Open-access Contribuições da literatura infantil digital no processo de aprendizagem de crianças: uma revisão bibliográfica (2014-2024)

Contribuciones de la literatura infantil digital en el proceso de aprendizaje de los niños: una revisión bibliográfica (2014-2024)

Resumo

Introdução.  O objetivo deste estudo foi analisar contribuições da literatura infantil digital para o processo de aprendizagem e desenvolvimento de crianças em contextos de educação e/ou saúde.

Metodologia.  Realizou-se uma revisão bibliográfica nas seguintes bases de dados: Medical Literature Analysis and Retrieval System Online, Scopus, Elton B. Stephens Company, Science Direct e Web of Science. A amostra incluiu dez artigos. A busca e seleção de artigos seguiu as diretrizes do Prisma. A análise foi feita com base no referencial de Vygotsky.

Resultados.  Os estudos selecionados evidenciaram contribuições relacionadas ao desenvolvimento cognitivo, à linguagem, à criatividade e à interação social, destacando ainda o papel central dos mediadores na experiência de leitura. Quando a literatura possui design de qualidade, intencionalidade pedagógica e mediação ativa de adultos, observa-se melhora na compreensão textual, contribuindo para a formação de leitores.

Discussão.  A literatura infantil digital, articulada ao suporte humano e à curadoria cuidadosa, constitui uma ferramenta relevante para a aprendizagem e o desenvolvimento infantil.

Palavras-chave
literatura infantil digital; aprendizagem; tecnologia digital; desenvolvimento infantil.

Abstract

Introduction.  The aim of this study was to analyze the contributions of digital children's literature to the learning process and development of children in educational and/or health contexts.

Methodology.  A bibliographic review was conducted in the following databases: Medical Literature Analysis and Retrieval System Online, Scopus, Elton B. Stephens Company, Science Direct, and Web of Science. The sample included ten articles. The search and selection of studies followed Prisma guidelines. The analysis was based on Vygotsky’s theoretical framework.

Results.  The selected studies showed contributions related to cognitive development, language, creativity, and social interaction, also highlighting the central role of mediators in the reading experience. When literature presents quality design, pedagogical intentionality, and active adult mediation, improvements in textual comprehension are observed, contributing to the development of readers.

Discussion.  Digital children's literature, combined with human support and careful curation, constitutes a relevant tool for learning and child development.

Keywords
digital children’s literature; learning; digital technology; child development.

Resumen

Introducción.  El objetivo de este estudio fue analizar las contribuciones de la literatura infantil digital al proceso de aprendizaje y desarrollo de niños en contextos educativos y/o de salud.

Metodología.  Se realizó una revisión bibliográfica en las siguientes bases de datos: Medical Literature Analysis and Retrieval System Online, Scopus, Elton B. Stephens Company, Science Direct y Web of Science. La muestra incluyó diez artículos. La búsqueda y selección de estudios siguió las directrices Prisma. El análisis se realizó con base en el marco teórico de Vygotsky.

Resultados.  Los estudios seleccionados evidenciaron contribuciones relacionadas con el desarrollo cognitivo, el lenguaje, la creatividad y la interacción social, destacando además el papel central de los mediadores en la experiencia de lectura. Cuando la literatura presenta un diseño de calidad, intencionalidad pedagógica y mediación activa de adultos, se observa una mejora en la comprensión textual, contribuyendo a la formación de lectores.

Discusión.  La literatura infantil digital, articulada con el apoyo humano y una curaduría cuidadosa, constituye una herramienta relevante para el aprendizaje y el desarrollo infantil.

Palabras clave
literatura infantil digital; aprendizaje; tecnología digital; desarrollo infantil.

1 Introdução

A literatura infantil é essencial para o desenvolvimento das crianças, pois auxilia na construção cognitiva e emocional, favorecendo a imaginação e a linguística durante o processo de crescimento (Barone, 2020). O ato de contar e ler histórias é uma prática milenar da humanidade e, com o avanço da tecnologia, os livros impressos passaram a coexistir juntamente com formatos digitais, possibilitando novas experiências de leitura (Bus; Takacs; Kegel, 2015; Mellon, 2006).

A literatura infantil digital (LID) distingue-se dos livros digitalizados, pois utiliza a multimodalidade e a interatividade para enriquecer a experiência do leitor. São combinadas diferentes formas de linguagem com o intuito de construir narrativas mais dinâmicas, promovendo uma nova forma de engajamento (Itaú Social, 2022).

Os recursos que compõem a interatividade e multimodalidade favorecem a imersão do leitor no contexto das histórias; a sequência de telas, a movimentação do dispositivo, a narração e a música, ao serem combinadas, permitem uma experiência estética, conectando, de forma sensorial e emocional, o leitor à cada narrativa (Frederico, 2024).

Entretanto, apesar dos benefícios, os elementos multimídia nos livros digitais podem representar um desafio. Recursos interativos mal planejados podem sobrecarregar cognitivamente as crianças, desviando a atenção da leitura e reduzindo a compreensão textual (Chuang; Jamiat, 2023; Morgan, 2013).

Assim, nesse novo contexto, em que o desenvolvimento infantil ocorre paralelamente com o surgimento de novas tecnologias, ampliam-se as formas pelas quais as crianças entram em contato com as narrativas e as práticas de linguagem. Vygotsky (1991, 2010) nos mostra, à luz da teoria sociocultural, que os livros infantis digitais podem ser compreendidos como uma nova ferramenta de mediação de aprendizagem, ao compreender que as funções psicológicas superiores ocorrem por meio de processos sociais que posteriormente são internalizados pela criança (Desmurget, 2023; Haidt, 2024; Vygotsky, 1991, 2010).

Diante desses desafios e oportunidades, a LID se apresenta como um recurso promissor na formação de leitores na contemporaneidade. Estudos apontam que seu impacto depende de uma implementação cuidadosa, garantindo que os livros digitais sejam utilizados de forma equilibrada, complementando os suportes impressos e incentivando a leitura crítica para crianças (Yokota; Teale, 2014).

A presente revisão pode ajudar na compreensão do papel da LID em diferentes contextos de educação e/ou saúde, evidenciando que uma análise crítica dessas novas ferramentas literárias ajudará profissionais das áreas de educação e saúde e cuidadores a refletirem sobre os benefícios da LID e caminhos possíveis para um aproveitamento diligente.

Dessa maneira, reconhecendo o papel pedagógico das histórias infantis digitais, esta revisão bibliográfica tem como objetivo avaliar as contribuições da LID no processo de aprendizagem de crianças em contextos de educação e/ou saúde.

2 Metodologia

Trata-se de revisão bibliográfica, estruturada em seis etapas distintas: 1) identificação do tema e da questão norteadora; 2) estabelecimento de critérios para inclusão e exclusão de estudos e/ou busca na literatura; 3) extração de dados a partir de estudos primários; 4) avaliação de estudos a serem incluídos na revisão; 5) interpretação dos resultados; e 6) síntese do conhecimento (Mendes; Silveira Galvão, 2008).

A questão de pesquisa foi elaborada de acordo com a estratégia População, Intervenção, Comparação e Desfecho (PICO) (Santos; Pimenta; Nobre, 2007). A seguinte estrutura foi proposta: P (população) - crianças pré-escolares e crianças hospitalizadas; I (intervenção) - LID; C (comparação) - não teve; O (desfecho) - aprendizagem, equilíbrio emocional da criança, experiência estética e desenvolvimento infantil das crianças. A seguinte questão foi elaborada: quais as contribuições científicas de usar a LID para crianças?

O levantamento bibliográfico foi realizado nos meses de agosto e setembro de 2024, mediante acesso virtual às bases de dados: Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (Medline), acessada por meio do portal PubMed; Scopus (Elsevier); Elton B. Stephens Company (EBSCO), Science Direct e Web of Science.

Para a busca nas bases de dados, foram selecionados descritores indexados nos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e seus equivalentes no idioma inglês no Medical Subject Headings (MeSH), assim como descritores não controlados, estabelecidos de acordo com sinônimos dos controlados e de leituras prévias sobre o tópico de interesse. Para sistematizar a coleta de dados, utilizou-se o formulário de busca avançada, respeitando peculiaridades e características distintas de cada base de dados. Os descritores e palavras-chave foram combinados entre si com o conector booliano “OR”, dentro de cada conjunto de termos da estratégia PICO, sendo, em seguida, cruzados com o conector booliano “AND”, conforme apresentado no Quadro 1.

Quadro 1
Estratégia de busca utilizada nas bases de dados

A busca dos artigos ocorreu através do Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Os estudos encontrados foram importados para o Rayaan, otimizando a seleção inicial desta revisão.

Foram incluídos na amostra final os artigos originais publicados nos últimos dez anos, artigos disponíveis na íntegra, nos idiomas inglês, português e espanhol, que respondessem à pergunta norteadora quanto às contribuições da LID para crianças. Foram excluídos artigos repetidos, os de revisão e os advindos da literatura cinzenta que não tivessem finalidade de editoração (dissertações, teses, monografias, editoriais, estudos de caso e nota prévia). Uma vez localizados, realizou-se a leitura do título, resumo e descritores presentes nos artigos, sendo selecionados para leitura na íntegra aqueles que respondessem à questão de pesquisa desta revisão.

O processo de busca e seleção dos artigos foi adaptado das recomendações do modelo Prisma, como pode ser observado na Figura 1 (Page et al., 2021). Os artigos selecionados para a revisão foram compilados em uma planilha contendo os itens referentes ao ano de publicação, tipos de estudo, temática abordada, recursos utilizados, público-alvo, cenário e principais contribuições do estudo (Quadro 2). Os dados dos artigos selecionados foram analisados em quadro de textos e sintetizados de forma sucinta para facilitar a comparação dos assuntos e a categorização das informações.

Quadro 2
Identificação do estudo, ano de publicação, tipo de estudo, autores, periódico, temática, recursos tecnológicos para mediar as histórias, público-alvo, cenários

Figura 1
Processo de seleção e amostra final das publicações sobre LID a partir do modelo Prisma

3 Resultados e discussão

No processo de busca, obtiveram-se 351 artigos, sendo incluídos na amostra final dez artigos. A amostra final de dez artigos resulta da aplicação dos critérios de elegibilidade definidos previamente, o que reduziu significativamente o conjunto inicial. Os 254 estudos foram excluídos por não corresponderem ao tema delimitado, sobretudo por abordarem o assunto apenas de forma tangencial, por tratarem sobre uma população/contexto distintos da área da educação e/ou saúde, por analisarem variáveis/ desfechos diferentes dos previstos ou por se enquadrarem em tipos de publicação não elegíveis (relatos, opiniões, revisões, documentos argumentativos/reflexivos). A Figura 1 ilustra o percurso realizado durante a seleção dos estudos:

Quanto à distribuição dos artigos nas bases de dados, quatro (40%) artigos foram identificados na Medline/Pubmed e três (30%) na Scopus, um (10%) na Sciencedirect, um (10%) na Web of Science e um na (10%) EBSCO. Houve maior frequência de publicação nos anos de 2024 e 2014.

As histórias infantis digitais identificadas nos estudos foram mediadas através de aplicativos móveis (E1, E6, E9, E10); plataformas digitais (E5), LID (E7), softwares de computadores (E8), vídeos de histórias (E3), histórias com animações (E2), e-book interativo (E4), em diferentes tipos de dispositivos (celular, tablet e computadores), conforme descrito no Quadro 2.

Os temas abordados nos estudos revelam os impactos da LID no processo de aprendizagem das crianças (E1, E2, E3, E4, E5 E6, E7, E8, E10) (99%) e no desenvolvimento infantil (E1, E2, E3, E4, E5 E6, E7, E8, E10) (99%) e descrevem o método para avaliar a experiência de crianças e mediadores na leitura de livros digitais (E9) (1%). Outros temas abordados são: aprendizagem bilíngue (E4); estímulos para criança (E2, E3), design dos e-books e suas repercussões na aprendizagem (E4, E9); criatividade a partir do uso da LID (E6), presença de mediadores durante o uso da LID (E6, E8, E9).

O público-alvo foi composto por crianças nas idades de cinco meses a 8 anos em contextos domiciliar (E3, E4, E7) (30%), escolar (E5, E6, E8, E9, E10) (50%) e atenção à saúde (E1, E2) (20%). No que se refere à organização da discussão a partir da temática dos artigos selecionados nesta revisão, subdividiu-se nos seguintes eixos temáticos: I - A estrutura/design da LID e seus impactos no processo de aprendizagem; II - O papel dos mediadores durante o uso da LID.

O Quadro 3 representa os principais resultados encontrados nos estudos selecionados para a análise, segundo ordem numérica de identificação dos artigos.

Quadro 3
Principais resultados encontrados nos trabalhos da seleção

3.1 A estrutura/design da LID e seus impactos no processo de aprendizagem

Para Vygotsky (1991, 2010), sob a perspectiva sociocultural de sua teoria, o desenvolvimento infantil é profundamente influenciado pelo meio em que a criança está inserida, uma vez que as funções psicológicas superiores se constituem a partir das interações sociais mediadas pela cultura e pela linguagem. Desse modo, o contexto contemporâneo, marcado pela presença de tecnologias digitais, molda a interação e a construção de conhecimento, implicando a busca constante de se conectar com essa realidade tecnológica, não apenas como forma de entretenimento, mas também como ambiente de participação social e aprendizagem (Vygotsky, 1991, 2010).

Nesse sentido, a LID desempenha um papel pedagógico quando seu design equilibra recursos visuais, sonoros e interativos. Ensaios realizados com pré-escolares mostram que os livros digitais que possuem recursos visuais e de áudio equilibrados geram melhora no vocabulário de crianças pequenas, ao passo que, ao combinar todos esses elementos sem planejamento, notou-se sobrecarga no cérebro da criança (Li; Bus, 2023; Son; Butcher, 2024).

Existe a necessidade de refletir a construção de livros digitais para crianças, nesse sentido, Furenes, Kucirkova e Bus (2021) demonstraram que é essencial planejar o conteúdo e design dos livros infantis digitais, enfatizando que um livro bem planejado favorece a compreensão das histórias.

Nos livros infantis digitais, a interatividade também precisa ser direcionada, entretanto ferramentas que disparam efeitos aleatórios desviam o olhar do enredo. O ganho cognitivo só aparece quando possui um propósito bem estabelecido que vincula a narração com a aprendizagem (Liu et al., 2024).

Furenes, Kucirkova e Bus (2021) também destacam que os objetivos dos livros infantis digitais devem ser bem delimitados, pois isso implica a disposição de recursos visuais e de áudio complementares, que podem impactar diretamente o processo de aprendizagem das crianças. Oferecer a literatura digital para crianças requer diligência e direcionamento. Corroborando essa perspectiva, Munzer et al. (2026) descrevem que conteúdos digitais educacionais e de alta qualidade tendem a se associar a um melhor desenvolvimento da linguagem e a comportamentos pró-sociais em crianças, os quais acrescentam que alguns aplicativos podem favorecer a aprendizagem em áreas como ciência, matemática, resolução de problemas e novos idiomas, destacando que esses efeitos costumam ser potencializados quando há uso conjunto com um cuidador, que orienta, interage e dialoga com a criança durante a atividade.

Dessa maneira, e-books que embutiram prompts de perguntas tornaram a presença de pais ou professores essenciais para o uso desses guias, o que favorece o vínculo adulto-criança e a compreensão inferencial da história aumenta, especialmente em leitores com baixa autorregulação (Strouse; Troseth; Stuckelman, 2023; Yang et al., 2022).

O trabalho de Etta e Kirkorian (2019) possui resultados que sugerem que o uso de recursos interativos simples promove o entendimento da história e não excede a capacidade das crianças em idade pré-escolar de compreender e aprender com a narrativa, enfatizando que o benefício depende da complexidade e da integração dos recursos com o enredo. Em contrapartida, o estudo supracitado diverge do achado do artigo de Koch et al. (2024), que afirma que as crianças que têm contato com livros ilustrados tendem a apresentar maior capacidade de recordar acontecimentos vivenciados, ao passo que a exposição a vídeos está relacionada a um desempenho inferior.

Para Desmurget (2023, p. 182), os “[...] estilos de vida digitais afetam a habilidade de se manter concentrados por períodos extensos [...] Eles estão sempre carentes de novidades”. Essa necessidade contínua por estímulos e a alternância rápida de foco tendem a prejudicar a atenção, condição central para a codificação e consolidação da memória durante a leitura, por isso, em contraste, a leitura de livros impressos, por favorecer um ritmo mais estável, com menos interrupções e menor competição por estímulos, costuma estar associada a maior retenção do conteúdo quando comparada a ambientes digitais marcados por notificações, hiperlinks e multitarefas.

O design dos livros infantis avança também para experiências de realidade aumentada. Foi identificado que livros infantis digitais com realidade virtual aumentada melhoram a capacidade de recontar a história, sem aumentar a carga mental, favorecendo a compreensão integral das histórias (Simsek, 2024).

Resultados se repetem em contextos diversos. A exposição à LID aumentou a motivação para a leitura entre crianças chinesas, ao mesmo tempo que reduziu a fadiga associada à realização das atividades de leitura (Wu; Amzah, 2023). O uso de aplicativos mostrou melhorias significativas em habilidades específicas, como consciência fonológica, habilidades numéricas e conhecimento de letras (Niklas et al., 2025).

Ademais, Dahlan et al. (2024) destacam que recursos interativos em e-books promovem maior envolvimento dos leitores, transformando o ato de ler em experiência participativa que facilita a construção de conhecimento e a reflexão sobre o conteúdo, favorecendo o engajamento e potencializando a participação ativa no processo de aprendizagem. Por outro lado, o Núcleo Ciência pela Infância (NCPI, 2025) evidencia em documento sobre o uso de tela e mídias digitais que a exposição excessiva a telas na infância e adolescência está associada a diversos prejuízos, entre os quais estão riscos maiores de problemas de saúde mental, sono e desempenho acadêmico, assim como um aumento de sintomas depressivos e possíveis alterações cerebrais, destacando também uma piora da alimentação (mais consumo de alimentos ultraprocessados), associado a uma maior dependência de internet, que redundam em comportamentos agressivos e bullying. Em geral, quanto maior o tempo de exposição, maiores tendem a ser os riscos.

Assim, com vistas a melhor direcionar essa situação, Munzer et al. (2026) recomendam que profissionais utilizem a abordagem dos “5 Cs” para orientar sobre o uso de mídias digitais: criança (quais os pontos fortes dela?); conteúdo (qual é o tipo de conteúdo consumido?); calma (a mídia é usada para a regulação emocional?); impacto/ interferência (analisar impactos na rotina da criança e família?); e comunicação (como está o diálogo da família sobre o uso da mídia?). Além disso, enfatizam também sobre a importância de apoiar cuidadores e compreender os motivos do uso de mídias digitais, promovendo uma orientação centrada no bem-estar da criança.

Desse modo, os livros infantis digitais precisam utilizar recursos que levem informações objetivas e relacionadas à história, ao passo que suas funcionalidades apontem para o enredo e, ao mesmo tempo, integrem o mediador através de perguntas na tela ou outros estímulos dinâmicos, direcionando para espaços que ampliem o horizonte da aprendizagem, sendo também capaz de tornar essa experiência um ambiente de reflexão. Quando essas condições se alinham, a LID torna-se uma via para o aperfeiçoamento do vocabulário, da compreensão e da criatividade. E, sobretudo, a presença de um mediador diligente, fará com que o uso de tecnologias seja um ambiente mais seguro para as crianças.

3.2 O papel dos mediadores durante o uso da LID

A migração dos livros impressos para os formatos digitais exige uma ressignificação do papel dos mediadores (professores, pais e cuidadores) frente às novas possibilidades oferecidas pelas tecnologias interativas. O impacto positivo da literatura digital sobre o desenvolvimento infantil está condicionado à mediação ativa, estruturada e responsiva ao contexto. Ademais, nos dois formatos, a mediação é essencial para o desenvolvimento infantil.

Para Vygotsky (1991, 2010), a mediação é o que torna a aprendizagem verdadeiramente formadora, pois é na interação social com outras pessoas e com o ambiente, especialmente em situações de cooperação, que o aprendizado ativa processos internos de desenvolvimento que ainda não operam plenamente de modo autônomo. Com o tempo, esses processos são internalizados, passando a compor as capacidades da criança em seu desenvolvimento independente.

Kucirkova e Flewitt (2018) demonstram que a mediação de adultos durante a leitura digital contribui significativamente para a compreensão textual e a ampliação do vocabulário. A atuação do mediador permite que a criança articule sentidos e mantenha o foco narrativo, evitando dispersões geradas por recursos visuais e sonoros.

Sari et al. (2019) e Son e Butcher (2024) reforçam essa perspectiva ao evidenciarem que, embora animações vinculadas ao enredo favoreçam a compreensão, elementos multimídia desconexos ou em excesso podem comprometer a aprendizagem. Tais achados indicam que a mediação deve abranger também a curadoria e o controle do conteúdo disponibilizado.

No que se refere ao engajamento sensorial, estudos como o de Kucirkova e Kamola (2022) ressaltam que histórias digitais que envolvem múltiplos estímulos sensoriais requerem um mediador que atue como facilitador de experiências, promovendo a construção ativa de significados. Bus, Takacs e Kegel (2015) observam, por sua vez, que crianças com dificuldades linguísticas se beneficiam mais intensamente da mediação quando os recursos multimodais são utilizados de forma intencional e congruente com o texto narrado.

Outro aspecto relevante refere-se às tecnologias de personalização. Kucirkova, Toda e Flewitt (2021) destacam que a autonomia proporcionada por softwares personalizados deve ser acompanhada de mediação crítica, garantindo a segurança, o propósito pedagógico e a relevância dos conteúdos selecionados e acrescentam que o respeito à agência infantil demanda escuta ativa e sensibilidade para adaptar as ferramentas ao perfil e aos interesses da criança. Além disso, a mediação também assume papel afetivo, como descrito por Nunes et al. (2022), ao apontarem que a familiaridade da criança com os personagens e contextos das histórias digitais favorece a compreensão, sobretudo quando o mediador explora vínculos emocionais e associações relacionadas à própria criança. O adulto, nesse cenário, atua como elo entre o universo narrativo e a vivência da criança, favorecendo o envolvimento e a empatia.

Desse modo, Vygotsky (2010) destaca que o meio não medeia apenas conteúdos cognitivos, mas também emoções e afetos; as reações emocionais produzidas nas relações e experiências vividas influenciam a forma como a criança atribui sentido ao que aprende, tendo papel central na construção do conhecimento e da sua subjetividade.

Torna-se evidente, assim, que a atuação mediadora transcende a instrução direta, assumindo dimensões pedagógicas, sensoriais, cognitivas e afetivas. Nas palavras de Reyes (2017), forma-se um triângulo amoroso entre o adulto mediador, a criança e o livro. No caso da literatura digital, a mediação eficaz pressupõe o conhecimento do desenvolvimento infantil, o domínio das ferramentas digitais e a intencionalidade educativa. A ausência ou inadequação dessa mediação pode não apenas comprometer o processo de aprendizagem, como também acentuar desigualdades de acesso e apropriação crítica da tecnologia.

4 Conclusão

Esta revisão evidencia, que a LID amplia oportunidades de aprendizagem ao combinar recursos multimodais, acessibilidade e possibilidades de personalização, contudo seus benefícios não decorrem da simples presença de tecnologia, mas da articulação de três fatores interdependentes: interatividade, design e interação humana.

Quanto à interatividade, esta precisa ser pedagogicamente significativa, e isso é possível quando usamos animações, ferramentas e jogos alinhados ao enredo, reforçando o vocabulário, as inferências e a memória, dessa maneira o livro infantil digital potencializa o desenvolvimento linguístico e cognitivo, porém, quando esses itens são usados sem uma intencionalidade definida, sobrecarregam a atenção e dispersam o foco, reduzindo os benefícios.

No que se refere ao design, a LID deve respeitar princípios de coerência, sinalização e dosagem. Livros digitais bem projetados equilibram o texto, a imagem e o som, mantêm estímulos dinâmicos curtos e oferecem suportes dialógicos que convidam à reflexão. Nessa configuração, a literatura digital deixa de competir com a narrativa e passa a ampliá-la, favorecendo a criatividade, a reflexão e a motivação para a leitura.

Ademais, a mediação humana permanece, de forma inequívoca, como elemento essencial no processo de leitura de livros infantis digitais. Pais, professores e bibliotecários transformam potencialmente o processo de aprendizagem ao dialogarem sobre a história, regulando os estímulos e ajustando o apoio ao perfil individual de cada criança.

Assim, é fundamental considerar o contexto sociocultural em que a leitura digital ocorre, pois o acesso às tecnologias é desigual, as competências digitais e os espaços onde a leitura é realizada podem acentuar disparidades no desenvolvimento infantil. Assim, a promoção da LID exige políticas públicas, formação de mediadores e curadoria criteriosa de obras que priorizem qualidade narrativa e usabilidade. Dessa maneira, as telas podem funcionar como intermediárias para o desenvolvimento de leitores críticos, criativos e socialmente engajados.

  • Pareceristas ad hoc:
    María Jesús Colón Castillo e Jeriane da Silva Rabelo
  • Como citar este artigo (ABNT):
    SOUZA, Mirelly da Silva Barros; CORIOLANO-MARINUS, Maria Wanderleya de Lavor; SANTOS, Soraya Vieira. Contribuições da literatura infantil digital no processo de aprendizagem de crianças: uma revisão bibliográfica (2014-2024). Educação & Formação, Fortaleza, v. 11, e16233, 2026. Disponível em: https://revistas.uece.br/index.php/redufor/article/view/e16233

Disponibilidade de dados:

Os dados de pesquisa só estão disponíveis mediante solicitação.

6 Referências

  • Editora responsável:
    Lia Machado Fiuza Fialho

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    15 Set 2025
  • Aceito
    28 Fev 2026
  • Publicado
    10 Abr 2026
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