCF-20 com CC ou FPM. As categorias do IVCF-20 diferiram estatisticamente nas seguintes variáveis: idade, estatura, SARC-CalF, CS-5 e TUG. Em idosos comunitários, existe relação entre fragilidade clínico-funcional avaliada por IVCF-20, sarcopenia, mobilidade e balanço corporal. Além disso, existe uma relação entre a fragilidade clínico-funcional e a carga de doença. Assim, o IVCF-20 pode ser considerado um indicador de boa saúde e funcionalidade global em idosos.
Descritores:
Idosos; Sarcopenia; Fragilidade; Desempenho
ABSTRACT
Older adults should be routinely screened for frailty, which threatens healthy aging. The Clinical-Functional Vulnerability Index (IVCF-20) is a frailty screening tool that has been increasingly used, although little is known about its association with sarcopenia screening tools. This study evaluated clinical-functional frailty in older adults using the IVCF-20, seeking to determine its relationship with the risk of developing sarcopenia. This cross-sectional study included 40 community-dwelling older adults (73.4±7.9 years, 75% female) who underwent the IVCF-20. In addition, they underwent calf circumference (CC) measurement, SARC-CalF, handgrip strength (HGS), five-repetition chair stand test (CS-5), and Timed Up and Go test (TUG). According to the IVCF-20, 30%, 40%, and 30% of participants were classified as robust, pre-vulnerable, and vulnerable, respectively. The IVCF-20 score correlated with CS-5 (rs=0.75, p≤0.0001), TUG (rs=0.67, p≤0.0001), and SARC-CalF (rs=0.52, p=0.0005). IVCF-20 was also associated with White skin-color, physical inactivity, smoking history, orthopedic disease, heart disease, and neurological disease. There was no significant correlation between IVCF-20 and CC or HGS. The IVCF-20 categories were statistically different in terms of the following variables: age, height, SARC-CalF, CS-5, and TUG. In community-dwelling older adults, there is a relationship between clinical-functional frailty assessed by the IVCF-20, sarcopenia, mobility, and body balance. Furthermore, there is a relationship between clinical-functional frailty and the burden of disease. Thus, the IVCF-20 can be considered an indicator of good health and overall functioning in older adults.
Keywords:
Older Adults; Sarcopenia; Frailty; Performance
RESUMEN
Los adultos mayores deben someterse a exámenes de detección de la fragilidad de manera rutinaria, la cual amenaza un envejecimiento saludable. El Índice de Vulnerabilidad Clínico-Funcional (IVCF-20) es una herramienta de detección de la fragilidad que se ha utilizado cada vez más, aunque se sabe poco sobre su asociación con las herramientas de detección de sarcopenia. Este estudio evaluó la fragilidad clínico-funcional en ancianos mediante el IVCF-20, con el fin de determinar su relación con el riesgo de desarrollar sarcopenia. Este estudio transversal incluyó a 40 adultos mayores (73,4 ± 7,9 años, 75% mujeres) residentes en la comunidad, a quienes se les realizó el IVCF-20. Además, se sometieron a la circunferencia de la pantorrilla (CC), SARC-CalF, fuerza de prensión manual (FPM), prueba de sentarse y levantarse cinco repeticiones (PSLCR) y prueba Timed Up and Go (TUG). Según el IVCF-20, el 30%, el 40% y el 30% de los participantes fueron clasificados como robustos, prevulnerables y vulnerables, respectivamente. La puntuación IVCF-20 se correlacionó con PSLCR (rs=0,75, p=<0,0001), TUG (rs=0,67, p=<0,0001) y SARC-CalF (rs=0,52, p=0,0005). IVCF-20 también se asoció con raza caucásica, inactividad física, antecedentes de tabaquismo, enfermedad ortopédica, enfermedad cardíaca y enfermedad neurológica. No hubo una correlación significativa de IVCF-20 con CC o FPM. Las categorías IVCF-20 fueron estadísticamente diferentes en cuanto a las siguientes variables: edad, talla, SARC-CalF, PSLCR y TUG. En los adultos mayores comunitarios existe una relación entre la fragilidad clínico-funcional evaluada por el IVCF-20, la sarcopenia, la movilidad y el equilibrio corporal. Además, existe una relación entre la fragilidad clínico-funcional y la carga de enfermedad. Así, el IVCF-20 puede considerarse como un indicador de buena salud y funcionalidad global en adultos mayores.
Palabras clave:
Adultos Mayores; Sarcopenia; Fragilidad; Desempeño
INTRODUÇÃO
O envelhecimento está intimamente associado ao processo de fragilização. Contudo, a idade, por si só, é um preditor de fragilidade inadequado, uma vez que o progresso de envelhecimento segue um padrão heterogêneo1. A fragilidade no idoso consiste na presença de condições preditoras de declínio funcional iminente (sarcopenia, polipatologia, polifarmácia, hospitalização recente e comprometimento cognitivo leve) ou de declínio funcional estabelecido (dependência em atividades avançadas da vida diária-AVD)2. O reconhecimento adequado da fragilidade reduz os riscos de intervenções prejudiciais, sendo inaceitável considerar os indivíduos apenas com base na idade cronológica3-5.
A prevalência de sarcopenia deverá aumentar em todo o mundo, dado o rápido crescimento do número de idosos e indivíduos que sofrem de condições crônicas contribuidoras para o desenvolvimento da sarcopenia6. Ela tem consequências significativas, com um alto ônus para a sociedade, e está associada a comprometimento funcional, quedas, fraturas, hospitalização, fragilidade, incapacidade física, necessidade de cuidados de longa duração, pior qualidade de vida (QV), depressão, dano cognitivo, aumento significativo dos gastos relacionados à saúde, comorbidades, hospitalizações e morte7),(8. Portanto, a detecção precoce da sarcopenia é importante para os resultados relacionados à saúde, porque é passível de intervenção, especialmente quando diagnosticada precocemente. O diagnóstico de sarcopenia requer avaliações de força muscular, massa muscular e/ou qualidade muscular. Essas avaliações exigem tempo dedicado e pessoal treinado, bem como equipamentos, alguns dos quais são caros. Dessa forma, a avaliação da sarcopenia ainda não foi integrada na maioria dos ambientes clínicos, apesar de sua carga estabelecida para a sociedade. Testes de triagem são considerados essenciais para identificar os indivíduos mais propensos à sarcopenia e encaminhá-los para exames mais completos, de modo a estabelecer um melhor tratamento e acompanhar a evolução da doença. O teste de triagem comumente mais recomendado é o questionário SARC-F8. Entretanto, a adição do item circunferência da panturrilha (CP) ao SARC-F (SARC-CalF) parece aumentar a sensibilidade e, por isso, parece ser um teste de triagem mais satisfatório7.
A mobilidade funcional é necessária para a realização das AVD, sendo essencial para a manutenção de um estilo de vida ativo9. Como resultado do envelhecimento, pode ocorrer diminuição da força muscular e perda do controle do balanço, contribuindo para o declínio da mobilidade e uma pior QV10. Assim, torna-se fundamental a avaliação de parâmetros de função física, incluindo o desempenho de mobilidade de membros inferiores, o controle do balanço, a função de força de membros inferiores e a função cognitiva, que são preditores do desenvolvimento de incapacidade em idosos9. Em particular, a força muscular constitui um componente essencial para a mobilidade e independência funcional, uma vez que o movimento é essencial para a realização das AVD e para a independência dos idosos11. O movimento de sentar para levantar é uma atividade que requer grandes torques articulares, força muscular das extremidades inferiores, coordenação sensório-motora e controle do balanço. Nesse sentido, o teste de sentar-levantar cinco vezes (TSLCV) tem se mostrado um teste de desempenho físico simples, útil, de baixo custo e confiável, sendo também considerado um preditor de diminuição das AVD e quedas em idosos12-14. Na identificação do idoso frágil, torna-se fundamental o uso de instrumentos de triagem de rápida aplicação e de fácil interpretação, aplicados por qualquer profissional de saúde, que é o caso do Índice de Vulnerabilidade Clínico-Funcional (IVCF-20)3-5.
O rápido envelhecimento da população mundial define um perfil demográfico e epidemiológico com crescentes e exigentes demandas ao sistema de saúde, fazendo-se necessária a articulação de ferramentas para organização e estruturação dos diferentes pontos de cuidado à pessoa idosa15. A atenção integral pressupõe identificar os mais vulneráveis e acompanhar a evolução clínico-funcional, o que resultaria em menos consultas e internações hospitalares e melhor relação custo/efetividade no sistema de saúde15. O IVCF-20 é um instrumento de triagem interdisciplinar que satisfaz todas as condições necessárias para ser usado no intuito de reconhecer o idoso com fragilidade clínico-funcional, embora pouco se saiba acerca de suas associações com ferramentas de triagem de sarcopenia usadas na prática rotineira3. Assim, este estudo avaliou a fragilidade clínico-funcional em idosos por meio do IVCF-20, buscando determinar sua relação com o risco de desenvolvimento de sarcopenia usando dados sociodemográficos, parâmetros clínicos e variáveis que compõem o fenótipo de sarcopenia.
METODOLOGIA
Participantes
Entre janeiro e maio de 2022, foi realizado um estudo transversal com 40 idosos residentes na comunidade (de um total de 45 elegíveis) com idade ≥60 anos, de ambos os sexos, recrutados no Centro de Atenção Integrada à Saúde do Idoso, São Luís, Maranhão, Brasil. Foram utilizados os seguintes critérios de exclusão: idosos com distúrbios neurológicos ou musculoesqueléticos graves (por exemplo, acidente vascular cerebral, doença de Parkinson, neuropatia periférica diabética, artrite reumatoide) que pudessem prejudicar o desempenho nos testes propostos; presença de dor e/ou limitações articulares que pudessem impedir a avaliação da mobilidade física; aqueles com edema depressível bilateral nas pernas; e aqueles com déficits de memória e orientação que dificultassem a compreensão durante as avaliações, com valores ≤22 pontos no Teste Cognitivo Leganés15. Todos os participantes assinaram o termo de consentimento e o protocolo foi aprovado pelo Comitê de Ética do Centro Universitário Augusto Motta sob o Nº CAAE-45992721.9.0000.5235.
Mensurações
O nível de atividade física na vida diária foi avaliado usando a versão curta do Questionário Internacional de Atividade Física (IPAQ)15. O IPAQ consiste em oito perguntas abertas que avaliam o tempo e a frequência de caminhada e atividades moderadas e vigorosas na última semana, para avaliar o tempo gasto por semana em atividade física. As AVD foram divididas em diferentes intensidades (leve, moderada e vigorosa) para os seguintes domínios: atividades relacionadas ao trabalho; atividades relacionadas ao transporte; tarefas domésticas; atividades recreativas, esportes, exercícios físicos e atividades de lazer; e tempo gasto em atividades passivas realizadas na posição sentada.
O IVCF-20 foi desenvolvido, validado e aplicado no Brasil18. Trata-se de um instrumento que contempla aspectos multidimensionais da condição de saúde dos indivíduos de 60 anos ou mais. O IVCF-20 é constituído por 20 questões distribuídas em oito dimensões consideradas preditoras de declínio funcional e/ou óbito em idosos, conforme segue: idade; autopercepção da saúde; AVD; cognição; humor; mobilidade; comunicação; e comorbidades múltiplas representadas por polipatologia, polifarmácia e/ou internação recente. Cada seção tem pontuação específica que perfaz um valor máximo de 40 pontos, sendo que, quanto mais alto o valor obtido, maior é o risco de vulnerabilidade clínico-funcional. Os seguintes pontos de corte foram usados no presente estudo: 0-6 pontos, baixo risco de vulnerabilidade clínico-funcional (robusta); 7-14 pontos, moderado risco de vulnerabilidade clínico-funcional (pré-vulnerabilidade); e ≥15 pontos, alto risco de vulnerabilidade clínico-funcional (vulnerável)2.
O questionário SARC-F é uma ferramenta autorrelatada, de baixo custo e prática, que foi desenvolvida para rastreamento rápido de sarcopenia na prática clínica. É composto por cinco perguntas, usando sintomas clínicos geralmente associados à sarcopenia, incluindo levantar e carregar 10 libras, atravessar um quarto, transferir-se da cama/cadeira, subir um lance de dez escadas e cair no último ano. Neste estudo, o SARC-CalF foi usado, visto que a adição da avaliação da CP aumenta sua utilidade na triagem8. A CP é uma das abordagens antropométricas mais convenientes e frequentemente utilizadas para avaliar a massa muscular. Os pontos de corte calculados da CP são de 34cm no sexo masculino e 33cm no feminino, na maioria das etnias/raças8. O item CP é pontuado como zero, representando a ausência de baixa massa muscular, e dez para sua presença. Os participantes foram definidos como em risco de sarcopenia, se a pontuação total do SARC-CalF fosse ≥11 (máximo de 20)19.
A força de preensão manual (FPM) foi medida usando um dinamômetro digital manual (SH5001, Saehan Corporation, Coreia). A FPM foi avaliada com os participantes sentados em uma cadeira sem braços, com flexão de cotovelo de 90°, antebraços em posição neutra e extensão de punho de 0 a 30°. A força máxima foi avaliada após uma contração sustentada de 3s na mão dominante; o maior valor de três tentativas com intervalos de 1 minuto foi considerado para análise20. O ponto de corte adotado foi o previamente proposto, de acordo com o sexo (homens: ≥27kgf; mulheres: ≥16kgf)6.
O TSLCV é um teste amplamente implementável, usado para avaliar a mobilidade física, a força/resistência muscular de membros inferiores e o controle do balanço, principalmente entre idosos9. O teste de sentar na cadeira requer pouco treinamento para administrar e utiliza equipamentos simples (cadeira padronizada sem braços com 0,47m de altura e cronômetro portátil), com o encosto da cadeira estabilizado contra uma parede21. O participante deve sentar e levantar-se de uma cadeira, sem apoio lateral, o mais rápido possível, cinco vezes, com os braços cruzados em frente ao tórax. As cinco repetições devem ser feitas em menos de 15 segundos22.
No teste Timed Up and Go (TUG), o idoso se senta em uma cadeira com braços e recebe ordem de levantar-se e caminhar para frente até uma marca no piso, girar de volta e sentar-se na cadeira. O tempo dispendido é medido com cronômetro a partir da ordem de “vá”. Valores de tempo <10 segundos sugerem indivíduos totalmente livres e independentes; os pacientes que realizam o teste entre 10-19 segundos são independentes, pois têm razoável equilíbrio e velocidade de marcha (o que indica razoável mobilidade), e a maioria caminha livremente mais de 500m, sobe escadas e sai de casa sozinho. Aqueles que dispendem entre 20-29 segundos demonstram dificuldades para as tarefas de AVD, que variam muito, dependendo das diferentes situações que se apresentam ao indivíduo, as quais exigem bom equilíbrio, velocidade da marcha adequada e capacidade funcional. Valores de tempo ≥30 segundos indicam dependência funcional elevada23. Idosos que levam >14s para completar o TUG apresentam alto risco de quedas23.
Análise estatística
A análise estatística foi processada pelo software IBM SPSS Statistics 26.0 (IBM Corp., Armonk, NY, EUA). O teste de Shapiro-Wilk foi utilizado para verificar a homogeneidade da amostra. Os resultados foram expressos por medidas de tendência central e dispersão adequadas para dados numéricos, e por frequência e porcentagem para dados categóricos. A comparação das variáveis em estudo com a pontuação do IVCF-20 foi feita por meio do teste de Mann-Whitney para dois subgrupos e pelo coeficiente de correlação de Spearman para dados numéricos. Coeficientes de correlação <0,30 (ou -0,30) representam pouca ou nenhuma correlação; aqueles na faixa entre 0,30-0,49 (ou -0,30--0,49) representam uma correlação fraca; aqueles na faixa entre 0,50-0,69 (ou -0,50--0,69) representam uma correlação moderada; aqueles na faixa entre 0,70-0,89 (ou -0,70--0,89) representam uma forte correlação; e aqueles ≥0,90 (ou -0,90) representam uma correlação muito forte24. A comparação das variáveis sociodemográficas, clínicas e de escores entre três classes do IVCF-20 foi analisada pela ANOVA de Kruskal-Wallis (não paramétrico). O teste de comparações múltiplas de Tukey ou de Dunn (não paramétrico) foi aplicado para identificar quais classes que se diferenciavam significativamente entre si.
RESULTADOS
Entre os idosos que foram avaliados para inclusão no estudo, cinco foram excluídos pelas seguintes razões: quatro tinham alterações osteomusculares/neurológicas que dificultavam o sentar/levantar da cadeira e a deambulação; e um apresentou episódio de hipoglicemia antes do início dos testes funcionais. Entre os participantes que foram incluídos no estudo, 30 (75%) eram mulheres, com média de idade de 73,4 ± 7,9 anos; 15 participantes (37,5%) se consideravam negros, enquanto 25 (62,5%) tinham apenas o ensino fundamental. Do ponto de vista da atuação profissional, 31 participantes (77,5%) se consideravam inativos; e 28 participantes (70%) se consideravam sedentários, de acordo com o IPAQ, enquanto 12 (30%) deles tinham histórico de tabagismo. Em relação às comorbidades, as mais frequentes foram doença ortopédica (n=37, 92,5%) e hipertensão (n=28, 70%), sendo que 14 (35%) deles relataram ter tido a doença do coronavírus 2019 (covid-19). As características da população estudada são mostradas na Tabela 1.
Em relação à fragilidade clínico-funcional, a mediana do IVCF-20 foi de 9 (5-18) pontos, sendo que 12 (30%), 16 (40%) e 12 (30%) participantes foram classificados como robusto, pré-vulnerável e vulnerável, respectivamente. A maioria dos participantes tinha risco de sarcopenia, de acordo com o SARC-CalF (n=26, 65%), uma baixa CP (n=31, 77,5%) e uma baixa FPM (n=22, 55%), conforme mostra a Tabela 1. A pontuação do IVCF-20 foi correlacionada moderadamente com o SARC-CalF (rs=0,52, p=0,0005), conforme mostram a Tabela 2 e a Figura 1. Não houve correlação significativa do IVCF-20 com a CP nem com a FPM.
Relação do Índice de Vulnerabilidade Clínico-Funcional (IVCF-20) com o teste de sentar-levantar cinco vezes (TSLCV) (rs=0,75, p<0,0001) (a), o teste Timed Up and Go (TUG) (rs=0,67, p<0,0001) (b) e o SARC-CalF (rs=0,52, p=0,0005) (c)
Em relação aos testes funcionais dinâmicos, a maioria dos participantes tinha um TSLCV anormal (n=32, 80%) e um TUG apontando mobilidade razoável (n=26, 65%), conforme mostra a Tabela 1. Entretanto, 26 (65%) deles apresentavam um TUG >14, indicando alto risco de quedas. Importantemente, a pontuação do IVCF-20 foi correlacionada fortemente com o TSLCV (rs=0,75, p<0,0001) e moderadamente com o TUG (rs=0,67, p<0,0001), conforme mostram a Tabela 2 e a Figura 1.
As associações entre fragilidade, dados sociodemográficos e variáveis clínicas também foram avaliadas (Tabela 3). Nessa análise, os indivíduos caucasianos, sedentários, com história de tabagismo, doença ortopédica, doença cardíaca e/ou doença neurológica apresentaram maiores valores medianos no IVCF-20.
Finalmente, nas três categorias do IVFC-20m, os pacientes avaliados (Tabela 4) apresentaram valores medianos para robusto, pré-vulnerável e vulnerável de 4 (3-5), 9 (8-11) e 20 (18-26), respectivamente. As categorias do IVCF-20 foram estatisticamente diferentes quanto às seguintes variáveis: idade; altura; SARC-CalF; CS-5; e TUG.
DISCUSSÃO
O envelhecimento é considerado um processo sequencial, individual, acumulativo, irreversível, universal, não patológico de deterioração de um organismo maduro e próprio a todos os organismos4. Além disso, envelhecer pode acarretar mais vulnerabilidade orgânica às doenças. Nesse contexto, ocorre o desenvolvimento de fragilidade na pessoa idosa. O idoso frágil não é simplesmente uma pessoa com idade avançada, mas, sim, um idoso com queda de reserva e resistência a fatores estressantes do organismo4. Ao avaliar a fragilidade no idoso por meio do IVCF-20 e sua associação com ferramentas de avaliação amplamente usadas na prática rotineira, obteve-se como principais achados deste estudo que o IVCF-20 se associou fortemente com o TSLCV e moderadamente com o TUG e o SARC-CalF. Nesses indivíduos, quanto maior a idade e a altura, maior a fragilidade. Ademais, foi encontrada relação entre IVCF-20 e raça caucasiana, sedentarismo, histórico de tabagismo, doença ortopédica, doença cardíaca e doença neurológica. Pelo nosso conhecimento, este é o primeiro estudo que avalia de forma detalhada as associações do IVCF-20 com dados sociodemográficos e clínicos, marcadores de sarcopenia e testes funcionais dinâmicos.
A fragilidade é um processo dinâmico em que há uma redução das funções física, psicológica e/ou social, associado ao envelhecimento e é prejudicial à saúde. Essa condição representa um potencial problema de saúde pública devido às múltiplas consequências clínicas e sociais, além de sua natureza dinâmica3. O IVCF-20 avalia tanto a dimensão física quanto cognitiva e psicológica do idoso, isto é, contempla aspectos multidimensionais da sua condição de saúde4),(5. Neste estudo, 70% dos idosos eram considerados robustos ou pré-vulneráveis, estando de acordo com um estudo realizado4, no qual foram avaliados idosos na atenção primária à saúde; esses autores observaram que a maioria dos idosos avaliados foi considerada robusta/pré-vulnerável (87,3%). A sensibilidade do IVCF-20 é descrita como sendo de 91%, com especificidade de 71%. Assim, idosos com até seis pontos são considerados de baixo risco e podem ter acompanhamento clínico rotineiro, seguindo as recomendações de programas e/ou diretrizes com base em condições crônicas específicas1.
A natureza dinâmica da fragilidade evidencia um potencial para intervenções preventivas e reparadoras, de modo que, quando detectada precocemente, é possível preservar as reservas funcionais e cognitivas, manter a capacidade de autocuidado e prevenir incapacidades, quedas, declínio, institucionalização, hospitalização e morte24. Neste estudo, uma relação estreita entre o IVCF-20 e a idade foi observada. Um estudo recente mostrou que o aumento de um ano na idade elevou em 11% a chance de o idoso ter maiores níveis de fragilidade pelo IVCF-2025. Vale destacar que nós observamos uma associação entre alta pontuação no IVCF-20 e diversas condições clínicas. Em consonância com nossos achados, uma pesquisa realizada5 mostra associação da robustez com a ausência de polipatologia e a independência para AVD.
A triagem da sarcopenia é um tema atual e investigado em muitas pesquisas recentes, com o surgimento de alguns novos testes de triagem26. Embora a sarcopenia esteja ligada à síndrome da fragilidade e a desfechos desfavoráveis à saúde em idosos, como incapacidade e morte, as novas abordagens com SARC-CalF e os testes de triagem recém-propostos precisam ser testados quanto ao seu desempenho. Assim, neste estudo, uma correlação moderada entre fragilidade usando o IVCF-20 e risco de sarcopenia usando o SARC-CalF foi observada, e essa associação foi mantida quando os grupos de idosos foram divididos de acordo com as categorias do IVCF-20. Outros pesquisadores27 observaram significância estatística para associação entre SARC-CalF e casos possíveis de sarcopenia (4,5 ± 4,7 points), ausência de sarcopenia (3,4 ± 4,2 points) e sarcopenia (8,3 ± 5,2 points) (p<0,01). Como uma ferramenta de triagem ideal deve ter sensibilidade e especificidade razoavelmente altas e um valor de área acima de 0,7, o SARC-CalF parece ser a melhor ferramenta de triagem para sarcopenia em idosos residentes na comunidade28. Desse modo, o SARC-CalF pode ser rotineiramente usado em idosos para o rastreamento de sarcopenia, e em caso de resultados positivos devem ser realizados diagnósticos adicionais do fenótipo de fragilidade28.
O movimento de sentar para levantar é uma AVD que envolve a capacidade funcional de controlar o centro de gravidade ao mover a base de apoio dos quadris para os pés para alcançar uma postura ereta9. Neste estudo, o TSLCV foi usado para avaliar mobilidade física, força muscular e controle do balanço, visto que o TSLCV requer o funcionamento coordenado de múltiplos grupos musculares de membros inferiores e tronco, no intuito de evitar perdas de equilíbrio durante a execução da tarefa. Interessantemente, a maior correlação com o IVCF-20 foi verificada com o TSLCV (rs=0,75; p<0,0001). Assim, é possível que a natureza complexa do TSLCV, incorporando um centro de controle de massa bidirecional sobre a base de apoio para prevenir a perda de equilíbrio, torne-o uma medida útil para avaliar o controle do balanço que está deteriorado no idoso frágil9. Essa associação entre IVCF-20 e TSLCV faz com essas duas ferramentas apresentem potencial para serem usadas no sistema de saúde, para detectar problemas e controlar ou acompanhar a evolução dos pacientes durante seus processos de reabilitação9.
O TUG avalia de forma realista a mobilidade e o equilíbrio em idosos ao criar um risco de queda propiciado pelas ações de levantar, caminhar, girar o corpo, sentar e realizar os movimentos requeridos para realizá-lo. Semelhante ao observado com o TSLCV, foi também notada uma boa associação entre o IVCF-20 e o TUG. Isso aponta na direção de que o grau de fragilidade no idoso também impacta importantemente o balanço corporal e a eficácia da velocidade de caminhada, que são condições físicas fundamentais para avaliação e previsão do estado de saúde, da funcionalidade, da QV e da capacidade de viver de forma independente em idosos. De fato, a velocidade de caminhada pode refletir a degradação funcional nos idosos com o avanço da idade e o risco de mortalidade, sendo também um dos principais preditores da capacidade de vida independente e da QV nos anos posteriores29. Do ponto de vista do aparelho locomotor, a velocidade de caminhada é o resultado integrado de vários aspectos da aptidão física, nomeadamente: força muscular, resistência aeróbica, flexibilidade e agilidade, que são variáveis deterioradas com o processo de fragilização do idoso.
Em uma revisão sistemática e meta-análise de dados de aproximadamente 2 milhões de pessoas, um estudo30 observou que maior massa muscular e força muscular geral estão inversamente associadas à menor morbidade e mortalidade por todas as causas em idosos. Interessantemente, nenhuma associação entre a fragilidade avaliada pelo IVCF-20 e a FPP foi observada. Uma possível explicação para esse fato é que o IVCF-20 incorpora muito mais questões relativas à atividade de membros inferiores do que de membros superiores. Vale ainda destacar a ausência de associação entre IVCF-20 e CP observada em nossa amostra. As medidas antropométricas são propensas a erros, e a obesidade e o edema podem ser importantes fatores de confusão, porque essas condições aumentam o valor da CP. Essa ausência de correlação pode ser explicada, ao menos em parte, pelo índice de massa corporal de nossa amostra, com grande parte dos indivíduos apresentando sobrepeso.
Há várias ressalvas para os resultados deste estudo. Primeiro, a amostra pertenceu apenas a um único centro de saúde e envolveu um desenho transversal que impossibilita a determinação da causalidade. Ainda, o viés de memória é outro aspecto a ser considerado como limitante, já que algumas variáveis foram aferidas a partir do relato do próprio idoso ou de familiares. Por fim, a CP, como muitos outros parâmetros antropométricos, varia não apenas por sexo, mas também por idade, etnia e ambiente, o que dificulta a determinação de valores padrão28; assim, a falta de valores de corte nacionais para CP baixo é uma limitação do nosso estudo. No entanto, apesar dessas limitações, esta análise pode servir como ponto de partida para pesquisas com maior número de indivíduos e de seguimento no longo prazo para avaliar o uso rotineiro do IVCF-20.
CONCLUSÕES
Em idosos residentes na comunidade, há uma relação entre a fragilidade clínico-funcional avaliada pelo IVCF-20, a sarcopenia, a mobilidade e o balanço corporal. Além do mais, há relação da fragilidade clínico-funcional com raça caucasiana, sedentarismo, histórico de tabagismo, doença ortopédica, doença cardíaca e doença neurológica. Assim, o IVCF-20 pode ser considerado um indicador de boas condições de saúde, capacidade da saúde, carga de doenças e funcionalidade global em idosos.
Declaração de Disponibilidade de Dados:
Todo O Conjunto De Dados Que Dá Suporte Aos Resultados Deste Estudo Está Disponível No Corpo Do Artigo.
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Fontes de financiamento:
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico [CNPq; Número do termo #301967/2022-9], Brasil, Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro [FAPERJ; Números dos termos #E-26/010.002124/2019, #E-26/211.187/2021, #E-26/211.104/2021 e #E-26/200.929/2022], Brasil; e Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior [CAPES, Código de Financiamento 001, 88881.708719/2022-01 e 88887.708718/2022-00]
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Aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa:
Parecer No. 5.098.166/2021.
Editado por
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Editor responsável:
Sônia LP Pacheco de Toledo


