Open-access A Capoeira como Prática de Ensino da História e Cultura Afro-Brasileira

RESUMO

Objetivou-se descrever os conhecimentos e experiências de estudantes do ensino médio integrado sobre a capoeira enquanto prática educativa. Para tanto, desenvolveu-se uma pesquisa-ação com 35 estudantes do Instituto Federal do Acre por meio de uma roda de conversa que teve seus diálogos gravados, transcritos e submetidos a análise temática. Verificou-se que os estudantes não demonstraram ter base teórico-prática sobre a capoeira e poucos relataram ter experiências e vivências com as questões étnico-raciais. Além disso, traziam muitas crenças, sobretudo religiosas, a respeito do tema. Assim, são necessárias práticas de ensino que possibilitem a aprendizagem significativa sobre a capoeira como elemento da história e cultura afro-brasileira.

Palavras-chave
Capoeira na Escola; Cultura Africana e Afro-Brasileira; Ensino-Aprendizagem; Formação Integral

ABSTRACT

This study explores the use of capoeira as a practice for teaching Afro-Brazilian history and culture. This study aimed to describe the knowledge and experiences of integrated high school students regarding capoeira as an educational practice. We conducted action research with 35 Federal Institute of Acre students through a discussion circle. The conversations were recorded, typed up, and analyzed for themes. The findings indicated that students lacked a theoretical and practical foundation in capoeira, and only a few reported experiences related to ethnic-racial issues. Moreover, many expressed beliefs, particularly religious ones, associated with the topic. Therefore, it is essential to implement teaching practices that foster meaningful learning about capoeira as a fundamental element of Afro-Brazilian history and culture.

Keywords
Capoeira in Schools; African and Afro-Brazilian Culture; Teaching and Learning; Holistic Education

Introdução

A Educação Profissional e Tecnológica (EPT) é uma modalidade de ensino que visa ao desenvolvimento integral do indivíduo para o trabalho e para a vida em sociedade. Entretanto, a EPT tem seu marco inicial com o Decreto n.º 7.566 de 1909, do presidente Nilo Peçanha, que cria as Escolas de Aprendizes e Artífices. Em 1937, essas escolas foram transformadas em Liceus Industriais, pela Lei n.º 378, os quais foram extintos pelo Decreto-Lei nº 4.127 de 1942, transformando-os em escolas industriais e técnicas. Em 1959, escolas industriais e técnicas mantidas pela União foram transformadas em Escolas Técnicas Federais. Em 1978, algumas das Escolas Técnicas Federais se transformam em Centros Federais de Educação Tecnológica (Cefets), pela Lei nº 6.545. Em 2008; a Lei n.º 11.892 representa mais um importante marco na história da educação profissional brasileira, com a criação da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica (Brasil, 1909; 2008).

A EPT perpassa todos os níveis da educação, integra as dimensões do trabalho, da ciência, da cultura e da tecnologia e está organizada por eixos tecnológicos (Brasil, 2021). A Rede Federal pressupõe a abordagem integrada dos conhecimentos, ou seja, uma educação politécnica que proporciona ao sujeito a formação ancorada nos métodos científicos, tecnológicos, históricos e culturais (Ramos, 2014).

De acordo com Frigotto e Ciavatta (2012), a educação omnilateral tem compromisso com o desenvolvimento das diversas dimensões constituintes do ser humano, o que significa considerar as condições sócio-históricas que permeiam a vida.

Dessa maneira, entende-se que o Ensino Médio Integrado (EMI) deve possibilitar uma ampla formação pedagógica a partir dos fundamentos da história cultural, da arte, do trabalho, da ciência, da cultura e da tecnologia, visando à formação humana, buscando superar essa dualidade entre a formação geral e profissional, considerando as necessidades da classe trabalhadora (Ciavatta; Ramos, 2011).

Para tanto, a educação escolar deve promover um processo de ensino-aprendizagem embasado na multiculturalidade, com abordagem de temas transversais a serem trabalhados por todos os componentes curriculares, e proporcionar um conhecimento reflexivo e crítico (Santomé, 1998).

Nessa esteira, a Lei n.º 11.645/2008 estabelece a obrigatoriedade do ensino da cultura afro-brasileira, africana e indígena pelo currículo escolar. Desse modo, a capoeira é um tema privilegiado a ser trabalhado na escola, especialmente a partir das aulas de educação física, podendo ajudar a romper algumas barreiras impostas ao longo dos anos. Por exemplo, além de interferir e auxiliar nas questões físico-motoras, que são próprias da educação física, tem-se a possibilidade de trabalhar questões étnico-raciais, violência, intolerância religiosa e preconceitos, dentre outros. Outra importância é que a capoeira possibilita múltiplos caminhos para a melhoria do processo de ensino-aprendizado, buscando sempre desenvolver o aspecto cognitivo, afetivo e psicomotor no aluno (Paula; Bezerra, 2014).

No contexto escolar, é relevante que a capoeira seja inserida dentro do currículo a partir de uma abordagem interdisciplinar a fim de sensibilizar os alunos sobre suas raízes culturais, desmistificando preconceitos, além de auxiliar na promoção de habilidades e capacidades físicas

(Salvino; Amaral, 2021, p. 9).

A tematização da capoeira enquanto elemento de estudo da história e cultura afro-brasileira e africana na educação, por meio das disciplinas de história, literatura e artes, nos termos que propõe a lei, também pode se dar a partir das aulas de educação física, uma vez que este conteúdo pode ser usado como eixo em busca de soluções para o desafio da construção da igualdade, inclusão e respeito às diferenças (Pomin; Café, 2020), corroborando exatamente com o que propõe a norma.

Entretanto, a capoeira não pode ser vista apenas por sua qualidade técnica e nem como manifestação folclórica, pois é também um processo que foi tomando forma ao longo dos anos, desde o início da formação histórica do país, como conteúdo elaborado e organizado para ser trabalhado nas aulas (Falcão, 1996). O ensino da capoeira no ambiente escolar desenvolve no aluno habilidades para além das capacidades físicas, porque possibilita trabalhar em parceria com outras disciplinas, proporcionando diferentes aprendizados na elaboração de pesquisas, vivências lúdicas, desenvolvimento das capacidades motoras, inclusive com baixo custo dos recursos para ser tematizada, proporcionando o aprendizado de todas as dimensões dos conteúdos da educação física, que são factuais, conceituais, procedimentais e atitudinais (Paula; Bezerra, 2014).

Tomando emprestada a ideia de Silva e Heine (2008) quando tratam do esporte na escola e o esporte da escola, no caso da capoeira, dependendo dos arranjos pedagógicos e administrativos, tem-se que o desenvolvimento das aulas de capoeira nos espaços escolares pode se dar a partir de uma concepção de capoeira na escola e a capoeira da escola. Seguindo a mesma linha de raciocínio de Silva e Heine (2008), a diferença entre elas é que a capoeira na escola ocorre por meio do desenvolvimento de projetos ou escolinhas, onde o capoeirista exerce a função de repassar conhecimentos, muitas vezes independente de formação acadêmica e de seu vínculo com a proposta pedagógica da escola; já a capoeira da escola seria desenvolvida potencialmente pelo professor de educação física, podendo promover a interdisciplinaridade, ou seja, alinhada à proposta pedagógica da escola, determinando a ocupação de espaços de maior prestígio no ambiente escolar, em comparação à capoeira na escola.

Nesse sentido, tanto uma vertente quanto a outra possuem contribuições significativas para o processo educacional. Ao abordar uma experiência de capoeira da escola, Campos (2013) investigou a realização do Projeto CapoeiraAção, realizado em uma escola pela Secretaria Municipal de Educação de Unaí/MG, que identificou progresso significativo no que diz respeito aos fatores cognitivos, motores, afetivo e social entre os alunos que participaram do projeto em relação aos estudantes que não foram contemplados pelo projeto.

Da mesma maneira, Amorim e Rengel (2020) utilizaram a capoeira como enfoque principal das atividades didático-pedagógicas em uma escola de educação infantil na cidade de Salvador/BA, onde observaram uma contribuição para despertar a valorização, reconhecimento e o respeito pela cultura afro-brasileira.

Quanto à capoeira na escola, Sabino e Benites (2010), ao realizarem um projeto extracurricular em uma escola privada de Rio Claro/SP, evidenciaram que o contato com a capoeira foi fundamental para a melhoria na destreza dos movimentos, no aspecto cognitivo e na relação em grupo das crianças atendidas, bem como, segundo seus pais, favoreceu o convívio do dia a dia.

Diante desse cenário, o objetivo deste estudo foi descrever os conhecimentos e experiências de estudantes do ensino médio integrado sobre a capoeira enquanto prática educativa.

Metodologia

A pesquisa foi realizada no decorrer do Mestrado Profissional em Educação Profissional e Tecnológica (ProfEPT) do Ifac. Trata-se de um estudo com abordagem qualitativa, de natureza aplicada e objetivo exploratório e descritivo, tendo como procedimento a pesquisa participante, na qual são apresentados os relatos dos alunos referentes à capoeira e sua importância enquanto prática educativa nas aulas de educação física.

Participaram dessa etapa da pesquisa 35 estudantes do 2º ano do Curso Técnico em Informática para Internet (IPI), integrado ao Ensino Médio no Instituto Federal do Acre, Campus Rio Branco, que, no 3º bimestre do ano letivo de 2022, tiveram a capoeira como tema das aulas teóricas e práticas.

A coleta de dados foi realizada por meio de uma roda de conversa, conduzida pelo professor e pesquisadores, e seguiu um roteiro semiestruturado, elaborado com questões que visavam levantar os conhecimentos prévios dos estudantes acerca da história e cultura afro-brasileira e da capoeira.

Os diálogos registrados durante a roda de conversa foram gravados, analisados e transcritos, sendo que o processo de transcrição foi realizado cuidadosamente, com o intuito de preservar todas as palavras e nuances das conversas.

Foi utilizada a técnica de análise proposta por Fontoura (2011), que consiste em sete passos, a saber:

  1. Transcrição de todos os diálogos gravados com o intuito de facilitar a análise extraída da fala dos estudantes;

  2. Leitura minuciosa do material transcrito, com foco específico no objeto do estudo, o que permitiu uma compreensão aprofundada do conteúdo e ajudou a identificar aspectos relevantes para posterior detalhamento;

  3. Demarcação e exploração das partes dos textos consideradas de grande importância e relevância à análise;

  4. Agrupamento dos dados considerando coerência, semelhança, pertinência, exaustividade e exclusividade;

  5. Definição das unidades de contextos (trechos longos) e unidades de significados (palavras e expressões), também foram feitas indagações, pois a análise temática consiste em descobrir os núcleos de sentido que compõe a comunicação;

  6. Separação e seleção das unidades de contexto e de significados, sendo utilizados quadros para organizar e facilitar a visualização e interpretação;

  7. Interpretação à luz dos referenciais teóricos adotados para o estudo, que auxiliaram a contextualizar e a fundamentar a análise dos temas e padrões identificados, permitindo uma compreensão mais profunda dos diálogos e das suas implicações para o estudo. A interpretação final proporcionou esclarecimentos significativos e contextualizados sobre o conteúdo discutido na roda de conversa.

A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Instituto Federal do Acre e atendeu aos princípios dispostos nas resoluções 466/2012 e 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde, sob o CAAE n.º 63779922.8.0000.0233. Os responsáveis legais pelos menores de idade participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), e os alunos, menores de idade, assinaram o Termo de Assentimento Livre e Esclarecido.

Resultados e Discussão

Os estudantes foram bastante ativos nas discussões propostas na roda de conversa. A turma era composta por 35 estudantes, 17 do gênero masculino e 18 feminino, com idade variando de 15 a 18 anos.

Buscando identificar os conhecimentos prévios dos estudantes acerca da história e cultura afro-brasileira, e da capoeira em particular, as discussões revelaram cinco categorias de análise: a importância do ensino da história e cultura afro-brasileira e da capoeira na escola; ações sobre a história e cultura afro-brasileira e capoeira em outras escolas que os alunos frequentaram, assim como no Ifac; experiências relacionadas à capoeira na e da escola; conhecimentos sobre a origem da capoeira; e restrições pessoais quanto à prática da capoeira na escola.

Ao discutir sobre o ensino da história e cultura afro-brasileira nas escolas, os estudantes reconhecem a sua importância e necessidade, ao passo que também entendem que cabe à escola lhes permitir conhecer sobre tais temas, e que a falta desses conhecimentos leva ao preconceito. Quando trata especificamente da capoeira, eles a reconhecem como elemento da cultura afro-brasileira, importante de ser trabalhado na escola.

Todavia, quando questionados sobre a legislação que determina o ensino da história e cultura afro-brasileira nas escolas, apenas uma discente mencionou já ter ouvido algo sobre, mas não sabia explicar, sendo-lhes, por oportuno, apresentada a Lei 11.645/2008 (Brasil, 2008).

Diante do contato inicial com a referida norma, oportunizado pelos pesquisadores, os estudantes destacaram a sua importância para a salvaguarda da nossa cultura. Entretanto, reconhecem que a Lei é inadequadamente aplicada, contando apenas com uma experiência na disciplina de artes (Quadro 1).

Quadro 1
O Ensino da História e da Cultura Africana, Afro-Brasileira e Capoeira na Escola, Segundo Estudantes do EMI

O Brasil é um país formado por diversas culturas e etnias e, portanto, os conteúdos da história e cultura afro-brasileira devem se fazer presentes nos currículos escolares, uma vez que reforçam a identidade nacional (Brasil, 2008; Falcão, 1996). A capoeira é parte da construção do povo brasileiro, sendo uma temática que deve ser trabalhada na escola como mote para o ensino da história e cultura afro-brasileira.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2023), embora o Brasil, com uma população constituída, em sua maioria, por pessoas negras (que se declaram pretos ou pardos), foi possível perceber que os estudantes investigados reconhecem que o desconhecimento da história e cultura afro resulta no apagamento e negação das raízes negras do povo brasileiro, as quais se manifestam na forma de preconceito e desvalorização. Assim, ao utilizar a capoeira, por exemplo, como conteúdo de ensino, segundo eles, pode-se promover o aprendizado da própria história e cultura nacional.

Nessa esteira, cabe ressaltar que Ivasac (2018) fala sobre a importância da capoeira como tema a ser estudado e vivenciado na escola, de modo a introduzir o ensino da história e cultura afro-brasileira no currículo, podendo contribuir também para o reconhecimento e valorização da miscigenação, estimular a redução e o combate de preconceitos raciais além de possibilitar que as pessoas conheçam sobre a verdadeira identidade e raízes culturais do Brasil.

Nesse sentido, tal proposta de educação vai ao encontro do que assevera Freire (1987), quando afirma que proporcionar uma educação libertadora é contribuir para ocorrerem mudanças nos rumos da história, e que a educação verdadeira conscientiza, e essa conscientização abre caminhos para expressão das insatisfações sociais.

Adiante, no Quadro 2, destaca-se o conhecimento dos projetos e ações que tratam da história e cultura afro-brasileira desenvolvidas no Ifac, Campus Rio Branco, e dos poucos alunos que relataram ter conhecimentos, que se reportaram ao projeto de extensão que oferece aulas de capoeira e folguedos no Ifac, à comunidade, o qual conta com a participação de alguns alunos; também se referiram a ações relacionadas a uma pesquisa sobre a capoeira, ambos coordenados por um dos pesquisadores e professor da turma. Cabe ainda ressaltar as ações dos professores de história que, além de participarem da equipe da aludida pesquisa, também são integrantes do Núcleo de Estudo Afro-brasileiros e Indígenas, Campus Rio Branco do Ifac (Neabi/CRB/Ifac). Portanto, todas essas ações existentes estavam alinhadas ao núcleo.

Quadro 2
Ações Sobre a História e Cultura Afro-Brasileira e Capoeira no Ifac e em Outras Escolas Que os Alunos Frequentaram

Como parte das medidas afirmativas do Decreto n.º 6.872/2009, que aprovou o Plano Nacional de Promoção da Igualdade Racial (PLANAPIR) e a aplicabilidade da Lei n.º 11.645/2008, o Neabi/CRB/Ifac é uma iniciativa institucional que visa promover práticas pedagógicas e educativas que incentivem o aprendizado sobre a África, a literatura africana, cultura negra e história do negro no Brasil, bem como questões Indígenas nas áreas de ensino, pesquisa e extensão (Instituto Federal do Acre, 2017).

É de amplo conhecimento a realização de uma variedade de atividades organizadas pelo Neabi/CRB/Ifac e, particularmente, ações individuais por parte dos seus integrantes, que se dedicam a tratar da temática história e cultura afro-brasileira no Campus. Contudo, se evidenciou que tais ações acabam não sendo adequadamente divulgadas e não chegam ao conhecimento dos discentes, diminuindo a abrangência do potencial educativo das mesmas, tendo um alcance ineficaz.

Por outro lado, há que se reconhecer que muitas das ações do Neabi/CRB/Ifac possuem caráter pontual, ora voltadas para os estudantes dos cursos técnicos subsequentes ou de graduação, ora com parte das ações focadas no público do EMI, demonstrando a necessidade de melhorar os processos de planejamento e execução das ações, buscando centrar mais em atividades contínuas, em detrimento das pontuais, de modo a garantir que a participação dos alunos não seja vista como um privilégio de alguns poucos.

É necessária uma educação voltada para o conhecimento e valorização das características étnicas, é preciso que o estudante compreenda a importância do respeito aos grupos sociais. As salas de aulas são mecanismos relevantes que necessitam ser utilizados também de maneira a proporcionar uma contribuição do ensino voltado para a pluralidade social (Guimarães, 2020).

A reflexão sobre a formação cultural afro-brasileira no espaço escolar é importante por reconhecer e valorizar a diversidade cultural na sociedade. A cultura africana trazida pelos escravizados no Brasil Colônia foi incorporada às diferentes culturas locais e europeias, resultando na cultura afro-brasileira, sendo reconhecido que cada cultura tem seu valor e contribuição para a nação, não devendo passar despercebidas, principalmente nos ambientes escolares (Guimarães, 2020).

O Quadro 3 evidencia que no caso dos poucos estudantes que relataram ter tido alguma experiência vivenciada da capoeira nas escolas em anos anteriores, estas foram pautadas por projetos individuais dos professores, ações pontuais em períodos festivos (apresentações) e, portanto, não era um tema efetivamente valorizado nem pelos professores de educação física, quanto menos pelos professores das demais disciplinas.

Quadro 3
Experiências Relacionadas à Capoeira na Escola e Capoeira da Escola

Nas falas dos poucos alunos que informaram ter tido alguma experiência de capoeira na escola em anos anteriores, tais práticas não eram propriamente nas aulas de educação física, sendo uma atividade complementar, oferecida pelo professor comprometido com a capoeira e com a escola, mas que em nada se relacionava à sua jornada de trabalho, evidenciando a fragilidade de tais projetos, uma vez que era dependente do desejo e disponibilidade do professor em realizar aquele trabalho voluntário.

Por outro lado, há também as ações pontuais, estas potencialmente mais ligadas a outras disciplinas, em que se convida um mestre para fazer uma apresentação e uma fala sobre a capoeira, elas são geralmente ligadas à semana da consciência negra, realizada no mês de novembro, período este no qual a capoeira e os capoeiristas são lembrados pelas escolas como agentes potencialmente educativos.

Oliveira e Amaral (2018) dizem que a inclusão da capoeira na escola pode permitir aos estudantes de diferentes classes sociais, religiões e etnias uma melhor integração, objetivando um encurtamento de distâncias socioculturais, impostas pela sociedade capitalista em que se vive. Também, Silva (2019) nos faz refletir sobre a realidade que muitos professores vivenciam em trabalhar tal conteúdo, devido ao preconceito que a modalidade enfrenta.

Quando a discussão analisou a origem da capoeira, as falas dos estudantes versavam em uma visão simplista e de conhecimento geral, centrada nas informações superficiais referentes às correntes que defendem a capoeira brasileira e à teoria da origem afro-brasileira (Quadro 4).

Quadro 4
Conhecimentos Sobre a Origem da Capoeira

Chama a atenção que nenhuma fala tenha apontado para a teoria que defende a capoeira como efetivamente africana, tampouco o conhecimento de outras teorias, como as que dizem ser a capoeira nascida no Brasil pelos povos nativos (Porto, 2010), ou mesmo a teoria que diz ser a capoeira afro-americana, pela confluência dos elementos culturais trazidos pelos africanos e dos contextos locais, vividos nas Américas, não correlacionando a origem da atividade capoeirista a um país específico (Pires, 2003), evidenciando que os estudantes apresentam conhecimentos fragmentados sobre o surgimento da capoeira.

Tomando como exemplo o que ocorre no imaginário coletivo, numa visão que se pode dizer até romântica, paira a ideia de que a capoeira surgiu nas fazendas ou nas senzalas, em forma de dança para disfarçar a luta, uma arma em potencial contra a opressão da escravidão que, caso fosse descoberta pelos senhores escravizadores, seria prontamente proibida. Assim, para os estudantes, “[...] os escravos tiveram a ideia de inserir a dança, misturando aos movimentos da luta, para que os senhores de engenho não percebessem” (E1 e E2). Nesse contexto, para eles, não significa que os africanos escravizados trouxeram a capoeira da África e aqui a adaptaram, mas que ela teria surgida aqui como luta disfarçada de dança.

A discussão com a turma se torna ainda mais rica quando alguns estudantes, refletindo a partir das falas dos colegas, apontam para a teoria afro-brasileira, uma vez que os escravizados traziam seu repertório cultural, que se somou às circunstâncias existentes no Brasil, condições estas fundamentais para o surgimento da capoeira. Embora, mais uma vez, se perceba limites explicativos para algumas falas, que reforçam a ideia de que lá, na África, existia uma luta de combate, que teve de ser disfarçada no Brasil, com introdução de movimentos de danças e música (E3, E4, E6 e E7).

Em meio às divergentes teorias sobre a origem da capoeira, um discente questionou aos pesquisadores qual seria a teoria mais aceita. Outro estudante, por sua vez, incorpora o espírito do ambiente de aprendizagem e sugere a realização de pesquisas para a solução do impasse, e afirma que “[...] seria interessante que pesquisassem para saber quais elementos tinham na África e quais tinham no Brasil para que a partir daí, chegassem a uma conclusão” (E5).

Vieira e Assunção (1998), Pires (2003) e Lussac (2013) descrevem que a origem da capoeira ainda é incerta, havendo algumas teorias que tentam explicar o seu nascimento. A primeira teoria diz que a capoeira surgiu na África e foi trazida ao Brasil pelos africanos escravizados. Há a teoria, pouco difundida, que aponta que a capoeira é afro-americana, por conter vestígios de práticas semelhantes em diferentes regiões onde houve escravidão de povos africanos nas Américas. Outra teoria, também pouco aceita, é a de que a capoeira é brasileira, mas originada com os indígenas, que a teriam transmitido aos escravos refugiados nas matas. A teoria que diz que a origem da capoeira é brasileira se divide em mais duas hipóteses: a primeira diz que a capoeira iniciou no meio rural, nas senzalas; e a segunda aponta que seu início se deu no meio urbano, nos mercados.

É importante frisar que aqui se defende a capoeira como tema de estudo na escola numa perspectiva crítica, procurando romper com as visões reducionistas que pairam sobre o tema, por exemplo, sobre o disfarce de dança que a luta precisou assumir para não ser descoberta. Não se trata aqui de negar a possibilidade de ter ocorrido uma camuflagem dos aspectos da luta com a incorporação da dança para não ser perseguida, mas sim de evidenciar o contexto da escravidão brasileira que repercute até os dias atuais sobre as vidas dos brasileiros afrodescendentes, sendo a capoeira um legado de um povo marcado pela expropriação de suas vidas, as quais foram reconstruídas com suor e sangue, ao passo em que também construíam o país e a sua cultura.

A capoeira é uma construção histórica brasileira, sendo, portanto, uma representação da cultura nacional. Pode-se dizer que a capoeira é afro-brasileira devido a essas misturas de elementos que fizeram e fazem parte da formação cultural do Brasil (Coutinho, 1993).

Ainda na busca por conhecimentos prévios sobre a história da capoeira com os estudantes do EMI do Ifac, agora focando no contexto local, eles foram unânimes em afirmar desconhecer a história da capoeira no Acre, mesmo aqueles que informaram ter praticado capoeira em algum momento de suas vidas.

Assim como é necessária a discussão crítica sobre a história da capoeira, que deve perpassar as teorias que explicam sua origem, há que se conhecer e valorizar a história da capoeira em âmbito regional, uma vez que a capoeira possibilita uma infinitude de possibilidades educativas, ao ser tematizada também a partir da sua história local, neste caso, o contexto acreano.

Em virtude da experiência pessoal por parte de um dos pesquisadores em relação à resistência de estudantes quanto à prática da capoeira nas aulas de educação física, face ao preconceito, especialmente de cunho religioso, coloca-se como tema de debate a existência ou não de restrições de ordem pessoal, que lhes impedissem de participar das atividades da disciplina envolvendo o tema capoeira. De pronto, 5 (cinco) alunos mencionaram ter restrições em razão de sua religião ou que tinham dúvidas, as quais seriam checadas com a autoridade religiosa de sua igreja ou com os pais. Porém, após verificar suas restrições com superiores, apenas 3 (três) alunos afirmaram ter restrições quanto à execução das aulas práticas de capoeira para o 3º bimestre da disciplina de educação física.

Ao serem provocados sobre o porquê de tais restrições, afirmaram ser a capoeira relacionada às religiões de matriz africana, as quais, segundo suas crenças, cultuavam deuses tidos como demônios e, ao praticar a capoeira, estariam agindo contrariamente à sua fé.

Imediatamente, como estratégia para promover a reflexão sobre o necessário respeito à diversidade, fez-se uma rápida enquete para identificar as vertentes religiosas professadas pela turma, sendo identificado apenas 3 estudantes que disseram professar sua fé diferente das vertentes cristãs predominantes. Uma estudante disse que sua religião convergia para o sincretismo entre o cristianismo, umbanda e santo daime, outra estudante informou ser agnóstica, ainda outro referiu ser espírita, contudo, a grande maioria da turma informou ter sua fé centrada nas religiões cristãs, predominando os grupos de evangélicos.

Ao se dirigir à turma sobre a prevalência de um grupo religioso sobre o outro, foi proposto que todos imaginassem que sua fé, no caso o cristianismo, era a minoria, e que naquele momento as pessoas da fé predominante (não cristã) os estavam interpelando, dizendo que seu deus era abominável, demoníaco e que adorá-lo os levaria para o sofrimento eterno, ao inferno. O silêncio tomou conta da discussão e ao solicitar que comentassem sobre o que sentiram com aquela experiência, eles expressaram o quanto aquela situação, mesmo simulada, lhes causava desconforto e a necessidade de respeitar as diferentes formas de expressar fé, sendo que a violência não poderia ser o caminho para a solução dessa questão (Quadro 5).

Quadro 5
Restrições Pessoais Quanto à Prática da Capoeira na Escola

Com base nessa experiência, foram revisados os princípios legais de respeito à diversidade religiosa e a caracterização do racismo como um crime, conforme os artigos 3.º, IV e 5.º, VI e XLII da Constituição Federal de 1988 e da Lei 14.532/2023. Além disso, os estudantes perceberam que o preconceito gerava sentimentos similares ou próximos aos que eles experimentaram durante a simulação (Brasil, 2023).

Portanto, justificar a não adesão à proposta pedagógica de prática da capoeira em razão da fé evidencia o preconceito que existe em relação às diversas expressões da cultura africana e afro-brasileira, mas aqueles que se abstiveram da prática por essa razão teriam suas posições respeitadas, contanto que participassem ativamente de todas as atividades das aulas, inclusive dos jogos e brincadeiras envolvendo situações e contextos históricos da escravidão no Brasil, mas que, ao iniciar a prática da capoeira propriamente, esses alunos assumiriam a função de espectadores, produzindo relatórios das observações.

A capoeira possui suas raízes na história do Brasil, mais especificamente entre os africanos ou descendentes de africanos escravizados, pois eles desenvolveram essa luta como forma de autodefesa, resistência e expressão cultural. A mesma é apreciada como forma de arte, esporte, cultura, independentemente de crenças religiosas dos seus praticantes (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, 2020).

É importante diferenciar “[...] o que é da capoeira e o que é do capoeirista”, pois cada praticante escolhe ou não ter sua religião, assim como qualquer ser humano e, mesmo que algumas canções contenham letras envolvendo santos ou orixás, ou até mesmo da própria bíblia, isso não significa transformar a capoeira em uma religião, pelo contrário, as músicas usadas na capoeira, na maioria das vezes, possuem letras contando parte da história do povo brasileiro e dos africanos.

Tensionamentos relativos às questões religiosas e capoeira existem para além do campo escolar, os quais têm influenciado sobremaneira inclusive na forma de ser e de se expressar enquanto capoeirista. Isso fica demonstrado em pesquisa recente que realizou uma experiência antropológica da capoeira no Acre, que evidencia ritos de passagem, necessários para a capoeira poder ser aceita, uma espécie de ajustamento, especialmente no que concerne aos aspectos religiosos.

Para manterem a ideia de que capoeira não é religião, também utilizam a estratégia de ligá-la ao esporte e à educação para ser aceita como uma atividade física que faz bem ao corpo. Com tais estratégias, eles circulam na estrutura social de prestígio que define normas e valores para serem integrados, sendo que isso se estende ao processo de ‘escolarização’ da capoeira, inserindo-a nos currículos como prática esportiva e pela sua polissemia

(Alves; Lobregat, 2023, p. 151).

É importante que o conteúdo da capoeira seja inserido nas aulas, porém, também é relevante tomar os devidos cuidados na organização das práticas educativas, para não ocorrer um afastamento de suas verdadeiras raízes, ou seja, “distanciando-a cada vez mais dos aspectos de sua cosmologia, quando pensada como herança cultural dos escravos” (Alves; Lobregat, 2023, p. 133).

Considerações Finais

A análise dos dados da roda de conversa mostrou que o conhecimento dos estudantes a respeito da história e cultura afro-brasileira e capoeira pode ser considerado superficial e fragmentado, uma vez que os estudantes não demonstraram ter base teórico-prática, e poucos relataram ter experiências e vivências com as questões étnico-raciais. Além disso, traziam muitas crenças, mitos e tabus, sobretudo religiosos, a respeito do tema.

Dessa forma, as discussões durante a roda de conversa foram promovidas na tentativa de superar a fragmentação do conhecimento e para reforçar, entre os alunos, que a capoeira é importante para a compreensão de suas raízes e para o resgate da identidade nacional , ao trazer princípios e valores fundamentais da história e cultura afro-brasileira, cruciais para romper com a visão de mundo eurocêntrica, combater preconceitos e estereótipos raciais e desconstruir a atmosfera de intolerância cultural e religiosa, profundamente instalada nesta sociedade.

Portanto, ficou evidente que, apesar da existência de políticas afirmativas e instrumentos jurídicos que obrigam a educação das relações étnico-raciais, elas ainda não estão efetivamente materializadas no ensino médio integrado do Ifac. Assim, há a necessidade da realização de práticas de ensino consoantes com a legislação, que promovam a tematização da capoeira, proporcionem aos estudantes uma aprendizagem significativa sobre a história e cultura afro-brasileira e da capoeira de forma dinâmica e lúdica, que abordem os conteúdos para além das habilidades e capacidades físicas e que possibilitem uma formação integral na perspectiva da vida em sociedade e do mundo do trabalho.

Disponibilidade dos dados da pesquisa

O conjunto de dados de apoio aos resultados deste estudo está publicado no próprio artigo.

REFERÊNCIAS

  • ALVES Alcilene Oliveira; LOBREGAT Maria Cristina. A Capoeira Acreana: uma experiência etnográfica. In: AMARAL Cledir Araújo et al. (Org.) A ginga na terra do Aquiry: dimensões históricas etnográficas e mapeamento da capoeira no Acre. Rio Branco: Editora Ifac 2023. P. 231.
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  • Editora responsável:
    Lodenir Karnopp

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    14 Jul 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    04 Nov 2023
  • Aceito
    27 Set 2024
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