Resumo
Este estudo visa a estabelecer um paralelo entre as obras Nur na escuridão, de Salim Miguel (2004), e Lavoura arcaica, de Raduan Nassar (1982), mais especificamente naquilo que concerne ao tempo, a memória e ao passado. Minha hipótese é a de que existem, nos dois romances, diferentes tempos entremeados no fluxo de consciência dos narradores, e a linha analítica da investigação acompanha essa confusão que é intrínseca ao funcionamento pouco progressivo da memória. A análise demonstra como o tempo e a memória mostram- se primordiais para que se dê efetivamente a construção da identidade dos personagens das duas narrativas, sendo que ambas tratam da vida de sujeitos originários de outros países. Isso ocorre principalmente através da compreensão dessas personagens acerca de seu passado, sendo ele temática perene tanto na vida dos narradores quanto, principalmente, na dos seus pais. Nur na escuridão (Miguel, 2004) e Lavoura arcaica (Nassar, 1982) dão ao tempo e à memória o papel de protagonistas; e é esse protagonismo que figura nos principais achados do estudo que aqui eu proponho.
Palavras-chave:
Literatura de imigrantes; identidade; memória; Raduan Nassar; Salim Miguel
Abstract
This study aims at establishing a parallel between Salim Miguel’s novel Nur na escuridão (Miguel, 2004) and Raduan Nassar’s novel Lavoura arcaica (Nassar, 1982), in what regards time, memory and past. My hypothesis is that there are, in both novels, different times interwoven within the narrators’ stream of consciousness, and the analytical tread of this investigation follows such confusion, which is inherent to the unprogressive functioning of memory. The analysis demonstrates how time and memory prove to be fundamental for characters’ construction of identity to effectively take place in the narratives, because both concern the lives of subjects coming from other countries. This occurs chiefly through the understanding of these characters about their past, which is a pervasive theme both for the lives of narrators and, especially, for the lives of their parents. Nur na escuridão (Miguel, 2004) and Lavoura arcaica (Nassar, 1982) give time and memory the role of protagonists; and it is this protagonism that emerges from the main findings of the study herein proposed.
Keywords:
Migrant literature; identity; memory; Raduan Nassar; Salim Miguel
Resumen
Este estudio tiene como objetivo establecer un paralelo entre las obras Nur na escuridão (Miguel, 2004) y Lavoura arcaica (Nassar, 1982), más específicamente en lo que concierne al tiempo, la memoria y el pasado. Mi hipótesis es que, en los dos libros, hay diferentes tiempos intercalados en el flujo de conciencia de los narradores, y mi línea de investigación analítica acompaña esta confusión que es intrínseca al poco progresivo funcionamiento de la memoria. El análisis muestra cómo el tiempo y la memoria son fundamentales para construir efectivamente la identidad de los personajes de las dos narrativas, que tratan de la vida de sujetos que vienen de otros países. Esto ocurre principalmente a través de la comprensión de estos personajes sobre su pasado, que es un tema constante tanto en la vida de los narradores como, principalmente, en la vida de sus padres. Nur na escuridão (Miguel, 2004) y Lavoura arcaica (Nassar, 1982) dan al tiempo y la memoria el papel de protagonistas; y este papel se desarrolla con complexidad en conformidad con mis conclusiones acá.
Palabras-clave:
Literatura inmigrante; identidad; memoria; Raduan Nassar; Salim Miguel
A lembrança, do modo que articula Henri Bergson (1999), não existe de modo metafísico, para além do corpo, mas, ao contrário, habita-o e nele se afunda, material e objetivamente. Nos jogos da fantasia e no trabalho da imaginação, residem a arte e, em minha análise, a imprecisa literatura. Assim, este estudo visa a estabelecer um paralelo entre as obras Nur na escuridão (Miguel, 2004) e Lavoura arcaica (Nassar, 1982), mais especificamente naquilo que concerne ao tempo, a memória e a morte. Com relação a esses três aspectos, é possível identificar que, em muito, há algo de enriquecedor nas duas construções narrativas. Isso não apenas no que diz respeito ao contexto - que engloba imigrantes libaneses no Brasil - mas, principalmente, no que concerne à tentativa de (re)construção de identidade por parte dos personagens. São o tempo e a memória primordiais para que se dê tal (re)construção, sendo temática perene tanto na vida dos narradores quanto, principalmente, na dos seus pais.
O papel do corpo não é armazenar as lembranças, mas simplesmente escolher, para trazê-la à consciência distinta graças à eficácia real que lhe confere, a lembrança útil, aquela que completará e esclarecerá a situação presente em vista da ação final. É verdade que esta segunda seleção é bem menos rigorosa que a primeira, porque nossa experiência passada é uma experiência individual e não mais comum, porque temos sempre muitas lembranças diferentes, capazes de se ajustarem igualmente a uma mesma situação atual, e também porque a natureza não pode ter aqui, como no caso da percepção, uma regra inflexível para delimitar nossas representações. Uma certa margem é portanto necessariamente deixada desta vez à fantasia; e, se os animais não se aproveitam muito dela, cativos que são da necessidade material, parece que o espírito humano, ao contrário, lança-se a todo instante com a totalidade de sua memória de encontro à porta que o corpo lhe irá entreabrir: daí os jogos da fantasia e o trabalho da imaginação - liberdades que o espírito toma com a natureza (Bergson, 1999, p. 210).
De acordo com Luciana Rassier (2011, p. 3), em função da estrutura extremamente fragmentada no que diz respeito ao tempo, empregada por Salim Miguel em sua construção de Nur na escuridão, “a reconstituição cronológica dessa história familiar não é fácil; aliás, suas lacunas e imprecisões são assinaladas e destacadas pelo narrador”. Já em Lavoura arcaica, de acordo com Hugo Abati, “os conteúdos da memória - entre imagens, discursos e símbolos, são revividos através do fluxo de consciência, sem uma ordem temporal absolutamente progressiva” (1999, p. 49). Existem, no romance, diferentes tempos entremeados nesse fluxo de consciência, capazes de confundir o leitor, fazendo jus, precisamente, a confusão que é intrínseca ao funcionamento pouco progressivo da memória: “A progressão cronológica da narrativa é interrompida a cada retorno da memória. O encontro com o irmão, atando a partida e o retorno, é o veio que remonta sua história” (Abati, 1999, p. 49). Resgatado por seu irmão, o narrador do romance e sua construção temporal são tomados por uma memória que permeia o mundo material e imaterial da narrativa. Logo no início da narrativa, quando André reencontra seu irmão, o que enxerga em Pedro vai muito além dele:
Nós nos olhamos e num momento preciso nossas memórias nos assaltaram os olhos em atropelo, e eu vi de repente seus olhos se molharem, e foi então que ele me abraçou, e eu senti nos seus braços o peso dos braços encharcados da família inteira; voltamos a nos olhar e eu disse “não te esperava” [...] e eu senti a força poderosa da família desabando sobre mim como um aguaceiro pesado enquanto ele dizia “nós te amamos muito” e era tudo o que ele dizia enquanto me abraçava mais uma vez (Nassar, 1982, p. 9).
Para a personagem, os dois braços de um sujeito, apenas, passam a carregar o peso de toda a família - porque são braços munidos de memória, de lembrança e da presença dos braços de outrem. Nisso se faz forte a família na lembrança de um de seus membros, pois aquilo que na vida familiar se constrói necessita de muito pouco para regressar com a força que é muito bem representada no trecho apresentado. Sobre a concepção fragmentada da memória e a consequente pulverização da unicidade subjetiva, em sua relação com a arte, Danielle Ramos (2011, p. 104) tece o seguinte argumento: “Todos esses elementos só podem ser percebidos em uma relação dialética, fora de qualquer teleologia”. Dessa maneira, “é nesse jogo caleidoscópico que as conexões entre memória e literatura se formam e conformam-se, em um quadro áporo de impermanência e consolidação” (Ramos, 2011, p. 104). É pensando nessa impermanência e consolidação que estudo o jogo estabelecido na relação dialética entre memória e esquecimento nos romances selecionados, iniciando minha análise com foco em Nur na escuridão para então adentrar a narrativa de Lavoura Arcaica.
Nos subterrâneos da memória
Podemos notar, em Nur na Escuridão, o quanto existem centenas e centenas de lacunas e imprecisões que se repetem e dificultam o trabalho da memória. Isto já que “[d]esatando o fluxo da memória, fragmento de um caso puxa outro, não demora outro mais, tudo por vezes interrompido para por vezes retornar dias depois, ou não retornar nunca” (Miguel, 2004, p. 81). De acordo com o narrador, cada fragmento acaba “sempre deixando rastros que se avolumam para formar um todo” (Miguel, 2004, p. 81). Para os personagens e para os leitores, não existe um domínio da memória, muito menos do tempo; seria muito antropocêntrico tentar incrustar nestes âmbitos uma lógica que nos convencesse. De certa forma é, controversamente, a própria memória que problematiza nossa tentativa de racionalizar todos os eventos numa linha cronológica clara e objetiva; é a própria memória que nos obriga a (re)pensar nossa constituição temporal em toda sua profundidade e complexidade.
Quando buscamos nos identificar, ancorar o barco da identidade em algum porto seguro, os fragmentos da memória confundem-nos, misturando e interpolando passado, presente, futuro, tudo em um sistema antes claro e concreto, mas agora confuso e abstrato. No momento em que o pai do autor-narrador, Yussef, busca, através da memória, relembrar do “seu” Líbano ou então encontrar no passado alguma luz - Nur - que o ajude a entender o seu presente, este se vê traído por essa “lógica ilógica” do tempo: “O tempo se distende, lembranças vão e vem, um fio se rompe, outro se ata, se bifurca, flutua; nostálgico, o pai limpa os olhos [...], para. Recomeça. Não parecia haver lógica ou coerência no que lhes chegava - apenas uma coerência e lógica interior” (Miguel, 2004, p. 87). E como haveria de haver uma lógica que não a interior? Como veremos muito bem argumentado por Iohána em Lavoura arcaica, o tempo não é servo do mundo, o mundo é servo do tempo:
O pai à cabeceira, o relógio de parede às suas costas, cada palavra sua ponderada pelo pêndulo, e nada naqueles tempos nos distraindo tanto como os sinos graves marcando as horas: “O tempo é [...] inconsumível, [...] não tem começo, não tem fim [...], onipresente, o tempo está em tudo; existe tempo [...] nas paredes da nossa casa, na água que bebemos, na terra que fecunda [...], assim como em tudo que nos rodeia [...], rico é só o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo” (Nassar, 1982, p. 45-46).
A memória, também onipresente como o tempo, é aqui vista como nebulosa e, de certa forma, nunca o deixa de ser no romance de Miguel, fator que dificulta a construção linear de uma identidade concreta passando, essa também, a se tornar nebulosa em um tempo acronológico. “Pouco adiantava puxar pela memória [...]. Era como se nunca tivessem existido [...]. O pai fez uma pausa, puxa lá do longínquo ontem uma lembrança que logo se esgarça, não deseja se tornar nítida” (Miguel, 2004, p. 119). Portanto, além de ser nebulosa, essa memória recusa a nitidez; é como se, para existir, para ser significante, a memória precisasse continuar a nos confundir, a nos complicar a capacidade de permitir à nossa história clareza “devida” e de, sendo assim, desenhar uma identidade própria que não fugisse de uma silhueta preconcebida. Tanto que, neste momento específico, Yussef inclusive pensa em “desistir” da memória, mas ele percebe a impossibilidade de tentar experienciar o mundo sem se deixar incomodar pelo passado, pelas lembranças. Esse passado e essas lembranças não existem num período já morto, superado, esquecido; não existe tal período; a memória acaba por dar vida a tudo, tanto que até mesmo aquilo que de fato já está “morto” ainda vive em função justamente dela:
Não são os mortos que morrem. Somos nós, os vivos, para eles morremos. Deixamos de ser. Os mortos continuam vivendo na nossa lembrança, no nosso sofrimento. Vivendo e presentes. Mais: uma parcela nossa se vai com eles. Melhor: uma parcela deles é que se incorpora à nossa vida (Miguel, 2004, p. 238).
Este trecho evidencia a parcialidade da nossa forma de enxergar a passagem do tempo, já que a morte não determina a ausência de alguém que falece de nossas vidas, mas a nossa ausência na morte desse alguém. Essa questão também é tratada em Lavoura Arcaica quando o narrador tece um comentário acerca da cadeira do avô que, mesmo após sua morte, nunca estará “vazia”: “O avô, enquanto viveu, ocupou a outra cabeceira; mesmo depois de sua morte, que quase coincidiu com a nossa mudança da casa velha para a nova, seria exagero dizer que sua cadeira ficou vazia” (Nassar, 1982, p. 138). De fato, seria exagero; se ele existe na memória de alguém, de certa forma, ele ainda está lá. A cadeira vazia, o “deixar de existir”, assusta muito a humanidade; talvez por isso a morte de alguém que nos foi importante seja tão dolorosa; porque nós, vivos, morremos para eles. O medo do esquecimento, a vontade de se eternizar, mesmo que através de terceiros, na memória do outro, parece inerente na espécie humana; por isso o pai do narrador persiste em fazer inúmeras anotações em sua caderneta e frequentemente “repete: quando eu morrer, procurem alguém que faça a tradução” (Miguel, 2004, p. 160). Nas palavras de Maria Cury (2011, p. 7):
A memória, no romance, volta sempre ao mesmo ponto, é sempre o mesmo dia, o mesmo ano, reproduzindo a circularidade entre espaços [...], o “estava escrito”, tantas vezes repetido, o cheiro da comida e frutas da terra natal, sempre tão melhores do que a de outros lugares, a lembrança da partida e da chegada.
Desde o início do romance podemos constatar a pertinência dessa análise, principalmente da primeira impressão de Yussef, ao chegar no Brasil, quando olha para fora e constata que “a janela é, ao mesmo tempo, seu mundo atual e seu passado. Quer se situar [...]. É o embate entre duas concepções de mundo, de vida” (Miguel, 2004, p. 17). Uma só paisagem integrada pelas mais distintas imagens de forma circular, sobrepondo-se sem lógica, sem uma cronologia identificável, sem “pertencer” ao mesmo quadro. Na mesma janela, passado e presente misturam-se, e se situar se torna cada vez mais problemático; a família vai embora, mas muito do Líbano a acompanha, e muito dela permanece na terra natal.
As imagens acumuladas através da memória remetem, também, a outras lembranças; assim, qualquer traço, por mais inimaginável, como um sorriso ou peça de roupa, pode ser compreendido pela memória como uma linha na qual ela é capaz de se agarrar e nos transportar para um outro momento; e é justamente neste tipo de momento que Yussef, impossibilitado de seguir adiante ou de voltar atrás, vê-se tão confuso, “perdido-achado em seu mundo antigo, navega, avança, recua, se detém, prossegue” (Miguel, 2004, p. 24). Portanto, a memória de Yussef, assim como a nossa:
Ela se esgarça, flutua, se decompõe, se compacta. Fios se atam/desatam. Fragmentos somem e reaparecem [...]. A memória [...] é acronológica. Pouco adianta teimar, nos esforçamos na busca de recompor, pela ordem, o que se desgarrou, trazer de volta o que já foi, para que volte a ser [...]. Mesmo que acreditemos tê-lo conseguido, é inevitável que existam lapsos, ocorram falhas, incompreensíveis rupturas. É um complexo processo que foge ao controle [...]. Por vezes, o que nos chega nem é memória vivida, é memória de outrem que se nos incorpora reconstituída - e passa a ser nossa (Miguel, 2004, p. 165-166).
O tempo e a memória não funcionam da maneira que desejamos, tampouco de uma maneira que possamos “entender”. Ainda assim é verdade que olhar para frente é essencial, mas o que o romance parece demonstrar é que não é possível olhar para frente sem também olhar para trás. Entramos, assim, de volta na narrativa de Lavoura arcaica, lembrando o trecho apresentado ainda há pouco na introdução. Nesse trecho, temos a presença de Pedro, a qual não simboliza apenas sua preocupação; o irmão de André personifica toda uma memória familiar que surge poderosa “como um aguaceiro pesado” (Nassar, 1982, p. 9) para trazer de volta aquele que a havia abandonado. É desse modo que se dá o “presente” de André, sempre invadido pela memória, pelo passado, pelo tempo que, nas coisas mais simples e banais, é capaz de introduzir lembranças profundas e intensas, ainda que fragmentárias. Seria um erro acreditar que, por ser fragmentária, uma memória seria menos impactante do que a experiência “real”, momentânea; aspas são necessárias para o “real”, pois não existe experiência se não existe memória que, incontrolável, por sua vez puxa André do presente e o carrega de volta ao passado, isso sucessivamente:
Incursiono às vezes num sono já dormido, enxergando [...] um torrador de café, cilíndrico, fumacento, enegrecido, lamentoso, pachorrento, girando ainda à manivela na memória; e vou extraindo deste poço as panelas de barro, e uma cumbuca no parapeito fazendo de saleiro [...], e um cabide de chapéu feito de curvas, e um antigo porta- retratos, e uma fotografia castanha, nupcial, trazendo como fundo um cenário irreal, e puxaria ainda muitos outros fragmentos, miúdos, poderosos, que conservo [...] como guardião zeloso da família (Nassar, 1982, p. 54-55).
A imaginação de André problematiza sua capacidade de dividir racionalmente o que se passa no mundo e o que se passa em sua mente, de estabelecer uma fronteira entre o que acontece “lá fora” e o que acontece “lá dentro”. Caindo em confusos pensamentos, pode ser que André se perca, de fato, frente a um presente que é, com frequência, incomodado pelo passado; mas é, curiosamente, somente através da memória que o presente pode se tornar compreensível; é somente desvendando os sentidos que permeiam seu passado que a identidade de André, ainda que seja cada vez mais subdividida em estilhaços existenciais, pode se tornar ao menos inteligível. Quando é trazido de volta para casa é como se regressar ao espaço físico implicasse automaticamente o regresso de André ao espaço emocional onde ele novamente se vê inserido. A rigidez do pai, a paixão por Ana, todos os pensamentos que ele por tanto tempo tentou abafar se veem convocados a ressurgir quando ele revisita o ambiente caseiro de onde surgiu, pela primeira vez, grande parte desses sentimentos. Nos seus devaneios, quimeras, nos seus sonhos tão confusos, André vê-se incapaz de domar o tempo, saindo muitas vezes em busca daquilo que julgou ver, mas que havia somente imaginado:
O tempo [...], ainda hoje e sempre quem decide e por isso a quem me curvo cheio de medo e erguido em suspense me perguntando qual o momento, o momento preciso da transposição? Que instante, que instante terrível é esse que marca o salto? Que massa de vento, que fundo de espaço concorrem para levar ao limite? O limite em que as coisas já desprovidas de vibração deixam de ser simplesmente vida na corrente do dia-a-dia para ser vida nos subterrâneos da memória (Nassar, 1982, p. 85-86).
A memória, onisciente, não precisa de aval para, novamente, atirar André em novos poços de (auto)comiserações; as imagens do passado - enterrado embaixo do rancor e mágoa que resultam principalmente da distância hierárquica entre filho e pai e da impossibilidade da consumação de seus sentimentos pela irmã - só precisam de um cheiro, um objeto, um ruído, para trazer o passado de volta para o presente: “Largado na beira da minha velha cama, a bagagem jogada entre meus pés, fui envolvido pelos cheiros caseiros que eu respirava, me despertando imagens torpes, mutiladas, me fazendo cair logo em confusos pensamentos” (Nassar, 1982, p. 132). É desse modo, através desses confusos pensamentos, que André acaba por desvendar o mundo conforme, pouco a pouco, desvenda também a si mesmo. Em sua tentativa de compreender quem é, em meio a tanta confusão, ele busca significados ao seu redor, numa tentativa de domínio do espaço como forma de autoafirmação. Entender o seu lugar no mundo é entender, também, o que esse mundo significa por fim. Talvez esse seja um significado que poucos de nós consigamos desvendar, mas é certo que, na “busca pela identidade”, abandonar as memórias, as raízes, o passado, não se trata de uma escolha válida. O tempo que engloba a narrativa do narrador é um tempo circular, um tempo no qual não se pode evitar o passado, pois, querendo ou não, se está sempre voltando para ele:
Era calando minha revolta que eu, a cada passo, me distanciava lá da fazenda, e se acaso distraído eu perguntasse “para onde estamos indo?” - não importava que eu, erguendo os olhos, alcançasse paisagens novas [...], não importava que eu, caminhando, me conduzisse para regiões cada vez mais afastadas, pois haveria de ouvir claramente de meus anseios um juízo rígido, era um cascalho, um osso rigoroso, desprovido de qualquer ubiquidade: “estamos indo sempre para casa” (Nassar, 1982, p. 30).
A busca de André não é por dominar apenas seu próprio tempo, mas também, e como já sugerido, por dominar seu “próprio espaço”. Nessa tentativa de ouvir claramente seus anseios em um juízo rígido, o personagem assegura-se de que, independentemente do caminho que tome, estará sempre indo para casa. Assim, nele, a lembrança configura-se como modo de reescrever o passado emprestando elementos do presente. Ciente de que a lembrança, assim, responsabilizar- se-ia por manifestar uma memória de algo vivido, porém, em grande medida adulterado, a personagem parece estar disposta a alcançar tais paisagens novas, ainda que essa novidade esteja revestida de passado. Na aparência, tudo desaparece e se renova; porém, na essência, tudo que existe é passado - aquilo que já foi, mas que, em certa medida, também nunca deixou de ser. A memória, por assim dizer, reportando sempre ao passado, traz os pés do viajante sempre um passo para trás, lembrando que não existe destino que, de uma maneira ou de outra, ainda não tenha sido conquistado pelos caminhos nebulosos do lembrar e do esquecer. O narrador supõe, em mais um de seus devaneios em que o sonho se confunde com a realidade, que todo tempo e espaço existem para serem experienciados- e não apenas assistidos, observados:
Meu primeiro pensamento foi em relação ao espaço, e minha primeira saliva revestiu-se do emprego do tempo; todo espaço existe para um passeio, passei a dizer [...], nenhum espaço existe se não for fecundado, como quem entra na mata virgem e se aloja no interior, como quem penetra num círculo de pessoas em vez de circundá-lo timidamente de longe; e na claridade [...] me apercebi [...] do voo célere de um pássaro branco, ocupando em cada instante um espaço novo [...], o pássaro que voava traçava em meu pensamento uma linha branca e arrojada, da inércia para o eterno movimento (Nassar, 1982, p. 75-76).
O narrador é como o pássaro branco que se aloja no interior, que ocupa em cada instante um espaço novo, da inércia para o eterno movimento. A ideia cronológica do tempo, a noção de que existe uma racionalidade, uma linearidade por trás dele, promovem a noção de inércia; e é justamente esta que o pássaro branco do narrador parece colocar em xeque ao captar “o espaço e o tempo na sua visão mais calma, mais tranquila” (Nassar, 1982, p. 125). A habilidade do narrador, sua experiência com o tempo e o espaço, aparenta ser, em sua narrativa, de fato quase extrassensorial, e isto faz dele muitas vezes incompreensível para o olhar do irmão. É isso o que ocorre quando ele conta para Pedro sobre quando ele suspendia o tampo do cesto de roupas do banheiro para, praticamente, “viajar no tempo”; não eram só peças de roupa sujas que André via dentro do cesto, para ele, ia muito além disso:
Era o pedaço de cada um que eu trazia nelas quando afundava minhas mãos no cesto [...], as coisas exasperadas da família deitadas no silêncio recatado das peças íntimas ali largadas, mas [...] bastava afundar as mãos para conhecer a ambivalência do uso, os lenços dos homens antes estendidos como salvas pra resguardar a pureza dos lençóis, bastava afundar as mãos para colher o sono amarrotado das camisolas [...], conhecer os humores todos da família mofando [...] nas paredes frias de um cesto de roupa suja; ninguém afundou mais as mãos ali, Pedro, ninguém sentiu mais as manchas de solidão, muitas delas abortadas com a graxa da imaginação (Nassar, 1982, p. 37-38).
Assim, concluo essa análise, a qual buscou mergulhar na carga de memória dos dois romances como a mão da personagem no cesto de roupas sujas. No mundo contemporâneo, muitas vezes, tentamos nos convencer de que não existe tempo nas roupas que vestimos, nos produtos que compramos, naquilo que comemos; tentamos tirar o crédito de nossa memória por acreditar que o passado já não importa mais; é a tentativa de alienar aquilo que transcende nossa compreensão, a tentativa de impor ao tempo, ao passado, aquilo que achamos merecedor de nossa percepção e reflexão, a tentativa de controlar aquilo que nos controla; Nur na escuridão e Lavoura arcaica dão ao tempo e à memória o papel de protagonistas; e, neste protagonismo, nós não passamos de coadjuvantes.
Considerações finais
Abaixo, trago, na íntegra, o microconto “Apelo”, de Dalton Trevisan:
Amanhã faz um mês que a Senhora está longe de casa. Primeiros dias, para dizer a verdade, não senti falta, bom chegar tarde, esquecido na conversa de esquina. Não foi ausência por uma semana: o batom ainda no lenço, o prato na mesa por engano, a imagem de relance no espelho. Com os dias, Senhora, o leite primeira vez coalhou. A notícia de sua perda veio aos poucos: a pilha de jornais ali no chão, ninguém os guardou debaixo da escada. Toda a casa era um corredor deserto, até o canário ficou mudo. Não dar parte de fraco, ah, Senhora, fui beber com os amigos. Uma hora da noite eles se iam. Ficava só, sem o perdão de sua presença, última luz na varanda, a todas as aflições do dia. Sentia falta da pequena briga pelo sal no tomate - meu jeito de querer bem. Acaso é saudade, Senhora? Às suas violetas, na janela, não lhes poupei água e elas murcham. Não tenho botão na camisa. Calço a meia furada. Que fim levou o saca-rolha? Nenhum de nós sabe, sem a Senhora, conversar com os outros: bocas raivosas mastigando. Venha para casa, Senhora, por favor (Trevisan, 1996, p. 76-77).
O universo construído é breve e repleto de silêncios, lacunas que se apresentam misteriosamente para o leitor. Não são todas elas, entretanto (as lacunas), passíveis de preenchimento, já que se tratam de parte fundamental da narrativa: a realidade oca de uma vida em que algo está faltando. O batom, os jornais, o sal no tomate: pouco a pouco elementos simbólicos são trazidos; elementos que estão lá, mas apontam para o que não está - quase que paradoxalmente preenchendo a narrativa por espaços vazios, espaços antes outros. É pensando, portanto, no tempo, no passado e na memória que chegamos por fim nas considerações finais desse estudo. Quando pensamos no tempo, é, em muitas ocasiões, válido recordar das profundas contribuições articuladas na célebre obra de referência Em busca do tempo perdido (Proust, 1992). “Nem tudo o que acontece me ocorre” (Proust, 1992, p. 90), reflete o narrador, antes de exemplificar com: “o sino tocando em Saint Hilaire: Muitas vezes até essa hora prematura soava duas batidas a mais que a última; havia, portanto, uma que eu não ouvira, algo que ocorrera não acontecera para mim” (Proust, 1992, p. 90).
Nesse sentido, é interessante levar em conta que, na tentativa de encontrar fatos perdidos em um passado já inacessível, temos a memória como uma estratégia na realidade muito pouco efetiva, em diversas medidas. Isto já que, durante nossas atividades diárias e tendo em vista as diversas preocupações e ocupações que nos permeiam, muito do que nos acontece também não nos ocorre - isto é, muito daquilo que nos circunda é simplesmente ignorado por nós e, inevitavelmente, também o será pela nossa memória (pelo menos conscientemente). Segue Proust (1992, p. 91): “O interesse na leitura, mágico feito um sono profundo, iludira meus ouvidos alucinados e apagara o sino de ouro sobre a superfície azulada do silêncio”. Concentrado na leitura, o narrador reconhece que algo acontecera, porém é como se ele não tivesse vivido esse acontecimento - e é nesse sentido que o passado segundo aquilo que lembramos não consiste no passado em si, mas em uma memória lacunar. Lacunar porque uma lembrança recriada pelos elementos que temos em nossa disposição e que são, inegavelmente, passíveis de questionamento “factual”.
Em busca do tempo perdido, o narrador de Proust (1992) em muito se aproxima dos narradores de Nur na escuridão e de Lavoura arcaica, os quais, em boa parte das narrativas, também estão em busca do tempo que perderam, bem como do passado que não foi. Nesse sentido, o narrador de Proust (1992) considera razoável a crença céltica acerca da morte e daquilo que ela representa. De acordo com ele, para os celtas, “as almas das pessoas que perdemos se mantêm cativas em algum ser inferior, um animal, um vegetal, uma coisa inanimada, e de fato perdidas para nós” (Proust, 1992, p. 54). Aqui o narrador relembra a mitologia dos celtas, para os quais os homens e mulheres mortos teriam suas almas transferidas para animais, plantas, pedras etc., quaisquer elementos presentes naquele mundo - isto é, contemporâneos aos seus familiares e conterrâneos, que ainda se lembram deles. “Até o dia, que para muitos não chega jamais, quando ocorre passarmos perto da árvore, ou entrarmos na posse do objeto que é sua prisão. Então elas palpitam, nos chamam, e tão logo as tenhamos reconhecido, o encanto se quebra” (Proust, 1992, p. 55). Dessa ideia de um outro mundo que habita o interior de nosso próprio mundo, material e concreto, o narrador de Em busca do tempo perdido (Proust, 1992) aproveita-se para estabelecer um paralelo com a memória, que também opera de modo similar. Se, para os celtas, todos os seres humanos possuem dentro de si uma fogueira tranquila, essa chama que para nós é a alma, o processo de conexão com nossa própria alma ou com a alma das coisas aproxima-se do processo de reconexão com o passado através da memória.
Isto é dizer, se observar uma árvore que nos relembra um ente querido faz com que este se liberte, isto é também verdade para os elementos concretos que nos fazem recordar subjetiva e inconscientemente de uma experiência vivida ou de alguém que já se foi - o cheiro de uma comida, um cesto de roupas sujas, uma foto há muito esquecida no fundo de uma gaveta. Para os celtas, ao libertarmos essas almas que, antes de nós, estavam presas nesses objetos, somos recompensados: “Libertas por nós, elas venceram a morte e voltam a viver conosco. O mesmo se dá com o nosso passado” (Proust, 1992, p. 56). Sobre o passado, o narrador continua, “é trabalho baldado procurar evocá-lo, todos os esforços de nossa inteligência serão inúteis” (Proust, 1992, p. 56). O narrador associa, portanto, as almas das pessoas com as almas das lembranças, lembrando que evocar a memória a partir de uma estratégia semelhante consiste em uma das únicas formas de acessarmos aquilo que, através única e particularmente da inteligência, poderia ser considerado esquecido. Isto porque, ainda que seja extremamente e profundamente complexa a capacidade de nosso cérebro e de nossa percepção consciente acerca das coisas, dependemos ainda, em grande medida, do nosso inconsciente - de intricadas operações que levamos a cabo mesmo quando não percebemos. Surge, assim, a memória, e surge quando menos esperamos e motivadas pelas razões as mais adversas. É por sua causa, e através dela, que muitos dos mistérios de nosso passado são desvendados, a partir do estímulo de elementos surpreendentes. Concluo, portanto, emprestando a delicada reflexão que o narrador de Proust (1992, p. 55) faz, por fim, acerca do passado, que está escondido, fora de nosso domínio e de nosso alcance: “em algum objeto material, na sensação que esse objeto material nos daria, que estamos longe de suspeitar. Tal objeto depende apenas do acaso que o reencontremos antes de morrer, ou que não o encontremos jamais”.
Declaração de Disponibilidade de Dados
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Referências
- ABATI, Hugo (1999). Da Lavoura Arcaica: Fortuna crítica, análise e interpretação da obra de Raduan Nassar. 1999. 188f. Dissertação (Mestre em Letras). Área de Estudos Literários, Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes da Universidade Federal do Paraná. Curitiba: 1999.
- BERGSON, Henri (1999). Matéria e memória: Ensaio sobre a relação do corpo com o espírito. São Paulo: Martins Fontes.
- CURY, Maria (2011). Nur na Escuridão: Histórias da Imigração. Revista Litteris, n. 8. Dossiê Salim Miguel.
- MIGUEL, Salim (2004). Nur na escuridão. Rio de Janeiro: TopBooks.
- NASSAR, Raduan (1982). Lavoura Arcaica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.
- PROUST, Marcel. Em busca do tempo perdido. Rio de Janeiro: Ediouro, 1992.
- RAMOS, Danielle Cristina (2011). Memória e literatura: Contribuições para um estudo dialógico. Linguagem em (Re)vista, Niterói, a. 6, n. 11-12, p. 92-104.
- RASSIER, Luciana (2011). Identidade e Imigração em Nur na Escuridão, de Salim Miguel. Revista Litteris, n. 8. Dossiê Salim Miguel.
