Open-access Você vem primeiro? A ação da Fundação Bradesco em educação

RESUMO

O setor bancário brasileiro, dentre outros atores ligados ao filantrocapitalismo, tem ampliado seus investimentos em educação. A Fundação Bradesco, um dos principais players desta arena de disputas, investiu na última década cerca de 9 bilhões de reais em educação, o que enseja investigações sobre esse processo. O presente artigo faz parte de pesquisa mais ampla financiada pela Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro e seu objetivo é analisar a ação e posição da Fundação Bradesco na educação e no debate público a partir de 2018. As análises aqui apresentadas resultam de uma pesquisa bibliográfica e documental, contando com os relatórios e atividades disponíveis nas páginas eletrônicas da Fundação Bradesco e dos nós a ela interconectados, no período compreendido entre 2018 e 2022. Como resultados, indicamos que a ação da FB e as relações que ela trava com outros nós trazem no conteúdo das suas posições, minimamente, o modus operandi da gestão empresarial, pautada pela centralidade na competição e no lucro.

Palavras-chave:
Privatização da Educação; Fundação Bradesco; Investimento Social Privado; Filantrocapitalismo

ABSTRACT

The Brazilian banking sector, among other players linked to philanthrocapitalism, has increased its investments in education. The Bradesco Foundation, one of the main players in this arena of disputes, has invested around R$ 9 billion in education over the last decade, prompting investigations into this process. This article is part of a broader research project funded by the Carlos Chagas Filho Foundation for Research Support in the State of Rio de Janeiro and its objective is to analyze the actions and position of the Bradesco Foundation in education and public debate since 2018. The analyses presented here are the result of bibliographical and documentary research, using the reports and activities available on the home pages of the Bradesco Foundation and its partners between 2018 and 2022. The results indicate that the actions of the BF and its partners minimally reflect the modus operandi of corporate management, based on the centrality of competition and profit.

Keywords:
Privatization of Education; Bradesco Foundation; Private Social Investment; Philanthrocapitalism

Introdução

O sistema capitalista historicamente busca a ampliação dos lucros em esfera global e o favorecimento de seus interesses também está presente no que se refere à esfera da educação. Ainda que sejam observadas diferentes e novas roupagens ao longo dos anos, são perenes as tentativas para a elaboração, disseminação e consolidação de estratégias para a privatização, empresariamento e financeirização da educação pública no Brasil.

Embora a fronteira movediça entre as esferas pública e privada no Brasil seja histórica, foi no início dos anos de 1990 que o setor empresarial, visando estabelecer uma nova ordem social, mais alinhada aos interesses econômicos do grande capital, organizou-se de maneira sistemática, participando ativamente de fóruns nacionais e internacionais para definir diretrizes que influenciaram as futuras reformas educacionais no Brasil.

De acordo com Neves (2005), durante o período de redemocratização do Brasil, após o fim do regime militar (1964-1985), ocorreu uma complexificação econômica e político-ideológica da sociedade, impulsionada por uma maior participação política. Nesse contexto, diante do rápido surgimento de organizações de trabalhadores, a classe burguesa também se viu obrigada a se organizar por meio de estruturas não governamentais para proteger seus interesses sociais. Assim, a burguesia criou uma intricada rede de organizações de massa e de atores políticos coletivos.

Martins (2019) destaca que essa mobilização empresarial não se limita ao Brasil, sendo observada em toda a América Latina. A autora ressalta que os empresários têm se consolidado como uma das vozes mais influentes na disputa pelo controle dos conteúdos, métodos e objetivos da educação da classe trabalhadora, influenciando a política educacional latino-americana e fortalecendo sua ligação com os interesses privados.

Uma consulta exploratória preliminar realizada em sites de jornais e notícias revela a presença de diversos atores coletivos de natureza jurídica privada na formação do discurso público sobre educação no Brasil. Esses atores lançam mão de variadas estratégias, como a concessão de entrevistas à mídia, realização de pesquisas, desenvolvimento de projetos, oferecimento de prêmios, apoio financeiro a outras instituições, produção de material informativo, organização de cursos de formação e participação em audiências públicas no parlamento, dentre outras atividades.

Um dos atores de grande envergadura nessa rede é o Movimento Todos pela Educação (TPE), que tem sido frequentemente convocado a promover publicamente uma perspectiva competente em questões educacionais, tanto na mídia quanto no Congresso Nacional (Martins, 2016).

O TPE, por exemplo, trabalha em rede e a lista de mantenedores do ano de 2022 é composta por 34 entidades, majoritariamente classificadas como institutos e fundações vinculadas ao mundo empresarial. Dentre esses, seis fazem parte do setor bancário ou rentista, destacando-se a B3 Social, ligada à bolsa de valores do Brasil e à Fundação Bradesco (FB), objeto desta análise.

Seu projeto de educação detém o maior investimento social privado (ISP) do país, de acordo com o Censo Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (GIFE, 2020). Somente em 2022, a FB investiu quase 800 milhões de reais em projetos e escolas que atualmente atendem não só à educação básica, mas também ao ensino técnico-profissional, à Educação de Jovens e Adultos e à formação inicial e continuada de professores.

Um outro papel exercido pela Fundação Bradesco é de composição e atuação em rede junto a outros grupos empresariais que pressionam a agenda política da educação nacional tanto a partir da base, quanto a partir do topo.

Este artigo1 investiga em que lugar se encontra a Fundação Bradesco nas relações e correlações de forças em torno das pautas mais focalizadas na educação brasileira, recortando as análises a partir de 2016, momento em que ocorre o Golpe Jurídico-Parlamentar que retira da Presidência da República Dilma Rousseff e seu projeto de nação, substituindo-a por Michel Temer, mais à direita, na condução do país.

Para tanto, a pesquisa utilizou-se de análise documental dos relatórios de atividades disponíveis nas páginas, nas home pages e nas postagens das redes sociais da Fundação Bradesco (FB) e dos nós a ela conectados, no período de 2018 a 2022. O presente estudo está subdividido em 4 partes, das quais a primeira é esta introdução, seguida de um breve histórico do surgimento e objetivos da Fundação ora analisada. Na terceira parte, é investigada e analisada a ação da FB a partir das postagens de sua página do Instagram e a análise dos documentos disponíveis em sua página na internet, bem como a dos outros nós. Ao fim, as considerações finais categorizam as ações da FB de acordo com a classificação formulada por Fontdevila, Verger e Avelar (2019).

A Fundação Bradesco e sua trajetória no Brasil

A FB iniciou seu trabalho como instituição educacional em 1956, com o nome de Fundação São Paulo de Piratininga, tornando-se Fundação Bradesco somente a partir de 1967. Sua primeira instituição de ensino inaugurada seis anos após sua criação, na região de Osasco, oferecia à população alimentação, uniforme e assistência odontológica e médica, e tinha como objetivo oferecer educação e profissionalização a crianças, jovens e adultos. Essa instituição, em 1975, foi reconhecida pelo Conselho Nacional de Serviço Social como uma Entidade de Fins Filantrópicos e, em 1981, Entidade de Utilidade Pública Federal. No ano seguinte, inaugurou o Centro de Treinamento e Formação Profissional (CENTREFOR), onde havia treinamento para os profissionais da organização (Fundação Bradesco, 2022a).

Em 1997, a FB associou-se ao canal futura, com o intuito de propagar projetos educacionais e lançou a escola virtual, em 2001, que oferece cursos de qualificação em diversas áreas.

No ano de 2003, a FB inaugurou a escola em Boa Vista (RR) que concretizou a existência de Unidades Escolares da Fundação presentes em todos os estados da federação. Em 2007, foi responsável pelo projeto Educa+ação, oferecendo apoio tecnológico e pedagógico a escolas públicas, com o intuito de trazer bons resultados para e rede pública de ensino.

Nessa esteira, a FB se consolidou ao longo dos anos e, atualmente, conta com 40 escolas, cujas localizações podem ser observadas na Figura 1. De acordo com seu Relatório de Atividades, em 2022 foram investidos R$ 795 milhões para o atendimento de 41 mil alunos nas escolas e em outras atividades, como a Escola Virtual que somou, naquele ano, 1,7 milhões de matrículas.

Figura 1:
Localização das Escolas da Fundação Bradesco - Brasil (2022)

Em sua página na internet, a FB declara sua missão como “Promover formação humanista para desenvolver futuras lideranças em todas as regiões do país”, apontando seis princípios: excelência; igualdade; respeito; honestidade; comprometimento e uso consciente de recursos.

Como pode ser observado no Gráfico 1, o investimento da FB é o mais alto entre os três maiores braços sociais do setor bancário brasileiro. O valor chegou, em 2022, a 9 bilhões de reais. Se observarmos a última década, o montante chega a quase 800 milhões. O percentual de ampliação dos investimentos foi aproximadamente 30% no quinquênio 2018-2022.

Gráfico 1:
Investimento Social Privado setor bancário

Paradoxalmente, os estudos sobre a ação da FB no campo da educação ainda são escassos. Em busca no Catálogo de Teses e Dissertações da Capes, com o descritor “Fundação Bradesco”, restringindo a busca à Educação, na Área de Conhecimento e Avaliação, retornaram apenas 5 Dissertações e nenhuma Tese em todo o período disponível, tendo a primeira sido defendida em 2015 e a última em 2020. Dessas, quatro pesquisas versavam sobre programas específicos e apenas uma observou a ação da FB de maneira mais ampla.

A análise da Fundação Bradesco: um olhar a partir de suas publicações

Para a análise das relações travadas pela Fundação Bradesco a partir do ano de 2018, foram investigados três tipos de documentos: os relatórios de atividades da FB dos anos de 2018 a 2022, as postagens de uma rede social (Instagram) e as páginas na internet da própria FB e de nós diretamente associados. No primeiro momento, exploratório, buscou-se, a partir da leitura flutuante (Bardin, 1977), delimitar o corpus de análise para a composição deste estudo. Após aplicado o critério temporal e de pertinência, deu-se a exploração e interpretação do material, cujas impressões seguem dialogadas com o campo teórico.

Postagens do Instagram

Ao explorar o material, percebeu-se que a primeira postagem é do ano de 2019 - um ano após o início do recorte temporal delimitado para este estudo - e segue até fevereiro de 2024. Com 350 publicações realizadas com intervalos de dois ou três dias entre elas, destaca-se um alto engajamento - acima de 1000 curtidas por postagem, na maior parte das publicações.

Quanto ao conteúdo, as postagens na rede social seguem uma mesma linha. A maior parte das publicações da FB no Instagram são acerca de suas escolas e de seus cotidianos, contando com imagens coloridas de professores e alunos, sempre felizes, desenvolvendo projetos e atividades diversas, ao ar livre ou fora dos padrões da educação tradicional.

Ainda se pode observar a valorização dos estudantes que se destacam ao serem aprovados para o Ensino Superior, exibindo-se os cursos e universidades para as quais foram aprovados. As aprovações decorrentes de boas notas no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) são valorizadas, pela maneira como estão expostas, e traduzem um pilar importante para a FB no que tange aos princípios da educação por ela propagada: a meritocracia, dentro de uma perspectiva liberal de educação. Em outras postagens, a ideia de que a equalização das condições de educação garante um futuro brilhante e de sucesso está presente.

Há também, em menor número, postagens sobre datas comemorativas diversas - Natal, Ano Novo, Festa Junina, Dia das Mães e Pais, Consciência Negra, Férias etc. O portfólio encontrado inclui ainda conteúdo sobre a fundação, infraestrutura das escolas, e sobre a história da própria FB (sempre próximo aos seus aniversários).

Ainda que não tenham sido identificados posicionamentos diretos, frente a políticas públicas especificas e/ou discussões que elas ensejam, as publicações dão pistas de qual é o modelo de educação apoiado pela Fundação: o Marketing da Fundação assume uma vertente daquilo que aqui categorizamos como “exemplo”, em acordo com o postulado por Fontdevila, Verger e Avelar (2019). Os autores identificaram quatro estratégias utilizadas pelo setor privado para incidir sobre a política educacional e consolidar reformas educativas orientadas para o mercado, dentre as quais a “Liderança pelo Exemplo” (Fontdevila; Verger; Avelar, 2019, p. 1, tradução nossa).

Instituições congêneres investigadas em outros estudos (Morgan, 2020; 2022; Morgan; Mocarzel, 2021) utilizam-se da mesma estratégia e algumas políticas públicas que começam focais, expandem-se pela força da construção do pensamento hegemônico que subjuga o direito à educação em favor da “eficiência” (Laval, 2019).

O fato de não haver apoio direto às políticas públicas propostas, após 2016, não significa que não é possível observá-las presentes nas publicações da FB. Em 4 de outubro de 2022, a FB declara que implementou o Novo Ensino Médio (NEM) em todas as suas escolas.

A implementação do Novo Ensino Médio em cinco escolas foi um dos destaques da minha atuação em 2021. A FB Aparecida de Goiânia (GO), a FB Jaboatão (PE), a FB Laguna (SC), a FB Pinheiro (MA) e a FB Registro (SP) se juntaram à FB Campinas (SP) em um currículo que estimula o desenvolvimento de projetos de vida, incentivando a continuidade dos estudos, com foco na inserção social e no mercado de trabalho.

A boa notícia é que em 2022 o Novo Ensino Médio foi implementado em todas as minhas escolas que possuem esse segmento. Assim, posso preparar todos os meus alunos para desenvolverem competências e habilidades úteis para seus desafios futuros (Fundação Bradesco, 2022b, grifos nossos).

Figura 2:
Implementação do Novo Ensino Médio na Fundação Bradesco

O Novo Ensino Médio, proposto por meio da Medida Provisória nº 746 de 2016, aprovado por meio da Lei nº 13.415/2017 (Brasil, 2017), é arena de intensos debates na sociedade e, em especial, entre os pesquisadores e professores da educação básica e superior que afirmam que tal reforma representa “o rebaixamento da formação, o avanço da privatização” (Beltrão, 2019. p. 8), além de trazer em si o aprofundamento da desigualdade educacional.

Na contramão de tais argumentos, a FB busca construir um discurso do tipo “Canto da Sereia” (Montaño, 2015), publicando em datas próximas significados de termos caros à nova reforma ou divulgando palestras realizadas pela própria Fundação, com temáticas que buscam conformar os sujeitos, como por exemplo, “Resiliência” (5/11/2022) e “Educação Financeira” (16/11/2022) (Fundação Bradesco, 2022c, n.p).

Parece-nos ser, desta forma, que, como diz a legenda da postagem da Figura 2, a FB forja “as competências e habilidades úteis” para a juventude da classe trabalhadora. A questão que se pode colocar aqui é: a utilidade de que fala a FB está a serviço de qual parcela da sociedade?

As ações e parcerias da Fundação Bradesco (2018 a 2022)

Embora a Fundação Bradesco tenha ações direcionadas a outros campos de atuação, como saúde, cultura e assistência social, uma parte significativa de seus recursos e esforços foi direcionada para a educação. Em cinco anos, foi possível observar o crescimento sistemático do investimento total, que saltou de cerca de 606 milhões de reais, em 2018, para 794 milhões de reais em 2022 (Fundação Bradesco - Relatórios de Atividades de 2018 a 2022d).

A ação da FB aparece com mais ênfase nas 40 escolas criadas, financiadas e geridas pela própria Fundação. Esta é a atuação que consome a maior parte dos recursos destinados à educação. Entretanto é curioso notar que, desde 2018, o número de matrículas diretas nas escolas presenciais vem diminuindo drasticamente, tendo o ano de 2020 como ano de inflexão nessa decrescente, conforme pode ser observado na Figura 3.

Figura 3:
Diminuição de oferta 2019-2020

Ao analisar os dados desagregados por região, pode-se inferir que a diminuição no número de matrículas foi uma decisão institucional, a partir da observação de que todas as regiões executaram o mesmo movimento, com valores de decréscimos variando entre 57% na Região Nordeste e 40% na Região Sudeste.

Não foi explicitado no documento, tampouco publicizado por outros canais, o motivo pelo qual houve tamanha redução, tendo em vista que os investimentos seguiram crescendo. Mesmo em 2020, ano atípico em decorrência da pandemia da covid-19, não é possível localizar uma relação direta entre os fenômenos.

Essa diminuição de oferta, desacompanhada de uma justificativa para a sociedade, nos remete ao que postula Olmedo (2013) quando analisa as ações das entidades filantrópicas. O autor faz uma reflexão de que tais instituições, que se encontram sob o véu da filantropia, se caracterizam por uma flexibilidade na prestação de contas à sociedade que o governo e o empresariado não possuem: o primeiro por ter sido eleito e por dever prestar satisfações ao seu eleitorado, e o segundo por, de alguma forma, ter de prestar satisfações aos seus acionistas. Além disso, “a filantropia é capaz de operar através das fronteiras do público e do privado e fazê-lo com pouca ou nenhuma responsabilização perante seus diversos públicos” (Olmedo, 2013. p. 495).

Os Projetos desenvolvidos em parceria com outras instituições apontados nos seus relatórios e a Escola Virtual, ao contrário da educação regular, tiveram uma variação pequena nos atendimentos. De toda forma, foi possível perceber, em especial na Escola Virtual, um discreto acréscimo de matrículas e pessoas afetadas de modo geral, nos anos de 2020 e 2021, seguido de um decréscimo em 2022, possivelmente proveniente do retorno à normalidade após a pandemia.

Talvez uma das mais marcantes atuações da FB seja a sua inserção e participação em rede junto àquelas instituições que enfrentam o debate público em educação. Os Relatórios de atividades dos anos analisados revelam os parceiros recorrentes junto aos quais as agendas de políticas educacionais são discutidas e apoiadas. A Figura 4 apresenta as parcerias recorrentes no período analisado.

Figura 4:
Nós recorrentes nas relações da Fundação Bradesco 2018-2022

Contando apenas 11 sujeitos coletivos (nós) e 18 relações internas (elos), essas relações e seu alcance real não aparecem em uma primeira análise. É preciso, portanto, observarmos a rede de maneira mais ampla, alargando-a para a rede de afiliados e suas relações.

Se observadas as relações da FB com outras instituições de maior incidência direta na educação, podemos perceber que, ainda que não chame para si a responsabilidade do debate público de maneira mais destacada, isso se dá em outras esferas. Para além das parcerias com o poder público, três parcerias chamam atenção nesse sentido: Todos pela Educação (TPE); Canal Futura e Parceiros da Educação.

O Todos pela Educação representa hoje um dos mais influentes Think tanks2 brasileiros na área da educação. Sua atuação está atrelada à Rede Latino-Americana de Organizações da Sociedade Civil para a Educação (REDUCA), que foi idealizada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

O apoio da FB às pautas defendidas pelo TPE está explícito em seus relatórios. No Relatório de 2022, por exemplo, a FB declara que, dentre as parcerias daquele ano, é importante o destaque para o TPE, o qual caracteriza como uma

[...] organização da sociedade civil sem fins lucrativos que realiza estudos para dar suporte às políticas públicas de educação. A Fundação é mantenedora dessa iniciativa que completou 16 anos em 2022 e que continua com o compromisso de assegurar a qualidade da Educação Básica brasileira. No ano passado, o Todos Pela Educação lançou o documento “Educação Já 2022” com o objetivo de subsidiar o poder público com diagnósticos e propostas de políticas públicas que garantam o avanço da qualidade educacional no Brasil (Fundação Bradesco, 2022. p. 51, grifos nossos).

É interessante observar a declaração de que o TPE se destina a municiar de informação e conhecimento o poder público. Vale lembrar que a entidade é composta por empresários, empresas e suas fundações e que é, portanto, orientada pró-mercado. São estes os sujeitos coletivos que, segundo a declaração da FB reproduzida acima, produzem sistematicamente o conhecimento cuja intenção explícita é a de influenciar a tomada de decisão política.

O Canal Futura, outro nó de enorme alcance, é um importante braço na área da educação da Fundação Roberto Marinho, esta última responsável pelo Investimento Social Privado da Rede Globo - maior empresa de telecomunicações do Brasil. Nessa parceria, assim como no TPE, a FB é “uma das mantenedoras do canal e apoia programas de formação de educadores e alunos desde a sua criação” (Fundação Bradesco, 2022d, p. 52).

A possibilidade de alcance e disseminação de suas premissas pode ser percebida analisando as alianças do Canal Futura. Junto à FB, encontram-se instituições ligadas ao grande capital e ao setor produtivo, como a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP); o Serviço Social da Indústria (SESI) e o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI); a Fundação Itaú e a própria Rede Globo.

Os sujeitos até aqui analisados, pode-se inferir, guardam em si o potencial de mobilizar o conhecimento produzido e disseminá-lo nas bases. Com a intenção de conservar suas premissas sobre educação e, sobretudo, acerca da qualidade da educação que deve ser posta à disposição das classes populares.

A última relação a ser aqui analisada é a que se travou com o Parceiros da Educação, associação sem fins lucrativos cuja missão expressa em sua página é “promover maior envolvimento da sociedade civil na melhoria da educação pública brasileira por meio de parcerias com escolas e secretarias estadual e municipais, com o objetivo de proporcionar uma formação integral de qualidade aos alunos, valorizar os educadores da rede pública e contribuir para as políticas públicas educacionais” (Parceiros da Educação, s.d.).

Entre seus valores, chama a atenção a presença da Resiliência e da Escalabilidade - também presentes nos documentos da FB, nas postagens do Instagram e nas políticas educacionais que vem sendo apoiadas pelas demais associações, fundações e institutos sem fins lucrativos ligados ao empresariado.

O braço que faltava à FB, a atuação direta sobre a educação pública, é executada a partir do Parceiros da Educação, cuja atuação pode ser verificada por meio da Figura 5.

Figura 5:
Alcance da Parceiros da Educação

Dentro desta frente de atuação, a FB compõe o Conselho Consultivo que é composto por representantes de empresas diversas (indústria, construção civil, comunicação, shopping center), mas a maioria absoluta na composição do Conselho é de representações de bancos e administradoras de capital, conforme pode ser observado no gráfico a seguir.

Gráfico 2:
Composição do Conselho Consultivo da Parceiros da Educação

Os sujeitos que representam tais empresas trazem no conteúdo das suas posições, minimamente, o modus operandi da gestão empresarial, pautada pela centralidade na competição e no lucro. Este é um dos problemas comuns a uma boa parcela das instituições sem fins lucrativos que se debruça sobre a educação pública: o de buscar inserir a lógica privada na organização da coisa pública, sem considerar que, para além de muitas outras questões a que poderíamos nos referir, a escola não é uma empresa (Laval, 2019).

A Fundação Bradesco: algumas reflexões finais

Em análise às informações disponíveis tanto nas postagens feitas pela Fundação Bradesco em sua página no Instagram quanto nos documentos disponíveis em sua home page e nas home pages dos nós associados, foi possível fazer uma reflexão ampliada sobre a ação do empresariado quando age sobre a educação.

Caetano e Mendes (2020) afirmam que as redes de empresários que se formam em torno das políticas públicas

[...] precisam exercer uma ininterrupta atividade para não perder sua hegemonia sobre o conjunto da sociedade. Os grupos e os sujeitos que compõe as redes se utilizam de estratégias de obtenção de consensos, do estabelecimento de relações entre empresas e buscam a adesão da população ao seu projeto político, social e econômico, interferindo diretamente na gestão da coisa pública (Caetano; Mendes, 2020. p. 15).

E é nesta reflexão que, ao analisarmos a atuação potente e sistemática da FB, identificamos as dimensões apontadas por Fontdevila, Verger e Avelar (2019). Os autores identificaram quatro estratégias utilizadas pelo setor privado para incidir sobre a política educacional e consolidar reformas educativas orientadas para o mercado: 1. Mobilização de Conhecimento; 2. Network/Rede; 3. Trabalho de Base e 4. Liderança pelo Exemplo (tradução nossa).

Quanto à primeira dimensão, mobilização do conhecimento, pode-se identificar primariamente o apoio financeiro ao Todos pela Educação, que age como produtor de conhecimento e tradutor de indicadores educacionais para a sociedade. A disseminação destes conteúdos em suas plataformas também compõe essa dimensão.

A atuação em rede fica bastante clara, inclusive com a representação gráfica dos parceiros e dos elos relacionais ao longo dos anos. Para além dela, é possível perceber o apoio em rede ao Novo Ensino Médio. O NEM está presente nas 40 escolas, tendo sido propagandeado em seu Instagram, além de ter sido pauta do TPE e do Parceiros da Educação.

O Canal Futura representa, nessa rede de interrelações, o braço da rede que tem como principal função a terceira dimensão apontada pelos autores. “O apoio às organizações de base proporciona ao setor empresarial uma forma difusa e indireta de alavancagem, com a intenção de criar um clima de opinião favorável a reformas políticas” (p.8). A inserção na formação docente pode ser identificada nessa estratégia.

E, por fim, a FB tem na dimensão “Liderança pelo Exemplo” a dimensão mais expressiva de sua ação: aquela que se refere ao financiamento de projetos piloto e experiências de educação em instituições privadas de ensino, pressionando uma modificação dos sistemas de ensino e o destino dos recursos públicos.

As 40 escolas da FB são a representação da eficiência, da eficácia e da educação de qualidade à qual o TPE, o Parceiros da Educação, a Globo e o Canal Futura (e os sujeitos individuais que compõem essas instituições) referem-se ao falar de educação.

Diante do exposto, é importante destacar que é exatamente esta concepção de educação, literalmente bancária (Freire, 2011), que estudos como este, que ora apresentamos, busca desvelar para, assim, ampliar o conhecimento a fim de, talvez, responder à pergunta, slogan do Banco Bradesco, que dá título a este artigo: Você vem primeiro?

Referências

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  • PARCEIROS DA EDUCAÇÃO. [s.d.] https://parceirosdaeducacao.org.br/quem-somos/
    » https://parceirosdaeducacao.org.br/quem-somos
  • APOIO/FINANCIAMENTO
    Pesquisa “Os Bancos nos Bancos da Escola: Uma análise do investimento social privado do capital financeiro na educação pública” financiada pela Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro - FAPERJ, Processo n.º 210.292/2024.
  • DISPONIBILIDADE DE DADOS DE PESQUISA
    Todos os dados foram gerados/analisados no presente artigo.
  • 1
    Artigo decorrente de pesquisa mais ampla intitulada: “Os Bancos nos Bancos da Escola: Uma análise do investimento social privado do capital financeiro na educação pública” financiada pela Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro - FAPERJ, Processo nº 210.292/2024.
  • 2
    Os think tanks, neste artigo, são compreendidos como “organizações que têm como propósito produzir conhecimento em diferentes áreas para exercer influência na execução das políticas governamentais e na formação da opinião pública” (Caetano, 2020. p. 3).
  • COMO CITAR ESTE ARTIGO
    MORGAN, Karine Vichiett; ALVES, Miriam Fábia. Você vem primeiro? A ação da Fundação Bradesco em educação. Educar em Revista, Curitiba, v. 40, e94826, 2024. https://doi.org/10.1590/1984-0411.94826

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    16 Dez 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    08 Mar 2024
  • Aceito
    02 Set 2024
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