Open-access DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA E LINGUÍSTICA APLICADA: TAGARELAGENS SOBRE ESCRITAS E LETRAMENTOS

SCIENTIFIC DISSEMINATION AND APPLIED LINGUISTICS: CHATTERS ABOUT WRITINGS AND LITERACIES

DIVULGACIÓN CIENTÍFICA Y LINGÜÍSTICA APLICADA: CHARLOTEOS SOBRE ESCRITURA Y LETRAMENTOS

MIRANDA, Flávia Danielle Sordi Silva; FIAD, Raquel Salek. . TAGARELAS: uma abordagem da escrita com outras escritas. São Carlos: Pedro & João Editores, 2024. Disponível em: https://pedroejoaoeditores.com.br/produto/tagarelas-uma-abordagem-da-escrita-com-outras-escritas/. Acesso em: 18 jan. 2025.

Os pesquisadores encontram, nos dias atuais, imensos desafios quanto à divulgação científica dos resultados obtidos nas distintas pesquisas que realizam. Com a proposta de estruturar uma comunicação em linguagem acessível para não-especialistas, a divulgação científica pretende fazer com que os conhecimentos produzidos ultrapassem os muros acadêmicos, oportunizando o contato de toda a sociedade (De Grande; Oliveira, 2024). Nesse sentido, orienta-se por objetivos educacionais - ao suscitar a compreensão da ciência pela comunidade externa -, cívicos - impactando na opinião pública sobre o desenvolvimento científico - e de mobilização popular - por ampliar a possibilidade e a qualidade da participação da sociedade em construção de políticas públicas, seleção de tecnologias, dentre outras ações de interesse público (Albagli, 1996).

Com o compromisso de gerar divulgação científica, TagareLAs: uma abordagem da escrita com outras escritas é um empreendimento ousado de Flávia Danielle Sordi Silva Miranda e Raquel Salek Fiad, conhecidas pesquisadoras das ciências da linguagem que se dedicam, há anos, à produção científica responsável e de qualidade. Por meio de uma explícita filiação à Linguística Aplicada, a obra é um convite à conversa despretensiosa - mas rica em pertinentes reflexões sobre a escrita, os seus diferentes modos de manifestação, a pesquisa desse objeto e o seu ensino em contextos diversos -, à tagareLAgem entre conceitos conhecidos e importantes figuras da pesquisa científica nacional e internacional.

Os capítulos, que se destinam a capituLAr aspectos destacados na obra, externam uma estrutura fixada em: Diálogos entre as autoras, em que Flávia e Raquel (e vice-versa) batem um papo a partir de questões que norteiam as compreensões delas sobre os objetos contemplados; Nossas escritas de LÁ para cá, para exploração dos conceitos focalizados pelo livro; ALAvancando escritas, com sugestões de atividades que se destinam à prática da escrita; Aqui, ali e acoLÁ, que busca proporcionar diálogos com outras pesquisadoras, igualmente linguistas aplicadas, que se dedicam à pesquisa de questões de interesse da publicação.

Com 155 páginas, TagareLAs é iniciada com o prefácio LAços entre nós e eLAs, produzido colaborativamente por Larissa Paris, Fellipe Oliveira, Giovana Principe, Joice Guimarães e Rómina Laranjeira - todos membros do Grupo de Pesquisa Escrita: ensino, práticas, representações, concepções, coordenado pela Raquel e do qual Flávia também é integrante. Esse texto inicial remete não só a particularidades da obra em questão, mas a relações afetuosas entre seus escritores com Flávia e Raquel. Ainda há, nesta parte de abertura, a apresentação Um início que desveLA, na qual as autoras contextualizam a produção do livro, explicitam suas razões e nos indicam a organização proposta para cada capítulo.

O capítulo 1, intitulado CapituLAr a escrita, apresenta-nos a concepção de escrita que subjaz todo o livro: a escrita como prática social. Embasadas na perspectiva sociocultural dos letramentos, as autoras nos encaminham para refletirmos, para além da concepção de escrita mencionada, sobre letramentos vernaculares/autogerados e sobre multimodalidade. A partir de exemplos reais, recuperados de distintas vivências de Flávia e de Raquel em suas vidas cotidianas e profissionais, o capítulo nos lembra como a escrita molda as tantas práticas sociais que circunscrevem a nossa vida, como destacado no seguinte trecho:

agendamos nossos compromissos, registramos nossas reuniões de trabalho, produzimos textos acadêmicos... e, também, trocamos mensagens pelo celular com diferentes pessoas o tempo todo, comentamos nas redes sociais de nossos amigos, fazemos listas de compras para ir ao supermercado e digitamos o nome daquela série pela qual buscamos para assistir no serviço de streaming, entre TANTAS outras escritas! Textos de hoje, de ontem ou para amanhã e depois (Miranda; Fiad, 2024, p. 22-23).

É importante enfatizar como as autoras conseguem, a partir das exemplificações trazidas, traduzir e explicitar as percepções de que as escritas estão inseridas em contextos sociocomunicativos particulares, relacionadas a objetivos específicos e direcionadas a distintas pessoas (às vezes, a nós mesmos), cumprindo papéis essenciais em nossas práticas de linguagem diárias. As autoras, nesse primeiro momento, ressaltam os letramentos vernaculares/autogerados, isto é, aqueles que não estão relacionados a organizações formais e, por isso, escritas descoladas de exigências institucionais.

Ainda neste capítulo, Flávia e Raquel nos informam sobre a multimodalidade - a presença e cooperação de diferentes semioses - em nossos textos. Apesar de costumeiramente relacionada às tecnologias digitais, a multimodalidade não depende delas, podendo estar materializada em textos escritos em uma simples folha de papel. Nessa direção, as linguistas aplicadas nos demonstram como o emprego de setas, a mudança no tamanho de letras, o uso de diferentes cores por meio de canetas/lápis variados, grifos, rasuras, entre outros, são exemplos de multimodalidade em escritas à mão, através do sistema alfabético.

Além de exporem hiperlinks para vídeos e áudios, Flávia e Raquel apresentam duas atividades práticas para explorar as noções discutidas ao longo do texto. Para finalizar, o capítulo 1 ainda nos presenteia com a visita de Glícia Azevedo, que nos traz um dedo de prosa sobre suas experiências com a escrita e, especialmente, com o desenvolvimento de projetos de letramento. A convidada ressalta o potencial dos projetos de letramento para o trabalho com a argumentação, com atenção também para o fortalecimento da democracia.

Já no capítulo 2 - CapituLAr o que se percebe sobre escrita -, as autoras nos convidam a pensar com mais detalhes três importantes aspectos para pesquisas sobre a escrita como prática social: a etnografia, a etnografia como forma de teorização profunda e as conversas sobre o texto. A etnografia - ou a perspectiva etnográfica, como costumeiramente utilizada em contextos de pesquisas sobre letramentos no Brasil - dirige-se, conforme proposto por Brian Street (1995, 2012), à possibilidade de falar com as pessoas, ouvi-las, descobrir o que fazem com a escrita e relacionar isso com as suas experiências, de modo a descobrir os significados que atribuem às atividades de leitura e de produção de textos.

Quando remetida à noção de teorização profunda, como recuperado pela Flávia e pela Raquel, a etnografia deve ser considerada não somente na seleção de instrumentos para geração de dados de uma investigação, mas também para a própria observação, análise e interpretação desses dados. Isso significa dizer que o pesquisador precisa ser sensível para visualizar as implicações entre o texto e seu contexto. Em síntese, demanda “abarcar o(s) processo(s) de produção dos textos, as pessoas que escrevem e/ou estão envolvidas, os contextos diversos, etc.” (Miranda; Fiad, 2024, p. 71).

Além disso, outro conceito empreendido no capítulo 2 é o de conversas sobre o texto, inicialmente defendido por Roz Ivanic (1998). Isso remete aos diferentes diálogos construídos em torno de um texto - que são ilustrados pelas pesquisadoras através de recortes de conversas entre orientadora (especialmente, a Raquel) e orientandos (inclusive, a Flávia) -, como forma de conhecê-lo em profundidade e descobrir aquilo que, muitas vezes, não pode ser explicitamente manifestado através da materialidade linguística. Isto é, permite visualizar os implícitos, as relações que estão em jogo e que são negociadas durante o processo da escrita.

A partir dos exemplos oferecidos, especialmente relacionados a atividades de produção científica, as autoras conseguem sinalizar, de forma prática, os conceitos em exposição, o que permite ao leitor não somente a compreensão teórica, mas a visualização do funcionamento de tais noções. Além das atividades práticas propostas, que alavancam escritas relacionadas aos conceitos desenvolvidos, temos ainda recortes de falas da Luanda Sito, outra importante linguista aplicada que se dedica aos estudos do letramento. Nessa oportunidade, a convidada compartilha conosco algumas de suas experiências com pesquisas que têm a perspectiva etnográfica como guia de suas ações. De modo geral, neste capítulo, deleitamo-nos com “modos de se olhar, analisar, conhecer, pensar a escrita, sobretudo em estudos que se dedicam à temática, mas não só” (Miranda, Fiad, 2024, p. 54).

O capítulo 3 - CapituLAr abordagens da escrita - arremata toda a construção do livro, com reflexões acerca das noções de letramentos sociais, letramentos escolares e letramentos acadêmicos. Por meio de textos produzidos em contextos diversos, como religioso e da vida cotidiana, Flávia e Raquel clarificam, mais uma vez, como a escrita está presente em distintas atividades de nossa vida. E é justamente isso que molda os letramentos sociais - o que remete à forma como a escrita acontece em determinados e variados lugares, para diferentes pessoas, externando inúmeras relações de poder, com funções diversas e múltiplas avaliações. Essas distintas escritas, sejam realizadas através de tecnologias digitais - como as escritas para/em redes sociais -, sejam por meios analógicos - como o registro de atividades em agendas ou a confecção de listas -, remontam ao fato de “como a sociedade está repleta de escritas em contextos diversos e nem sempre nos damos conta” (Miranda; Fiad, 2024, p. 106), assim como não precisam estar associadas a instituições formais.

As autoras seguem, durante o capítulo 3, para exploração de letramentos também privilegiados em sociedade. Os letramentos escolares - ou seja, as práticas sociais de uso da leitura e da escrita nas instituições escolares - são trazidos a partir de atividades realizadas por Flávia e Raquel como professoras e demonstram os usos dados à escrita nas atividades pré, durante e pós exercício docente. Encaminham, por isso, às formas como as autoras agem e significam suas atividades profissionais em contexto escolar.

Por fim, retomam a noção de letramentos acadêmicos, o que implica levantar os usos da leitura e da escrita para correspondência às atividades demandadas pelas instituições universitárias. Por meio de exemplos de escrita de uma apresentação de dossiê em um periódico científico e de anotações para a arguição de uma defesa pública de memorial acadêmico, as autoras mostram como “como os letramentos acadêmicos também são múltiplos, envolvem diferentes interlocutores, gêneros discursivos, posicionamentos, textos, normas etc.” (Miranda, Fiad, 2024, p. 121).

As práticas propostas neste capítulo estão relacionadas à compreensão de uma live de uma conversa entre as autoras, além da produção de um diário de leitura da própria obra, que destaque impressões, reflexões e dúvidas - registre-se o incentivo de tal diário ser enviado para as próprias Flávia e Raquel, que se mostram dispostas a tagareLAr um pouco mais com seus leitores. Há, ainda, a conversa com Adriana Fischer, que amplia as reflexões sobre os letramentos acadêmicos, vertente da qual a linguista aplicada é uma grande expoente.

As conclusões trazidas por Flávia e Raquel, intituladas de Um final de interpeLA!, ressaltam a aposta feita por elas de expor um “formato que, partindo de nossas múltipLAs escritas, grande parte delas até então desconhecidas por muitos, nos favorecesse faLAr de conceitos caros à LA, direcionando o diálogo para o tópico da escrita, com o qual trabalhamos há tempos” (Miranda; Fiad, 2024, p. 136). Além da apresentação de referências citadas ao longo dos capítulos, há a ListA LeiA, em que as autoras sugerem muitas outras leituras que possibilitam um aprofundamento das tantas questões expostas ao longo das páginas da obra.

Ressalte-se que as cores, os ícones, as figuras, os balões, os recursos tipográficos e os outros tantos artifícios editoriais utilizados são uma beleza à parte da obra, que materializam a multimodalidade presente na escrita e tornam a leitura mais atrativa para os seus leitores. A maneira como as autoras dialogam entre si e conosco chama a atenção e cumpre o propósito primordial de tagareLAr sobre escrita, ensino de escrita, letramentos, linguística aplicada e tantas outras questões expostas, de maneira clara, didática e acessível. Por essa razão, é uma obra destinada não só a pesquisadores da Linguística Aplicada, dos letramentos e/ou da escrita, mas a todos os interessados sobre nossa língua/linguagem, que encontram nas tantas escritas da Flávia e da Raquel uma oportunidade de despertar curiosidades e motivar-se a mover entre suas próprias práticas sociais de uso da escrita nos diferentes contextos em que circulam.

REFERÊNCIAS

  • ALBAGLI, Sarita. Divulgação científica: informação científica para a cidadania? Ciência da Informação, Brasília, v. 25, n. 3, p. 396-404, set./dez. 1996. Disponível em: Disponível em: https://revista.ibict.br/ciinf/article/view/639. Acesso em: 18 jan. 2025.
    » https://revista.ibict.br/ciinf/article/view/639.
  • DE GRANDE, Paula Baracat; OLIVEIRA, Gustavo André. Novos desafios em se fazer Divulgação Científica na contemporaneidade. PROLÍNGUA, [s. l.], v. 19, n. 2, p. 1-7, ago./dez. 2024. Disponível em: Disponível em: https://periodicos.ufpb.br/index.php/prolingua/article/view/72447 Acesso em: 18 jan. 2025.
    » https://periodicos.ufpb.br/index.php/prolingua/article/view/72447
  • IVANIC, Roz. Writing and identity: the discoursal construction of identity in academic writing. Amsterdam: John Benjamins Publishing Company, 1998.
  • STREET, Brian. Literacy Events and Literacy Practies. Special Issue of Journal of Research in Reading, 18 (2), ed. Oakhill, Beard e Vicencent, 1995. Disponível em: Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/journal/14679817 Acesso em: 31 mar. 2021.
    » https://onlinelibrary.wiley.com/journal/14679817
  • STREET, Brian. Eventos de letramento e práticas de letramento: teoria e prática nos novos estudos do letramento. In: MAGALHÃES, I. (org.). Discursos e práticas de letramento: pesquisa etnográfica e formação de professores. Campinas: Mercado de Letras, 2012. p. 69-92.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    30 Jan 2026
  • Data do Fascículo
    2026
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