Open-access Gilberto Freyre na imprensa: engajamento político e intelectual no golpe e na ditadura militar (1962-1972)

Gilberto Freyre in the Press (1962–1972): Political and Intellectual Engagement in the 1964 Coup and the Civil–Military Dictatorship

Gilberto Freyre en la prensa (1962–1972): compromiso político e intelectual con el Golpe de 1964 y la dictadura civil-militar

RESUMO

Este artigo analisa o engajamento político e intelectual de Gilberto Freyre em favor da ditadura militar, com especial atenção à sua atuação na grande imprensa. O intelectual não apenas apoiou o golpe de 1964, como também defendeu e participou das atividades políticas e institucionais do regime, além de colaborar com a Aliança Renovadora Nacional, partido que reunia os apoiadores civis da ditadura. Para examinar sua intensa presença na imprensa, foram mobilizadas publicações em veículos como Diário de Pernambuco, O Cruzeiro, O Estado de S. Paulo, Veja e Playboy, que ofereceram um conjunto expressivo de fontes para investigar seu engajamento na ditadura civil-militar.

PALAVRAS-CHAVE:
Gilberto Freyre; Imprensa; Golpe militar; Ditadura civil-militar; ARENA (o partido político)

ABSTRACT

This article analyzes Gilberto Freyre’s political and intellectual engagement in support of the military dictatorship, with particular attention to his role in the mainstream press. The intellectual not only endorsed the 1964 coup, but also defended and took part in the political and institutional activities of the regime, in addition to collaborating with the Aliança Renovadora Nacional, the party that brought together the civilian supporters of the dictatorship. To examine his strong presence in the press, publications from outlets such as Diário de Pernambuco, O Cruzeiro, O Estado de S. Paulo, Veja, and Playboy were mobilized, providing a substantial body of sources for investigating his engagement with the civil–military dictatorship.

KEYWORDS:
Gilberto Freyre; Press; Military coup; Civil–military dictatorship; ARENA (the political party)

RESUMEN

Este artículo analiza el compromiso político e intelectual de Gilberto Freyre a favor de la dictadura militar, con especial atención a su actuación en la gran prensa. El intelectual no solo apoyó el golpe de 1964, sino que también defendió y participó en las actividades políticas e institucionales del régimen, además de colaborar con la Aliança Renovadora Nacional, partido que agrupaba a los partidarios civiles de la dictadura. Para examinar su intensa presencia en la prensa, se movilizaron publicaciones de medios como Diário de Pernambuco, O Cruzeiro, O Estado de S. Paulo, Veja y Playboy, que ofrecieron un conjunto significativo de fuentes para investigar su compromiso con la dictadura cívico-militar.

PALABRAS CLAVE:
Gilberto Freyre; Prensa; Golpe militar; Dictadura cívico-militar; ARENA (partido político)

Introdução

Oobjetivo deste artigo é examinar o engajamento político e intelectual de Gilberto Freyre em relação ao golpe de 1964 e sobretudo no regime ditatorial que se seguiu, com especial atenção à sua ampla e ainda pouco estudada atuação na grande imprensa, sem perder de vista sua produção intelectual em livros que deram identidade e reputação à sua obra. A imprensa periódica constitui rico manancial de informação e narrativa sobre um tempo em disputa, pois seus textos respondem às conjunturas imediatas e às disputas do momento. Já os livros, mais elaborados e atravessados por mediações editoriais, expressam sentidos políticos potencialmente mais duradouros.

Todo intelectual que escreve para o público produz sentidos políticos múltiplos, a depender da conjuntura, dos contextos e da historicidade dos textos e dos tempos. Aqueles que alcançam ampla audiência, por meio de livros e periódicos de grande circulação, assumem inevitável dimensão política. No caso de Freyre – intelectual público, empenhado não apenas em formular uma interpretação do Brasil, mas também em intervir no debate nacional –, essa dimensão é ainda mais importante.

Mais do que esclarecer a participação de Freyre no golpe de 1964 – tema já consolidado pela historiografia –, interessa investigar seu engajamento ao longo do regime militar, examinando os nexos entre sua atuação em defesa da ordem vigente e o conjunto de sua produção intelectual. Embora a obra das décadas de 1930 e 1940 seja de inquestionável relevância, com caráter inovador reconhecido pela crítica especializada, é necessário compreender a historicidade da trajetória pública e intelectual de Freyre, que continuava ativo nas décadas de 1960 e 1970, como representante da sociedade civil em defesa do regime e muitas vezes a serviço dele.

O crescente anticomunismo e o apoio ao golpe

Oapoio de Freyre ao golpe de 1964 é conhecido e está bem documentado, sobretudo nos artigos de Barreto (2004) e Lima (2025). Seu apoio à “revolução” – inclusive no plano da linguagem – é incontroverso. Apenas cinco dias após a derrubada de João Goulart, Freyre publicou um importante artigo no Diário de Pernambuco, intitulado “Forças Armadas: uma força suprapartidária na vida pública brasileira”:

Diante de nova e saudável presença das Forças Armadas na vida pública brasileira, em momento excepcionalmente crítico para as instituições brasileiramente democráticas no nosso país – presença supra-partidária e supra-regional e desinteressada de vantagens do poder político por parte dos militares

(Freyre, 1964a).

O texto defende a presença das Forças Armadas ao longo da República, inclusive a recente tomada de poder. No entanto, o apoio mais contundente viria poucos dias depois, quando Freyre participou da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, realizada no Recife em 9 de abril, quando proferiu em praça pública um longo e contundente discurso em apoio ao golpe. O evento emulava a marcha ocorrida em São Paulo em 19 de março, ainda antes do golpe, já sinalizando a força dos setores mais conservadores da sociedade, mobilizados contra Goulart. No dia seguinte à marcha do Recife, o Diário de Pernambuco publicou o discurso. Observemos suas palavras, proferidas na Praça da Independência:

Movimento que há de tornar histórico o ano de 1964 e reafirmar, na história do nosso país, a aliança profunda, nos momentos mais agudos de crises nacionais, das Forças Cívicas e das Forças Armadas. São forças que, nesses difíceis momentos, se completam para esforços em conjunto de salvação pública. Nós estamos empenhados, nestes dias decisivos, num movimento brasileiríssimo, de renovação, como o atual, com as Forças Militares, unidas às Cívicas e lideradas por soldados do brio de um Humberto Castelo Branco e da bravura de um Justino Alves Bastos e de um Mourão, da fibra de um Dutra e de um Costa e Silva, da firmeza de um Kruel e de um Mamede, da constância de um Cordeiro e de um Nelson […].

Aqui nos unimos nesta tarde inesquecível homens e mulheres, católicos e evangélicos, espiritistas e israelitas, teosofistas e umbandistas, jovens e velhos, para dizermos alto e claro que temos fé em Deus e confiança no Brasil […]. Os brasileiros de amanhã dirão dos de hoje: eles salvaram para nós o Brasil quando mais ameaçado de deixar de ser Brasil para tornar-se nova Hungria, nova Cuba, nova e abjeta Colônia de império totalitário. Aqui estamos, unidos, para dizer basta ao Comunismo colonizador; ao imperialismo Comunista; a todos os imperialismos […].

(Freyre, 1964b: 4).

O trecho, de inconfundível verve freyriana, é decisivo para compreender sua adesão ao golpe. Sobressaem referências a seu brasileirismo miscigenador e integrador, aberto à religiosidade, inclusive de matriz afro-brasileira. Observa-se o uso de vocabulário associado à esquerda, como o termo “imperialismo”, mas aqui aplicado ao comunismo.

É importante lembrar que, nas décadas de 1930 e 1940, o próprio Freyre fora diversas vezes acusado de ser comunista – seja por seu declarado adversário, Agamenon Magalhães, interventor durante o Estado Novo, que chegou a prendê-lo e a fichá-lo no Departamento de Ordem Política e Social (Dops), seja pelos usineiros de Pernambuco, incomodados com suas críticas ambientais e sociais. No contexto dos anos 1960, entretanto, seja por convicção pessoal, seja por cálculo político, ou por ambos, é o próprio Freyre quem mobiliza o discurso anticomunista. No referido discurso, critica “os agentes comunistas a serviço de estrangeiros, dentro das próprias universidades e de organizações federais como a Sudene” (Freyre, 1964b: 4). A referência à Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), então dirigida por Celso Furtado, sugere a presença de disputas políticas locais em Pernambuco.

Logo após o golpe, a Sudene passou por um processo de expurgo. Furtado, então presidente, foi exonerado. Freyre, membro do conselho deliberativo, divergia profundamente do modelo de desenvolvimento defendido pela instituição. Como observa Meucci (2006), a Sudene vinculava-se a um projeto de desenvolvimento regional voltado à homogeneização capitalista, com ênfase na industrialização e na urbanização. Além da modernização, interessava à instituição o combate à desigualdade. Já Freyre defendia conciliar o desenvolvimento econômico com a preservação da diversidade regional. Sensível ao mundo rural e às tradições, propunha uma modernização capaz de articular rural e urbano, ideia a que chamava “rurbanização”, inclusive com atenção à preservação ambiental (Froehlich, 2000).

Para compreender a participação de Freyre no golpe deve-se considerar seu profundo envolvimento nas lutas políticas pernambucanas. Após o Estado Novo, em 1946, foi eleito deputado federal pela União Democrática Nacional (UDN), com apoio inclusive de setores progressistas, especialmente estudantes. No entanto, nos anos 1960, o cenário era outro: emergia a liderança de Miguel Arraes, prefeito do Recife entre 1960 e 1962 e depois governador pelo Partido Social Trabalhista (PST), com o apoio do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e de setores à esquerda do Partido Social Democrático (PSD). Freyre opôs-se a Arraes e apoiou a “limpeza” de instituições de educação e cultura no estado, chegando a indicar nomes de sua confiança (Lima, 2025).

Um exemplo dessas disputas foi sua oposição, com grande parte da direita recifense, a João Alfredo Costa Lima, então reitor da Universidade do Recife, futura Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Em 3 de maio de 1964, apenas um mês após a “revolução”, publicou no Diário de Pernambuco um artigo atacando o “comunista” João Alfredo, exemplo de “infiltração comunista no Brasil” (Freyre, 1964c). Durante a gestão de João Alfredo, fora implantado o Serviço de Extensão Cultural, dirigido por Paulo Freire, que contava com uma rádio universitária, uma campanha de alfabetização e o periódico Estudos Universitários (Motta, 2014). A universidade foi alvo privilegiado dos ataques do campo anticomunista do Recife, no qual Freyre era uma liderança importante1.

Em “Pluralismo democrático” – publicado na revista O Cruzeiro de 5 de setembro de 1964, Freyre se propôs a responder à seguinte pergunta: “há estudantes marxistas nos Estados Unidos?”. Sua resposta buscou negar ou minimizar a presença da esquerda naquele país e considerar o marxismo “arcaico” e “estático”.

Estudantes propriamente marxistas, duvido que existam naquele país em número significativo. Trata-se de um “ismo” já arcaico. Mas não seria de admirar que houvesse de fato pequenos grupos de estudantes arcaicamente marxistas em universidades dos Estados Unidos […].

Nada degrada mais um intelectual ou um estudante que se tornar adepto de qualquer dessas soluções, aderindo a um “ismo” totalitário e estático, além de arcaico. Melancolicamente arcaico

(Freyre, 1964d: 107).

Os articuladores do golpe, tanto civis quanto militares, viviam um momento de alarme e reação ao que percebiam como um processo de esquerdização em curso no país. No meio urbano, as direitas se incomodavam com a politização nas universidades e nas artes, sobretudo entre os jovens; no meio rural, o temor vinha dos movimentos camponeses, como as Ligas Camponesas no Nordeste. Grassava o alarmismo quanto à influência das esquerdas na vida social. O anticomunismo de Freyre na imprensa integrava, assim, um movimento mais amplo da direita brasileira. Sua credibilidade, ainda notável, foi decisiva na oposição à “ameaça vermelha”, pois partia de um intelectual de prestígio internacional, capaz de contrabalançar a influência das esquerdas, em especial a universitária.

Em artigo intitulado “A Escola Superior de Guerra: possível extensão do seu programa de excursões”, publicado no Cruzeiro de 30 de janeiro de 1960, Freyre defende o “sadio brasileirismo” da Escola Superior de Guerra (ESG), em contraposição aos nacionalismos anticoloniais assumidos pelas esquerdas. A referência ao Oriente e à África é reveladora: Freyre exaltava a “civilização brasileira”, que via como original, democrática e mestiça. Criticava o “terceiro-mundismo” e o “nacionalismo sectário” identificados com a esquerda. Propunha uma espécie de solidariedade lusotropical, que incluía a defesa de Portugal – então uma ditadura colonialista de direita. Nessa perspectiva, via na ESG uma possível aliada.

Ora, para êsses aspectos da missão brasileira no mundo moderno […] tenho encontrado sempre, da parte dos companheiros de estudos brasileiros, nacionais e internacionais, da Escola Superior de Guerra, a melhor das compreensões. Se os “nacionalistas” sectários se vêm fechando a essa compreensão, é que neles o espírito de seita política vem sendo, talvez, maior que o sentido não só político como cultural de nacionalidade, no que êsse sentido deve importar de relações do Brasil com as nações e quase-nações mais profundamente afins da brasileira

(Freyre, 1960: 76).

Por “quase-nações” o autor referia-se às colônias africanas, como Angola e Moçambique. Na prática, sugeria que o “mundo que o português criou” se tornasse objeto de atenção dos órgãos estratégicos do Exército brasileiro. Para Freyre (1960: 76), “militares e civis, juntos”, poderiam promover excursões ao Oriente e à África, aproximando “os estagiários da Escola Superior de Guerra das civilizações mais profundamente afins da brasileira: as lusitanas das áreas tropicais”. Ao defender a ESG, Freyre também buscava influenciá-la. Sua proposta de inserção internacional do Brasil rejeitava o alinhamento automático com os Estados Unidos – diferenciando-o dos liberais –, embora mantivesse a oposição ao “comunismo russo-soviético”.

Em artigo de 1962 intitulado “Misconceptions of Brazil” e publicado na Foreign Affairs, revista do Council on Foreign Relations, Freyre reafirmava posições já presentes em Nação e Exército, obra de 1949. Descrevia as Forças Armadas como uma “presença suprapartidária, supra-regional e desinteressada das vantagens do poder político”. Via o Exército como uma das “instituições brasileiramente democráticas” e o Brasil como uma “potência democrática” (Freyre, 1962: 453-462). Freyre insistia na complexidade do Brasil, recusando a oposição “simplista” entre direitistas e esquerdistas, embora reconhecesse, criticamente, a existência de forças reacionárias e “feudais” ligadas ao latifúndio. Argumentava que a herança portuguesa e o passado monárquico-parlamentar diferenciavam o Brasil do caudilhismo hispano-americano. O Exército surgia como uma força nacional, “suprapartidária”, modernizante e pacificadora, fiel às “tradições brasileiras”.

Ainda que em 1962 não estivessem dadas as condições para o golpe, pode-se argumentar que as palavras de Freyre contribuíram para legitimar, na opinião pública nacional e internacional, a ideia de uma intervenção militar “em nome da ordem”, dando ao Exército um verniz de aceitabilidade aos olhos dos operadores diplomáticos norte-americanos e dos setores mais intelectualizados da opinião pública brasileira.

Às vésperas do golpe de 1964, a reputação nacional e internacional de Freyre ainda era significativa, embora seu apoio à ditadura colonialista de Salazar já lhe rendesse crescentes críticas, sobretudo entre a esquerda, e mesmo em círculos liberais. Ainda era o intelectual brasileiro mais traduzido no exterior, e Casa-Grande & Senzala e outras obras continuavam a ser reeditadas. Nesse contexto, a chamada escola paulista de sociologia, articulada em torno da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (USP), especialmente sob a liderança de Florestan Fernandes, formulava críticas persistentes, por vezes simplificadas, à obra de Freyre, questionando os fundamentos de sua interpretação do Brasil e, em particular, a tese da democracia racial. Era clara sua perda de prestígio à esquerda do espectro político brasileiro.

Convém lembrar que não se tratava apenas de uma disputa política, mas também de um embate epistemológico no interior da sociologia como campo de saber. Florestan e seu grupo buscavam contrapor-se ao ensaísmo histórico-sociológico de Freyre, marcado por estilo literário e interdisciplinar que combinava história, antropologia, etnografia, memórias pessoais e observação participante. Em contraste, os uspianos defendiam métodos sistemáticos, recortes precisos e o uso de estatísticas e análises quantitativas. Teoricamente, aproximavam-se do marxismo universitário, comprometido com a consolidação da sociologia acadêmica segundo padrões científicos internacionalmente reconhecidos (Miceli, 1989).

A animosidade entre Freyre e os sociólogos da USP acentuou-se após o golpe, quando eles tomaram caminhos radicalmente opostos, embalados pelo clima da época. Os uspianos na oposição à ditadura, Freyre a favor dela (Secco, 2023).

Em 1966, Castello Branco criou o Conselho Federal de Cultura (CFC), reunindo nomes como Freyre, Rachel de Queiroz, Afonso Arinos e Pedro Calmon. Para os intelectuais paulistas estava claro que Freyre, além de apoiar o golpe, se alinhava ao regime (Maia, 2010). No mesmo ano, Otávio Ianni chegou a classificar Freyre como “um escritor racista” (Ianni, 1966: 6). As divergências extrapolavam o campo acadêmico ou intelectual e tornavam-se abertamente políticas.

Não há dúvidas de que o engajamento de Freyre na ditadura lhe trouxe vantagens, especialmente em Pernambuco, mas também teve considerável custo em termos de reputação intelectual. Para os limites deste artigo, importa reconhecer as circunstâncias políticas e teóricas, tanto nas ciências sociais quanto na vida pública, que levaram Freyre para o campo conservador, o que ajuda a compreender seu apoio ao golpe de 1964 e ao regime que o sucedeu.

O “Exército da Nação”

Oapoio de Freyre ao golpe de 1964 é incontroverso, mas cabe refletir sobre as razões mais profundas desse alinhamento. No artigo “Forças Armadas: uma força suprapartidária na vida pública brasileira”, publicado no Diário de Pernambuco em 5 de abril de 1964, reaparece a tese freyriana de que as Forças Armadas constituiriam uma instância “suprapartidária”, capaz de arbitrar conflitos “facciosos” em nome dos interesses “autenticamente nacionais”:

Não são poucos […] que estão desejando saber de brasileiros se há de fato uma “constante” – já sugerida por um sociólogo brasileiro – segundo a qual as Forças Armadas do Brasil vinham desempenhando na República função outrora desempenhada – neste ponto a sugestão é de Joaquim Nabuco – no nosso país pela Coroa. Isto é, a função de força suprapartidária cuja intervenção na vida política ocorreria apenas, de modo decisivo e superior, em momentos de agudo desajustamento internacional ou interpartidário e para sobrepor aos interesses facciosos em conflito ou em choque extremado, o interesse ou a conveniência autenticamente nacional

(Freyre, 1964a: 4).

Para Freyre, tanto a Coroa, no Império, quanto as Forças Armadas, na República, teriam sido instituições estabilizadoras, capazes de conter excessos e facções e defender os interesses nacionais, acima de qualquer grupo social. Encarnariam a própria nacionalidade, situando-se acima de regiões, classes, partidos e interesses particulares (Mello, 2021). Essas ideias já estavam formuladas em Nação e Exército (Freyre, 1949), escrito quando Freyre era deputado pela UDN. Freyre enxergava como positiva a atuação do Exército desde o declínio do Império, por seu caráter “nacional” e “democrático”, alinhado a sua tese da “democracia racial”. Destacava, como exemplo, a recusa de soldados nas décadas finais do escravismo a agirem como “capitães do mato” na captura de escravizados fugidos:

Desejavam os proprietários de negros que oficiais do Exército fizessem as vezes dos já impotentes capitães-do-mato de seu serviço particular. […] Recusando-se a tal serviço, o Exército recusou ser um “subexército”, para melhor continuar a ser normal e dignamente Exército: Exército da Nação

(Freyre, 1949: 22).

A mestiçagem estaria bem representada no Exército, formado, ao menos nas patentes inferiores, por brasileiros de todos os grupos étnicos. Freyre descreve a instituição como “genuinamente brasileira”, tal como em seu mito de origem, na Batalha dos Guararapes, no século XVII, quando indígenas, africanos e senhores de engenho teriam se unido contra o invasor estrangeiro – o holandês, herege e protestante (Castro, 2002)2. Em Nação e Exército (Freyre, 1949: 34), as Forças Armadas surgem como fonte de inspiração nacional, por garantir a estabilidade e os interesses do país. O caráter “nacional” e “democrático” do Exército teria se consolidado na década de 1930, ao exercer papel moderador e ativo contra os extremismos. Não é possível aprofundar aqui o tema, mas importa notar que sua visão positiva do Exército antecede as agitações políticas dos anos 1960.

Em “Forças Armadas e outras forças” – artigo publicado em 1966 na revista A Defesa Nacional, vinculada ao Ministério da Guerra –, Freyre defendeu a solução monárquica adotada no início da vida nacional, por ter garantido estabilidade à jovem nação (Freyre, 1966a). Reivindicou a centralidade da monarquia para a unidade nacional, tese cara ao Partido Conservador, no Império, que se opôs ao federalismo liberal, considerado um risco à unidade nacional. Os militares, ao proclamarem a República, teriam “brasileiramente” contido os excessos cientificistas dos positivistas, aos quais tinha declarada antipatia. Freyre exaltou ainda o monarquista Duque de Caxias como símbolo das virtudes nacionais e atribuiu a sobrevivência do legado imperial à atuação de antigos monarquistas, como o Barão do Rio Branco e Joaquim Nabuco. A Proclamação da República teria sido uma “revolução brasileiramente branca”, pacífica e conciliatória. Em defesa do espírito de conciliação, elogiou novamente os militares, buscando afastar o “fantasma do militarismo” à maneira das repúblicas hispano-americanas (Freyre, 1966a: 15).

Freyre faz referência ao ethos “conservador revolucionário” do Brasil – e de si próprio, como reiterou em diversas ocasiões. O país tenderia a soluções “revolucionário-conservadoras”, mais que a posturas de “conservadores absolutos” ou “revolucionários radicais” (Freyre, 1966a: 15). A rigor, Freyre defendia a tradição que fez do Brasil, Brasil, com destaque para a atuação dos militares. Como se observa na citação a seguir, faz veemente apologia do “caxiismo”, em alusão a Caxias, elogiando os militares e classificando seus opositores como “antibrasileiros”:

Que vem a ser caxiismo? Em resumo: aquela consciência de dever, aquele senso de responsabilidade, aquela dedicação ao serviço público, aquela sensibilidade à causa nacional que constituem, no Brasil, um conjunto ético de nítida origem militar; vindo de um Caxias que, entretanto, foi também homem público; e, na vida pública tão dedicado ao serviço ao Brasil quanto na militar. Ridicularizado o caxiismo não só pelos aproveitadores dos dinheiros públicos, como por todos aquêles que irresponsavelmente, levianamente, parasitariamente se tem extremado em servir-se do Brasil sob a falsa aparência de servirem ao Brasil, essa tentativa de descredito de qualidades essenciais ao exercício de qualquer função, da mais alta à mais modesta, de interesse nacional, é significativa. Nela se vem exprimindo há anos um antibrasileirismo inseparável do anticaxiismo; um falso civilismo; um caviloso antimilitarismo

(Freyre, 1966a: 18).

Como se vê, Freyre constrói um discurso de forte apoio simbólico e concreto às Forças Armadas. A defesa do “caxiismo” é exemplo claro, retratando os adversários como corruptos, “antibrasileiros”, “parasitas” e “aproveitadores”. Em sua coluna no Cruzeiro de 18 de setembro de 1965, defendeu veementemente a “revolução” de 1964, que destituiu um governo que, segundo ele,

vinha notabilizando por desmandos evidentemente contrários aos interêsses nacionais – quer quanto a infiltrações comunistas, ou paracomunistas, por êle permitidas e até facilitadas, na administração, nas Forças Armadas, nas universidades, no Itamaraty, quer quanto a desfalques, negociatas e desvios de dinheiros públicos, em benefício de particulares ou de facções políticas

(Freyre, 1965: 75).

Trata-se de defesa explícita do golpe, cuja retórica se alinha estreitamente ao discurso dos militares e de seus aliados civis – entre os quais o próprio Freyre. Para o sociólogo, a “revolução” se insere na continuidade do processo histórico republicano, em que o Exército sucede à Coroa como fator de estabilidade, intervindo de forma extrema, porém necessária, para conter conflitos e preservar o Brasil. Essa postura revela-se mais orgânica do que um simples apoio ao golpe ou ao regime subsequente por razões de ocasião: para Freyre, o país constituía uma experiência histórica bem-sucedida, a maior nação tropical do mundo, criativa, mestiça e capaz de rica convivência multiétnica. Seu apoio pode ser entendido como uma defesa do Brasil profundo, ameaçado pelas turbulências internacionais da época, em especial as ameaças “russo-soviéticas”.

Gilberto Freyre: um intelectual do regime

Se, por um lado, o ativismo de Freyre na imprensa, como intelectual público favorável ao regime, pode ser visto como seu principal serviço à ditadura, é preciso também considerar sua atuação no CFC, criado em 1966 por Castello Branco. Freyre permaneceu no órgão até 1975. Coube ao CFC elaborar o Plano Nacional de Cultura e coordenar as políticas do Ministério da Educação e Cultura. No contexto da ditadura, o conselho visava promover e dar visibilidade à cultura dita nacional, em consonância com o projeto autoritário de Estado, numa perspectiva que os conselheiros chamavam de “ação patriótica”. Figura de reconhecido prestígio, o intelectual pernambucano desempenhou um papel decisivo na legitimação simbólica do órgão.

Segundo Maia (2010), a metáfora dos “cardeais da cultura nacional” expressa o lugar de autoridade conferido aos intelectuais do CFC, que se viam como guardiões dos valores essenciais da nacionalidade. A ideia de que cabia ao intelectual mediar a relação entre povo e Estado, atribuindo sentido à tradição e à história, ocupava posição central no discurso do conselho, sobretudo na Câmara de Ciências Humanas. Ao lado de conselheiros como Pedro Calmon, Ariano Suassuna e Rachel de Queiroz (Maia, 2010: 19-26), Freyre reforçava um projeto de cultura nacional inspirado em sua leitura da formação brasileira, voltado à conciliação entre unidade e diversidade regional, à exaltação das tradições luso-brasileiras e à valorização da mestiçagem e da convivência racial como fundamentos da identidade nacional.

Anteriormente, Freyre havia se empenhado em difundir para o grande público, pela imprensa, uma imagem do país fundada na tese da democracia racial como traço essencial da formação brasileira. Essa concepção foi decisiva para consolidar, no âmbito do CFC, uma ideia de “cultura nacional” enraizada em sua visão de um Brasil mestiço, de herança ibero-católica e tropical, exemplo de convivência relativamente harmoniosa – perspectiva que silenciava as contradições raciais e sociais do país. Como observa Maia (2010: 111), “Gilberto Freyre representava, para o Conselho, a síntese de um pensamento conservador e, ao mesmo tempo, inovador, ao propor a valorização do passado como chave para o futuro”.

Cabe observar que, em paralelo à sua atuação em um órgão de Estado, Freyre mantinha intensa atividade na imprensa em defesa do regime. Em 1967, engajou-se em polêmica com um “arcebispo do Nordeste” – não nomeado, mas certamente Dom Hélder Câmara. Em sua coluna no Cruzeiro de 11 de março de 1967, Freyre criticava a atuação “facciosamente política” do referido arcebispo:

Não me parece que a um bispo ou a um arcebispo da Igreja Católica toque o direito de assumir tais atitudes. O movimento de 31 de Março de 1964 não podia merecer senão o respeito de bispos e de arcebispos, de sacerdotes e leigos católicos do Brasil. Não foi faccioso. Não foi golpe militar. Não foi explosão de caudilhismo. E sim um movimento cívico […] em benefício da nação brasileira

(Freyre, 1967: 64).

A passagem ilustra bem seu pensamento, que interpretava o golpe e o regime como um “movimento cívico”, rejeitando qualquer voluntarismo militar e atribuindo às Forças Armadas apenas a função prática de concretizar a “vontade nacional”.

Em 1972 – período marcado por maior repressão da ditadura –, Freyre intensificou seu ativismo na imprensa, como evidencia o longo texto publicado no Estado de S. Paulo, jornal alinhado ao regime. Na ocasião, o senador Filinto Müller, ferrenho anticomunista e presidente da Aliança Renovadora Nacional (Arena) entre 1969 e 1973, solicitou a Freyre e ao reitor da USP, Miguel Reale – também alinhado ao regime –, contribuições programáticas para o partido. Freyre atendeu ao pedido, e o Estadão publicou o documento na íntegra em 4 de junho de 1972.

Intitulado “Gilberto Freyre faz sugestões à Arena” e elaborado em parceria com colaboradores do então Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisa Social – hoje Fundação Joaquim Nabuco –, sediado no Recife, o texto critica o ordenamento político liberal, considerado incompatível com as “constantes brasileiras”, ou seja, com a formação histórica do país. Segundo Freyre, um programa partidário deveria valorizar o “passado útil”, refletindo sua visão positiva da trajetória histórica e cultural brasileira.

Impõe-se aos brasileiros de hoje mais conscientes dos destinos nacionais e das constantes de sua formação, atuar, como pode atuar a Arena, como partido político eminentemente construtivo nas suas atitudes, junto aos responsáveis específicos a favor da definição, perante compatriotas e estrangeiros, de uma imagem-síntese desses destinos e dessas constantes. Constantes válidas ou valiosas: “passado útil”, como se poderia dizer

(Gilberto […], 1972: 5).

Freyre defendia que as contribuições ao programa da Arena, partido da “revolução”, deveriam considerar o Brasil como uma nação marcada por uma dinâmica etnocultural “além-raça”, ecologicamente adaptada aos trópicos, culturalmente unificada e regionalmente diversa:

Sob esse critério é que nos parece caber a um partido político brasileiro construtivamente revolucionário procurar influir, junto aos órgãos governamentais adequados, no sentido de afirmar-se o Brasil, perante si mesmo e perante as demais nações, ativamente consciente de valores que lhe são próprios entre os quais, sua crescente superação de diferenças raciais pela crescente tendência para se firmar o seu povo uma além-raça. […] Através de técnicas de desenvolvimento em harmonia, quer com sua ecologia, de país em grande parte tropical, e ainda desigual na distribuição de sua população em espaço, que para ser, quer física, quer socialmente uno, deve ser atendido nas suas diferentes características e necessidades regionais (Gilberto […], 1972: 5).

A contribuição de Freyre para a Arena está alicerçada em sua interpretação do Brasil, que remonta à década de 1930, mas que, como não poderia deixar de ser, não é imune à historicidade. Nas décadas de 1960 e 1970, já sob a égide da ditadura que se apropria, com seu consentimento, de suas teses, ideologizando-as, o significado de sua interpretação já não é o mesmo. O que antes tinha frescor interpretativo torna-se conservador. Ainda assim, convém notar que suas teses, já adaptadas ao presente – e à ditadura –, não se desfazem de seus traços mais marcantes, como a ideia da convivência entre diferentes, ou mesmo contrários, que, em Casa-Grande & Senzala, chamava de “equilíbrio de antagonismos”. Essa perspectiva explica por que Freyre defendia o diálogo do regime com “estudantes” e “proletários”. Ele estava incomodado com a excessiva repressão a esses setores e a consequente radicalização da divisão do país. Por isso, propunha um diálogo “sem temor” entre o regime, de um lado, e os trabalhadores e estudantes, de outro, desde que não fosse sob a égide de “balofas ideias liberais” ou marxistas, mas de acordo com o “pendor” brasileiro à “tolerância”, tão próprio às nossas “constantes”:

Entendemos que a Arena necessita, como partido revolucionário, de ser um claro porta-voz da consciência nacional apelando para a unidade e solidariedade de todos os brasileiros, sem temer qualquer um deles. Sem temer proletários, que em potencial, está demonstrado, que são, há anos dentro e fora do Brasil, uma força estabilizadora. Sem temer estudantes ou jovens e suas reivindicações. Ao refletir as ideias da revolução de 64, a Arena será o construtor de uma situação política que possa servir, no futuro, para ampliar, entre os brasileiros, instituições brasileiramente democráticas. Instituições democráticas que devem ser entendidas dentro de um sentido novo: despidas de balofas ideias liberais, mas baseadas no respeito àquele sentimento de liberdade, àquele apreço à diversidade, àquele pendor para a tolerância, tão das nossas tradições ou das nossas constantes

(Gilberto […], 1972: 5).

Se havia alguém próximo ao regime e à Arena em 1972 capaz de defender o diálogo com “estudantes” e “proletários”, e ainda propor alguma reforma agrária – em seus termos e preferencialmente na Amazônia –, esse alguém era Gilberto Freyre. Suas credenciais como aliado de primeira hora do movimento de 1964, antigo defensor do Exército e crítico contumaz das teses de esquerda, conferiam-lhe essa autoridade.

A Arena, em seu programa assim orientado, não poderia esquecer-se de que o Brasil é país que se encontra ainda, dramaticamente, num processo que um de nós vem denominando, autocolonização. Pode a Arena – pensamos nós – ser um instrumento eficiente para que se acelere harmônica e eficientemente esse processo na área amazônica, aproveitando-se nela não somente lavradores idôneos, como aparentes vagabundos, ex-presidiários, indivíduos parcialmente inválidos, desempregados. […]

Como favorecidos pela Arena, neste particular, devem ser, no nosso entender, as Reformas Agrárias […]. Orientadas por pensadores e cientistas sociais que não desprezam as várias realidades ecológicas que formam o conjunto brasileiro, poderão essas reformas […] contribuir grandemente para o desenvolvimento brasileiro

(Gilberto […], 1972: 5).

Freyre não se opunha à certa reforma agrária, desde que não desagregasse a vida tradicional do campo, tal como propôs em “Cana e reforma agrária” (Freyre, 1970). Muito antes, Em Nordeste (Freyre, 1937) o sociólogo já havia criticado o latifúndio monocultor, tecnificado e capitalizado, pela devastação ambiental e humana. Suas posições, contudo, eram distintas da concepção de reforma agrária geralmente defendida pelas esquerdas ou pelas Ligas Camponesas, lideradas por Francisco Julião até o golpe de 1964. Aliás, Freyre chegara a ter relativa proximidade com Julião, tendo prefaciado seu livro de contos Cachaça (Julião, 1951). Entre a publicação dessa obra e o golpe de 1964, Julião deslocou-se politicamente para a esquerda, enquanto Freyre aproximou-se de posições à direita.

Em 1963, às vésperas do golpe, o Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais promoveu um seminário para debater a reforma agrária e a situação ambiental da zona canavieira, com a participação de Freyre, de Julião e do então comandante do IV Exército, marechal Humberto de Alencar Castello Branco (Aguiar, 2015). Já durante a ditadura, em 1970, Freyre prefaciou a publicação dos debates, sob o título Transformação regional e ciência ecológica: o caso do Nordeste brasileiro, quando voltou a denunciar a monocultura, o uso predatório do solo e a poluição dos rios, abordando mais discretamente as precárias condições de trabalho.

O ano de 1972 foi de considerável visibilidade de Freyre na imprensa, com direito a ser capa da revista Veja, em 21 de junho. A reportagem de dez páginas, intitulada “O fiel do poder moderador”, foi escrita pelos jovens jornalistas Paulo Henrique Amorim e Elio Gaspari. Aos 72 anos, o veterano homem de letras e aliado de primeira hora do regime estava em evidência. Por meio de texto e imagens, os jornalistas enfatizam a decoração de sua residência, realçando sua dimensão aristocrática: “Esse salão, com tapetes persas, mesas inglesas, castiçais de bronze franceses, milhares de livros, é cuidadosamente ordenado sob o olhar vigilante de um Quixote de prata maciça trazido de Sevilha” (Amorim; Gaspari, 1972: 40). A reportagem menciona as declarações de Freyre à imprensa, inclusive a Veja, em que sugeria a abertura política:

A opressão é desnecessária. É tempo de reabertura. O AI-5 foi necessário porque as forças que caíram em 1964 estavam se reagrupando. Agora acho que ele está se prolongando demais. Contudo, qualquer medida deve ser tomada levando-se em conta a situação internacional, pois há forças internacionais querendo a desagregação do Brasil”, disse a VEJA semana passada. O senhor está querendo reeditar o pronunciamento de José Américo de Almeida em 1945?

(Amorim; Gaspari, 1972: 40).

A pergunta referia-se à entrevista de José Américo de Almeida ao jornalista Carlos Lacerda, publicada no Correio da Manhã em 22 de fevereiro de 1945, oportunidade em que o escritor convocara a população a participar da vida pública. As palavras de José Américo marcaram um ponto de virada na queda do Estado Novo (1937-1945). Contudo, a resposta de Freyre destoava completamente da intervenção crítica do escritor paraibano contra a ditadura de Vargas. Em suas próprias palavras: “Não me faça isso. O José Américo estava querendo derrubar o governo. Eu me considero perfeitamente identificado com ele e estou querendo ajudar” (Amorim; Gaspari, 1972: 40).

Freyre parecia recuar, ou ao menos evitar romper os laços que o uniam ao regime. Nunca pretendeu derrubá-lo – reformá-lo, talvez –, o que gerou certas tensões políticas. Embora fosse um aliado confiável do governo, o senador Filinto Müller deixou claro que seus apelos por abertura haviam extrapolado os limites, como se evidencia no tópico intitulado “Desarmonia”.

Sincero, o sumo sacerdote da Arena, senador Filinto Muller, explicava o mistério do repentino silêncio: “Considero o trabalho preparado pelo dr. Gilberto Freyre para a Arena como altamente interessante e até pedi um voto de louvor para ele, na reunião da Arena, que foi aprovado. Depois do trabalho, a imprensa publicou uma entrevista do Dr. Gilberto Freyre e, como notei certa desarmonia entre o trabalho e as declarações a ele atribuídas, espero ter a oportunidade de conversar com ele sobre o assunto”. Além disso, Muller recomendou aos parlamentares da Arena que evitassem comentários a respeito da entrevista

(Amorim; Gaspari, 1972: 41).

Apesar do sólido apoio ao golpe e ao regime, nota-se em Freyre certo desconforto com a linha dura, em particular com os “exageros” da ditadura. A reportagem da Veja evidencia o interesse da Arena em contar com sua colaboração e o consequente preparo, com seus colaboradores do Instituto Joaquim Nabuco, de um documento que reafirmava os princípios centrais de sua obra, mas também incluía um apelo por abertura e distensão. Essa postura, sugere a reportagem, despertou pouca simpatia entre os principais dirigentes do regime e do partido.

No início do ano, ávida de saber, a Arena sitiou a mansão cor-de-rosa em Apipucos em busca de algumas palavras do velho sociólogo de dedos finos, orelhas grandes – como aliás têm todos os descendentes de Wanderley – e nariz de bruxo. Rompendo pelo seu silêncio ditado unicamente pelo culto que dedica ao conforto, Gilberto Freyre fez longas reuniões no Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, onde as fechaduras e dobradiças são de prata talhada e, sob sua liderança, especialistas realizam estudos em geral sociológicos. Finalmente, produziu o documento tão aplaudido pela Arena. Em seguida, Freyre, valendo-se das mesmas ideias gerais, deu uma entrevista, onde acrescentou algumas opiniões. E então descobriu-se que nem todas as opiniões políticas saídas de Apipucos são sábias e louváveis

(Amorim; Gaspari, 1972: 41).

Resta ainda responder qual a natureza do apoio de Freyre ao regime. Rodrigo Patto Motta observa que, entre os grupos que deram sustentação ao golpe de 1964 e à ditadura, havia uma frente razoavelmente heterogênea, que reunia militares e fazendeiros, empresários e classe média urbana, grupos populares e alguns círculos intelectuais. Havia, entre os apoiadores do regime, diferentes tendências políticas e ideológicas, reunindo liberais conservadores, reacionários, nacionalistas autoritários e alguns reformistas moderados (Motta, 2014). Quem era o Gilberto Freyre que apoiava o regime? Convém observar a percepção dos jornalistas da Veja sobre o tema:

A política, para Gilberto Freyre, é um assunto extremamente singular. Do ponto de vista filosófico, ele seria um dos mais perigosos adversários de qualquer regime pois confessa: “Sou anarquista”, acrescentando uma ressalva salvadora – “no bom sentido”. Uma coisa, porém, é certa: não é arenista, oposicionista, udenista, ou pessedista, e acima de tudo, não é, não quer vir a ser e tem raiva de quem é liberal. “O liberal não é carne nem peixe. Não resolve nada porque foge das soluções”, afirma. “Eu sou um revolucionário conservador. Acho que a sociedade brasileira tem coisas que devem ser mantidas e outras que devem ser viradas de cabeça pra baixo”

(Amorim; Gaspari, 1972: 41).

O apoio de Freyre ao regime vinculava-se à sua própria interpretação do Brasil e à convicção de que a cultura brasileira era criadora, original e deveria ser preservada em alguns de seus fundamentos. Entre eles figurava a tese da democracia racial, então alvo de críticas políticas e epistemológicas pelo grupo de sociólogos paulistas liderados por Florestan Fernandes. Ao ser questionado, Freyre não ocultou suas divergências com a sociologia paulista, especialmente com Florestan – aposentado compulsoriamente pela ditadura em 1969, apenas três anos antes da entrevista. Freyre lembrou as prisões de que fora vítima, na ditadura Vargas, e não condenou, antes defendeu a aposentadoria de Florestan:

Em certos aspectos [Freyre] chega a ser um rígido e lógico defensor da legislação de exceção vigente no país. O senhor concorda com a aposentadoria compulsória do sociólogo Florestan Fernandes, que hoje leciona no Canadá? pergunta a VEJA. “Essa pergunta é muito difícil de ser respondida. O intelectual não deve ser um privilegiado. Eu mesmo fui preso três vezes durante a ditadura de Vargas. Minha casa foi literalmente saqueada em 1930. Se o intelectual tentou atingir o regime e se isso ficar provado, como não sei se é o caso de Florestan Fernandes, nada mais justo que houvesse uma reação de defesa”.

Então o senhor acha que o juiz de Tribunal de Salvação Pública de Paris que mandou executar Lavoisier dizendo que ‘a revolução não precisa de cientistas’ tinha razão?”

“É, aí fica muito forte. Executar, não, mas poderiam aposentar Lavoisier”

(Amorim; Gaspari, 1972: 48).

Na matéria da Veja há um interessante quadro intitulado “Quem é quem, segundo G.F.”, em que Freyre foi instado a expressar opiniões rápidas e incisivas sobre personalidades do mundo literário, acadêmico e político, o que ele parece fazer com algum humor. As respostas não deixam de contribuir para o entendimento de suas sensibilidades políticas e intelectuais.

ANTÔNIO HOUAISS – É medíocre, mas sério. Traduziu “Ulysses”, um trabalho de paciência.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE – É o melhor escritor brasileiro, em prosa e verso.

GABRIEL GARCIA MARQUES – “Cem anos de solidão” é um sublivro.

GEORGE LUKACS – Um mestre da crítica. Não era comunista. Um homem com sua sensibilidade não poderia ser comunista.

GUIMARÃES ROSA – Um grande escritor. No fim, sua linguagem ficou artificial.

HELDER CÂMARA – Gosto dele. Pessoalmente, acho-o interessante. Anda gordo, com uma gordura episcopal. Como outros corteja a juventude. O que o estragou foi o Rio de Janeiro. Se tivesse ficado no Ceará, seria um novo padre Cícero. Aliás, tem até o “Physique du rôle”.

JOÃO CABRAL DE MELLO NETO – Um grande poeta. Um dos três maiores, ao lado de Drummond e Manoel Bandeira.

JORGE AMADO – O do início era melhor.

LEVY-STRAUSS – Um mediocrão. Desemburrou no Brasil. E foi injusto com o Brasil. Só conheceu São Paulo e Mato Grosso e escreveu um livro – “Tristes Trópicos” – cheio de injustiças contra o Brasil.

LUIZ CARLOS PRESTES – Fala pra burro. Cheio de raciocínio matemático. Não tem nada de líder.

MIGUEL ARRAES – É falso e hipócrita. Esteve muitas vezes aqui em Apipucos. Conheço bem. Pode estar se fingindo de morto.

SARTRE – Um chato. A Simone, não.

(Amorim; Gaspari, 1972).

Chama a atenção a pouca simpatia de Freyre em relação a personalidades identificadas com a esquerda do espectro político. É inequívoco seu apoio à ditadura, inclusive à figura de Médici: “eu tenho simpatia pela Arena porque apoio o governo e acho que o presidente Emílio Garrastazu Médici está conduzindo os destinos do país com arrojo e dignidade” (Amorim; Gaspari, 1972: 50). A contundência do apoio a Médici no momento mais violento da ditadura de certo modo contrasta com suas opiniões veiculadas na sua contribuição à Arena. Talvez Freyre quisesse matizar as críticas, a fim de manter a interlocução com o governo.

Considerações finais

Épreciso reconhecer a historicidade da obra e da trajetória de Gilberto Freyre: o intelectual das décadas de 1960 e 1970 não é o mesmo das de 1930 e 1940. O Brasil e o mundo também haviam se transformado. Ainda assim, a compreensão que Freyre teve do Exército, primeiro, e da ditadura militar, depois, não se dissocia dos traços mais amplos de sua obra. Desde o início de sua vida intelectual, defendeu uma herança histórica que se poderia chamar de brasileirista: a tese de que a formação do país foi singular e, em grande medida, positiva. Isso não o tornava um defensor estático do passado, mas um advogado da conciliação entre o velho Brasil e a modernidade.

Freyre pode ser definido como um conservador de matriz culturalista (Lynch; Paganelli, 2017), empenhado em preservar certos traços herdados das tradições culturais brasileiras – de origem ibérica, católica, rural e patriarcal –, mestiças e adaptadas aos trópicos. Via nelas o núcleo de uma cultura original e criativa, que deveria ser mantida em seu ethos fundamental, ainda que aberta à inovação, desde que esta não desfigurasse o país. Essa leitura empática do passado o tornava crítico de projetos transformadores que, a seu ver, ameaçavam desfazer o Brasil como experiência histórica singular. Freyre via o regime militar como uma garantia de preservação das tradições culturais brasileiras, assentadas no equilíbrio de antagonismos.

Inseria-se nesse horizonte político e cultural a tese da “democracia racial”, amplamente apropriada pelo regime militar. Freyre foi um crítico do liberalismo ocidentalista, do cosmopolitismo e da modernidade burguesa, tanto quanto do “comunismo russo-soviético”. Defendia, em seus próprios termos, a cultura popular, o catolicismo e o carnaval, ao mesmo tempo que rejeitava a cultura de massas e a americanização do país.

Sua crítica aproximava-se do que Koselleck (2006) definiu como oposição ao “sentido futurista” da modernidade iluminista. Dessa sensibilidade derivava uma visão simpática ao passado e às tradições luso-brasileiras, sem ser propriamente passadista, pois propunha conciliar o novo e o velho, o local e o estrangeiro, o Nordeste e o Sul, o rural e o urbano, de modo que o novo não apagasse o antigo. O apoio à ditadura militar – que encarnava um discurso nacionalista – pode ser compreendido como expressão de seu desejo de controlar a mudança social: buscava uma modernização que não implicasse a destruição da herança lusitana, católica, rural, mestiça e tropical.

Referências

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  • SECCO, Lincoln. Gilberto Freyre e a USP. Boletim do GMARX-USP, São Paulo, ano 4, n. 9, 5 dez. 2023.
  • 1
    No início da década de 1960, Freyre mantinha particular proximidade com Humberto de Alencar Castello Branco, então comandante do IV Exército, sediado no Recife (Barreto, 2004). Consumado o golpe, Freyre foi convidado por Castello para assumir o Ministério da Educação. Recusou a proposta, alegando que sua “vocação máxima é a de escritor” (Compromissos […], 1964: 8).
  • 2
    Freyre investiu na simbologia da Batalha dos Guararapes (1648), que marcou a vitória sobre os holandeses. As forças luso-brasílicas, comandadas pelos senhores de engenho João Fernandes Vieira e André Vidal de Negreiros, uniram-se ao terço negro de Henrique Dias e ao terço indígena de Filipe Camarão para expulsar os holandeses. Na mitologia anacrônica criada pelo Exército, que Freyre reforça ao acionar o mito das três raças, Guararapes figura como fundação simbólica do Exército brasileiro.
  • Declaração de Disponibilidade de Dados:
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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    09 Jan 2026
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    28 Abr 2025
  • Aceito
    12 Nov 2025
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