Open-access Por uma Escrita Escolar Outra: lições de João Guimarães Rosa

RESUMO

Com vistas a formular um horizonte reflexivo capaz de potencializar ideias outras acerca das práticas de escrita no domínio educacional, o estudo debruçou-se sobre alguns dos procedimentos escriturais de João Guimarães Rosa. Para tanto, focalizou-se, em um primeiro momento, a proposta constante de um conjunto de artigos de periódicos da área educacional sobre a escrita como experiência ético-estética. Em seguida, procedeu-se à análise dos meandros dos exercícios de escrita contidos nos Cadernos de Estudos do referido escritor. Nas considerações finais, tratou-se de advogar, com base nas lições rosianas, gestos partidários de um modo expansivo de levar a cabo a tarefa escritural no âmbito pedagógico.

Palavras-chave
Escrita; Educação; Experiência; João Guimarães Rosa

ABSTRACT

With the aim of formulating a reflective horizon capable of fostering alternative ideas on writing practices within the educational domain, this study examined some of João Guimarães Rosa’s writing procedures. To this end, it first focused on the proposal recurrently in a set of educational journal articles that address writing as an ethical-aesthetic experience. It then analyzed the intricacies of the writing exercises contained in the author’s Cadernos de Estudos (Study Notebooks). In the final considerations, based on Rosa’s lessons, the study advocates for gestures that endorse an expansive way of carrying out the writing task in the pedagogical sphere.

Keywords
Writing; Education; Experience; João Guimarães Rosa

Apresentação

Em entrevista concedida ao crítico literário Günter Lorenz, João Guimarães Rosa – doravante JGR – confidenciou: “No dia em que completar cem anos, publicarei um livro, meu romance mais importante: um dicionário. Talvez um pouco antes. E este fará as vezes de minha autobiografia” (Rosa apud Lorenz, 1973, p. 85).

A declaração do escritor insta-nos a reconhecer aspectos fulcrais do ato de escrever concernentes mais à processualidade operacional aí implicada do que aos resultados que dela derivam na forma de obras.

JGR foi responsável por experimentos literários ancorados em um olhar tão delicado quanto obstinado sobre os acontecimentos ao seu redor, redundando em um estilo inconfundível. Em carta de 9 de fevereiro de 1965, endereçada ao tradutor de suas obras para o alemão, o escritor assim descreveu sua lida:

Apenas sou incorrigivelmente pelo melhorar e aperfeiçoar, sem descanso, em ação repetida, dorida, feroz, sem cessar, até ao último momento, a todo custo. Faço isso com os meus livros. Neles, não há nem um momento de inércia. Nenhuma preguiça! Tudo é retrabalhado, repensado, calculado, rezado, refiltrado, refervido, recongelado, descongelado, purgado e reengrossado, outra vez filtrado. Agora, por exemplo, estou refazendo, pela 23ª vez, uma noveleta. E, cada uma dessas vezes, foi uma tremenda aventura e uma exaustiva ação de laboratório

(Rosa, 2003, p. 234, grifo do autor).

No intuito de descrever e analisar alguns dos procedimentos escriturais de JGR, o presente estudo elegeu como fonte empírica os Cadernos de Estudos do autor, os quais consistem em uma série de anotações produzidas durante as duas décadas finais de vida do escritor, e que funcionaram como um laboratório de pesquisas, fabulações e experimentos linguísticos de diferentes ordens. Além de evidenciar o modus operandi peculiar de JGR, os dados ali contidos revelam-se surpreendentes, já que, presume-se, pouco conhecidos pelo público leitor.

Ao enveredar pelo universo operacional rosiano, ambicionou-se formular um horizonte reflexivo capaz de potencializar ideias outras acerca das práticas de escrita no domínio educacional. Mais especificamente, o estudo visou, em um primeiro momento, visitar a produção acadêmico-educacional brasileira no que se refere às discussões acumuladas sobre escrita como experiência ético-estética, para, em seguida, adentrar a materialidade dos exercícios contidos nos Cadernos de Estudos de JGR. A título de encaminhamentos finais, tocou-nos imaginar gestos partidários de um modo expansivo de levar a cabo a experiência escritural no quadrante escolar.

A Escrita sob a Ótica Educacional

A discursividade educacional acerca das práticas escriturais no âmbito educacional porta uma ampla gama de olhares, configurando abordagens que recobrem desde aspectos metodológicos até aqueles de cunho filosófico. Nesse último caso, trata-se de um conjunto de estudos que visaram pensar a escrita na perspectiva da experiência, concebendo-a como uma prática ético-estética que atravessa e ultrapassa a esfera escolar, em contraste com o enfoque pragmatista, dominante na discursividade em tela.

Na trilha da segunda perspectiva, realizou-se um levantamento de artigos em cujas palavras-chave e resumos figuravam os termos escrita e experiência, publicados entre 2001 e 2021 em 35 periódicos situados nos estratos A1, A2 e A3 do Qualis periódicos, segundo a classificação do quadriênio 2017-2020.

Os periódicos que abrigaram tais artigos foram: Atos de Pesquisa em Educação; Currículo Sem Fronteiras; Debates em Educação; Eccos; Em Aberto; Educação (PUCRS); Educação (UFSM); Educação & Realidade; Educação a Distância (UFSC); Educação e Cultura Contemporânea; Educação e Pesquisa; Educação em Foco (UFJF); Educação Temática Digital; Educação Unisinos; Interfaces da Educação; Inter-Ação; Linhas Críticas; Linguagens, Educação e Sociedade; Perspectiva; Práxis Educativa; Pro-posições; Revista Brasileira de Educação; Revista Cocar; Revista de Educação, Ciência e Cultura; Revista de Educação Pública; Revista Eletrônica de Educação; Revista Entreideias: Educação, Cultura e Sociedade; Revista Espaço Pedagógico; Revista Linhas; Revista Teias; Roteiro; Série-Estudos.

A ideia de experiência escritural perfaz-se, nos textos mobilizados, atrelada a uma lista de verbos característicos: tecer, decifrar, recolher, ensaiar, existir, fabular, estilizar, sobreviver, ficcionar, atravessar, inventar, montar, criançar, desdobrar, equipar etc. Por exemplo, a lida escritural pode ser tomada como decifração de rastros e recolha de restos (Gagnebin, 2016), como ensaio (Larrosa, 2003), como montagem (Rodrigues; Schuler, 2019), como produção de clarões (Oliveira, 2015), como ornitorrincação (Costa; Cunha, 2018), como escrileitura (Souza; Monteiro, 2020) ou como modo de vida (Aquino, 2011). O autor mais referenciado nos artigos destacados foi Michel Foucault, seguido por Gilles Deleuze, além de Roland Barthes, Maurice Blanchot, Walter Benjamin, Georges Didi-Huberman e Sandra Mara Corazza.

Uma primeira ramificação de tais estudos é a dos textos voltados à articulação entre escrita, experiência e corpo, quase sempre relacionada com o teatro. O estudo de Sarrazac (2005), por exemplo, compartilhou a experiência de uma oficina de escrita que teve como intuito induzir uma perspectiva estética no campo teatral. Valendo-se de procedimento semelhante, Farina e Albernaz (2009) teceram questões relacionadas entre o corpo como campo de investigação e o modo de articular experiências estéticas e conceituais com o trabalho escritural. Mossi (2015), por sua vez, ao se dedicar à ideia de corpo polifônico, focalizou a ideia de escrileitura formulada por Sandra Mara Corazza (2008) para afirmar a relevância das instâncias escriturais no refazimento da relação corpo/mente.

Uma noção frequentemente utilizada é a de escrita de si, quase sempre derivada do pensamento foucaultiano, sendo associada por vezes a insights psicanalíticos para abordar o tema da morte nas escolas – é o caso do estudo de Mascia e Silva (2014) – e em pesquisas desenvolvidas no contexto dos sistemas prisionais, como em Câmara (2011) e Stecanela e Craidy (2012). Também Alcântara e Icle (2014) levantaram a questão do papel da escrita na formação de professores, baseando-se em diários de ator e de professor, para estabelecer uma analogia entre o processo de criação artística e a criação da própria existência.

Um segundo enquadramento dos artigos refere-se àqueles que se debruçaram sobre a escrita no meio universitário. Vallera e Paz (2014) desenvolveram reflexões sobre os bloqueios históricos que permeiam a escrita acadêmica, os quais seriam oriundos das noções de polícia e gênio deslocadas, respectivamente, para as noções de sábio e aprendiz na educação, tendo como saldo o medo e a solidão que rondam a prática escritural nesse quadrante.

Destacamos, na sequência, uma amostra de artigos que se dedicaram a levantar hipóteses com vistas a um outro modo de conceber e operar a escrita, ainda no âmbito universitário. O primeiro refere-se o texto de Jorge Ramos do Ó (2021), em que o autor focaliza a prática do seminário no cotidiano universitário, sugerindo que a escrita ocupe um lugar primordial entre os afazeres deste.

Outra experiência de escrita provém do artigo de Rodrigues e Schuler (2019), no qual é evocada a ideia de montagem. Após perscrutarem a produção de Georges Didi-Huberman – incluindo seus estudos sobre o Atlas Mnemosyne de Aby Warburg, o colecionismo de Walter Benjamin e o movimento imagético do cinema produzido por Sergei Eisenstein e por Jean-Luc Godard –, o pesquisador e a pesquisadora tomaram a montagem como um procedimento filosófico possível para pensar a diferença em oposição a qualquer perspectiva totalizante ou universal da experiência da escrita, sendo ela mais afeita ao campo da criação e do refazimento.

A noção de escrita de si, recorrente entre os estudos, geralmente se justapõe à acepção de estilização de um modo de existir. É o que consta do artigo sobre cinema e pesquisa em educação a cargo de Saraiva e Fischer (2020). Ali, a questão da escrita é tratada pela via das criações fílmicas de Alfred Hitchcock, Abbas Kiarostami e Agnès Varda.

Valendo do diálogo com Theodor Adorno e María Zambrano para sustentar sua defesa da forma ensaística, Larrosa (2003, p. 107) afirmou: “O ensaísta é um leitor que escreve e um escritor que lê [...]. Também me parece que se poderia dizer que o intelectual é alguém que escreve sobre uma mesa repleta de livros: escritor que lê”. Em direção semelhante, Adó e Musseta (2020) acentuaram a importância da ideia de ficção para fomentar uma escrita que potencialize a multiplicidade e a diferença como efeitos práticos do gesto escritural. Ancorados nos trabalhos dos argentinos Jorge Luis Borges e Ricardo Piglia, afirmaram: “Propongo una escritura académica que se muestre atravesada por la experiencia, para volverse performativamente experencial” (Adó; Musseta; 2020, p. 273).

Também entre os estudos que se devotaram a discutir a escrita no campo universitário está o artigo a cargo de Costa e Cunha (2018). A pesquisa ali relatada interessa na medida em que se debruça sobre o ato escritural no cerne da formação de futuros professores, por meio da experimentação de um modo diferente de escrever, canônico a princípio, mas utilizado por eles ao avesso. Inspirados pela ideia de enciclopédia e pelos procedimentos iluministas de Denis Diderot e Jean d’Alembert, mas sem se valerem dos seus pressupostos racionalistas e humanistas, propuseram aos(as) licenciandos(as) da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul a montagem de um dicionário que pudesse apreender deslocamentos discursivos a respeito do ser professor.

Entre os artigos sobre a escrita na ambiência escolar mais ampla está aquele a cargo de Garcia e Aquino (2020), em que se defende a ideia de que o tratamento pedagógico da escrita a reboque dos ditos grandes escritores resultaria em uma espécie de assombro espraiado entre os protagonistas escolares. Os autores concluíram que “[...] estaríamos todos – ligados ao universo educacional, ou não – crivados pelo temor de escrever. Temor reverencial aos escritores, é fato, ou ao que deles se fez [...]. Temor de sua erudição, de sua inventividade, de sua potência novidadeira” (Garcia; Aquino, 2020, p. 15).

Na esteira das reflexões que subsidiaram o presente estudo, destacam-se, igualmente, os artigos de Schuler (2017) e de Aquino (2011). No primeiro, a pesquisadora dedicou-se a estudar como a escrita se dá na escolarização e os deslocamentos dos modos de existência implicados nesse processo. Valendo-se do pensamento foucaultiano com vista à reflexão sobre a ética de si e tendo, portanto, a escrita como prática transformadora dos modos de vida, a autora mobilizou as proposições sobre os temas da ficção e das técnicas de si presentes nos estudos do pensador francês, entrelaçando-as a uma forma de conceber a escrita escolar como um gesto que diz do mundo, sem o intento de representá-lo: “Uma escrita como experiência que poderia atravessar microfisicamente os modos de pensamento e existência. Escrever não para contar de si, mas para compor-se. Escritas como encontros, eventos que deixam rastros” (Schuler, 2017, p. 240).

O segundo artigo ganha peso para a presente discussão por conter interpelações a três argumentos recorrentes sobre a prática escritural no cotidiano escolar: “[...] sua categorização segundo gêneros, sua função examinatória e sua subordinação à leitura” (Aquino, 2011, p. 641). Aquino sugere modos de escrita concomitantes ao ato de criação: a escrita-combate, a escrita-arrebentação e a escrita-artista, esta última ancorada nas proposições de Corazza (2006). Trata-se de posicionamento pautado em um minimalismo afeito ao labor contemplativo e escultural da palavra, almejando não o acúmulo, tanto menos a saturação, mas seu refazimento perene.

Tendo a escrita-experiência como norte, enveredemos pela empiria eleita.

Os Cadernos de Rosa

Na décima segunda página do 18° Caderno de Estudos de JGR, há uma folha timbrada do Ministério das Relações Exteriores datada de 2 de novembro de 1940. A ferrugem de um clipe e as manchas emboloradas na tessitura do vestígio fazem companhia ao gesto de escrita operado ali. Trata-se de um flagrante do cotidiano capturado pelo autor durante uma visita ao zoológico de Hagembeck, na Alemanha, em um sábado friorento, em que o literato anotou com uma caneta esferográfica azul que havia acariciado a testa de uma senhora rinoceronte.

A folha anexada ao Caderno de estudos – um modelo escolar, cuja capa verde traz três informações manuscritas feitas a lápis grafite, respectivamente: aluno – J. Guimarães Rosa; escola – geral; e o campo classe, rasurado – compõe um dos 27 Cadernos sob a guarda do Instituto Brasileiro de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP), desde 1973. É sobre esses registros que o presente artigo se debruçará a partir de agora.

Por meio de composições curtas, geralmente de uma única linha e às vezes em ordem alfabética, JGR anotava e listava tudo o que irrompia diante de si: vocábulos, frases e expressões em dicionários, passagens de enciclopédias, catálogos, conversas, notícias etc. Esse exercício, feito linha após linha, resultou em centenas de páginas distribuídas pelos 27 Cadernos de Estudos do escritor. Trata-se de um inventário fabulado que servia de base para as construções literárias posteriores – quando alguma composição era selecionada, JGR a grifava, muitas vezes à lápis (grafite ou colorido) e anotava ao lado qual seria o seu conto ou romance de destino.

Destaca-se também o labor arquivístico dos Cadernos e a obstinação rosiana por documentar e pesquisar aquilo que o cercava, principalmente em viagens, passeios e visitas – de museus, passando por restaurantes, jardins, até zoológicos. A escrita, em suma, como testemunha e, ao mesmo tempo, alargamento do mundo.

O imenso acervo de JGR no IEB foi organizado pela primeira vez em 1979. Atualmente, o material está organizado em dez séries contendo diferentes documentos1. As séries são: Atividades Profissionais (232 documentos); Correspondência (2045 documentos); Documentação Póstuma (623 documentos); Formação (5 documentos); Fotografias (183 documentos); Identidade Civil (9 documentos); Literatura (3991 documentos); Relações Sociais (78 documentos); Universo de Interesses (2426 documentos); Vida Doméstica e Familiar (212 documentos).

A maioria delas é dividida em categorias, e nos chama a atenção a prevalência da categoria outros, dando a ver a dificuldade de sistematizar aquilo que o autor produziu ao longo de sua vida. O pesquisador Frederico Antonio Camillo Camargo (2013) informa que, mesmo antes de o IEB adquirir os materiais, os documentos eram arquivados em pastas de cartolina e, em sua maioria, identificados pelo próprio escritor.

Foi transitando entre os documentos do referido acervo que nos deparamos com os Cadernos de Estudos de JGR. Alocados na categoria Estudos para Obras, o conjunto documental possui um arco temporal de difícil delimitação, dadas as raras aparições de datas nas páginas. Daquilo que foi possível observar e coletar de informação junto ao IEB, os Cadernos foram escritos entre 1950 e 1963, variando entre cadernos de brochura ou de espiral e blocos de papéis grampeados. Em virtude do desgaste do tempo, alguns apresentam rasgos, grampos enferrujados e folhas soltas, o que obrigou os(as) pesquisadores(as) do IEB a digitalizá-los. Nas páginas dos Cadernos, além das listas e dos estudos escritos a lápis e à caneta (de cores diversas), aparecem colagens de papéis recortados e pequenas ilustrações.

Por meio do contato com os Cadernos, é possível flagrar alguns procedimentos utilizados por JGR durante suas anotações, derivados do hábito da acumulação das listas, além de haver nesses documentos a imbricação de outras práticas taxonômicas variando entre a enciclopédia e o dicionário. Se estava na Itália, por exemplo, o escritor incluía uma série de anotações sobre filmes italianos, nomes femininos italianos, provérbios italianos, vegetação típica italiana etc.

A abordagem inicial do lócus empírico da presente pesquisa deu-se por meio da leitura das descrições de cada Caderno, formuladas pela equipe de pesquisadores(as) do IEB e inseridas no catálogo on-line da instituição. Posteriormente, foram realizadas visitas ao acervo físico para a leitura na íntegra de cada item, bem como o mapeamento das temáticas e dos recursos taxonômicos mais utilizados pelo escritor. Os 27 Cadernos foram lidos página por página.

A vastidão do vocabulário do escritor, oriunda de sua curiosidade sobre as coisas do mundo, é um dado marcante de seus livros. É vertiginosa a imersão em seus Cadernos. No hercúleo trabalho O léxico de Guimarães Rosa, Nilce Sant’Anna Martins (2020) conseguiu reunir cerca de 8.000 vocábulos coletados nas obras do autor de Grande Sertão: Veredas e caracterizados por uma expressividade particular, totalizando – segundo ela, 8,4% das 100.000 palavras do Novo Dicionário Aurélio (1. ed). Os vocábulos abarcam

[...] neologismos, arcaísmos ou vocábulos arcaizantes, empréstimos, onomatopeias, palavras populares, regionais ou eruditas [...]. Quanto aos nomes botânicos e zoológicos, pensei, a princípio, em apenas arrolá-los num apêndice, mas depois achei mais conveniente incluí-los no corpo do vocabulário, com as respectivas abonações, pois muitas delas são de alto teor poético

(Martins, 2020, p. 12).

Antes de adentrarmos o material, é importante destacar que o procedimento por nós adotado deu-se por um viés ancorado na ideia de arquivo, segundo o prisma foucaultiano. No Vocabulário de Foucault, organizado por Edgardo Castro e no qual foram reunidos cerca de 300 verbetes de modo a abarcar toda a trajetória do pensamento de Foucault, lê-se que arquivo descreve o

[...] sistema das condições históricas de possibilidade dos enunciados. Com efeito, os enunciados, considerados como acontecimentos discursivos, não são nem a mera transcrição do pensamento em discurso, nem apenas o jogo das circunstâncias. Os enunciados como acontecimentos possuem uma regularidade que lhes é própria, que rege sua formação e suas transformações

(Castro, 2009, p. 43).

De natureza fragmentária, o arquivo conclama procedimentos ancorados de uma perspectiva arqueogenealógica, mirando difusividades, instabilidades e lacunas nas mais diversas fontes. Para tanto, projetam-se mapas por meio das marcas e dos ruídos observados nas superfícies das inscrições do tempo. Nessa perspectiva, é indispensável evocar o trabalho de Arlette Farge (2009). Segundo ela, é de uma complexa desordem e de uma difícil retenção do que ali acontece que a lida com o arquivo se faz.

Inspiramo-nos também na ideia de atlas oferecida por Georges Didi-Huberman (2018) para estabelecer como hipótese que, quando trabalhada em consonância com o arquivo, a escrita se deslocaria para um espaço de reinvenção, reclamando a companhia de matérias já produzidas em outros tempos.

Outro ponto crucial destaca-se para dispormos o solo teórico deste estudo. No prefácio de As palavras e as coisas (Foucault, 1985), publicado originalmente em 1966, o autor mobilizou ideias pertinentes à prática classificatória, compartilhando os efeitos de leitura oriundos de um texto de Jorge Luis Borges. A inquietação do pensador marcou sua atitude crítica em relação aos sistemas de classificação, tendo em vista a arbitrariedade de toda e qualquer tentativa de delimitação totalizante das coisas –classificadas de modo contingente ou, no limite, inclassificáveis.

Pensando o aspecto indeterminado característico da escrita, também nos chamou a atenção esse outro gesto ainda mais infindável que o acompanha na mesma direção: o taxonômico. O que se pretende ao se erigir a díade taxonomia-arquivo é o abalo de certa ordem, já que tudo aquilo que se tenta classificar tende ao abismo e à dispersão caótica. Em linhas gerais: descrever, classificar, inventariar etc. são exercícios de potencial inventivo, os quais implicam um contraste entre a exaustividade e a perplexidade.

Maria Ester Maciel, em As ironias da ordem: coleções, inventários e enciclopédias ficcionais, apresenta as incursões investigativas voltadas aos questionamentos sobre “[...] a arbitrariedade dos sistemas de organização legitimados pela racionalidade ocidental” (Maciel, 2010, p. 11). Em diálogo com o prefácio de Michel Foucault para o livro As palavras e as coisas, a pesquisadora enfatizou a importância da diferença e variação para a perpétua reformulação das práticas taxonômicas.

A autora voltou-se para escritores e artistas a fim de analisar os efeitos de tais práticas em suas produções. Citemos alguns nomes: Peter Greenaway, Italo Calvino, Carlos Drummond de Andrade, Haroldo de Campos, Arthur Bispo do Rosário e Jorge Luis Borges. Entre os efeitos escriturais próprios da classificação: listas, coleções, enciclopédias e inventários. Destacamos também a relevância teórica do trabalho levado a cabo por Maciel ao retomar estudos históricos sobre enciclopedistas e estudiosos da taxonomia. A autora contribuiu, ainda, com estudos sobre os bestiários medievais oriundos da relação da lógica medieval com a natureza, permeados pelo imaginário da época. Soma-se à materialidade estudada a vasta quantidade de relatos sobre as monstruosidades animalescas dos séculos XV ao XVII.

Acrescentemos também à discussão teórica outra reflexão sobre o obstinado gesto de tentar capturar rastros, restos e vestígios. Aquino e Val (2018) evocaram o trabalho de uma recomposição tradutória ao tratar da noção de arquivo – avesso à díade patrimônio-memória e filiado à imaginação, tal como o labor taxonômico. Os pesquisadores assim escreveram:

Na perspectiva foucaultiana, mais do que a materialidade, a função catalogadora e a lógica da seleção dos materiais selecionados, o que se destaca no arquivo são os embates concretos das forças vitais que reverberam para além do seu encerramento nos documentos; embates que têm o condão de nos interceptar de infinitas maneiras. O arquivo, portanto, como murmúrio perpétuo

(Aquino; Val, 2018, p. 51).

Somam-se, por fim, as proposições de Campesato, Rodrigues e Schuler (2022) sobre modos outros de montagem do pensamento. Ao olhar para as práticas escriturais observadas por Foucault, o pesquisador e a pesquisadora evocaram a possibilidade de uma abertura estética ao mundo por meio dos expedientes de recolher e colecionar. O caráter inesgotável e incessante da escrita evocaria não só a montagem, mas também o recorte, a colagem e a edição.

Ainda e por fim, ao pensarmos somente no arranjo de referências que cada composição textual carrega: “[...] o que é uma bibliografia senão o modelo de uma autobiografia, um scrap-book, uma coletânea de lembranças, um bilhete de trem, tíquetes de museu, programa de espetáculo, cartões de convite, flores secas: inventários dos ícones do autor” (Compagnon, 2007, p. 113).

Imprecisão, o olhar desavisado, murmúrios e lacunas. Entre a pulsão taxonômica e o labirinto, uma ode à instabilidade.

O Acento Taxonômico do Procedimento Rosiano

No espólio de JGR organizado pelo IEB, há uma categoria inserida na série Literatura e intitulada Estudos para Obra. Ali foi armazenado um conjunto de 358 registros, composto, em sua maior parte, por folhas datilografadas soltas. Nelas, foi possível observar a ocorrência de 46 tipos de listas, por exemplo: palavras para evitar e para empregar; cores de chapéu; pratos e doces portugueses; nomes de flores, árvores e arbustos; pássaros observados em abril de 1940; obras ganhadoras do Prêmio Goncourt; adivinhas; contos; e perguntas para o veterinário de sua gata. O exercício de listar, comumente praticado por JGR, atinge seu ápice em outro agrupamento: os Cadernos de Estudos.

No ensaio As listas de palavras que compõe o livro Mínima mímica: ensaios sobre Guimarães Rosa, a pesquisadora Walnice Nogueira Galvão (2008) analisou uma amostra do conjunto de arquivos manuscritos e datilografados que JGR reuniu ao longo da vida, primordialmente em seus Cadernos. Caracterizado pela escrita de listas de palavras e de locuções variadas, esse conjunto textual configura parte do método de trabalho adotado por JGR precedente à escrita de suas obras, mas não isolado dela.

Com estudos dedicados à produção rosiana desde a década de 1970, Galvão debruçou-se sobre toda a criação literária do escritor e atestou que ele se valia permanentemente das listas para elaborar um estoque de palavras, quase sempre raras, seguindo quatro tipos de procedimentos: 1) seleção; 2) intervenção por meio do resumo dos verbetes; 3) indicação das diferentes possibilidades de uso dos verbetes; 4) criação. Tais operações, segundo a pesquisadora, fariam de JGR um autor

[...] para quem tem o sestro de compulsar enciclopédias nas horas vagas. Ou gosta de trava-línguas, charadas, parlendas e outros jogos verbais. Ou coleciona velhos dicionários, ao lado de outros extravagantes, que vão desde os de termos chulos até os de astequismos, argot ou lunfardo

(Galvão, 2006, p. 146-147).

O recurso empregado pelo escritor denota sua produtividade inventiva mediante, de um lado, aquilo que se passava em seu cotidiano e, de outro, um olhar demorado sobre os acontecimentos em curso. Tal disposição investigativa desembocaria no incessante trabalho rosiano de formular listas de elaborações linguísticas e literárias, muitas vezes em formato de verbetes de dicionário, e na montagem de listas onomásticas. É interessante notar também que as anotações eram escritas e depois revisadas com marcações feitas a lápis de cor, variando entre as cores azul, vermelho e verde; outras vezes, com lápis grafite e canetas azul e preta.

Camargo (2013) destacou o caráter enciclopédico do acervo rosiano, conectando-o a uma poética do inclassificável, de acordo com duas tendências: uma horizontal que “[...] corresponderia a uma tentativa de se obter informações sobre o maior número de áreas do conhecimento possível, senão todas”, e outra vertical marcando “[...] um desejo de tudo conhecer aliado à ambição de conhecer o máximo de tudo” (Camargo, 2013, p. 189-190).

Uma observação necessária: todas as elaborações sobre palavras, expressões, vocabulários e frases presentes nos Cadernos são acompanhadas do símbolo m%, e sua grafia varia de um registro para o outro aparece com letra maiúscula em alguns casos, minúscula em outros. O símbolo aparece acompanhado, às vezes, por - ou = ou ainda por parêntese, portando diferentes significados práticos para o autor. De nossa parte, optamos por não transcrever todas as incidências do m% nas citações deste artigo por se tratar de uma característica dos Cadernos como um todo.

As listas de JGR constituíam material de composição usual. Por exemplo, no Caderno 1, além de estudos sobre mitologia, vocabulário cigano, elementos químicos, pinturas, cores e arquitetura, consta uma espécie de dicionário zoográfico contendo verbetes e seus respectivos significados referentes a diversas espécies de animais (bois, aves, cavalos, onças, gatos, borboletas), seguidos da criação de enunciados afins:

Quebrar-d’Asa: diz-se da ave que bruscamente muda de direção do voo (p. 7)

Borboleta é o que é belo e foge do chão (p. 11)

Em ameaça de grande chuva, gavião não quer estar longe de seu par (p. 17)

CAPELÃO = macaco chefe de bando? (p. 18)

No Caderno 4 está uma das maiores partes do inventário linguístico rosiano. Camargo (2013) atestou que desse caderno foram retiradas expressões utilizadas posteriormente nos livros Tutameia e Estas Estórias. Eis uma amostra da profusão escritural de JGR:

a serpente espasmórdica
Calei-me e vir. (Fim de C.)
As almas também dão fuligem
o burrinho estudava o passo (ou o homem)
suas orelhas lantejoulas
é um nunca começar de alegria
um casal de não namorados.
os grilos, críticos
a estrela pintassilga [...]
o verbo rangia
a lua, excrescente
ele vivia copiando alguma sua caricatura
devendo todos os dízimos [...]
de mimosa miopia [...]
desmembrou-se em sete filhos
não podemos ser afluentes do Nada
morreu pouco impaírido (fim de C.)
Abril veio num navio; ela dentro [...]
(JGR-Caderno 04, p. 27).

O caráter arbitrário das elaborações criadas por JGR durante seus estudos toma assento em diferentes partes dos Cadernos. Diferentemente de outros gestos taxonômicos empregados por ele, as listas de composições linguístico-literárias muitas vezes não apresentavam um tema específico. Camargo (2013) elaborou um pequeno levantamento dessa variedade investigativa, com base na leitura do Caderno 5, presente também no Caderno 17:

ouvindo o vento soprante (p. 1)

num queixume auspicioso (p. 12)

as terrestres verdades da guerra (p. 14)

e chorou, como se por dinheiro perdido (p. 20)

uma agulha todo o tempo aguça-se (p. 25)

nos sete e setenta suspiros (p. 36)

e botou o sapateiro dentro do sapato (p. 44)

empregou-se na inveja (p. 53)

(JGR-Caderno 17).

A ausência de temas específicos na montagem do inventário rosiano reforça um desígnio não cumulativo por parte do escritor. Para JGR, colecionar palavras, frases e imagens era um labor inerente à escrita. O inventário era seu espaço de operação, sua dispensa de mantimentos, por assim dizer, indispensável para a prática de experimentação com a língua.

Nos Cadernos, a experiência rosiana de colecionar aproxima-se de outros gestos taxonômicos. Podemos mencionar a aparição frequente das listas e do impulso enciclopédico (Maciel, 2010) que permeia os estudos do escritor. No que tange à coleção e à enciclopédia, ambas apresentam afinidades, porém destoam em suas finalidades: “Se a enciclopédia abre-se ao incontrolável e transborda os limites de sua própria ordem, a coleção se constitui graças aos limites de sua circunscrição” (Maciel, 2010, p. 26). Soma-se, ainda, o intento de colocar ordem naquilo que se apresentava de modo disperso, de reunir coisas que, em princípio, estavam apartadas – prática adotada anteriormente, do ponto de vista histórico, principalmente no ápice dos Gabinetes de Curiosidades.

Em pelo menos oito Cadernos (2, 3, 8, 14, 15, 16, 18 e 19) o recurso enciclopédico foi empreendido com exaustão. Alguns dos temas mobilizados: indígenas; legendas de caminhão; nomes diferentes; espécies de animais; profissões incomuns; plantas; nomes ciganos; palavras árabes; e expressões populares. Além das listas, JGR tomava notas sobre provérbios; sinonímia; catecismo; mitologia; onomatopeias; elementos químicos; espécies de rosas; palavras formadas a partir do sânscrito; vestuários; abelhas; expressões de vaqueiros; árvores; cores de cavalo; tipos de nado; igrejas; nomes hindus; superstições; fenômenos físicos e químicos; macacos; morcegos; antas; fenômenos climáticos; tecidos escoceses; reis europeus; e boiadas.

Em um de seus Cadernos, o de número 26, JGR montou uma lista de notícias jornalísticas sobre animais no período de 12 de julho a 31 de dezembro do ano em que foi elaborado. Esse caderno encontra-se em situação irregular, com as 61 primeiras páginas cortadas. A listagem, organizada em formato de tabela, traz as informações sobre data, localidade, jornal e título da notícia recolhida. Em outros Cadernos, a temática animal repete-se em alguns momentos, sendo acompanhada pelo exercício das pequenas elaborações antecipadas pelo m%, como “amarelo, a cor favorita das borboletas”, “os passarinhos capricham na ingenuidade” ou “o gemer dos peixes” (JGR-Caderno 9, p. 12-13).

Em outras passagens, o escritor se dedicou a fazer breves anotações com base em pesquisas feitas em enciclopédias, revistas e livros especializados nos estudos das espécies: “Pássaro-preto (cassidiy oryzivora): cor toda preta com listras os (especiosos resplandecentes) reflexos – azul-aço, violeta e óleo. A fêmea é menos brilhante e muito menor de tamanho. Grandes bandos. Estragam cachos de bananas” (JGR-Caderno 9, p. 5).

No Caderno 24, JGR iniciou um pequeno inventário sobre aves de todos os tipos, com anotações sobre seus nomes científicos, suas plumagens, tipos de ninho e localidades. São oito páginas preenchidas com essas informações e elaborações sobre as seguintes espécies: Cochicho, Araponguinha, Araponga, Rendeira, Gaturano, Bico-de-Ferro, Suiriri, Alegrinho, Fruxú, Galo-do-Campo, Sabiá-do-Brejo, Foguetinho, Bonito-do-Campo e Melro-Pintado-do-Brejo. Prevalecem nas páginas os Joões e as Marias: João-de-Pau e João-Pobre, Maria-Branca, Maria-é-Dia e Maria-Preta. Quanto a esta última categoria, Maria Ester Maciel (2021) a retomaria décadas depois em Pequena enciclopédia de seres comuns.

Outro elemento que desponta no conjunto textual em tela são as plantas. No Caderno 12, JGR apresentou uma lista de ervas e suas características.

a losna, planta vivaz, de cheiro forte, penetrante e sabor amargo;
aipo: alimento dado aos cavalos de Juno no Olimpo;
alecrim: a planta dos feiticeiros que afugenta os males;
alface: cultivada por Diocleciano em seus jardins;
aloes: planta que cresce em locais estéreis;
amaranto: consagrado aos mortos pelos antigos;
arroz: símbolo da vida;
arruda: parceira do alecrim contrafeitiços;
balsamina: planta do ciúme;
cravo: o do jardim
(JGR-Caderno 12, p. 23-26).

Na sequência, foram as flores: “azálea: alegria de amar (emblema), cinerária: linguagem: saudade triste, lírio... a haste coroada de uma espiga de flores resplandecente” (JGR-Caderno 12, p. 28). E então as árvores, em alguns casos realizando desenhos também: Jacarandá, Ipê Tabaco, Ipê Mandiva, Ipê-Amarelo, Ipê-Roxo, Ipê-Branco, Jequitibá, Sapucaia, Barriguda, Folha-larga, Jacarandá-Branco, Braúna, Sibipiruna, Pau-Ferro, Ingá. Os estudos botânicos de JGR encerram-se nesse Caderno com uma breve lista sobre aromas: “Que duram muito tempo: alecrim, alfazema, laranjeira etc. A baunilha = cheira mais no quente dos dias” (JGR-Caderno 12, p. 37).

No Caderno 13 está presente outra prática comum ao escritor: a dicionarização. Ali, ele dispôs em ordem alfabética as informações adquiridas sobre a vegetação da Bahia, seguidas por anotações de nomes de flores. A organização de verbetes em formato de dicionário é protagonista nos Cadernos, com seus respectivos significados, além de listas onomásticas e estudos de vocabulários técnicos.

No Caderno 9 constam estudos sobre nomes orientais e vocábulos em sânscrito. Já no Caderno 11, há uma listagem de palavras peruanas e outra de palavras com a letra x. Nos casos em que se valia de suas listas para fins literários, JGR rabiscava o item utilizado e escrevia ao lado o título do texto onde aquela frase ou palavra havia sido empregada. No exemplo abaixo, do Caderno 20, quatro frases estão rabiscadas com lápis de grafite e com as devidas observações.

sua animalidade política.

e os reis de que a história não soube.

mas errou por ausência.

seu poder purifica seu sofrimento.

o mais era fé e brinquedo, – UAI, EU? [riscado e com observação escrita posteriormente ao lado].

seu coração e cabeça pensavam coisas desdiversas.

chorando morno.

mocinha esvoaçadora. – “A VELA E O DIABO” [estas três últimas riscadas e com observações posteriores].

como poderia eu amar mais de uma mulher; se todas são diferentes?

querendo neve, rouxinol, camelos.

a rosa é um fiel fidedigno requinte.

fazia um mar cinzento

(JGR-Caderno 20, p. 92).

Em outra passagem, no Caderno 21, a lista com elaborações aparece de forma temática, mantendo o caráter transversal do procedimento rosiano:

(por) um favor mal feito

a fartura do favor

as abelhas dão mel, de favor

feito os favores...

a favor de ninguém

por outro favor: quer me emprestar...?

(JGR-Caderno 21, p. 5).

O aspecto arbitrário do uso de recursos taxonômicos nos Cadernos rosianos destaca-se mais uma vez, dando a ver a insuficiência de toda empreitada classificatória e, por isso, seu empuxo criador e múltiplo. A inexequibilidade de qualquer tentativa de esgotamento das coisas permite, a quem se dispõe a isso, a expansão e o alargamento de certo habitar o mundo, derivando daí, também, as lacunas de onde advêm os exercícios de imaginação. Nessa perspectiva, o arquivo do mundo – este composto por vestígios reais – em nada se oporia à ficção, mas dependeria desta última para continuar pulsando. Nos Cadernos guardados pelo IEB, JGR persiste emitindo sinais de vida.

O interesse de JGR pelo estudo, pela leitura e pela composição de listas em formato de dicionário teria sofrido influência direta de outros dois escritores lidos assiduamente por ele: Machado de Assis e Monteiro Lobato.

O estudo de dicionários por Guimarães Rosa, mais do que uma atitude natural e instintiva de um escritor interessado em dotar a língua de maior vitalidade, pode estar ligado a, pelo menos, dois estímulos. O primeiro deles, já identificado por alguns pesquisadores, especialmente após uma maior circulação de trechos do inédito “Diário de guerra”, é Machado de Assis [...]. O segundo estímulo, até hoje, talvez, não pressentido, ou, pelo menos, não assinalado devidamente, é Monteiro Lobato

(Camargo, 2013, p. 174).

A respeito de Machado de Assis, JGR escreveu o seguinte no Diário de Guerra:

Adquiri certeza, quase absoluta, de que ele [Machado de Assis], antes mesmo de compor os seus livros, ia anotando: pensamentos, frases, etc., em livro ou em cadernos especiais, espécie de surrão ou alforge, de onde sacava, aos punhados, ou pinçava, um a um, os elementos de reserva que houvessem resistido ao tempo conservando-se bem

(JGR-EO-21, p. 83).2

Sobre Monteiro Lobato, segundo Camargo (2013), o livro A barca de Gleyre – conjunto de cartas enviadas por Monteiro Lobato ao escritor Godofredo Rangel entre 1903 e 1943 – figurava entre os prediletos de JGR, além de ter sido tema de um ensaio incompleto presente no acervo rosiano, cujo título é O jaboti e a tartaruga.

Colecionador de retalhos cotidianos, JGR chegou a reunir rótulos de embalagens estrangeiras para colar nas páginas de seus Cadernos. No caso do Caderno 6, ao centro da página 22, aparece um rótulo contendo a ilustração de uma mulher mexendo um caldeirão e, abaixo dela, informações técnicas; acima, o título: Zapallo en Almibar. Com caneta azul, JGR anotou ao lado dessa informação a tradução da primeira palavra: abóbora. O mesmo gesto se repete no Caderno 10, mas, dessa vez, os rótulos de outros doces estão soltos entre a última página e a segunda capa do caderno.

Nota-se que nos Cadernos não aparecem notas subjetivas contendo reflexões sobre si mesmo, mas apenas experiências fincadas em um saber de tipo enciclopédico, por assim dizer. A título de exemplo, no término do Caderno 6, o escritor elaborou um conjunto de notas sobre os personagens da guerra de Troia e suas características; no Caderno 7, fez uma quantidade acentuada de notas de leitura sobre os livros de Plotino, em francês, português e grego. No Caderno 12 surgem anotações sobre reis europeus, aspectos da Idade Média e a economia no período das Grandes Navegações.

O saber prático e de caráter difuso de JGR, quer-nos parecer, nada tinha de canônico, já que era constituído por movimentos esparsos, fragmentários e cônscios de sua limitação. Nesse ponto, o autor acaba por se assemelhar a outros escritores labirínticos, como Jorge Luis Borges, Georges Perec, Italo Calvino e Gonçalo M. Tavares, no que diz respeito ao gosto de manejar fontes inesgotáveis.

O modus operandi rosiano poderia ser reputado como sem precedentes, não fosse outro insigne colecionista: Santiago Badariotti Merlo – personagem retratado no documentário Santiago, de João Moreira Salles.

De modo semelhante a JGR, o ex-mordomo da família Salles nutria profundo interesse pelo mundo e seus acontecimentos não raro insólitos, tendo reunido em vida mais de 30 mil páginas datilografadas sobre dinastias, nobrezas, santos e reinados, além de listas sobre os mais variados temas. As transcrições recobrindo os mais de seis mil anos de história eram organizadas em ordem cronológica e alfabética, e chegavam a durar décadas até serem finalizadas. Exemplo disso é mostrado em determinada cena do documentário, na qual se atesta a existência de um manuscrito de Santiago contendo 1056 páginas, sob o título: Pequena história de la nobreza romana – apuntes tomados en Buenos Aires (1936-1945). En México (1945-1951). En Norte América en 1951 a 1956. En Rio de Janeiro D.F. desde 1956 hasta hoy, Junio de 1986 y... Dios dirá más adelante.

A atenção dedicada por Santiago às civilizações antigas e, ao mesmo tempo, às miudezas da vida corrente consistiria em um meio de se salvar em um mundo cada vez mais escasso de experiência. Sentado ao lado de uma estante onde repousavam os calhamaços por ele redigidos, Santiago afirmava que ali não havia mortos. Segundo ele, todos conversavam com ele regularmente, tomavam sol e, apesar dos diversos idiomas, o compreendiam. Eles dormiam aos pés de sua cama e despertavam ao escutar as badaladas de um relógio centenário pendurado acima da estante. Também afeito às práticas taxonômicas, Santiago fazia listas dos mais variados assuntos, colecionava imagens de madonas, recolhia recortes de jornais e os anexava aos papéis acumulados.

A aproximação entre João Guimarães Rosa e Santiago descreve não apenas uma espécie de impulso colecionista comum a ambos, mas também um tipo peculiar de labor arquivístico, tendo como lastro o convívio com os mortos ou com as coisas mortas. Nenhuma transcendência está em jogo, frise-se, mas o apego aos sinais emitidos pelos acontecimentos passados. Escrevê-los seria, assim, um modo de preservá-los da corrosão inclemente do esquecimento.

Estar alerta em relação aos murmúrios de outros tempos implicaria a disposição para transpor ao ordinário a singularidade proporcionada por um tipo de experiência impregnada por estilhaços de outras existências; experiência capaz de interromper o fluxo vertiginoso e indiferente dos dias. Haver-se-ia, assim, de conviver com os mortos e seus sinais onipresentes no arquivo, impondo-se, pela via da escrita, a tarefa de “[...] fazer com que se comuniquem maneiras de pensar e de sentir heterogêneas, normalmente contraditórias, e inscrevê-las em novas relações. É aprender a fazer coexistir. É a esse difícil exercício que os sinais convocam” (Despret, 2023, p. 84).

Eis o ponto de cruzamento entre os afazeres de JGR e de Santiago Badariotti Merlo: a escrita como ocasião de mútua afetação entre o ido e o porvir, tendo o arquivo como solo para sua efetuação.

Considerações Finais

Roland Barthes, em seu texto Variações da Escrita, dedicou-se a destrinçá-la em suas minúcias, desde os fatores históricos até as noções atribuídas a ela em seu tempo. É importante destacar aqui que o emprego do termo gesto de escrita, apontado por Barthes (2004, p. 176) como contraditório, pois contemplaria dois postulados: “[...] por um lado, é um objeto estritamente mercantil, um instrumento de poder e de segregação, preso à mais crua realidade das sociedades; e, por outro, é uma prática de gozo, ligada às profundezas pulsionais do corpo e às produções mais sutis e mais felizes da arte”.

Em consonância à segunda proposição barthesiana, Gilles Deleuze evocou a inexatidão imanente ao escrever, um gesto sempre inacabado por meio do qual quem escreve se torna distinto do que antes era: “[...] um processo, ou seja, uma passagem de Vida que atravessa o vivível e o vivido” (Deleuze, 2019, p. 11). Deleuze relaciona-o a um devir, uma força imprevista e oposta a qualquer expressividade que se queira dominante.

O pensamento sobre a escrita relacionado com certa ideia de infinitude aproxima-se da noção de escrita interminável defendida por Maurice Blanchot (2018). Ao se articular com ideias advindas do livro O grau zero da escrita de Roland Barthes, Blanchot apresentou o gesto escritural a partir da perspectiva do neutro, segundo a qual aquele que escreve está dissociado de uma unidade de intenção: [...] escrever é primeiramente querer destruir o templo antes de o edificar” (Blanchot, 2018, p. 303).

A escrita suportaria, para os pensadores aqui evocados, uma experiência de todo singular, sem paralelo. Sobre isso, Foucault (2010, p. 289), em entrevista publicada originalmente em 1980, afirmou: “Uma experiência é qualquer coisa de que se sai transformado”. Aspecto crucial de toda a empreitada intelectual do pensador, a transformação subjetiva derivaria do movimento de deslocamento, avesso a qualquer propósito totalizador, que permeava sua escrita. A experiência aqui pressuporia certa ausência de si, consoante a um processo dessubjetivador que culminaria na indistinção entre ficção e verdade. Ademais, haveria, por meio dessa mirada sobre a escrita, uma recusa categórica ao ensejo de demonstração ou ensinamento, tido como contrastante com um modo inventivo de se postar ante o labor escritural, este operando como propulsão de mais escrita, de outras escritas.

Conceber a escrita como experiência implica tomá-la como uma tarefa por meio da qual seria possível desembaraçar-se de um presente contínuo, sem qualquer pretensão de restaurá-lo dessa ou daquela maneira. Daí a potência da ficção como parceira intrínseca da verdade, e não como sua adversária.

Nessa chave de raciocínio, a lida com os Cadernos rosianos implica o desprendimento de qualquer suposta genialidade atribuível ao escritor. Foi assim que tomamos como certo o fato de que JGR, por meio de seus Cadernos, logrou montar um imenso e engenhoso mapa-labirinto. Ali, é possível testemunhar uma investida incessante impulsionada pela vontade de escrita: um labirinto contínuo enovelado por palavras gerando outras palavras, indefinidamente.

Da coleção de selos, passando pela reunião de artigos em diferentes idiomas sobre gatos, anotações sobre locomotivas, até os recortes de jornais sobre outros animais e botânica, sobressalta a vertigem de um trabalho sôfrego, porque sempre inacabado. Podemos mirar nesse modo de escrita a presença de um jogo de montar e desmontar ideias, o qual poderia, perfeitamente, habitar o encontro pedagógico, onde quer que ele se faça existir.

O pacto com uma perspectiva de escrita empenhada mais no que está por fazer e menos no já feito propiciaria, supomos, uma afronta ao acento tão pragmatista quanto inercial que parece caracterizar grande parte dos debates em torno das práticas escriturais escolares brasileiras, à exceção daqueles(as) autores(as) comentados no início do texto para quem a escrita escolar teria o condão de se converter em uma experiência transfiguradora dos espaços escolares, estes doravante marcados por feições tão expansivas quanto indeterminadas. Donde, no lugar da demonstração, a armação de ideias em movimento; no lugar da glosa, o desmanche de matérias sempre em refazimento; no lugar da certificação, o pasmo das coisas nunca antes vistas assim.

Sem confundir tal horizonte ético-estético com preceitos literários stricto sensu, trata-se de instar os(as) protagonistas escolares – incluídos(as) os(as) docentes – a se converterem em escritores(as) aguerridos(as), acompanhados(as) apenas, quiçá, de seus respectivos cadernos de estudo e, se possível, de alguma hospitalidade a estados cognitivos informes, ainda sem destinação.

De mais a mais, haveria algo mais escolar do que um caderno de notas? Haveria algo mais prosaico do que a tarefa de escrever sem cessar? Ao mesmo tempo, haveria algo mais sublime do que essa escrita arrebatada do mundo, do nosso mundo comum, só ela capaz de oferecer um abrigo provisório a forças que nada pedem além de companhia? É o que as lições de JGR nos convidaram a imaginar.

As páginas manuscritas dos Cadernos de JGR dão prova das diferentes formas de performação das potências do viver. Frutos de uma curiosidade refratária a qualquer tipo de reiteração ou invariância, os Cadernos legam um chamamento incontornável: que, no quadrante pedagógico, tenhamos a coragem necessária para nos postarmos diante do abismal arquivo do mundo, dispostos(as) a contemplar a magnitude miúda das coisas que, sem alarde, nos espreitam, dando vazão, assim, a uma poética das horas que nos atravessa, nos dilacera e, por fim, nos faz recomeçar mais atentos(as) e fortes.

A escrita como passagem para outros textos, para outras vidas. Vidas certas de um fim, mas procurando não se sabe bem o quê.

Notas

Disponibilidade dos dados da pesquisa:

O conjunto de dados de apoio aos resultados deste estudo está publicado no próprio artigo.

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  • Editora responsável:
    Luciana Vellinho Corso

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    08 Dez 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    20 Fev 2025
  • Aceito
    26 Set 2025
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