Open-access Arquivologia e memória: uma análise da produção acadêmica brasileira (1990-2020)

Archival science and memory: an analysis of brazilian academic production (1990-2020)

Resumo:

Este estudo tem como objetivo principal analisar a produção científica brasileira nos últimos 30 anos sobre arquivologia e memória. Para isso, foram coletados 26 artigos na Base de Dados Referencial de Artigos de Periódicos em Ciência da Informação no período de 1990 a 2020. A pesquisa é de caráter exploratória, documental e descritiva. Utiliza-se do método da Análise de Conteúdo de Bardin para estabelecer critérios para os indicadores e as categorias de análise. Foram definidos cinco indicadores, de acordo com a frequência em que apareceram nos 26 artigos, sendo: a memória nos arquivos públicos; relação entre memória, história e arquivos; patrimônio, memória e identidade; arquivos e seus acervos como fontes de informação; e políticas públicas de memória e arquivos. E para as categorias de análise estabeleceram-se três: memória e arquivos; fontes de informação; e patrimônio documental. A partir dos dados analisados, ficou evidente a relação entre arquivologia e memória, no entanto, apesar dessa estreita no empirismo ou no dia a dia dos arquivos, ainda está sendo produzida de uma forma muito tímida, ou seja, num período de 30 anos, apareceram no total 26 woartigos. O estudo reitera a existência de uma relação intrínseca entre a arquivologia e a memória, especialmente em aspectos como a preservação do patrimônio documental e os arquivos como fontes de informação histórica e cultural. O estudo revela uma conexão significativa entre arquivologia e memória no contexto brasileiro, mas também destaca a necessidade de ampliar os esforços de pesquisa e políticas públicas para melhor entender e valorizar essa relação do ponto de vista acadêmico.

Palavras-chave:
arquivologia; memória; produção acadêmica

Abstract

This study aims to analyze the Brazilian scientific production over the last 30 years on archival science and memory. To achieve this, 26 articles were collected from the Referential Database of Articles from Information Science Journals from 1990 to 2020. The research is exploratory, documentary, and descriptive. Bardin's Content Analysis method establishes criteria for indicators and analysis categories. Five indicators were defined according to their frequency of appearance in the 26 articles, namely: memory in public archives; the relationship between memory, history, and archives; heritage, memory, and identity; archives and their collections as sources of information; and public policies on memory and archives. Three analysis categories were established: memory and archives, sources of information, and documentary heritage. The analyzed data revealed the relationship between archival science and memory. However, despite this close connection in the empiricism or daily practices of archives, the production remains quite modest; in 30 years, only 26 articles were published. The study reiterates an intrinsic relationship between archival science and memory, especially in preserving documentary heritage and archives as historical and cultural information sources. The study reveals a significant connection between archival science and memory in the Brazilian context but also highlights the need to expand research efforts and public policies to better understand and value this relationship from an academic perspective.

Keywords:
archival science; memory; academic production

1 Introdução

Durante a trajetória acadêmica, notou-se uma lacuna na literatura acerca da conexão entre a arquivologia e o conceito de memória. Comumente, arquivos são vistos como depósitos de conjuntos de documentos, associados à ideia de locais de memória. No entanto, essa visão fica incompleta se as ações realizadas pelos arquivos não tiverem impacto na comunidade circundante. Segundo Nora (1993), um arquivo só pode ser considerado um lugar de memória se ele, antes de mais nada, já foi um objeto de memória na comunidade.

O foco central deste estudo reside na intrincada relação entre arquivologia e memória. A arquivologia se concentra, primordialmente, em informações ou documentos de natureza orgânica. Isso sugere que tais documentos são interconectados devido à sua organicidade e visam servir como evidência ou prova de eventos ocorridos. Adicionalmente, ao lidar com a interconexão orgânica desses documentos, a arquivologia também segue o princípio da proveniência, que argumenta contra a mistura de fundos documentais oriundos de diferentes entidades, indivíduos ou famílias.

Já a memória, registrada, conservada e preservada é fundamental para todas as atividades humanas. Um grupo social não poderia existir sem as memórias registradas, ou seja, sem os arquivos (Lodolini, 1990):

Em outras palavras, trata-se da memória de grupos eles mesmos de natureza muito variada no que concerne a geração, profissão ou região, até a nação ou comunidade ideológica e política. Coletiva, essa memória é mais que a soma de memórias individuais de membros do grupo em questão (François, 2010, p. 17).

A memória possuí um caráter social, político e cultural, sendo então vista como ferramenta de construção do indivíduo e da sociedade da qual faz parte, bem como do modo que o pertencimento da informação está em relação ao indivíduo, à sociedade, “[...] a eterna tensão e o eterno dilema da relação entre indivíduo e sociedade.” (Jelin, 2020, p. 420, tradução nossa). Portanto, entende-se que é nas instituições arquivísticas o local onde se buscam essas informações de cunho social, histórico, cultural ou testemunhal. Logo, os arquivos podem ser entendidos como parte fundamental da construção das memórias de uma determinada sociedade ou de um determinado grupo.

Entende-se, neste estudo, que a memória acaba por estabelecer vínculos e laços sociais espontâneos a partir dos registros encontrados em arquivos, bibliotecas, museus, monumentos, fotografias, entre outros. E nesse processo de estabelecimento de vínculo permite a continuidade dos fazeres e conhecimentos de determinados grupos. Fica claro que o vínculo só existe se houver interesse do indivíduo ou do grupo ou da sociedade, somente assim haverá o reconhecimento de pertencimento em comum.

Assim, fica evidente que existe uma demanda por um estudo mais profundo que explore a interface entre a arquivologia - aqui definida como a ciência voltada para o estudo e a gestão de arquivos - e a memória social, que é concebida como um campo dedicado a ajudar na reconstrução de eventos passados, sejam eles factuais ou rememorativos, de um grupo ou indivíduo específico. Para abordar essa lacuna, o projeto de pesquisa “Arquivologia e Memória: uma análise da literatura no Brasil”, executado em agosto de 2020 a julho de 2021, forneceu uma plataforma para práticas de pesquisa focadas na literatura existente em arquivologia e memória. Isso foi feito por meio da análise de conteúdo e também permitiu delinear o estado atual desse campo interdisciplinar.

Partindo do pressuposto a gestão da informação contida em documentos de arquivo é, objeto da arquivologia, e memória, campo que pode ser construído ou reconstruído a partir dos conjuntos documentais custodiados em arquivos, esta pesquisa teve a seguinte problematização: qual a relação entre arquivologia e memória no período de 1990 a 2020 a partir da produção científica encontrada na Base de Dados Referencial de Artigos de Periódicos em Ciência da Informação?

Deste modo, o presente texto é um reflexo dos resultados obtidos no projeto de pesquisa referenciado. Logo, este estudo resulta de um dos objetivos do projeto de pesquisa referenciado que não foi executado devido ao período pandêmico e ao curto tempo de desenvolvimento do projeto.

Este artigo tem como objetivo principal analisar a produção científica no Brasil nas últimas três décadas sobre os temas de arquivologia e memória. Isso foi feito por meio do acesso a artigos da área disponíveis na Base de Dados Referencial de Artigos de Periódicos em Ciência da Informação (BRAPCI). A partir disso, será necessário identificar os tópicos predominantes nos dados coletados, definir critérios para os indicadores utilizados, desenvolver categorias analíticas e aplicar o método de análise de conteúdo ao corpus do estudo.

A metodologia deste estudo será detalhada nas seções subsequentes, com foco no método de análise de conteúdo conforme proposto por Bardin (2016). Além disso, os resultados obtidos através desta análise serão apresentados, seguidos pelas conclusões da pesquisa.

2 Referencial teórico-metodólogico

Esta sessão tem como foco trazer um breve referencial sobre memória e arquivologia, mas aprofunda nas questões metodológicas utilizadas na pesquisa. Antes de abordar sobre memórias, é importante dizer que neste texto, a memória é abordada na sua forma social e não pela forma psíquica. Quando se fala ou se faz uso sobre memórias de um grupo, o primeiro pensamento é o que será lembrado? A memória social tem essa capacidade de tensão e de ser associada à lembrança, à evocação, por isso, não é tratada no singular e sim no plural. “Abordar a memória envolve referir-se a lembranças e esquecimentos, narrativas e atos, silêncios e gestos. Há conhecimento em jogo, mas também há emoções. E também existem lacunas e fraturas.” (Jelin, 2020, p. 419, tradução nossa).

Então, podemos inferir que a memória social é um campo que implica em diversos fatores, afetando o que pode ser lembrado e o que pode ser esquecido, por meio de sentimentos, emoções vividas, sentidos, representações, ações resultadas pelas vivências de determinado grupo. “E também conhecimentos, crenças, padrões de comportamento, sentimentos e emoções que são transmitidos e recebidos na interação social, nos processos de socialização, nas práticas culturais de um grupo.” (Jelin, 2020, p. 420, tradução nossa). Diante disso, as memórias podem ser construídas a partir das percepções que os indivíduos carregam ao longo de suas experiências:

Quem tem memória e lembra são seres humanos, indivíduos, sempre situados em grupos e contextos sociais específicos. É impossível recordar ou recriar o passado sem recorrer a estes contextos. Dito isto, a questão - levantada e debatida reiteradamente em textos sobre o tema - é o peso relativo do contexto social e do indivíduo nos processos de memória. Isto é, para usar a feliz expressão de um texto recente, como o homo psychologicus e o homo sociologicus se combinam (Jelin, 2020, p. 421-422, tradução nossa).

Corroborando com a ideia de Jelin, “[...] não há grupo nem gênero de atividade coletiva que não tenha alguma relação com o lugar - ou seja, com uma parte do espaço [...]” (Halbwachs, 2006, p. 170). Logo, o espaço é um dos elementos que favorece ou não a percepção da memória. Dentre outros elementos está o tempo, que influencia diretamente na fixação e percepção da memória. O tempo tem um papel de agente duplo, ou auxilia nos modos de produção e transmissão da memória ou fortalece para o lado do esquecimento, do que não é mais lembrado:

A memória como construção social narrativa implica o estudo das propriedades de quem narra, da instituição que lhe concede ou nega o poder e o autoriza a pronunciar as palavras, pois, como aponta Bourdieu, a eficácia do discurso performativo é proporcional à autoridade de quem o afirma (Jelin, 2020, p. 436, tradução nossa).

Além disso, a mediação da experiência sugere uma interconexão entre os processos individuais de lembrança e esquecimento e os processos socioculturais mais amplos, que são compartilhados através de mecanismos de transmissão e apropriação simbólica (Jelin, 2020). Mesmo aqueles que vivenciaram um evento precisam encontrar palavras e se situar dentro de um contexto cultural para transformá-lo em uma experiência que possa ser divulgada e transmitida. Isso requer uma reavaliação do conceito de “transmissão” comum, que envolve a construção do conhecimento cultural ligado a uma visão do passado (Jelin, 2020). “Pensar nos mecanismos de transmissão, nas heranças e legados, na aprendizagem e na formação de tradições, torna-se então uma tarefa analítica significativa.” (Jelin, 2020, p. 437, tradução nossa):

As inscrições subjetivas da experiência nunca são reflexos espelhados de eventos públicos, por isso não podemos esperar encontrar uma “integração” ou “ajuste” entre memórias individuais e memórias públicas, ou a presença de uma única memória. Existem contradições, tensões, silêncios, conflitos, lacunas, disjunções, bem como locais de encontro e até de “integração”. A realidade social é complexa, contraditória, cheia de tensões e conflitos. A memória não é exceção (Jelin, 2020, p. 438, tradução nossa).

Nesse sentido, entende-se que a memória é construída através da interação entre sujeitos que compartilham uma cultura e agentes sociais que buscam dar forma a esses significados do passado resultando em produtos culturais, como livros, museus, monumentos, filmes, documentos, símbolos que representam a cultura daqueles sujeitos. Além disso, a memória se manifesta em ações e expressões que não apenas representam o passado, mas o incorporam de forma performativa (Jelin, 2020).

Este estudo reflete a ligação intrínseca entre a memória e a arquivologia, pois o objeto de informação, o documento, é parte fundamental para a construção de narrativas. A memória, seja individual ou coletiva, é o mecanismo pelo qual o passado é lembrado e reinterpretado, influenciando a identidade e as ações presentes. Por outro lado, a arquivologia é a ciência responsável pela gestão e preservação da informação e de documentos, sejam físicos ou digitais, que são testemunhos do passado e fundamentais para a construção da memória.

Os arquivos não deixam de ser como repositórios de memórias, onde documentos são guardados e organizados de forma a preservar sua autenticidade, integridade e acessibilidade. Os arquivos são essenciais para a garantia da transparência, da prestação de contas e da preservação da história. Sem os arquivos, a memória corre o risco de se perder ou ser distorcida, o que pode ter sérias consequências para a compreensão do passado e para a tomada de decisões no presente.

Portanto, a arquivologia aborda a informação orgânica, tendo por objetivo se tornar evidência, ou seja, fator de prova de que algum evento ocorreu. Além disso, tem como objeto de trabalho o conhecimento dos arquivos e dos princípios e técnicas a serem aplicados na sua constituição, organização, desenvolvimento e utilização, consequentemente, se faz necessário o uso de termos da área. Logo, permite o direito ao cidadão de conhecer suas origens e lhe assegurar o conhecimento necessário para a construção de identidades e memória social. Nesse contexto, a arquivologia desempenha um papel crucial na preservação e gestão eficiente da documentação, desdobrando-se como uma ciência essencial na compreensão e salvaguarda do patrimônio histórico e informacional:

A informação - contida, por sua realidade jurídico-institucional, nos arquivos correntes e, posteriormente, como testemunho em fase intermediaria ou como fonte histórica, custodiada nos arquivos permanentes - não se restringe a si mesma. Se a considerarmos de modo mais abrangente, analisando-a como transmissão cultural, lançada para o futuro por meio de diferentes documentos grafados em diferentes suportes, ela pode significar muito mais, quando aliada a outros dados/informações oriundos de campos não-arquivísticos (Bellotto, 2006, p. 271).

A arquivologia, consequentemente, desempenha um papel crucial na garantia da preservação da memória e na promoção da transmissão do conhecimento entre gerações. Ao mesmo tempo, a memória influencia diretamente as práticas arquivísticas, determinando quais documentos são preservados e como são organizados e interpretados. Assim, a relação entre memória e arquivologia é fundamental para a preservação da história e da cultura de uma sociedade, temos aqui, a partir da relação dessas duas ciências, a materialização do papel social dos arquivos. O que faz refletir na atuação do arquivista nesses espaços é a ligação sobre o conceito de memória. Os arquivistas:

[...] são convidados a refletir não apenas sobre como os arquivos mantêm registros do passado, mas também como, em seu discurso e práticas, ajudam a preservar um certo conceito do que significa “o passado”. Pede-se aos arquivistas que considerem a possibilidade de que múltiplas perspectivas sejam permitidas sobre “o que o passado” pode significar no contexto da prática arquivística (Brothman, 2001, p. 50, tradução nossa).

A informação, materializa-se e institucionaliza-se por meio de espaços tais como os arquivos, as bibliotecas e os museus e por aparatos tecnológicos, ou seja, a informação do ponto de vista arquivístico, é a informação institucionalizada por quem a produziu, ocupando do ponto de vista da atualidade espaços cada vez mais centrais na sociedade. Nesse sentido, a arquivologia debruça-se em conhecimentos arquivísticos que integram princípios, conceitos e metodologias a serem observados na produção, organização, guarda, preservação, uso e destinação de documentos em arquivos, arquivos que podem ser acervos ou organizações; e o arquivista.

O campo de atuação da arquivologia reside no cuidado da informação destinada a se tornar evidência, servindo como fator probatório da ocorrência de eventos específicos. Isso se evidencia nos resultados advindos do ciclo de vida dos documentos, por conseguinte, “A organização da memória é posterior ao acontecimento” (Bellotto, 2006, p. 272). Isso quer dizer que o que será encontrado nos arquivos permanentes, objetos de estudo de usuários, pesquisadores e sociedade, é o fruto das avaliações que foram aplicadas ao longo de vida do documento, desde seu nascimento até sua destinação final:

O paradoxo reside na defesa da utilidade comercial dos registos arquivísticos a longo prazo. Esta perspectiva afasta-se da noção convencional de que “necessidades de informação empresarial” e “arquivos” são distintos e mutuamente exclusivos. Em vez disso, a visão aqui apresentada é que as organizações que têm a capacidade de explorar até mesmo experiências passadas há muito tempo têm boas hipóteses de melhorar a forma como lidam com as questões e desafios atuais. Esta visão também endossa a noção proporcional de cultura organizacional (Brothman, 2001, p. 52, tradução nossa).

No entanto, do ponto de vista social e da atuação profissional, a aplicação do “[...] clássico ciclo de vida de três estágios ofereceu às organizações modernas a vantagem da simplicidade conceitual.” (Brothman, 2001, p. 53, tradução nossa), já que é um processo que facilita o gerenciamento organizacional dos documentos arquivísticos. Mas esta discussão sobre o ciclo de vida dos documentos não cabe aqui neste texto. O que importa é que as ações empregadas na produção dos documentos irão refletir diretamente no estágio final dos documentos, no qual são utilizados por diferentes usuários e demandas sociais, como provas e testemunhos de ações do passado. Isso indica continuidade das ações nos arquivos.

Portanto, este texto trata-se de um estudo tanto exploratório quanto descritivo, com foco na revisão documental de artigos científicos extraídos da Base de Dados Referencial de Artigos de Periódicos em Ciência da Informação. Especificamente, a análise cobre um período de três décadas, de 1990 a 2020, o que proporciona um panorama robusto e extenso sobre a evolução da produção acadêmica na intersecção entre arquivologia e memória.

O método de análise de conteúdo foi selecionado como a estratégia principal para a interpretação dos dados, baseando-se nas orientações teóricas de Laurence Bardin. Esta metodologia é especialmente útil para decodificar a informação, permitindo uma representação mais rica e contextualizada do conteúdo original. Em outras palavras, não se trata apenas de identificar o que os documentos dizem, mas também de entender as nuances e subtextos que esses documentos podem carregar.

No que se refere ao corpus específico para este estudo, optou-se por limitar a análise aos títulos e resumos dos artigos que foram obtidos através da BRAPCI. Essa escolha foi feita para se concentrar nos elementos mais diretos e resumidos de cada publicação, os quais geralmente encapsulam os pontos chaves e objetivos de cada trabalho.

Conforme Bardin (2016) destaca, a análise de conteúdo não se limita apenas a uma contagem de palavras ou frases, mas se aprofunda em diversas técnicas que permitem uma descrição meticulosa do material comunicativo. Isso pode incluir, por exemplo, a identificação de padrões, temas recorrentes ou até mesmo lacunas no conteúdo. O método pode ser aplicado tanto a materiais escritos quanto a transcrições de comunicações orais, tornando-se uma ferramenta versátil para diversos tipos de pesquisa.

Em resumo, este estudo não apenas busca identificar e catalogar a produção científica sobre arquivologia e memória no Brasil, mas também se empenha em compreender as nuances dessas obras através de uma análise de conteúdo rigorosamente:

Pertencem, pois, ao domínio da análise de conteúdo todas as iniciativas, que, a partir de um conjunto de técnicas parciais mas complementares, consistam na explicação e sistematização do conteúdo das mensagens e da expressão deste conteúdo, com o contributo de índices passíveis ou não de quantificação, a partir de um conjunto de técnicas, que, embora parciais, são complementares (Bardin, 2016, p. 48).

Logo, a análise de conteúdo tem como objetivo representar a palavra, obtendo assim as significações possíveis por meio de indicadores de análise de conteúdo (a temática e a frequência em que aparece no texto), ou seja, o conteúdo da informação.

A Figura 1 exemplifica os procedimentos realizados no corpus desta pesquisa a partir da teoria de Análise de Conteúdo de Bardin (2016).

Figura 1 -
Procedimentos a serem aplicados no corpus da pesquisa

Portanto, a primeira etapa deste estudo foi identificar e selecionar os artigos utilizando a base de dados BRAPCI. A partir dessa análise e identificação, pode-se delimitar o objeto da pesquisa, ou seja, definir o corpus, que foram os títulos e resumos dos 26 artigos publicados na área de ciência da informação. A identificação e seleção dos artigos na BRAPCI ocorreram nos meses de janeiro a março de 2021.

Consequentemente, para a expressão de busca na base de dados, incialmente, utilizou-se a combinação de dois termos: arquivos + memória, tendo como resultado um número bastante restrito de artigos para um período considerável, especificamente cinco artigos foram encontrados. Para ampliar a busca, incluíram-se os seguintes termos: memória social + arquivologia + história + patrimônio. O resultado foi mais esperançoso, pois resultou em 38 artigos.

A partir dessa ampliação na expressão de busca, foi necessário analisar artigo por artigo para então selecionar apenas aqueles que correspondiam ao objetivo da pesquisa. Por isso, analisou-se os títulos e resumos para verificar se possuíam os dois principais termos utilizados para estudo da pesquisa: arquivos e memória, chegando-se ao número final de 26 artigos. Estabeleceu-se esses dois termos por serem o motivo da realização da pesquisa, caso o artigo abordasse a temática apenas de arquivos e história, automaticamente não era selecionado. Para ser selecionado, o artigo deveria trazer no título ou uma discussão no resumo com os dois termos. Isso permitiu que a pesquisa ficasse mais fiel ao seu objeto de estudo.

Com base na leitura dos artigos, partiu-se para a terceira etapa, que são a elaboração dos pressupostos e dos objetivos. Nesse sentido, o primeiro pressuposto da pesquisa é que os temas arquivos e memória estão diretamente relacionados, sendo o arquivo representado, muitas vezes, como lugar de memória, mas não como um lugar contra o esquecimento. O segundo indica que apesar do arquivo ser reconhecido como um lugar de memória, a arquivologia não possui um percurso conceitual com a memória.

Já os objetivos da pesquisa que se propôs a partir da exploração do material foi analisar a produção científica brasileira de 1990 a 2020 sobre arquivologia e memória por meio de artigos da área via BRAPCI, utilizando os pressupostos teóricos e metodológicos da análise de conteúdo; o segundo objetivo compreende em como identificar, nos dados levantados, os principais temas abordados no âmbito do estado da arte, enquanto fontes de informação; o terceiro objetivo visa estabelecer critérios para os indicadores; e por fim, o último objetivo elaborar categorias de análise e aplicar o método de análise de conteúdo no corpus da pesquisa.

Quanto aos indicadores para interpretação do corpus da pesquisa foi elaborado um índice que se encontra no gráfico a seguir (Gráfico 1).

Os indicadores para interpretação correspondem à temática relativa em que aparece nos títulos e resumos do corpus da pesquisa. Para fazer os indicadores foi necessário sistematizar as categorias. Exemplificando: para os indicadores delimitou-se à frequência que determinado assunto aparece nos artigos, já para as categorias, delimitou-se à palavra “[...] no sentido de emparelhamento dos sinônimos e dos sentidos próximos” (Bardin, 2016, p. 147).

Destaca-se que os indicadores desta pesquisa estão relacionados aos assuntos encontrados a partir da análise dos títulos e resumos dos artigos selecionados para a pesquisa, tendo como condição a frequência em que aparecem no título e/ou no resumo. Foram elaborados cinco indicadores: (1) a memória nos arquivos públicos; (2) relação entre memória, história e identidade; (3) patrimônio, memória e identidade; (4) arquivos e seus acervos como fontes de informação; (5) políticas de memória e arquivos. Ainda, em virtude de ser um longo tempo de produção científica, dividiu-se o período em três fases: 1990-2000 (primeiro período, na cor laranja), 2001-2010 (segundo período, na cor amarelo), 2011-2020 (terceiro período, na cor verde).

Com base no Gráfico 1, fica claro que o primeiro decênio analisado (1990-2000) apresentou uma produção científica modesta na interseção entre arquivos e memória. Os temas dominantes desse período foram arquivos públicos, memória, identidade, patrimônio, bem como arquivos enquanto fontes de informação e políticas relacionadas à memória e arquivos. Nota-se um aumento significativo na produção acadêmica somente no terceiro período de tempo analisado (2011-2020), indicando um crescente interesse recente na área.

O Gráfico 1 também revela uma ascensão notável na frequência de trabalhos que abordam “a memória nos arquivos públicos” durante os anos de 2011 a 2020. Essa elevação pode estar correlacionada com os outros dois indicadores de alta frequência nesse mesmo período: “arquivos como fontes de informação” e “políticas de memória e arquivos”. Ambos os indicadores estão intrinsecamente ligados ao tema da memória em arquivos públicos, sugerindo uma possível sinergia entre essas duas áreas de estudo.

Gráfico 1 -
Gráfico dos indicadores do corpus da pesquisa

Em resumo, o Gráfico 1 não apenas quantifica, mas também qualifica as tendências na produção científica sobre arquivologia e memória, apontando para um aumento notável em áreas específicas nos últimos anos.

O indicador patrimônio, memória e identidade nos dois primeiros períodos, praticamente 20 anos, não teve muitos resultados, no entanto, a partir do terceiro período houve um aumento significativo. Nesta temática de pesquisa sinalizamos que, trata-se de um fenômeno já abordado por outros autores, que sinalizam um aumento da produção cientifica em arquivologia no contexto da ciência da informação na última década por uma maior quantidade de arquivistas estarem cursando mais programas de pós-graduação em ciência da informação1. Conforme estudos de Fonseca (2004) e Marques (2011, 2012, 2017, 2018), houve um aumento considerável, principalmente, nos últimos anos, de estudos e programas de pós-graduação que envolvem a temática entre arquivos e arquivologia, consequentemente, refletem no campo da ciência da informação:

Em 2016, nos propusemos, mais uma vez, a atualizar o mapeamento de teses, dissertações e trabalhos de conclusão de curso sobre arquivos e arquivologia. Voltando ao banco de teses da Capes, com os mesmos filtros temáticos indicados por Fonseca (2004), recuperamos as referências de 470 pesquisas, produzidas em 58 instituições, 60 programas de pós-graduação stricto sensu, entre 1972 e 2015 (Marques, 2018, p. 19, grifo nosso).

Corroborando com os estudos de Marques (2018), o autor Barros (2017) evidencia a atuação da arquivística nos campos acadêmico e profissional:

Assim, a Arquivística e os arquivos são na atualidade uma área e instituições que estabelecem uma série de justaposições práticas e teóricas. Atravessados transversalmente por relações científico-profissionais que refletiram e reiteraram em maior ou menor grau no desenvolvimento de métodos, políticas e técnicas relacionadas à aquisição, organização, seleção, difusão e acesso aos documentos arquivísticos, conforme pesquisas recentes (Barros, 2017, p. 68).

Outro ponto que deve ter influenciado no eixo do indicador é o fato da pesquisa ter utilizado uma base de dados voltada para a área de ciência da informação, o que não aconteceria se fosse numa base de dados interdisciplinar, isso também pode ter influenciado no indicador relação entre memória, história e arquivos.

Pode-se observar que o indicador relação entre memória, história e arquivos, apesar dos três elementos terem um vínculo bastante próximo, percebe-se pelo Gráfico 1 que esse indicador iniciou negativo no primeiro período, no entanto, no segundo e terceiro períodos não houve grandes alterações na frequência, ou seja, não aumentou significativamente nem diminuiu. O interessante é que se esperava um aumento gradual desse indicador, devido a relação desse trio, no entanto, aconteceu o contrário. Infere-se, pelo resultado, que os pesquisadores dessa temática não publiquem em revistas da Ciência da Informação, mas em outras áreas, como das ciências humanas, sociais ou interdisciplinares, possiblidade a ser verificada noutro estudo.

Os indicadores arquivos como fontes de informação e políticas de memória e arquivos foram os que mais tiveram aumento significativo. Conforme o Gráfico 1, pode-se inferir que os estudos científicos saíram um pouco do campo dos arquivos públicos e passaram a pesquisar outras naturezas, como os privados, isso mostra o quarto indicador quando traz os arquivos como fontes de informação. E o último indicador que aborda sobre as políticas de memória e arquivos pode ser considerado como a temática mais estudada nos últimos anos pela área, sendo o indicador com o pico mais alto mostrado no Gráfico 1.

Após a elaboração dos indicadores deu-se início à etapa para definição das categorias. A categorização “[...] é uma operação de classificação de elementos constitutivos de um conjunto por diferenciação e, em seguida, por reagrupamento segundo gênero (analogia), com critérios previamente definidos.” (Bardin, 2016, p. 147).

Neste estudo, as categorias foram definidas a partir da pertinência da palavra nos títulos e resumos dos artigos, consequentemente, levou ao tema daquela unidade de registro, portanto, léxico. Optou-se por esse critério de categorização tendo em vista a amplitude que um tema pode abranger. Ressalta-se que a análise de conteúdo permite que o objeto de estudo possa ser “submetido a uma ou várias dimensões de análise (Bardin, 2016, p. 148, grifo nosso), portanto, a pesquisa não se esgotou neste corpus, ou seja, a análise de conteúdo permite diferentes dimensões de análise e isso vai depender de cada pesquisador e a partir do ângulo que se faz a análise.

Para a criação das categorias pensou-se exatamente nas qualidades que as categorias devem ter: exclusão mútua, homogeneidade, pertinência, objetividade e finalidade, e produtividade (Bardin, 2016). Foram elencadas as seguintes categorias de análise: (1) memória e arquivos; (2) fontes de informação; e (3) patrimônio documental. Na segunda categoria, optou-se em colocar os arquivos como fontes de informação, fontes de pesquisa, fontes de uso em diversos setores sociais, e não relacionado com outro elemento, como aparecem na primeira categoria, justamente para ter a ideia de como se comportam os arquivos nas pesquisas desses 26 artigos. Por isso, com a intenção de manter dados fieis e o mais próximo com a realidade, os arquivos estão sozinhos na segunda categoria.

Segundo Bardin (2016), a inferência pode ser entendida como um tipo de interpretação controlada. “A análise de conteúdo fornece informações suplementares ao leitor crítico de uma mensagem [...], para saber mais sobre esse texto” (Bardin, 2016, p. 165). Portanto, a própria análise de conteúdo disponibiliza mais elementos com objetivo de fornecer mais informações.

Assim, após essa primeira discussão sobre a metodologia utilizada para análise dos dados, serão apresentados os resultados dessa análise a partir da aplicação das categorias de análise elencadas para a pesquisa, contribuindo para a compreensão de que a produção científica entre arquivos e memória teve maior resultado no período de 2011 a 2020.

3 Resultados da pesquisa

Os 26 títulos e resumos possuem em comum os termos arquivo e memória e suas derivações, como patrimônio, história e memória social. Nesse sentido, ao criar as categorias de análise, pensou-se exatamente em contemplar os termos, direta ou indiretamente. Por isso, foi necessária uma leitura minuciosa dos 26 títulos e resumos, de forma que todos fossem analisados em pelo menos uma categoria. Posto isto, seguem os resultados obtidos em cada categoria de análise.

Ressalta-se que o aumento na produção científica, especialmente focado em memória nos arquivos públicos e políticas relacionadas, pode também ser interpretado como um reflexo de mudanças sociopolíticas ou avanços tecnológicos que tornaram os arquivos mais acessíveis como fontes de informação. Além disso, a crescente preocupação com a memória e o patrimônio pode ter impulsionado uma reavaliação das políticas de arquivo e memória, resultando em uma produção acadêmica mais robusta na última década. Portanto, os próximos três gráficos terão sempre como a útlima coluna a mais alta, em função dos fatores sociais, políticos, culturais e, principalmente, de produção acadêmica realizada em universidades.

A primeira categoria (memória e arquivos) foi definida com a intenção de abranger o tema principal que envolve a pesquisa, logo é uma categoria que está presente em todos os artigos que fazem parte do corpus da pesquisa. A pertinência dessas palavras nos períodos deste estudo está demonstrada no Gráfico 2, no qual fica bastante claro que a partir do momento que há maior produção científica e do aumento da inserção de arquivistas em programas de pós-graduação (Marques, 2018), consequentemente, no terceiro período (2011-2020), aumenta-se a frequência das palavras no títulos e resumos. O aumento significativo da frequência no terceiro período não deixa de surpreender, já que com um índice considerável de produções científicas, consequentemente, haveria um aumento na coluna correspondente.

Ressalta-se que entraram nesta categoria o termo memória e suas derivações: memória social, memória institucional, memória coletiva, memória individual, bem como aconteceu com o termo arquivos: arquivos públicos, arquivos pessoais, arquivo histórico, arquivos privados, arquivos empresariais.

Gráfico 2 -
Representação da categoria - Memória e arquivos

Logo, por meio do Gráfico 2, nota-se que a relação entre memória e arquivos é muito usual nos 26 títulos e resumos analisados, corroborando com o problema desta pesquisa, bem como com o primeiro pressuposto, isto é, que os temas memória e arquivos estão diretamente relacionados, sendo o arquivo representado, muitas vezes, como lugar de memória, mas não como um lugar contra o esquecimento. De certa forma, isso é relevante, mas na prática, ainda, a sociedade como um todo não vê os arquivos como lugares de memória ou lugares relacionados à cultura, mas, muitas vezes, como depósitos de papeis.

A segunda categoria (fontes de informação) foi criada pensando-se em condensar a frequência nos arquivos como fontes de informação, sem a interferência de outro elemento, como memória ou patrimônio. Nessa categoria, foram encontrados alguns temas abordados nas produções científicas além do arquivo como prédio/local ou entidade custodiadora, ou seja, por exemplo, como um relato de experiência de uma disciplina, consequentemente, o termo arquivo era utilizado como a definição de um conceito Gráfico 3). Portanto, essa categoria engloba tanto o arquivo como fonte de informação, produção científica e objeto de estudo, como o arquivo sendo abordado em disciplinas, ou seja, de forma teórica.

Nota-se que a categoria Fontes de informação tiveram como premissa a ideia dos arquivos enquanto recursos que fornecem dados ou conhecimento sobre determinado assunto a partir de documentos públicos, registros históricos, entre outros. Lembrando que os arquivos sendo recursos tornam-se essenciais para pesquisa, aprendizado e tomada de decisões em diversas áreas.

Nesta categoria, a representação da frequência fica bastante evidente no terceiro período, novamente, por ser a maior concentração de publicações, já que nos períodos anteriores o número de publicações é bem reduzido. A partir do Gráfico 3 observou-se o aumento da frequência de forma gradativa e sequencialmente nos três períodos, isso é o resultado da inserção e consolidação natural da disciplina e como ciência.

Gráfico 3 -
Representação da categoria - Fontes de informação

Verifica-se no Gráfico 3 que há uma queda considerável de frequência em relação a categoria anterior, a exemplo, a frequência do Gráfico 2 no terceiro período é superior a frequência que aparece no Gráfico 3 no mesmo período.

Apesar dessa queda da frequência, infere-se, a partir da análise dos dados e levando-se em consideração a atuação da área, que os resultados dos Gráficos 2 e 3 são notáveis, pois significam que a grande maioria da produção científica entre arquivologia e memória tem utilizado os arquivos como objeto de estudo de pesquisas e de referências como lugares para construção e reconstrução de memórias. Independentemente da pouca produção, quando analisamos o período e a quantidade de artigos, os resultados dos dois gráficos devem ser levados em consideração como algo excelente, ou seja, a relação entre arquivos e memória aparecem na produção científica.

A última categoria (patrimônio documental) reflete a ação e o papel do arquivo para a sociedade. Muitos artigos fizeram essa relação do conteúdo informacional presente nos conjuntos documentais em arquivos e a importância desses conjuntos como um patrimônio ou representação simbólica de um patrimônio documental Gráfico 4). Assim, como o impacto do uso de instrumentos de gestão, como a Tabela de Temporalidade e Destinação de Documentos, se mal elaborada pode acarretar em prejuízos sociais, culturais e testemunhais para a instituição e para a sociedade. Logo, essa categoria não poderia deixar de ser contemplada.

Mais uma vez, bate-se na tecla que do ponto de vista social e profissional, a adoção do ciclo de vida dos documentos pelas instituições ofereceu às organizações e aos arquivistas a vantagem da simplicidade conceitual, facilitando a gestão organizacional dos documentos arquivísticos. É crucial notar que as ações tomadas durante a produção dos documentos têm um impacto direto no estágio final, no qual são utilizados por diferentes usuários e atendem a diversas demandas sociais, como provas e testemunhos de ações passadas, destacando a continuidade das atividades nos arquivos.

Novamente, o terceiro período é o de maior frequência e com maior destaque que os demais períodos. Mas é bom comentar sobre a ausência de frequência da categoria do segundo período. Infere-se, pela ausência de frequência, que o campo da produção científica modificou durante esse período a relação de arquivo com patrimônio documental. Observa-se pelos resultados que relação com memória não deixou de existir durante todo o período de análise desta pesquisa, ao contrário do que houve com patrimônio documental. No entanto, não se pode afirmar que houve uma ruptura, pois nos anos de 2011 a 2020 retomou-se o uso da temática em pesquisas nacionais, como pode ser visto pelo Gráfico 4 com o reaparecimento do tema.

Gráfico 4 -
Representação da categoria - Patrimônio documental

É importante destacar que durante o levantamento e análise de dados, alguns termos foram encontrados, além do termo patrimônio documental, como patrimônio arquivístico, patrimônio cultural e educação patrimonial, porém, não foram incluídos nos dados do gráfico, já que possuem conceitos diferentes do de patrimônio documental, além disso, a inserção desses outros termos na categoria patrimônio documental iria adulterar os resultados.

A consolidação do termo “patrimônio documental” é marcada pela incerteza, pois a sua definição pode variar de acordo com o ponto de vista do analista e a natureza do material analisado. Nesse sentido, a determinação se os arquivos são considerados como patrimônio documental ou não depende do contexto e da abordagem utilizada na análise.

O termo utilizado para a categoria apresentada no Gráfico 4 - Patrimônio documental refere-se a documentos que possuem valor histórico, cultural, científico, administrativo ou legal e são preservados por instituições públicas ou privadas. Esses documentos podem incluir registros oficiais, correspondências, fotografias, mapas, filmes, entre outros tipos de registros. Nota-se que a partir da preservação do patrimônio documental, consequentemente, reflete na garantia do acesso à informação e na preservação das memórias de uma sociedade.

4 Conclusões

O estudo abrangente realizado entre 1990 e 2020 sobre a relação entre arquivologia e memória no Brasil aponta não apenas para um crescimento na produção científica, mas também para uma expansão tanto temática quanto metodológica na pesquisa. Essa evolução é especialmente notável na última década, sugerindo um reconhecimento crescente da arquivologia como um campo interdisciplinar que se cruza com áreas como história, identidade cultural e patrimônio. Esse crescimento pode ser interpretado como uma maior consciência sobre o papel dos arquivos, não apenas como repositórios de informação, mas também como locais significativos de memória social, histórica e cultural, sinalizando inclusive para um aumento já reconhecido pela literatura da área em outras temáticas.

Essa relação entre arquivologia e memória obtida no período de 1990 a 2020, a partir da produção científica encontrada na Base de Dados Referencial de Artigos de Periódicos em Ciência da Informação, evidencia uma interação complexa e mutuamente enriquecedora entre essas áreas, uma vez que os arquivos são fontes essenciais para a construção e reconstrução das memórias e identidades de indivíduos, comunidades e sociedades.

Por outro lado, a memória, ao ser construída ou reconstruída a partir dos conjuntos documentais custodiados em arquivos, também influencia na prática arquivística, pois a valorização e o uso desses documentos dependem da relevância que a sociedade atribui à sua própria memória. Nesse sentido, a produção científica na área da Ciência da Informação revela a importância de uma abordagem interdisciplinar, na qual a arquivologia e a memória se complementam e se beneficiam mutuamente, contribuindo para uma compreensão mais profunda e significativa do passado e do presente.

Além disso, este trabalho atua como um catalisador para pesquisas e discussões futuras, identificando lacunas e áreas potenciais para exploração adicional, o que é crucial para a evolução contínua deste campo acadêmico. Portanto, o estudo não apenas preenche lacunas em nosso entendimento atual sobre a interação entre arquivologia e memória, mas também estabelece uma base sólida para futuras investigações e para o desenvolvimento de políticas relacionadas à preservação da memória coletiva na era digital.

A exclusão de categorias teóricas tradicionais, como “lieux de mémoire”, com base no trabalho de Nora, indica uma reavaliação crítica da aplicabilidade das teorias existentes. Isso sugere que ajustes são necessários para alinhar tais teorias ao contexto específico da pesquisa em arquivologia e memória. O estudo também destaca a eficácia da análise de conteúdo como uma abordagem metodológica, servindo como referência para futuras investigações.

Depreende-se, a partir dos resultados da pesquisa, que a relação entre arquivologia e memória é crucial para compreendermos como os documentos e informações são preservados e organizados ao longo do tempo. A arquivologia, ao focar em documentos de natureza orgânica, destaca a importância de sua interconexão e da sua utilização como evidência de eventos passados. O princípio da proveniência, por sua vez, reforça a ideia de que a origem e o contexto dos documentos são fundamentais para sua compreensão e preservação adequadas. Dessa forma, a arquivologia não apenas contribui para a preservação da memória, mas também para a sua compreensão mais profunda, ao reconhecer a importância da autenticidade e da integridade dos documentos como elementos essenciais para a construção do conhecimento histórico.

O objetivo deste estudo foi analisar a produção científica no Brasil sobre os temas de arquivologia e memória nas últimas três décadas. A análise foi realizada a partir do acesso a artigos da área disponíveis na Base de Dados Referencial de Artigos de Periódicos em Ciência da Informação. Para isso, foram identificados os tópicos predominantes nos dados coletados, definidos critérios para os indicadores utilizados, desenvolvidas categorias analíticas e aplicado o método de análise de conteúdo ao corpus do estudo. Ao realizar essa análise, obteve-se um panorama da produção científica brasileira nessas áreas ao longo dos últimos 30 anos, identificando tendências, lacunas e áreas de maior interesse. Isso pode contribuir para o avanço do conhecimento nessas áreas, orientar futuras pesquisas e subsidiar políticas públicas relacionadas à preservação da memória e à gestão de documentos de arquivo no Brasil, bem como trazer à tona o conceito do papel social dos arquivos.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    14 Out 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    22 Set 2023
  • Aceito
    25 Abr 2024
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