Open-access COMPREENDER A VIOLÊNCIA ESCOLAR: UMA REVISÃO SISTEMÁTICA SOBRE AS CARACTERÍSTICAS, FATORES ASSOCIADOS E INTERVENÇÕES1

COMPRENDIENDO LA VIOLENCIA ESCOLAR: UNA REVISIÓN SOBRE CARACTERÍSTICAS, FACTORES ASOCIADOS E INTERVENCIONES

RESUMO:

As instituições de ensino devem ser ambientes acolhedores e seguros para promover o aprendizado e o desenvolvimento dos estudantes. No entanto, a segurança nas escolas tem sido comprometida por uma série de incidentes de violência escolar, que abrange desde vitimização entre pares e bullying até ataques armados. Este estudo realiza uma revisão rápida de revisões sistemáticas sobre violência escolar conduzidas no Brasil e no exterior, com o objetivo de compreender as características da violência escolar, seus fatores associados, ataques armados em escolas e possíveis medidas de prevenção e intervenção diante da violência escolar. Foi adotada uma abordagem de revisão rápida, seguindo o protocolo PRISMA (Page et al., 2021), com ênfase em revisões sistemáticas sobre violência escolar, as quais foram rastreadas por meio da busca de títulos em onze bases de dados. Foram recuperadas 1738 publicações e, após a exclusão das duplicatas, triagem das referências e avaliação da qualidade dos textos completos localizados, 127 estudos foram mantidos na análise. As categorias resultantes da análise foram: características da violência escolar (15% dos estudos), fatores associados à violência escolar (45,7%), intervenções diante da violência escolar (33,8%) e ataques armados às escolas (5,5%). Os resultados destacaram a complexidade da violência escolar e a heterogeneidade das taxas de prevalência de violência escolar, além de destacar a necessidade de mais pesquisas sobre a violência escolar no contexto brasileiro para a o desenvolvimento e avaliação de intervenções inclusivas e culturalmente adequadas.

Palavras-chave:
violência escolar; bullying; prevenção; revisão sistemática

ABSTRACT:

Educational institutions should be welcoming and safe environments for promoting student learning and development. However, safety in schools has been compromised by a variety of incidents of school violence, ranging from peer victimization and bullying to armed attacks. This study undertakes a rapid review of systematic reviews on school violence conducted in Brazil and abroad, aiming to understand the characteristics of school violence, its associated factors, armed attacks in schools, and possible prevention and intervention measures. A rapid review approach was adopted, following the PRISMA protocol (Page et al., 2020), with an emphasis on systematic reviews on school violence, which were screened by searching titles in eleven databases. A total of 1,738 publications were retrieved, and after excluding duplicates, screening references, and assessing the quality of the full texts, 127 studies were included in the analysis. The categories resulting from the analysis were: characteristics of school violence (15% of the studies), factors associated with school violence (45.7%), interventions in response to school violence (33.8%), and armed attacks on schools (5.5%). The results highlighted the complexity of school violence, the heterogeneity of school violence prevalence rates, and the need for more research into school violence in the Brazilian context to develop and evaluate inclusive and culturally appropriate interventions.

Keywords:
school violence; bullying; prevention; systematic review

RESUMEN:

Los centros educativos deben ser entornos acogedores y seguros para promover el aprendizaje y el desarrollo de los alumnos. Sin embargo, la seguridad en las escuelas se ha visto comprometida por una serie de incidentes de violencia escolar, que van desde la victimización y el acoso entre compañeros hasta los ataques armados. Este estudio realiza una revisión rápida de las revisiones sistemáticas sobre violencia escolar realizadas en Brasil y en el extranjero, con el objetivo de comprender las características de la violencia escolar, sus factores asociados, los ataques armados en las escuelas y las posibles medidas de prevención e intervención ante la violencia escolar. Se adoptó un enfoque de revisión rápida, siguiendo el protocolo PRISMA (Page et al., 2020), con énfasis en las revisiones sistemáticas sobre violencia escolar, que se seleccionaron mediante la búsqueda de títulos en once bases de datos. Se recuperaron 1.738 publicaciones y, tras excluir duplicados, cribar referencias y evaluar la calidad de los textos completos localizados, se mantuvieron 127 estudios en el análisis. Las categorías resultantes del análisis fueron: características de la violencia escolar (15% de los estudios), factores asociados a la violencia escolar (45,7%), intervenciones ante la violencia escolar (33,8%) y ataques armados a escuelas (5,5%). Los resultados pusieron de manifiesto la complejidad de la violencia escolar y la heterogeneidad de las tasas de prevalencia de la violencia escolar, además de subrayar la necesidad de más investigación en el contexto brasileño para desarrollar y evaluar intervenciones inclusivas y culturalmente apropiadas.

Palabras clave:
violencia escolar; acoso escolar; prevención; revisión sistemática

INTRODUÇÃO

O que acontece com os processos de ensino, aprendizagem e convivência quando as escolas, que devem ser refúgios seguros para a educação, tornam-se palcos de violência? A segurança em espaços escolares tem sido comprometida por incidentes de violência que incluem até mesmo atentados contra a vida, como no caso dos tiroteios em massa (Prado, 2023), a exemplo do ataque de um ex-aluno a uma escola em Cambé (PR), com duas vítimas fatais. Esse fenômeno, que compreende atos de violência ocorridos dentro do ambiente escolar ou em atividades relacionadas à escola, impacta negativamente não apenas os estudantes, mas também professores, famílias e comunidades em geral (Polanin et al., 2020). Nesse contexto, o estudo deste fenômeno exige uma abordagem abrangente, aprofundando a compreensão dos principais fatores associados a esse problema complexo e multifacetado (Nesello et al., 2014).

Em 2021, pelo menos 669 escolas no Brasil suspenderam suas atividades devido a episódios de violência, destacando a prevalência e gravidade deste problema no Brasil (Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2023), enquanto um número elevado de estudantes deixou de frequentar as aulas diante de episódios de violência. Por exemplo, em 2021, uma adolescente de 14 anos em uma escola cívico-militar em Curitiba (Paraná) foi vítima de racismo e outras ofensas dentro da instituição. Ela deixou de ir à escola depois de receber uma ameaça de morte e encontrar em seu caderno ameaças como 'Preta desgraçada vou te matar' (sic) (Alcântara, 2021). Este caso, entre outros, ilustra a gravidade e a natureza multifacetada da violência escolar no Brasil. Além disso, dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PENSE) indicam que 23% dos estudantes brasileiros foram vítimas de bullying em 2019, enquanto 12% admitiram praticar este comportamento (Malta et al., 2022), revelando que a violência escolar no Brasil não se restringe a incidentes isolados, mas sim oferece um desafio persistente e multifacetado. Contudo, quais seriam os limites da violência em contextos escolares?

A violência escolar abrange desde atos de agressão verbal e física entre estudantes até formas mais graves, como ataques contra a vida e tiroteios em massa, que parecem se tornar cada vez mais frequentes em escolas brasileiras (Prado, 2023). Este cenário alarmante reflete não apenas a violência física e armada, mas também inclui incidentes de violência verbal, psicológica, sexual, entre outras formas que ocorrem dentro e nos arredores das escolas (Nesello et al., 2014; Coelho, 2016). Esses atos de violência têm origem em uma rede complexa de influências, tanto internas quanto externas ao contexto escolar, tornando desafiador apontar um único fator como a causa principal desses incidentes (Gázquez et al., 2015).

As escolas devem ser consideradas locais seguros e de convivência positiva, desempenhando um papel fundamental no desenvolvimento de estudantes (Polanin et al., 2020). Elas configuram espaços nos quais estudantes não apenas aprendem conteúdos e habilidades cognitivas, mas também desenvolvem competências sociais e emocionais, interagem com seus pares e desenvolvem novas formas para lidar com problemas individuais e sociais. No entanto, a realidade expressa pela violência escolar contradiz esse ideal, afetando negativamente todos os envolvidos e refletindo a urgência em abordar este problema no contexto educacional (Gusfre et al., 2022; Turanovic & Siennick, 2022; Gizzarelli et al., 2023; Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2023).

A prevalência da violência escolar desafia a noção de que as escolas são meramente instituições de ensino e aprendizagem. Essa expectativa é colocada à prova por uma complexidade de interações que ultrapassam as dinâmicas de agressor e vítima. Uma abordagem estática que classifica os envolvidos apenas como agressores ou vítimas pode desconsiderar o ciclo por meio do qual estudantes e comunidade escolar interagem de forma violenta (Cunha et al., 2018). Assim, a violência escolar emerge não apenas como uma questão de segurança, mas também como resultado de problemas sociais mais profundos, como desigualdades, exclusão social e falhas em políticas públicas (Ribeiro et al., 2013; Cookson & Darling-Hammond, 2022). Essa perspectiva ressalta a importância de abordagens mais amplas que considerem a interconexão entre aspectos individuais, escolares, familiares e comunitários para compreender a dinâmica da violência escolar.

As características da violência escolar no Brasil e em outros países são diversas, com o bullying sendo uma das formas que tem recebido mais atenção em estudos nacionais (Nesello et al., 2014) e internacionais (Lester et al., 2017). Definido como um comportamento agressivo e repetitivo entre estudantes, no qual há desequilíbrio de poder, o bullying e suas variantes, como o cyberbullying, em que ataques violentos são articulados por meio do uso de tecnologias de informação (Cunha et al., 2020), evidenciam a complexidade das interações de violência no ambiente escolar (Lester et al., 2017; Nesello et al., 2014). Além disso, fatores demográficos como gênero, orientação sexual e raça/cor influenciam a incidência e a natureza da violência entre pares em contextos educacionais. Estudantes LGBTI+ e de grupos étnicos minoritários também enfrentam taxas mais altas de vitimização, destacando a importância de abordagens inclusivas e sensíveis a essas diferenças (Asinelli-Luz & Cunha, 2011; Alexander et al., 2011; Goodenow et al., 2016; Reis et al., 2016; Malta et al., 2019; Xu et al., 2020).

Os profissionais da educação, incluindo professores e funcionários, também são alvos frequentes de violência no contexto escolar. Uma meta-análise indicou que mais da metade dos professores da educação básica relataram ter sofrido algum tipo de violência por parte dos estudantes, abrangendo desde comportamentos verbais até ataques físicos e sexuais (Longobardi et al., 2019). No Brasil, a violência contra professores é uma pauta atual, com dados da edição de 2017 do Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB) revelando ataques contra bens pessoais e até contra a vida de docentes dentro de várias escolas no Brasil (Plassa et al., 2021). Esses dados ressaltam a gravidade da situação e urgência em abordar a prevenção à violência escolar com o intuito de criar um ambiente mais seguro e acolhedor para aqueles que se dedicam ao ensino (Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2023; Modzeleski & Randazzo, 2018).

Os episódios mais graves de violência em escolas incluem homicídios e estupros em proporções alarmantes. Dados do Sistema de Informação de Mortalidade do Ministério da Saúde (SIM-MS) mostram que uma porcentagem significativa de homicídios registrados entre 2008 e 2018 ocorreu no ambiente escolar (Cerqueira et al., 2021). A violência armada nas escolas, especialmente os homicídios em massa, tem mostrado uma tendência crescente, refletindo uma preocupação crescente com a segurança nas escolas brasileiras (Prado, 2023). Entretanto, ainda há poucos estudos empíricos no contexto nacional examinando as características dessas formas mais graves de violência e seus possíveis determinantes. Ademais, investigar os possíveis efeitos em cascata de conflitos cotidianos e sua relação com a negligência dentro e fora dos muros da escola torna-se imprescindível.

Os fatores associados à violência escolar são numerosos e complexos, incluindo elementos individuais e sociais. No âmbito social, aspectos como a pobreza, a desigualdade social e a exposição à violência comunitária são preditores importantes de violência nas escolas (Cookson & Darling-Hammond, 2022; Ribeiro et al., 2013). O ambiente familiar, com a presença de violência doméstica e comportamentos parentais negativos, também influencia o risco de envolvimento dos jovens em violência escolar, enquanto um ambiente familiar positivo oferece proteção (Nesello et al., 2014; Oliveira et al., 2015). Aspectos individuais como agressividade, impulsividade e habilidades interpessoais disfuncionais aumentam a probabilidade de envolvimento em comportamentos violentos, assim como transtornos de saúde mental podem ser tanto uma causa quanto uma consequência da violência (Álvarez-García et al., 2015). Contudo, é importante reconhecer que não existe um único fator que explique todas as formas de violência escolar em diferentes contextos e momentos. Abordagens que articulam aspectos individuais, contextuais e a relação entre diversos fatores oferecem uma compreensão mais abrangente e eficaz do fenômeno da violência escolar, reconhecendo sua natureza intrinsecamente multifacetada e dinâmica.

A violência escolar gera impactos profundos e duradouros, afetando a saúde mental e o desempenho acadêmico tanto de suas vítimas quanto de seus agressores. Perpetradores da violência frequentemente enfrentam riscos maiores de desenvolver problemas de saúde mental, como depressão, além de comportamentos antissociais (Turanovic & Siennick, 2022). Pessoas vitimizadas, por sua vez, lidam com prejuízos à saúde mental, problemas de sono e dores (Roza et al., 2021), elevando a demanda por tratamentos psiquiátricos (Kumpulainen et al., 2001). Ademais, estudantes que observam a violência podem ter sua concentração e frequência às aulas diminuídas, impactando o seu desempenho escolar (Abramovay & Rua, 2002; Teixeira & Kassouf, 2015; Deole, 2017), enquanto professores e outros profissionais da escola sofrem com desengajamento profissional, o que impacta negativamente na qualidade da educação (Plassa et al., 2021).

Além das consequências imediatas para a saúde e o bem-estar dos envolvidos, a violência escolar prejudica o ambiente educacional como um todo, interferindo nos processos de ensino e aprendizagem, comprometendo o desenvolvimento de crianças e adolescentes (Turanovic & Siennick, 2022; Polanin et al., 2020). Nesse contexto, o desempenho acadêmico de estudantes, bem como o engajamento de professores e funcionários, é prejudicado (Teixeira & Kassouf, 2015; Deole, 2017). Por exemplo, um estudo baseado no questionário sociodemográfico do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) revelou que incidentes de violência e discriminação na escola prejudicavam significativamente não apenas o rendimento acadêmico de estudantes vitimizados, mas de toda a escola (Cunha & Santo, 2023). O medo e a insegurança gerados pela violência escolar podem levar à evasão, ao baixo rendimento escolar e a problemas de saúde mental, sublinhando a necessidade de ações preventivas e estratégias de intervenção eficazes para criar um ambiente escolar seguro e propício ao desenvolvimento integral dos estudantes.

Diante desse panorama, é fundamental analisar programas e práticas eficazes na prevenção da violência escolar. Programas socioemocionais, que incluam habilidades de resolução pacífica de conflitos, empatia e comunicação assertiva, têm se mostrado promissores. Eles são mais eficazes quando integrados a abordagens universais que envolvem toda a escola, sugerindo a necessidade de uma perspectiva holística e inclusiva para prevenir e combater a violência escolar (Lester et al., 2017; Okonofua et al., 2016; Welsh & Little, 2018). A eficácia dos programas de prevenção à violência escolar depende não apenas do conteúdo desses programas, mas também de como são implementados, necessitando do suporte adequado à equipe escolar e adaptação ao contexto local (Ponsford et al., 2022). Assim, a abordagem à violência escolar deve ser multifacetada, envolvendo mudanças nas políticas, nas práticas e no clima escolar.

Em resposta à crescente preocupação com a violência escolar e seus impactos, que vão desde prejuízos à saúde e ao desempenho acadêmico até consequências sociais mais amplas (Polanin et al., 2020), esforços de pesquisa têm se intensificado no Brasil, e este trabalho tem como objetivo desenvolver uma revisão de literatura ampla sobre a violência escolar. Contudo, revisões sistemáticas recentes conduzidas no país, como as de Silva et al. (2017 e 2020), apontam para uma lacuna significativa: a escassez de estudos com amostras brasileiras que abordem de forma abrangente os múltiplos aspectos da violência escolar. Diante dessa limitação na literatura nacional, este trabalho propõe uma revisão sistemática que adota uma abordagem de levantamento de estudos sistemáticos, tanto nacionais quanto internacionais, a fim de compilar e analisar as evidências disponíveis sobre o tema de forma mais abrangente. Neste contexto, a presente revisão sistemática rápida se propõe a examinar, de forma detalhada, (1) as características da violência escolar; (2) seus fatores associados; (3) ataques armados em escolas; e (4) estratégias de prevenção e intervenção eficazes. A revisão oferece uma síntese de evidências a respeito dos preditores, consequências e possíveis ações diante da violência escolar, apontando subsídios baseados em evidências para educadores, pesquisadores e formuladores de políticas interessados em desenvolver e avaliar estratégias de prevenção e intervenção em face da violência escolar.

MÉTODOS

Esta revisão rápida de revisões sistemáticas foi preparada de acordo com o protocolo de Principais Itens para Relatar Revisões Sistemáticas e Meta-análises (PRISMA) (Hamel et al., 2021; Page et al., 2021). O protocolo PRISMA é um conjunto reconhecido internacionalmente de diretrizes destinado a melhorar a transparência e a qualidade de relato em revisões sistemáticas e meta-análises, assegurando que todos os aspectos críticos da revisão sejam documentados e comunicados de forma clara em sua versão atualizada (Page et al., 2021). Uma revisão sistemática rápida é uma abordagem de pesquisa que sintetiza as evidências disponíveis sobre um tópico específico em um prazo curto, mantendo rigor e transparência, sendo especialmente útil para informar decisões em situações de tempo limitado (Hamel et al., 2021). Esta revisão rápida de revisões sistemáticas foi realizada entre julho e agosto de 2023, desde a formação da equipe até a escrita deste relatório.

Estratégia de Busca

As revisões de literatura sobre violência escolar foram localizadas por meio das seguintes bases de dados: Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), EBSCO, Education Resources Information Center (ERIC), Google Scholar, PsycInfo, PubMed, Sage, Scielo Brasil, Scopus, Taylor & Francis e Wiley, sendo que a pesquisa nas bases de dados foi realizada independentemente por dois autores. A busca concentrou seus esforços no campo “título” das referências, utilizando os seguintes termos e suas combinações: (escola OU estudante OU pares OU professores) E (violência OU vitimização OU bullying OU agressão OU tiros) E (revisão OU metanálise OU síntese), sendo que a versão em inglês dos termos foi utilizada em todas as plataformas, e termos em inglês e português foram utilizados nas plataformas BVS, Google Scholar, e Scielo Brasil 2. Além disso, foi aplicado um filtro para selecionar publicações no intervalo de 2010 a 2023. O delineamento da busca, baseado apenas em títulos, possibilitou uma análise mais ágil dos resultados da busca, embora limitasse o alcance da busca. Por exemplo, ao pesquisar pelos termos desta revisão na base SCOPUS, levando em conta o título, resumo ou palavras-chave, foram identificadas 6.295 referências. Já uma busca direcionada somente aos títulos resultou em 226 referências. Considerando as limitações temporais para a identificação de referências, foi adotada uma estratégia de busca concentrada nos títulos.

Critérios de Inclusão e Exclusão

Considerando o escopo amplo das perguntas de pesquisa, esta revisão rápida se concentrou

em revisões sistemáticas de literatura. Quatro critérios adicionais de inclusão foram aplicados no processo de identificação de referências: (a) artigos, capítulos ou relatórios técnicos publicados em inglês, português ou espanhol; (b) com delineamento de revisão sistemática; (c) avaliando uma ou mais formas de violência no contexto escolar (ex., bullying, ataques armados, etc.) envolvendo estudantes ou profissionais da educação; e (d) incluindo dados no contexto da educação básica. Foram excluídas pesquisas que não delimitavam o estudo da violência ao contexto escolar (ex., estudos genéricos sobre cyberbullying). Além disso, os textos completos das revisões foram avaliados de acordo com procedimento desenvolvido por Saleem e colaboradores (2022) a partir dos critérios da Database of Abstracts of Reviews of Effects (DARE). Especificamente, artigos foram pontuados em quatro aspectos (Tabela 1), com somatória de pontuação nos critérios variando de 0 a 4. Foram excluídas referências com pontuação total inferior a 2,0.

Análise das Revisões

Diante do objetivo de sintetizar as características e fatores associados à violência escolar, além de examinar evidências sobre intervenções diante do problema, foi adotada uma abordagem de síntese narrativa sobre os resultados principais das revisões sistemáticas incluídas nesta pesquisa. Os objetivos e principais resultados das revisões foram organizados em tabelas distribuídas nas categorias (1) características da violência, tratando da prevalência da violência escolar; (2) fatores de risco e proteção para a violência escolar, considerando estudos sobre características individuais e contextuais relacionadas à violência escolar; (3) ataques armados no ambiente escolar; e (4) intervenções diante da violência escolar.

Tabela 1
Critérios para avaliação de qualidade das revisões sistemáticas.

RESULTADOS

A busca inicial identificou 1738 artigos, com duplicatas removidas por meio da ferramenta DeDuplicator, algoritmo relaxed (Clark et al., 2020), resultando em 980 referências disponíveis para a etapa de triagem a partir da leitura de resumos e títulos. Esta etapa de identificação foi executada com apoio da ferramenta Abstrackr (Wallace et al., 2012), incluindo a avaliação duplo-cega de resumos e títulos de artigos, com discordâncias resolvidas por consenso, resultando em 256 referências para avaliação de textos completos. Dentre as referências selecionadas na etapa anterior, foi possível recuperar 173 textos completos. Na sequência, foi realizada a avaliação de qualidade dos textos 3, com exclusão de 46 referências que não atenderam ao critério de qualidade adotado. Finalmente, foi realizada a análise de 127 referências incluídas no estudo por meio de registro em formulário englobando o número de estudos selecionados na revisão, natureza da violência escolar abordada, objetivos e principais resultados. A Figura 1 detalha o processo de identificação, triagem e inclusão de referências no estudo.

Os 127 estudos de revisão incluídos nesta revisão sistemática foram divididos em cinco categorias: características da violência escolar, fatores associados à violência escolar em geral, fatores associados ao bullying e cyberbullying, ataques armados às escolas e intervenções diante da violência escolar (Tabela 2). Na primeira categoria, foram incluídos 19 trabalhos (15,0%) que se concentraram em análises descritivas e de prevalência de aspectos da violência, como a perpetrada por professores contra estudantes, o bullying escolar e o cyberbullying associado à escolar e atitudes e comportamentos diante da violência escolar. Nas duas categorias subsequentes, 58 estudos (45,6%) buscaram identificar correlatos à violência escolar, como fatores de risco e proteção, bem como consequências imediatas e de longo prazo, sendo a grande maioria (45 artigos) relacionada ao fenômeno do bullying, vitimização entre pares e/ou cyberbullying. Sete revisões (5,5%) foram incluídas na categoria sobre ataques armados, por se concentrarem na sistematização de estudos relacionados a incidentes com armas em escolas. Finalmente, 43 estudos (33,9%) se propuseram a analisar intervenções desenvolvidas e/ou implementadas para a prevenção ou combate à violência escolar, seja no aspecto metodológico, do conteúdo ou da eficácia dos resultados4.

Figura 1
Diagrama do fluxo PRISMA da estratégia de identificação, triagem e inclusão de referências

Tabela 2
Categorias de análise sobre violência escolar

Características da Violência Escolar

Entre os estudos incluídos, 19 se concentraram no levantamento de trabalhos sobre a caracterização da violência escolar 5, principalmente em relação ao bullying e a vitimização entre pares (84,2% dos estudos na categoria). Embora o bullying venha recebendo bastante atenção na literatura nos últimos anos, as taxas de prevalência apontadas indicam que há grande variabilidade nos resultados dependendo da metodologia de avaliação (Bjereld et al., 2020) e do contexto de avaliação (Costantino et al., 2022). Nenhuma das revisões incluídas abordou especificamente o cenário brasileiro, mas foram verificados estudos para o contexto da Espanha (García-García et al., 2017), Irlanda (Foody et al., 2017) e Eslovênia (Primc et al., 2021). Um conjunto de cinco estudos (Çulhaoğlu & Akmanoğlu, 2022; Falla & Ortega-Ruiz, 2019; Maïano, et al., 2016; Maïano, et al., 2016; Martínez-Monteagudo et al., 2023) focou especificamente na agressão e vitimização de estudantes com necessidades educacionais especiais (NEE), apontando que esses estudantes podem apresentar um risco maior de sofrerem bullying do que os demais. Dois estudos abordaram a violência de professores contra estudantes, indicando que o fenômeno ocorre em todo o mundo, afetando negativamente a saúde mental e o desempenho acadêmico dos estudantes (Gusfre et al., 2022; Scharpf et al., 2022). Finalmente, dentre os estudos que se concentraram nas atitudes e comportamentos diante do bullying, os resultados mostraram que, embora se preocupem com as situações, profissionais possuem pouca informação e conhecimento sobre como agir diante dessas situações (Byrne et al., 2018; Dawes et al., 2023).

Fatores Associados à Violência Escolar

No processo de revisão, foram encontrados 12 artigos que apresentaram fatores associados à violência escolar em uma perspectiva mais geral, ou envolvendo múltiplos aspectos da violência na escola, além de 46 artigos sobre fatores associados especificamente à vitimização entre pares, bullying e cyberbullying no contexto escolar 6.

Dentre estudos sobre fatores associados à violência escolar em geral, foram identificadas quatro subcategorias, sendo elas: fatores demográficos em geral; comportamento antissocial/delinquência; violência de gênero ou sexual na escola; e outros fatores. Sobre aspectos demográficos em geral, destaca-se um estudo sobre a desigualdade étnico-racial como motivador para que estudantes de alguns grupos étnicos ou raciais relatem perceber a escola como um espaço inseguro (Basilici et al., 2022). O risco de um estudante se envolver em situações de vitimização escolar é influenciado por uma combinação de fatores individuais, como gênero, e contextuais, como a qualidade das relações familiares, em uma teia intricada de interações. (Nesello et al., 2014). Com relação à subcategoria “comportamento antissocial/delinquência”, foram avaliados três artigos. Nestas revisões, observou-se que estar em uma escola na qual a violência ocorre pode trazer prejuízos para a saúde mental e a vida acadêmica dos estudantes, independentemente de seu envolvimento na situação (Silva et al., 2016; Polanin et al., 2020). Os estudos sobre “violência de gênero ou sexual na escola” representaram a maioria das pesquisas sobre fatores associados à violência escolar nesta perspectiva (n = 8), com destaque para achados sobre o clima escolar hostil para pessoas estudantes lésbicas, gays, bissexuais, transsexuais, transgênero e interssexuais (LGBTI+) (Collier et al., 2013; Toomey & Russel, 2016).

Os 46 artigos que abordam os fatores gerais associados à vitimização entre pares, bullying e cyberbullying foram divididos em seis subcategorias principais. As três primeiras enfatizam aspectos relacionais, considerando as relações professor-aluno, interações entre estudantes e as dinâmicas familiares que influenciam o bullying. Pesquisas específicas destacam como uma relação saudável entre professores e alunos (ex.: Ten Bokkel et al., 2023), bem como entre os próprios alunos (ex.: Schacter et al., 2021), pode atuar como um fator protetor contra o bullying. Ao abordar dinâmicas familiares, os estudos mencionam tanto fatores protetivos, como uma boa comunicação entre pais e filhos, quanto associações preocupantes, como a conexão entre a violência doméstica e a escolar (ex.: Oliveira et al., 2017; González-Moreno & Molero-Jurado, 2023).

Em linha com o tema de fatores associados ao bullying e à vitimização, 18 desses artigos se concentram na subcategoria fatores de risco, abrangendo temas como a saúde emocional (Christina et al., 2021) e a exposição a violências externas à escola (ex., Gázquez et al., 2015). A subcategoria seguinte engloba quatro pesquisas que examinam a associação entre a vitimização de estudantes e o aumento no risco de comportamentos suicidas e autolesivos. Por último, sete estudos investigam outros fatores específicos ligados ao bullying, como, por exemplo, a associação do risco aumentado para consumo de drogas entre estudantes envolvidos em situações de bullying (Valdebenito et al., 2015).

Ataques Armados em Escolas

Entre os artigos analisados, sete tratam de ataques armados em escolas 7. A literatura aponta uma escassez de estudos sobre o assunto. Esses estudos destacam a análise da frequência de tais ataques em ambientes escolares e os obstáculos metodológicos para caracterizar o fenômeno (Stewart et al., 2022; Grøndahl & Bjørkly, 2016; Kim et al., 2021). Ademais, apresentam investigações sobre as características de autores de atos violentos e contextos sociais onde ocorrem esses incidentes (Sommer et al., 2014; Valdebenito et al., 2017; Nowicki, 2020). É importante destacar também o estudo sobre as repercussões negativas para os envolvidos e como a ampliação da rede de apoio pode mitigar os efeitos desses episódios em comunidades escolares (Travers et al., 2018).

Intervenções Diante da Violência Escolar

Foram analisados 43 estudos sobre intervenções para a prevenção ou o enfrentamento da

violência escolar, distribuídos em três subcategorias: processos de implementação, efeitos de intervenções e qualidade das pesquisas sobre intervenções.

Quase metade dos estudos relacionados a intervenções focaliza seus esforços na descrição dos processos de implementação das ações contra a violência escolar. Essas pesquisas avaliam aspectos como diretrizes de programas, o público-alvo, as metodologias empregadas e fatores que facilitam sua implementação. Essa subcategoria foi subdividida com base no foco das intervenções, abordando (1) membros da comunidade escolar (estudantes, professores, pais, outros profissionais); (2) o espaço físico; (3) componentes múltiplos; e (4) intervenções tecnológicas. Dez desses estudos exploram a promoção de competências entre estudantes, professores e outros profissionais para atuar em situações violentas (ex., van Aalst et al., 2022; Yosep et al., 2023a). Muitas destas intervenções têm ligação com a promoção de habilidades socioemocionais dos alunos e o estabelecimento de um ambiente escolar positivo. Francis et al. (2022) se debruçaram sobre a reconfiguração dos espaços físicos das escolas para reforçar a segurança. Adicionalmente, sete estudos investigaram estratégias com múltiplas abordagens, envolvendo não somente a escola, mas também as famílias e a comunidade em geral (ex., Rawlings & Stoddard, 2019). Dois trabalhos focaram em intervenções tecnológicas, examinando o uso de redes sociais, jogos online e outros meios como ferramentas de prevenção à violência escolar (Vandebosch et al., 2022; Yosep et al., 2023b).

A segunda subcategoria, denominada "efeitos de intervenções", compreende 21 estudos que analisam a eficácia e o impacto das ações, incluindo intervenções: (1) sem efeitos significativos; (2) com efeitos positivos; (3) com efeitos mistos; e (4) analisando a qualidade metodológica de estudos sobre a eficácia de intervenções. Dentre os estudos sem efeitos significativos, Silva et al. (2018) constatou que as ações voltadas para a promoção de habilidades sociais entre os alunos não resultaram em uma diminuição significativa da violência escolar. No entanto, outros trabalhos identificaram impactos positivos de estratégias semelhantes, especialmente aquelas que envolvem vários membros da comunidade escolar, incluindo alunos, professores e pais (Polanin et al., 2012; Valle et al., 2020). A maior parte das revisões nessa subcategoria notou resultados promissores (n = 10), incluindo abordagens como o envolvimento parental na prevenção da violência (Huang et al., 2019), medidas contra a violência de professores (Baumgarten et al., 2023), e estratégias voltadas especificamente para a prevenção ao bullying (Ttofi & Farrington, 2011; Gaffney et al., 2019). Alguns estudos apresentaram achados mistos, com ações mostrando efeitos apenas em certas áreas (Torgal et al., 2023) ou resultados que não persistiram ao longo do tempo (Cantone et al., 2015). Por exemplo, uma intervenção que introduziu detectores de metais nas escolas acabou reduzindo a sensação de segurança dos estudantes (Hankin et al., 2011). Finalmente, dois trabalhos focaram na avaliação metodológica dos estudos de intervenção, identificando áreas de melhoria na pesquisa (Houchins et al., 2016; Chalamandaris & Piette, 2015).

DISCUSSÃO

Esta revisão teve como propósito analisar - de maneira rápida - as revisões sistemáticas, nacionais e internacionais, sobre violência escolar, considerando suas características, fatores associados e estratégias de intervenção. Com base nos procedimentos do protocolo PRISMA para o desenvolvimento de revisões sistemáticas (Page et al., 2021), 127 revisões sistemáticas e metanálises relativas à temática foram avaliadas. Os resultados foram organizados em quatro categorias principais: características da violência escolar, fatores associados a ela, estratégias de intervenção e incidentes de ataques armados em ambientes escolares.

A análise sobre as características da violência escolar sublinha a natureza complexa e multifacetada deste fenômeno nas escolas, bem como a necessidade de manter esforços para monitoramento e intervenção diante do problema. Dentre os estudos analisados, destaca-se o grande número de trabalhos que abordam a violência entre estudantes analisando processos como o bullying e a vitimização entre pares, refletindo a preocupação em relação a esses fenômenos no cenário educacional mundial e também no Brasil (Coelho et al., 2016.). Entretanto, a heterogeneidade entre diversos estudos quanto às taxas de prevalência do bullying (Bjereld et al., 2020) e de outras formas de violência escolar (Tokunaga, 2010; Gusfre et al., 2022) aponta para a necessidade de aperfeiçoamento das abordagens de avaliação das manifestações de violência na escola. Ademais, destaca-se a possível influência de aspectos culturais e sociais na violência escolar e que ainda não são bem compreendidos.

Adicionalmente, identificou-se que grupos específicos, como mulheres (Nesello et al., 2014), pessoas com necessidades educacionais especiais (Maïano, et al., 2016; Falla & Ortega-Ruiz, 2019) e a população LGBTI+ (Martín-Castillo et al., 2020), enfrentam vulnerabilidades adicionais diante da violência na escola. Além de apresentar maior probabilidade de envolvimento em episódios de violência na escola, pessoas de grupos discriminados podem apresentar dificuldades em receber apoio quando são alvos da violência (Toomey & Russel, 2016). Esse cenário evidencia a necessidade de abordagens mais inclusivas e adequadas para intervenções contra a violência escolar.

Mas como podemos efetivamente prevenir a violência escolar? A chave pode estar nas intervenções baseadas em evidências. Estudos demonstram que programas holísticos, que vão além da repressão a comportamentos violentos e abordam fatores subjacentes, como saúde mental e competências sociais e emocionais, são fundamentais (Ttofi & Farrington, 2011). Por exemplo, programas que promovem habilidades de resolução de conflitos e empatia apresentaram uma redução significativa nos casos de violência escolar (Gaffney, Ttofi, & Farrington, 2019). A implementação destes programas requer uma abordagem adaptável, considerando as diferenças culturais e socioeconômicas entre contextos escolares.

Intervenções eficazes são aquelas que consideram as especificidades do contexto, são adaptáveis e envolvem múltiplos atores, desde educadores e estudantes até suas famílias e comunidades (Rawlings & Stoddard, 2019; Hong et al., 2014). É preciso garantir avanços em investimentos para a avaliação de programas, não somente para garantir a eficácia das políticas de combate à violência escolar, mas também para evitar investimentos em abordagens ineficazes e seus efeitos prejudiciais (ex., Hankin et al., 2011). Além de esforços para a avaliação sobre a eficácia de programas, é fundamental monitorar as condições sob as quais essas intervenções são implementadas, garantindo oportunidades de formação adequadas para os profissionais envolvidos e a adaptação dos programas à realidade específica de cada comunidade escolar. Esse enfoque não apenas reduz a violência, mas também promove um ambiente escolar mais positivo e inclusivo (Okonofua et al., 2016).

A atenção dada aos fatores associados à violência escolar evidencia que essa não é uma questão isolada, mas está conectada a diversos elementos individuais e contextuais (Azeredo et al., 2015; Mandira & Stoltz, 2021; Nesello et al., 2014). Dessa forma, destaca-se a necessidade de intervenções multifacetadas, que não só se concentrem em estudantes que se envolvam de forma direta em incidentes de violência, mas que ampliem o foco para toda a escola (Silva et al., 2017; Valle et al., 2020) e até mesmo para além dos muros da escola (Rawlings & Stoddard, 2019).

Embora programas de prevenção à violência e de educação socioemocional ainda sejam limitados em escala no Brasil, dois marcos normativos estabelecidos em 2019 oferecem novas possibilidades para mudanças significativas na educação básica. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) define dez competências gerais, incluindo aspectos socioemocionais como a empatia, cooperação, respeito aos direitos humanos e habilidades de resolução de conflitos, fundamentais para promover ambientes pacíficos dentro e fora da escola. Embora a BNCC necessite de ajustes para melhor integrar estas competências ao currículo nacional, ela abre portas para que a educação socioemocional e a prevenção da violência sejam incorporadas de forma proativa e contínua no cotidiano escolar. Paralelamente, a Lei 13.935 de 2019 impulsiona a inclusão de equipes multiprofissionais, formadas por psicólogos e assistentes sociais, nas escolas públicas. Esta legislação favorece uma abordagem interdisciplinar na prevenção da violência escolar e sublinha a importância da formação continuada para esses profissionais. Juntos, estes marcos normativos criam um ambiente propício para a implementação de programas preventivos integrados ao currículo escolar, com o suporte de profissionais especializados em psicologia escolar e serviço social agregado às equipes de educadores que já atuavam em escolas.

E para além da articulação de recursos internos da escola, esforços de prevenção da violência devem também fortalecer a participação efetiva da comunidade em tais processos. Pesquisas indicam que uma abordagem colaborativa no desenvolvimento de programas preventivos, envolvendo escolas e comunidades, é fundamental para criar um ambiente de respeito mútuo e suporte social (Thapa, Cohen, Guffey, & Higgins‐D’Alessandro, 2013). Por exemplo, iniciativas que envolvem pais e membros da comunidade na vida escolar mostraram uma redução na violência e melhoria no clima escolar (Gregory, Cornell, Fan, Sheras, Shih, & Huang, 2010). Assim, entender e integrar o contexto sociocultural na formulação de estratégias de prevenção é um passo essencial para prevenir e combater a violência escolar.

Para além de garantir a melhoria nos processos de implementação de programas preventivos, é preciso aprimorar a avaliação crítica das diferentes estratégias de intervenção. Estudos como os de Ttofi & Farrington (2011) e Gaffney, Ttofi, & Farrington (2019) destacam a eficácia a longo prazo de programas holísticos focados em competências socioemocionais. No entanto, contrastar esses programas com abordagens disciplinares tradicionais poderia fornecer uma compreensão mais abrangente de sua eficácia. Além disso, uma crítica das metodologias empregadas em estudos sobre o tema, como discutido por Hankin et al. (2011), ajudaria a lidar com potenciais vieses ou lacunas na pesquisa. Adicionalmente, diante da demanda por oferta em larga escala de tais programas, é preciso avaliar a aplicabilidade prática desses, bem como sua adaptabilidade a contextos culturais e socioeconômicos diversos, e não apenas se contentar com estudos desenvolvidos a partir de escolas selecionadas por conveniência em grandes centros urbanos. Tal abordagem não apenas elucidaria a eficácia dessas estratégias, mas também sua viabilidade e relevância em diferentes ambientes educacionais.

Certamente esse estudo apresenta limitações, em especial relacionadas ao delineamento da pesquisa adotado para a condução dessa em prazo relativamente curto. A abordagem de síntese de revisões sistemáticas excluiu a análise de um vasto corpo de pesquisas, mesmo que pudessem oferecer evidências robustas sobre características, fatores associados e avaliações de intervenções frente à violência escolar. Além de concentrar a busca de referências em revisões sistemáticas, o processo de busca concentrou-se apenas em um período específico (2010-2023), o que limita o alcance a estudos que poderiam oferecer contribuições. Além disso, não foi possível acessar alguns dos textos identificados como possíveis inclusões, em especial por indisponibilidade financeira para acessar algumas dessas referências. Ao considerar as referências analisadas por texto completo, o critério de avaliação da qualidade dos trabalhos selecionados pode ter resultado na exclusão de pesquisas pertinentes, mas que não foram adequadamente descritas do ponto de vista metodológico nas revisões analisadas.

Adicionalmente, embora procedimentos de revisão em duplas tenham sido viáveis na etapa de avaliação dos resumos, as etapas de avaliação da qualidade dos artigos e síntese de resultados foram conduzidas individualmente. Apesar dessas limitações, diante do prazo limitado para a realização da revisão, a abordagem centrada nas revisões sistemáticas oferece um panorama útil sobre estudos a respeito da violência escolar que também permitiu identificar possíveis lacunas a serem abordadas no planejamento de estudos e políticas sobre o tema no cenário nacional. Além disso, este tipo de revisão rápida pode resultar em uma síntese dos achados mais descritiva do que analítica, limitando a capacidade de extrair conclusões robustas e generalizáveis dos estudos selecionados. Consequentemente, as evidências geradas por esta revisão rápida devem ser interpretadas com cautela, sendo mais adequadas para contextos de decisão que exigem respostas imediatas, mas que podem necessitar de validação posterior por meio de estudos mais abrangentes.

É alarmante a escassez de estudos sobre ataques armados em escolas, considerando a gravidade e impacto devastador desses incidentes escolares (Travers et al., 2018; Kim et al., 2021) também no contexto brasileiro (Prado, 2023), o que pode refletir desafios metodológicos. Além disso, a relativa escassez de estudos específicos sobre a violência escolar no cenário educacional brasileiro, ao menos na medida em que as revisões localizadas puderam alcançar (Nesello et al., 2014; Silva & Negreiros, 2020), sugere uma lacuna significativa na literatura, necessitando de pesquisas que abordem características específicas da violência escolar em escolas brasileiras. Dentre os 127 estudos contemplados nesta revisão, somente cinco focaram especificamente em pesquisas realizadas no Brasil. Esses estudos investigaram aspectos teóricos, como a diversidade de definições de violência escolar em pesquisas nacionais (Corona & Schwartz, 2021). Também houve um levantamento de estudos quantitativos que exploram características e fatores vinculados à violência escolar no Brasil (Nesello et al., 2014). Além disso, foram abordadas análises sobre iniciativas de prevenção ao bullying (Fernandes et al., 2022; Coelho, 2016) e à violência de gênero (Prezenszky et al., 2018). A agenda de pesquisa futura nesse tema deve incorporar uma base mais abrangente de aspectos relacionados à violência escolar em conduzidos no Brasil.

Ao considerar as limitações deste estudo e as complexidades inerentes à violência escolar, tornasse evidente a necessidade de uma agenda de pesquisa mais ampla e diversificada. Estudos longitudinais e multidimensionais são cruciais para compreender a evolução e os padrões da violência nas escolas em diferentes contextos culturais e socioeconômicos. Uma área particularmente importante é a avaliação da eficácia de políticas públicas e intervenções na prevenção e redução da violência escolar, demandando análises comparativas e medições de impacto de longo prazo. Ademais, estudos que se aprofundam nos fatores contextuais e culturais, explorando como família, comunidade, e normas sociais influenciam a violência escolar, podem fornecer subsídios especialmente relevantes para o desenvolvimento e adaptação de estratégias preventivas mais eficazes. Além disso, pesquisas que se concentram nas experiências de grupos vulneráveis, como estudantes indígenas, negras e negros, LGBTI+, e com necessidades educacionais especiais, são fundamentais para o desenvolvimento de abordagens inclusivas.

Complementarmente, a integração de abordagens quantitativas e qualitativas na pesquisa pode permitir uma melhor compreensão das nuances da violência escolar em contextos brasileiros, combinando análises estatísticas com estudos que capturam experiências em contextos específicos. Investigar a eficácia de estratégias preventivas em comparação com abordagens reativas para lidar com a violência escolar também é vital. Isso inclui avaliar a eficácia de programas preventivos, além de aperfeiçoar abordagens para a gestão de episódios de violência. Adicionalmente, a pesquisa sobre o impacto crescente das tecnologias de informação e comunicação, como no caso do cyberbullying, é necessária para desenvolver estratégias de prevenção que articulem essas mesmas tecnologias para promover relações pacíficas. Por fim, estudos sobre a formação e suporte aos profissionais da educação podem fornecer diretrizes para preparar melhor educadores e funcionários escolares para promover um ambiente de aprendizagem seguro e inclusivo. Em suma, uma abordagem de pesquisa multifacetada e colaborativa, que abranja desde a análise de programas até as experiências específicas, pode fornecer um caminho promissor para entender e combater a violência escolar de maneira mais efetiva.

Embora haja uma crescente preocupação com a violência escolar no Brasil, incluindo situações de bullying, ataques armados e outras formas de agressão, observa-se uma escassez notável de estudos empíricos, incluindo revisões sistemáticas, que abordem esses fenômenos de forma aprofundada. Essa lacuna de pesquisa dificulta a compreensão das causas, consequências e, principalmente, a identificação de estratégias eficazes de prevenção e intervenção que sejam baseadas em evidências contextualizadas. A ausência de um corpo robusto de conhecimento empírico prejudica a formulação de políticas públicas mais assertivas e a implementação de programas que realmente impactem a realidade da violência no ambiente educacional brasileiro.

O combate à violência escolar é um esforço contínuo que exige colaboração, inovação e compromisso de todos os envolvidos. Essa revisão oferece uma visão panorâmica sobre evidências a respeito da violência escolar, e também aponta para áreas onde mais pesquisas e intervenções são cruciais. Se o sistema educacional brasileiro conquistou em décadas recentes grandes avanços no acesso à escolarização básica, isso se deu por meio de políticas públicas garantindo o direito à educação e programas para garantir a melhoria no funcionamento de processos escolares, como no caso dos programas direcionados à qualificação de alfabetizadores. Do mesmo modo, é possível desenvolver programas educacionais para melhorar a convivência em espaços escolares, com a promoção de competências sociais e emocionais relacionadas a uma abordagem pacífica de conflitos dentro e fora de espaços educacionais. E se já conseguimos garantir tais avanços com medidas fundamentadas, podemos desenvolver estratégias para universalizar a resolução pacífica de conflitos nas escolas.

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  • 1
    Artigo publicado com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq/Brasil para os serviços de edição, diagramação e conversão de XML.
  • 2
    A estratégia básica de busca é detalhada na Tabela Suplementar 1 (disponível em https://osf.io/wk82f/)
  • 3
    Para mais informações, acessar a Tabela Suplementar 2, disponível em https://osf.io/wk82f/
  • 4
    Os resultados detalhados da análise de cada referência são apresentados na Tabela suplementar 3. Acesso disponível em https://osf.io/zg3rj
  • 5
    Os resultados detalhados da análise de cada referência são apresentados na Tabela 3 do Apêndice. Acesso disponível em https://osf.io/zg3rj
  • 6
    Para mais informações sobre a categorização dos estudos, ver Tabelas 4 e 5 no Apêndice. Acesso disponível em https://osf.io/zg3rj
  • 7
    Para mais informações sobre a categorização dos estudos, ver Tabelas 6 e 7 no Apêndice. Acesso disponível em https://osf.io/zg3rj
  • FINANCIAMENTO
    Artigo financiado via projeto realizado em parceria com o Laboratório de Comportamento Político da Universidade de Brasília (UnB), a Fundação de Apoio à Pesquisa e a Fundação Escola Nacional de Administração Pública (ENAP).
  • DECLARAÇÃO SOBRE DISPONIBILIDADE DE DADOS
    Os conteúdos já estão disponíveis. Segue título e respectiva URL, número de acesso ou DOI dos arquivos: Características, Fatores Associados e Prevenção da Violência Escolar: Uma Revisão Rápida de Revisões Sistemáticas https://osf.io/wk82f/

Editado por

  • Editor de seção:
    Maria Carolina da Silva Caldeira

Disponibilidade de dados

Os conteúdos já estão disponíveis. Segue título e respectiva URL, número de acesso ou DOI dos arquivos: Características, Fatores Associados e Prevenção da Violência Escolar: Uma Revisão Rápida de Revisões Sistemáticas https://osf.io/wk82f/

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    09 Mar 2026
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

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