Open-access ALKIMIM, Ana. O imprevisto. São Paulo: Gênio Editorial, 2023

ALKIMIM, Ana. . O imprevisto . São Paulo: Gênio Editorial, 2023

Entre o pessoal e o político: o aborto como experiência poética em O imprevisto, de Ana Alkimim

O imprevisto é o segundo livro de poemas de Ana Alkimim (Rio de Janeiro, RJ, 1981), escritora e roteirista carioca radicada na Espanha desde 2007. O livro saiu pela Gênio Editorial no final de 2023, numa edição bilíngue em espanhol e português, assim como Precipicios (2020), seu primeiro livro, publicado pela Ambulantes, editora espanhola especializada em literatura brasileira. Se o primeiro tematizava a maternidade, o desejo feminino e a condição de migrante, o segundo agora gira em torno de uma palavra-chave: o aborto.

Nesse livro, a voz poética tem como material de escrita a própria natureza íntima e a elaboração daquilo que se viveu. Contudo, Alkimim recorre não só ao próprio aborto, realizado de maneira legal e segura no país europeu, mas também às experiências de outras pessoas, muitas vezes sem final feliz, devido à criminalização do aborto, como é o caso do Brasil. Diante da constatação de uma gravidez indesejada, Alkimim deparou-se com uma ambiguidade. Apesar de ter essa escolha garantida como um direito, se estivesse no seu país de origem seria tratada como uma criminosa. Desse modo, na escrita em primeira pessoa, ainda que autobiográfica, a autora também se torna um outro. Os poemas, assim, exploram as contradições, os julgamentos (dos outros e de si), as dúvidas, as angústias e o alívio que rondam a decisão de abortar.

Exemplo dessas contradições são os poemas “interrupção voluntária da gravidez”, ao início, e “interrupção voluntária da gravidez II”, ao final do livro, que dizem respectivamente: “o aborto mesmo / legal é sempre / clandestino” (Alkimim, 2023a, p. 27) e “mesmo o aborto / ilegal é sempre / legítimo” (Alkimim, 2023a, p. 173).1 Esse par indica justamente o caráter ambíguo que cerca o aborto: por um lado, carregado de anos de julgamento moral, culpa e vergonha impostos pelo patriarcado e pela religião, e, ao mesmo tempo, uma dimensão humana fundamental, urgente e justa.

A autora filia-se a uma tradição ainda tímida na literatura brasileira (até mesmo pela sua criminalização): as chamadas narrativas de aborto com viés autobiográfico. Embora seja um livro de poemas, sua obra tem um fio condutor narrativo e parece ser uma das inaugurais no coro com outras obras em prosa, como Melhor não falar de Tatiana Salem Levy, 2024; Todas as minhas mortes de Paula Klien, 2024; e Do tamanho de um grão de N. Netta, 2025. Nesse contexto, escrever sobre esse tema, envolto pelo peso do tabu, é ainda mais necessário. Segundo a pesquisadora Isadora Pontes, “a escrita do trauma se manifesta como uma urgência da qual nasce a necessidade de transmitir a história ao outro, num processo terapêutico de repetição” (Pontes, 2017, p. 6419). Desse modo, Alkimim cria simultaneamente um texto incômodo e emocionante, retratando sua experiência e concebendo outras diferentes realidades, que poderiam ser até mesmo a sua. Ainda de acordo com Pontes, “as passagens para a escrita dessa temática têm como ponto comum a manifestação de uma necessidade de falar sobre o vivido, seja para evidenciar sua violência, seja para colocar em cena sua complexidade” (Pontes, 2021, p. 190-191). É isso que se nota na obra de Alkimim, que coloca em pauta as incongruências políticas e morais acerca desse tema, e diz em entrevista:

Deveríamos fazer uma espécie de me too do aborto, começando por nós, as mulheres que têm o privilégio de ter feito um aborto legal, sem infligir a lei, e que por isso podemos falar sem medo. Porque o que se diz sobre ele são fabulações do patriarcado ou das religiões, não são nossas histórias reais. E é sobre elas, sobre nossas histórias reais, que se deve legislar. O aborto precisa passar a ser outra coisa, inclusive para nós mulheres, e para isso precisamos nos apropriar da narrativa sobre ele (Alkimim, 2023b).

Trata-se de um livro duplo, escrito em duas línguas num trabalho de autotradução, ora do português para o espanhol, ora do espanhol para o português - prática recorrente em escritores marcados por experiências de deslocamento linguístico e/ou geográfico. A autora brasileira, morando na Espanha, explora alteridades linguísticas, apropria-se tanto da língua estrangeira quanto da língua materna e as transforma em literatura, numa prática translíngue.2 O que se percebe é uma voz que se entende entre duas línguas diferentes. Esse bilinguismo associa-se à identidade da própria voz que une essas duas subjetividades a um só “eu” - ou a múltiplos “eus” nos poemas em que se distancia da experiência pessoal e imagina as outras tantas histórias que acontecem a todo tempo. Nessa relação com as línguas e os territórios, a autora questiona as leis aprovadas por aquele e por este país, determinantes nas possibilidades de escolha nas vidas das mulheres.

Como o procedimento acontece na Espanha, a língua de lá por vezes se sobrepõe à do Brasil, preenchendo alguns versos mesmo dos poemas a princípio em português. Logo no “Preâmbulo”, lê-se:

[...] A decisão de ter filhos la
Decisión de tener hijos la
Decisión de tener hijos la
Decisión de tener hijos lalalá
E quando tê-los quando
Quando quando quando
Tê-los lalalá
Constitui um dos assuntos mais
Íntimos e pessoais que as
Pessoas enfrentam ao
Longo de suas vidas, que
Integra um âmbito essencial de la
Autodeterminação individual [...]
(Alkimim, 2023a, p. 23-25).

O poema, com uma linguagem descritiva, fria e impessoal, é, de repente, invadido por versos que brincam com a sonoridade, o ritmo e os sentidos. O “la”, artigo definido feminino em espanhol, o determinante da mulher, aparece repetidas vezes no fim dos versos, até converter-se em “lalalá”, expressão infantil que remete à cantiga e à zombaria, comum a ambas as culturas. Depois, esse canto sem letra vem com um complemento numa dura crítica à legislação do Brasil no poema “Código Penal Brasileiro”:

[...] Título I - dos crimes
Contra a Pessoa
Capítulo I - dos crimes
Contra a Vida
[...] Desde trinta e um
De dezembro de mil
Novecentos e
Quarenta até catorze
De agosto de dois mil
Dois mil dois mil dos mil
E vinte e
Três.
Lalalá.
Larari
(Alkimim, 2023a, p. 75-81).

E reaparece mais à frente no poema “na Espanha”: “[...] por lo tanto / por la lei, na Espanha, // em dois mil e vinte e dois // não me explico. // Lalalá” (Alkimim, 2023a, p. 87), contrapondo-se logo em seguida ao poema “Vulgarmente conhecida como Lei do aborto no Brasil”: uma página em branco, que se encerra com um único verso tachado “Lalalá” (Alkimim, 2023a, p. 89). Dessa forma, em oposição ao sistema de saúde espanhol, fica evidente como a discussão dos direitos reprodutivos e da saúde sexual da mulher no Brasil está nesse vazio, censurada.

Com ritmo e linguagem autêntica, nesse jogo entre línguas, as palavras de O imprevisto às vezes deslizam, às vezes torturam. Alkimim vasculha o dicionário, expandindo os sentidos lexicais, como é o caso de “regra”, palavra polissêmica usada tanto na esfera da lei quanto na do ciclo menstrual. Mesmo breves, poemas intitulados com nomes de brasileiras, como “maria” - “agulhas de tricô, / seguido de morte” (Alkimim, 2023a, p. 35) -, “gabriela” - “remédio pelo correio, / seguido de filho sem orelha” (Alkimim, 2023a, p. 105) - e “waldineia” - “não encontrou solução, / seguido de suicídio” (Alkimim, 2023a, p. 131) -, denunciam, de maneira dura e franca, as graves consequências da criminalização do aborto.

A obra apresenta, de maneira densa e poética, diferentes faces do aborto, suas questões legais, subjetivas, corporais e, sobretudo, reais, presentes e concretas. Partindo do seu ponto de vista, a escritora revela, por meio de repetições e metáforas, a decisão de, tendo já parido três filhos, interromper essa quarta gestação e parir palavras:

[...] finalmente me deitei para
dormir mas não dormi
não desejava dormir
como quem não
desejava andar de bicicleta
como quem não
desejava tomar um sorvete
como quem não
desejava ser mãe outra vez
como quem não desejava
ser mãe outra vez como quem
não desejava ser mãe outra vez
como quem não desejava ser mãe outra vez
[...]
(Alkimim, 2023a, p. 95-97).

Por último, encerra o livro com seu próprio relato no poema “ana”: “aborto legal, / seguido de livro. // Espanha, / 2022. / Lalalá” (Alkimim, 2023a, p. 175). A autora, assim, firma um pacto autobiográfico, unindo o nome da capa ao nome da personagem, e assinando com data e local, podendo finalmente contar, ou cantar, livre.

Declaração de Disponibilidade de Dados

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Referências

  • ALKIMIM, Ana (2023a). O imprevisto. São Paulo: Gênio Editorial. 180 p.
  • ALKIMIM, Ana (2023b). 'Não devo explicações sobre meu aborto', diz brasileira em livro na Flip. [Entrevista concedida a] Jamil Chade. UOL. 16 nov. 2023. Disponível em: Disponível em: https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/2023/11/16/nao-devo-explicacoes-sobre-o-aborto-diz-brasileira-em-livro.htm Acesso em: 3 set. 2025.
    » https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/2023/11/16/nao-devo-explicacoes-sobre-o-aborto-diz-brasileira-em-livro.htm
  • LAVELLE, Patrícia (2021). Maternizar a outra língua: tradução, autotradução e criação poética. Alea: Estudos Neolatinos, Rio de Janeiro, v. 23, n. 2. p. 179-199, maio-ago. Disponível em: Disponível em: https://www.scielo.br/j/alea/a/8jT4Jd4xWSR6sdpdcftXwfB/ Acesso em: 10 jan. 2025.
    » https://www.scielo.br/j/alea/a/8jT4Jd4xWSR6sdpdcftXwfB/
  • PONTES, Isadora de Araújo (2017). Representações do trauma nas narrativas sobre o aborto. In: CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC, 15, Rio de Janeiro. Anais [...]. Rio de Janeiro, v. 4, p. 6418-6429, ago.
  • PONTES, Isadora de Araújo (2021). Narrativas do aborto: corpos, memória e transmissão. 2021. 263f. Tese (Doutorado em Estudos de Literatura) - Universidade Federal Fluminense, Niterói.
  • 1
    Embora se trate de uma publicação bilíngue, privilegiou-se nesta resenha as citações em língua portuguesa.
  • 2
    Segundo a escritora e pesquisadora Patrícia Lavelle, trata-se de uma prática translíngue essa expressão feita em (ou entre) uma língua tardiamente aprendida. Para ver mais, recomenda-se o ensaio “Maternizar a outra língua: tradução, autotradução e criação poética” (Lavelle, 2021).
  • Editora
    Nivana Ferreira da Silva

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Abr 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    20 Set 2025
  • Aceito
    15 Fev 2026
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Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, Programa de Pós-Graduação em Literatura da Universidade de Brasília (UnB) Programa de Pós-Graduação em Literatura, Departamento de Teoria Literária e Literaturas, Universidade de Brasília , ICC Sul, Ala B, Sobreloja, sala B1-8, Campus Universitário Darcy Ribeiro , CEP 70910-900 – Brasília/DF – Brasil, Tel.: 55 61 3107-7213 - Brasília - DF - Brazil
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