Resumo
A produção científica da pós-graduação aliada ao uso de repositórios institucionais tem favorecido a gestão do conhecimento das universidades no contexto da ciência aberta. Acesso, preservação e disseminação do conhecimento são alguns elementos desta conjuntura que abre debates para discussões no meio acadêmico. Este artigo como fruto de uma pesquisa de mestrado tem como objetivo refletir as contribuições dos repositórios institucionais no processo de gestão do conhecimento no ensino superior. O referencial teórico se ampara em artigos que endossam o tema e a metodologia apresenta um descritivo de natureza qualitativa obedecendo as fases metodológicas. A apresentação dos resultados, oriundo dos dados coletados a partir dos roteiros das entrevistas, se denota em categorias de análises permitindo uma breve discussão. Os participantes foram escolhidos de forma aleatória dentro do perfil de identificação dos segmentos da pós-graduação da universidade pesquisada.
Palavras-chave:
produção científica; acesso aberto; repositório institucional; preservação e disseminação do conhecimento
Abstract
Graduate scientific production combined with the use of institutional repositories has favored knowledge management at universities within the context of open science. Access, preservation, and dissemination of knowledge are some elements of this context that spark debates within academia. This article, the result of a master's research project, aims to reflect on the contributions of institutional repositories to the knowledge management process in higher education. The theoretical framework is supported by articles that endorse the topic, and the methodology presents a qualitative description following the methodological phases. The results, derived from the data collected through interview scripts, are presented in analytical categories, allowing for conclusions with a brief discussion. The participants were chosen randomly based on the identification profile of the postgraduate segments of the university studied.
Keywords:
scientific production and communication; open access; institutional repository; preservation; dissemination of knowledge
1 Introdução
Vários estudos (Albagli, 1996; Gomes, 2014; Manso, 2012; Meadows, 1999; Souza, 2013; Rodrigues et al., 2019) têm demonstrado a necessidade das instituições universitárias melhorarem a comunicação e a produção científica. Para Droescher e Silva (2014), a comunicação científica é um instrumento de progresso da ciência, pois visa a consensualidade entre seus pares. Todavia, quando uma produção científica não é divulgada ou tenha limites em sua divulgação pode gerar o que pesquisadores chamam de desconhecimento dos pares científicos. Desta forma, a produção científica deixa de atingir o alcance global desejado e a ciência não se concretiza de fato.
Segundo Martins Filho (1997), o primeiro compromisso da pesquisa universitária é com a geração de conhecimento novo e com a transmissão desse conhecimento. Do mesmo modo, Sleutjes (1999) salienta que as universidades são detentoras do saber e guardiã do conhecimento e que de algum modo contribuem para a formação das elites dirigentes. Neste sentido, as universidades devem considerar a comunicação e a divulgação científica para o bem da sociedade. Sendo assim, este artigo é fruto de uma pesquisa de mestrado que teve objetivo de compreender as contribuições dos repositórios institucionais na gestão do conhecimento da produção científica oriundo dos programas de pós-graduação (stricto sensu) de uma Universidade Pública Estadual situada no Nordeste do país. O referencial teórico se ampara na relevância da produção científica no contexto da ciência aberta tendo o repositório institucional como um recurso colaborador no processo de gestão do conhecimento. Acesso, preservação e disseminação são os principais contributos deste processo.
2 Referencial teórico
Nesta seção, iniciamos a discussão com produção científica, em seguida relatamos alguns conceitos sobre repositórios institucionais e, na sequência, destacamos o uso deste como recurso colaborador na gestão do conhecimento.
2.1 Produção científica na Ciência Aberta
A produção científica de uma universidade pode ser compreendida como o resultado do processo de criação do conhecimento através da pesquisa registrada em um suporte tecnológico (Ferreira; Silva, 2012). Deste modo, aliada a produção científica está a comunicação científica o que torna possível a troca de informações e ideias entre pesquisadores. A comunicação favorece a retroalimentação do processo científico e através desta interconexão é que o conhecimento produzido nas instituições chega para a sociedade. No entanto, se para algumas instituições universitárias vencer os desafios da implementação de uma tecnologia a favor da divulgação da produção científica é algo complexo, para outras, o processo é inovador e ocorre de forma natural e gradativo com uma evolução ascendente no contexto da ciência aberta. Apesar disto, as primeiras políticas de acesso aberto nem sempre foram fáceis de serem implementadas.
No Brasil, o marco acontece no ano de 2004 quando o Instituto Brasileiro de Inovação Ciência e Tecnologia (IBICT) se configura como órgão difusor do governo federal para promoção e difusão da ciência aberta no país. Em 2005, começa um período de manifestos com apoio ao acesso livre e a informação científica ganha novos propósitos com várias discussões nas universidades. O destaque, neste caso, é para a Declaração de Salvador, para a Carta de São Paulo e na sequência para Carta de Florianópolis que se despontam como grandes veias engajadoras do movimento de acesso aberto, ou movimento open science no país.
Contudo, ainda que no Brasil exista discussão sobre o movimento de acesso aberto ou de ciência aberta e o que esses dois elos representam para a produção científica no país, a discussão é ampla e muito variada no contexto do ensino superior. Estudiosos (Borges et al., 2019; Demetres; Delgado; Wright, 2020; Farias; Rezende; Lima, 2023; Marques, 2020; Medeiros; Ferreira, 2015; Gomes, 2014; Monteiro et al., 2020; Nascimento; Queiroz; Araújo, 2019; Santos; Rosa, 2020; Silveira et al., 2020; Weitzel, 2019) têm disponibilizado energias sobre este tema e surgem novas discussões sobre questões webométricas e altimetrias dos impactos da difusão de pesquisas e do comportamento dos usuários nos repositórios institucionais, como os estudos da pesquisadora Campbell-Mayer (2011). As discussões não se esgotam.
Para Kuramoto (2014), o que existe no Brasil é algo impreciso uma vez que há uma necessidade urgente de maiores avanços em termos de inovação tecnológica e de uma legislação específica para que o acesso aberto da produção científica aconteça de fato. Ainda, para este pesquisador, “[...] o acesso livre é implementado em todo o mundo e no Brasil existe uma indefinição” (Kuramoto, 2014, p. 176). Em todo caso, para disseminar a produção científica no contexto da ciência aberta nas instituições universitárias é necessário que ocorra uma mudança nos paradigmas existentes e se criem novos sistemas de busca e produção do conhecimento (Nascimento; Queiroz; Araújo, 2019; Marques, 2020). Um exemplo é a adoção de boas práticas na gestão do conhecimento o que pode tornar mais eficiente o processo de disseminação da produção científica.
Desta maneira, a implementação de repositórios institucionais nas universidades deve passar por critérios legais e normativos definindo suas diretrizes e finalidades em sua implementação. Nas discussões apresentadas por Santos e Rosa (2020, p. 103), citam a necessidade de “[...] incorporação de uma política institucional que defina normas para a implantação de um repositório nas universidades com definições de acesso e política de preservação dos dados”, e que, via de regra, tenham o atributo da interoperabilidade.
Para outros estudiosos do tema em questão (Viana; Arellano; Shintaku, 2005), a ausência de políticas institucionais é um obstáculo para o acesso aberto que venham requerer o auto arquivamento da produção científica. Logo, estas são algumas questões que definem o cenário da divulgação científica aberta no Brasil como sendo desafiador ainda que os repositórios institucionais surgem como recursos capazes de armazenar, organizar e disponibilizar a produção acadêmica-científica de forma aberta, sustentável e compartilhada obedecendo ao movimento open science (Chan et al., 2002).
2.2 Visão conceitual de repositórios institucionais
Segundo Lynch (2003, p. 327, tradução nossa), os repositórios institucionais são “[...] um conjunto de serviços que uma universidade oferece aos membros de sua comunidade para a gestão e disseminação de materiais digitais criados pela instituição e por membros da sua comunidade”. Para Crow (2002, p. 2, tradução nossa), os repositórios institucionais são “[...] um conjunto de coleções digitais que capturam e preservam a produção intelectual de uma ou mais comunidades universitárias”. Neste sentido, os repositórios vêm se fortalecendo como um componente central na reforma de comunicação científica, pois além de ampliar o acesso à pesquisa aumentam a concorrência e, ao mesmo tempo, reduzem o poder de monopólio de publicação das editoras científicas em periódicos (Crow, 2002; Lynch, 2003). Para estes pesquisadores os repositórios são indicadores tangíveis da qualidade de uma instituição, e, desta forma, aumentam a visibilidade, o status quo e o seu valor simbólico. Esta assertiva está intimamente relacionada com a concepção de Bailey Jr. (2005, p. 12, tradução nossa) ao mencionar que “[...] um repositório institucional inclui uma variedade de materiais produzidos por estudiosos de diversas unidades, tais como e-prints, relatórios técnicos, teses e dissertações, conjuntos de dados e materiais de ensino”.
A partir das definições trazidas por Crow (2002), Lynch (2003) e Bailey Jr. (2005), nota-se a evolução do escopo de repositórios institucionais intrínsecos às atividades universitárias potencializando o processo de gestão do conhecimento.
No entanto, para outros estudiosos (Leite; Costa, 2007; Miranda; Delfino, 2016), os repositórios institucionais mediam a informação entre usuários, pois são recursos que favorecem a gestão do conhecimento científico. Ao mesmo tempo que agilizam os processos de comunicação científica, eles reúnem, preservam, divulgam e garantem o acesso aberto e permanente aos documentos acadêmicos, científicos, artísticos de uma instituição, bem como suas coleções históricas. Sendo assim, os repositórios institucionais potencializam o compartilhamento e a disseminação do conhecimento.
Em Leite (2009), há uma reafirmação do conceito de interoperabilidade nos repositórios como sendo capazes de promover o acesso simultâneo a diversos dados internos e externos de uma instituição maximizando buscas e reduzindo o tempo de resposta. Para este autor, “[...] os repositórios institucionais constituem um serviço de informação científica digital interoperável dedicado ao gerenciamento da produção intelectual de uma instituição” (Leite, 2009, p. 21). Neste ponto Leite (2009) dialoga com Marques (2020) em que os repositórios permitem uma maior visibilidade da produção científica desenvolvida nos ambientes de ensino e pesquisa. Assim, pode-se entender repositório institucional como um recurso oriundo do desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação, pois ainda permitem o armazenamento, a preservação e o acesso aberto da produção científica desde que exista uma política institucional de preservação digital e disseminação da informação científica. O repositório atua, por assim dizer, na gestão da informação e do conhecimento.
Para o IBICT (2021), os repositórios são bases de dados desenvolvidas para tornar mais acessível a produção científica dos pesquisadores. No entanto, vale citar a diferenciação que existe entre repositórios institucionais ou digitais e as bibliotecas digitais ou serviços digitais, pois muitas vezes são confundidos. Os primeiros denotam uma interoperabilidade enquanto os segundos apenas armazenam ou reúne links de acesso de mesmo interesse. Contudo, isto ainda não contempla na totalidade a ideia de um repositório institucional que foi criado para facilitar o acesso à produção científica de uma universidade. Dizemos que andam em linhas paralelas, mas com finalidades distintas.
Portanto, os repositórios institucionais podem ser instrumentos de apoio para conservação dos dados científicos e disseminação do conhecimento. No entanto, se não houver uma normatização definida pela instituição que vislumbra e promova a preservação dos conteúdos científicos, isto pode impactar o futuro das próximas gerações (Nascimento; Queiroz; Araújo, 2019; Farias; Rezende; Lima, 2023). De forma análoga, pode ocorrer perda da memória do que hoje se discute em termos de ciência. A ausência de um repositório pode causar danos irreparáveis para a sociedade.
Deste modo, as possibilidades de uma gestão de conhecimentos eficiente (produção e disseminação da produção científica) se alargam como uma rede que está entrelaçada ponto a ponto permitindo a troca de conhecimentos entre as diversas áreas do saber e entre seus pares na pesquisa científica. Este é o lema do movimento open science (ciência aberta) ou do movimento de acesso aberto que é a base filosófica que está por trás da conjuntura dos repositórios institucionais. A publicização da produção científica é uma contribuição para o processo de gestão do conhecimento.
2.3 Gestão do conhecimento científico
Os estudos de Nonaka e Takeuchi (2008) são referências para compreender os processos gestão do conhecimento, uma vez que gestão é o ato de organizar e dar a melhor condução para um fim desejado. Neste caso, gestão é compreendida no sentido de divulgação, disseminação ou difusão do conhecimento. Em Nonaka e Takeuchi (2004, p. 203), “[...] a criação do conhecimento pode ser entendida como um processo que amplifica organizacionalmente o conhecimento criado por indivíduos e cristaliza-o como parte da rede de conhecimentos de uma organização”. Por esta via, reforçamos a adoção de boas práticas na gestão do conhecimento que podem proporcionar a aquisição e disseminação do conhecimento de forma cíclica.
No entanto, vários pesquisadores salientam que o conhecimento que é produzido pelas universidades públicas necessita ser melhor organizado, preservado e divulgado (Albagli, 1996; Batista; Costa, 2014; Bazilio; Gracioso, 2020). Para Davenport e Prusak (1998), há que se fazer a diferenciação entre conhecimento e informação. Estes termos, apesar de diferentes, trazem semelhanças que muitas vezes confundem os pesquisadores. Informação é um conjunto de dados que reúnem algum atributo ou tenha alguma relevância. Do mesmo modo, conhecimento são informações agregadas de contextos e de significados relevantes.
Para Nonaka e Takeuchi (2008, p. 7), gestão do conhecimento pode ser definida como sendo “[...] o processo de criar continuamente novos conhecimentos, disseminando-os amplamente através da organização e incorporando-os velozmente em novos produtos ou serviços”. Por outro lado, Monteiro et al. (2020) explanam que torna necessário entender como os dados serão representados ou organizados nos repositórios para que se tornem disponíveis e gerem conhecimento. Para esse pesquisador, as informações são os metadados (dados sobre dados) que devem estar coerentes e a obedecerem a padrões de organização (Monteiro et al., 2020). Uma vez que os dados e as informações estejam adequadamente representados, os metadados podem gerar benefícios que incluem o acesso, a preservação e a disseminação dos conteúdos.
É oportuno lembrar que há muitos pesquisadores no Brasil e que suas pesquisas se expandem a outros continentes ocorrendo trocas de conhecimentos com outras instituições. Diante disto, Harnad et al. (2004, p. 139, tradução nossa) salientam que “[...] o acesso livre aos resultados de pesquisas tem sido visto como fator que maximiza o acesso à pesquisa propriamente dita”, tendo os repositórios institucionais como recursos determinantes, pois possibilitam o acesso e a disseminação quase que de forma instantânea da produção científica. Identificamos nesta questão uma definição de interoperabilidade.
Para Lawrence (2001, p. 521, tradução nossa), “[...] maximizar o impacto, minimizar a redundância e acelerar o progresso científico, os autores e editores deveriam tornar a pesquisa fácil de ser acessada”; e, deste modo, os repositórios se tornam um dos meios mais eficazes de facilitar o acesso à pesquisa e torná-la disponível em formato de acesso aberto para a sociedade. Para este pesquisador, é provável que o impacto dos repositórios institucionais mude a forma como vem sendo gerido a produção intelectual de uma universidade, “[...] além de como a própria pesquisa é conduzida” (Lawrence, 2001, p. 521, tradução nossa). É uma questão de promover a usabilidade aliada à eficiência dos repositórios. Logo, a filosofia de acesso aberto (open access), ou, neste caso, a ciência aberta, pode ser compreendida como a melhor alternativa de gestão do conhecimento (Crow, 2002).
Desta maneira, repositório institucional e gestão do conhecimento estão intimamente conectados, o que também é confirmado por Lynch (2003, p. 332) quando “[...] influenciam de maneira séria e sistemática as mudanças aceleradas que vêm ocorrendo na produção do saber e na comunicação científica”. A este respeito, Leite (2009), Marcondes e Sayão (2009) e Santos e Rosa (2020) dialogam e apontam que o repositório é como uma ferramenta de gestão do conhecimento que provê indicadores de qualidade em uma instituição, pois demonstram a relevância científica, social e econômica de suas atividades de pesquisa. Pelas inferências de Marcondes e Sayão (2009, p. 10), “[...] as instituições de pesquisa ou grupos de pesquisa devem depositar sistematicamente as produções acadêmicas e disponibilizá-las para a sociedade”.
Neste sentido, Santos e Rosa (2020) salienta que é direito do próprio autor enviar o texto para publicação. Para estes, “[...] trata-se de um conceito inovador cujos objetivos são tornar o texto disponível o mais rápido possível e favorecer o acesso democrático e gratuito das publicações eletrônicas” (Santos; Rosa, 2020, p. 103-104), enfraquecendo o monopólio das grandes editoras científicas que até recentemente detinham os direitos de publicação. Para a pesquisadora Campbell-Meier (2011, p. 151, tradução nossa), “[...] os repositórios institucionais incrementam a visibilidade e prestígio de uma instituição como um paradigma de publicação para a comunicação acadêmica”.
No entanto, diversos autores (Leite, 2009; Marcondes; Sayão, 2009; Miranda; Delfino, 2016) conceituam repositórios institucionais como sendo um recurso para gerir a informação. Cabe ressaltar que o conhecimento adquirido é fruto de pesquisas e a troca de conhecimentos favorece a disseminação da comunidade científica. A este ponto Nonaka e Takeuchi (2008, p. 52) confirmam que “[...] o conhecimento é gerado sobretudo a partir da troca de experiências e diálogos que se faz a partir de estudos e pesquisas”. Neste artigo não será abordado conceitos tácitos e explícitos e espiral do conhecimento.
De todo modo, a gestão do conhecimento pode ser compreendida como sendo um processo sistemático articulado e intencional apoiado na identificação, geração e compartilhamento do conhecimento organizacional com o objetivo de maximizar a eficiência e a interação na organização. Instituições que adotam este recurso como ferramenta de acesso ao conhecimento obtêm vantagem competitiva desde que estejam pautadas no acesso aberto, na sistematização de preservação de dados e na socialização ou disseminação do conhecimento científico. Quanto mais se acessa um repositório de uma instituição, melhor ela se apresenta no cenário cientifico (Harnad, 2003), o que possibilita favorecer a webometria e altimetria de pesquisadores da instituição. Logo, repositórios podem gerar impactos no processo de gestão do conhecimento.
Contudo, para o desenvolvimento adequado de um repositório institucional são necessárias algumas questões que vão além de conceitos, definições e impactos ou benefícios do que venha a ser um repositório institucional. Um processo de implantação eficiente deve estar aliado a recursos estruturais e funcionais, bem como a definição de normas e processos de sistematização provocam mudança de mentalidade institucional. Consequentemente, podem gerar mudança no processo de gestão do conhecimento. Assim, acesso, preservação e disseminação do conhecimento estão ligadas intrinsicamente a uma avaliação das condições de infraestrutura física, funcional e tecnológica o que leva a grandes desafios.
3 Procedimentos metodológicos
Nesta seção, apresentamos os procedimentos metodológicos que foram utilizados na pesquisa de mestrado que teve o objetivo de compreender como um repositório institucional pode contribuir no processo de gestão do conhecimento científico na pós-graduação (stricto sensu) em uma universidade estadual situada no Nordeste do país. Logo, a pesquisa é aplicada com uma abordagem qualitativa de natureza exploratória. A coleta de dados ocorreu por meio de aplicação de entrevistas semiestruturadas com uso de roteiros de perguntas aplicados individualmente. Os dados foram organizados por grupo de participantes e em categorias prévias de análise. O lócus da pesquisa foi o ambiente da pós-graduação de uma Universidade Pública Estadual, localizada no Nordeste do país. Foram considerados quinze participantes (entrevistados) escolhidos de forma aleatória sendo alocados por perfil de identificação dentro dos segmentos da pós-graduação, o que compreendeu coordenadores, professores, discentes, secretários e o administrativo da pós-graduação. As entrevistas totalizaram dez horas e quinze minutos de gravação. Inicialmente, foi aplicado um teste piloto e, na sequência, aplicado de forma definitiva, conforme orientações encontradas em Cooper e Schindler (2016), Malhotra (2006), Minayo (1994). Os achados procederam pela análise de conteúdo na perspectiva de Bardin (2001). Os relatos das entrevistas foram organizados em categorias distribuídos em grupos de segmentos dos participantes.
O Quadro 1, a seguir, demonstra como foi realizado o roteiro de perguntas.
A Tabela 1, a seguir, descreve o tempo das gravações dos participantes organizados por grupo de segmentos, conforme a ordem de entrevistados.
4 Apresentação dos resultados
Ao analisar as entrevistas e suas respectivas transcrições, as respostas dos roteiros foram agrupadas em blocos como produção científica, condições institucionais, gestão do conhecimento e repositório institucional. Esta estratégia de agrupamento se alinha com os objetivos da pesquisa e, de forma análoga, com os dados categorizados.
4.1 Produção científica
Para os entrevistados, de modo geral, o processo de formação científica começa na graduação e se estende principalmente pela pós-graduação (mestrado e doutorado). A vida acadêmica possibilita a interação entre docentes e discentes o que leva ao entendimento do método como sendo necessário para o desenvolvimento de uma pesquisa científica. Assim, entendemos que este item está a contento com o referencial teórico.
4.2 Condições institucionais
Para os entrevistados, quando versam sobre as condições institucionais (estruturais e funcionais) nas universidades, geralmente o que existe é uma deficiência das condições de estrutura. Questões como recursos tecnológicos (infraestrutura) e questões normativas precisam estar alinhadas como condições necessárias para funcionamento de um repositório institucional. Na universidade em pesquisa, o acaso não é diferente. Há uma necessidade de uma gestão que possa dar maior visibilidade não só a produção acadêmica interna para a universidade como a visibilidade da produção no âmbito externo, além da própria imagem do repositório. É necessário que haja uma estrutura física e funcional adequada para divulgar tanto os produtos científicos quanto os produtos artísticos e culturais da universidade. Além disso, um repositório institucional deve ser encontrado toda a produção acadêmica oriunda de trabalhos de conclusão de curso, como monografias, teses e dissertações, produtos bibliográficos, artigos, livros e coletâneas e disponibilizá-la para toda a sociedade, conforme descrito nos relatos das entrevistas.
4.3 Gestão da produção científica
Sobre gestão da produção científica, os relatos dos entrevistados convergem para a questão da disseminação da produção científica. Ainda não está a contento dos entrevistados, conforme se percebe no recorte de fala de um entrevistado: “esse processo da produção já está bem elaborado dentro da instituição, o da disseminação não é como a gente falou”. Em outro recorte de fala um entrevistado cita: “uma coisa que eu percebo também é que a produção que a gente faz na universidade é muito desarticulada”, e mais: “uma das coisas que eu verifico, e vou bater sempre essa tecla, é a necessidade de uma boa comunicação com a sociedade”. Portanto, denota-se a falta de uma articulação para promoção da disseminação científica na universidade, conforme relatos. Em outro recorte, um entrevistado cita: “acho que falta um pouco dessa dimensão da acessibilidade, no sentido bem amplo mesmo do termo, da acessibilidade da informação, que muitas vezes está aí, por exemplo, a gestão do conhecimento. Este relato nos faz perceber as carências em termos de estrutura tecnológica e funcional nas instituições públicas de nível superior. Se não tem uma estrutura tecnológica adequada, não há como pensar na disseminação e preservação científica.
4.4 Contribuições de um repositório institucional
Sobre as contribuições do repositório institucional, os entrevistados informam que o repositório deve ser um espaço que possa ampliar a gestão do conhecimento que é produzido na instituição. Desta forma, a instituição torna acessível e conhecido pelas demais pessoas. Daí, entende-se a necessidade de gestão do conhecimento nas instituições. Conforme relatos apurados nas entrevistas, na universidade em pesquisa ainda existe uma carência de gestão do conhecimento. Pelo menos não existe uma agenda institucional formalizada que foque na preservação e divulgação dos dados científicos, considerando estes dois elementos como os maiores contributos de um repositório institucional.
O Quadro 2, a seguir, traz de forma resumida alguns recortes de falas dos entrevistados que simbolizam a apresentação dos resultados.
5 Análise e discussão
A partir dos dados coletados na pesquisa compreendemos que um repositório institucional pode trazer contribuições no processo de gestão do conhecimento para as universidades, desde que esteja amparado por alguns critérios de implementação ou que tenha uma mudança da cultura organizacional favorável a disseminação ou divulgação científica na universidade. Muito mais do que a produção de teses, dissertações e artigos, que chamamos de produção científica, é poder dar visibilidade a produção acadêmica para toda sociedade. Ressaltamos a importância deste objeto de estudo com a devida atenção que a complexidade merece.
Deste modo, entendemos que o repositório institucional no processo de gestão do conhecimento do ensino superior é mais do que a instalação de um recurso tecnológico no âmbito da universidade. Carece de um projeto de estudos para enfim proceder a viabilidade de sua instalação. Propor uma mudança do paradigma de como as universidades vem tratando a produção científica é evitar que a disseminação do conhecimento não fique na inércia do esquecimento. Os participantes da pesquisa trouxeram alguns elementos que corroboram com esta ideia, pois são eles que podem orquestrar as regras do repositório em uma instituição. O conhecimento e a vivência dos pesquisadores denotam a visão, o significado e a funcionalidade de um repositório institucional.
A Figura 1, a seguir, apresenta o fluxo das categorias de análises que foram observadas a partir dos resultados das entrevistas que estão alinhadas com o referencial teórico. Assim, propomos o seguinte fluxo de categorias:
Como se observa, as categorias estão intimamente relacionadas. Cada categoria faz parte de um processo em que os efeitos de uma podem influenciar diretamente o decorrer da outra, e estas influenciam a gestão do conhecimento. Desta maneira, a produção científica é diretamente influenciada pela comunicação científica e disseminação científica que tem como consequência o acesso e a interação entre pesquisadores. As condições institucionais estão diretamente ligadas pelas condições estruturais e funcionais, e, como consequência, a definição de normas, diretrizes e políticas de preservação dos dados e metadados.
A Figura 2, a seguir, apresenta a ligação entre das categorias.
Pela figura acima, compreendemos que os repositórios institucionais são recursos tecnológicos essenciais para a gestão do conhecimento científico, pois promovem o acesso aberto, a preservação digital e a disseminação eficiente da produção científica. Desta forma, contribuem para a gestão do conhecimento no contexto da ciência aberta, além de potencializar o reconhecimento da instituição no cenário científico global.
Portanto, a partir do processo de categorização compreendemos que existe um elo de ligação entre as categorias analisadas. Entendemos que num sentido temos a produção científica da pós-graduação utilizando o repositório institucional como recurso de gestão do conhecimento científico nas universidades. No sentido cíclico inverso temos a gestão do conhecimento da pós-graduação através do recurso do repositório institucional potencializando a produção científica. Produção científica e gestão do conhecimento estão intimamente relacionadas, assim como o acesso, a preservação e a disseminação também são os contributos inter-relacionados do repositório institucional.
A Figura 3, a seguir, demonstra de forma mais evidente a relação entre as categorias.
Dito isto, podemos confirmar que o repositório institucional é uma ferramenta colaborativa no processo de gestão do conhecimento nas universidades atuando antes do processo, durante o processo e depois do processo de produção científica.
6 Conclusão
Este artigo não pretende esgotar toda discussão sobre o tema, mas possibilita trazer uma reflexão para as instituições de ensino superior que desejam implementar um repositório como recurso de apoio para a gestão do conhecimento da produção científica na pós-graduação. Deste modo, entendemos que as universidades devem passar primordialmente por um processo de readequação ou melhoramento de suas condições estruturais e funcionais para que o repositório institucional possa atuar com êxito na gestão do conhecimento da pós-graduação de uma universidade.
Muito do que se propõe como divulgação da produção científica não pode ficar restrito apenas a instalação de um repositório institucional, mas a necessidade de mudança da cultura organizacional é primordial para promover a gestão do conhecimento dentro das instituições de ensino superior. O repositório é um recurso tecnológico de apoio a gestão do conhecimento que vem possibilitar o acesso aberto e compartilhado de toda produção científica para a sociedade. De modo geral, se as universidades não se adequarem a um modelo eficiente de gestão (tecnológica) elas irão perder espaço nas relações de poder com a sociedade. Um outro ponto que merece destaque é que na pesquisa não houve uma coleta de dados com um número maior de participantes, o que poderia ocorrer uma análise quantitativa. Entendemos esta questão como sendo uma limitação.
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Declaração de disponibilidade de dados
O conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo pode ser solicitada aos autores (ver autoria para correspondência).
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Como citar
SANTOS, Cássio Marcilio Matos; NOGAMI, Vitor Koki Costa. O repositório institucional na gestão da produção científica. Em Questão, Porto Alegre, v. 32, e-147005, 2026. DOI: https://doi.org/10.1590/1808-5245.32.147005
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Parecer(es) aberto(s):
https://doi.org/10.1590/1808-5245.32.147005Ahttps://doi.org/10.1590/1808-5245.32.147005B
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Fonte: Elaborado pelos autores.
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