Open-access Crescimento induzido pelas exportações e círculo virtuoso: uma análise por clusters de economias entre 1950 e 2019

Export led growth induced and virtuous circle: a cluster analysis of economies between 1950 and 2019

Resumo

Este artigo visa investigar, através da abordagem kaldoriana, o crescimento econômico induzido pelas exportações em uma amostra de 183 economias no período de 1950 a 2019. Avaliou-se duas hipóteses: a do círculo virtuoso, o qual o aumento da taxa de crescimento das exportações eleva a taxa de crescimento econômico, e a do círculo vicioso, o qual pelo menos um dos elos do processo causal e cumulativo é zero. As hipóteses são testadas a partir de clusters longitudinais definidos através da tendência média do PIB real das economias. Além de clusters de evolução do PIB da metodologia de Phillips e Sul (2007; 2009), foi estimada uma regressão múltipla do Modelo de Crescimento com Causalidade Cumulativa, usando dados em painel e controle de efeito fixo. Como resultado, encontrou-se 70 economias no círculo virtuoso e 113 no círculo vicioso de crescimento.

Palavras-chaves:
Exportações; Círculo virtuoso; Crescimento

Abstract

This article aimed at investigating, through a Kaldorian approach, the export led growth in a sample of 183 economies in the period from 1950 to 2019. Two hypotheses were evaluated: the one of the virtuous circle, which the increase in the export growth rate elevates the economic growth rate, and the vicious circle, in which at least one of the links in the causal and cumulative process is zero. The hypotheses are tested using longitudinal clusters defined by the average trend of real GDP in the economies. In addition to GDP evolution clusters from the Phillips and Sul methodology (2007; 2009), a multiple regression of the Growth Model with Cumulative Causality was estimated, using panel data and fixed effect control. As a result, 70 economies were found to be in the virtuous circle and 113 in the vicious circle of growth.

Keywords:
Exports; Virtuous circle; Growth

1. Introdução

A teoria kaldoriana tem destacado o papel das exportações no desenvolvimento econômico dos países. Segundo Thirwall (2005, 52) é porque “a demanda de exportações é o componente mais importante da demanda autônoma em uma economia aberta”. Além disso as exportações podem custear a importação necessária ao crescimento, sendo relevante para o equilíbrio de longo prazo do balanço de pagamentos. Na trajetória de desenvolvimento, tanto as economias desenvolvidas quanto as em desenvolvimento dependem de muitos insumos importados para realizar sua produção, tanto quanto expandi-la ao longo do tempo.1

Por meio de um sistema de equações apresentados em Dixon e Thirlwall (1975), as exportações e a produtividade são peças-chave para uma engrenagem de crescimento da renda, instaurando um círculo virtuoso de crescimento econômico. Este círculo é intrínseco a causalidade cumulativa, no qual as elasticidades da demanda e a produtividade (coeficiente Kaldor-Verdoorn) permitem avaliar a evolução do crescimento do produto a partir do aumento das exportações. Mas, a existência de um círculo virtuoso, baseado no crescimento das exportações dependeria de uma mudança estrutural para que ganhos de competitividade promovam um aumento sustentável da renda per capita. Isto é, “rendimentos crescentes e aumento induzido da produtividade” (Thirlwall 2005, 52).

Portanto, de acordo com literatura, as exportações podem influir o ritmo de crescimento, e posteriormente o desenvolvimento de uma economia. No entanto, uma economia com estruturas produtivas duais não alcançaria todos os benefícios gerados pelo aumento das exportações devido à concentração em produtos baseados em recursos naturais. Porém isso não impede o crescimento do PIB real. Tais economias estão sujeitas a oscilações cíclicas da renda associadas as flutuações dos preços internacionais das commodities que produzem e exportam. É por isso que a mudança estrutural é importante para que as exportações possam atuar como um drive de crescimento e contribuir para o desenvolvimento da economia.

Para avaliar o efeito do crescimento das exportações sobre o crescimento do PIB real no âmbito médio global, investiga-se, a partir da hipótese de causalidade cumulativa de Kaldor (1966) e Dixon e Thirlwall (1975), a existência de um círculo virtuoso de crescimento em 183 economias entre os anos 1950 e 2019. Objetiva-se estimar o modelo de crescimento com causalidade cumulativa de Dixon e Thirlwall (1975) em diferentes grupos econômicos de países, testando a hipótese de crescimento virtuoso. Especificamente são estimados: (i) o efeito do crescimento das exportações sobre o crescimento do produto, (ii) o efeito do crescimento do produto sobre a produtividade, (iii) o efeito da produtividade sobre o preço das exportações, (iv) a elasticidade do preço sobre o crescimento das exportações no crescimento de longo prazo e, (v) os efeitos da variação da taxa salário e da renda internacional sobre a taxa de exportação. Neste paper utiliza-se o modelo de crescimento induzido pelas exportações em clusters econômicos que convergem para uma mesma tendência média do PIB real. Para tal, empregou-se a metodologia de agrupamento de Phillips e Sul (2007). A estimação do modelo export led growth, foi realizada usando metodologia de regressão múltipla com dados em painel e controle de efeito fixo.

A principal contribuição dessa pesquisa consiste em identificar que os países com maior taxa de crescimento médio conseguem completar o círculo virtuoso export led growth, enquanto o grupo de países com menor crescimento não consegue. Além dessa introdução, o artigo está estruturado da seguinte forma: a primeira parte abordou a teoria kaldoriana e o modelo de crescimento induzido pelas exportações, doravante EXP; a segunda parte apresenta a metodologia e o modelo econométrico testado, e discute os resultados. E, por fim, a conclusão.

2. Crescimento via exportações na abordagem Kaldoriana

As economias abertas têm nas exportações, um componente da demanda agregada, uma variável fundamental na dinâmica capitalista que gera crescimento do produto e da renda per capita. Na abordagem kaldoriana as exportações são um elemento que potencializa a demanda, gerando crescimento. As exportações afetam o desempenho da economia tanto no curto quanto no longo prazo. No curto prazo o aumento das exportações eleva a demanda e, consequentemente, a produção. E no longo prazo podem relaxar a condição de equilíbrio do balanço de pagamentos, permitindo maior crescimento sem restrição externa.2 Além disso, pela lei Kaldor-Verdoorn, o aumento da produção eleva a produtividade.3 As elasticidades da demanda externa e o coeficiente de Kaldor-Verdoorn, são os principais parâmetros na equação da taxa de crescimento do produto. Adicionalmente, a relação entre o crescimento das exportações e a produtividade são cruciais para que o crescimento seja duradouro e sustentável.

No caso das economias que estão em processo de desenvolvimento, a elasticidade da demanda de importações pode ser superior à das exportações. Fato que revela um problema estrutural4. Não é só uma questão de setores de baixa produtividade conviverem com de alta produtividade, mas setores de alta produtividade, concentrados na produção e beneficiamento de commodities. Assim, o comércio internacional pode não ser tão favorável aos países em desenvolvimento com a exportação concentrada em commodities como é para aqueles intensivos em produtos industrializados, como os de alta intensidade tecnológica.

Kaldor (1966; 1970) enfatizou a importância da estrutura e transformação da demanda agregada na relação circular entre os ganhos de eficiência, devido a retornos crescentes, e o aumento da produção como resposta ao crescimento da renda. Esta relação induz a uma cadeia de reação na economia. Setores em crescimento geram aumento da renda, resultando elevações do consumo e investimento.5 A industrialização é fundamental para as exportações estimularem uma mudança estrutural na economia capaz de colocá-la num círculo virtuoso. A mudança tecnológica introduzida pela indústria gera redução dos custos unitários e melhoria na qualidade de produtos exportáveis, permitindo que os produtores locais disputem mercados estrangeiros. Essa ideia está implícita nos estágios de desenvolvimento econômico de Kaldor (1966).

Nos primeiros estágios, Kaldor avalia que a industrialização de uma economia, por meio de substituição de importações, deve atingir um nível o qual possa gerar excedentes em bens de consumo para exportação. Mas o desenvolvimento contínuo da indústria de transformação e ampliação dos mercados com a diversificação da produção doméstica estimularia a expansão de uma indústria de bens de capital nascente para atender tanto uma demanda interna quanto externa. Ao completar este estágio, a economia teria um fluxo equilibrado de bens industrializados, com a sua produtividade e renda média se aproximando daquela dos países desenvolvidos. É nesta última que se contemplaria o estágio final de desenvolvimento. Nesse ponto, embora a economia ainda poderia exportar commodities, o aumento das exportações de bens industrializados poderia levar a mesma para um equilíbrio de longo prazo do balanço de pagamentos.

Os estágios de industrialização começam pela produção de bens de consumo para o mercado interno, mas sua expansão não deve ser contida. Expandindo-se deve exportar seu excedente. Já tendo iniciado a produção de bens de capital e outros insumos, por causa da produção de bens de consumo, a primeira tem seu ritmo de crescimento determinado pela última. Com o passar do tempo, o desenvolvimento tecnológico e outros incentivos exógenos como, por exemplo, uma política industrial, podem induzir a produção doméstica de bens de capital e outros insumos a exportar, de tal monta que esta última não seja limitada pela demanda interna. Esta transformação estrutural, via desenvolvimento industrial, requer sucesso do setor exportador. Daí a importância da relação causal entre exportações, produto e produtividade, que gera o círculo virtuoso.

A substituição de importações criaria as condições para o aprofundamento de uma indústria doméstica manufatureira, com crescimento do produto (1ª lei de Kador). Além disso, a indústria e a produtividade possuem uma relação positiva (2ª lei de Kaldor), que favorece as exportações desses bens de consumo agora domesticamente produzidos, que por sua vez elevaria mais uma vez a taxa de crescimento (3ª lei de Kaldor). A partir desse ponto, o crescimento só seria restringido pela própria demanda imposta pelo equilíbrio de longo prazo do balanço de pagamentos (4ª lei de Kaldor)6.

Assim, para as economias lograrem êxito no seu desenvolvimento econômico puxado pelas exportações é necessário o contínuo desenvolvimento industrial (e seus retornos de escala dinâmicos e estáticos) para completarem os estágios de desenvolvimento industrial e realizarem os upgrades necessários.

2.1. Mudança estrutural como um processo de desenvolvimento

O processo de mudança estrutural é descrito pelo modelo formalizado por Dixon e Thirwall (1975), que se inspira na proposição de Kaldor (1966) de como o processo de causação cumulativa afeta o desenvolvimento de uma economia. Nesse processo, o crescimento é impulsionado pela demanda, o que impactaria a competitividade do setor exportador e levaria ao aumento das exportações, retroalimentando o crescimento da produtividade. Ao longo do tempo, o aumento do produto induz ao crescimento do consumo e do investimento em bens de capital. Este último, junto com as exportações, provocaria uma mudança estrutural - industrialização - necessária para promover o desenvolvimento. A demanda externa também gera expansão interna, e investimentos em setores de conteúdo tecnológico elevariam a competitividade do país. Nesse sentido, o círculo virtuoso causado pelo crescimento das exportações poderá causar uma mudança estrutural, que por sua vez, promoverá o desenvolvimento econômico.

O círculo virtuoso de crescimento é explicado pelo modelo circular de causação cumulativa, o qual a produtividade se ajusta à taxa de crescimento do produto, que é explicada pela taxa de crescimento do gasto autônomo (que pode ser exportação ou mesmo o investimento autônomo, impulsionado pelas expectativas de crescimento da demanda externa). Num círculo virtuoso de crescimento, o estímulo à despesa autônoma é canalizado para a estrutura produtiva, criando ganhos de produtividade através da exploração de economias de escala estáticas e dinâmicas. A massa salarial aumentaria de acordo com os ganhos de produtividade, e o contínuo conflito distributivo entre salários e lucros, induziria a incorporação do progresso técnico, via tecnologias poupadoras de trabalho. Em uma economia aberta, um círculo virtuoso de crescimento aumentaria as receitas de exportação à medida que a economia se tornasse cada vez mais competitiva em bens de maior valor agregado. No entanto, um círculo vicioso ocorreria à medida que os mecanismos de transmissão do gasto autônomo poderiam ser incapazes de promover a transformação estrutural e o aumento da produtividade agregada. Neste caso, a transformação produtiva segue um padrão de especialização em setores de baixa complexidade7. Em uma economia aberta, isso implicaria especialização das exportações na produção de bens com baixo valor agregado, salientando que vantagens comparativas na especialização de produtos de baixo valor agregado poderiam não trazer o nível de desenvolvimento desejável.

A abordagem kaldoriana do crescimento baseado na expansão da demanda foi fundada em fatos estilizados que nos permitem descrever tanto um círculo virtuoso quanto um círculo vicioso de crescimento.8 No início do processo de desenvolvimento, a industrialização, por meio da acumulação de capital com progresso tecnológico incorporado, promove um aumento da produção, da produtividade e da renda per capita. Por meio desse processo, os recursos produtivos - especialmente a mão-de-obra - são gradualmente realocados do setor agrário tradicional e de baixa produtividade para o setor industrial moderno, onde os trabalhadores individuais têm maior dotação de capital e há maiores vínculos para frente e para trás com outros setores da economia. Assim, a industrialização promove uma mudança estrutural em direção a segmentos econômicos de maior produtividade e sofisticação tecnológica. Um segundo fato estilizado aponta para o setor manufatureiro, por meio de uma presença mais forte de economias de escala estáticas e dinâmicas, impulsiona e sustenta a elevação das taxas médias de produtividade da economia como um todo. À medida que a estrutura produtiva evolui e se torna mais complexa e diversificada, com maior interação entre as várias indústrias, os ganhos de produtividade nos setores mais dinâmicos (i.e., a indústria de transformação e de serviços a ela associados) transbordam para outros setores, aumentando o potencial de crescimento da economia.9 No entanto, quando se trata de economias em desenvolvimento, isso pode não ocorrer na presença de um grande mercado de trabalho informal, que contribui para manter os salários baixos no setor formal. Rodriguez (2009, 80) explica que, como resultado, altas margens de lucro são mantidas à medida que os ganhos de produtividade das melhorias tecnológicas são apropriados pelas empresas.10

As economias desenvolvidas, com indústria madura, possuem todos os mecanismos para permanecerem numa trajetória de crescimento de renda per capita e produtividade. As economias em desenvolvimento que iniciaram sua industrialização, mas sofreram uma desindustrialização prematura, podem entrar em um ciclo ou fase de estagnação econômica, por exemplo. Isto é, uma mudança regressiva na estrutura produtiva pode levar a uma diminuição da importância do setor manufatureiro para impulsionar o crescimento da produtividade da economia.11 Nesse caso, deve-se observar a migração do trabalho para setores de menor produtividade, aumentando a informalidade da mão de obra e a economia perdendo sua tração estrutural para continuar crescendo com ganhos de produtividade, positivos e sustentáveis no longo prazo.

2.2. A causalidade cumulativa e o círculo de virtuoso de crescimento.

Kaldor (1970) descreve o processo de crescimento como uma reação em cadeia entre a demanda e as condições do lado da oferta, através de um esquema lógico de causalidade circular e cumulativa.12 O modelo teórico de crescimento baseado na demanda de causalidade cumulativa desenvolvido por Dixon e Thirwall (1975) mostra que o estímulo da demanda pelas exportações pode levar a uma transformação estrutural uma vez que a produtividade agregada se ajusta à taxa de crescimento do produto. Os ganhos de produtividade incorporados à competitividade das exportações descrevem como a mudança estrutural leva ao aumento das exportações, o que impulsiona a produção agregada. Portanto, de acordo com o modelo de causação cumulativa proposto por Dixon e Thirwall, um impulso do setor exportador leva a uma expansão da produção, criando a um círculo virtuoso de crescimento. A especificação do modelo teórico é dada pelo conjunto de equações abaixo:

g t = δ ¯ 1 j x t

x t = δ ¯ 3 j p t + δ ¯ 4 j p * t + δ ¯ 5 j e t + δ ¯ 6 j z t

p t = δ ¯ 7 j w t + δ ¯ 8 j r t + τ ^ j t

r t = r a j t + δ ¯ 9 j g t

As variáveis estão em taxas de crescimento, em que g é a produção agregada; 𝑥 é exportação, 𝑝 e 𝑝∗ são os preços domésticos e internacionais, respectivamente; 𝑒 é a taxa de câmbio, 𝑧 é renda externa, 𝑤 é salário; 𝑟 é produtividade do trabalho e, τ é o mark up do custo médio do trabalho. Note que a taxa de crescimento do produto é dada pelo crescimento das exportações.

Assim, a trajetória de desenvolvimento de uma economia pode ser formada por várias fases de crescimento, podendo ser encontrado círculos virtuosos ou viciosos. Desse fato decorre que duas hipóteses podem ser testadas:

Hipótese 1, do círculo virtuoso, o qual o aumento da taxa de crescimento das exportações (𝑥𝑡) aumenta a taxa de crescimento econômico (𝑔), que, por sua vez, eleva a taxa de crescimento da produtividade (𝑟) a preço competitivo (𝑝), retomando o ciclo de crescimento das exportações (𝑥𝑡+1) em uma espiral cumulativa de crescimento econômico. Conforme representado abaixo:

g t x t > 0 ; r t g t > 0 ; p t r t < 0 ; x t + 1 p t 0 g t + 1 x t + 1 0

Hipótese 2, do círculo vicioso, o qual sugere que, se pelo menos, um dos elos do círculo virtuoso for zero, a economia entra em um círculo vicioso caracterizado por baixas taxas de crescimento econômico, baixa produtividade, ou até mesmo estagnação. Isso acontece especialmente quando a relação entre produtividade e preço é nula. Ou seja, a resposta em termos de crescimento da produção e produtividade face ao crescimento das exportações é baixa. A 2ª hipótese é formalizada como segue:

g t x t = r t g t = p t r t = x t + 1 p t = g t + 1 x t + 1 = 0

A expressão acima representa economias mais dependentes dos gastos domésticos e, portanto, pouco sensível ao crescimento favorecido pela demanda externa. Assim, o modelo de crescimento induzido pelas exportações kaldoriano permanece útil para avaliar o papel das exportações no desenvolvimento das economias e avaliar como a demanda externa pode influenciar o crescimento econômico por meio do modelo de causalidade circular cumulativa kaldoriano.

3. Revisão da literatura

O modelo de crescimento induzido pelas exportações e o princípio da causalidade circular cumulativa inspirado por Kaldor (1966) e formalizado por Dixon e Thirlwal (1975) tem sustentado a importância das exportações no debate do crescimento de longo prazo na tradição Keynesiana. Cornwall (1977, 166) ressaltou nessa abordagem a noção de um círculo virtuoso; no qual o crescimento mais rápido da produção é liderado pelo rápido crescimento das exportações domésticas, aumentando a competitividade externa do país. No círculo vicioso o crescimento das exportações é lento e imprime um menor ritmo de crescimento da produção, com crescente perda de competitividade. Os círculos são decorrentes de um processo de causalidade cumulativa. Skott e Auebach (1995), Argyrous (1996) e Setterfield (1997) discutem esse processo causal.

Depois, Setterfield (2002, p.229) avaliou que Kaldor desenvolveu seu processo de causalidade cumulativa de Veblen-Myrdal para rejeitar a noção de equilíbrio convencional. Para Setterfield, a causalidade cumulativa fornece uma análise de crescimento recorrente baseado num processo self-reinforcing, influenciado pela própria história, manifestando-se como um círculo virtuoso ou vicioso em termos comparativos. O modelo Kaldor-Dixon-Thirlwall desde sua origem nos anos 1970 continua se difundindo e enriquecendo-se com várias contribuições teóricas e aplicadas. Magacho e McCombie (2020) observaram a relação entre a mudança estrutural e a causalidade cumulativa, a qual mudanças estruturais em direção a indústrias de alta tecnologia podem desencadear um processo de causalidade cumulativa e garantir maiores taxas de crescimento no longo prazo. Estes autores utilizaram um modelo multissetorial, o qual mostrou que a divergência nas taxas de crescimento dos países pode ser explicada pela estrutura setorial da produção e do comércio dos países porque os setores têm diferentes elasticidades de renda da demanda.

Após o trabalho de Thirlwall (1979), o modelo de crescimento com restrição no balanço de pagamentos, uma extensão do modelo de crescimento induzindo pelas exportações, frutificou mais que o segundo, sendo muito mais aplicado. No entanto, o modelo Dixon-Thirlwall sempre obteve interesse. Por exemplo, além dos trabalhos teóricos citados, encontramos algumas aplicações econométricas recentes. No Quadro 1 resumimos algumas dessas contribuições aplicadas a análises de conjuntos de países, tais como fizeram Targetti e Foti (1997), Leon-Ledesma (2002), Soukiazis e Madaleno (2007) Koga e Araújo (2023), e Keil e Meloni (2024). Esses autores analisaram separadamente blocos de países desenvolvidos e em desenvolvimento, verificando e efeito do hiato tecnológico tanto em países industrializados e não ou parcialmente industrializados, avaliando a capacidade do setor exportador sustentar um crescimento econômico ao longo do tempo. Adicionalmente, Iasco-Pereira e Missio (2023), avaliaram também o efeito da variação da taxa de câmbio no modelo. Outros autores usaram o modelo Dixon-Thirlwall para avaliar apenas um país. Por exemplo, Atesoglu (1994) e (1996), Federici e Meloni (2002), Feijó, Lamonica e Lima (2022) e Romero, Gonzalez e López (2024), os quais aplicaram o modelo aos Estados Unidos, Alemanha, Itália, Brasil e México, respectivamente.

Neste nosso trabalho buscamos analisar o máximo de países, com dados disponíveis, arguindo quais deles conseguem trafegar no círculo virtuoso puxado pelas exportações, resultando em taxas médias de crescimento, e quais não. Os que não conseguem fechar o circuito causal não obtêm benefícios da relação de longo prazo entre produção industrial, produtividade e exportação.

Quadro 1
Resumo da literatura do EXP aplicada a bloco de países

4. Método e análise empírica

O objetivo desse artigo é investigar a existência, ou não, do círculo virtuoso de crescimento kaldoriano na trajetória de crescimento do produto de 183 economias no período de 1950 a 2019. A rejeição da hipótese de existência de círculo virtuoso é interpretada como a existência de um círculo vicioso de crescimento. Iniciando a formulação das hipóteses da versão do modelo a ser testado, assumimos que o PIB real dos países da amostra (ver Quadro 2) possui diferentes sensibilidades ao crescimento induzido pelas exportações. Note que as exportações têm influência direta e indireta sobre o produto. Indiretamente, as exportações podem financiar a aquisição de novas tecnologias, capaz de produzir ganhos de produtividade, reduzindo custos de produção e levando a preços mais competitivos.

Nesses termos, conforme as hipóteses expostas acima, testa-se duas proposições:

Proposição 1 - as economias estão em um círculo virtuoso, elas crescem em um processo causal e cumulativo como descrito pelo modelo EXP. É o caso, por exemplo, dos países cujo saldo das exportações é usado para financiar aquisição de novas máquinas e equipamentos mais eficientes. Quando as exportações financiam e, assim, conseguem viabilizar a importação de novas tecnologias, os preços caem com o aumento da produtividade formando uma espiral progressiva de crescimento econômico.

Proposição 2 -as economias estão em um círculo vicioso, elas não crescem como em um processo causal e cumulativo. Neste caso, o crescimento das exportações não estimula a relação produtividade-preço, inibindo o crescimento econômico relativo e as chances de catching up tecnológico.

Para estimar as diferentes sensibilidades do modelo EXP foi empregada uma metodologia em dois passos: No primeiro passo são estimados os clusters econômicos do PIB real, através da metodologia da regressão log(t) de Phillips e Sul (2007); no segundo passo, o exercício empírico modela os agrupamentos através de dummies de declividade para identificar simultaneamente os efeitos causais e cumulativos das exportações no crescimento do PIB real dos clusters estimados.

4.1. Clusters de PIB e a regressão log(t)

A metodologia explora a possibilidade de subgrupos de clusters longitudinais. Para isso, Phillips e Sul (2007) desenvolveram um algoritmo de clusters, ajustado por Schnurbus, Haupt e Meier (2017). Nesse algoritmo, os indivíduos são classificados de maneira decrescente no período analisado. Na presença de forte volatilidade temporal, a classificação pode ser implementada com base na média ponderada do tempo, indexando os indivíduos ao seu período.

Um cluster k é formado quando a estatística de teste da regressão log(t) for tk>1.65 para o grupo {k,k+1}. Na ausência de um grupo k com um tk>1.65 significa que não há subgrupos no painel de dados. Para maior segurança estatística de que os indivíduos estão em seus respectivos grupos, deve haver um teste adicional de fusão interativa entre os clusters, sob a hipótese de agrupamento entre países dos clusters formados inicialmente (Schnurbus, Haupt e Meier 2017). Isso deve mesclar interativamente cada par de cluster para formar um novo agrupamento final, sob a mesma estatística de testes cujo tk deve ser maior do que 1.65(tk>1.65). Uma melhor descrição dessa metodologia pode ser encontrada no apêndice estatístico desse artigo.

4.2. Exercício empírico

As equações empíricas do modelo de crescimento induzido pelas exportações são construídas com dummies de declividade para cada grupo k dos clusters de PIB real. Essa modelagem permite estimar simultaneamente a existência de um círculo virtuoso de crescimento como descrito pelo modelo kaldoriano, em todos os clusters econômicos de crescimento. Todas as estimações do modelo são realizadas através do estimador de efeito fixo para dados em painel, com desvio padrão robusto. O estimador de efeitos fixos se mostra adequado por controlar a heterogeneidade estrutural das economias da amostra13. O modelo empírico é definido pelas quatro equações abaixo:

g t i = δ j D u m m y k x t i + ϵ t i (1)

r t i = r a t i + δ j D u m m y k g t i + u t i (2)

p t i = δ j D u m m y k r t i + δ j D u m m y k w t i + τ t i + ξ t i (3)

x t i = δ j D u m m y k p t i + δ j D u m m y k z t + ε t i (4)

O vetor de variáveis do modelo é composto, pela: taxa de crescimento econômico (gti); taxa de crescimento das exportações (xti); taxa de crescimento dos preços domésticos (pti); taxa de crescimento da renda externa (zt); taxa de crescimentos dos custos salariais (wti); taxa de crescimento da produtividade (rti), tendo (rati) como produtividade autônoma dada pela constante da equação; e por último a taxa de crescimento do custo médio da mão de obra (τ^ti). A variável Dummyk refere-se ao cluster de crescimento k da do PIB real dos países, onde k representa os dois agrupamentos finais da estimação log(t)(k=1,2). Os subscritos ti representam 183 economias ao longo do tempo entre 1950 e 2019. Os parâmetros δ j representam os coeficientes em cada nível dos clusters das tendências médias do PIB real. Todas as estimativas foram realizadas através do Software Stata 12.

4.3. Apresentação das variáveis, fonte dos dados, códigos e período

As variáveis do modelo teórico estão em taxa de crescimento, dada a característica do modelo supracitado, como mostra o Quadro 1. Essas variáveis e os seus respectivos códigos são da Penn World Table versão 10.01 e da base World Development Indicators do World Bank.14 O quadro abaixo apresenta a síntese das variáveis do modelo. Ao todo são analisados 183 países em dados longitudinais de 1950 a 2019. O objetivo é dispor do maior número de observações possíveis para se obter resultados robustos. Os países que fazem parte desse estudo estão nominados no Quadro 2, separados por cluster de crescimento como resultado da aplicação do método de Phillips e Sul. O grupo de variáveis proxy apresentadas nesse estudo é idêntico ao empregado no estudo de Feijó; Lamonica; Lima (2022). A maioria dos trabalhos empíricos apresentados na seção 3 exploram as mesmas relações, onde as exportações induzem o crescimento doméstico. A partir de variáveis proxy semelhantes, como renda externa, câmbio, preços e salários, eles exploram situações individuais de export led growth. Nenhum dos trabalhos analisados explorou a dualidade entre países de crescimento virtuoso e vicioso, assim como apresentado nesta pesquisa.

Quadro 1
Variáveis do modelo de crescimento induzido pelas exportações (EXP)

4.4. Avaliando os resultados dos clusters de crescimento das economias

A regressão log(t), apresentada na Tabela 1, testa a hipótese de cluster único de renda, em que todas as 183 economias convergem para o mesmo grupo de equilíbrio. Sob a hipótese estatística de que os clusters são identificados para toda estatística t maior que -1.65, a hipótese nula de cluster único é rejeitada a 5%, dada a estatística t calculada de -2.3463. A estimativa dos clusters confirma a hipótese de diferentes agrupamentos econômicos, cuja estatística t é maior que -1.65. A regressão com os resultados para esse primeiro teste de clusters de países, estima que existem 3 clusters de países com mesma tendência média do PIB real. Em todos os casos a hipótese nula de agrupamento em cluster é aceita a 5% de significância, em que a estatística t é maior que -1.65.

Sob a hipótese de robustez de que dois ou mais clusters podem ser fundidos em um só, foram realizados os testes de fusão para formar clusters maiores de países. Os resultados apresentados mostram que a hipótese de fusão dos clusters 1 e 2 não é rejeitada a 5%, formando um novo cluster final 1, resultado dos dois clusters iniciais. O teste de fusão entre os clusters 2 e 3 rejeita a hipótese de agrupamento a 5%, com estatística menor que -1.65, deixando agora o antigo cluster 3 como cluster final 2. Significa dizer que os clusters finais estimados são compostos por apenas dois grupos econômicos, denominados aqui como clusters de crescimento virtuoso e vicioso. O cluster 1 de crescimento virtuoso é formado pelo grupo de países com maior evolução média do PIB real. O clusters 2 de crescimento vicioso é formado pelo grupo dos demais cuja evolução do PIB real se mostra cada vez mais distante dá tendência média do cluster 1.

Tabela 1
Clusters de crescimento do PIB real dos países da amostra, 1950-2019

A Figura 1 mostra a trajetória média de evolução do PIB real, por cluster de crescimento. A Figura 1A demonstra que no fim dos anos de 1960 o cluster 2, de economias intermediárias, consegue alcançar o cluster 1. Por essa razão, o teste de fusão (Tabela 1) agrupa os clusters 1 e 2 na forma de cluster final 1 de economias com crescimento virtuoso, e o cluster 3 permanece como grupo de economias com crescimento vicioso (Figura 1B).

Figura 1
Trajetória da média do logaritmo natural da tendência do PIB, por cluster de países, 1950-2019.

A Tabela 2 apresenta o principal resultado desse trabalho, que responde porque o cluster 1 é virtuoso e estaria crescendo mais rapidamente que o clusters 2, denominado vicioso. O EXP, estimado por cluster de países, é testado em quatro equações específicas: a equação 1, estima o efeito do crescimento das exportações (x) sobre o crescimento econômico (q); a equação 2, estima o efeito do crescimento econômico sobre a produtividade (r); a equação 3, estima o efeito da produtividade sobre o preço das exportações (p) e; a equação 4, estima a elasticidade do preço sobre o crescimento das exportações na retomada da espiral de crescimento cumulativo de longo prazo. Também são estimados os efeitos da taxa salário (w) sobre os preços e da taxa de crescimento da renda internacional (z) sobre as exportações, nas respectivas equações 3 e 4. O crescimento dos salários pode funcionar como drive de modernização tecnológica aumentando a relação capital-trabalho. O crescimento da renda mundial especifica o crescimento das exportações derivada da demanda global.

Na equação 1, os resultados mostram que um choque de crescimento sobre as exportações (x) vai exercer um efeito relativamente pequeno sobre o crescimento econômico (g), em ambos os clusters, com ligeira vantagem para o grupo com crescimento vicioso. O aumento de 1% no crescimento das exportações aumentaria o crescimento econômico das economias do círculo virtuoso em uma média de 0,040%, comparativamente aos 0,049% do círculo vicioso. Entretanto, de acordo com a equação 2, o efeito do crescimento econômico (g) como financiador da produtividade agregada (r) é maior no grupo das economias ‘virtuosas’. Um aumento de 1% no crescimento econômico elevaria a produtividade do cluster das economias virtuosas em uma média de 0.768%, comparativamente aos 0,687% das economias em círculo vicioso. Esse resultado reforça a ideia de que as economias do círculo vicioso precisariam crescer mais rápido que as do círculo virtuoso para reduzir a diferença de produtividade entre elas.

Tabela 2
Modelo de crescimento induzido pelas exportações separados em clusters de países da amostra, usando estimador de efeito fixo com desvio padrão robusto

Os resultados da equação 3 mostram que o crescimento dos preços das exportações (p) é muito mais influenciado pelos custos salarias (w) do que pelo crescimento da produtividade (r). O crescimento de 1% nos salários aumenta os preços das exportações em 0,157% nas economias do círculo vicioso e em 0,379% nas economias do círculo virtuoso. Isso mostra que as economias que estão no círculo virtuoso são mais sensíveis a mudança nos custos salariais. Como os custos salariais concorrem com os custos dos bens de capital, essas economias estão mais suscetíveis a substituição de mão de obra por tecnologias mais intensivas em capital, comparativamente as economias do círculo vicioso. A relação entre produtividade e preço (ptrt), um dos principais links da causalidade cumulativa do modelo EXP, se mostra significativa apenas no cluster do círculo virtuoso. De acordo com os resultados para o cluster virtuoso, um aumento de 1% na produtividade reduz os preços médios das exportações em - 0,149%, tornando o produto exportado mais competitivo no mercado internacional e causando cumulativamente o crescimento de longo prazo. Esse mesmo efeito no cluster vicioso é estatisticamente igual a zero (ptrt=0).

A Equação 4 mostra que o crescimento das exportações (x) responde negativamente ao crescimento dos preços (p) e que o clusters de crescimento vicioso é mais sensível a mudança dos preços. Isto é, uma queda de 1% nos preços aumenta mais o crescimento das exportações das economias do círculo vicioso (0,459%) do que das economias do círculo virtuoso (0,323%). Da mesma forma, a sensibilidade do crescimento das exportações em relação ao crescimento da renda do resto do mundo é maior para as economias do círculo vicioso. Os resultados encontrados para as mesmas sugerem que o predominante comércio de commodities do cluster vicioso - produtos homogêneos - é comparativamente mais sensível aos preços de exportações e mais dependente do crescimento da renda mundial.

O conjunto de equações (1 - 4) apresentado nas colunas da Tabela 2 mostra o crescimento do clusters virtuoso, comparativamente ao crescimento do clusters vicioso. A equação 3 (Tabela 2) nos mostra o ponto de ruptura entre o crescimento virtuoso e o crescimento do círculo vicioso. Isto é, a neutralidade do efeito da produtividade sobre os preços das economias do cluster vicioso caracteriza a hipótese de ausência de crescimento econômico com causalidade cumulativa. De acordo com os achados da pesquisa, essa é a razão do atraso relativo da taxa de crescimento do cluster vicioso. Esse resultado é confirmado pela Figura 2, ao exibir o crescimento econômico dos dois clusters de crescimento entre os anos de 1950 e 2019. A vantagem do crescimento das economias do círculo virtuoso em relação as do vicioso é ampliada ao longo do tempo, mais notadamente após 1970.

Figura 2
Crescimento econômico dos países por clusters de crescimento virtuoso e vicioso, 1951-2019.

No Quadro 2 são apresentados os dois clusters finais da estimação log(t). Entretanto existe uma particularidade nessa estimação que vale um esclarecimento: existem economias desenvolvidas e em desenvolvimento nos clusters virtuoso e vicioso, ao mesmo tempo. Nesses termos, entende-se que isso seja possível porque as economias desenvolvidas do cluster vicioso podem estar em trajetória de crescimento estacionária, assim como as economias em desenvolvimento podem estar estagnadas. A estagnação é uma característica comum das economias duais. Apesar do seu crescimento, as exportações não conseguem ser um drive de crescimento cumulativo. No cluster do crescimento virtuoso, as economias estão crescendo aceleradamente devido ao crescimento causal induzido pelas exportações sobre a relação produtividade-preço. Nesse caso, as economias em desenvolvimento que fazem parte desse cluster podem estar em trajetória de catching up, por estarem crescendo mais rapidamente que as outras, com causalidade cumulativa.

Quadro 2
Clusters finais da tendência do PIB real dos países

Como exemplo dessa suposição, recorremos novamente à Figura 1A, que mostra como as economias do cluster intermediário crescem em relação às demais a partir de 1960. A trajetória de evolução do PIB real ilustra que, de 1970 em diante, as economias já alcançam o cluster 1 de crescimento virtuoso. Como exemplo dessa trajetória, é possível citar os casos do Brasil, México, Chile, Espanha, e outros que, segundo a metodologia aplicada, iniciaram uma trajetória de crescimento acelerada ainda nos anos de 1950, saindo do cluster intermediário de crescimento e convergindo ao cluster virtuoso nos anos de 1960. Um quadro com a apresentação do cluster intermediário pode ser encontrado no Apêndice C.

5. Conclusão

Na abordagem kaldoriana há duas trajetórias de crescimento para as economias capitalistas. Uma se refere a um círculo virtuoso de crescimento, o qual o crescimento do produto induzido pelas exportações eleva a produtividade e reduz os preços, tornando a economia mais competitiva no setor externo. Este crescimento é devido ao círculo causal cumulativo. A outra, um círculo vicioso, onde o crescimento fica estagnado e, portanto, a economia em desenvolvimento estaria fora de uma trajetória de catching up. Este último pode ser um padrão característico de economias em estágios iniciais de desenvolvimento, por terem uma estrutura dual. As economias maduras que se encontram em um círculo vicioso podem estar numa trajetória estacionária de crescimento.

O exercício empírico, a luz da teoria de Kaldor, identificou para o período de 1950 a 2019 as economias que estão em um círculo virtuoso de crescimento; e aquelas as quais o efeito da relação produtividade-preço encontrou-se nula e, portanto, estariam num círculo vicioso de crescimento. No círculo vicioso, os ganhos de produtividade induzido pelo crescimento econômico causado pelas exportações não influenciam os preços das exportações. Por essa razão, o efeito circular e cumulativo do crescimento do modelo EXP se torna estagnado ou estacionário. Ao contrário disso, o grupo de economias de crescimento virtuoso apresenta todos os links esperados do modelo EXP, formando uma espiral de crescimento virtuoso com causalidade cumulativa, induzido pelas exportações.

Os resultados médios mostram 70 economias em um círculo virtuoso com maior taxa de crescimento médio e 113 no círculo vicioso com menor taxa média, economias as quais não conseguem fechar o circuito causal. As economias do círculo virtuoso conseguiram manter sua competitividade dentro de um processo causal circular e cumulativo. Dadas as características do modelo de Kaldor, isso significa que o crescimento causal pressiona o crescimento dos salários, induzindo ao financiamento dos investimentos em novas máquinas e equipamentos mais eficientes, via saldo das exportações. Enquanto as economias estagnadas no círculo vicioso mantiveram um crescimento de produtividade sem induzir ao aumento da competitividade externa via preços. Dessa forma, o crescimento das exportações e do produto desses países seriam mais dependentes do crescimento da renda mundial. Nesse sentido, a ausência de uma relação produtividade-preço estaria reduzindo a probabilidade de catching up tecnológico dessas economias.

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  • DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS
    Os dados utilizados neste estudo estão disponíveis mediante solicitação ao autor. Dados adicionais e informações complementares também poderão ser fornecidos para fins de verificação ou replicação. A disponibilização está condicionada à inexistência de restrições de acesso público.
  • Os autores agradecem aos cuidadosos comentários e contribuições dos avaliadores anônimos. Erros ou omissões são de responsabilidade única dos autores.
  • JEL Classification
    F43, O47, O57.
  • 1
    O modelo de Thirlwall (1979) e seus desdobramentos desenvolvidos por Thirlwall e Hussain (1980) e Moreno-Brid (2003), por exemplo, mostram a importância das exportações para além da ampliação da demanda doméstica. Esses modelos mostram que mesmo em um cenário de fluxo de capital e endividamento externo, as exportações são fundamentais para financiar o Balanço de Pagamentos. Inicialmente gerando receita em divisas para financiar a importação de produtos cruciais e necessários ao desenvolvimento econômico, como por exemplo, bens de capital e insumos que não são produzidos localmente e, posteriormente, contribuir para o pagamento de amortizações e empréstimos em moeda estrangeira. Em países em desenvolvimento, os quais a moeda não é conversível, a importância das exportações eleva-se ainda mais, pois significa a possibilidade de crescimento econômico com equilíbrio no Balanço de Pagamentos. Ocampo, Rada e Taylor (2009) destacam as exportações líquidas como meio para financiar a tecnologia importada para aumentar o potencial dos retornos crescentes de escala do investimento em capital produtivo.
  • 2
    Ver, por exemplo, Thirlwall (1979) e McCombie e Thirlwall (1994, capítulos 3 a 5).
  • 3
  • 4
    Ver, entre outros, Rodrigues (2009) e Cimoli e Porcile (2013)
  • 5
    Skott (1999, 167), ressalta as diferenças setoriais no grau de retornos de escala. Enquanto os retornos decrescentes prevalecem em atividades baseadas na terra (setor primário), a indústria manufatureira está sujeita a retornos crescentes.
  • 6
    Para as leis de Kaldor, ver Thirlwall (1983).
  • 7
    Para avaliar ou medir a sofisticação produtiva ou complexidade econômica de um país ou conjunto deles, ver, por exemplo, Gala (2017).
  • 8
    Ver Nassif et al. (2020) para uma lista mais longa de fatos estilizados.
  • 9
    Esta é a lei de Kaldor-Verdoorn, segundo a qual quanto maior a taxa de crescimento da produção industrial, maior a taxa de crescimento da produtividade industrial e da economia por causa das ligações para trás e para frente do setor manufatureiro. Ver Kaldor (1966) e McCombie e Thirlwall (1994, capítulo 2).
  • 10
    A manutenção da apropriação da produtividade do trabalho pela firma capitalista pode desacelerar o ritmo com que estes mesmos empresários adicionam novas tecnologias no meio de produção via investimento em capital produtivo. Neste caso, o conflito distributivo não contribui para o progresso tecnológico e, portanto, para o desenvolvimento econômico. Isto é, não induz a renda per capita ao catching up.
  • 11
    Segundo Cimoli e Porcile (2013, 7), investir em ativos ilíquidos é fundamental para tornar a estrutura econômica mais densa, completa, diversificada e homogênea, características de uma economia desenvolvida.
  • 12
    Esse esquema kaldoriano tem sido útil para explicar como as economias em desenvolvimento podem superar a barreira imposta pelo alto grau de heterogeneidade na estrutura produtiva e no mercado de trabalho e alcançar uma trajetória de crescimento que promoverá o catching up da renda per capita às economias mais avançadas, tornando as economias mais competitivas. Os países que diversificaram a estrutura produtiva, para produzir bens com maior elasticidade renda da demanda, conseguiram relaxar suas restrições externas imposta pela condição de equilíbrio do Balanço de Pagamentos, aumentando suas taxas de crescimento (Thirlwall 1979).
  • 13
    A heterogeneidade estrutural se refere às características das economias que não se alteram ao longo do tempo.
  • 14
    A variável de preços externos (pti*) não aparece na especificação empírica devido a limitação dos dados em painel, onde cada economia tem como o preço externo os demais preços das outras economias no painel de dados. Porém, sem prejuízos a análise de produtividade e preços domésticos.

Apêndice

A. Apêndice estatístico: Cluster e a regressão log(t)

A agrupamento do PIB real entre duas economias é possível no limite do tempo ao infinito, quando a participação das exportações na renda de uma economia ((Xti)) alcança outra ((Xjt)). Como mostra a equação ao baixo:

lim t X t i X t j = 1 i e j

Essa é uma condição de convergência relativa de acordo com Phillips e Sul (2007). Ela é equivalente a condição de convergência de carga fatorial no tempo.

lim t δ t i = δ i

Assumindo que o coeficiente δti pode ser modelado em componentes de indivíduo (δi) e tempo (ξti), da seguinte forma:

δ t i = δ i + σ t i ξ t i , c o m σ t i = σ i L ( t ) t α , t 1 e σ i > 0 i

L(t) é uma função de variação lenta, que pode ser uma log(t) ou uma log[log(t)]. As simulações de Monte Carlo apresentadas em Phillips e Sul (2007) sugerem que L(t)=log(t) produz menor distorção de tamanho e melhor poder de teste. Portanto, L(t)=log(t) é uma função usada nos códigos do Stata (Du 2017).

O teste da regressão log(t), de Phillips e Sul (2007), tem como hipótese nula (h0) a presença de convergência entre as variáveis. Contra a hipótese alternativa (ha) de ausência de convergência.

h0:δi=δeα0 contra ha:δiδouα<0

Na prática, esse teste pode ser implementado através da seguinte especificação da regressão log(t):

log H 1 H t 2 log [ log ( t ) ] = a + b log ( t ) + ε t t = [ r T ] , [ r T ] + 1, , T c o m r > 0

Como o tamanho de r pode influenciar os resultados da regressão, as simulações de Monte Carlo sugerem que o intervalo fixo de r[0.2,0.3], alcança resultados satisfatórios. Objetivamente, a recomendação é de que r=0.3para pequenas amostras com tempo T50 para grandes amostras com tempo r=0.2.

Segundo Phillips e Sul (2007), para b=2α,h0 é convenientemente testado através da desigualdade fraca da hipótese em que α0.. Isso implica em um teste unilateral, que sob algumas condições técnicas, a distribuição assintótica da estatística t da regressão é:

t b = b ^ b s b N ( 0,1 )

B. Especificações do modelo EXP

A Tabela 1 do apêndice B apresenta as especificações do modelo EXP estimado com e sem dummy de tempo. De maneira geral, os resultados não se mostram sensíveis ao efeito explicito do tempo. A única mudança significativa se mostra relacionada ao efeito nulo da renda externa no crescimento das exportações (equação 4.1), aumentando também a sensibilidade das exportações aos preços. Os critérios de ajustes AIC e BIC foram estimados para as especificações com e sem dummy de tempo, más não se mostraram conclusivos. As vezes mostram maiores ajustes nas equações sem tempo e outras vezes nas especificações com tempo. Os referidos critérios não revelaram um padrão de especificação empírica mais ajustado. No caso das equações 4 e 4.1, o critério BIC sugere uma melhor especificação sem dummy de tempo, enquanto o critério AIC sugere o contrário. Como não há um padrão, optou-se pelas equações sem dummy de tempo, por apresentar todas as relações esperadas pelo modelo teórico.

Tabela 1
Especificações com e sem tendência do modelo EXP
C. Clusters de crescimento antes do teste de fusão

O Quadro 3 mostra o resultado da regressão log t, antes do teste de fusão. O cluster 2 de economias intermediárias representa o grupo de países que se mostrava em trajetória de catching up nos anos de 1960 - 1970, e que alcançaram o cluster 1 de economias do círculo virtuoso, de acordo com o teste de fusão. A estimativa dos clusters finais, mostra que o cluster de economias em trajetória de crescimento virtuosa é composto exatamente pelos países dos clusters 1 e 2. O cluster 3 de economias do círculo vicioso, exibe uma tendência de evolução do PIB real aquém do PIB do círculo virtuoso e cada vez mais distante.

Quadro 3
Clusters de crescimento do PIB real dos países

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    12 Jan 2026
  • Data do Fascículo
    Oct-Dec 2025

Histórico

  • Recebido
    12 Mar 2024
  • Revisado
    13 Maio 2025
  • Aceito
    31 Jul 2025
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