Resumo
O Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) é um movimento social que organiza a classe trabalhadora na luta por moradia e outros direitos sociais, sendo a ocupação de terrenos irregulares ou ilegais nas periferias urbanas do Brasil sua principal tática de ação política. Parte da população sem-teto que participa de uma ocupação torna-se militante, passando a dedicar parte de sua vida ao projeto político do movimento. O presente artigo parte da indagação sobre o tipo de experiência que pode contribuir para provocar esta transformação pessoal. Inscrito na interface entre os campos da psicologia e da educação, tem o objetivo de descrever como se configura o tipo de educação popular feita pelo MTST e explorar suas possíveis contribuições para a construção de um projeto de vida político. Tenciona, igualmente, caracterizar o projeto de vida político de militantes deste movimento social. Mediante uma pesquisa participante, que lançou mão de 52 seções de observação de campo, e da análise secundária de entrevistas com 33 coordenadoras(es) do movimento, o estudo sugere que o MTST configura uma cultura moral e política que se constitui como um agente de educação popular. Ao implicar o acampado em um sistema de práticas, símbolos, normas e estruturas materiais alicerçados pelos valores da justiça social, solidariedade, bem-comum e militância política, o MTST forja um modo próprio de fazer educação popular, que pode contribuir com a construção de identidades e projetos de vida orientados à transformação social.
Palavras-chave:
Projeto de vida; Educação; Formação ética; Identidade política; Movimentos sociais
Abstract
The Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST, Homeless Workers’ Movement) is a social movement that organizes the working class in their struggle for housing and other social rights, with the occupation of irregular or illegally held land on the urban peripheries of Brazil as its main tactic of political action. Some people who are homeless who take part in an occupation become activists, devoting part of their lives to the movement’s political project. This article begins by asking what kinds of experiences may contribute to bringing about this personal transformation. Situated at the intersection of psychology and education, it aims to describe the form of popular education carried out by the MTST and to explore its possible contributions to the construction of a political purpose. It also seeks to characterize the political purpose of activists in this social movement. Through participant research involving 52 field-observation sessions and a secondary analysis of interviews with 33 movement coordinators, the study suggests that the MTST constitutes a moral and political culture that acts as an agent of popular education. By engaging camp residents in a system of practices, symbols, norms, and material structures grounded in the values of social justice, solidarity, the common good, and political activism, the MTST forges its own mode of popular education, which may contribute to the construction of identities and purposes oriented toward social transformation.
Keywords:
Purpose; Popular education; Political identity; Social movements
Introdução
Eu sonho todos os dias da minha vida, e vou sonhar até partir desse plano para o outro, com a igualdade. Uma sociedade em que todo mundo possa escolher livremente o que comer, possa morar com dignidade, ter as mesmas oportunidades de educação, onde todos possam viver bem. Para mim, lutar pela igualdade social é um objetivo de vida, um sonho que eu luto todos os dias. Um sonho coletivo, que eu luto com o MTST nas ocupações, nas ruas, em todo lugar, sabe, para tornar o mundo um lugar melhor para todos (Simone).
Simone migrou de Minas Gerais para São Paulo em 1997, em busca de melhores condições de vida. Em 2005, participou de uma ocupação do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) na periferia de São Paulo, com o objetivo exclusivo de conquistar uma moradia digna para sua família. Tornou-se uma das coordenadoras da ocupação e, posteriormente, coordenadora nacional do movimento, posição que ocupa até o momento presente. Desde 2005, Simone dedica parte de sua vida à militância no MTST, um dos maiores movimentos sociais urbanos da América Latina, que luta por moradia e outros direitos sociais para a classe trabalhadora, sendo a ocupação de terrenos em situação irregular ou ilegal nas periferias urbanas sua principal tática de ação política (Simões; Campos; Rafael, 2017).
Assim como Simone, dezenas de pessoas que participaram das ocupações do MTST tornaram-se militantes do movimento, passando a se identificar como parte do movimento, compartilhar alguns dos seus valores e dedicar parte de suas vidas a seu projeto político (Silva, H., 2023). Este fenômeno sugere que a participação no MTST pode contribuir para a construção de uma identidade política e de um projeto de vida político associados ao movimento.
A identidade pessoal é uma construção psicossocial que cada sujeito realiza ao explorar a si mesmo e o mundo na busca por formular um autoconceito e definir seus valores e posicionamento no mundo. É um sistema coerente de representações de si3 definido pelos conteúdos a que o sujeito atribui valor central e que, por isso, conforma suas representações de si em um sistema organizado que lhe confere senso de unidade e define seus compromissos e posicionamento no mundo. Tais conteúdos podem pertencer a domínios como família, trabalho, ideologia política, religião, moralidade, sexualidade, entre outros (Erikson, 1976; Schwartz; Luyckx; Crocetti, 2015; Silva; Araújo, 2024). Quando valores morais (ex.: justiça social e solidariedade) são centrais para a identidade pessoal, tem-se a constituição de uma identidade moral (Blasi, 2004; Colby; Damon, 1992).
Um conceito intimamente associado ao de identidade moral é o de identidade política (Porter, 2013), que consiste na importância, para a representação de si do sujeito, de seu envolvimento político e de valores que visam responder às demandas coletivas que se manifestam na esfera pública - como a participação cidadã, a democracia e a sustentabilidade ecológica. A autora revela que o engajamento cívico de adolescentes está fortemente relacionado a suas identidades morais e políticas.
Valores morais também podem ser ancorados à identidade pessoal como parte de uma identidade social. A identidade social é uma identidade coletiva que se constitui pelo compartilhamento de conhecimentos, princípios, práticas e objetivos por parte de um grupo social e pelo senso de pertencimento por parte de seus membros. Um sujeito pode integrar uma identidade social à sua identidade pessoal na medida em que se sente pertencente a determinado grupo social, considerando-o como algo que lhe constitui, portanto, lhe atribuindo valor (Spears, 2011). Deste modo, a identidade social será, para o sujeito, um vetor de integração e manifestação dos valores que definem e orientam o grupo social.
O projeto de vida é um constructo indissociável da identidade. De acordo com Damon (2025, p. 6, tradução nossa), um projeto de vida “[...] é um compromisso ativo em alcançar um objetivo que é, ao mesmo tempo, significativo para o self e relevante para o mundo além do self”. Alinhados à perspectiva de Damon, Silva e Danza (2022) argumentam que o projeto de vida é uma manifestação prospectiva da identidade, uma vez que se configura por valores centrais para a constituição identitária, os quais se projetam na forma de objetivos concretos a serem alcançados por meio de estratégias de ação levadas a cabo pelo próprio sujeito. Um projeto de vida político, por sua vez, está imbricado a uma identidade política e é definido como uma intenção cívica e política de alto grau, que demonstra forte engajamento político e apresenta motivação política para além dos interesses pessoais (Han; Ballard; Choi, 2019; Malin; Ballard; Damon, 2015). A identidade política, contudo, não necessariamente produz ações políticas concretas, ao passo que o conceito de projeto de vida político as pressupõe (Han; Ballard; Choi, 2019).
Guardadas as diferenças entre os constructos, tanto a identidade quanto o projeto de vida são constituídos pelos conteúdos que são valorizados com mais centralidade pelo sujeito. De acordo com Silva e Araújo (2023, 2026) e Silva (2023), tributários das obras de Piaget (2014) e Blasi (2004), os valores são construídos através do vínculo afetivo que o sujeito estabelece com o objeto de seu conhecimento (situações, pessoas, normas, identidades sociais etc.), dos significados que lhes atribui e das coordenações que estabelece com outros valores pessoais. Um valor se integra às representações de si do sujeito como parte de um sistema de valores, podendo ser mais central ou mais periférico para sua identidade.
Assim, a construção de um projeto de vida político passa pela construção de valores morais de caráter político, que se tornam centrais para a identidade e, consequentemente, orientam o projeto de vida. Estudos em psicologia moral concordam que, quanto mais centrais forem valores morais para a identidade pessoal e para o projeto de vida, maior será a força motivadora desses constructos sobre ações morais (Blasi, 1983; Colby; Damon, 1992; Hertz; Krettenauer, 2016; Krettenauer, 2024), como é o caso do engajamento político (Han; Ballard; Choi, 2019; Silva; Araújo, 2021). Por outro lado, o envolvimento em ações pró-sociais demonstra contribuir para a construção de valores e sua integração à identidade (Cox; McAdams, 2012; Silva; Araújo, 2021) e a um projeto de vida orientado à cidadania e à política (Malin; Ballard; Damon, 2015; Han; Ballard; Choi, 2019). No referido campo de estudos, no entanto, não figuram pesquisas que relacionam a experiência em movimentos sociais com a construção de uma identidade política ou um projeto de vida político.
No campo da psicologia social, por sua vez, as pesquisas que exploram as relações entre identidade social e ação coletiva revelam que a identidade social de pertencimento a um grupo social em situação de desigualdade prevê estatisticamente a ação coletiva e que esta, sobretudo quando sistemática, como é o caso da participação em um movimento social, pode engendrar uma identidade politizada (Simon; Klandermans, 2001; Stürmer; Simon, 2004; Pliskin et al., 2025) e, consequentemente, um projeto pessoal politizado (Klein; Spears; Reicher, 2007).
Van Zomeren e colaboradores (2008), em metanálise sobre 182 pesquisas quantitativas, reforçam tais conclusões e acrescentam que uma identidade politizada de grupos em situação de desigualdade social produz efeitos mais fortes sobre a motivação para a ação coletiva em comparação com uma identidade social não politizada. E sugerem que aquela pode se constituir via participação em movimentos sociais. Os autores apontam para a necessidade de se investigar como uma identidade social de um grupo em situação de desigualdade se torna uma identidade politizada. Também ressaltam a lacuna de pesquisas sobre a participação em um movimento social em tempo real e suas implicações para a construção da identidade.
No plano da sociologia dos movimentos sociais, pesquisas internacionais (Holst, 2002, Kuk; Tarlau, 2020) indicam que a experiência militante no interior de movimentos sociais é, em última análise, uma experiência de educação não formal que contribui, entre outras coisas, para a formação da identidade política. No Brasil, estudos que investigaram o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST)4 sugerem que o conjunto de práticas de formação política, associado às ações coletivas e aos valores que configuram a cultura do movimento, contribui para a construção de uma identidade Sem-Terra (Caldart, 2001; Martins; Santos, 2012; Silva, A. 2020). Não obstante a importância destes estudos para apontar as implicações entre movimentos sociais, educação e construção da identidade, as relações entre educação popular e identidade ou projeto de vida não constituem seu objeto prioritário de pesquisa.
Nosso ponto de partida, no presente artigo, é a indagação sobre o que propicia as transformações pelas quais pessoas como a Simone passam entre a entrada em uma ocupação e a conversão à militância do MTST. Inscrito na interface entre os campos da psicologia e da educação, o artigo tem o objetivo de descrever como se configura o tipo de educação popular feita pelo MTST e explorar suas possíveis contribuições para a construção de um projeto de vida político. Intencionamos, igualmente, caracterizar o projeto de vida político associado a este movimento social.
O desenho da pesquisa
Breve caracterização do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto
O MTST foi fundado no ano de 1997 nas franjas urbanas de São Paulo. Herdeiro do MST, adaptou sua estratégia de luta pela terra ao contexto urbano, tornando-se um ator central na arena política ao organizar milhares de trabalhadores sem-teto na luta por moradia e articulá-la a reivindicações por outros direitos sociais e pelo enfrentamento das desigualdades sociais, visando ao bem comum.
O movimento tem como principal tática política e porta de entrada de militantes a realização de ocupações de terrenos urbanos ociosos, que não atendem à função social da propriedade prevista na Constituição Federal de 1988 e, por isso, se encontram em situação irregular ou ilegal. Trata-se de uma forma de denunciar o descumprimento da lei e pressionar o poder político a destinar os terrenos à construção de moradia popular (Silva et al., 2023).
Além das ocupações, o MTST promove um conjunto de ações com enraizamento e capilaridade territorial sobre temas como cultura, educação, saúde, segurança alimentar, comunicação e assistência jurídica. Para o alcance de seu projeto político, o MTST organiza sua militância em coletivos setoriais, a exemplo de: formação política, educação, saúde, horta e segurança alimentar, tecnologia, jurídico, cultura, negociação e organização dos territórios.
A categoria de sem-teto é a base político-social do MTST e abarca não apenas pessoas em situação de rua, mas 5,8 milhões de trabalhadores urbanos pobres e precarizados que não têm uma moradia em condições dignas, ou que moram “de favor” - por vezes submetidos a violência física e psicológica -, ou no limite do despejo e cronicamente endividados, ou mesmo que deixam de satisfazer outras necessidades básicas para arcar com o custo do aluguel5.
Método
A fim de responder aos objetivos da investigação, lançamos mão de uma abordagem qualitativa que conjugou a realização de uma pesquisa participante à análise de narrativas de vida de coordenadoras(es) da base do MTST, ou seja, que ingressaram no movimento por uma ocupação.
A pesquisa participante se deu mediante a inserção deste autor em campo como integrante dos setores de formação política e de educação do MTST ao longo de oito anos (2017-2024), sendo os três últimos anos como pesquisador participante6, portanto, simultaneamente atuando no movimento e realizando observações prolongadas e registros sistemáticos acerca da estrutura, organização, práticas e relações que constituem o movimento social (Brandão, 1983).
Se, de um lado, a participação do pesquisador em uma organização política que é seu locus de estudo demanda alto grau de atenção para manter um afastamento do objeto, de outro, é justamente a relação e envolvimento do pesquisador com o meio e com os sujeitos da pesquisa que permitirão a obtenção de dados incapazes de serem identificados por uma perspectiva de fora do fenômeno estudado. Além disso, dar início à pesquisa já como integrante do movimento, possibilitou “[...] observar fatos, situações e comportamentos que não ocorreriam ou que seriam alterados na presença de estranhos” (Thiollent, 1983, p. 83).
Foram realizadas 52 observações e registros em função da participação do autor nos seguintes espaços e práticas: cotidiano de ocupações; assembleias com acampados; reuniões da coordenação nacional e encontros estaduais da militância do movimento; reuniões e ações desenvolvidas pelo setor de educação em ocupações, cursinhos populares, Cozinhas Solidárias e comunidades; festas, eventos e manifestações políticas.
Os dados oriundos das observações e da atuação do autor no movimento possibilitaram a obtenção de dados acerca da educação popular e da cultura política do MTST, além de fornecer uma série de pistas sobre a constituição da identidade e do projeto de vida dos militantes mediante o diálogo direto estabelecido com coordenadoras(es) e a escuta de depoimentos em diferentes fóruns coletivos.
Para tornar possível um exame mais profundo e sistemático dos referidos construtos psicossociais, optou-se pela análise secundária de narrativas autobiográficas de 33 coordenadoras(es) advindas(os) da base do movimento, organizadas na obra “Sonhos e Resistências: MTST e os testemunhos da luta popular urbana” (Silva, H., 2023), cujo objetivo foi caracterizar militantes do MTST, descrevendo sua trajetória de vida e militante, bem como os significados que atribuem a esta experiência. As narrativas foram elaboradas em função de entrevistas realizadas no ano de 2023, que os convidaram a abordar experiências marcantes em suas trajetórias de vida, seus sonhos e projeções futuras. Compuseram a amostra 27 mulheres e seis homens7, entre 36 e 65 anos de idade, com perfil socioeconômico de baixa renda e distribuídos por 12 estados da federação.
De acordo com Heaton (2008), a análise secundária é uma técnica de investigação que consiste em utilizar e reinterpretar dados pré-existentes, produzidos originalmente em outras pesquisas, a fim de responder a novas perguntas de pesquisa ou aprofundar hipóteses que não foram exploradas anteriormente.
O estudo de narrativas de vida é uma das perspectivas com maior proeminência no campo de pesquisas sobre identidade (McAdams, 2018). Através delas, o sujeito seleciona os conteúdos que são mais significativos para responder à pergunta “quem sou eu?” no momento presente, se remetendo ao passado e prospectando o futuro. Por isso, possibilita apreender não apenas os valores que organizam a identidade e o projeto de vida, mas também experiências de vida que possam ter contribuído para a construção destes valores.
A escolha pelo estudo das narrativas de coordenadoras(es) da base do movimento se deu por serem pessoas que, em sua maioria, não se aproximaram do movimento por uma disposição motivada por alinhamento ideológico, mas pela necessidade material de superar sua condição de sem-teto. Contudo, se tornaram militantes em decorrência de sua experiência no movimento. Além do mais, são pessoas que, pelo seu alto grau de engajamento social e associação voluntária ao MTST, sugerem manifestar uma identidade constituída pelos valores e pela identidade social do movimento. No campo da psicologia moral, há uma tradição de pesquisas que visa compreender a identidade moral (Colby; Damon, 1992; Pratt; Arnold; Lawford, 2009; Silva; Araújo, 2021) ou o projeto de vida político (Han; Ballard; Choi, 2019; Malin; Ballard; Damon, 2015) - mediante o estudo com pessoas reconhecidas pelo seu engajamento social.
A análise secundária das entrevistas foi feita mediante um procedimento metodológico qualitativo e microanalítico elaborado para o estudo da identidade moral (Silva, 2020; Silva; Araújo, 2023) fundamentado na Teoria dos Modelos Organizadores do Pensamento (OMT) (Moreno et al., 1998). Um modelo organizador do pensamento é uma representação que o sujeito elabora sobre o objeto de conhecimento, seja o mundo externo, seja si mesmo. Neste procedimento, são identificados, de forma indutiva, os seguintes componentes que o sujeito mobiliza ao representar o objeto de conhecimento: a) os elementos que abstrai do objeto, considerando-os significativos para descrevê-lo, explicá-lo e agir sobre ele. Os elementos consistem nos conteúdos que o sujeito mobiliza para organizar sua resposta a uma determinada questão; b) os significados cognitivos e afetivos atribuídos aos elementos; e c) a coordenação entre elementos e significados, que configura um sistema de relações coerentes na perspectiva do sujeito (Moreno et al., 1998). A coordenação é identificada quando dois elementos compartilham o mesmo significado ou quando um elemento aparece como parte do significado de outro elemento.
Três pesquisadores com domínio no procedimento de análise realizaram a leitura de todas as entrevistas, identificando os elementos, significados e coordenações nas representações de si dos participantes (por exemplo, na autodefinição, em memórias que promoveram transformação pessoal e nos objetivos de vida). Em um primeiro momento, buscamos identificar: a) quais e como conteúdos morais e políticos foram mobilizados como elementos e/ou significados nas narrativas, assim como suas coordenações, o que nos permitiu identificar os conteúdos abstraídos espontaneamente como mais significativos para suas representações de si - do que se pode inferir seus valores (Silva, 2020; Silva; Araújo, 2023; 2026); b) sua correspondência com os parâmetros de uma identidade política: a centralidade de valores políticos e do envolvimento político (Porter, 2013); c) sua correspondência com os parâmetros de um projeto de vida político: intenção cívica e política; engajamento político; e motivação política para além dos interesses pessoais (Han; Ballard; Choi, 2019; Malin; Ballard; Damon, 2015); e d) se o MTST comparecia nas representações de si, uma vez que isto seria um indicador de uma identidade organizada em torno de uma organização política (Simon; Klandermans, 2001). Desta análise foi possível extrair modelos organizadores do pensamento (isto é, tipos de representação de si) sobre identidade política e projeto de vida político.
A segunda etapa consistiu em identificar quais elementos e significados foram mobilizados nas experiências consideradas significativas e transformadoras. Isso nos permitiu identificar quais experiências no interior do movimento modificaram suas representações sobre o mundo e sobre si mesmos, ou seja, quais experiências de educação popular foram significativas em suas representações de si.
Após a leitura de 28 entrevistas foi alcançado o critério de saturação de significados correspondentes aos conteúdos morais e políticos e às experiências consideradas transformadoras no MTST.
As seções a seguir resultam das análises de dados oriundos da pesquisa participante e das entrevistas.
Identidade e projeto de vida político no MTST
As observações participantes nos diferentes ambientes e práticas do MTST possibilitaram identificar a transição do acampado recém-chegado a uma ocupação ao militante do movimento. Uma vez que um sem-teto adentra uma ocupação do MTST e monta seu barraco de lona preta, ele se torna um acampado. Com isso, passa a ser corresponsável pela organização coletiva do espaço, participa de reuniões e assembleias e usufrui das refeições oferecidas gratuita e diariamente pelas cozinhas coletivas. Um acampado pode se tornar um dos coordenadores da ocupação, se assim desejar e demonstrar boa capacidade organizativa. A assunção de responsabilidades e a regularidade de tarefas executadas, juntamente com o interesse e a participação em fóruns coletivos e atividades de formação política, são alguns fatores que podem levá-lo a ser incorporado como militante do movimento. Passará, então, a compor um dos coletivos setoriais e deverá atender aos critérios de participação regular nos espaços, encontros e práticas do movimento.
Um militante do MTST é alguém que atua regularmente nas práticas do movimento social, ao que dedica parte de seu tempo voluntariamente, e expressa tanto a identificação com a organização política quanto o compartilhamento de seus valores. Estamos falando de um sujeito que demonstra integrar à sua identidade pessoal o sentimento de pertencimento ao movimento, aderindo a seu projeto político, às suas práticas e valores - isto é, à sua identidade coletiva. Simon e Klandermans (2001) empregam o conceito de identidade politizada para se referir a uma identidade pessoal que incorpora uma identidade coletiva orientada à luta pela emancipação de seu grupo e à transformação social na esfera pública.
O trecho da entrevista de Joana Gomes8 ilustra um tipo de representação de si (um modelo organizador do pensamento) em que a identidade política do movimento é parte de sua identidade e projeto de vida.
O meu sonho é que todo mundo tivesse o direito de moradia, o direito de ter sua comida na mesa, direito de toda criança estar na escola [...] O MTST é uma forma de conseguirmos realizar esse sonho. Eu quero que fique registrado que o Movimento é luta, então eu sou luta (Joana Gama).
Joana mobiliza os direitos (à moradia, à alimentação e à educação) como um elemento e lhe atribui o significado de um sonho pessoal. Também abstrai o MTST como um elemento cujo significado é um meio para alcançar esse sonho, demonstrando a coordenação entre o MTST e os direitos sociais. O movimento social também figura como um instrumento de luta, significado que ela também atribui a si mesma, momento em que ela vincula explicitamente o MTST a si própria. Os valores morais e políticos que fundamentam os elementos e significados de sua representação de si são a justiça social (associada à garantia de direitos sociais), o bem comum (uma vez que esses direitos devem alcançar a todos) e a militância (na medida em que menciona sua ação política organizada). Joana revela que sua identidade política militante é projetada no futuro como um sonho que ela persegue junto ao movimento. Trata-se do indício de um projeto de vida que abarca um projeto político coletivo compartilhado com o MTST.
Um militante do MTST que, como Joana, manifesta como projeto pessoal a conquista de objetivos políticos do movimento e que, por ser um militante, se engaja regularmente em ações para alcançá-lo, constituiu não apenas uma identidade política militante, mas, também, um projeto de vida político que dela deriva. E trata-se de um tipo específico de projeto de vida político associado à sua atuação como militante de uma organização política e à identidade política dessa organização. Vejamos dois exemplos de representações de si em que se manifesta a configuração de um projeto de vida político de um militante do MTST, a começar por um trecho da narrativa de Simone:
Eu sonho todos os dias da minha vida, e sonharei até deixar este plano para o próximo, com a igualdade. Uma sociedade em que todos possam escolher livremente o que comer, possam viver com dignidade, ter as mesmas oportunidades educacionais, em que todos possam viver bem. Para mim, lutar pela igualdade social é um objetivo de vida, um sonho pelo qual luto todos os dias. Um sonho coletivo, pelo qual luto com o MTST nas ocupações, nas ruas, em todos os lugares, sabe, para tornar o mundo um lugar melhor para todos (Simone).
Nota-se que Simone abstrai o elemento da igualdade, atribuindo-lhe o significado de um sonho e de algo que deseja para todos, isto é, um bem comum. A participante também menciona que a luta pela igualdade é um objetivo de vida e acrescenta que se trata de um sonho coletivo no qual está pessoalmente envolvida por meio de sua atuação no movimento. Ela coordena a igualdade ao MTST, ao afirmar que seu sonho é perseguido juntamente com o MTST. Nessa representação de si, reaparecem os valores de justiça social, bem comum e militância. O valor da solidariedade também pode ser inferido de suas ações, que visam ajudar outras pessoas a terem seus direitos garantidos. Ao serem organizadores de sua representação de si, pode-se inferir sua importância para a identidade, uma identidade política. A narrativa de Simone, corroborada pelo fato de ser uma militante ativa do MTST, atende à definição de projeto de vida político apresentada anteriormente e representa, com maior ou menor correspondência, o conteúdo das outras 33 entrevistas, como é o caso da Elaine:
Para o meu futuro, eu queria construir uma sociedade de igualdade, de afeto e de solidariedade, porque a gente só vai saber o que o outro está sentindo quando a gente olhar para ele de verdade. É isso que o Movimento nos ensina, ser solidário é você sentir amor pela outra pessoa, é viver a dor da outra pessoa, é você se colocar no lugar da outra pessoa. Eu quero dizer que a gente pode mudar o mundo sim! O Movimento é exemplo disso [...]. Talvez eu não consiga ver essa sociedade mais humana, igualitária, socialista, de mais união [...] Eu, pelo menos, estou fazendo a minha parte (Elaine).
Elaine evoca os valores da igualdade e da solidariedade como um projeto pessoal e como parte da identidade do movimento ao destacar o que o movimento ensina e o exemplo que representa. Ela denota tanto a integração desses valores à sua identidade e projeto de vida quanto o papel do movimento como veículo dessa integração, isto é, como parte da constituição de sua identidade e projeto de vida políticos.
A totalidade de entrevistas atendeu aos parâmetros de uma identidade política e de um projeto de vida político evocando a figura do MTST como um conteúdo que compõe a organização das representações de si. Os valores morais e políticos de justiça social, solidariedade, bem-comum e militância política foram recorrentes nas narrativas, embora também tenham sido mobilizados valores ligados à fé religiosa, ao trabalho e à família - estes, porém, não são objeto deste estudo.
A cultura moral e política como agente de educação popular no MTST
Da entrada de um acampado em uma ocupação do MTST à possível construção de um projeto de vida político, operam transformações que resultam, entre outros fatores possíveis, de sua experiência no movimento, isto é, de sua participação em práticas de educação popular (Gohn, 2011; Kuk; Tarlau, 2020; Silva et al., 2023). Mas, afinal, como se configura essa educação popular feita pelo MTST e de que modo ela pode contribuir com a construção de um projeto de vida político?
Conforme exposto anteriormente, a construção de uma identidade política e, consequentemente, de um projeto de vida político passa pela construção de valores morais de caráter político. Na análise indutiva das entrevistas, cujos dados empíricos serão apresentados mais adiante, identificamos que tais tipos de valores comparecem nas representações de si das(os) coordenadoras(es) do MTST associados a (e pela combinação de) diferentes experiências vividas no movimento social. Ao longo das narrativas, as seguintes experiências foram abstraídas como elementos e receberam significados que aludem direta ou indiretamente a transformações em suas representações do mundo e de si mesmas(os): participação em I) coletivos setoriais; II) assembleias (realizadas nas ocupações, comunidades e bairros); III) manifestações políticas; encontros (reuniões periódicas da militância de uma cidade ou estado); IV) “mística” (manifestações artísticas que ritualizam encontros, reuniões e assembleias); V) formações sobre política e outros temas; VI) festas (ex.: aniversário do movimento, festa junina e de final de ano); e VII) ocupações. Estas experiências compareceram com regularidade nas entrevistas, sendo que a menor incidência foi em relação aos encontros (22 entrevistas = 66,67%) e a maior, às assembleias e ocupações (33 entrevistas = 100%).
Estes espaços e experiências são componentes estruturantes da inserção de um militante no MTST. Eles são vividos com frequência e regularidade e se articulam sob a mediação de valores morais e políticos, configurando um sistema coeso de práticas. Constituem, por isso, o que, no presente artigo, conceituamos como a cultura moral e política do MTST.
Segundo Puig (2012), a cultura moral de uma instituição educativa consiste em um sistema de práticas, normas, símbolos e estruturas materiais, alicerçado por valores, que formam os sujeitos que dela participam pela experiência regular e sistemática dessa cultura. No caso do MTST, uma organização que promove a educação popular sob a égide de valores morais e políticos, estamos falando de uma cultura moral e política como potencial agente de educação popular, que pode proporcionar a construção da identidade e do projeto de vida políticos pela participação ativa de seus integrantes no conjunto de práticas, normas, símbolos e estruturas materiais que a constituem. Kuk e Tarlau (2020), assim como outros autores (Martins; Santos, 2012; Silva, A. 2020), tecem considerações semelhantes ao conjecturar a experiência e a luta cotidianas do MST como promotores da educação Sem-Terra e da “internalização” dos valores do movimento.
Nas seções subsequentes, descreveremos os tipos de experiência que compareceram com mais frequência nas entrevistas de coordenadoras(es) do movimento (mais de 70% da amostra) e com maior grau de elaboração. Também será analisado o modo como compareceram nas narrativas dos participantes e os valores morais e políticos que foram integrados. A descrição de cada experiência resulta dos dados coletados nas observações de campo e também de informações extraídas da análise das entrevistas.
A ocupação
A ocupação de terrenos irregulares nas periferias urbanas é a porta de entrada do movimento, é quando começa a jornada de um acampado até se tornar militante. Uma vez estabelecida, a ocupação é organizada por uma cozinha central, que oferece três refeições diariamente para os acampados e pessoas da comunidade, e por grupos de barracos (os “Gs”), cada um coordenado por um acampado. O movimento não cobra taxa ou qualquer outra espécie de contribuição.
Das conversas com acampados e coordenadoras(es) foi possível depreender que, via de regra, um acampado quando entra no terreno o faz por uma necessidade material; não é alguém, a priori, adepto ao movimento, não é necessariamente de esquerda e estar lá pode ser um conflito moral. Mas, ao adentrar uma ocupação, o objetivo inicial de superar a condição de sem-teto pode ganhar outros sentidos. O acampado pode passar a significar a ocupação como parte de uma luta coletiva por justiça social. A constatação da ocupação como tática de luta por direitos, amparada pelo valor da justiça social, é manifestada por Andreia, de São Paulo:
A ocupação é um lugar de aprendizado, de trocas, de experiência [...] O que mais me chamou a atenção foi essa coisa de compartilhar, de ficar junto, ver o povo ficando e perceber qual era o significado disso. Mesmo sem entender a luta, né? No começo a gente não entende direito, mas é bonito sentir que, quanto mais gente, melhor, lutando por justiça [...]. Eu vi o quanto a casa tem outro significado além da moradia, aprendendo cada vez mais coisas.
A vivência em uma ocupação é um ponto de inflexão na trajetória de tornar-se militante do MTST. Além de se organizar coletivamente na luta por moradia, os acampados passam a colaborar com a construção e manutenção de barracos e cozinhas coletivas; compartilham o alimento provido pelas cozinhas; participam conjuntamente de formações políticas e assembleias; são assistidos e participam de atividades promovidas pelos coletivos setoriais. Com isso, a imersão em uma ocupação deflagra uma experiência de sociabilidade coletivista e solidária, que provoca no acampado um conflito em suas representações de si e da sociedade, o que pode atuar como força motriz da aprendizagem de novas representações sobre a sociedade e sobre si mesmo (Freire, 2005).
No relato a seguir, é possível identificar uma mudança de percepção associada à constatação da presença da solidariedade e do bem-comum como significados atribuídos à ocupação. Bete associa à ocupação afetos positivos e significados que denotam sua importância para ela, o que indica a possibilidade de construção destes conteúdos como valores pessoais (Piaget, 2004; Silva; Araújo, 2023).
A ocupação muda a gente [...] De tudo isso o que mais me tocou foi na hora que eu estava lá fazendo o meu barraco, eles passaram e avisaram ‘Gente, se vocês quiserem almoçar, pode levar seu kit sem-teto e ir pra fila do almoço’. Aí eu pensei ‘Como assim, eles vão dar almoço?’ Eles me deram lona e bambu para eu montar o meu barraco, e ainda vão dar comida?’ (Bete).
Assembleias
As assembleias são fóruns coletivos que ocorrem nas ocupações ou nos bairros e comunidades. Reúnem os acampados organizados pelo MTST com a finalidade de apresentar atualizações acerca das negociações em curso com o poder público, pautar a agenda da ocupação e do movimento, articular mobilizações, propor ações a serem decididas coletivamente e analisar a conjuntura, a fim de politizar a luta social.
As assembleias representam um marco das ocupações e possibilitam, junto à experiência no cotidiano da ocupação, organizar politicamente os acampados e gerar um sentido de unidade e pertencimento, porquanto os convidam a participar ativamente de deliberações. As dezenas ou centenas de pessoas reunidas ao redor de um mesmo propósito enseja o reconhecimento de pertencer a uma coletividade formada por iguais e tem o potencial de empoderar pessoas que se consideravam pouco capazes de provocar mudanças substantivas em suas vidas e na sociedade. Vejamos um excerto que dialoga com essa descrição.
A coletividade que tem no MTST é algo que marca a nossa vida para sempre, esse negócio de ter reuniões junto com o pessoal, de dialogar e decidir as coisas juntos e de ter informações de coisas que a gente não sabia, aprender através das reuniões e assembleias. A gente que mora nas comunidades não sabe os direitos que a gente tem, então a gente deixa de correr atrás das coisas por não saber (Janja).
Janja destaca o senso de coletividade como algo marcante e o coordena às assembleias ao estabelecer relações entre os significados de diálogo, deliberação coletiva e aprendizado que ambos os elementos compartilham. Também mobiliza o elemento “direitos” como um aprendizado decorrente dessa experiência.
De fato, a formação política é um traço fundamental das assembleias, conforme pode-se identificar igualmente no relato seguinte:
Fui no domingo assistir a assembleia, era a Natália que estava tocando. O primeiro contato foi revelador, senti uma seriedade tão grande naquelas palavras, uma forma de falar de política que a gente entendia. Aí eu quis voltar (Claudinha).
Assim como Janja e Claudinha, diversos militantes ressaltam as assembleias como uma experiência que, ao lado de outras, os vinculou ao movimento, produziu pertencimento a um fórum coletivo e participativo e aprendizados sobre política, o que corrobora as observações feitas por Lucena (2019). Ao produzir sentimentos positivos e engendrar adesão, a experiência da assembleia sugere ser um dos componentes que pode contribuir para que os valores do movimento se integrem às identidades dos acampados e militantes e tornem-se parte de seus projetos de vida.
Manifestações
As manifestações políticas são outro componente-chave do MTST, pois ocorrem regularmente como tática de mobilização popular para o alcance dos objetivos políticos do movimento. Vejamos como as manifestações comparecem na seguinte narrativa:
A primeira manifestação para mim foi algo muito impactante, quando eu entendi o meu e o nosso papel na sociedade. A gente é maioria e o nosso potencial é a quantidade. A gente foi lá na porta da prefeitura e conseguiu o que queria. Essa é a forma de conseguir os nossos direitos. No movimento eu passei a entender o poder que a gente tem e não sabe. O MTST nos dá esse poder, de que a gente, sim, pode transformar as coisas e ver que a mulher pode ocupar o espaço que ela quiser, de protagonismo, voz, pode coordenar, pode tudo (Débora).
Débora atribui à manifestação o significado de algo impactante, na medida em que promoveu, juntamente com o MTST, uma mudança na consciência social sobre o poder da organização política da classe trabalhadora, das mulheres e de si mesma. Na representação de si de Débora, os elementos “manifestação” e “MTST” estabelecem uma forte coordenação entre si, compartilhando os mesmos significados.
A narrativa de Lilian segue linha semelhante no que concerne ao empoderamento coletivo gerado pela manifestação:
[...] desde quando [o ex-presidente] Bolsonaro estava para se eleger, nós, mulheres, tivemos a sensação de que a gente ia sofrer bastante [...] Ao chegar lá [na manifestação] e ver aquela multidão de mulheres senti o quanto a união nos fortalece [...] eu me arrepiei toda, as mulheres todas unidas, os movimentos sociais unidos (Lilian).
As representações de ambas as coordenadoras revelam o potencial da participação em uma manifestação para o reconhecimento de si e da ação política coletiva como agentes de transformação social, bem como seu caráter politizador, o que torna esta ação coletiva uma experiência de educação popular e instrumento para a construção de uma identidade política (Van Zomeren et al., 2008) e de um projeto de vida político (Han; Ballard; Choi, 2019).
Formações
As oficinas e cursos de formação são modalidades de educação das quais um acampado participa nos primeiros dias de uma ocupação e que o acompanharão durante seu percurso como militante. As formações ocorrem com regularidade e podem ser promovidas por diferentes setores do MTST. É o setor de formação política, contudo, que está designado à tarefa de organizar formações direcionadas à formação política da base do movimento.
A fala de Luciana é prototípica do reconhecimento que diversas coordenadoras evocam sobre a importância das formações em suas narrativas de vida.
Nas formações a gente aprende a se conhecer e se valorizar, saber da nossa força. Saber que a gente é pobre porque não teve oportunidade, conhecer nossos direitos e aprender a lutar por eles, que é na ação coletiva e solidária que a gente muda a vida. Aprende a ler melhor, a escrever melhor, a entender de política. Eu era uma analfabeta política antes de entrar no movimento (Luciana).
É possível depreender deste excerto diversos significados atribuídos ao elemento “formações”: instrumento para aprender sobre a própria condição de classe, os direitos e as causas da desigualdade; para a valorização de si e o empoderamento voltado à promoção de mudanças em sua vida. Além disso, Luciana abstrai sua condição de analfabetismo político como algo que se transformou após sua entrada no MTST. Os valores presentes na resposta de Luciana foram justiça social, solidariedade e militância.
O empoderamento que Luciana descreve é um dos significados mais frequentemente atribuídos às formações pelas(os) coordenadoras(es), conforme pode-se identificar também no excerto a seguir.
A formação que eu tive dentro do MTST livrou a gente de muita atrocidade. Hoje a gente tem conhecimento e argumenta [...] somos respeitados pela polícia, pelo poder público (Márcia).
Os conteúdos mobilizados nesses excertos comparecem em diversas entrevistas, do que se pode inferir o papel das oficinas e dos cursos na construção de uma identidade e de um projeto de vida políticos: no reconhecimento e na valorização de si como sujeito político pertencente a uma determinada classe social; na consciência das contradições sociais; e na capacidade de mobilização e transformação por meio da ação coletiva.
Embora as formações não sejam o único componente destacado pelas(os) coordenadoras(es) como agente de transformação pessoal, portanto, de educação popular, exercem importante influência sobre essas mudanças ao provocar a construção de diferentes ou novas representações sobre o mundo e sobre si mesmas(os).
As “místicas”
“Mística” é um termo criado pelo MST para referir-se a manifestações artísticas (poesia, canto, dança etc.) que ritualizam encontros da militância do movimento, comumente no início e no fim e com conteúdo político. O MTST incorporou o dispositivo simbólico como parte de sua cultura moral e política.
Geralmente conduzidas pelo setor de arte e cultura, as “místicas” convidam toda militância à participação. A coordenação entre as vozes e corpos dos militantes produzem uma espécie de contágio coletivo e um sentimento de unidade. Além disso, seu conteúdo político, associado à identidade e à luta do MTST, propõe scripts, sintetiza princípios e provê modelos de ação que podem ser assimilados como parâmetros de representação do mundo e de si como militante. O excerto a seguir exemplifica como uma militante representa os cantos que compõem as “místicas” do movimento.
As músicas são algo marcante e cantar junto faz a gente se sentir parte de um coletivo, nos dá força. A primeira vez que lembro foi quando eles chamaram a gente para uma assembleia e começaram a falar e cantar aquelas músicas ‘fazendo velha...’ e eu pensava ‘não tô entendendo nada, essas músicas de escravo’. Mas depois a gente entende e entender a exploração nos deixa indignados e dá força para lutar (Gilvânia)9.
Nota-se que, para Gilvânia, as músicas figuram, a um só tempo, como um elemento gerador de senso de pertencimento coletivo e ferramenta de formação política, catalizando a motivação para o engajamento. Os valores evocados são a justiça social e a militância. Assim como as músicas, as demais “místicas” se configuram como manifestações fundamentalmente estéticas da cultura do MTST, com forte incidência sobre o domínio afetivo da relação de acampados e militantes com o movimento social, podendo gerar identificação e, consequentemente, atuando como veículo de construção da identidade e do projeto de vida políticos.
Discussão
Os dados coletados por meio da pesquisa participante e da análise secundária das entrevistas nos permitem deduzir que a cultura moral e política do MTST se sustenta, fundamentalmente, nos valores de justiça social, solidariedade, bem-comum e militância política. Tais valores organizam os componentes elencados anteriormente que, junto aos símbolos, que compõem a identidade visual do movimento e de ocupações, formam sua cultura moral e política (Figura 1).
A mobilização dos valores do MTST e dos componentes de sua cultura moral e política nas narrativas de vida de coordenadoras(es) do movimento, revela a incidência de tais componentes sobre o processo de tornar-se militante. Junto à participação regular nos coletivos setoriais, encontros e festividades, os componentes descritos acima estruturam um tipo de educação popular que possibilita uma formação política crítica, o vínculo afetivo e a identificação com os valores morais e políticos que dirigem o MTST, assim como o senso de pertencimento de classe social e ao movimento. Cria-se, destarte, as condições para a construção de uma identidade política na qual a realização dos valores e dos objetivos do movimento torna-se parte do projeto de vida pessoal, um projeto de vida político.
Estudos em psicologia moral e política sugerem que o engajamento social em ações coletivas influencia a formação de uma identidade moral (Hardy et al., 2011; Silva; Araújo, 2021), politizada e militante (Van Zomeren et al., 2008; Zawadzka et al., 2024), e de um projeto de vida político (Han; Ballard; Choi, 2019; Malin; Ballard; Damon, 2015). O engajamento social é o ponto de partida e de chegada da formação militante no MTST, o eixo que configura sua cultura moral e política, o que faz desta um instrumento de educação popular.
De acordo com Pliskin e colaboradores (2025), há quatro variáveis subjetivas que podem motivar a ação coletiva e que receberam maior atenção acadêmica: a injustiça percebida quando uma pessoa se reconhece como parte de um grupo social desfavorecido, o sentimento de que sua ação será eficaz, a convicção moral de que a ação é legítima e o senso de identidade social. Os autores defendem que uma variável pode contribuir com a construção das outras e ressaltam que a identidade social catalisa as demais, sendo, entre elas, o maior preditor da ação coletiva.
Conforme exemplificado pelas narrativas, a cultura moral e política do MTST parece exercer influência sobre as quatro variáveis, mas, para além disso, possibilita a construção de uma identidade politizada, constructo psicológico que, consoante Strümer e Simon (2004), explica não apenas a realização de ações coletivas pontuais, mas o engajamento político regular em movimento social, do que podemos depreender a manifestação de um projeto de vida político.
As observações sistemáticas e análises das entrevistas nos possibilitam sistematizar a educação popular promovida pelo MTST em algumas premissas assentadas sobre princípios construtivistas, que tecem estreito diálogo com as formulações teóricas de Piaget (1967), que Freire (2005) adota em seu construtivismo crítico:
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a) Os problemas sociais que afetam os acampados são o ponto de partida e de chegada da experiência formativa;
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b) A aprendizagem decorre da incapacidade dos saberes e valores dos acampados responderem satisfatoriamente aos problemas e fenômenos sociais tal como são apresentados a eles pelo movimento, o que coloca tais saberes e valores em conflito/contradição, gerando a necessidade de construir novos conhecimentos e valores.
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c) Possibilitar a problematização e o desvelamento crítico destes saberes, das causas e consequências das desigualdades sociais e dos problemas vividos pelos acampados que delas decorrem;
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d) Confrontar a ideologia individualista, seu modo de vida e modelo de produção, com alternativas pautadas pela justiça social, a solidariedade e o bem comum, tal como se materializa nas ocupações.
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e) Possibilitar o pertencimento coletivo e o vínculo afetivo com os valores defendidos pelo movimento.
Considerações finais
A transformação de um trabalhador sem-teto em um militante do MTST é um processo sobre o qual incide um tipo particular de educação popular promovida pelo movimento, que sintetizamos no conceito de cultura moral e política. Ao implicar o acampado em um sistema de práticas, normas, símbolos e estruturas materiais sob a égide de valores como justiça social, solidariedade, bem-comum e militância política, o MTST pode favorecer a construção de uma identidade política organizada por estes valores e pelo senso de pertencimento ao movimento social. Da identidade política do militante do MTST pode emergir um projeto de vida que coordena os objetivos pessoais ao projeto político do movimento, um projeto para a transformação social que tem como horizonte a emancipação da classe trabalhadora.
Ao explorar este fenômeno, o presente estudo contribui com a ampliação do campo de pesquisas sobre as relações entre identidade, projeto de vida, educação popular e movimentos sociais. Contudo, por tratar-se de uma pesquisa qualitativa e exploratória, a generalização de seus achados demanda novas investigações que examinem, em diferentes contextos, como processos educativos empreendidos por movimentos sociais contribuem para a construção de identidades e projetos de vida orientados à transformação social.
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Disponibilidade de dados:
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo. Os dados relativos à análise secundária das entrevistas podem ser acessados, em sua versão original, em: SILVA, Helio Alexandre. Sonhos e resistências: MTST e os testemunhos da luta popular urbana. São Paulo: Autonomia Literária, 2023.
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3
São exemplos de representações de si: o modo como o sujeito representa a definição de sua personalidade, suas memórias de vida mais significativas, seus objetivos de vida, o que considera que são suas responsabilidades e seu posicionamento no âmbito dos relacionamentos.
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4
O MST é o maior movimento social da América Latina, que organiza trabalhadores(as) rurais sem-terra na luta pela posse da terra para a produção agrícola familiar, associativa e comunitária, conjugada à luta por reforma agrária e justiça social (Stedile; Fernandes, 2005). O MTST nasce a partir da atuação do MST na região de Campinas, interior do estado de São Paulo, fruto da constatação de militantes deste movimento da necessidade de se construir um movimento social urbano de luta por moradia. Apesar de ter se tornado um movimento independente do MST, o MTST guarda muitas semelhanças em sua estrutura, organização e tática política.
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5
Informações disponíveis em https://mtst.org/mtst/quem-sao-os-sem-teto/. Acesso em 02 out. 2025.
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6
A coleta de dados adotou rigorosamente os parâmetros da Resolução 510/2016, do Conselho Nacional de Saúde, e foi autorizada pelo movimento social e seus militantes via assinatura de Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
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7
A amostra é representativa do perfil do movimento no recorte de gênero, com mais mulheres ocupando cargos de coordenação.
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8
Considerando que os dados oriundos das entrevistas provêm de obra já publicada (Silva, H, 2023), cujas autorizações foram concedidas por Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, os nomes dos sujeitos da pesquisa foram mantidos.
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A música a que Gilvânia faz menção é uma adaptação da canção “Pedro e Tereza”, de autoria de Teresa Cristina. A militante se refere ao seguinte trecho: “Fazenda velha cumieira arriou, levanta povo cativeiro acabou. Se o povo soubesse o talento que ele tem, não aturava desaforo de ninguém”.
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo. Os dados relativos à análise secundária das entrevistas podem ser acessados, em sua versão original, em: SILVA, Helio Alexandre. Sonhos e resistências: MTST e os testemunhos da luta popular urbana. São Paulo: Autonomia Literária, 2023.


Fonte: Elaboração própria.