Open-access Interculturalidade nas Pesquisas em Educação: “escolas das margens” na América Latina

RESUMO

Ao longo da década de 70, questionamentos sobre a linguagem, sobre raça e racialização e a cultura ocidental, sobretudo, as investigações sobre a naturalização de uma única forma de conhecimento como válida constituíram objetos para a produção de estudos sobre interculturalidade na América Latina. Percorrem caminhos distintos na região, seja pela educação popular de base freireana e comunitária, ou no traçado proposto pelo movimento negro e, principalmente, pela produção da educação indígena; os resultados das experiências e investigações contribuíram determinantemente para os deslocamentos de parte das pesquisas em educação para a dimensão local, cotidiana dos/nos territórios. Os estudos da interculturalidade na América Latina enunciam-se no enfrentamento rigoroso às tensões no interior dos espaços constituídos pela modernidade etnocêntrica universalizante como a universidade, museus, a escola. A presença das comunidades originárias, tradicionais, amefricana, afrodiaspórica, camponesa, ribeirinha e outras gera encontros, tensionamentos, estudos, objeto e agência. Neste contexto, a educação escolar é tomada sob análise pelos estudos da interculturalidade que se enunciam das bordas, das “escolas das margens”. Neste texto de apresentação ao Dossiê “Experiências Interculturais em Escolas das Margens na América Latina”, esperamos que os resultados de investigações movidas por aqueles e aquelas das margens contribuam para maior visibilidade aos processos identitários, à afirmação da diferença, à irrupção de agências e epistemes outras, àquilo que os moveu em projetos em territórios no Brasil, México e Equador. Em perspectiva intercultural de diferentes matizes metodológicos e teóricos, este Dossiê, como a “escola das margens”, torna-se ato político.

Palavras-chave:
Educação Intercultural; Educação Indígena; Paulo Freire; Escola das margens; Pesquisas em Educação

ABSTRACT

Throughout the 1970s, questions concerning language, race, racialization, and Western culture-especially investigations into the naturalization of a single form of knowledge as valid-constituted objects for the production of studies on interculturality in Latin America. They traverse distinct paths in the region, whether through Freirean-based and community popular education, or in the outline proposed by the black movement and, primarily, through the production of indigenous education; the results of experiences and investigations contributed decisively to the displacement of part of the research in education toward the local dimension, a routine of/in the territories. Interculturality studies in Latin America are enunciated in the rigorous confrontation with tensions within the spaces constituted by universalizing ethnocentric modernity, such as the university, museums, and school. The presence of original, traditional, Amefrican, Afro-diasporic, peasant, riverside, and other communities generates encounters, tensions, studies, object, and agency. In this context, school education is taken under analysis by interculturality studies that are enunciated from the edges, from the “schools on the margins.” In this presentation text for the Dossier “Intercultural Experiences in Schools on the Margins in Latin America,” we hope that the results of investigations driven by those from the margins contribute to greater visibility for identity processes, to the affirmation of difference, to the irruption of other agencies and epistemes, and to that which moved them in projects across territories in Brazil, Mexico, and Ecuador. In an intercultural perspective of different methodological and theoretical nuances, this Dossier, like the “school on the margins,” becomes a political act.

Keywords:
Intercultural Education; Indigenous Education; Paulo Freire; School on the margins; Educational Research

O projeto de reunir pesquisadores e pesquisadoras que estudem as relações entre educação, interculturalidade e as tensões e provocações às várias formas que toma a educação escolar vem se formulando a algum tempo. Este texto apresenta o resultado deste projeto de publicação, o dossiê “Experiências Interculturais em Escolas das Margens na América Latina” que pretende contribuir para manter o questionamento vivo à educação escolar, mas também para, ao menos com fragmentos, para alguma atualização dos seus objetos. Considerada como um campo em crescente consolidação e expansão nas pesquisas em Educação desenvolvidas na América Latina, a interculturalidade inicia seu processo de desenvolvimento na década de 1970, quando o termo ganha popularidade nos estudos da educação indígena, como discutem Vera Maria Candau e Kelly Russo em um dos primeiros balanços publicados no Brasil (Candau; Russo, 2010) sobre a contribuição da educação intercultural no continente latino-americano, para a compreensão de aspectos sociais, políticos e educacionais, mas articulados aos processos de colonialidade. No período dos anos 70, os trabalhos sobre o bilinguismo e educação escolar indígena no continente latino-americano, pelo volume relevante, mas principalmente pela voz originária presente nas linhas e entrelinhas, criaram as condições para os estudos da interculturalidade. A educação indígena se constitui o principal campo de referência (Candau; Russo, 2010), mas para a constituição da interculturalidade, outros campos se alinham.

Tornou-se significativo compreender e dar relevo ao intenso processo colonizador presente no continente latino-americano. A produção que passa a circular e chega ao tempo que vivemos, trazida pelos estudos da interculturalidade, enfrenta e questiona a eliminação física do outro, a inferiorização étnica, a violenta forma de negação, a naturalização de ações e atitudes preconceituosas, discriminatórias e racistas, o forte silenciamento e a severa subalternização de grupos sociais (Santiago; Akkari; Marques, 2013; Mignolo; Pérez Armiño, 2025). Os problemas e os objetos propostos pelos estudos da interculturalidade abordavam a questão indígena, mas simultânea e gradualmente são propostos por esses sujeitos que a fazem extrapolar.

Com base nos escritos de Candau e Russo (2010), e de outros pesquisadores, entretanto, é significativo constatar que a interculturalidade evidencia as agências. Tornam possível constatar vozes outras na elaboração epistemológica sistemática, circulando na academia, mas também nos territórios, incluindo-se aqueles das margens - espacialidade definida pelo pesquisador acreano Gerson Albuquerque na apresentação do livro Das Margens (2016):

[...] fora deste tipo de rota [da colonização e universalidade], contrapondo [nos] aos seus ordenamentos, subvertendo-os desde as margens. Encontros às margens dos convencionais eixos ou idealizados centro de produção/difusão de uma “cultura letrada” e seus produtores de tudo o que deve ser consumido nas “periferias” de um mundo assimétrico e hierarquizado. Desde as margens porque falamos no “oco do mundo” [...] (Albuquerque, 2016, p. 7).

Vozes indígenas e comunitárias, africanas, afrodiaspóricas e amefricanas, de povos tradicionais quilombolas, do campo e ribeirinhos, vozes que afirmam a sua diferença, também vozes que propõe questionamentos sobre a diferença de gênero, orientação sexual e religiosa são das margens. Tensionam e afirmam culturas, histórias e epistemes próprias. A sua agência mobiliza como há tempos o fazem.

No percurso em que os estudos da interculturalidade vão se constituindo, gradual e simultaneamente em territórios diversos, passa a fazer sentido pensar e estudar seus objetos. Propôs o questionamento ao eurocentrismo, à branquitude, “[ à ] rota da colonização [que] projetou certas cidades, lugares, espaços/tempos em nossas subjetividades” (Albuquerque, 2016, p. 7) como processo que logrou manter a colonialidade:

[...] rotas do silenciamento das diferenças e do apagamento de tudo o que é estranho à imposição de certa cultura letrada, certas línguas, certa percepção estética, certo referencial artístico, certa noção de gosto e beleza, certo padrão de modernidade, certa criatividade, certa produção e circulação de valores, certa emancipação, certa narrativa histórica e identitária. Em síntese, a imposição de uma universalidade globototalitária [eurocentrada] (Albuquerque, 2016. p.7).

Dito de outro modo, a perspectiva de conhecimento que, por processos históricos e culturais, se constituiu como a única epistemologia válida para a elaboração sistemática do que se reconhece como conhecimento é colocada como um campo problemático pela interculturalidade.

Queremos afirmar, na apresentação deste dossiê, um ato político: mobilizar o(a) leitor(a) para certa espacialidade latino-americana, as escolas das margens. São aquelas espacialidades, então, que se encontram nas bordas, não do lado avesso, onde transitam corpos que dali veem o mundo. Algo que Rosane Borges (2025) traduz de maneira provocadora, poética, nas suas leituras de Vonnegut e Achile Mbembe:

Os habitantes da borda do mundo veem primeiro, as habitantes da borda do mundo veem coisas inimagináveis, as habitantes da borda do mundo veem as catástrofes corroendo as beiradas, simplesmente porque são habitantes da borda (Borges, 2025, 10m15s).

Nesta perspectiva, o que veem aqueles que transitam nas escolas das margens? Talvez o impedimento político das narrativas históricas próprias; a provocação à homogeneização das diferenças, histórica e culturalmente; a racialização para hierarquizar os corpos; o confinamento de povos em pequenos territórios e a produção de desterrados em espacialidades subalternas, além de promover o “apagamento” de determinados contextos e manifestações culturais. Entretanto, a centralidade europeia é interpelada pelas vozes das margens. Incluídos neste bojo, aqueles e aquelas que transitam no chão da escola localizada nesses lugares têm a chance de propor suas questões, como se lerá nos artigos que compõem o dossiê. Se, conforme aponta Porto-Gonçalves (2012, p.7), a colonialidade tem influenciado e provocado a criação de certo “[...] padrão de controle, hierarquização e classificação da população mundial que afeta todas as dimensões da existência social, e que tem no conceito de raça seu eixo estruturante”, em outra direção, retomando Candau (2014), a interculturalidade é afirmação da diferença, produção de diálogo e enfrentamento dos processos de colonialidade.

A interculturalidade, então, tensiona a escola. Como equipamento definido pela colonialidade para ratificar a posição clássica e a validação da episteme europeia universalizada para representar o conhecimento, a escola alinha-se com museus e universidade (Mignolo; Pérez Armiño, 2025). Entretanto, na escola das margens, talvez as agências assumam a articulação de outras questões. Vista como uma espacialidade, tem seu cotidiano tecido por corpos políticos que ali transitam, e ao fazê-lo, aprendem, ensinam, tensionam as relações de poder e a vinculação do conhecimento a uma única perspectiva. Mobilizam saberes, linguagens e culturas que interpelam, por fim, a própria escola.

Nas pesquisas do campo da interculturalidade procura-se compreender se e como o transitar dos corpos políticos e seus enunciados próprios têm a potência de fazer irromper rachaduras no cotidiano da escola. Ao fazê-lo, pesquisadores e pesquisadoras aprendem, ensinam, tensionam as relações de poder e a vinculação do conhecimento a uma única perspectiva. Entretanto, crianças, jovens, a comunidade, o movimento social, professores, professoras, agentes outros, participam das pesquisas interculturais, e por vezes a coordenam, mobilizando saberes, linguagens e culturas que interpelam a própria escola. Para Candau e Russo (2010) por meio dos processos educativos escolares que vão se constituindo interculturais há chances de questionar a colonialidade, o eurocentrismo, o racismo presente na sociedade e na própria educação. Para as autoras,

[...] promove-se o reconhecimento de diversos saberes e o diálogo entre diferentes conhecimentos, combate-se as diferentes formas de desumanização, estimula-se a construção de identidades culturais e o empoderamento de pessoas e grupos excluídos, favorecendo processos coletivos na perspectiva de projetos de vida pessoal e de sociedades ‘outras’ (Candau; Russo, 2010, p. 166).

As experiências de educação popular de base comunitária referenciadas em Paulo Freire, por vezes coordenadas pelo educador, participam da constituição desse debate complexo sobre encontros de diversos saberes e o diálogo entre diferentes conhecimentos que vem constituindo o campo da interculturalidade desde os anos 70 (Walsh, 2014; Fleury, 2014; Oliveira, 2011, 2015; Penna, 2014; Muraca, 2024). Na década de 1970, a experiência com educação popular na região, em contextos marcados por regimes de exceção e colonialismo, é apontada dentre as precursoras da produção teórica latino-americana sobre interculturalidade no campo da educação - uma teorização de experiência feita. A obra de Paulo Freire aparece na literatura que aborda os estudos da interculturalidade no período (Muraca, 2024; Oliveira, 2011) como a principal referência. Os termos diálogo e práxis passam a figurar nas proposições das metodologias de educação popular conceitualmente e circular em experiências nos espaços comunitários. Paulo Freire assessorou a muitas iniciativas, inclusive, em vários países da América Latina. Nos seus livros, ensaios e artigos é possível, sobretudo pelo estilo de escrita (Brandão, 2013) re-viver a educação popular em áreas rurais, comunidades tradicionais e nas periferias urbanas quando o diálogo orientava as agências de educadores e educadoras populares. Ainda que o termo interculturalidade não tenha sido discutido explicitamente na obra freireana, estudos de Walter Mignolo e Catherine Walsh (2018) reconhecem o diálogo, a práxis, o compromisso com a superação das relações de opressão e subalternização historicamente produzidas no contexto colonial latino-americano a coincidir - ou podemos ousar escrever co-incidir - com os temas e problemas presentes na intensa interlocução para a proposição da interculturalidade nos anos 1970.

A contribuição metodológica de Paulo Freire para a educação popular de base comunitária, dados os seus efeitos, assume relevância para educadores e educadoras que atuam em escolas. Educadores e educadoras que exerciam seu ofício em escolas de comunidades indígenas e tradicionais, em áreas urbanas e rurais, ao defender uma prática pedagógica fundamentada no diálogo, no respeito aos saberes locais, na interlocução que produz coletivamente a leitura crítica da realidade, reconhecem na proposição freireana, referências para processos educativos regional e interculturalmente situados. Ampliam-se os relatos de experiências de educação escolar em escolas de comunidade que demandam a educação intercultural: uma experiência educadora ético-político-pedagógica sensível às línguas, às cosmovisões e às formas próprias de organização social e cultural dos grupos envolvidos e que dialogam. Agentes que demandam a radicalidade em se considerar a educação popular como as formas próprias de produção dos saberes dos grupos - as epistemes outras - e Paulo Freire é a principal referência para a constituição deste quefazer.

Do ponto de vista do que afeta as escolas, sem desconsiderar as tensões que se instalam quando a instituição é questionada pelos processos de educação popular, a prática pedagógica nos escritos e experiências de Paulo Freire evidenciam a orientação dos processos pedagógicos pela interlocução atenta aos contextos culturais e pela leitura crítica da realidade. Esses são elementos centrais para uma educação comprometida com a emancipação dos sujeitos. As experiências de educação popular evidenciam uma postura pedagógica que rejeita modelos homogêneos e universalizantes, valorizando os saberes locais e as formas próprias de organização social. Essas metodologias vão se fazendo prática pedagógica e, no mesmo movimento, vão contribuindo para a proposição dos princípios fundamentais da educação intercultural. Reconhecem que os processos educativos podem ser constituídos na articulação com as comunidades e grupos culturais, tradicionais e originários, e promovem relações horizontais entre educadores e educandos. Dessa forma, a produção freireana contribui de maneira decisiva para a constituição dos estudos sobre interculturalidade na América Latina, articulando teoria, prática e compromisso político-pedagógico.

Susana Sacavino (2016, 2019) em consonância à perspectiva teórica que compreende a interculturalidade como construção plural, complexa e original, afirma que:

[...] implica questionar a existência de um centro, dominador, superior e organizador que se identifica com uma única cultura que se coloca como medida e referência das outras culturas, considerando-se portadora e medida do pensamento e da cultura universal. Ao contrário, implica o reconhecimento de que todas as culturas são incompletas e que vivemos num contexto de diversidade [...] (Sacavino, 2019, p. 11-12).

Queremos pensar, atravessados pelo percurso reflexivo até este ponto que, na perspectiva da interculturalidade, a educação escolar é um complexo campo de práticas culturais que impõe problemas para nossa reflexão, mas também à pesquisa em educação, quando se destaque seu delineamento nas rotas de colonização universalizante. Tomá-la sob análise na contemporaneidade coloca a necessidade, desde os estudos da interculturalidade, do deslocamento para a dimensão local, a mais cotidiana, sem perder de vista as suas articulações, no caso desta proposta, em termos de América Latina. Então, ao mesmo tempo, no interior desse espaço constituído pela modernidade etnocêntrica universalizante, a interculturalidade que se enuncia do interior da escola das margens torna possível - tanto quanto incontornável - questionar a educação escolar etnocêntrica, clássica e explicitar a rota de colonização.

Por todas essas considerações, acreditamos que o dossiê “Experiências Interculturais em Escolas das Margens na América Latina” se constitui em espaço rico, fecundo e inventivo para reflexões que abordem, por caminhos múltiplos trilhados nos espaços escolares das margens da América Latina, objetos e problemas que permitam articular contribuições aos estudos da interculturalidade. Há objetos atualizados como as possibilidades para um debate interculturalidade em Paulo Freire a partir da educação indígena maia no México, a educação rural na escola multisseriada contemporânea, a reflexão que analisa os cursos de licenciatura indígena no contexto da universidade pública, a ancestralidade africana instalando limiares no museu. Sobretudo, o dossiê pretende contribuir para manter o questionamento vivo à educação escolar a partir das margens, da “escola das margens” como um dos espaços dos quais a atualização dos estudos da interculturalidade irrompe.

O presente dossiê expõe debates sobre o enfrentamento aos silenciamentos e apagamentos gestados pelos processos universalizantes, pelo caráter hierarquizante da distinção entre periferia e centro e à implicação da pesquisa educacional nesse sentido. Os artigos demonstram como seus autores e autoras se deixaram afetar pelo diálogo com as comunidades originárias e tradicionais, rurais, das periferias urbanas, aquelas e aquelas que são alvo de processos de racialização e subalternização dos corpos. Sobre temas e perspectivas diversas, os textos focalizam as condições e as possibilidades, também o questionamento feito a processos de escolarização que deslegitimam corpos, cosmologias, saberes, epistemes outras. Propostos por investigadores do campo do Estudos Culturais, Pós-Coloniais e dos estudos sobre interculturalidade, os trabalhos reunidos colocam em exame mais detido o que acontece nas escolas das margens - desde as margens.

Neste registro, o dossiê apresentará os dez trabalhos em três blocos que darão a ler sobre os efeitos produzidos pela articulação entre interculturalidade e educação escolar. Em cada contexto mobilizado pelos autores, no Brasil, México e no Equador, esperamos que os estudos interculturais gerem o debate no limiar, nos contornos, nas bordas, nas margens.

Iniciando com o bloco de trabalhos mais amplo, apresentaremos os cinco artigos de autores participantes dos debates sobre a interculturalidade e a presença de Paulo Freire por ocasião do “Seminário Virtual Permanente: Filosofía y pedagogía de Paulo Freire. Vigencia contemporánea en la multiculturalidad” promovido pela Universidad Intercultural de Chiapas-México em parceria com o Programa de Pós-Graduação em Educação Escolar Profissional - PPGEEprof, da Universidade Federal de Rondônia, Brasil. Em 2023, entre os meses de fevereiro a dezembro, sempre ao final da tarde na última sexta-feira do mês, pesquisadores brasileiros e mexicanos apresentaram suas experiências nos territórios, seus aportes e questões sobre as possibilidades de reinventar processos educacionais, escolares e não-escolares, segundo processos de educação comunitária. Projetos em que se produzem experiências educadoras com as línguas, as cosmovisões distintas e formas próprias de organização social e cultural dos grupos envolvidos.

O primeiro dos textos, intitulado “Experiencias formativas desde las contribuciones pedagógicas y didácticas freyrianas. El proyecto ‘Slumal lo´il maxiletik yu´un snichimaj p´ijiletik’, ‘Tierra de cuentos para florecer el pensamiento’”, é de autoria de Edit Araceli Pérez Martínez e Edgar Federico Pérez Martínez, docentes indígenas Maya Tzotzil, da Universidad Intercultural de Chiapas, México. O trabalho apresenta a descrição substanciada e a análise de duas experiências formativas com base na filosofia e a pedagogia de Paulo Freire. A reflexão problematiza a função da prática docente daquele que ensina em contextos indígenas.

Na sequência, mais dois textos de docentes da Universidad Intercultural de Chiapas. O texto “Cultura propria e interculturalidade crítica: referencias decoloniales en la construcción da educación comunitaria en pueblos de Chiapas”, México, de António de Jesús Nájera Castellanos, trata da educação comunitária, portanto, uma das perspectivas contra-hegemônicas, caracterizada pela abordagem de aspectos representativos das culturas locais para fomentar processos educativos interculturais levando em conta, principalmente, a reflexão sobre a implicação dos(das) professores(as) com a comunidade onde atuam. Nájera Castellanos perpassa, significativamente, as dimensões religiosa, política e econômica. Em abordagem decolonial, o autor desafia-se, e aos(às) leitores(as), ao fundamentar as suas análises segundo a hermenêutica que propõe a revisão das epistemologias modernas, explicita a exclusão e o silenciamento de cosmovisões.

O texto de Maria Antonieta Flores Ramos, “A cultura escrita como desafio da educação intercultural”, apresenta sua experiência longeva, de quase vinte anos, como professora titular de espanhol na Universidad Intercultural de Chiapas, para refletir sobre a cultura escrita, um dos desafios fundamentais no âmbito do ensino superior intercultural. No estilo autobiográfico, a autora nos faz caminhar pelas mãos de José, um estudante indígena. A autora faz ver a cultura escrita na sua versão standard como objeto cultural que não pode ser sobrevalorizado como aprendizado substitutivo da língua materna. Sobretudo, a Flores Ramos enfrenta a cultura escrita como um desafio tão incontornável quanto provocador de novas questões e objetos para a educação intercultural no ensino superior. O contexto educacional na Universidad Intercultural de Chiapas permite potencializar as questões trazidas por Flores Ramos quando ressalta marcadores de oralidade nos processos educativos nas aulas de espanhol, tanto quanto tensionamentos advindos da convivência com processos próprios de comunicação, socialização. Ao final, tece reflexões sobre formas de aprender-ensinar próprias que precisam ter sua diferença afirmadas.

Sem perder os processos de educação intercultural que afetam povos indígenas, dada a sua presença na população mexicana, o trabalho de Diego Juárez Bolaños e Esteban García Hernández, investigadores do Instituto de “Investigaciones para el Desarrollo de la Educación, da Universidad Iberoamericana Ciudad de México” abordam a educação rural. No artigo Necessidades na formação inicial de professores de escolas multisseriadas no México, os autores analisam as principais necessidades que precisam ser atendidas na formação inicial de professores(as) que atuam em escolas multisseriadas, no contexto rural no país. Sinalizam o quanto o modelo escolar multisseriado é extensamente presente como parte da política pública por responder a necessidades de oferta de educação escolar em comunidades rurais. Porém, os autores não escamoteiam os seus limites, do mesmo modo que dão relevo aos desafios pedagógicos, administrativos e de gestão a serem enfrentados pelas escolas rurais denominadas multisseriadas.

A análise de Juárez Bolaños e García Hernández manifesta a implicação das pesquisas da área de educação rural nas políticas públicas educacionais como parte dos esforços da investigação, a fim de produzir atualizações no modelo das escolas rurais multisseriadas. Neste ponto, a interculturalidade irrompe para considerar a diversidade contextos sociais, culturais, econômicos, políticos e ambientais que as escolas multisseriadas mobilizam.

Nos artigos do bloco inicial, então, serão abordados e analisados os processos de educação intercultural que se deram em diversas propostas e modelos pedagógicos nos países dos e das participantes do seminário virtual permanente. Olhar para cada uma das comunidades implicadas, mas principalmente para o que entretece agentes da América Latina no conflito com os processos colonizadores, cria condições importantes para conhecer, reflexionar e analisar diferentes caminhos para/nas/das escolas. Ou seja, mobilizam propostas, projetos e modelos educativos progressistas, libertadores, emancipadores.

O segundo bloco de trabalhos apresenta-se como registro do esperançar. São trabalhos que interpelam processos culturais hegemônicos e universalizantes, mas examinam, de modo rigoroso, experiências outras em espaços de formação, demonstram seus alcances. Por caminhos distintos, os artigos demonstram enfrentamentos a problemáticas como a racialização e o preconceito, constituídas nos contextos escolares e elaboram posicionamentos frente aos modelos e sistemas educativos. Assumindo recortes distintos, os autores e autoras enfrentam a materialidade das relações de dominação para fazer proposições acerca de metodologias e materiais didáticos interculturais, como a revisão do uso de espaços culturais não escolares. Os autores e autoras abordam o cinema, a fruição em museus e a força da mobilização dos agentes em rodas de conversa sobre raça, estudos de gênero, masculinidades, racismo e violência em projetos educativos que se fizeram nas bordas, nas margens, ao encontro da discussão central neste dossiê. Os textos mobilizam a produção cultural e a reflexão para interpelar a imposição hegemônica eurocêntrica sobre o corpo que, oprimido, segue sua formação. Entretanto, os artigos abordam e evidenciam outras produções culturais nas margens, espacialidades outras, experiências interculturais a dialogar e demarcar algumas questões para a formação escolar.

Manuel Medina, que inaugura o segundo bloco de artigos, é pesquisador do campo dos Estudos Culturais, equatoriano e professor de Cinema e Literatura Latino-Americanos na University of Louisville, Estados Unidos. No artigo “Blak Mama y la pedagogía del oprimido: diálogos interculturales y subversión cultural en el cine ecuatoriano” amplia a sua investigação dedicada à pedagogia que se vale da produção cinematográfica latino-americana e se apresenta desejosa de mobilizar estudantes, professores(as) da escola básica para os debates sobre raça e processos de racialização. No artigo, o autor discute o filme Blak Mama (2009), dirigido por Miguel Alvear e Patricio Andrade, um texto cinematográfico que incorpora e ressignifica os princípios da pedagogia libertadora de Paulo Freire em diálogo com categorias dos Estudos Culturais e da teoria cinematográfica. A partir de conceitos como “conscientização”, “diálogo” e “inédito viável”, examina como a obra subverte símbolos oficiais da cultura equatoriana por meio de estratégias de paródia, carnaval e hibridez, transformando-os em espaços de negociação cultural e interpelação dos processos de racialização.

Medina confirma o cinema como arte de subversão cultural, capaz de questionar narrativas dominantes e viabilizar que, na escola básica, sejam propostas pedagogias alinhadas à interculturalidade. Desta forma, iluminando leituras críticas no âmbito do cinema latino-americano, Medina reitera a vigência da perspectiva intercultural para mostrar como a arte pode gerar conscientização e resistência além da escola.

O segundo artigo intitula-se “Educação escolar e museal como práticas (antirracistas) da liberdade na América Latina”, de Alan Alves-Brito e Isael da Silva Pinheiro, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Os autores mobilizam aportes da educação antirracista na América Latina para abordar o objeto de sua reflexão, um diálogo relevante do material produzido em três experiências internacionais. A primeira discute os resultados do Projeto Améfrica Ladina que envolveu pesquisadores e pesquisadoras de 20 países da região. A segunda experiência foi a produção do Guia de Centros e Museus de Ciência da América Latina e do Caribe, de 2023, que dá visibilidade ao mapeamento de 18 museus dedicados ao tema das práticas antirracistas. A última experiência abordada por Alves-Brito e Pinheiro reúne as análises da exposição sobre cosmologias afropindorâmicas realizada no Planetário do Rio de Janeiro, enfatizando a curadoria e a mediação. Tomando escola e museu como espaços formativos para práticas culturais antirracistas, amparada em revisão bibliográfica ampla e fundamental sobre educação escolar e educação museal, com escrita forte e enfática, os autores retomam vozes e práticas culturais, aportam questões sobre a agência no contexto da educação antirracista, trazem a novidade que a articulação das três fontes mobilizadas produz.

É um trabalho que interpela a experiência do(da) leitor(a). Território, ensino-aprendizagem, curadoria e mediação se conectam como categorias e se oferecem para a reflexão sobre a interculturalidade. As análises permitiram aos autores dar relevo ao papel científico, pedagógico, político e ético dos museus. Em uma perspectiva nos fez, ao organizar o dossiê, reconhecer aproximações entre a posição dos autores e de Walter Mignolo sobre as possibilidades para instituições fundacionais da modernidade produzir fissuras, des-ocidentalização (Mignolo; Pérez Armiño, 2025) quando seus projetos promovem a abertura desobediente aos propósitos ocidentais para os museus e as escolas. O texto provoca à reflexão sobre as possibilidades para a elaboração de currículos antirracistas gestados pela interrelação de escolas e museus em processos formativos colaborativos, como faz considerar outros equipamentos culturais neste diálogo.

O artigo de Eduardo dos Santos Henrique e Luciano Daudt da Rocha da Universidade do Sul de Santa Catarina, intitulado “Pensamento Liminar em Concepções de Masculinidades de Estudantes do Ensino Médio”, encerra este bloco de textos abordando problemática contemporânea. O tempo no qual vivemos carece de maiores debates, na área de educação, dirigidos ao tema que ganhou alguma mobilização depois do que se convencionou referir “ataque às escolas” em 2023, da repercussão do seriado Adolescência, da Netflix e mesmo da ampliação do número de projetos de lei que, na prática, amenizam crimes de estupro e pedofilia quando proíbem, em razão de argumentos da pauta moral conservadora, aborto assistido a adolescentes e mulheres que passaram por situações de violência. Os autores alcançam o propósito de abordar a masculinidade segundo a experiência e o relato de jovens negros periféricos participantes da pesquisa dos autores. O artigo contribui para descolonizar o pensamento impregnado por imposições construídas no plano sócio-histórico-cultural da modernidade/colonialidade e busca identificar o pensamento liminar nas posições sobre masculinidade elaboradas por estudantes negros do Ensino Médio.

Em interações mediadas por uma prática pedagógica fundamentada na interculturalidade e na pesquisa-ação, os autores assumem seu transitar nas bordas, e daquela perspectiva conduzem os(as) leitores(as) a um terreno de transformação e, por que não admitir, de esperança. Há corajoso enfrentamento do racismo, evidenciado pela partilha das experiências, que revela não apenas os desafios, mas também o potencial revolucionário das masculinidades em evolução. O repensar da branquitude pelos participantes sinaliza um movimento de conscientização que transcende as barreiras da escola.

No encerramento do segundo bloco se apresenta o artigo “A Cultura como Consumo no Âmbito da Libras e da Formação Docente”, de autoria de Bruna da Silva Branco e Lodenir Becker Karnopp, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que aborda a Língua Brasileira de Sinais - Libras como objeto da cultura relacionando-o aquilo que discutem como “cultura do consumo”. Para as autoras, certos objetos suas tecnologias, os dicionários, as gramáticas, as aulas e outras produções da comunidade surda são abordados nos cursos de licenciatura como objetos de consumo. A formação profissional de docentes surdos para o ensino de Libras, segundo as autoras ancoradas em contribuições dos Estudos Culturais em Educação e Estudos Surdos, não escapa desse registro. Mobilizam a interculturalidade para dar tratamento às questões propostas, considerando as experiências de pessoas surdas quando adentram à licenciatura em Letras-Libras a se graduarem como professoras surdas e professores surdos de Libras. Referenciando-se em Jorge Larrosa e na discussão do autor espanhol sobre o par experiência/sentido, e na noção de gestão da cultura proposta por George Yúdice, tomam como premissa que o marcador cultural para a cultura surda é a Libras, a língua. Deste ponto, defendem o formar-se professor e professora de Libras para a pessoa surda como experiência, o que significa reconfigurar o contexto formativo na licenciatura em Letras-Libras como política, para além de ofertar profissionais para cumprir o disposto em parâmetros legais.

O segundo bloco de textos mobiliza contribuições possíveis dos estudos da interculturalidade para o enfrentamento de hegemonias formativas. Então, as escolas das margens demonstram sua força exatamente porque não se escamoteia essa posição, onde os discursos são produzidos. Do mesmo modo, para o que nos mobiliza a este dossiê, a educação intercultural se apresenta para o enfrentamento rigoroso aos pressupostos e aos efeitos da educação escolar eurocentrada.

A leitura dos artigos que compõem o segundo bloco do dossiê mostra a possibilidade de experiências interculturais, o diálogo de saberes e a possibilidade de construção de práticas dialógicas e problematizadoras, que colocam questões que atravessam a Educação Intercultural. Estudar a interculturalidade é criar caminhos, importantes e significativos, para diálogos com identidades, gêneros e culturas outras e modos de lidar com o corpo e a linguagem que afirmam a diferença. Significa construir condições para uma abertura que permita se afetar por narrar histórias e apresentar saberes e conhecimentos muitas vezes interditados e silenciados pelo pensamento moderno-colonizador. Significa modos outros de se fazer pesquisa em Educação.

O terceiro bloco de artigos encerra o presente dossiê mobilizando a educação escolar indígena, o que resulta significativo pelo que discutimos nos primeiros lances desta apresentação: aprendemos interculturalidade olhando para a educação escolar indígena.

Trabalhar em perspectiva intercultural é o conviver, o estar junto com o outro. É o desenvolvimento de uma escuta sensível promovida em diferentes encontros, nos mais variados contextos geográficos. Em outras palavras, circular com essas pessoas de direitos negados é aprender a saber ouvir e a ouvir com atenção, com respeito e sabedoria as identidades e diferenças. Inspirados nesses movimentos de convívio e encontro com o outro, que produzem e mobilizam práticas interculturais, os autores procuram apresentar os diálogos interculturais construídos.

O texto “Pedagogia intercultural indígena: diálogos sobre língua, alfabetização e interculturalidade”, de autoria de Célia Aparecida Bettiol, Jeiviane Justiniano e Adria Simone, da Universidade do Estado do Amazonas, descreve as experiências de formação vivenciadas com professores(as) indígenas do Alto Solimões e do Vale do Javari, em um curso de Pedagogia Intercultural, ofertado desde 2018 na instituição, no âmbito da Política Nacional de Formação de Profissionais do Magistério da Educação Básica/PARFOR naquela universidade (Decreto nº 6.755, de 29 de janeiro de 2009).

De acordo com as autoras, as experiências de formação são lugar de encontro e sinalizam o avanço do curso no âmbito da Universidade do Estado do Amazonas. O texto aborda as particularidades da formação de professores(as) indígenas nas regiões do estado onde a licenciatura foi e é atualmente ofertada. Ao mesmo tempo que contribui para o reconhecimento e valorização de outros processos de formação para professores(as) indígenas no estado do Amazonas, a experiência do curso de Pedagogia Intercultural agrega-se ao rol de formação intercultural indígena que se apresenta atualmente com grande diversidade sociocultural e linguística.

As autoras Maria Aparecida Bergamaschi e Márcia Luísa Tomazzoni, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, apresentam o artigo “Aprendizagens interculturais na con-vivência com os Mbyá Guarani”. Este texto proporciona ao(à) leitor(a) que conheça o processo de construção coletiva de um documentário sobre a educação tradicional e a educação escolar do povo Mbyá Guarani e as tensões entre essas práticas de educar. O documentário intitula-se Mbyá Arandu: a sabedoria de viver entre dois mundos, que vem da fala das próprias lideranças e professores(as) das comunidades Mbyá Guarani envolvidas com a elaboração do audiovisual e que participaram da concepção e da condução do mesmo. O artigo propõe a reflexão acerca das aprendizagens interculturais propiciadas no processo de autoria do documentário.

No artigo, as autoras ressaltam que um dos aprendizados deste trabalho realizado junto aos Mbyá Guarani foi a perspectiva colaborativa que resultou em trocas sobre diversos temas passíveis de serem abordados, seja por pesquisadores(as), seja por educadores(as), a respeito da Lei Federal nº 11.645, de 2008, que torna obrigatória a inclusão da história e da cultura indígena nos currículos das escolas brasileiras.

Esperamos que o dossiê produza encontros potentes e contribua para ampliar o debate sobre os estudos da interculturalidade nas pesquisas em educação.

Referências

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  • Apoio ou financiamento:
    CNPq
  • Disponibilidade de dados de pesquisa:
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  • Como citar este artigo:
    LIMA, Marcia Machado de; VIEIRA, Carlos Magno Naglis. Interculturalidade nas Pesquisas em Educação: “escola das margens” na América Latina. Educar em Revista, Curitiba, v. 42, e104065, 2026. https://doi.org/10.1590/1984-0411.104065
  • Editor(es)/a(s) responsáveis - Editora associada:
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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    15 Maio 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    27 Mar 2026
  • Aceito
    30 Mar 2026
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