Open-access A Cor do Protagonismo: A Trajetória de Taís Araújo e a Historicidade da Representação Negra da Teledramaturgia Brasileira

The Color of Protagonism: Taís Araújo’s Trajectory and the Historicity of Black Representation in Brazilian Television Drama

El color del protagonismo: la trayectoria de Taís Araújo y la historicidad de la representación negra en la teledramaturgia brasileña

RESUMO

Este artigo analisa a trajetória da atriz Taís Araújo como protagonista negra da teledramaturgia brasileira, tomando como eixo central a telenovela Da cor do Pecado e seus desdobramentos em Viver a Vida e no remake de Vale Tudo. A pesquisa investiga como essas personagens articulam disputas simbólicas em torno da visualidade negra, da memória televisiva e das formas contemporâneas de racialização na mídia brasileira. Partindo das contribuições de Jéfferson Balbino sobre protagonismo feminino negro na televisão, o artigo mobiliza também os estudos de bell hooks, Stuart Hall, Muniz Sodré, Leda Maria Martins, Nicholas Mirzoeff e Joel Zito Araújo para compreender a televisão como arquivo racializado e espaço de disputa pela representação. Metodologicamente, a pesquisa articula análise cultural da narrativa televisiva, análise discursiva das representações raciais e levantamento de documentação de imprensa especializada, incluindo críticas televisivas, entrevistas e matérias publicadas em periódicos nacionais entre 2004 e 2025. O corpus documental é composto pelas telenovelas Da cor do Pecado, Viver a Vida e Vale Tudo (2025), bem como por reportagens e debates públicos sobre a recepção das personagens interpretadas por Taís Araújo. Argumenta-se que a trajetória da atriz evidencia as ambiguidades da representação negra na televisão brasileira: ao mesmo tempo que amplia o campo da visibilidade e da identificação racial positiva, revela permanências do branqueamento simbólico e do controle narrativo da negritude. O estudo conclui que as protagonistas interpretadas por Taís Araújo operam como marcos históricos da disputa pela memória visual negra no Brasil contemporâneo.

PALAVRAS-CHAVE:
Telenovela; Cultura visual negra; Memória; Representação racial; Taís Araújo

ABSTRACT

This study analyzes the trajectory of actress Taís Araújo as a Black protagonist in Brazilian television drama, taking the telenovela Da cor do Pecado as its central axis and examining its developments in Viver a Vida and in the remake of Vale Tudo. This study investigates how these characters articulate symbolic disputes surrounding Black visuality, television memory, and contemporary forms of racialization in Brazilian media. Drawing on Jéfferson Balbino’s contributions regarding Black female protagonism on television, this study mobilizes the works of bell hooks, Stuart Hall, Muniz Sodré, Leda Maria Martins, Nicholas Mirzoeff, and Joel Zito Araújo to understand television as a racialized archive and a contested space of representation. This research culturally analyzes television narratives, discursively analyzes racial representations, and examines specialized press materials, including television reviews, interviews, and Brazilian media outlet articles from 2004 to 2025. Its documentary corpus consists of the telenovelas Da cor do Pecado, Viver a Vida, and Vale Tudo; journalistic reports; and public debates concerning the reception of Araújo’s characters. This study argues that the actress’s trajectory shows the ambiguities of Black representation in Brazilian television: while it expands the field of visibility and positive racial identification, it also exposes the persistence of symbolic whitening and the narrative control of Blackness. This study concludes that Araújo’s protagonists function as historical landmarks in the struggle over Black visual memory in contemporary Brazil.

KEYWORDS:
Telenovela; Black visual culture; Memory; Racial representation; Taís Araújo.

RESUMEN

Este artículo analiza la trayectoria de la actriz Taís Araújo como protagonista negra en la teledramaturgia brasileña, tomando como eje central la telenovela Da cor do Pecado y sus despliegues en Viver a Vida y en la adaptación de Vale Tudo. Esta investigación examina cómo estos personajes articulan disputas simbólicas en torno a la visualidad negra, a la memoria televisiva y a las formas contemporáneas de racialización en los medios brasileños. Partiendo de las contribuciones de Jéfferson Balbino sobre el protagonismo femenino negro en la televisión, este artículo también moviliza los estudios de bell hooks, Stuart Hall, Muniz Sodré, Leda Maria Martins, Nicholas Mirzoeff y Joel Zito Araújo para comprender la televisión como un archivo racializado y un espacio de disputa por la representación. Metodológicamente, esta investigación articula el análisis cultural de la narrativa televisiva, el análisis discursivo de las representaciones raciales y el relevamiento de documentación de prensa especializada, incluyendo críticas televisivas, entrevistas y artículos publicados en periódicos nacionales entre 2004 y 2025. El corpus documental está compuesto por las telenovelas Da cor do Pecado, Viver a Vida y Vale Tudo, así como por reportajes y debates públicos sobre la recepción de los personajes interpretados por Taís Araújo. Se sostiene que la trayectoria de la actriz evidencia las ambigüedades de la representación negra en la televisión brasileña: al mismo tiempo que amplía el campo de la visibilidad y de la identificación racial positiva, también revela permanencias del blanqueamiento simbólico y del control narrativo de la negritud. Este estudio concluye que las protagonistas interpretadas por Taís Araújo operan como hitos históricos de la disputa por la memoria visual negra en el Brasil contemporáneo.

PALABRAS CLAVE:
Telenovela; Cultura visual negra; Memoria; Representación racial; Taís Araújo.

Introdução

“Fui convidada pra fazer uma personagem que sabia a história dela e de repente me apresen-taram outra, eu achei esquisitíssimo aquilo. Me doeu fundo”. (Taís Araújo, sobre as mudanças feitas com sua heroína na novela Vale Tudo, 2025)

Em 2004, quando Da cor do Pecado estreou na TV Globo, a presença de uma mulher negra no centro de uma narrativa romântica em horário nobre representou um deslocamento histórico na televisão brasileira. Pela primeira vez na principal emissora do país, uma atriz negra - Taís Araújo, interpretando Preta de Souza - assumia o protagonismo de uma teleno-vela contemporânea sem que sua personagem estivesse vinculada à escravidão, ao trabalho doméstico ou à comicidade racializada. O acontecimento televisivo adquiriu ampla repercus-são pública e midiática, consolidando-se como um marco das disputas contemporâneas em torno da representação racial na mídia brasileira.

Mais do que um fenômeno isolado, contudo, Da cor do Pecado tornou-se ponto inau-gural de uma trajetória específica de protagonismo negro na televisão brasileira. Ao longo das décadas seguintes, Taís Araújo ocuparia papéis centrais em diferentes produções da TV Globo, incluindo Viver a Vida (2009) 1, de Manoel Carlos, e o remake de Vale Tudo (2025), ampliando o debate público sobre raça, visibilidade e pertencimento no imaginário televisivo nacional. Nesse sentido, a análise da personagem Preta de Souza permite compreender não apenas um momento singular da teledramaturgia brasileira, mas um processo histórico mais amplo de disputa pela presença negra em narrativas tradicionalmente organizadas pela hegemonia da branquitude.

Nesse sentido, sabe-se que a televisão brasileira constitui um dos principais arquivos simbólicos da memória nacional. Conforme argumenta Jesús Martín-Barbero (1997), os meios de comunicação operam como espaços de mediação cultural nos quais identidades sociais são negociadas e naturalizadas. A telenovela, particularmente, ocupa posição central nesse processo por construir repertórios afetivos e modelos de pertencimento capazes de influenciar percepções coletivas sobre classe, gênero e raça. Assim, compreender a presença de prota-gonistas negras na teledramaturgia significa investigar as formas pelas quais a nação produz visualmente sua própria história racial.

A trajetória de Taís Araújo torna-se especialmente relevante porque atravessa dife-rentes momentos da cultura visual brasileira. Em Da cor do Pecado, sua personagem ainda é enquadrada por signos de exotização racial e erotização da diferença; em Viver a Vida, a atriz confronta diretamente a ideia de feminilidade universal branca ao interpretar uma “Helena” de Manoel Carlos; já em Vale Tudo (2025), ocupa um dos papéis mais emblemáticos do cânone televisivo brasileiro, reinterpretando uma personagem originalmente associada à imagem da mulher branca de classe média, a Raquel Gomes Accioli, interpretada na versão original pela atriz Regina Duarte.

Posto isso, este artigo parte da hipótese de que essas personagens constituem marcos distintos da disputa pela representação negra na televisão brasileira contemporânea. Mais do que analisar apenas uma telenovela específica, a pesquisa busca compreender como a traje-tória de Taís Araújo evidencia transformações e permanências nos regimes de visualidade racial da mídia nacional.

Metodologia e corpus documental

A pesquisa adota uma abordagem qualitativa de análise cultural e discursiva da teledra-maturgia brasileira, articulando contribuições dos estudos de cultura visual, memória social, pós-colonialismo e representação racial. Parte-se da compreensão de que a telenovela, longe de constituir apenas um produto de entretenimento, opera como um dispositivo histó-rico de elaboração simbólica da realidade social brasileira. Nesse sentido, as narrativas televi-sivas são tratadas simultaneamente como documentos culturais e tecnologias de produção do imaginário nacional, capazes de organizar afetos, hierarquias e formas de pertencimento. Tal perspectiva dialoga com Jesús Martín-Barbero (1997), para quem os meios de comunicação atuam como espaços de mediação cultural nos quais se negociam identidades e sensibilidades coletivas, bem como com Stuart Hall (1997), ao compreender a representação como prática constitutiva da realidade social e não como mera reprodução do mundo empírico. Também se aproxima da leitura de Douglas Kellner (2001), que entende a mídia contemporânea como um campo estratégico de construção ideológica e disputa de significados.

A metodologia proposta fundamenta-se na análise das imagens televisivas enquanto formas históricas de visualidade. Isso significa compreender a televisão não apenas como meio técnico de circulação de conteúdos, mas como regime de produção do visível, capaz de definir quais corpos podem ocupar o centro da narrativa, sob quais condições simbólicas e a partir de quais enquadramentos estéticos e discursivos. A investigação procura observar como a presença de mulheres negras em posições de protagonismo altera - ou não - os padrões historicamente consolidados da representação racial na televisão brasileira, marcada, desde sua formação, pela hegemonia da branquitude como norma estética e narrativa.

O corpus documental da pesquisa é constituído por três produções televisivas prota-gonizadas por Taís Araújo em momentos distintos da história recente da televisão brasileira: Da cor do Pecado (2004), escrita por João Emmanuel Carneiro; Viver a Vida (2009), de autoria de Manoel Carlos; e o remake de Vale Tudo (2025), adaptado por Manuela Dias a partir da obra original de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères. A seleção dessas obras não ocorre de maneira aleatória ou meramente ilustrativa. Pelo contrário, elas compõem uma espécie de percurso histórico da presença da mulher negra no centro das narrativas televisivas de grande circulação no Brasil, permitindo observar continuidades, deslocamentos e reconfi-gurações nos modos de representação da negritude ao longo de duas décadas.

A partir desse preâmbulo, vemos que Da cor do Pecado ocupa, nesse conjunto, um lugar inaugural, particularmente significativo. A novela representou a primeira vez em que uma atriz negra protagonizou uma telenovela contemporânea em horário nobre na TV Globo sem que sua personagem estivesse vinculada diretamente à escravidão ou às narrativas históricas tradi-cionais. Esse deslocamento da mulher negra para o centro do melodrama urbano e romântico produziu ampla repercussão pública e tornou-se um marco simbólico das disputas por visibi-lidade racial na mídia brasileira dos anos 2000. Contudo, a análise busca compreender que essa inserção ocorre de forma ambivalente, articulando simultaneamente reconhecimento e estereotipização, valorização e exotização da diferença racial.

Em Viver a Vida constitui-se um segundo momento fundamental desse percurso, pois desloca a discussão racial para outro patamar simbólico. Ao interpretar Helena - personagem historicamente associada, nas obras de Manoel Carlos, ao ideal feminino branco da classe média alta carioca - Taís Araújo passa a ocupar um espaço anteriormente reser-vado à universalidade da feminilidade branca. A recepção pública da personagem, marcada por reações racistas e questionamentos sobre a legitimidade de uma mulher negra ocupar esse lugar narrativo, revela os limites da aceitação social da negritude como representação universal da nação. Nesse caso, o interesse analítico não reside apenas na construção da personagem em si, mas nas tensões sociais explicitadas pela recepção da obra, evidenciando como o imaginário televisivo brasileiro continua profundamente atravessado pelas hierarquias raciais.

A refilmagem de Vale Tudo (2025), por sua vez, representa uma terceira inflexão histó-rica relevante. Ao reinterpretar Raquel Accioli - personagem originalmente vivida por Regina Duarte, em 1988 - Taís Araújo passa a ocupar simbolicamente um dos papéis mais emble-máticos da memória televisiva nacional. A escolha da atriz para o remake insere-se em um contexto contemporâneo de revisão crítica do cânone audiovisual brasileiro e de ampliação das discussões sobre diversidade racial na indústria cultural. A análise dessa produção permite investigar de que maneira a televisão contemporânea busca reconfigurar seus próprios arquivos visuais e responder às demandas sociais por representatividade, sem que isso signi-fique necessariamente a superação das estruturas históricas de racialização das imagens.

Além da análise narrativa e imagética dessas produções, a pesquisa incorpora um conjunto significativo de materiais de imprensa e recepção pública produzidos entre 2004 e 2025. Foram examinadas reportagens, críticas televisivas, entrevistas, colunas de opinião e debates publicados em veículos como Folha de S. Paulo, O Globo, Estadão, revista Veja, Portal G1, revistas especializadas em televisão e cultura e, recentemente, a entrevista que a atriz Taís Araújo concedeu à apresentadora Cissa Guimarães, no programa de entrevistas Sem Censura, da TV Brasil, em maio de 2026, na qual teceu críticas expressivas à condução que a novelista Manuela Dias deu à sua personagem, sobretudo em termos associados às ques-tões de negritude. A incorporação desse material decorre da compreensão de que a recepção midiática constitui dimensão fundamental da disputa simbólica em torno da representação racial. Não interessa apenas o que as novelas mostram, mas também como essas imagens circulam socialmente, quais discursos mobilizam e quais reações provocam na esfera pública. A análise das matérias jornalísticas e críticas televisivas permite perceber, por exemplo, como determinados discursos sobre “aceitação do público”, “perfil de protagonista” ou “identificação do espectador” frequentemente funcionam como formas indiretas de reprodução da normatividade branca na televisão brasileira. As reações públicas às personagens interpretadas por Taís Araújo tornam-se, assim, documentos históricos rele-vantes para compreender os limites e as contradições da representatividade racial no audiovi-sual brasileiro contemporâneo. Ao mesmo tempo, outras entrevistas concedidas pela própria atriz, ao longo das últimas décadas, ajudam a identificar a dimensão política de sua trajetória pública e de sua atuação como voz ativa nos debates sobre racismo, estética negra e exclusão midiática.

Do ponto de vista analítico, a pesquisa privilegia três dimensões centrais, que se arti-culam continuamente ao longo do texto. A primeira delas refere-se às formas de construção visual da personagem negra na telenovela brasileira, observando elementos como enqua-dramento narrativo, figurino, corporalidade, erotização, moralidade e pertencimento social. Busca-se compreender como a televisão organiza visualmente a presença negra e quais convenções históricas continuam operando mesmo em contextos de aparente inclusão.

A segunda dimensão concentra-se nas disputas simbólicas em torno da representati-vidade racial. Nesse eixo, interessa compreender como determinadas personagens passam a condensar debates sociais mais amplos sobre identidade nacional, democracia racial, pertenci-mento e legitimidade estética. As protagonistas interpretadas por Taís Araújo tornam-se espe-cialmente relevantes porque desestabilizam, em diferentes níveis, o lugar tradicionalmente ocupado pela mulher negra no imaginário televisivo brasileiro.

A terceira dimensão articula memória televisiva, recepção pública e cultura visual negra. A televisão é compreendida como arquivo cultural da nação, capaz de sedimentar formas de lembrar e imaginar a experiência brasileira. Assim, quando uma mulher negra ocupa papéis centrais em produções de ampla circulação, não ocorre apenas uma mudança de elenco ou de perfil de personagem, mas uma disputa efetiva pela reorganização da memória visual nacional. As imagens de Taís Araújo passam a integrar esse arquivo coletivo e tensionam os limites históricos do visível na televisão brasileira.

Teoricamente, a pesquisa dialoga de maneira mais direta com a noção de visuali-dade desenvolvida por Nicholas Mirzoeff (2011), para quem as imagens modernas constituem tecnologias de poder responsáveis por organizar hierarquias sociais e formas de autoridade do olhar. A televisão, nesse sentido, não apenas representa a realidade, mas produz regimes de visibilidade que determinam quem pode aparecer como sujeito legítimo da narrativa nacional. A presença recorrente de Taís Araújo como protagonista permite observar fissuras nesse regime visual historicamente estruturado pela centralidade branca.

Ao mesmo tempo, o artigo mobiliza a perspectiva de bell hooks (1992) sobre o “olhar opositor”, entendendo a visualidade negra como prática de resistência diante das formas coloniais de representação. Para hooks, olhar também é exercer poder, e a reivindicação do direito de olhar e ser olhado fora dos enquadramentos da subordinação constitui gesto polí-tico fundamental. A trajetória de Taís Araújo pode ser compreendida, portanto, como parte de um movimento mais amplo de contestação da passividade visual historicamente atribuída aos sujeitos negros na cultura de mídia.

A pesquisa também dialoga com os estudos de Leda Maria Martins (2002) acerca da memória performática negra, sobretudo ao compreender o corpo negro em cena como espaço de reinscrição histórica. As personagens interpretadas por Taís Araújo não operam apenas no plano da ficção televisiva; elas atualizam memórias coletivas de exclusão, resistência e reivindicação simbólica. Cada aparição da atriz em papéis centrais produz deslocamentos no arquivo visual da televisão brasileira, ampliando os limites do que pode ser visto, narrado e reconhecido como experiência legítima da nacionalidade.

Desse modo, a metodologia do artigo procura articular análise estética, interpretação histórica e crítica cultural, compreendendo a televisão brasileira como espaço privilegiado de disputa pela memória e pela visualidade negra no Brasil contemporâneo.

Trajetória, visualidade e deslocamento racial na televisão brasileira

A trajetória de Taís Araújo na televisão brasileira permite compreender de maneira particu-larmente expressiva as transformações das políticas de representação racial na cultura midiática nacional ao longo das últimas décadas. Mais do que uma sucessão de persona-gens de destaque, sua presença recorrente em posições centrais da teledramaturgia evidencia mudanças graduais - embora profundamente tensionadas - nas formas pelas quais a televi-são brasileira organiza o visível, distribui legitimidades simbólicas e negocia os limites da iden-tidade nacional. Nesse sentido, a carreira da atriz pode ser lida como um percurso histórico da própria visualidade negra na mídia brasileira contemporânea.

A televisão ocupa, no Brasil, uma posição singular na constituição das sensibilidades coletivas. Diferentemente de outras formas de produção cultural, a telenovela consolidou-se como narrativa nacional cotidiana, atravessando classes sociais, regiões e gerações. Desde os anos 1970, especialmente com a consolidação da TV Globo como principal produtora de ficção televisiva do país, a novela passou a funcionar como um dos principais mecanismos de cons-trução do imaginário brasileiro. Como argumenta Esther Hamburger (2005), a teledramaturgia brasileira não apenas reflete conflitos sociais, mas organiza pedagogias do cotidiano, produ-zindo modos de sentir, desejar e reconhecer pertencimentos. Assim, a presença - ou ausência - de corpos negros no centro dessas narrativas possui implicações que ultrapassam o campo estritamente artístico, inserindo-se diretamente na disputa pelos regimes de reconhecimento social.

Historicamente, entretanto, a televisão brasileira estruturou-se a partir de uma lógica profundamente racializada. A branquitude foi construída como norma universal da represen-tação, enquanto personagens negros permaneceram majoritariamente confinados a funções subalternas, periféricas ou estereotipadas. Joel Zito Araújo (2004), ao analisar a história da telenovela brasileira, demonstra que o negro foi frequentemente associado à pobreza, à comi-cidade, à criminalidade ou ao trabalho servil, raramente ocupando espaços de centralidade emocional e narrativa. Quando apareciam em posições de maior destaque, tais personagens quase sempre estavam vinculados às narrativas históricas sobre escravidão ou às imagens da sensualidade racializada da “mulata”, reiterando estruturas simbólicas herdadas do imagi-nário colonial.

É nesse contexto que Da cor do Pecado surge, em 2004, como acontecimento televi-sivo de grande impacto simbólico. Escrita por João Emmanuel Carneiro, a novela foi exibida em um momento de intensificação dos debates públicos sobre políticas afirmativas, ações de combate ao racismo e democratização dos espaços de representação no Brasil. O início dos anos 2000 corresponde também ao fortalecimento da presença do movimento negro nas universidades, nos meios culturais e nas disputas em torno da mídia. A ascensão de Taís Araújo ao posto de protagonista de uma novela contemporânea em horário nobre não pode ser dissociada desse contexto histórico mais amplo de reivindicação por reconhecimento racial.

Entretanto, a importância histórica de Da cor do Pecado reside justamente em sua ambiguidade. A novela amplia significativamente o campo da visibilidade negra na televisão brasileira, mas o faz sem romper integralmente com os mecanismos tradicionais de raciali-zação do corpo negro. O próprio título da obra sintetiza essa tensão ao associar cor e pecado em uma mesma estrutura discursiva. A negritude aparece simultaneamente como desejo, diferença e transgressão, reinscrevendo antigas formas de exotização racial dentro de uma estética contemporânea do consumo televisivo.

A personagem Preta de Souza é construída a partir dessa lógica contradi-tória. Ao mesmo tempo que ocupa o centro da narrativa amorosa, ela permanece vinculada a atributos historicamente associados à feminilidade negra na cultura brasileira: a hiperssexua-lização moderada pela pureza moral, a simplicidade popular, a abnegação afetiva e a ética do sofrimento. Sua legitimidade enquanto heroína depende continuamente de sua capacidade de demonstrar bondade, resiliência e sacrifício. Diferentemente das protagonistas brancas tradicionais da teledramaturgia brasileira, Preta precisa justificar moralmente sua presença no centro da narrativa.

Essa questão torna-se ainda mais evidente quando observada a relação entre Preta e Paco Lambertini, interpretado por Reynaldo Gianecchini. O romance inter-racial, apresen-tado como elemento de ruptura e modernização da novela, é também estruturado por uma lógica simbólica de legitimação branca. O reconhecimento social da personagem negra ocorre sobretudo por meio do amor do homem branco rico, reiterando uma dinâmica histórica em que o acesso da mulher negra à centralidade narrativa permanece condicionado à validação da branquitude. Como observa Muniz Sodré (1999a), o racismo midiático frequentemente opera não pela exclusão absoluta do sujeito negro, mas pela incorporação controlada de sua imagem dentro de limites simbólicos previamente organizados pela cultura dominante.

Ainda assim, reduzir Da cor do Pecado apenas à reprodução de estereótipos seria insu-ficiente para compreender sua importância histórica. A novela produziu impactos concretos nos modos de identificação racial do público brasileiro, especialmente entre crianças, adoles-centes e mulheres negras que, pela primeira vez, viam uma protagonista negra ocupar o centro do melodrama romântico televisivo. Diversas entrevistas concedidas por Taís Araújo ao longo dos anos posteriores à exibição da novela registram relatos de telespectadores que passaram a reconhecer positivamente sua própria imagem racial a partir da personagem. Esse aspecto revela uma dimensão importante da cultura visual: mesmo representações atravessadas por ambiguidades podem produzir efeitos políticos de reconhecimento e pertencimento.

Stuart Hall (1997) argumenta que as representações culturais nunca operam de maneira totalmente estável ou fechada. O significado das imagens permanece permanente-mente em disputa, sendo apropriado, reinterpretado e ressignificado pelos diferentes públicos que com elas interagem. Nesse sentido, a figura de Preta de Souza tornou-se espaço contradi-tório de projeção simbólica: simultaneamente produto de uma lógica televisiva ainda marcada pelo exotismo racial e instrumento de ampliação da autoestima e da visibilidade negra na esfera pública brasileira.

Cinco anos depois, Viver a Vida deslocaria esse debate para outro nível de complexi-dade. Se em Da cor do Pecado a racialização da personagem era constantemente tematizada pela narrativa, em Viver a Vida o conflito emerge precisamente da tentativa de neutra-lizar essa diferença racial. Ao interpretar Helena - arquétipo máximo da feminilidade nas novelas de Manoel Carlos - Taís Araújo passa a ocupar um lugar historicamente associado à universalidade branca da mulher de classe média alta carioca. A escolha da atriz para o papel produziu intensa repercussão pública, revelando os limites da aceitação social da mulher negra como representação universal da experiência nacional.

A reação de parte da crítica televisiva e do público à personagem evidenciou meca-nismos sutis - e muitas vezes explícitos - de racialização do olhar. Comentários publicados em jornais, revistas e fóruns digitais à época frequentemente questionavam a “adequação” de Taís Araújo ao perfil tradicional das Helenas. O desconforto provocado por sua presença não estava ligado apenas à atuação ou à construção narrativa da personagem, mas ao próprio fato de uma mulher negra ocupar um lugar historicamente reservado à representação idealizada da feminilidade branca brasileira.

Em entrevista concedida ao programa Sem Censura, no dia 11 de maio de 2026, ao ser questionada sobre as críticas que sua personagem Helena sofreu, correlacionando com o Brasil daquela época (2009), a atriz alegou que:

Eu acho que o Brasil daquela época [2009], é o mesmo Brasil dessa época [2026], mas eu acho que ele tinha um véu nele. Vou falar com mais nitidez: você pega uma personagem, uma mulher, negra, bem-sucedida, rica, sem problemas... E daí tinha que justificar uma maneira pra ela testar ali [nessa posição]: Qual foi a corrente que ela arrastou? Qual foi a fome que ela passou? Pra tá ali?! Porque preto tem que ter passado por uma coisa muito ruim. Porque naturalmente não seria o lugar de uma mulher negra estar nesse lugar bem-sucedido, sem passar por algo muito ruim na vida... Eu acho que é uma questão do Brasil racista que é. Na época - isso tem mais de 15 anos - o Brasil não tinha se revelado o país que ele se revelou nos últimos anos pra cá... E aí, talvez, tenha sido o primeiro sinal de que íamos passar por situações que esse véu iria cair… Eu acho que foi isso. Porque a novela passou de novo há pouco tempo [2024/2025, no Canal Viva] e de repente as pessoas começaram a achar que eu estava bem na novela. Juro! A novela passou de novo e as pessoas reavaliaram. […] Eu acho importante isso: as pessoas tiveram uma reflexão, olharam de novo [a Helena] e falaram: “Ué, por que a gente tinha uma opinião lá atrás e agora temos outra? O que está acontecendo com a gente?” (Sem […], 2026).

A fala de Taís Araújo revela um aspecto fundamental das disputas raciais no campo da visualidade brasileira: a existência de uma espécie de “pedagogia do sofrimento” imposta historicamente aos corpos negros como condição de legitimidade narrativa. O depoimento da atriz evidencia que a rejeição à personagem Helena em Viver a Vida não derivava exclusi-vamente de critérios estéticos, dramatúrgicos ou performáticos, mas da dificuldade estrutural de reconhecer uma mulher negra ocupando um espaço de prestígio, estabilidade e desejo sem que sua trajetória estivesse necessariamente marcada pela dor extrema, pela margina-lidade ou pela excepcionalidade sacrificial. Em outras palavras, o incômodo provocado pela personagem não estava apenas na presença de uma mulher negra em posição central, mas na ausência de uma justificativa socialmente aceitável - dentro da lógica racial brasileira - para que ela estivesse naquele lugar.

A reflexão da atriz explicita um mecanismo profundo do imaginário racial brasileiro: a necessidade de associar a ascensão negra ao sofrimento prévio como forma de tornar essa presença “compreensível” à ordem simbólica dominante. A pergunta formulada implicita-mente pelo público - “qual foi a corrente que ela arrastou?” - revela que o sucesso, a sofis-ticação e a estabilidade emocional ainda são frequentemente percebidas como atributos naturalmente pertencentes à branquitude. Quando uma mulher negra ocupa esse espaço sem carregar marcas explícitas de privação, a própria lógica racial da representação entra em crise. A personagem Helena desestabilizava justamente essa expectativa histórica ao apre-sentar uma mulher negra cosmopolita, bem-sucedida e afetivamente desejável sem que sua narrativa estivesse estruturada em torno da miséria ou da subalternidade.

Esse aspecto é particularmente significativo porque evidencia como a racialização do olhar opera não apenas pela exclusão do corpo negro, mas também pela administração dos modos pelos quais ele pode aparecer. Como argumenta Stuart Hall (1997), os sistemas de representação não produzem somente imagens, mas organizam regimes de inteligibilidade social, determinando quais presenças parecem “naturais” e quais exigem explicação. No caso de Helena, a rejeição pública expunha a permanência da branquitude como horizonte silen-cioso da universalidade televisiva. A personagem rompia um pacto visual historicamente sedi-mentado nas novelas de Manoel Carlos: o de que a mulher branca de classe média alta representaria o modelo universal da feminilidade brasileira.

A fala de Taís Araújo também é relevante porque introduz uma dimensão temporal importante à análise. Ao afirmar que “o Brasil daquela época é o mesmo Brasil dessa época, mas tinha um véu”, a atriz sugere que o racismo estrutural brasileiro não surgiu recen-temente, mas tornou-se mais visível a partir das transformações políticas e sociais das últimas décadas. A metáfora do “véu” indica que, em 2009, ainda predominava com maior força a retórica conciliatória da “democracia racial”, que tendia a mascarar conflitos e desigualdades sob o discurso da mestiçagem e da convivência harmônica. A recepção hostil à Helena emerge, nesse sentido, como sintoma precoce de fissuras nesse imaginário nacional conciliador.

A novela torna-se, assim, um espaço privilegiado de revelação das tensões raciais que atravessavam silenciosamente a sociedade brasileira. O desconforto diante da personagem não pode ser dissociado do contexto histórico de ampliação das políticas afirmativas, do cres-cimento do debate público sobre racismo e da emergência de novos sujeitos políticos negros na esfera pública nacional. A presença de Taís Araújo como Helena colocava em circulação uma imagem que contrariava os códigos tradicionais da representação racial televisiva justa-mente em um momento em que o país começava a enfrentar mais diretamente suas desigual-dades estruturais.

Ao mencionar a reexibição da novela no Canal Viva, entre 2024 e 2025, e a reavaliação posterior da personagem pelo público, Taís Araújo aponta para outra questão central da cultura visual: a historicidade do olhar. As imagens não possuem significados fixos; elas são reinter-pretadas continuamente a partir das transformações sociais e políticas do presente. O fato de parte do público ter revisto sua percepção sobre Helena mais de quinze anos depois revela que as mudanças no debate racial brasileiro também alteraram as formas de recepção da perso-nagem. Aquilo que antes parecia “deslocado” ou “inadequado” passa a ser percebido sob outra chave interpretativa, indicando transformações - ainda que parciais - na sensibilidade coletiva em torno da representação negra.

Essa reavaliação retrospectiva também evidencia o funcionamento da memória televi-siva como campo de disputa histórica. Quando o público revisita Viver a Vida em um contexto posterior de maior consciência racial, a novela deixa de ser apenas entretenimento e trans-forma-se em documento das estruturas simbólicas do Brasil dos anos 2000. A própria reação contemporânea à personagem produz uma espécie de autocrítica social retrospectiva: “por que rejeitamos essa imagem naquele momento?”. A pergunta mencionada pela atriz desloca o foco da suposta inadequação da personagem para a inadequação histórica do olhar social que a recebeu.

Nesse sentido, a trajetória crítica de Helena exemplifica de maneira contundente o argu-mento de Nicholas Mirzoeff (2011) acerca da visualidade como regime de poder. O problema não era apenas a presença de uma mulher negra em cena, mas a reorganização do próprio campo do visível que essa presença provocava. Helena ameaçava a estabilidade racial do imaginário televisivo brasileiro porque deslocava a mulher negra de um lugar historicamente associado à alteridade para um espaço de normatividade afetiva e social.

A entrevista de Taís Araújo permite perceber, portanto, que a disputa pela represen-tação negra na televisão não ocorre apenas no nível da inclusão quantitativa de corpos negros nas narrativas, mas sobretudo na transformação das estruturas profundas de percepção social. O que estava em jogo em Viver a Vida era o direito da mulher negra de existir na televisão sem precisar justificar permanentemente sua humanidade, sua competência ou seu pertencimento. A violência simbólica sofrida pela personagem revela que o racismo midiático opera precisamente na tentativa de limitar os modos de existência possíveis para os sujeitos negros no imaginário nacional.

Ao mesmo tempo, o reconhecimento posterior da personagem aponta para a capa-cidade das imagens televisivas de adquirirem novos sentidos históricos. A Helena de 2009, inicialmente rejeitada por parte significativa do público, passa a ser reinterpretada à luz das transformações do debate racial brasileiro contemporâneo. Esse deslocamento demonstra que a televisão, enquanto arquivo cultural, não conserva apenas narrativas ficcionais, mas também as marcas históricas das sensibilidades sociais de cada época. Revisitar a personagem Helena em 2025 significa, portanto, revisitar também o próprio olhar racial brasileiro e confrontar as formas pelas quais a sociedade historicamente regulou quem podia - ou não - ocupar o centro da narrativa nacional.

Esse episódio revela uma questão central da cultura visual brasileira: a diferença entre tolerar a presença negra como marca de diversidade e aceitar a negritude como expressão legítima do universal. Em Da cor do Pecado, a cor era tematizada como diferença sensual e exótica; em Viver a Vida, a ausência dessa marcação explícita tornou visível o incômodo social diante de uma mulher negra que não ocupava um espaço de excepcionalidade racial, mas de centralidade normativa.

A violência simbólica dirigida à personagem Helena evidencia aquilo que Frantz Fanon (2008) descreve como a racialização permanente do sujeito negro no interior das sociedades pós-coloniais. O corpo negro permanece aprisionado a um regime de percepção que o impede de ser plenamente reconhecido como universalidade humana. Assim, a recepção crítica de Viver a Vida revela menos os limites da personagem e mais os limites históricos do imaginário racial brasileiro.

Esse percurso ganha nova inflexão com o remake de Vale Tudo, em 2025. Diferentemente dos casos anteriores, a presença de Taís Araújo no papel de Raquel Accioli ocorre em um contexto histórico marcado pela consolidação das discussões sobre diversi-dade racial no audiovisual e pela pressão pública por revisão crítica dos arquivos culturais brasileiros. A escolha da atriz para reinterpretar uma personagem originalmente associada à imagem de Regina Duarte produz um deslocamento simbólico particularmente significativo porque atinge diretamente um dos principais cânones da memória televisiva nacional.

Se Raquel, em 1988, representava uma ideia de honestidade vinculada ao imaginário da classe média branca brasileira do final da ditadura militar, sua reinterpretação por uma mulher negra em 2025 reorganiza os próprios códigos de pertencimento da narrativa nacional. Nesse caso, não se trata apenas de incluir uma atriz negra em um papel de prestígio, mas de reconfigurar retrospectivamente o arquivo visual da televisão brasileira, deslocando os limites históricos do que pode ser reconhecido como imagem legítima da moralidade, da liderança e da integridade nacional.

No tocante a essa personagem, nessa mesma entrevista ao programa Sem Censura, ao ser questionada pela apresentadora Cissa Guimarães sobre o que lhe incomodara nesse trabalho, uma vez que, em diversas entrevistas concedidas à imprensa, ela confessou que a sua personagem no remake tomou percursos que ela não esperava, Taís Araújo comenta que:

A Raquel, está dentre as 3 personagens mais marcantes da minha carreira, e muito por uma escolha de atuação: eu com a Yara Novaes [preparadora de elenco] que me instigou a fazer uma coisa crua, quase um jogo de cena, que as pessoas não sabem se é verdade ou não é, montar a cara toda, tirar a maquiagem, fazer uma personagem crua, uma mulher que a gente olha e reconhece na vida. E isso é um exercício dificílimo de atuação, muito difícil de fazer, e eu acho que consegui fazer. Não em todos os momentos (risos), porque numa novela você tem uma quantidade imensas de cenas, mas em alguns momentos eu acho que eu consegui alcançar esse lugar e foram momentos muitos especiais na minha carreira, de portfólio, eu acho. Eu consegui guardar esse trabalho de construção… […]. O que aconteceu foi que eu fui convidada para uma personagem que eu sabia a história dela. E de repente me apresentaram outra. E eu achei esquisitíssimo aquilo, mas entendi, porque novela é uma obra aberta, só que eu não sabia que remake também era uma obra aberta, isso eu não sabia! Eu achei que, obviamente, algumas coisas são reestruturadas para atualizar, porque a novela [original] se passou há quase 40 anos atrás, então tem que fazer atualizações. Mas a espinha dorsal eu não esperava, [pois] Romeu e Julieta tem que morrer no final, os dois. Não dá pra um ficar vivo. Isso pra mim bateu num lugar muito duro, difícil, mas eu entendi que é escolhas. A gente está no jogo, foram escolhas que foram feitas. Ok! Por mais que eu fique triste, chateada, frustrada eu sei que esse é o meu ofício. Então depois que eu fiquei chateada e frustrada eu falei: bom, então agora eu vou conti-nuar entregando o meu melhor possível até o final. Eu não vou esmorecer, porque eu não estou sozinha aqui. Tem uma equipe inteira para contar essa história. Um elenco inteiro querendo contar aquela história. Então eu não vou ficar tristinha, não querendo vir trabalhar ou pegar um trabalho no qual eu me esmerei tanto e jogar no lixo. Porque essa é a minha vida, é o meu trabalho, é a minha profissão, é o meu ganha pão, então eu tenho que olhar pra ele com muito respeito. Então é isso aqui o que eu tenho, então bora fazer o melhor possível. E eu respeito muito a minha equipe. Eu fui feliz, porque eu sabia que estava fazendo o melhor com o que eu tinha (Sem […], 2026).

O depoimento de Taís Araújo sobre sua experiência na construção de Raquel Accioli, na refilmagem de Vale Tudo, revela uma dimensão importante das disputas contemporâneas em torno da memória televisiva, da autoria narrativa e da própria polí-tica da representação negra na televisão brasileira. Diferentemente da experiência de Viver a Vida, em que a tensão racial aparecia sobretudo na recepção pública da personagem Helena, aqui emerge outro tipo de conflito: a relação entre expectativa simbólica, reescrita narrativa e controle das imagens no interior da indústria audiovisual contemporânea. A fala da atriz torna visível não apenas o processo técnico e emocional de construção da perso-nagem, mas também as contradições envolvidas na atualização de um cânone televisivo historicamente estruturado pela branquitude.

Inicialmente, chama a atenção a maneira como Taís Araújo descreve a elaboração esté-tica de Raquel. Ao afirmar que buscou, junto da preparadora de elenco Yara Novaes, uma inter-pretação “crua”, próxima de um “jogo de cena”, a atriz aponta para uma escolha consciente de desestabilização da artificialidade tradicionalmente associada ao melodrama televi-sivo. A retirada da maquiagem excessiva, a tentativa de construir uma mulher “que a gente olha e reconhece na vida” e a valorização de uma presença menos espetacularizada sugerem uma busca por uma estética da autenticidade. Trata-se de um movimento significativo porque desloca a personagem negra do lugar da hiperperformatividade visual frequentemente atri-buída aos corpos racializados na televisão brasileira.

Historicamente, a representação da mulher negra na mídia esteve marcada por regimes de visualidade excessivamente codificados: a sensualidade exacerbada, a corporeidade exótica, a força física ou a caricatura emocional. Ao enfatizar a crueza e a contenção inter-pretativa, Taís Araújo reivindica outra forma de presença visual para Raquel - uma presença baseada na humanidade ordinária, na vulnerabilidade cotidiana e no reconhecimento social imediato. Nesse sentido, sua construção da personagem aproxima-se daquilo que bell hooks (1992) compreende como prática de resistência visual: a recusa em reproduzir imagens espe-tacularizadas do corpo negro e a tentativa de reinscrever sujeitos negros em registros de complexidade afetiva e existência comum.

A própria escolha da palavra “reconhece” é particularmente reveladora. Quando a atriz afirma que buscava construir “uma mulher que a gente olha e reconhece na vida”, ela aponta para uma dimensão central da representatividade: o reconhecimento social da humanidade negra fora dos limites do estereótipo. A questão não é apenas tornar corpos negros visí-veis, mas permitir que sejam percebidos como parte constitutiva da experiência ordinária brasi-leira. Há, nesse gesto, uma tentativa de romper com a lógica histórica da excepcionalidade racial, segundo a qual personagens negras precisariam sempre carregar marcas explícitas de exotismo, sofrimento ou grandiosidade moral para justificar sua centralidade narrativa.

Contudo, a fala da atriz ganha maior densidade analítica quando aborda as alterações sofridas pela personagem ao longo da novela. Sua frustração diante das mudanças na “espinha dorsal” da trama revela as tensões próprias da lógica industrial da telenovela brasileira, especial-mente no contexto das refilmagens contemporâneas. Ao utilizar a metáfora de Romeu e Julieta - “Romeu e Julieta têm que morrer no final” -, Taís Araújo explicita uma percepção impor-tante sobre memória cultural e reconhecimento narrativo: determinadas estruturas dramáticas tornam-se constitutivas da própria identidade simbólica de uma obra. Alterá-las significa não apenas atualizar o texto, mas reorganizar os sentidos históricos que ele carrega.

Essa observação é particularmente relevante no caso de Vale Tudo, obra que ocupa posição central no imaginário televisivo brasileiro. A versão de 2025 não constitui apenas uma nova novela, mas uma reinterpretação de um arquivo cultural profundamente sedimen-tado na memória coletiva nacional. Ao assumir o papel originalmente interpretado por Regina Duarte, Taís Araújo não apenas encarna uma personagem, mas reinscreve simbolicamente uma mulher negra em um espaço historicamente associado à moralidade branca da classe média brasileira. Nesse contexto, qualquer transformação significativa na trajetória de Raquel adquire também implicações políticas e simbólicas sobre os modos pelos quais a televisão contemporânea negocia memória, representação e pertencimento racial.

A frustração expressa pela atriz diante dessas mudanças pode ser lida, portanto, como parte de uma tensão mais ampla entre agência artística e estruturas institucio-nais da produção televisiva. Embora ocupe posição central na narrativa, Taís Araújo evidencia os limites do controle do ator sobre a construção final da personagem em uma obra aberta como a telenovela. Esse aspecto torna-se ainda mais significativo quando se considera que sua presença no papel de Raquel carregava expectativas históricas relacionadas à reconfigu-ração da visualidade negra na televisão brasileira. O desconforto da atriz sugere que, mesmo em contextos de ampliação da representatividade racial, as narrativas continuam submetidas a negociações industriais, mercadológicas e institucionais que frequentemente escapam ao controle dos sujeitos que as corporificam.

Ao mesmo tempo, a maneira como Taís Araújo reelabora essa frustração revela uma ética profissional profundamente vinculada à dimensão coletiva do trabalho televisivo. Sua recusa em “esmorecer” ou abandonar emocionalmente o projeto demonstra consciência da televisão como produção colaborativa e espaço compartilhado de criação simbólica. Essa postura também evidencia um aspecto importante da trajetória histórica de artistas negros na mídia brasileira: a necessidade constante de negociar frustrações estruturais sem renunciar à permanência da excelência profissional em um campo historicamente marcado pela exclusão racial.

Há, ainda, uma dimensão importante da fala da atriz relacionada ao trabalho emocional envolvido na construção da personagem. Quando afirma que precisou continuar “fazendo o melhor possível com o que tinha”, Taís Araújo expõe um processo de adaptação contínua às transformações narrativas impostas pela lógica serial da telenovela. Esse aspecto revela como a atuação em novelas envolve não apenas interpretação, mas permanente reorganização subje-tiva diante de alterações de roteiro, expectativas do público e demandas da emissora. No caso de uma atriz negra ocupando um papel historicamente emblemático, esse processo adquire peso adicional, pois cada mudança narrativa passa a carregar também implicações simbólicas sobre representação racial e memória televisiva.

A fala da atriz também permite refletir sobre a própria condição da nova versão como operação cultural contemporânea. Diferentemente da obra original, cuja narrativa se conso-lidou historicamente como referência do melodrama brasileiro, a nova versão precisa negociar simultaneamente fidelidade à memória afetiva do público e atualização dos códigos sociais do presente. Nesse processo, as mudanças realizadas não são neutras: elas reorganizam sentidos históricos, deslocam identificações e produzem novas disputas sobre pertencimento simbó-lico. A presença de Taís Araújo como Raquel potencializa ainda mais essas tensões, pois sua escalação já constitui, por si só, um gesto de reescrita racial do arquivo televisivo nacional.

Assim, a entrevista evidencia que as disputas contemporâneas em torno da repre-sentação negra na televisão brasileira não se limitam mais apenas à questão da inclusão de corpos negros nas narrativas centrais. O que está em jogo agora são também os modos de construção estética dessas personagens, os limites de agência artística dentro das estruturas industriais da televisão e as formas pelas quais a memória cultural brasileira é reorganizada a partir da presença negra em espaços historicamente associados à centralidade branca.

Nesse sentido, Raquel Accioli torna-se mais do que uma personagem reinterpretada: ela opera como território simbólico de disputa entre memória, atualização e visualidade racial. A experiência narrada por Taís Araújo revela que a reconfiguração da imagem negra na televisão brasileira permanece atravessada por negociações complexas entre desejo de trans-formação, expectativas históricas do público e permanência das estruturas institucionais da indústria cultural. Mesmo em um cenário de maior visibilidade negra, a disputa pelo controle das narrativas e pela definição dos sentidos da representação continua sendo um dos princi-pais campos de tensão da cultura visual brasileira contemporânea.

A repercussão pública das alterações promovidas na atualização de Vale Tudo pode ser observada também na cobertura da imprensa de entretenimento, que transformou a frustração de Taís Araújo em elemento central do debate sobre representação racial na teledramaturgia contemporânea. Em matéria publicada pelo Jornal de Brasília (Flávia, 2025), a insatisfação da atriz é interpretada não apenas como divergência artística, mas como questionamento político acerca das narrativas historicamente atribuídas às mulheres negras na televisão brasi-leira. A reportagem enfatiza que a trajetória descendente de Raquel - que retorna à venda de sanduíches na praia após conquistar ascensão econômica - foi recebida pela atriz como perda simbólica de uma possibilidade rara de representação: a de uma mulher negra cuja mobilidade social não estivesse associada ao fracasso, à punição ou à precariedade permanente.

Esse aspecto é particularmente relevante porque evidencia como a discussão em torno da personagem ultrapassou os limites da crítica televisiva convencional e passou a mobilizar debates mais amplos sobre raça, imaginário social e memória midiática. Quando Taís Araújo afirma que gostaria de ver “uma outra narrativa sobre mulheres negras”, a atriz desloca a questão do plano individual da personagem para uma dimensão estrutural da cultura audiovi-sual brasileira. Sua fala sugere que a ascensão interrompida de Raquel não representa apenas uma escolha dramatúrgica isolada, mas dialoga com uma longa tradição de instabilidade social atribuída às personagens negras, frequentemente impedidas de consolidar plenamente posições de sucesso, poder ou estabilidade afetiva. Nesse sentido, a cobertura jornalística ajuda a demonstrar como a recepção de Vale Tudo passou a ser atravessada por leituras críticas sobre os limites da representatividade racial contemporânea, especialmente em um contexto no qual o público já não reivindica apenas presença negra nas narrativas, mas também novas possibilidades de futuro para esses personagens.

Dessarte disso, a trajetória de Taís Araújo, portanto, não pode ser compreendida apenas em termos individuais ou biográficos. Ela constitui parte de uma transformação mais ampla das disputas pela visualidade negra na cultura brasileira contemporânea. Cada uma de suas protagonistas torna-se ponto de condensação de debates históricos sobre raça, memória, pertencimento e representação. Mais do que personagens isoladas, Preta, Helena e Raquel funcionam como marcos distintos das tensões entre inclusão simbólica e permanência das estruturas raciais na televisão brasileira.

É justamente nesse movimento contraditório - entre conquista e limite, visibilidade e controle - que a trajetória da atriz adquire relevância histórica. Sua presença recorrente no centro da teledramaturgia nacional obriga a televisão brasileira a confrontar seus próprios mecanismos de exclusão visual e suas formas históricas de organização racial do imagi-nário. Ao ocupar espaços anteriormente interditados à mulher negra, Taís Araújo não apenas amplia a representatividade na mídia, mas tensiona as próprias condições de produção da imagem nacional brasileira.

Considerações finais

A trajetória de Taís Araújo na teledramaturgia brasileira evidencia que a disputa pela representação negra na televisão ultrapassa a dimensão da presença quantitativa de corpos negros nas narrativas centrais. O percurso construído entre Da cor do Pecado (2004), Viver a Vida (2009) e a segunda versão de Vale Tudo (2025) demonstra que o problema cen-tral da visualidade racial brasileira reside, sobretudo, nas condições simbólicas sob as quais a negritude pode ocupar o centro do imaginário nacional. Ao longo dessas duas décadas, observa-se não apenas uma ampliação da visibilidade de protagonistas negras na televisão brasileira, mas também a permanência de mecanismos históricos de controle narrativo, racia-

lização do olhar e limitação simbólica da experiência negra.

Em Da cor do Pecado, a ascensão de Taís Araújo ao posto de protagonista representou um marco histórico na cultura televisiva brasileira, deslocando a mulher negra para o centro do melodrama romântico contemporâneo. Contudo, a análise demonstrou que essa inserção ocorreu de forma ambivalente. A personagem Preta de Souza ampliava os horizontes de iden-tificação racial positiva ao mesmo tempo que permanecia vinculada a estruturas narrativas marcadas pela exotização da diferença, pela moralização da mulher negra e pela legitimação de sua centralidade por meio do reconhecimento branco. A novela tornou-se, assim, expressão das contradições do início dos anos 2000: um período em que a mídia brasileira começava a responder às pressões por diversidade racial sem, entretanto, romper integralmente com os regimes históricos de visualidade organizados pela branquitude.

Já em Viver a Vida, o conflito desloca-se para outro nível. Diferentemente de Da cor do Pecado, em que a negritude era tematizada explicitamente pela narrativa, a personagem Helena desestabilizava justamente porque não precisava justificar sua existência social por meio da dor, da marginalidade ou da excepcionalidade racial. A recepção hostil à personagem evidenciou a dificuldade histórica da cultura visual brasileira em reconhecer uma mulher negra como expressão legítima da universalidade afetiva, da sofisticação e da estabilidade burguesa. A análise da fala de Taís Araújo ao programa Sem Censura (Sem […], 2026) permitiu compreender que o incômodo provocado pela personagem não se restringia ao campo drama-túrgico, mas revelava estruturas profundas do imaginário racial brasileiro. A exigência implícita de que sujeitos negros expliquem continuamente sua ascensão social evidencia o funcio-namento cotidiano daquilo que Stuart Hall (1997) define como regimes de representação: sistemas simbólicos que determinam quais corpos podem ocupar determinados lugares sem causar estranhamento social.

Nesse sentido, a trajetória crítica de Helena mostrou-se particularmente relevante porque expôs os limites da democracia racial enquanto narrativa conciliatória da identidade nacional brasileira. A personagem tornou visível aquilo que permanecia parcialmente encoberto pelo “véu” mencionado por Taís Araújo: a permanência da branquitude como horizonte silencioso da normalidade televisiva. A posterior reavaliação da personagem pelo público, durante a reexi-bição da novela no Canal Viva, demonstrou ainda a historicidade da recepção das imagens e a capacidade da memória televisiva de funcionar como espaço de autocrítica social retrospectiva. A atualização de Vale Tudo, por sua vez, introduz novas camadas de complexidade ao debate. A presença de Taís Araújo como Raquel Accioli não representava apenas inclusão racial em um papel de prestígio, mas uma verdadeira reorganização simbólica do arquivo visual da televisão brasileira. Ao reinterpretar uma personagem historicamente associada à imagem da mulher branca de classe média, a atriz reinscrevia a mulher negra no interior de um dos princi-pais cânones da memória televisiva nacional. Entretanto, a análise das entrevistas concedidas pela atriz revelou que, mesmo em um contexto contemporâneo de maior visibilidade racial,

permanecem tensões relacionadas ao controle narrativo das personagens negras.

A frustração de Taís Araújo diante das alterações sofridas pela trajetória de Raquel tornou visível uma questão central da representatividade contemporânea: não basta que sujeitos negros ocupem espaços centrais; é preciso observar quais destinos narrativos lhes são permitidos. A crítica da atriz às mudanças promovidas na nova versão da novela revela que as disputas atuais da visualidade negra se deslocaram para um terreno mais sofisticado, envolvendo não apenas presença, mas também agência, permanência simbólica e direito à complexidade narrativa. A recorrente dificuldade da televisão brasileira em sustentar traje-tórias de estabilidade, poder e sucesso para personagens negras evidencia a persistência de estruturas profundas de controle racial do imaginário.

Ao longo do artigo, buscou-se demonstrar que a televisão brasileira opera como um dos principais arquivos simbólicos da memória nacional. Nesse sentido, a presença de Taís Araújo em papéis centrais não produz apenas impacto no campo do entretenimento, mas reorganiza formas de pertencimento, reconhecimento e elaboração da identidade brasileira contempo-rânea. As protagonistas interpretadas pela atriz funcionam como marcos históricos da disputa pela memória visual negra no Brasil, revelando simultaneamente avanços importantes e permanências estruturais da racialização midiática.

A partir das contribuições de bell hooks (1992), Stuart Hall (1997, 2019), Leda Maria Martins (2002), Muniz Sodré (1999a, 1999b), Joel Zito Araújo (2004, 2008), Nicholas Mirzoeff (2011) e Jéfferson Balbino (2016, 2018) foi possível compreender que a visualidade negra constitui um campo permanente de tensão entre reconhecimento e controle. As imagens não são neutras: elas organizam modos de olhar, hierarquias sociais e possibilidades de exis-tência simbólica. Assim, quando uma mulher negra ocupa o centro da narrativa televisiva nacional, não ocorre apenas uma mudança estética ou mercadológica, mas uma disputa efetiva pelas formas de imaginar a própria nação.

Desse modo, conclui-se que a trajetória de Taís Araújo sintetiza uma transformação histórica ainda em curso na cultura audiovisual brasileira. Sua presença recorrente em posi-ções de protagonismo evidencia fissuras importantes na hegemonia branca da televisão nacional, ao mesmo tempo que revela a permanência de mecanismos sutis de racialização das imagens. Preta, Helena e Raquel não são apenas personagens ficcionais; elas constituem acontecimentos históricos da cultura visual brasileira contemporânea. Cada uma delas reor-ganiza, à sua maneira, os limites do visível e amplia as possibilidades de reconhecimento da experiência negra no imaginário televisivo nacional.

Por fim, a análise permite afirmar que a disputa pela visualidade negra na televisão brasileira permanece aberta. Se a ascensão de Taís Araújo ao centro da teledramaturgia nacional representa uma conquista histórica incontornável, ela também evidencia que a demo-cratização efetiva da representação racial depende não apenas da ampliação da presença negra nas telas, mas da transformação profunda das estruturas simbólicas que historicamente regulam quem pode ser visto, desejado, reconhecido e lembrado como sujeito legítimo da narrativa nacional brasileira.

Declaração de disponibilidade de dados:

Este estudo não utilizou dados passíveis de compartilhamento.

Referências

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    Na novela Viver a vida, a atriz Taís Araújo deu vida à protagonista Helena Toledo Ribeiro, uma modelo internacionalmente reconhecida, no ápice da carreira
  • Agência de fomento:
    Nada a declarar.
  • Participação do autor:
    Não se aplica.
  • Editor responsável:
    Martina Spohr.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    07 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    27 Out 2025
  • Aceito
    15 Jun 2026
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