RESUMO
Este artigo apresenta uma Revisão Sistemática de Literatura com o objetivo de refletir sobre os conceitos e entendimentos da alfabetização e do letramento. A pesquisa envolveu a consulta de duas bases de dados: o Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior e a Scientific Electronic Library Online, com critérios de inclusão que garantiram clareza na apresentação dos conceitos e entendimentos encontrados nos artigos analisados. Os resultados destacam a necessidade de uma reflexão mais aprofundada sobre os processos de formação de professores para promover uma compreensão mais consistente dos conceitos de letramento e alfabetização.
Palavras-chave
Alfabetização; Letramento; Revisão Sistemática; Ensino
ABSTRACT
This article presents a Systematic Literature Review aiming to reflect on the concepts and understandings of alphabetization and literacy. The research involved consulting two databases: the Periodicals Portal of the Coordination for the Improvement of Higher Education Personnel and the Scientific Electronic Library Online, with inclusion criteria ensuring clarity in presenting the concepts and understandings found in the analyzed articles. The results highlight the need for a deeper reflection on teacher education processes to promote a more consistent understanding of literacy and alphabetization concepts.
Keywords
Alphabetization; Literacy; Systematic Review; Teaching
Introdução
Este artigo é uma Revisão Sistemática da Literatura (RSL) e tem como principal objetivo refletir, a partir de estudos e pesquisas, sobre os conceitos e os entendimentos da alfabetização e do letramento. Esse busca responder a seguinte problemática da pesquisa: quais são os conceitos e entendimentos sobre alfabetização e letramento presentes nos estudos encontrados nas bases de dados investigadas? Além disso, há dois objetivos específicos a serem destacados: (a) categorizar os estudos elegíveis por base de dados e apresentar uma síntese dos estudos; e, (b) investigar como essas concepções são aplicadas na prática da alfabetização e do ensino da leitura e escrita.
A revisão sistemática adotada nesse estudo é um método que permite uma abordagem rigorosa e sistemática da literatura disponível sobre a temática a ser abordada, proporcionando uma análise crítica e abrangente; e, consequentemente contribuirá com o estudo dos conceitos e entendimentos da alfabetização e do letramento. Essa abordagem é baseada, em especial, em Petticrew e Roberts (2006) e Costa e Zoltowski (2014).
A habilidade de ler e escrever não apenas permite o acesso ao conhecimento e à informação, mas também desempenha um papel crucial no desenvolvimento cognitivo, social e emocional. É por meio da alfabetização que as crianças adquirem as ferramentas necessárias para compreender o mundo ao seu redor, expressar suas ideias e se comunicar de forma eficaz. Mas, por que afirmamos que é importante ler e escrever?
Reconhecemos e fundamentamos nossa compreensão nas contribuições de diversos estudiosos renomados. Paulo Freire, por exemplo, ressalta a importância crucial da leitura e escrita na transformação social. Rubem Alves destaca que a leitura serve como uma janela para o mundo, enquanto a escrita se manifesta como expressão pessoal e criativa. Além disso, Clarice Lispector aborda a escrita como uma ferramenta para a exploração interna e a autodescoberta. Essas perspectivas têm despertado a busca por uma compreensão mais profunda e expansiva desses conceitos ao longo dos anos.
Entretanto, a base dos conhecimentos em leitura e escrita está profundamente enraizada no cerne da educação. As pesquisadoras Ferreiro e Teberosky tiveram um impacto significativo no campo da alfabetização e contribuíram diretamente para o enriquecimento das perspectivas discutidas anteriormente, questionando e desafiando as abordagens tradicionais de ensino da leitura e escrita que vinham sendo utilizadas há séculos.
Ferreiro e Teberosky, a partir da década de 1980, ampliaram os entendimentos sobre a alfabetização com base em seus estudos sobre a psicogênese da língua escrita. As pesquisadoras forneceram uma compreensão mais profunda sobre os métodos pelos quais as crianças adquirem habilidades de leitura e escrita, considerando processos cognitivos e o desenvolvimento da linguagem (Ferreiro; Teberosky, 1986).
Os estudos sobre a psicogênese da língua escrita evidenciaram que as crianças constroem hipóteses e teorias próprias baseadas no sistema de escrita, não se limitando apenas à reprodução de letras e palavras. Ferreiro e Teberosky (1979) chamam a atenção de estudiosos, bem como de professores que trabalham com estudantes em processo de alfabetização, no sentido de que o conhecimento do sistema de escrita alfabético não é meramente transmitido pelo ambiente escolar ou pela professora. Ele surge a partir de um processo de transformação que o próprio aprendiz realiza em seus conhecimentos prévios sobre o sistema de escrita.
O processo de transformação envolve a integração das novas informações com as quais o aprendiz se depara, que não se encaixam nos seus conhecimentos pré-existentes. A compreensão é diversificada e abrangente do sistema de escrita alfabético e, é alcançada por meio dessa interação entre conhecimentos prévios e as novas informações.
Paulo Freire, o Patrono da Educação Brasileira, destaca a alfabetização como um processo libertador, pois é mais do que simplesmente decodificar palavras e letras, a alfabetização é ferramenta para conscientização e transformação social. Freire (1996) evidencia a importância de uma alfabetização que permita aos indivíduos lerem o mundo, antes da ler palavras, compreender suas realidades e se engajar na busca por mudanças.
Magda Soares, tem contribuído com os entendimentos do letramento. Ela enfatiza que o letramento vai além das habilidades básicas de ler e escrever, pois abrange as maneiras pelas quais a linguagem é usada em diferentes contextos sociais. A alfabetização é vista como uma prática cultural e sociocultural que fundamenta a participação ativa e crítica do indivíduo na sociedade (Soares, 1998).
Esses autores acima citados e suas contribuições reforçam o valor do letramento e da alfabetização na educação. Sendo a alfabetização o meio que os indivíduos adquirem as habilidades básicas de escrita e leitura, que lhes permitem acessar informações, comunicar-se e participar plenamente da sociedade. O letramento vai além das habilidades básicas de alfabetização; elas aqui são ampliadas para os usos sociais de ler e escrever em diferentes áreas da vida, como o engajamento cívico, o desenvolvimento do conhecimento e a interação com diferentes práticas culturais.
Ao desenvolver as habilidades de leitura e escrita para a compreensão social de forma crítica, o indivíduo será capaz de diferenciar e interpretar textos, expressar seus pensamentos de forma clara, coerente e crítica, analisar informações, argumentar e tomar decisões com autonomia. Estas competências são essenciais para formação de cidadãos autônomos, que possam participar ativamente na sociedade, contribuindo para a sua transformação, seja pessoal ou social.
Kleiman (2007) aborda os conceitos de alfabetização e letramento, destacando a importância de diferenciá-los. Ela menciona que alfabetizar é uma das práticas de letramento da sociedade, realizada pela instituição escolar. A autora também aponta que o letramento vai além do processo de aquisição dos fundamentos do código da língua escrita, abrangendo todas as práticas sociais que envolvem o uso da escrita. Ela enfatiza ainda a importância de a escola ser agência para letrar, afirmando que é nesse contexto que devem ser criados espaços para experimentar formas de participação nas práticas sociais letradas. Para a autora, o letramento deve ser o objetivo estruturante do trabalho educacional em cada ciclo, e não apenas nos primeiros anos de contato com a língua escrita.
Para conduzir a busca dos trabalhos relevantes sobre a temática, foram selecionadas duas bases de dados: o Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES e a Scientific Electronic Library Online - SciELO. Essa escolha metodológica é respaldada pela alta relevância e abrangência dessas bases no campo da educação.
As duas plataformas são amplamente utilizadas pela comunidade acadêmica nacional, fornecendo acesso a um vasto conjunto de trabalhos. Essas bases de dados oferecem uma rica seleção de publicações científicas, abrangendo diversas áreas do conhecimento e anunciando quais os assuntos tratados em cada artigo. Essa característica é imprescindível para a identificação daqueles trabalhos mais pertinentes ao escopo da pesquisa, proporcionando um direcionamento mais eficaz na busca de informações.
Percurso metodológico
A Revisão Sistemática da Literatura (RSL) como metodologia para alcançar os objetivos dessa pesquisa consideraram oito etapas para garantir a qualidade do trabalho, que são: 1. Delimitação da questão a ser pesquisada; 2. Escolher as fontes de dados; 3. Escolher as palavras-chave de busca; 4. Buscar e armazenar os resultados; 5. Seleção de artigos, sendo essa realizada por meio do título, do resumo e caso precise o texto todo, de acordo com critérios de inclusão e exclusão pré-estabelecidos; 6. Extração dos dados dos artigos selecionados; 7. Avaliação dos artigos; 8. Síntese e interpretação dos dados referentes aos estudos que contribuíram com a RSL, seguindo as orientações de Petticrew e Roberts (2006) e de Costa e Zoltowski (2014).
Para a realização da busca dos trabalhos analisados, empregou-se os descritores de duas maneiras: (a) ‘alfabetização AND conceito AND escrita AND leitura’; e (b) ‘letramento AND conceito AND escrita AND leitura’. Os descritores foram utilizados igualmente nas duas bases de dados: CAPES e SciELO, visando ampliar um número relevante para a construção da RSL, optou-se pelo recorte temporal de 2009 a maio de 2023.
Em continuidade ao processo de busca foram atribuídos quatro filtros em conjunto com os descritores nas bases da CAPES e SciELO, são eles: periódicos revisados por pares, acesso aberto, tipo de literatura artigo e idioma português. As consultas realizadas entre abril e maio de 2023, resultaram num total de 78 trabalhos inicialmente, representados na Tabela 1.
Com o propósito de conduzir a investigação proposta, o estudo englobou várias etapas de análises que consistiram em: examinar as 78 publicações, a fim de identificar e classificar primeiramente as produções duplicadas e consequentemente as elegíveis. Conforme especificados na Tabela 2.
A Tabela 2, apresenta a classificação dos artigos duplicados e elegíveis, por base de dados. Para a identificação dos artigos duplicados e garantir a integridade da análise, foram adotados critérios específicos. Os critérios utilizados para identificar e excluir os artigos duplicados das análises foram: o título, autor e ano de publicação. Esses critérios foram aplicados para remover quaisquer duplicações que pudessem comprometer os resultados da (RSL). Dessa forma, esse critério permitiu uma seleção mais precisa dos artigos elegíveis para análise, garantindo a exclusão de trabalhos duplicados e evitando a duplicação de informações na revisão sistemática.
Após a identificação dos 55 artigos elegíveis para análise, esses passaram por leituras dos títulos e dos resumos. E cada trabalho foi examinado de acordo com os critérios pré-estabelecidos e detalhados no Quadro 1:
Os critérios utilizados para inclusão se justificam:
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(a) Artigos que abordam as temáticas de alfabetização, letramento, escrita e leitura (com foco nos conceitos e entendimentos desses termos). Essa inclusão é relevante para compreender os conceitos-chave e os entendimentos relacionados ao letramento e à alfabetização, possibilitando uma análise aprofundada dessas áreas.
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(b) Já a seleção de artigos em língua portuguesa se justifica pela necessidade de acessar trabalhos desenvolvidos no contexto nacional e garantir a compreensão integral do conteúdo abordado. Conforme Morais (2012, p. 46), ao analisar o aprendizado da escrita alfabética, é essencial "tentar desvendar essa 'esfinge' que é a escrita alfabética e compreender o seu aprendizado, sempre na perspectiva de fazermos um ensino de alfabetização mais eficiente". Objetivando aprimorar as práticas de leitura na alfabetização e de escrita nos anos iniciais de alfabetização do Ensino Fundamental.
Os critérios utilizados para inclusão se justificam da seguinte forma:
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(a) Inclusão de artigos que abordam as temáticas de alfabetização, letramento, escrita e leitura, com foco nos conceitos e entendimentos desses termos. Isso é relevante para compreender os conceitos-chave e os entendimentos relacionados à alfabetização e letramento, possibilitando uma análise aprofundada dessas áreas.
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(b) Seleção de artigos em língua portuguesa para acessar trabalhos desenvolvidos no contexto nacional e garantir a compreensão integral do conteúdo abordado. Isso é importante para analisar o aprendizado da escrita alfabética na perspectiva do ensino de alfabetização mais eficiente nos anos iniciais do Ensino Fundamental.
As justificativas para os critérios de exclusão são:
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(a) Exclusão de artigos duplicados para evitar informações redundantes e garantir a integridade da análise com dados únicos e relevantes;
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(b) Exclusão de artigos que abordam vários tipos de alfabetização e letramentos, mas não se relacionam diretamente com os processos de aprender escrever e ler. Isso é importante para focar nos estudos que estão diretamente ligados à alfabetização e letramento no contexto da escrita e da leitura;
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(c) Exclusão de artigos que falam sobre alfabetização, letramento, ler e escrever, porém não abordam os conceitos e entendimentos das temáticas. Isso é feito para garantir que os artigos selecionados apresentem uma abordagem clara e aprofundada dos conceitos e entendimentos relacionados à alfabetização e letramento;
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(d) Consideração apenas de artigos publicados a partir de 2009 para garantir um corte temporal dos estudos analisados e refletir os avanços teóricos e metodológicos nessa área;
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(e) Exclusão de artigos sobre letramento em língua inglesa para direcionar a análise para os estudos relacionados aos processos de ler e escrever em português;
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(f) Exclusão de artigos de revisão sistemática e/ou revisões de literatura, pois a revisão sistemática atual busca identificar e analisar estudos originais que abordem os conceitos e entendimentos da alfabetização e letramento. Revisões anteriores já sintetizaram as evidências existentes;
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(g) Exclusão de artigos que faltam informações claras sobre os objetivos do trabalho, pois a ausência de objetivos compromete a compreensão da finalidade e dos resultados esperados do estudo.
Foram encontrados 07 (sete) estudos elegíveis respeitando as regras de incluir e excluir, conforme apresentados na Tabela 3.
Resultados da pesquisa: categorização dos estudos
Os estudos elegíveis foram categorizados de acordo com critérios pré-definidos, incluindo ano de publicação, descritores, tipo de pesquisa, tema e objetivos. As informações foram obtidas a partir dos resumos dos estudos, embora, em alguns casos, tenha sido necessário recorrer às conclusões ou ao texto completo para obter detalhes adicionais.
A Tabela 4 mostra a distribuição das produções por ano de publicação e base de dados. Com base nesses dados, pode-se inferir que foram selecionados um total de sete artigos, sendo quatro da base de dados da CAPES e três da base de dados da SciELO. Essa informação indica que a CAPES apresenta um maior número de produções relacionadas à temática em comparação com a SciELO. Essa diferença pode estar relacionada às características das bases, como a abrangência temática, a quantidade de periódicos indexados e o período de cobertura de cada uma. É importante notar que em alguns anos específicos, a CAPES publicou artigos enquanto a SciELO não, e vice-versa, conforme as normas pré-estabelecidas para esse estudo.
A Tabela 5 demonstra os resultados do levantamento de descritores por base de dados, esses foram classificados pelo título dos artigos. A categorização com base nos descritores presentes nos títulos demonstra a conexão direta entre o tema do estudo e, é bastante relevante para manter a consistência e a clareza da pesquisa.
A Tabela 5 apresenta a quantidade de descritores com base nos títulos que apareceram nos estudos, classificados por base de dados. O descritor composto ‘letramento e alfabetização’ foi o mais abordado na literatura acadêmica, com quatro estudos nas duas bases de dados. Esses termos são fundamentais para compreender os processos de leitura, escrita e interpretação de textos. Essa informação está alinhada aos objetivos e à problemática da revisão sistemática.
Os Quadros (2 e 3) a seguir classificam os estudos em duas categorias principais:
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Quadro 2 (Categoria 1) - Conceitos e entendimentos de alfabetização e letramento: composta por quatro artigos, essa categoria foca no conceito de letramento e nas práticas de alfabetização. Os estudos abordam diferentes perspectivas e aspectos relacionados ao letramento, incluindo sua relação com a alfabetização, suas dimensões discursiva e social, além de questões conceituais sobre alfabetização e letramento científico. Analisam práticas de alfabetizar em contextos educacionais, identificam desafios enfrentados pelos professores e buscam aprofundar a compreensão desses temas.
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Quadro 3 (Categoria 2) - Representações de letramento no contexto escolar: composta por três estudos, essa categoria explora a compreensão e o conhecimento dos professores sobre o letramento, assim como suas representações e concepções sobre o assunto. Os estudos destacam ainda a relevância do letramento em ambiente escolar.
As duas categorias elencadas abrangem os temas mais relevantes abordados nos estudos analisados. Essas informações resumem os resultados principais da pesquisa, destacando os descritores mais explorados e as principais categorias temáticas identificadas nos quadros a seguir.
Resultados e discussões
Categoria 1 – Conceitos e entendimentos de alfabetização e letramento, abordam definições de letramento e alfabetização, destacando suas diferentes concepções e perspectivas teóricas conforme apresentados nos artigos a serem descritos a seguir. Esta categoria é composta por quatro artigos (A1; A2, A3 e A4). Ressalta-se que a letra A significa artigo e a numeração seguinte a letra é o número do artigo, ou seja, A1 (artigo um) e assim sucessivamente.
O artigo A1, cuja temática tratada é ‘O conceito de letramento e as práticas de alfabetização’ explora diversas concepções sobre alfabetização e letramento, incluindo a abordagem baseada nas regras linguísticas, a ênfase no uso social da linguagem e a inserção dos estudantes nas práticas sociais da escrita e da leitura.
As autoras Kleiman (1995) e Soares (2004) destacam o letramento a uma prática social que vai além das capacidades de ler e escrever. No entanto, os autores Correa, Amorim e Cerdas (2018) ressaltam que as concepções conservadoras para alfabetizar ainda persistem e a implementação efetiva do letramento nas escolas é um desafio. Isso ocorre devido a ampliação dos significados de letramento, isto é, o termo tornou-se um imenso “guarda-chuva, sob o qual se abrigam diferentes perspectivas, nas práticas, o letramento não reverbera de modo efetivo no dia a dia da alfabetização e do ensino da leitura e da escrita, figurando mais como um discurso esvaziado de sentido” (Correa; Amorim; Cerdas, 2018, p. 265).
Devido à complexidade variada para definição de letramento, os autores do artigo A1 destacam também que em vez de ajudar a superar limitações no ensino da escrita, o letramento tem, paradoxalmente, reforçado a retomada de práticas tradicionais e fragmentadas, de tal forma que “novas palavras acabem tendo seus significados deslocados para a semântica mais conveniente à defesa de antigas práticas” (Correa; Amorim; Cerdas, 2018, p. 266). Para superar essas práticas limitantes é importante considerar as práticas culturais de leitura e escrita e evitar simplificações ao abordar a alfabetização e o letramento.
O artigo A2, cuja temática é ‘O conceito de letramento em questão: perspectiva discursiva da alfabetização’, destaca-se problemas na alfabetização, como repetência e dificuldades de aprendizagem, atribuídos a uma escola baseada em valores privilegiados.
Goulart (2014) destaca que na tentativa de utilizar o letramento para explicar a importância da escrita socialmente, tem levado à criação de dicotomias entre forma e sentido, técnica e conhecimento, individual e social, entre outros. Isso ocorre na tentativa de transformar o letramento em conteúdo, pois “o termo entra no circuito escolar, em que tudo precisa se tornar conteúdo - didatizável e mensurável -, esvaziando-se muitas vezes do sentido cultural, socialmente referenciado” (Goulart, 2014, p. 41).
As expressões como ‘alfabetizar letrando’ e ‘letrar alfabetizando’ foram evidenciadas, ressaltando a relevância de distinguir as dimensões de ensinar e aprender a escrita. Enfatiza-se a relação entre alfabetizar e letrar, com a compreensão de que o letramento abrange um aspecto mais amplo, englobando conhecimentos, habilidades e atitudes relacionadas ao uso da escrita de maneira funcional e crítica em contexto social.
A falta de entendimento dos conceitos de alfabetização e letramento limita a capacidade dos professores de ensinar a partir da perspectiva de ‘alfabetizar letrando’. É essencial abordar que alfabetizar letrando é considerar as práticas culturais de leitura e escrita, evitando simplificações, de modo em que os estudantes possam aprender a ler e escrever com a compreensão de que a escrita é usada no cotidiano, em situações reais do seu dia a dia; ao ler um livro ou ao interpretar uma mensagem ou um anúncio, o propósito é entender quais são suas funções e significados.
O artigo A3, aborda a temática ‘Alfabetização científica versus letramento científico’, investigando se as expressões ‘alfabetização científica e letramento científico’ são apenas sinônimos ou se são ou tem significados e desdobramentos diferentes. Nesse sentido, Bertoldi (2020) autor do trabalho identificou três explorações diferentes. Essas são apresentadas primeiramente pelos estudiosos: Chassot (2003) e Sasseron e De Carvalho (2011) que tratam esses dois termos como uma variação de denominação, isto é, são sinônimos, tem os mesmos significados, apontam para a mesma realidade.
Para Chassot (2003) e Sasseron e De Carvalho (2011) o emprego de alfabetização científica é utilizado para a vida dos estudantes e futuros cidadãos, de modo que esses possam ler o mundo criticamente, ou seja, os autores adotam a concepção freiriana. No entanto, Chassot (2003) também ressalta que a alfabetização científica deve ser usada para compreender a ciência. Ciência essa que deve ser conhecida e entendida por todos e não somente pela comunidade científica.
Na segunda abordagem apresentada por Gomes e Santos (2018), as expressões ‘alfabetização científica e letramento científico’ são conceitos diferentes. Os autores relacionam alfabetização científica com a habilidade de entender, aplicar e pensar de forma crítica sobre um determinado assunto utilizando a ‘linguagem científica’, para uma participação ativa e adequada nas atividades sociais e profissionais que necessitam de tal conhecimento. Já o letramento científico para os autores, está associado a como uma pessoa emprega o ‘conhecimento científico’ para seu aprimoramento pessoal e social, em situações práticas e nos diversos contextos, ou seja, como ela usa os conhecimentos para resolver problemas práticos e tomar decisões.
E por fim, o último grupo de autores: Cunha (2017), Davel (2017) e Santos (2007) em relação à terceira abordagem difere “alfabetização científica de letramento científico não por acreditarem que se trata de dois processos distintos, mas por negarem a pertinência da relação metafórica entre alfabetização e educação científica” (Goulart, 2020, p. 14). O grupo ressalta a relevância de valorizar os conhecimentos que os estudantes já têm e propõe a integração do ensino de ciência e de linguagem. Para isso, é preciso pensar na construção do conhecimento científico através da escrita, por meio de para práticas interdisciplinares na escola, integrando o ensino das ciências com o trabalho de língua materna (Goulart, 2020).
O artigo A4, aborda a temática ‘Alfabetização científica: questões para reflexão’ com o foco de que a expressão ‘scientific literacy’ é a interpretação de ‘alfabetização científica’ em um contexto específico, ou seja, “quando esta se referir à escrita e à leitura do texto científico e a tudo aquilo que envolver estas duas habilidades, como a construção de entendimento e a análise das informações. [...] a alfabetização científica está atrelada a própria língua” (Teixeira, 2013, p. 806).
Nesse sentido, Teixeira (2013) afirma que a alfabetização científica se interconecta com a alfabetização da língua de origem. No entanto, só a alfabetização na língua de origem é limitante. Já a alfabetização científica vai além dessa capacidade limitante, é a capacidade de ler, entender e analisar textos científicos. Assim, a alfabetização científica atinge um potencial de entendimento e uso crítico de informações e conhecimentos que podem ser interpretados em qualquer contexto.
Categoria 2 –Esta categoria é composta por três artigos (A5; A6 e A7) e abordam as ‘Representações de letramento no contexto escolar’, com destaque para o entendimento dos professores e a importância do letramento no contexto escolar.
O artigo A5, intitulado ‘Análise do conhecimento de professores atuantes no ensino fundamental acerca da linguagem escrita na perspectiva do letramento’, revela os pontos de vista de escrita e de letramento de professores do ensino fundamental, destacando a falta de compreensão adequada dos conceitos de alfabetização e letramento. E que devido essa incompreensão os professores têm dificuldades de “conduzirem o ensino/aprendizagem da língua portuguesa a partir da proposta de “alfabetizar letrando”, difundida nas diretrizes educacionais” (Berberian et al., 2013, p. 1640).
Evidencia-se a necessidade de formação continuada de professores para uma ação pedagógica efetiva do letramento, considerando “o aprofundamento teórico acerca da linguagem e de seus processos de apropriação e a materialização e sistematização de tais fundamentos no planejamento e na execução de atividades de sala de aula” (Berberian et al., 2013, p. 1640). Com vistas a promover uma prática pedagógica que perpassa os métodos tradicionais de alfabetização, isto é, do simples técnico da leitura e escrita, para a integração dos estudantes de forma ativa e crítica nas práticas sociais do letramento.
O artigo A6, tem como temática ‘Estudos de narrativas sobre memórias de alfabetização: algumas considerações sobre letramento e numeramento’. O artigo traz narrativas de professores sobre suas memórias de alfabetizar, destacando a visão de alfabetização como “um conjunto de habilidades a serem desenvolvidas progressivamente para atingir uma competência leitora e escrita ideal” (Kaufmann et al., 2015, p. 93). Destaca-se aqui que a compreensão de alfabetização descrita pelos professores está focada no domínio do código escrito, ou seja, não integrada com a dimensão social. Assim, é preciso compreender o letramento como uma prática discursiva e socialmente contextualizada.
O artigo A7, aborda a temática ‘Letramento para 'ler o mundo': a construção de um conceito socialmente situado no contexto escolar’. O artigo indica que o letramento é compreendido como um fenômeno que vai além da simples aquisição de habilidades básicas de leitura e escrita. E que os professores sabem conceitualmente a diferença entre alfabetização e letramento. No entanto, mesmo o letramento visualizado e internalizado pelos professores como leitura crítica de mundo, ao tentarem materializá-lo em sala de aula, os discursos apontaram para representações de letramento como decodificação e interpretação de textos (Da Silva, 2017).
É importante ressaltar que só saber ou internalizar os conceitos de letramento, não garante uma aplicação coerente e contextualizada nas elaborações e na condução de atividades pedagógicas. Isso quer dizer que há dificuldades dos professores de colocar em prática as concepções de letramento em atividades que contemplem uma leitura crítica e relevante para apropriação de saberes para a vida.
No contexto brasileiro, autores como Paulo Freire (1996), Kleiman (1995), Soares (1998) e Rojo (2004) contribuíram para a compreensão do letramento, relacionando-o à alfabetização, escolarização, práticas culturais e participação em diferentes contextos. Os documentos oficiais no Brasil adotaram a abordagem do letramento como aquisição de conhecimentos que contribuem para a estruturação do pensamento interdisciplinar, reconhecendo a importância das práticas socioculturais e históricas no ambiente escolar.
Em resumo, os artigos discutem os conceitos e entendimentos da alfabetização e do letramento, apontando para a importância de considerar as práticas sociais de leitura e escrita, a integração entre diferentes disciplinas e a formação adequada dos professores. Também destacam a necessidade de uma visão mais ampla do letramento como uma prática discursiva e socialmente contextualizada, indo além das habilidades individuais de leitura e escrita, no entanto para que se amplie o entendimento de letramento é preciso que para além das formações teóricas, crie-se ambientes que incentivem a inovação e a experimentação em práticas pedagógicas, de modo a permitir que os professores explorem novas abordagens e métodos de ensino da escrita e da leitura.
As lacunas e limitações encontradas nos artigos analisados, servem para aprimorar os estudos relacionados a alfabetização e ao letramento. Vale ressaltar, que os artigos foram analisados com a seguinte perspectiva: refletir sobre os conceitos e entendimentos da alfabetização e do letramento.
Os artigos contribuem para a compreensão dos conceitos de alfabetização e letramento, enfatizando sua dimensão social e que esses conceitos devem ir além do simples fato de ler e escrever. Isso foi evidenciado em toda parte fundamentada com a utilização de diversos estudiosos da temática já citados no decorrer do trabalho.
Com base nos estudos destacam-se que concepções conservadoras ainda persistem no ensino da escrita, como a decodificação e a formalidade da escrita. Nesse sentido, é preciso ampliar os entendimentos de como a escrita pode ser utilizada em contextos reais e significativos, para que assim sejam aplicados de forma prática nas escolas abordagens mais contemporâneas que promovam uma compreensão crítica e transformadora.
Considerações finais
Os resultados obtidos nesta análise mostram que existem diferentes concepções de alfabetização e letramento, que enfatizam aspectos distintos do processo de leitura e escrita. As concepções fundantes, da língua como instrumento de comunicação e da língua como discurso representam abordagens teóricas e pedagógicas que influenciam as práticas de ensino. E esses evidenciam tanto os avanços conquistados quanto os desafios a serem superados no âmbito educacional.
Uma das maneiras de enfrentar as concepções conservadoras, como discutido no artigo A1, é por meio da implementação de métodos pedagógicos que integrem práticas sociais da linguagem escrita desde as etapas iniciais da educação. Isso pode incluir projetos que incentivem os estudantes a aplicarem as habilidades de leitura e escrita em contextos relevantes para suas vidas, fortalecendo a compreensão de que a alfabetização vai além da simples decodificação. Mesmo em escolas com recursos limitados, os educadores podem recorrer a materiais didáticos criativos, histórias locais, arte e recursos digitais gratuitos para enriquecer a experiência de aprendizagem dos estudantes.
É importante evidenciar que as concepções tradicionais e por codificação dos processos de ler e escrever, podem ser transformadas a partir de entendimentos mais claros, das definições de letramento aplicáveis para o contexto da sala de aula, por meio de formações continuadas que objetivem a integração de práticas contemporâneas de letramento e alfabetização.
A discussão em torno da diferenciação entre alfabetização científica e letramento científico, apresentada na pesquisa reflete a complexidade desses termos e a importância de clarificar seus significados, tanto para entendimento, como para a conceituação dos mesmos e principalmente para orientar o ensino de ciência de maneira mais abrangente e como forma de letramento.
Os artigos A3 e A4 também trazem evidências de que há necessidade de um maior aprofundamento teórico para se chegar a uma compreensão mais completa dos conceitos de alfabetização científica e letramento científico e suas implicações educacionais. A criação de espaços de diálogo e desenvolvimento profissional destinados a discutir e explorar a relação entre esses termos, pode ajudar a estabelecer diretrizes claras para a integração do ensino de ciências, leitura e escrita de modo interdisciplinar, ou seja, interdependência entre a ciência e a linguagem.
A ausência de compreensão para empregar na prática os conceitos de letramento e alfabetização por parte dos professores, como enfatizado nos artigos A5 e A7, levanta uma preocupação substancial. Essa falta de entendimento pode resultar em práticas de ensino desatualizadas e ineficazes, limitando a capacidade dos educadores de adotar abordagens mais contemporâneas e integradoras. Assim, a formação profissional dos professores emerge como um componente essencial para promover uma prática pedagógica alinhada com as concepções modernas de letramento e alfabetização. Para isso, os programas de formações devem contemplar métodos inovadores, como a aprendizagem baseada em projetos, simulações de sala de aula com os professores no processo de formação, colaborações com profissionais experientes na área temática, para que sejam oportunizadas aos professores a internalização e aplicação dos conceitos de alfabetização e letramento de forma atualizada e prática para contextos da sala de aula.
Além disso, para alcançar uma visão mais ampla do letramento como prática socialmente contextualizada, como explorado no artigo A7, é vital explorar maneiras de envolver a comunidade e o ambiente local no processo educativo. A colaboração com pais, membros da comunidade e empresas locais pode fornecer recursos adicionais, permitindo projetos práticos e relevantes que promovam o letramento de maneira acessível.
Em resumo, os desafios identificados podem ser superados por meio de abordagens educacionais inovadoras que estimulem a integração de práticas sociais da linguagem escrita, a colaboração interdisciplinar, o fortalecimento dos programas de capacitação docente se mostra fundamental para garantir um ensino de qualidade e alinhado com as demandas da sociedade contemporânea.
Essas são algumas de tantas outras sugestões existentes que, ao serem aplicadas, podem criar um ambiente educacional mais significativo e equitativo, visando agregar a teoria com entendimentos mais claros e reflexivos, para a melhoria das práticas da alfabetização e do letramento, promovendo uma educação mais inclusiva, crítica e relevante para os desafios contemporâneos e propícios para superar as práticas de alfabetização que se limitam à decodificação de palavras.
Disponibilidade de dados de pesquisa
O conjunto de dados de apoio aos resultados deste estudo está publicado no próprio artigo.
Referências
- BERBERIAN, Ana Paula et al. Análise do conhecimento de professores atuantes no ensino fundamental acerca da linguagem escrita na perspectiva do letramento. Revista CEFAC, v. 15, p. 1635-1642, 2013.
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- CHASSOT, Attico. Alfabetização científica: uma possibilidade para a inclusão social. Revista brasileira de educação, p. 89-100, 2003.
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Editora responsável
Carla Karnoppi Vasques
